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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Luis Miguel Rocha

O único autor português que conseguiu ter um livro na lista dos mais vendidos do New York Times ganhou o hábito de escrever os seus best sellers com os polegares no teclado de um Nokia E 70, durante os longos passeios que dá pelo Parque da Cidade do Porto e pelas marginais fluvial e marítima de Gaia.

“Escrevo em qualquer lado. Preciso de andar para pensar. Não consigo estar muito tempo parado em casa sentado à frente do computador”, conta Luis Miguel Rocha, 34 anos, o autor de “The Last Pope”, thriller sobre o curto pontificado e a misteriosa morte do papa João Paulo I, que vendeu meio milhão de exemplares.

Luis cresceu em Viana do Castelo onde teve o seu primeiro emprego como recepcionista de um hotel, que acabou no dia em que o patrão foi mal educado com ele. “Não levo desaforos para casa”, explica a propósito de lhe ter respondido à letra.

Despediu-se e foi para o Porto, onde se instalou no apartamento na zona do  Hospital de S. João onde ainda vive, apesar de ter acabado se assinar em Nova Iorque  um contrato milionário com a Putnam, para a entrega de três livros novos thrillers religiosos, à razão de um por ano.

Monárquico, portista e vagamente católico (“Não compro o produto que eles vendem. A religião não me diz nada, mas às vez dou por mim a usar o nós quando falo dos católicos”, precisa), começou por ganhar a vida como cameraman da produtora que filmava as missas para a TVI, antes da primeira incursão no mundo da escrita, redigindo guiões e fazendo traduções.

Sempre teve uma queda para as letras. “Sabia que as minhas palavras tinham efeito”, confessa Luís, que por brincadeira, costuma dizer que escreve bem demais (“Não sei escrever mal”). “Não sou eu que mando nas personagens, são elas que mandam em mim”, garante, acrescentando interrompeu, durante uma semana, a escrita do seu segundo “best seller” (“The Holy Bullet”, que em Julho vai ser editado em paperback nos EUA e em Inglaterra) por ter ficado chocado com a morte de uma das suas personagens favoritas.

Luís escolheu almoçarmos no café da livraria Almedina do Arrábida Shopping, que. além de uma esplanada com uma vista soberba do Porto. tem 20 salas de cinema que ele frequenta regularmente. Acompanhou a refeição com água, porque quer perder peso e retomar a forma da fotografia da contra capa da edição hardcover de “The Holly Bullet”, tirada num estúdio em Nova Iorque, numa sessão que durou quatro horas e meia.

O momento de viragem deu-se quando um seu conhecido, que refere como “a fonte”, lhe deu acesso a material (incluindo uma cópia dos diários do papa)  que acusava a loja maçónica P2 de ter responsabilidade no assassinato de João Paulo I, que planeava substituir membros da Cúria Romana envolvidos em lavagem de dinheiro.

Tinha 29 anos, quando, em Abril de 2005 contratou uma agente catalã, que com base nas primeiras 30 páginas do livro, vendeu na feira de Frankfurt os direitos de publicação para Espanha e Itália. A partir daí foi sempre subir e “The Last Pope” (onde a irmã Lúcia adverte João Paulo I que o terceiro segredo de Fátima é que ele vai ser assassinado) está editado em mais de 70 países – e em quase todos eles vendeu mais do que em Portugal, facto que ele aceita com um encolher de ombros.

“Um dia estava a tomar café na Piazza Navona com uma jornalista da Rádio Vaticano quando um alto dignatário da igreja apareceu e sentou-se na nossa mesa. Quando lhe perguntei o que diziam sobre “The Last Pope” ele respondeu: “É um livro que toda a gente lê, mas ninguém lê. A ordem é silêncio total porque tudo quanto escreveste nele é verdade”.

Luís tem duas jornalistas italianas a fazerem pesquisa para ele. Obrigou-se a ser muito rigoroso, pois os leitores americanos de thrillers verificam os factos, se possível até mesmo no local. Todos os padres, bispos e cardeais que aparecem nos livros existem na realidade.

