Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Alexandra Bento

Foto Luís Costa Carvalho


“Como rotina, não é bom ter a televisão ligada à hora do jantar”, recomenda Alexandra Bento, 40 anos, presidente da Associação Portuguesa de Nutricionistas (APN), que tem mais de 700 associados e está em processo de transformação em Ordem, com objectivo de regulamentar o exercício de um profissão recente mas que está na moda e onde não há desemprego.

“A refeição deve ser um momento de família, um espaço de conversa e brincadeira, em que as pessoas falam do seu dia”, diz, acrescentando que esta norma não deve ser entendida de uma forma rígida. Se estiver a dar um jogo de futebol que interessa a todos, vê-lo é uma forma de convívio familiar.

Nutricionista só pode ser uma profissão com futuro neste país povoado por diabéticos e hipertensos, e onde se regista o mais elevado índice de obesidade infantil da Europa (a seguir vem a Itália).

Alexandra foi para nutricionista por um daqueles acasos em que a vida é fértil. Estava no 12º ano, hesitava entre Farmácia e Medicina Dentária, quando uma amiga da irmã lhe disse maravilhas do curso de Nutricionismo que a Universidade do Porto foi pioneira em abrir. Hoje já há quase mil nutricionistas e a procura levou a que só este ano abrissem três novos cursos (Católica, Fernando Pessoa e CESPU).

Por norma, ela vai almoçar a casa. Trabalha há sete anos na unidade de Alcoologia do Magalhães Lemos, no Porto, que fica perto da sua casa no Pinheiro Manso.

Almoça em casa, porque fica mais barato, permite-lhe acompanhar os filhos (Miguel, 13 anos, e Beatriz, nove) e também porque pode  - tem uma empregada que faz as refeições de acordo com as suas instruções.

“Somos fruto daquilo que nos habituamos”, explica. E em casa de Alexandra o hábito é as refeições começarem com sopa e acabarem com uma peça de fruta. E se ao almoço o prato é de carne, ao jantar há peixe (ou ao contrário).

O importante é comer de tudo e não ser fundamentalista. Nas férias da Páscoa, ela esteve com o marido (engenheiro na Mota-Engil) e os filhos na  Eurodisney e fartaram-se de comer hamburgers.

“Sou um bom garfo”, avisou Alexandra que abriu o almoço, no bufett do restaurante do Museu de Serralves, com um prato onde uma fatia de presunto fez companhia à cenoura, alface, tomate e feijão verde, seguindo depois para duas almôndegas, com arroz de tomate e couve de Bruxelas. Bebeu água lisa e à sobremesa comeu fruta – e um pequeno quadrado de bolo de chocolate.

“Come-se pior agora. Dantes levava-se uma vida mais saudável. Há 30 ou 40 anos, as pessoas iam comer a casa, não se descurava tanto a alimentação e faziam-se as refeições a horas”, diz.

“Hoje come-se e vive-se muito mal. As pessoas são mais sedentárias e como chegam a casa tarde e têm pouco tempo, há a tendência para abusar dos fritos, que atendendo aos estragos que causam na cozinha só são mais rápidos no momento”, acrescenta.

Mas como o tempo não vai voltar para trás, até aos dias em que as mulheres estavam em casa, a solução reside na criação de hábitos saudáveis de alimentação logo na escola, com dietas elaboradas e controladas por nutricionistas.

Um estudo sobre a alimentação nas cantinas no básico, na Zona Norte, revelou que, só ao almoço, não raro se excede a quantidade de sal (cinco gramas) que a OMS recomenda por dia.

“As refeições nas escolas devem ser equilibradas e tem de se criar uma moda positiva relativamente a comer na cantina. Da mesma maneira que há uma moda ambiental – são os meus filhos a chamar-me a atenção se não separo o lixo ou não ponho as pilhas no pilhão – também é preciso que seja  cool ir comer ao refeitório e não uma porcaria qualquer no snack da esquina”, defende a presidente da APN.

Alexandra acredita que é possível ganhar esta guerra e dá como exemplo a sopa, de que somos o terceiro maior consumidores per capita, a seguir à China e ao Japão:

“A sopa dá-nos os legumes de que precisamos. É um prato de referência nacional. O consumo estava a crair mas felizmente essa tendência inverteu-se e passou a mensagem de que sopa é saúde. Ficaríamos todos mais doentes se largássemos a sopa”.

 

Restaurante de Serralves

R. D. João de Castro 210, Porto

Água lisa 0,25 cl…..0,80 euros

2 Água das Pedras…..1,60

2 Buffet…… 28,00

2 cafés  …… 1,40

Total….. 31,80

 

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Este texto foi publicado na edição de ontem do Diário de Notícias

 

Música: Stoned love, Diana Ross & The Supremes
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (22) | Adicionar aos favoritos
Sábado, 25 de Abril de 2009

Os meus problemas com a justiça

Em 52 anos de vida nunca tive problemas com ladrões – só com a polícia e a justiça.

Fui preso duas vezes. A primeira foi em 1973, à saída de um comício antifascista, na escadaria da Reitoria da UPorto, fui apanhado com pedras nos bolsos (a intenção era apedrejar os vidros de um banco, símbolo odiado do capitalismo). Safei-me com uma multa, após uma noite no Governo Civil.

