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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Mário Dorminsky

Foto de Luís Costa Carvalho

Mário Dorminsky, 54 anos, é um Touro que se sente ao espelho quando lê as características do seu signo: considera-se um lutador persistente, que não desiste enquanto não leva a sua avante, um pouco ditador com a mania de centralizar tudo, mas um tipo bonacheirão e bem disposto, que faz amigos com facilidade.

É talvez esta capacidade de arredondar as esquinas do dia a dia que explica o facto de há cinco anos trabalhar como vereador da Cultura de Luís Filipe Menezes, que acha que o seu cunhado é “a loura do PSD” (Mário é casado com Beatriz, irmã de Pacheco Pereira), e de no seu outro chapéu, o de presidente da Cinema Novo (a entidade organizadora do Fantasporto), estar há dez anos em litígio com a Câmara de Gaia.

O conflito radica no não cumprimento pela autarquia da promessa, reduzida a escrito num protocolo assinado por Menezes e Dorminsky, de ceder à Cinema Novo um antigo armazém da Real Companhia Velha, que no entretanto foi parar a outras mãos e vai ser o Cais Cultural de Gaia. Mas Mário está convencido que tudo se resolverá e o seu projecto de instalar na margem esquerda do Douro uma Casa do Cinema (misto de museu da história da Sétima Arte e de videoteca gigante) irá um dia sair do papel. A esperança é a última coisa a perder.

Almoçarmos no Areal, que, como o nome indica, fica em cima da praia de Miramar (umas das 17 de Gaia com bandeira azul) e muito perto da casa que Dorminsky comprou há pouco tempo e usa como residência de fim de semana.  Não resistiu a uma baba de camelo a seguir a um bife à padeiro (uma variante do célebre bife Wellington) numa refeição que acompanhou com água Vitalis e uma Super Bock Stout  - a Unicer é, há um quarto de século, um dos principais  patrocinadores do Fantasporto, o maior festival de cinema do país,  que recebe em média 80 mil espectadores e cuja 30º edição arranca em Fevereiro.

Financiar o festival é uma dor de cabeça para Mário, que recebeu a mais moderna forma de dizer não (o “vamos a ver”) como resposta das 200 empresas a quem propôs patrocinarem o Fantasporto e se queixa amargamente de, a semanas da abertura do festival, o Instituto de Turismo de Portugal (ITP) ainda ter dito nada quanto a apoios.

“O ano passado recebemos 55 mil euros”, diz Mário, nada satisfeito pela desproporção dos apoios. Os 700 mil euros que o Turismo dá ao festival Estoril quase chegavam para fazer todo o Fantas 2010, que tem um orçamento de 780 mil euros (menos 25% que o 2009).

“Vamos fazer muito fumo com pouco fogo. Os espectadores não vão sentir que há crise. Vamos fazer uma belíssima omeleta francesa, pouco cozinhada como eu gosto, com poucos ovos”, garante Dorminsky a propósito de um festival, que inclui um ciclo dedicado à história do cinema francês (14 filmes, desde os irmãos Lumière até ao dias de hoje) uma homenagem a Luis Galvão Teles, conferências sobre robótica e work shops sobre efeitos especiais.

Apesar do Fantas ter projecção nacional, tal como Serralves e a Casa da Música, Mário não tem dúvidas que é prejudicado por estar no Porto. “Quinze revistas de companhias de aviação pediram-nos informação para publicação. Somos mais respeitados no estrangeiro do que no nosso país” , diz,  recordando a  história do enviado do JN ao Mundial da Coreia, que quando estava a credenciar-se e se declarou português, foi logo questionado pelo correspondente da Time em Seul: “Conheces o Dorminsky?”.

Apesar de declarar “trabalhar sem rede”, devido ao défice de equipamentos culturais em Gaia, diz que lhe tem dado “muito gozo” ser vereador, desbobinando com orgulho o nome de algumas das suas realizações, como o Teatro Brazão, o Arquivo Municipal Sophia ou o Atelier Soares dos Reis. Mas acha que se podia fazer muito mais e melhor.