No 4º livro desta saga (o 3ª é lançado a 5 de Agosto nos EUA), que ele começa a escrever para a semana, o enredo baseia-se no facto, que ele garante estar comprovado por ADN, de uma dos grandes papas do século XX ter tido uma filha.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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Cafetaria Almedina

Arrábida Shopping, Vila Nova de Gaia

2 Creme de legumes

2 Polvo assados

1 Água

1 Sumo de abacaxi

2 Cafés

Total … 12,00

 

A misteriosa baixa da pivot do Jornal de Sexta

Mesmo correndo o risco de me chamarem vaidoso, devo declarar que sou um cliente de sonho para a Segurança Social. Em 2010 estou a comemorar 30 anos consecutivos de contribuições e continuo no activo. Só estive de baixa uma única vez, quando se revelou que não era apenas no sentido figurado que o meu coração era fraco. E nunca recorri ao subsídio de desemprego, nem ao Rendimento Social de Inserção (RSI). Sou um contribuinte líquido. Estou para o sistema como a Alemanha para a União Europeia.

Infelizmente nem todos são como eu. Há gente tão preguiçosa que, se pudesse, até evitava adormecia só para se poupar ao trabalho de acordar no dia seguinte. Os malandros que usam e abusam da baixa, apesar de estarem de saúde, vivem com a mão metida na carteira de pessoas como eu, ameaçam a sustentabilidade do Sistema de Segurança Social e contribuem, na medida das suas possibilidades, para que as contas públicas fiquem em pior estado que o chapéu de um trolha.

Felizmente, a Segurança Social é um dos sectores em que a coisa pública tem sido gerida com elevadíssimos níveis de eficácia, ao ponto de apresentar sucessivamente excedentes que compensam a quebra das receitas fiscais. Em 2009, o desempenho foi tão bom que o Governo poupou 85,6 milhões na atribuição das prestações sociais, dos quais 16,4 milhões no subsídio de doença, 7,9 milhões no RSI e 60,9 milhões no subsídio de desemprego – uma redução que até me deixa com a boca aberta de espanto, pois trata-se do ano em que o desemprego atingiu os dois dígitos.  

A Segurança Social está atenta e vigilante.  Aproximadamente 75% das pessoas que estão de baixa há mais de um mês são presentes a uma Junta Médica, que manda cerca de 1/3 delas de volta para o trabalho. E mais de 20 mil acções de fiscalização domiciliária são realizadas anualmente para reduzir o número de pessoas que recebem subsídio indevidamente.

À luz desta implacável vigilância, a baixa da antiga apresentadora do Jornal de Sexta da TVI, que dura há mais de cinco meses (muita acima da média, que é de 7,2 dias) é um enorme mistério para mim, que adoptei na juventude fiz a divisa preferida de Karl Marx:  de omnibus dubitandum (deve duvidar-se de tudo). Como ela anda para aí a fazer a vida normal, em festas e inaugurações, se desdobra em declarações e até se constitui assistente no processo Face oculta, só há duas hipóteses. Ou não está a ser fiscalizada, como todos os outros “baixistas”, o que é grave. Ou então é mesmo verdade que não anda mesmo bem da cabeça e por isso o melhor é não ligarmos muito às coisas que ela faz e diz.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Bárbara Coutinho

Uma fralda de pano. Não precisou de puxar pela cabeça quando perguntamos qual o primeiro objecto de design que conheceu: foram as fraldas de pano que a mãe lhe punha. Touché! Tudo é desenhado. Marcado o ponto, respondeu sem recorrer ao cliché do clip: a Bic cristal, preta (“nunca escrevi a azul”), esfera normal, foi o primeiro objecto que apreciou pela sua estética e funcionalidade.  E também os jeans, a peça em si, nenhuma marca em especial. “Tanto compro na Marni como na Zara. Não vou pelas marcas, mas pelas peças”, esclarece.