A segunda vez, foi em 1994, por ter andado à pancada com um polícia (quem começou foi ele!) na sequência de uma divergência de pontos de vista sobre se a minha carteira profissional me habilitava ou não a estacionar o carro num parque reservado a jornalistas.

Apanhei piolhos na noite passada numa cela do Aljube e fui beneficiado com uma visita guiada aos meandros da justiça em Portugal, bem mais aterradores que a visão dos Infernos pintada por Bosch.

Acabei absolvido (passou-se tanto tempo que o polícia já nem era capaz de me identificar), mas registei severas perdas materiais, pois senti-me na obrigação de compensar com garrafas de Barca Velha as dezenas de horas que as minhas testemunhas tinham perdido a comparecer em sessões que não se realizaram (por falta de sala, juiz, material, polícia, etc) ou em que não eram ouvidas – e nalguns casos a pagar multas por faltarem à chamada.

Eu já era um veterano conhecedor da absoluta incompetência do nosso sistema judicial. Enquanto responsável pelo “Comércio do Porto”, ao tempo em que o falecido diário denunciou um caso de corrupção na PJ (Sãobentogate), fui acusado da violação do segredo de justiça e abuso da liberdade de imprensa numa dúzia de processos. Meia dúzia de anos, centenas de sessões e milhares de horas depois, fui absolvido em todos.

Os tribunais são o sítio onde há mais falta de respeito pelas pessoas. Ninguém iria a um médico que marcasse a consulta de todos os pacientes para as nove da manhã, sabendo que não os podia atender em simultâneo Mas todas as testemunhas são obrigadas a aparecer à hora decretada pelo juiz.

Casa Pia, Portucale e Furacão são alguns dos sinónimos da completa ineficácia e degradação do sistema judicial que está agora a fritar Sócrates em lume brando, no caso Freeport.

Neste dia, 35 anos depois, não tenho dúvida. A justiça foi onde Abril falhou.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

Música: Grandola vila morena, Zeca Afonso
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (26) | Adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Bardamerda para os comentadores de serviço!

O saudoso almirante Pinheiro de Azevedo, que enquanto primeiro ministro brilhou ao pôr o seu Governo em greve

No dia em que Rui Rio anuncia a sua recandidatura à presidência da Câmara do Porto, o que os politólogos e comentadores de serviço discutem é se ele tem ou não perfil para ser primeiro-ministro e que hipóteses tem de suceder a Ferreira Leite na liderança do PSD.

Rio não consegue esconder que a sua ambição política se estende muito para além do escritório que ocupa há oito anos nos Paços do Concelho do Porto – e o seu próprio chefe de gabinete já se imagina em S. Bento, como ministro da Presidência de um Governo liderado por Rui Rio.

Triste a sina do Porto de cair nas mãos de pessoas que o olham como trampolim para voos mais altos, como ponto de partida – e não como ponto de chegada.

Os comentaristas de serviço acham escandaloso que Elisa Ferreira se candidate ao Parlamento Europeu e à Câmara do Porto, apesar dela ter jurado que troca Bruxelas pelo Porto no dia em que os portuenses a elegerem.

Os comentaristas de serviço acham normal que Rio se candidate à Câmara do Porto com os olhos postos no Governo e na liderança do PSD e que seja público e notório que porá os cornos à cidade - assim surja a oportunidade.

Os comentaristas se serviço acham normal que Ilda Figueiredo seja a cabeça de lista CDU ao Parlamento Europeu e se candidate à presidência da Câmara de Gaia – mas no caso de Elisa o mesmo comportamento denota ela estar “agarrada ao tacho”.

Dito isto e citando o falecido almirante Pinheiro Azevedo (que curiosamente morreu logo a seguir a ter dado uma letal entrevista ao chefe de gabinete de Rio, Manuel Teixeira):  Bardamerda para os comentadores de serviço!

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Não venhas tarde, Carlos Ramos
Tags: , ,
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (34) | Adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Viva o regresso à Baixa da Feira do Livro!

A Feira do Livro vai voltar à Baixa (de onde saiu em 82, transferindo-se para a Rotunda da Boavista) e eu fiquei muito contente quando soube isso.

Sei que subjacente a esta decisão está a ousadia de desafiar os demónios e provocar o S. Pedro.

Apesar de corrermos o risco de termos mais uns dias chuvosos de Primavera, acho muito bem que os stands voltem a ocupar as praças da Liberdade e General Humberto Delgado e a placa central da avenida dos Aliados que a reconversão de Siza deixou livre e alodial para receber eventos como este.

A Feira do Livro quer-se ao ar livre e não a viver encaixotada dentro de um pavilhão (viveu aprisionada no Rosa Mota durante os últimos 17 anos) como aconteceu nos últimos anos, mas espero que os pavilhões (estão previstos 120, um número bem razoável) estejam preparados para os inevitáveis dias de chuva.

Saúdo também a decisão de desencontrar as datas da feira de Lisboa. Parece-me muito bem que a do Porto se realize tardiamente, arrancando na última semana de Maio e encostando o final ao S. João!

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Let me go to the right way, Diana Ross & The Supremes
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (4) | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

O Porto está a cair aos bocados

Há seis mil casas em risco de ruir na cidade do Porto.

A Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo está a intervir em 38 quarteirões, mas em diferentes fases de execução.

Há 520 edifícios com contratos já aprovados, mas apenas 107 assinados.