“Porto, Gaia e Matosinhos deviam articular a oferta cultural, para que haver uma complementaridade de eventos. Devia haver uma empresa intermunicipal a gerir a cultura. Ao não conseguirem entender-se, os presidentes da Câmara prejudicam a imagem e a posição do Norte face ao centralismo total que Lisboa exerce sobre o resto do país”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Areal, Avenida da Praia, Miramar, Gaia

Cesto de pão … 1 euro

2 bifes à padeiro … 18,50

Água sem gás … 1,50

2 Super Bock Stout … 3,00

Baba de camelo … 3,50

2 cafés … 1,60

Total … 29,10

A despedida de casado do Manuel Serrão

Em 1989, quando o meu amigo Manuel Serrão celebrou o funeral do seu primeiro e breve casamento com uma festa de despedida de casado, estava longe de imaginar que era precursor de uma tendência que desponta com pujança nos mercados emissores da moda em termos de comportamento social.

Como os gay estão longe de compensar a brutal queda nos matrimónios hetero, as lojas que vivem das listas de casamento entraram em alerta vermelho e fazem tudo para apoiar a institucionalização das festas de despedida de casados. A ideia têm lógica. Quando nos divorciamos, ficamos reduzidos a metade dos nossos bens - pelo menos, porque, em boa parte dos casos, a portagem é bem mais alta e evadimo-nos apenas com a roupa que temos no corpo, ficando por isso carentes de pratos, copos, garfos, toalhas, cadeiras e chaleiras.

Não vivemos num tempo em que seja possível continuar a prosperar repetindo as receitas que deram resultado no passado. É preciso inovar, não ter medo de arriscar, pois é entre disparates equívocos ou reflexões erradas que sorrateiramente surgem as grandes ideias e projectos.

Olho para o Orçamento e vejo boa política (a capacidade do primeiro ministro em ganhar a “abstenção construtiva” de Portas e dar “boas indicações” a Manuela) mas fraco arrojo. Ficamos com a incómoda sensação de dejà vu. É mais do mesmo.

Taxar em 35% os pornográficos bónus dos banqueiros é uma cópia tímida de uma invenção de Gordon Brown, que fixou a fasquia em 50% e foi imitado por Sarkozy. No país em que, segundo o Banco Mundial, os prémios mais pesam na factura salarial das empresas (32,2% contra 11,3% da média dos 12 países estudados) Sócrates não devia ter-se quedado pela banca no agravamento da carga fiscal sobre remunerações extraordinárias que escapam à base tributável da Segurança Social.

Congelar os salários dos funcionários públicos, que o ano passado tiveram um ganho real do poder de compra próximo dos 4%, é uma medida envergonhada. Bravo foi o primeiro ministro irlandês ao reduzir o seu salário em 20% antes de cortar em 10% os vencimentos dos servidores do Estado.

Os que têm emprego devem sacrificar-se para amaciar a vida dos desempregados. E os que ganham mais têm a obrigação de ser solidários com os mais pobres e os pensionistas. Não vejo razão para não se ter ousado criar um novo escalão de IRS para rendimentos superiores a 100 mil euros.

Olho para o Orçamento, vejo que as confrangedoras faltas de ambição e imaginação se reflectem na redução microscópica do défice, e vêm-me à cabeça uma frase do velho Keynes: “A dificuldade reside não nas ideias novas mas em escapar das velhas”.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Vítor Costa

Lisboa não podia estar mais na moda. Nos European Travel Awards, foi eleita o melhor destino turístico europeu, em absoluto mas também de  “city breaks” e cruzeiros. Mas estas distinções não fizeram desaparecer as rugas da testa do alentejano que nos últimos 20 anos transformou a capital portuguesa numa das mais cintilantes estrelas do turismo europeu.

No segmento de cinco estrelas, onde Lisboa tem 20 hotéis (mais do que Madrid, Amesterdão ou Viena) a luz vermelha de alarme acendeu-se com a quebra de 30% nas receitas registada em 2009. A reconversão do Terminal 2 da Portela em base para low cost como a Easyjet e a Ryanair está no topo das medidas para atacar estes sintomas de crise.

“Em 2001, as pessoas ficaram com medo de viajar por causa do 11 de Setembro. Agora é diferente. Viajar tornou-se uma necessidade tão básica como ter um telemóvel no bolso ou água, electricidade e televisão por cabo em casa. As pessoas continuam a querer viajar, só que mais barato. O preço vai ser o factor decisivo para o turismo nos próximos anos”, afirma Vitor Costa, 55 anos, director geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), que tem um orçamento de 28 milhões de euros e congrega, entre os seus 600 sócios, toda a gente com interesse no sector, desde entidades públicas a privados como hoteleiros, donos de restaurantes, equipamentos turísticos, agentes de viagens.