Bárbara Coutinho, 38 anos, vestia jeans, botas pretas e pulôver em vê claro, quando nos encontramos no Museu do Design e da Moda (MUDE) instalado na antiga sede do BNU, na rua Augusta, e a mais recente coqueluche da capital em meio ano recebeu 120 mil visitantes, tornando-se o terceiro museu mais visitado, a seguir aos Coches e ao Berardo.

Escolheu ser fotografada junto a La Chaise, cadeira branca da dupla Charles e Ray Eames, uma das suas peças preferidas das 2500 da colecção Capelo, que são o espólio base do MUDE. Como a cadeira está em exposição, não se sentou nela, mas está farta de conhecer essa sensação porque tem uma igual na sala da casa, que usa para ler e ouvir música (muito jazz).

Como mora na Baixa, vai a pé para o MUDE, só usando o Ford Ka amarelo quando vai dar aulas de História Arquitectura nos mestrados do Técnico. Apesar de urbana e de não usar muito o carro, adora conduzir, gostava de ter um jipe e um dos seus sonhos era fazer um Dakar.

Na subida para o Chiado, resumiu-nos a vida num parágrafo. Filha de uma ajudante de Farmácia e de um pedreiro, cresceu na Costa da Caparica onde adquiriu a paixão pelo mar e o gosto pelos banhos no Inverno: “É a melhor praia do país. Não sou mulher de águas calmas. Gosto de sentir as ondas e a força do mar”. Ainda encarou ir para Medicina e ser cirurgiã, mas licenciou-se em História de Arte na Nova. O primeiro emprego foi a dar aulas à noite, no Secundário, enquanto fazia o mestrado com uma tese sobre Carlos Ramos.

“Para se ser professor temos de estar aberto para aprender. Ensinar mantém-nos abertos e em permanente auto-formação”, diz Bárbara, que trazia um relógio Ómega e um anel transparente com uma pérola, comprado no Victoria and Albert Museum. Ela até gosta de dar aulas, mas como não queria passar o resto da vida como profe no Secundário candidatou-se e foi aceite no concurso que pedia uma pessoa que concebesse e coordenasse o serviço educativo do CCB. Estávamos em 1998 e era o início de uma bela amizade entre ela e colecção Capelo que desembarcou no CCB nesse mesmo ano. Nunca mais se separaram.

Nota-se à primeira que ela adora gengibre, o denominador comum entre a bebida (sumo de cenoura com toque de gengibre, apresentado na lista como “uma experiência revitalizante”) e a massa soba grelhada na chapa ao estilo japonês, com galinha, miolo de camarão, ovo, cebolinho, cenoura, pak choi, rebentos de soja e cebola, coberta com cebolinha frita, sementes de sésamo e gengibre. Como ama a cozinha oriental, para a semana vai estar nas suas sete quintas, pois 2ª feira parte para Seul.

O seu programa está sintetizado nas iniciais do museu: MUDE. “Vamos contribuir para a mudança na Baixa, em Lisboa e na consciência. Mais importante que os objectos é desenhar a atitude das pessoas”, declara Barbara, que tem em mãos a rara oportunidade de pôr em prática a tese de doutoramento em que está a fazer sobre os novos museus para o século XXI -  as novas catedrais, sim senhor, mas catedrais mutantes, flexíveis, em que a percentagem de área de exposição desce para dar espaço a livrarias, auditórios, lojas, cafetarias, restaurantes e outros locais de fruição. 

“Colecção não é sinónimo de museu, que não pode ser um contentor branco, mas antes um espaço vivido, que integre os hábitos e o dia a dia das pessoas. Não se trata de ir ao museu mas de o viver. É preciso tirar as aspas ao design”, conclui.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Nood Chiado

Largo Rafael Bordalo Pinheiro 20, Lisboa

2 Yaki Soba … 17,60 euros

2 Ginco … 5,40

2 Cafés … 1,80

Total … 24,80

Catotas, escutas e o tubo da pasta de dentes

Sempre achei que não precisamos de saber tudo. Aqui há uns anos, no decorrer de uma daquelas redistribuições do espaço frequentes no Expresso, ficamos todos a saber que um colega nosso, um rapaz educado e asseadíssimo, cultivava secretamente o hábito de arquivar debaixo do tampo da secretária as catotas que extraía do nariz. A descoberta do nojento cemitério de burriés secos foi um choque. Nesta vida há uma data de coisa que é preferível ignorarmos.