No conjunto, há 75 prédios em obra, o que é muito pouco quando pensamos que há seis mil que estão a cair.

Para o Porto começar mesmo a levantar a cabeça é preciso meter o turbo e aproveitar os novos instrumentos legais para fazer da reabilitação urbana a primeira das prioridades da acção camarária.

Um programa ousado de reabilitação urbana teria um impacto económico não negligenciável, na justa medida em que absorveria parte dos 39 mil operários da construção civil que estão desempregados na região.

Não podemos deixar o Porto continuar a cair aos bocados.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

Música: Remove this doubt, Diana Ross & The Supremes
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (5) | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Como elevar a nossa auto-estima

O programa eleitoral de Rui Rio cabe nas 20 linhas do editorial que assina na edição de Abril da revista Porto Sempre, que manda meter na caixa de correio dos munícipes.

O título revela que é mais um convertido à Obamania (“Força: Nós somos capazes”) e a arma, pouco secreta, com que espera obter mais um mandato (a continuação do namoro com os moradores dos bairros camarários) é mencionada en passant. Tudo o resto é de uma pobreza confrangedora.

O presidente da Câmara do Porto anuncia que está a preparar o próximo Verão no Porto com o louvável intuito de “contrariar o ambiente deprimido e triste que Portugal enfrenta”.

“Temos de começar por levantar a cabeça e elevar a nossa auto-estima”, explica. E como ele acha que vai conseguir isso?

Com a Queima das Fitas, o S.João -  duas coisas, que tal como a ocorrência do Verão, são independentes da acção e vontade de Rui Rio – e o Circuito da Boavista, que provavelmente ficará com a grande iniciativa emblemática dos seus oito anos na presidência da Câmara.

Depois virá o Oceanário do Porto (um investimento de privados), a Red Bull Air Race (a única iniciativa que fez a meias com o seu arqui-inimigo Menezes) e a inauguração da primeira fase do Parque Oriental do Porto.

Tudo isto sabe a muito pouco? É com o Verão, a Queima das Fitas, o S. João, a corrida dos calhambeques e dos aviões que vamos voltar a ter orgulho a ser portuenses? Não me parece.

Para começarmos a levantar a cabeça e elevar a nossa auto-estima, em Setembro, temos de devolver Rui Rio ao PSD. A tempo inteiro.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

Música: So long, Marianne, Leonard Cohen
Tags:
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (35) | Adicionar aos favoritos
Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Maria Manuel Leitão Marques

Pensando bem, não deixa de ser uma coincidência curiosa que ambos tenhamos ido para o polvo (o dela na versão arroz) pois a Maria Manuel Leitão Marques investiu os últimos quatro anos de vida num cruzada contra o polvo de uma administração pública tradicionalmente organizada de forma tentacular.

“A minha missão é simples e consiste em organizar a administração pública em função do cidadão-cliente, reagrupando os serviços por eventos da vida das pessoas e das empresas”, simplifica a secretária de Estado da Modernização Administrativa, a alma e a cara do Simplex, provavelmente o mais sucedido programa do Governo Sócrates.

Licenciada em Direito e catedrática em Economia de Coimbra, estava posta em sossego quando a desinquietaram para descer a Lisboa, com a vassoura na mão, para varrer as teias de aranha de uma administração pública onde coexistem práticas de três séculos (desde os tempos em que se escrevia tudo à mão até ao computador, passando pela era da máquina de escrever), em que, por exemplo, era obrigatório providenciar 15 cópias em papel e um ficheiro digital de um processo destinado a ser analisado por uma comissão de oito pessoas.

“Eu tinha uma vida muito interessante. Hesitei muito antes de aceitar”, confessa Maria Manuel, nascida há 56 anos, em Quelimane, Moçambique, onde o pai era médico, e fundadora, em 2003, do blogue Causa Nossa, de que o marido, Vital Moreira, é o principal animador.

Aconselharam-na a não aceitar. Diziam-lhe que ela não conseguiria vencer a inércia da administração, que iria arranjar maneira de sabotar o seu esforço. Hoje está satisfeito por não ter dado ouvidos a estes conselhos, apesar de passado a ter uma vida mais agitada e exigente.

“A pressão é muito grande. E o trabalho nunca acaba. O tempo de decisão na universidade é mais lento”, compara Maria Manuel que não se queixa apesar de trabalhar diariamente das nove às nove, com intervalo para almoço.

A Trempe, em Campo de Ourique, é a cantina onde ela almoça quase todos os dias. O cozido com grão é o seu prato preferido neste pequeno restaurante  alentejano, muito popular no Governo. A meio da nossa conversa apareceu para almoçar Manuel Pinho, que nos contou que mora a 50 metros e já levou por mais de uma vez Sócrates a comer na Trempe.

Com um brilhozinho nos olhos, de quem está entusiasmada com o que faz, Maria Manuel confessa que é “muito boa a sensação” de que se se esforçar um bocadinho mais, se trabalhar mais uma hora, pode facilitar a vida a muita gente.

Logo para começar, ficou positivamente surpreendida com o acolhimento que a administração pública dispensou à académica de Coimbra que desembarcava em Lisboa para desatar nós, simplificar processos, eliminar burocracias, aumentar a eficiência dos serviços e reduzir custos.