Na relação qualidade/preço, Lisboa é competitiva com as cidades suas concorrentes, que são Madrid, Barcelona, Milão, Praga, Viena, Berlim e Amesterdão - Roma está um pouco acima, Londres e Paris são de outra liga. Mas baseia a competitividade nos preços da hotelaria serem 27% mas baratos, que amortecem o custo mais elevado das passagens aéreas.

“A hotelaria não consegue esticar mais a corda. Não há margem para os preços desceram mais. O nó do problema é o aeroporto. Precisamos de viagens mais baratas. A prioridade de um aeroporto deve ser potenciar o negócio turístico e não defender os interesses de uma companhia aérea”, afirma Vítor Costa, que escolheu almoçarmos no Martinho da Arcada.

Estava um bonito dia de sol e havia clientela na esplanada, mas optamos por comer na sala assombrada pelo espírito do seu freguês mais famoso (Pessoa). Como o quartel general da ATL fica ali perto, no nº 15 da rua do Arsenal, Vítor almoça sempre pelas imediações. Normalmente nos restaurantes da rua dos Correeiros. Episodicamente no Martinho, onde não se demorou na lista, Encomendou  logo o bife, nem muito, nem mal passado, que acompanhou com água e sobremesou com um pêro descascado.

Enquanto mergulhávamos as batatas às rodelas no molho, recordou a primeira vez que viu a Lisboa, ainda moço de 14 anos, no ano seguinte às das grandes cheias de 67, que mataram 462 pessoas e desalojaram mais de mil. Apesar da ponte sobre o Tejo já ter sido inaugurada há dois anos, o pai, dono uma fabriqueta de mobiliário em Cercal do Alentejo (próximo de Vila Nova de Mil Fontes) optou por não se aventurar no trânsito na capital. Deixou o carro na outra banda e atravessaram o rio grande de cacilheiro.

Três anos depois, quando veio de vez para Lisboa, estudar leis, era bom rapaz, mas um pouco tímido. No primeiro dia, a senhora que lhe alugou um quarto nos Olivais explicou-lhe como chegar à faculdade: “Apanhas o 31. Quando vires um jardim muito grande com um edifício ao fundo, sais e entras na escola que fica do lado esquerdo”. Não se perdeu. Passou a manhã nas aulas e quando chegou à hora do almoço, em vez de perguntar o caminho para a cantina, optou por ir atrás de uns colegas que conhecia de vista. O único contratempo é que também os imitou na escolha do prato, que nunca tinha comido. “Durante muitos anos fiquei a detestar caril de frango”, confessa.

Depois de se licenciar em Direito, foi advogado até ser eleito vereador da Câmara de Lisboa, na lista da CDU, nas autárquicas em que Krus Abecassis perdeu a maioria absoluta. “Ele tratava toda a gente por tu, menos as pessoas de quem não gostava. A mim tratava-me por você. Ao Rego Mendes, outro vereador CDU, começou a tratar por tu, mas ele respondeu-lhe que só tuteava amigos. No jantar de despedida de Abecassis, depois da coligação liderada por Sampaio ter ganho a Câmara, quando chegou a hora dos discursos, brinquei com o facto dele adormecer nas reunião. No fim, veio ter comigo, deu-me dois beijos e disse-me: Tu és um filho da puta, mas o outro (Rego Mendes) ainda é pior”, recorda Vitor.

No final do almoço, enquanto passeávamos pelas arcadas de um Terreiro do Paço transformado em estaleiro (mas que vai estar pronto a tempo do papa dar lá missa em Maio), foi detalhando pormenores da reabilitação da frente ribeirinha e revelou o seu entusiasmo pelo impacto do TGV:

“Não vejo as razões par brincar com o ministro por ele ter dito que Lisboa pode tornar-se a praia de Madrid. A capital espanhola não tem mar, nem rio, nem golfe. É muito quente no Verão e muito fria no Inverno. Temos de explorar o facto de com o TGV ficar à mesma distância de Lisboa, Barcelona e Sevilha. O TGV vai alterar no sentido positivo a estrutura do destino Lisboa. Hoje, numa pequena estadia, o turista pode ir a Fátima ou a Sintra. Com a alta velocidade em meia hora está em Évora e em 45 minutos põe-se em Coimbra”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Martinho da Arcada