Ninguém duvida que a Scarlett Johansson e o papa Bento XVI frequentam regularmente a sanita, mas só gente com comportamentos desviantes gostaria de ver escarrapachados no You Tube vídeos mostrando a boa da Scarlett a aliviar-se ruidosamente ou Sua Santidade a espremer-se todo, devido a uma arreliadora prisão de ventre. Não precisamos de ver e saber tudo.

Há uma data de coisas que é preferível ignorarmos mas, devido ao demoníaco matrimónio entre o apodrecimento da justiça e o avanço da tecnologia, não é preciso espreitarmos pelo buraco da fechadura para sabermos que a Demi Moore bebe a sua própria urina, na esperança que isso retarde o envelhecimento – e não é necessário escutar atrás das portas para sabermos que um jovem administrador da PT estava convencido que se facilitasse a compra das rádios da Media Capital pela Ongoing e o Luís Montez, o sogro deste, que por acaso mora em Belém, ficava politicamente neutralizado e passava a cuidar dos netinhos em vez de andar a azucrinar o juízo ao “chefe” (leia-se Sócrates).

Eu não precisava de saber que a password de Rui Pedro Soares é “Sócrates2009” (ele ficaria muito melhor na fotografia se fosse “Gina2008” ou “Cláudia2010”) e que a alergia de Sócrates à critica é tal que o leva a faltar à verdade.

Eu não precisava de ouvir Pires de Lima, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, chamar “aldrabrão de feira” ao primeiro ministro, nem Henrique Granadeiro, presidente da PT, lamentar em público que se sente “encornado”.

Eu preferia que Sócrates - em vez de estar a defender-se das asneiras e malfeitorias confessadas ao telefone pelos trapalhões aprendizes de feiticeiro e incontinentes verbais que o rodeiam - estivesse concentrado no ataque ao desemprego e no cumprimento da promessa de, até 2013, trazer de volta para os 3% o défice que o seu Governo agravou em 6,6% no ano de todas as eleições. Os problemas a solucionar são estes – e não Crespo, Carreira ou Moura Guedes.

O drama é que mais fácil o Clark Kent e o Super Homem aparecerem juntos, do que Sócrates ser capaz de voltar a meter dentro do tubo a pasta de dentes que saiu cá para fora.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Silva Peneda

Silva Peneda, 59 anos, economista, é o presidente do Comité Económico-Social, a linha mais recente de um curriculum gordo, onde avultam nove anos como ministro dos Governos Cavaco, oito como gestor de topo da Sonae, cinco como eurodeputado e dois como presidente da CCRN. Na juventude, por três vezes foi campeão nacional de voleibol, numa carreira de onze anos como desportista, em que representou CDUP, FC Porto e Académica de São Mamede, onde aprendeu que sem esforço e sacrifício pouco ou nada se consegue na vida

 

 

Podia ter ido para o hóquei em patins. Tinha apenas dois anos quando o Mundial se realizou no novo Palácio de Cristal, mas quando ele andava escola ainda se ouviam os ecos da vitória de Portugal. Uma das maiores alegrias da sua meninice, foi quando o pai, Albino Sousa Peneda, proprietário de uma oficina de serralharia em S. Mamede de Infesta, lhe ofereceu um stick “daqueles mesmo a sério”.

“Desde que visse uma bola a saltar, ficava logo entusiasmado”, resume José Silva Peneda, 59 anos, que abre com três títulos consecutivos de campeão nacional de voleibol pelo FC Porto (um como juvenil e dois como júnior) um longo curriculum onde figuram, entre outras coisas, três passagens pelo Governo como secretário de Estado, nove anos como ministro do Emprego e Segurança Social de Cavaco Silva, a presidência da CCRN, cinco anos como eurodeputado e oito como gestor de topo do grupo Sonae, a que acaba de acrescentar mais uma linha: a de presidente do Comité Económico Social.