Inventou o conceito Simplex, porque não queria que a sua cruzada fosse olhada como “mais uma tentativa de reforma da administração pública”. E entrou com o pé direito com uma medida vistosa: Empresa na Hora. Antes de 14 de Julho de 2005, levava-se 59 dias a criar uma empresa em Portugal. Agora demora-se 39 minutos e pode fazer-se online. Em quatro anos já nasceram mais de 70 mil empresas no âmbito desta medida.

Desde 2005, o Simplex já concluiu 639 medidas, das quais as mais conhecidas serão o Cartão do Cidadão, o documento único automóvel, a Casa Pronta e outros balcões únicos onde o cidadão ou a empresa podem tratar de todos os assuntos sem terem de andar a vagabundear de repartição em repartição.

Mas tudo isto é um processo em aberto. “Estamos sempre a ver como podemos melhorar as medidas já concluídas. À Empresa na Hora já foram acrescentadas cinco novas funções”, esclarece Maria Manuel, que na campanha para as 235 medidas do Simplex 2009 usou como ícone o Lampadinha, assistente do Prof. Pardal, que simboliza a busca incessante de soluções imaginosas para facilitar a resolução de vulgares problemas do quotidiano.

“O mais importante não são as medidas em si, mas a mudança de cultura e mentalidade. Bom mesmo era que o Simplex não fosse preciso para nada”, conclui.   

 

Total 46,85 euros

 

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Este texto foi publicado na edição de domingo do DN

A Trempe

R. Coelho da Rocha 11/13, Lisboa

Água 1,20 euros

Pão 1,20

Salada mista grande 3,60

Azeitonas 0,50

3 chamuças 2,10

Vinho Comenda Grande, tinto 14,00 

Arroz de polvo 9,80

Polvo cozido 9,80

1 laranja 2,40

3 cafés  2,25

Música: Famous blue raincoat, Leonard Cohen
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (8) | Adicionar aos favoritos
Sábado, 18 de Abril de 2009

Parecemos um cão estúpido

A Paris Hilton gasta muito dinheiro em roupa, mas nem sempre usa muita roupa

 - Sabes por que é que o cão abana a cauda?

A pergunta é feita pelo spin doctor Connie (De Niro) a um assessor do presidente dos EUA no filme Manobras na Casa Branca. A resposta veio pronta:

-  Porque é mais esperto que a cauda, senão era a cauda que abanava o cão.

Vem esta história a propósito da impressão, que me fica da leitura dos jornais, de que estamos a fazer a triste figura de sermos abanados pela cauda.

As vendas de automóveis despenharam-se 42,6% no 1º trimestre, um terço dos portugueses já decidiu passar as férias em casa, a venda de medicamentos caiu 8,4%, as falências aumentaram 67% e há meio milhão de casas com letreiro Vende-se – e num ano bom (que não é seguramente este de 2009) a quantidade de casas transaccionadas ronda as 170 mil.

Como os noticiários aterrorizam mais do que os filmes do Fantasporto todos juntos, a generalidade das pessoas adoptou a reacção que os animais têm quando sentem perigo (param) e deixaram de consumir.

Apesar da descida das taxas de juro e da deflação, o consumo privado entrou em retracção. O Banco de Portugal já veio rever para uma quebra de 0,9% face a 2008, a previsão inicial (- 0,4%). E ainda vamos em meados de Abril…

Com as exportações e o investimento em queda, o recuo do consumo provoca uma ainda maior contracção de economia, o que ajuda a perceber a previsão de uma redução de 3,5% do PIB -  e levou economistas a aconselharem-nos a gastar dinheiro.

Nós, os consumidores, admoestados durante anos a fio por gastarmos como se não houvesse amanhã, estamos confusos.

Paris Hilton declarou: “Tenho medo da actual situação financeira. Por isso vou continuar a comprar muitas coisas, para ajudar a economia a superar a crise”.

Peter G. Peterson, fundador do Blackstone Group, recomenda a redução dos gastos ao indispensável e lembra o aviso que estava afixado no café da sua família, em Nebraska, durante a Grande Depressão”: “Para quê usar duas toalhas de papel se uma chega para secar as mãos?”.

Quem tem razão? Paris ou Peterson? O que é melhor para Portugal? Importar menos ou consumir mais? Enquanto o Governo não responder a estas questões, vou continuar com a sensação de que somos um cão estúpido que está a ser abanado pela cauda.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

Música: Baby love, Diana Ross & The Supremes
Tags:
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (5) | Adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

É criminoso deixar cair o Intercéltico

Hoje, sexta feira, dia 17 de Abril, era suposto abrir no Batalha o Festival Intercéltico do Porto.

Era suposto abrir, mas não vai abrir porque a Câmara do Porto não confirmou em tempo útil o apoio a este festival, depois de lhe ter reduzido o subsídio em 2008.

O mais antigo festival de música do Porto é a mais recente vítima da política anti-cultural de Rui Rio, fundamentada na célebre graçola de que quando ouve falar em cultura leva logo a mão à carteira.

A cultura precisa de apoio financeiro, mas esse apoio pode muito bem render pingues dividendos. A cidade de Barcelona apoiou fortemente um projecto comercial de Woody Allen e ficou muito satisfeita com o retorno que recebeu em notoriedade do filme Vicky Cristina Barcelona.

O Intercéltico, na música, é um dos ícones da cultura do Porto, tal como o Fantasporto, no cinema, e o Fitei, no teatro. É criminoso deixá-lo cair.