Praça do Comércio 3, Lisboa

Couvert … 2 euros

Queijo … 5,00

2 bifes da vazia à portuguesa … 35,00

Água sem gás … 1,50

Pero … 3,50

2 cafés … 3,00

Total … 52,00

O Tullius Detritus anda à solta no PSD

Tenho muita pena dos piratas, que acabam por naufragar, mas sempre de modo diferente. É esse um dos segredos das histórias do Astérix. Estamos carecas de saber que piratas vão naufragar, que os romanos vão levar uns tabefes dos irredutíveis gauleses empanturrados em poção mágica, e que toda a aldeia (toda não, pois o bardo Assurancetourix persistirá em cantar e será amarrado e amordaçado para não o fazer) vai reunir-se à volta de uma enorme mesa a banquetear-se com javalis. A questão não é saber o que vai acontecer - mas sim como vai acontecer.

Gosto dos piratas. Tenho um carinho muito especial pelas eternas discussões entre o ferreiro Cetautomatix e o peixeiro Ordralfabetix a propósito da frescura do peixe comercializado por este último. Mas o meu personagem preferido é o romano Tullius Detritus, que desenpenha um papel central na Zaragata, o 15º dos 24 álbuns desta impagável saga (para mim não contam as histórias órfãs do fabuloso humor de Goscinny).

Tullius é um terrível intriguista que deixa um rasto verde (os balões com os diálogos têm um fundo verde para simbolizar graficamente a tensão nas discussões) de discórdia por todos os sítios em que passa, manejando com eficácia o princípio de dividir para reinar. É um hábil mentiroso, talentoso a provocar discussões, eficaz ao ponto de pôr em fúria o mais calmo dos mortais. Atirado para a arena do circo, como castigo para a sua traição, escapa indemne, após ter posto os leões a comerem-se uns aos outros.

Lembrei-me do Tullius a propósito do PSD. Quando leio o Alberto João dizer “Eu não vou concorrer a um partido que não me grama, no qual, infelizmente, eu estou lá dentro” ou ouço o Marcelo prever que “o próximo líder não vai durar mais de dois anos” fico com a certeza absoluta de que o Tullius anda pelo PSD a fazer desgraça.

O PSD teve a fama de ser o mais português de todos os partidos e tem o proveito de ser o mais partido de todos. Ao longo dos 36 anos de democracia, conheceu 16 lideres, enquanto que o PS, o seu principal concorrente governou-se com apenas seis (Soares, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro e Sócrates). Até agora, em média, cada um dos 16 líderes aguentaram-se 27 meses à bronca, em linha com a previsão de Marcelo, mas esta média é muito deformada pelos dez anos do pontificado cavaquista.

Olha-se para o PSD nas vésperas de eleições de novo líder e fica-se com aquela sensação de dejà vu, de estarmos perante o enredo das aventuras de Astérix em que sabemos de antemão o que vai acontecer – só não sabemos como. Com um única diferença. Nos gauleses, a história tem um fim feliz. Nos laranjinhas, acaba irremediavelmente com todos aos tabefes.

Jorge Fiel

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Nuno Azevedo

A alta qualidade do hardware é incontestada. O londrino Times acaba de incluir a Casa da Música na lista restrita dos cinco edificios mais significativos construídos em todo o Mundo na primeira década deste século.

Conquistar o reconhecimento internacional do software musical e educativo que corre neste estranho edifício riscado pelo holandês Rem Koolhas é a grande aposta de Nuno Azevedo, 45 anos, o administrador delegado da grande marca que o Porto herdou do ano que em que foi Capital Europeia da Cultura.

Quando, em Janeiro de 2006, Nuno tomou conta da Casa da Música, receava-se que a derrapagem no custo das obras do edifício se estendesse à gestão do equipamento cultural. Havia polémica em torno do director artístico, interrogações sobre o papel dos Estado e dos privados, dúvidas sobre a capacidade da instituição em atrair e formar públicos enquanto cumpria a missão, única, de interpretar a música em todas as suas declinações, da clássica ao rock, passando pelo jazz, pop electrónica, contemporânea e um enorme etc.

“Olhando para trás era o cabo dos trabalhos. Mas as coisas têm corrido bem. Há uma dinâmica positiva. A adesão das empresas e do público são dois casos de sucesso”, afirma Nuno, orgulhoso por ter ajudado a criar uma relação quente e afectiva entre pessoas e o edifício ícone.