Tudo começou no D. Manuel II, onde foi contemporâneo de Artur Jorge, que já brilhava nos juniores do FC Porto. Estudava qb e jogava tudo quanto pudesse e lhe aparecesse pela frente, desde o hóquei até ao futebol, passando pelo basquetebol, andebol e voleibol. “Tinha jeito para tudo”, diz. Como era espigado (mede 1m80) reconhece que podia ter ido para o basquete. Mas quis o acaso que se fixasse no voleibol, a única modalidade que praticou como federado.

Debutou aos 14 anos, nos juvenis do CDUP, onde apenas se demorou um época pois o seu talento não escapou ao olho atento do professor Manuel Puga (pai de Nelson, médico do FC Porto e antigo andebolista do clube) que dava aulas no Liceu Alexandre Herculano e era treinador do voleibol portista.

1966/67, 1967/68 e 1968/69 foram épocas de sonho em que, com a camisola azul e branca, foi campeão nacional. Foram anos ricos em acontecimentos. Além dos títulos, entrou para a Faculdade de Economia e começou a namorar com a sua mulher Maria Fernanda (filha de Fernando Moreira de Sá, vencedor da Volta a Portugal em 1952 e velha glória portista)  que conhecera na praia de Matosinhos - “um namoro de praia que não ficou enterrado na areia”.

António Borges foi seu colega de equipa nas duas primeiras épocas, mas passou a adversário na terceira, pois como foi estudar para Lisboa passou a representar o Benfica. “Na minha última época como júnior tínhamos uma equipa excepcional. Éramos  todos universitários e ganhamos todos os jogos por 3-0. Fomos campeões sem perder um único set sequer”, recorda Silva Peneda que tem encaixilhadas no quarto que reconverteu em ginásio da sua casa (um apartamento num 13º piso no centro da Maia) as três cartas de agradecimento, assinadas por Afonso Pinto Magalhães, que à época a direcção portista enviava a todos os atletas que se sagravam campeões nacionais.

“O professor Manuel Puga era uma pessoa notável que sabia incutir no jogo a inteligência e outros valores, que não apenas a força e a técnica. Tinha muito orgulho em nós”, recorda Peneda, que jogava no meio do trio da frente. “Batia bem, atacava e fazia bloco. Como fazia o meio era o que mais saltava e estava em jogo”, conta o economista.

Promovido a sénior, mudou-se para a equipa da sua terra – onde também morava Fernando Teixeira dos Santos, actual ministro das Finanças, que era seu colega na Faculdade de Economia. Foi poderosa a razão que o levou a para a  Associação Académica de São Mamede: “Eu tinha 18 anos e queria jogar. E ia não ia arranjar um lugar na equipa titular do Porto, que tinha jogadores como o Monterroso, o Álvaro Martins e retirara ao Técnico e ao Espinho a hegemonia na modalidade”.

As coisas começaram logo a correr bem. Logo na primeira época, foi campeão nacional da II Divisão. E nas seis épocas seguintes, esteve ligado ao boom da Académica, contribuindo, ao lado de gente como Arlindo Quelhas, Costa Pereira, Leão, Bernardo, Tito Conrado, entre outros, para que o clube de São Mamede se tornasse um player importante e respeitado no voleibol português.

Das sete épocas em que jogou na Académica destaca aquela em que se classificaram em 3º  lugar, atrás do FC Porto e Leixões, com sete derrotas estúpidas em jogos em que estiveram sempre a ganhar por 2-0 e acabaram por perder por 3-2.

A paixão pelo voleibol era enorme. Lembra-se de ter ficado aborrecido quando, em 1974, Maria Fernanda lhe anunciou que Marta, a mais velha das suas duas filhas (Sara, a mais nova, é de 77) ia nascer precisamente no fim de semana em que Académica ia à Luz jogar contar o Benfica - um dos jogos daquele jogos que perderam por 3-2 depois de terem estado a ganhar por 2-0. “Fiquei chateado, porque queria jogar, o que acabei por conseguir porque a minha mulher ainda aguentou mais três dias com a Marta na barriga”, graceja.