E é preciso ter muita lata para mandar o Gabinete de Comunicação municipal mandar para a agência Lusa um comunicado, em que chama “caçadores de subsídios” aos agentes culturais da cidade.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Lenga-lenga, Gaiteiros de Lisboa
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (31) | Adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Enterrem-no, porra!

Torres da Pasteleira, à face da Diogo Botelho

O Metro do Porto é um curioso sistema de transporte público, já que é um três em um, ao acumular as funções de comboio suburbano (na linha da Póvoa), de metro ligeiro de superfície (na linha de Matosinhos) e de metro convencional subterrâneo (no atravessamento da Baixa e das zonas de traçado urbano mais antigo).

O Governo e a administração do Metro têm razão quando dão prioridade à linha do Campo Alegre sobre a da Boavista, pois é no eixo atravessado pela Diogo Botelho que estão as zonas de maior densidade populacional, os bairros da Pasteleira, Pinheiro Torres, Aleixo e Condominhas, bem como a Universidade Católica e um pólo da Universidade do Porto.

O Governo e administração do Metro não têm uma pontinha de razão quando querem poupar uns euros ao impor uma solução em que a Linha do Campo Alegre seguiria à superfície de Matosinhos até às Condominhas, o que implica deixar uma feia cicatriz na face do Vale do Fluvial e retirar a dimensão de largo e agradável boulevard à nova Via Nun’Álvares.

Enterrem-no, porra!  Quando se faz uma coisa de novo é conveniente fazê-la bem, logo à primeira.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Grito de alerta, Maria Bethânia
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (29) | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Tuberculoso, falido e pobre, o Porto está triste

O Porto é o distrito do país com mais casos de tuberculose, com 36 casos por mil habitantes, de acordo com os dados divulgados pelo Centro de Referência Nacional da Tuberculose.

O Porto é o distrito do país mais atingido pelas falências, com 28% do total de insolvências registadas, de acordo com o Estudo de Insolvências e Constituições de Empresas Portugal 2008/2007, da Coface.

O Porto é o distrito mais pobre do país, com 252 mil famílias a viverem do Rendimento Social de Inserção (RSI), de acordo com um estudo do Ministério da Segurança Social. Só no concelho do Porto, mais de 10% dos moradores sobrevivem à custa do RSI.

Sem futuro, sem lideres, sem investimento e sem projectos, o Porto está triste e caminha para uma situação social explosiva.

Para inverter a situação, o melhor é começar pelo princípio e arranjarmos uma liderança. Na minha opinião, a esperança do Porto chama-se Elisa Ferreira.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Porto sentido, Rui Veloso
Tags: ,
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (42) | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Não seria melhor voltar a fazer as contas?

As árvores não sobem até ao céu, mas nós as vezes esquecemo-nos disso.

É por excesso de optimismo que muitas famílias caem no pântano do sobre-endividamento. Convencidas que os seus rendimentos não vão parar de crescer ao longo dos próximos 15 ou 20 anos, contraem empréstimos que deixam de poder pagar quando a vida lhes prega uma partida feia e o desemprego lhes bate à porta.

É errado e perigoso planear o futuro tendo como base que os nossos rendimentos vão continuar a progredir ao mesmo ritmo que nos últimos anos.

As projecções valem o que valem (ou seja, pouco) e devíamos todos parar para mastigar a sabedoria de Voltaire quando nos avisou que não devíamos insultar o futuro tentando prevê-lo.

O futuro já não é o que era, e a prová-lo está aí o INE a dizer-nos que os preços, tal como as árvores, também não sobem até ao céu – e que a inflação homóloga, em Portugal ficou abaixo do zero pela primeira vez em quase meio século.

Vem tudo isto a propósito de o aeroporto de Lisboa ter perdido mil voos em 2008, de acordo com um estudo da operadora de jactos privados Jet Republic.

Se calhar não seria estúpido voltar a fazer as contas que nos garantiam que o aeroporto da Portela estava saturado e não ia chegar para as encomendas.

Se calhar até vamos concluir que, afinal, o aeroporto de Alcochete não é assim tão necessário – e corre o risco de se transformar em mais um elefante branco.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: O outro, Adriana Calcanhoto
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (13) | Adicionar aos favoritos
Sábado, 11 de Abril de 2009

Os gatos mordem a malagueta

No intervalo de uma reunião do Politburo, Mao perguntou a Chu Enlai e a Deng Xiaoping: “Sabem como se faz para um gato morder uma malagueta?”

Chu respondeu: “Segura-se nele, abre-se-lhe a boca e mete-se a malagueta lá dentro”.

Mao disse que não: “Isso é obrigá-lo e nós queremos é que o gato morda na malagueta de livre vontade”.

Foi a vez de Deng: “Pega-se na malagueta, envolve-se num deliciosa posta de peixe e, antes mesmo de o saber, o gato já mordeu a malagueta”.

Mao voltou a dizer que não: “Isso seria uma intrujice, pois nós queremos que o gato saiba que está a morder a malagueta”.

Chu e Deng desistiram: “Como é que fazes então para que o gato morda a malagueta?”

“É fácil”, respondeu Mao. Mete-se a malagueta no rabo do gato. Ele não vai querer outra coisa senão mordê-la”.