O modelo de fundação, onde privados e Estado convivem, está a correr tão bem como em Serralves, a cerca de três km de distância na Av. Boavista onde foi inventado e testado pela primeira vez. Em 2005, o ano em que abriu portas, o Estado pagava 90% do Orçamento. O ano passado apenas teve que de cobrir 70%. E Nuno está convencido, até 2012, essa percentagem descerá para uns 60 a 65%.

Os números são optimistas. Em 2009, a Casa recebeu 470 mil visitantes e 1561 eventos musicais, a que assistiram 211 mil espectadores (mais 54% que em 2006). E nunca deu prejuízo.

Ganhas as batalhas da adesão do público e das empresas, a Casa da Música parte à conquista do seu reconhecimento internacional como centro de excelência artística, o grande objectivo para este ano, em que a Áustria é o país tema da programação, que abre hoje com a 1º Sinfonia de Mahler executada pela Orquestra Nacional do Porto, que ao longo de 2010 vai interpretar todas a sinfonias do compositor austríaco.

“Poucas orquestras do Mundo podiam programar a integral de Mahler”, diz Nuno, acrescentando que “a ONP é a melhor sinfónica portuguesa” e este será o ano da sua transformação numa referência a nível internacional, com  uma digressão em que actuará nas melhores e mais famosas salas de espectáculos do Mundo.

O Ano Áustria também chegou ao 7º último piso da Casa da Música, onde fica o restaurante onde almoçamos. Escolhemos o menu austríaco, da responsabilidade do chef Florian, da Wiener Konzert Haus (e que já teve dois restaurantes com estrelas Michelin), com uma intromissão portuguesa – bebemos branco de uma garrafa de Cartuxa que Nuno tinha aberto no almoço da véspera.

Nuno não está arrependido por ter trocado um lugar na administração da holding do maior grupo empresarial português pela Casa da Música. Esta é mais a sua praia. “Gosto mais de construir do que de gerir. O que me entusiasma é virar as coisas ao contrário e encontrar saídas novas”.

O mais velho dos três filhos de Belmiro de Azevedo foi aos 14 anos para Inglaterra, onde acabou o secundário. Antes de ir para a Universidade de Louvaina (Bélgica), onde se licenciou em Ciências Políticas e Relações Internacionais, tirou um ano sabático em que vagabundeou pela Alemanha, trabalhou numa fábrica (parte do primeiro salário de mil marcos foi aplicado na compra de uma estereofonia) e viu actuar ao vivo, em Munique, Joan Baez e Bob Dylan, naquele que é muito capaz de ter sido o concerto da sua vida.

Regressado a Portugal, ainda se demorou um ano por Lisboa, onde foi jornalista no Diário de Lisboa, então dirigido por Mário Mesquita, com quem tinha feito amizade em Louvaine. Ter sido o enviado especial à libertação de Mandela, foi o ponto alto do seu ano como repórter. “Era o único jornalista português na conferência de imprensa que ele deu em casa do Desmond Tutu”, diz, Nuno, que ficou impressionado com a humildade e total ausência de rancor do líder do histórico líder na ANC.

Depois fez o que tinha a fazer. Foi trabalhar para o grupo fundado e dirigido pelo pai, para mais tarde não se culpar por não ter feito a experiência. Mas à medida que os anos passavam, maior era a certeza de que a Sonae não seria o ponto de chegada da sua carreira.

Daqui até ao final do seu segundo mandato quer consolidar a Casa da Música como sinónimo, a nível internacional, de excelência artística. Em 2012, vai fazer uma viagem de carro até ao Rovuma, que durará dois meses e já está a preparar  - ruma ao Cairo e acompanha o Nilo até ao Sudão, estando por desenhar o resto do percurso. Depois se verá. Porque o que o entusiasma não é gerir, mas construir, virar as coisas ao contrário e  encontrar a saídas novas.~

Jorge Fiel

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Restaurante Casa da Música

Av. Boavista 604- 610, Porto

2 Menu Áustria … 24,00

Creme de manjericão

Porco assado com couve branca e knodel

Vinho branco

Topfentorte

2 cafés

Total…. 24,00

O primeiro ministro é um grande fingidor

Não são nobres razões éticas que me levam a não suportar a mentira, mas antes motivos bem mesquinhos, do estilo da desculpa “estão verdes, não prestam” dada pela raposa para não comer as uvas na célebre fábula da La Fontaine.  Eu evito mentir apenas porque sei que sou incompetente na matéria. Todos nós conhecemos grandes fingidores, que mentem descaradamente com uma notável convicção. Às vezes até os invejo, mas não consigo imitá-los.