A paixão era enorme mas o tempo escasseava à medida que assumia cada vez mais responsabilidades. Como o voleibol era 100% amador (“ainda pagávamos para jogar”) enquanto estudante arranjou um emprego como calculador, fazendo contas e trabalhando estatísticas na Comissão de Planeamento da Região Norte, que daria lugar à CCRN e tinha sede na Praça Velasquez,  por cima da Primazia.

“Era bestial, pois pagavam-me 80 escudos à hora. Se num dia trabalhasse dez horas ganhava 800 escudos que, à época, era uma data de massa. A renda de uma casa alugada andava pelos 700 escudos/mês e um carro novo custava 50 contos. Deixei de ir às aulas e passei a estudar pelos apontamentos dos colegas, porque em cada aula estava a perder 80 escudos”, lembra José Silva Peneda, que aplicou o primeiro dinheiro que ganhou na compra de uma máquina de lavar para a mãe - e depois começou a poupar para comprar uma Dyane branca, a que se refere carinhosamente como “pincha pincha” e de que ainda recorda a matrícula (GN-78-15).

Casado e pai de uma bebé, com o curso tirado e dois empregos  - de dia fazia contas na Comissão de Planeamento, à noite dava aulas na Faculdade de Economia – deixou de ter tempo para o voleibol, que abandonou ainda novo, com 25 anos, após lhe ter transmitido valores tão essenciais, como “a autodisciplina, ultrapassagem dos limites pessoais, resistência, espírito de grupo, tolerância e lealdade”.

A formação na observância destes valores possibilitou-lhe desembrulhar-se com competência numa intensa carreira política que iniciaria quatro anos, ao proferir pela primeira vez, a fórmula “eu, abaixo assinado, afirmo solenemente por minha honra que cumprirei fielmente as funções que em são confiadas”.

Tinha 29 anos e era independente, quando lhe caiu do céu aos trambolhões o convite para ser secretário de Estado no Governo Pintasilgo. O convite tinha uma boa justificação. Costa Brás queria deixar como herança daquele governo a prazo (durou os 100 dias para que estava programado) uma Lei Orgânica do Ministério da Administração Interna. E toda a gente lhe dizia que a pessoa indicada para levar a cabo essa tarefa era aquele jovem que começara a ganhar fama na CCRN, desde 1975 liderada por Valente de Oliveira. Aceitou este convite, sem saber que ele  lhe podia ter impedido os voos políticos seguintes.

Estava em casa com gripe, quando Eurico de Melo, ministro acabado de empossar do novo Governo da Aliança Democrática (coligação PSD/CDS/PPM) lhe telefonou falando de dossiers que gostava de ver tratados. Peneda logo se pôs à sua disposição. Mal se recompusesse da gripe, iria a Lisboa ter como ele. Ao que o ministro lhe explicou que estava a fazer confusão: a questão não era “ir a Lisboa” mas antes “ir para Lisboa”, como secretário de Estado da Administração Regional e Local.

Mais tarde, ao discutir com Freitas do Amaral o Livro Branco sobre a Regionalização por ele elaborado, soube que tinha sido vetado. Os lideres da AD decidiram que do Governo não faria parte ninguém que tivesse estado com Pintasilgo. Quando viram Peneda na lista dos secretários de Estado logo riscaram o seu nome. Sá Carneiro ligou a Eurico de Melo a comunicar-lhe que teria de arranjar outro secretário de Estado. “É muito fácil resolver esse problema. Arranja outro ministro”, respondeu Eurico.

“È verdade! Por que é que não lhe disse? Porque se lhe dissesse provavelmente você ia fazer uma asneira e eu tinha de arranjar outro secretário de Estado”, respondeu Eurico de Melo, quando Silva Peneda lhe telefonou a perguntar se era verdade o que Freitas lhe contara.