Vem esta anedota chinesa a propósito da solução ardilosa que o presidente da Associação Nacional de Farmácias (ANF) arranjou para obrigar os outros protagonistas do sector da saúde a clarificarem a sua posição sobre os genéricos.

Durante uma semana, a maioria das farmácias filiadas na ANF forneceu o medicamento mais barato (genérico) em vez do de marca, mesmo que essa troca não fosse expressamente autorizada pelo médico que passou a receita. No final, João Cordeiro revelou que esta troca gerou, em meia dúzia de dias, uma poupança superior a 200 mil euros (112 mil aos utentes e 93 mil ao Estado).

Ana Jorge mordeu a malagueta. A ministra de um Governo que fez campanha pelo uso de genéricos meteu os pés pelas mãos. Acusou a troca de “ilegal” – mas não precisou à luz de que lei. Falou em “perigo para a saúde pública” o que soa como a delírio depois do Infarmed ter vindo garantir que os genéricos “têm a mesma substância activa, forma farmacêutica e dosagem do remédio original, de marca, que lhe serviu de referência” – só que são mais baratos entre 20% a 35%.

O bastonário dos Médicos também mordeu malagueta ao defender a prescrição do medicamento mais barato, “em igualdade de circunstâncias” (que o Infarmed jura existir).

Já só falta morderem a malagueta os destinatários da acusação que Cordeiro fez ao dizer que a polémica dos genéricos seria muito mais fácil de perceber se as principais agências de viagens do país publicassem a lista dos seus maiores clientes.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Música: Diamonds and rust, Joan Baez
Tags:
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (10) | Adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

O que é bom para o Norte é bom para Portugal

Em Janeiro, fecharam as portas dez empresas por dia – revela um estudo da Dun & Bradstreet.

A construção civil foi o sector mais atingido pelas falências, neste primeiro trimestre do ano.

O Porto foi o distrito mais sacrificado, com 28% do total das falências. Se lhe juntarmos Braga (16%) e Aveiro (8%) temos que 60% das empresas que sucumbiram eram da grande área metropolitana nortenha.

A doença de que esta vaga de falências é sintoma, não vai afectar apenas o Norte, ao contrário do que gente de vistas curtas poderá julgar.

As PME que estão a tombar, asfixiadas pelo criminoso fechar da torneira do crédito bancário, são, na sua maioria, empresas exportadoras de bens transaccionáveis, de que tanto precisamos para atenuar o galopante crescimento do défice externo.

Estas falências são um mau sinal, porque nos dizem que o emagrecimento brutal da nossa economia está a ser feito à custa do músculo – e não da gordura.

O definhar da indústria transformadora nortenha anuncia um terrível e longo período de vacas magras para nossa economia e significa que permaneceremos atolados no pântano da crise mesmo depois dos ventos da retoma soprarem nos nossos parceiros da UE.

Nunca fez tanto sentido como hoje, a frase que Jorge Braga de Macedo gostava de repetir sempre que, enquanto ministro das Finanças, atravessava o Mondego: O que é bom para o Norte é bom para Portugal.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Marcha dos desalinhados, Resistência
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (9) | Adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril

A história não é nova, mas é exemplar. O Teatro Art’Imagem perdeu o direito a receber um subsídio camarário de 20 mil euros por se ter recusado a assinar um contrato que tinha uma cláusula que inibia o grupo de produzir a mínima crítica à acção de Rui Rio.

O episódio diz tudo sobre a coragem e independência do grupo de teatro e sobre o autoritarismo que marca o pensamento e a acção de uma gestão autárquica que julgava poder comprar com um pequeno monte de notas a dignidade e silêncio alheios.

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril.

O Provedor de Justiça deu o primeiro passo ao declarar inconstitucional a cláusula que impõe a mordaça em troca do subsídio.

Compete agora ao Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto (para onde o Teatro Art’Imagem recorreu, exigindo da Câmara uma indemnização de 20 mil euros pelos danos causados) confirmar que a democracia portuguesa está equipada com mecanismos legais capazes de rejeitar a prepotência de quem não sabe conviver com a crítica.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

PS. Terça feira à noite, encontrei Rui Moreira na Marisqueira do Miguel, em Matosinhos. No intervalo do Manchester-FC Porto, ele esclareceu-me que a empresa que vendeu não era a da família (a fábrica de colchões Molaflex), mas antes um negócio que tinha sido criado por ele próprio. Aqui fica a rectificação acompanhada das minhas desculpas pelo erro -  e da minha satisfação por ele ter recusado encabeçar a lista do CDS/PP para as europeias.

 

Música: Crazy man Michael, Fairport Convention
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (7) | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

A moda é o segredo da sobrevivência

Nos últimos 15 anos, a indústria têxtil e de vestuário (ITV) perdeu 150 mil empregos – ou seja metade do seu efectivo.

Apesar do declínio retratado a cru nesta estatística de emprego, a ITV ainda vale 12% das nossas exportações, representa 10% da nossa indústria transformadora – e 25% do emprego industrial português.

Os vales do Cávado e do Ave tornaram-se umas bombas de relógio de conflitualidade social que ainda só não rebentaram porque a capacidade minhota de desenrascanço aliada à inteligência das lideranças patronais têm conseguido evitar que o detonador seja accionado.

Mas a destruição de riqueza e emprego na ITV vai continuar na próxima década. Paulo Vaz, director geral da ATP (Associação Têxtil e Vestuário de Portugal) prevê mais dez anos de contracção – e que a indústria só vai estabilizar em 2018.