Na minha boca, a mentira tem a perna muito curta. Quando tento mentir, sinto que a minha cara, olhos, mãos e linguagem corporal gritam, em uníssono, que estou a faltar à verdade - e então a mentira não só é inútil como, ainda por cima, me deixava embaraçado e cheio de vergonha por ter sido apanhado. Uma merda!

Como todos os mentirosos incompetentes, desenvolvi uma técnica de protecção que consiste em usar a omissão da verdade como sucedâneo da mentira. O problema é que eu sei perfeitamente que o que não se diz também pode ser uma afirmação falsa.

José Sócrates ganhou a primeira maioria absoluta para o PS com duas promessas: TGV e novo aeroporto de Lisboa. Quatro anos e meio depois, foi reeleito numas legislativas que foram, no essencial, a vitória do Sim num referendo sobre o uso dos grandes investimentos públicos no combate à crise.

Os governos andam sempre a boca cheia de obras e projectos, mas vai-se a ver e não passam da palavra a acto. Entre 1998 e 2008, Portugal foi o país de toda a UE em que o investimento público mais caiu, à média de 4,6% por ano.

Lendo os jornais, com o meu detector de mentiras ligado, vejo sinais claros de que o acordo com o PSD para combater o défice e aprovar o Orçamento vai ser o álibi para deixar cair, uma vez mais, o investimento público. As notícias de cortes superiores a 10% no Pidacc são óbvios balões de ensaio lançados por um Governo que quer que a opinião pública olhe para o que ele diz e  não para aquilo que não faz.

Estou a ver que o TGV Lisboa-Porto e o Porto-Vigo vão ser sacrificados no altar do acordo com o PSD, e que a partir de 2015 vai ser mais rápido fazer de comboio os 600 km que separam as capitais ibéricas do que os 300 km que dividem as duas principais cidades portuguesas.

Estou a vez que em vez de optar por cortar na despesa como o Governo de Dublin (onde o primeiro ministro deu o exemplo, diminuindo em 20% o seu ordenado e em 15% o dos seus ministros, antes de cortar 10% nos salários públicos), Lisboa prepara-se para reduzir o défice à custa do desenvolvimento.

Estou a ver que Sócrates é um fino poeta, um grande fingidor, pois o que não se diz também pode ser uma afirmação falsa.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Roberta Medina

 

Os cabelos vermelhos de Rita Lee e cor de rosa de Nina Hagen são a mais forte recordação que Roberta Medina, 30 anos, guarda do primeiro Rock in Rio, que faz amanhã 25 anos abriu as portas no Rio de Janeiro, num recinto que durante dez dias acolheu os Queen, Rod Stewart, Yes, AC/DC, James Taylor, etc.

Inventado para servir de rampa de lançamento da marca de cerveja (Malt 90) com que a Brahma queria aumentar a penetração na juventude, o 1º Rock in Rio teve consequências diversas para os intervenientes. A Mc Donalds entrou no Guiness vendendo 53 mil hamburgers num só dia, dentro do recinto. A Malt 90 foi um fracasso, já que problemas com a pasteurização levaram a que recebesse a alcunha de Malt nojenta e fosse retirada do mercado. Roberto, o organizador, ficou crivado de dívidas e com uma filha que pintava regularmente o cabelo de cores extravagantes, uma mania que lhe chegou à adolescência, que ela atravessou com uma madeixa azul permanente.

Encontramos com uma Roberta de cabelo castanho à porta do 230 da av. da Liberdade, onde, no 5º andar bate o coração do Rock in Rio. Fomos a pé até à Adega Alcafache, onde a refeição foi quase tão desastrosa como o trágico acidente ferroviário que o nome do restaurante evoca. 

Tal como eu, ela prefere a Coke Light, mas só havia Zero. Meia hora depois de ter sido encomendado, o Bacalhau à Brás revelou-se inexistente. Idem aspas relativamente ao segundo pedido (Salmão grelhado com arroz de tomate). Por isso, Roberta acompanhou a terceira escolha de um aviso sério: “Se volta sem o peixe espada, vai buscar sushi para mim ao restaurante do lado”.

Roberta é muito engraçada e tem aquele ar leve e divertido que só os brasileiros conseguem ter, mas – não façam confusão! -  ela é a czarina que fez acontecer as quatro últimas edições do maior festival do Mundo e que além do Rock in Rio deste ano, em Lisboa, está a preparar a estreia da marca em 2011, em Poznan, na Polónia.