No final de um quarto de século de declínio, restarão 1 500 empresas com 70 mil trabalhadores a exportar quatro mil milhões de euros/ano, prevê Paulo Vaz.

A moda é o santo e a senha para a sobrevivência. “O importante passará a ser disponibilizar ao consumidor final um conjunto completo, coordenado e integrado de produtos de moda, composto por têxteis, calçado e outros acessórios”, diz o director geral da ATP.

“Tudo isto implicará muito mais moda, mais actividade a montante e a jusante do processo produtivo, mais serviços agregados e mais recursos humanos qualificados”, conclui,

A lucidez com que a inteligência têxtil está a preparar a retirada organizada de todo um importante sector empresarial, poupando-o ao pânico e à debandada, é digna de elogios – e merecedora que o Estado português faça tudo que está ao seu alcance para aliviar o desconforto e as dores de mais uma década de violenta destruição de emprego na indústria a quem o país deve não ter caído na bancarrota, nos anos da ressaca da Revolução de Abril.  

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

Música: Bring me up, Lisa Loeb
Tags: ,
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Alerta sobre o mau uso de números e palavras

Estação Casa da Música

Derrapagem é palavra que os panditas da burguesia lisboeta bem pensante  (um enorme saco onde convivem - mas a viverem em casas separadas - gente como Maria Filomena Mónica, António Barreto, Fernando Rosas e ofícios correlativos) adoram usar quando se referem às obras emblemáticas do Porto, como o Metro ou a Casa da Música.

O único problema é que, no exercício do seu legítimo direito a escarnecer dos pacóvios, não raro se esquecem de que as palavras e os números têm contextos.

Se, por exemplo, a primeira fase da construção do Metro do Porto custou mais x do que o y que estava inicialmente previsto, mas foram, no entretanto, acrescentados mais quilómetros de linha e novas estações ao projecto primitivo, é vigarice dizer que a obra derrapou x.

É deitar areia para os olhos das pessoas agitar os 148,6 milhões de euros de prejuízo registado, em 2008, pelo Metro do Porto, sem explicar que dos 246 milhões de euros que o Estado deve à empresa, de indemnizações compensatórias, apenas transferiu até agora 11,6 milhões.

Para se perceber como é que o passivo do Metro do Porto chegou aos 2,1 mil milhões de euros, é preciso saber que, por exemplo, só no ano passado, a empresa investiu dos 123,8 milhões de euros em obras e compras do veículos, e que a comparticipação do Estado foi apenas de 7,4 milhões.

Os números e as palavras não podem ser usados como pedras de arremesso contra a Regionalização.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Anzol, Rádio Macau
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (8) | Adicionar aos favoritos
Sábado, 4 de Abril de 2009

Mais escovas de dentes do que telemóveis

Nunca andei no judo ou no karaté. Excluindo snooker e matrequilhos, a natação foi a única actividade desportiva em que me envolvi mais ou menos a sério. Mas sei que uma das primeiras regras que os mestres das artes marciais ensinam é a de que não se deve resistir à força do adversário, mas antes tirar partido dela -  e não se deve temer a queda.

O pedacinho de sabedoria dos cinturões negros que nos avisa que é sempre da queda que nasce alguma coisa, é primo direito da teoria, formulada por Schumpeter, de que a destruição criativa é não só inevitável como ainda necessária para fundar um novo e diferente período de crescimento.

Como não sou daqueles tipos que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único, tenho descoberto sinais bastante encorajadores em muitas notícias da crise.

Fiquei muito satisfeito em saber que há menos 30 mil carros a circularem diariamente nas ruas de Lisboa, o que corresponde a uma diminuição de 7% no trânsito. A queda de 9% no movimento na A1 (menos 8 500 automóveis por dia) é uma má notícia para a Brisa mas uma boa notícia para quem está preocupado com o futuro do planeta. Quero acreditar que, quando a noite passar, as pessoas que agora estão a deixar o carro na garagem continuarão a usar os transportes públicos.

Fiquei muito satisfeito em saber que as restrições ao crédito à habitação estão a fomentar o mercado de arrendamento. Ou seja, que a crise está a ser mais eficaz que Lei das Rendas na urgente tarefa de devolver ao mercado habitacional português a racionalidade e equilíbrio perdidos.

Fiquei muito satisfeito em saber que, pela primeira vez, caiu a venda de telemóveis e que a poupança dos portugueses aumentou 14%. Parece-me que 14,5 milhões de telemóveis são suficientes para dez milhões de portugueses e sonho com o dia em que voltarão a haver mais escovas de dentes nos copos da casa de banho do que telemóveis nos bolsos. 

Quando o sol voltar a nascer, espero que as pessoas não percam os bons hábitos forjados nestes tempos sombrios. E rezo para que o Estado, que por causa da crise está perder 9,5 milhões de euros/dia de receita fiscal, aproveite a oportunidade para emagrecer e se habituar a viver com menos.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Música: A noite passada, Sérgio Godinho
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Não precisamos de mais estradas para Lisboa

 

Cavaco Silva, outrora o rei do betão, veio chamar a atenção para os excessos que estão a ser cometidos no particular do cimento, advertindo para a necessidade de se investir apenas em projectos que tenham uma relação equilibrada e saudável entre custo e benefício.