Tinha 22 anos quando o pai (a quem se refere como Roberto) lhe pôs às costas a responsabilidade pela organização do 3º Rock in Rio, proporcionando-lhe nove meses de inferno e uma formação completa  (licenciatura, mestrado, doutoramento e pós-doc) na produção de mega-eventos. “Roberto diz que nada é impossível e a gente acredita”.

Viveu muito em pouco tempo, mas continua tão apaixonada por realizar coisas como quando, aos 17 anos, começou a trabalhar como faz tudo numas produções Disney no Barra Shopping, no Rio. Apesar de ter sido adulta à força, garante que vai “ser criança para sempre”.

“O Pai Natal existe mesmo, nem quero nem discutir isso, agora se vem ou não de trenó…”, conclui Roberta que é capaz de ser uma adolescente fascinada pela magia de Mickey e gamada no Stitch, tanto gosta e precisa de música como de silêncio - e se adaptou bem a Portugal (“tenho dois países em que em sinto em casa”) mas gostava de participar na produção das Olimpíadas de 2016, no Rio.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Adega Alcafache

Rua de Santa Marta 37 C, Lisboa

2 Colas Zeros … 2,50 euros

Peixe espada … 8,90

Bacalhau na brasa… 8,90

2 Cafés … 1,10

Total… 21,40

O PSI 20 é que conta, o resto é paisagem

Tenho uma enorme simpatia pelos burros. Não exactamente pelos meus concidadãos desprovidos de inteligência, mas pelos animais propriamente ditos. Gosto de os ouvir zurrar e do seu aspecto pachorrento.

Persistente, trabalhador e capaz de se adaptar a meios adversos, o burro está pouco conceituado em Portugal, mas nos Estados Unidos é o símbolo dos Democratas, sendo corrente, nos estados por eles governados, ver nos vidros dos carros um autocolante com a imagem de um burro montado num elefante, o animal que representa os Republicanos.

Sei de alguns algarvios que não têm nada de burros e vivem às custas do burro, que entre nós é um animal subsidiado. O que o Estado português paga anualmente ao dono, chega para o alimentar, sobrando ainda um pequeno lucro que é engordado no Verão, através da venda a turistas alemães de passeios de burro na Costa Vicentina.

Vem esta algaraviada a propósito de uma folha A4 policopiada, que nos anos 70 estava afixada um pouco por toda a parte, de mercearias a repartições públicas, em que a frase tese “Cooperação? Até os burros compreendem” era demonstrada com auxílio de uma banda desenhada em que dois burros, atados um ao outro, percebiam que, se cada um puxasse para o seu lado, não iriam a lado nenhum.

Em Paredes, algures no coração da região mais jovem do país (Vale do Sousa) onde está 80% da indústria de mobiliário, um empresário chamado António Augusto Rocha em boa hora descobriu uma alternativa à luta inglória para ter preços para fornecer a Ikea e especializou a sua Móveis Viriato num nicho de mercado: a indústria hoteleira. Vende primeiro e depois fabrica soluções personalizadas aos cerca de 50 hotéis cinco estrelas de cadeias como a Meridien, Hilton, Radisson, Pestana, Renaissance ou Club Med que, em média, equipa todos os anos.

Logo a abrir este 2010, António Rocha deu-nos a boa notícia da constituição da hi.Global, empresa em que estão associadas oito fabricantes portugueses. A ideia é que os hotéis a quem a Moveis Viriato fornece camas, cadeiras, armários, candeeiros, cortinados e candeeiros passem a adquirir uma solução local portuguesa, incluindo alcatifas da Lusotufo, revestimentos cerâmicos da Recer, torneiras e fechaduras da Cifial, revestimentos de cortiça da Amorim, louça de porcelana da Costa Verde, têxteis lar da Lasa e colchões da Molaflex.

Nenhuma destas empresas é visita frequente das páginas da imprensa económica, que se deixa encandear pelas EDP, GALP, PT e bancos, convencida de que a economia portuguesa é o PSI 20 e o resto é paisagem. Já agora, e por falar em burros, cooperação e grandes empresas, alguém é capaz de me explicar direitinho por que é que a Zon e a Soanecom ainda não fundiram?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Artur Santos Silva

Foto Pedro Granadeiro

Lá onde quer que esteja, o antigo operário chapeleiro Dionísio Santos Silva deve estar orgulhoso. O seu filho Eduardo foi ministro da Instrução da I República. O seu neto Artur meteu-se no Foguete para ir a Lisboa convidar Humberto Delgado a desafiar Salazar. O seu bisneto Artur, o pai do primeiro banco privado (BPI) do pós 25 de Abril, preside à Comissão Nacional para a Comemorações do Centenário da República. 

Em 1891, o bisavô do banqueiro tinha uma loja de chapéus no nº 65 da rua de Santo António, no Porto, quando foi posto a ferros e submetido a Conselho de Guerra acusado de ser um dos cabecilhas do 31 de Janeiro, a primeira revolta republicana contra uma Monarquia que ainda haveria de sobreviver mais 19 anos. Como só morreu em 1920, com 67 anos, viveu o suficiente para assistir ao triunfo dos seus ideais, a 5 de Outubro de 1910.

Com tão egrégios bisavô, avô e pai, todos eles imortalizados na toponímia do Porto, foi consensual a escolha de Artur Santos Silva, 68 anos, para dirigir as comemorações do centenário da República, no ano anterior a umas presidenciais em que se o seu nome consta da lista de possíveis candidatos, o que o incomoda bastante: “Isso não tem qualquer fundamento. Não se passou nada. Não estou disponível, nem tenho qualquer interesse no lugar ou perfil para ele”.

Arranjou um buraco de hora e meia na sua agenda atafulhada, para um café, 4ª à tarde, na Casa da Música, de que é presidente do Conselho de Fundadores, uma das suas muitas ocupações – além de presidente do BPI, é membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra (onde se licenciou em Direito, em 1963) e administrador de uma data de instituições, como a Gulbenkian, Partex ou Jerónimo Martins.

Vinha de um almoço no Grappa (o italiano do Porto Palácio), e ainda tinha de afazeres a resolver antes de se retirar para a sua casa em Amonde (perto de Vila Praia de Âncora), onde passa os fins-de-semana e é a base para grandes passeios de bicicleta que o levam, na companhia de amigos, até ao outro lado do rio, à margem galega do Minho.

O pontapé de saída das comemorações vai ser dado no Porto, no dia 31, data em que estará ao lado de Cavaco a inaugurar a exposição sobre a resistência e luta pela liberdade entre 1891 e 1974, comissariada por Teresa Siza e Manuel Loff, que estará na Cadeia da Relação, onde Camilo escreveu, de um jacto, Amor de Perdição, quando ali estava preso acusado de adultério. Na ocasião, será mostrado o quadro sobre a Bandeira Nacional que a encomendado a Nikias Skapinakis.

Divulgar as grandes realizações da República e celebrar os seus ideais projectando-os para o futuro são o alfa e o ómega das comemorações que encerram em Lisboa, a 5 de Outubro, dia em que o Hino Nacional será tocado por esse país fora, em simultâneo por centenas de bandas de música.

“A República representa a afirmação da liberdade e da cidadania, o combate à pobreza e a celebração do Estado de Direito”, afirma Artur, que desvaloriza as críticas do presidente da Causa Real. Paulo Teixeira Pinto, que em 2006, quando liderava o BCP, tentou, sem sucesso, comprar o banco fundado por Santos Silva, considerou “inoportunos” os gastos com as comemorações.

“Cada um tem as suas razões, mas o nosso orçamento até é muito contido, se tivermos em conta as mais de 500 iniciativas em marcha”, responde Artur . Os dez milhões de euros postos à disposição da comissão estão a ser aplicados em exposições, conferências, em apoios à investigação e à edição, mas revelaram-se curtos para aventuras no domínio do audiovisual. No desporto, além dos Jogos do Centenário, está agendado um Portugal-Espanha em futebol, em que Juan Carlos não é esperado. 

As escolas estão no centro das preocupações. “A educação foi a grande obsessão da I República”, recorda, acrescentando que o municipalismo foi outra das marcas republicanas. Santos Silva não é um apoiante da regionalização, mas reconhece existir “uma alocação desigual de recursos por parte do Estado” e defende que “uma maior descentralização do poder” e reforço das competências dos municípios.

“Tem de haver uma distribuição mais justa dos recursos nacionais”, reconhece o responsável por umas comemorações cuja marca física que ficará para as gerações vindouras será a renovação da frente fluvial de Lisboa, entre Belém e o Terreiro do Paço.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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