No que toca a auto-estradas, a construção e manutenção é um custo, e a quantidade de viaturas que as utilizam é o benefício. Quando o movimento é muito reduzido, o benefício é, por isso, quase nulo.

A este propósito, não me parece que seja de esperar grandes benefícios da existência de três diferentes auto-estradas a ligarem Lisboa ao Porto.

A A1 não só não está saturada como até começou a perder tráfego (menos 8500 carros/dia nos dois primeiros meses deste ano), tendência que é desejável e previsível que se mantenha – e se vai acentuar muito quando sofrer a concorrência do TGV.

Nesse sentido, faria mais sentido canalizar os recursos públicos disponíveis para fortes investimentos nas redes de transportes públicos nas duas grandes áreas metropolitanas.

A extensão a Cabanas, Gondomar, da Linha Azul do Metro do Porto (que esteve três anos congelada por causa das trapalhadas que o Governo arranjou a propósito da composição do Conselho de Administração) terá apenas andou sete quilómetros mas trata-se de um custo que vai gerar uma data de benefício.

As onze novas estações da Linha Azul vão melhorar a qualidade de vida de mais de 80 mil portuenses – 48 mil de Rio Tinto, 14 mil de Baguim do Monte e 22 mil de Fânzeres.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Lay Down, Melanie
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Quo vadis, Rui Moreira?

Tenho uma excelente opinião do Rui Moreira. Sobre a questão nortenha, tem ideias claras e desassombradas (com as quais eu geralmente estou de acordo), que sabe expor com clareza e paixão.

Rui Moreira tem sido um dos poucos oásis que sobressaem no meio do árido deserto de líderes que o Norte atravessa desde que o Porto matou o pai (Fernando Gomes) – no sentido freudiano da acção.

Como agravante, à solidez e justeza das ideias, Rui acrescenta um já muito razoável índice de popularidade, boa imprensa e uma belíssima imagem televisiva – factor não negligenciável nestes tempos em que passar mal televisão pode ser letal para um líder com ambições.

O único calcanhar de Aquiles (a falta de espessura do seu curriculum, já que não tem tido actividade empresarial relevante desde que vendeu o negócio da família) é muito atenuado pelo seu bom desempenho na presidência da Associação Comercial do Porto.

A única coisa que me inquieta no momento é desconhecer o que ele se prepara para fazer com o capital político que reuniu – e que já desperta cobiças, como se vê pelo namoro descarado que Rui Rio lhe anda a fazer e pelo convite que Paulo Portas lhe dirigiu para encabeçar a lista do CDS ao Parlamento Europeu.

É natural que Rui Moreira prefira manter o máximo de hipóteses em aberto, entre as quais se contam as mais desejadas presidências do Porto (a do clube e a da cidade).

Mas, mais tarde ou mais cedo (se calhar mais cedo…), ele terá de decidir se o que mais lhe interessa é a liderança desportiva ou política da região – ou se prefere ir viver calmamente para as margens de um lago suíço (já que não me acredito que Bruxelas faça parte do seu mapa de opções).

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Música: Emboscadas, Sérgio Godinho
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (24) | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Metro ou eléctrico, eis a questão!

A diversidade da avenida da Boavista, cuja densidade populacional se vai rarefazendo à medida que nos aproximamos do mar, 

está no centro do debate sobre qual o transporte público que a deve estruturar e ligar do principio ao fim.

 

A Porto 2001 projectou a restauração da linha do eléctrico, que neste seu segundo fôlego viajaria em corredor próprio (ou seja não se cruzando com o trânsito automóvel), nas faixas laterais da avenida, ou seja convivendo com os peões, tal como já existe ao longo na marginal fluvial.

 

Rui Rio discorda da opção pelo eléctrico. Enterrou-a e contra propôs uma nova linha do metro, a F, com dez estações espalhadas ao longo da recta, fazendo um anel, ao estabelecer uma ligação alternativa entre a Casa da Música e Matosinhos. Lisboa, pela voz de Santana Lopes e José Sócrates, disseram não ao financiamento a linha F, assim condenada a ficar no tinteiro.

 

Nos anos mais próximos, se quiser percorrer a mais longa avenida do pais, lá terá de se misturar no inferno do trânsito automóvel    de autocarro, táxi e no seu carro.

  

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

 

FIM

(é mesmo a sério, que esta série dedicada à maior avenida do país acaba mesmo hoje - estejam sossegados que não é engano de 1 de Abril)

Música: Shallow brown, June Tabor
Tags:
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
Link do post | Comentar | Ver comentários (4) | Adicionar aos favoritos
A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Posts recentes

Pássaro, lombrigas e rino...

Trabalho sexual é trabalh...

22 maquinistas da CP no D...

O parasita defende o seu ...

Cavaco fez-se ao penalti

É preciso mudar de medica...

É preciso ter boca boca

A moral do bacalhau cozid...

Desliguem a televisão

Desgovernados por intrujõ...

Autores

Manuel Serrão
Posts




Juca Magalhães
Posts




Manuel Queiroz
Posts




Jorge Fiel
Posts




Mário Rui
Posts




Rogério Gomes
Posts




António de Souza-Cardoso
Posts




Fernando Rocha
Posts




Arquivos

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Tags

todas as tags

Créditos

Fotografia no cabeçalho da autoria de almofrela.
blogs SAPO

Subscrever feeds