Silva Peneda deixou o desporto, mas o desporto não saiu dele. Portista ferrenho, conheceu através do sogro outras velhas glórias do FC Porto, como Pedroto – que costumava brincar com Fernando Moreira de Sá, lembrando-lhe que ambos eram de 1928, uma colheita Vintage -, Hernâni e Virgílio, com que passou a privar a conviver.

Mas o seu círculo de amizades é plural, alargando-se a Luís Figo (que ajudou a fazer a Fundação que leva o seu nome), a Toni e a Eusébio, só para citar três exemplos.

“O Eusébio tinha uma admiração enorme pelo Hernâni. Uma vez resolvi fazer uma surpresa. Marquei um jantar com o Carlos Duarte, o Hernâni e o meu sogro, no Vítor Ladrão em Leça, e apareci lá com o Eusébio”, conta. Durante o jantar, o Hernâni insistia em que ele o tratasse por tu, mas o Eusébio não conseguia deixar de o tratar por senhor e recordou dois episódios.

“Das primeiras vezes que fui a selecção – contou o Pantera Negra - , tinha de pedir autorização a duas pessoas antes de começar a comer. Primeiro ao senhor Hernâni que era o capitão. Ele só à segunda ou terceira é que ouvia e mandava-me pedir licença ao meu capitão, o Coluna”.

“A outra história refere-se a uma finta que Hernâni aplicou na Luz, ao defesa benfiquista Cruz, que ficou sentado no relvado como um pato. O Eusébio ficou tão impressionado que foi cumprimentar o Hernâni, que o deixou com a mão estendida”, relata José Silva Peneda, que trouxe do voleibol uma grande lição para a vida:

“É através do treino e da competição que se experimenta o sacrifício e a dor em nome dos objectivos que queremos atingir. O ensinamento que o desporto pode proporcionar - de enorme utilidade para a vida - é que se sem esforço e sem sacrifício pouco ou nada se consegue”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

Luís Rochartre

Cuba. A coisa mais parecida com o futuro é Cuba. Não Cuba, Alentejo, mas Cuba, Caraíbas. A dos barbudos e Fidel Castro. Se cruzarmos a linha do Índice do Desenvolvimento com a da Sustentabilidade vemos que os países sustentáveis são muito pobres e os desenvolvidos gastam muito mais recursos do que a Terra tem ao nosso dispor. A excepção é Cuba, o único país que não precisa de deixar uma pegada ecológica superior ao razoável para proporcionar níveis razoáveis de educação e acesso à saúde.

Ver no modo de vida cubano o nosso futuro não aterroriza Luís Rochartre, o secretário geral do BCSD, iniciais do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, organização insuspeita de anti-capitalismo, que agrupa 125 das maiores empresas portuguesas e foi fundada pela Sonae, Cimpor e Portucel.

“Eu até gosto de charutos”, graceja Luís, um engenheiro florestal, que nasceu há 47 anos em S. Miguel, onde o pai bancário estava destacado pelo BPA, viveu na Covilhã e Porto, licenciou-se em Vila Real, deu aulas em Bragança e trabalhou sete anos na Caima, entre Abrantes e o Tramagal, antes de âncorar em Lisboa.

“Há limites físicos para este modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo da energia fóssil que provoca danos irreversíveis na Natureza. Não há outra alternativa. Com a assustadora taxa de crescimento da população mundial, que já vai em seis biliões, se não pouparmos, as gerações vindouras vão ser obrigadas a emigrar para outro planeta”, avisa o secretário-geral do BCSD.

Já ninguém tem dúvidas de que o mundo vai ser diferente. “O World Business Council for Sustainable Development resume o futuro em três palavras: clean, lean e mean. Ou seja, será limpo, magro e sovina – preocupado em optimizar a utilização dos recursos”, diz que Luís, que escolheu almoçarmos no Hotel VIP, que ocupa as antigas instalações da RTP.

Abriu com um creme de legumes uma refeição de filetes de pescada, acompanhada de um tinto alentejano, que serviu de pretexto para revelar um dos seus hábitos sustentáveis. Desde há muitos anos que guarda as rolhas de cortiça das 160 garrafas de vinho (60 para consumo caseiro, 50 para levar quando vai jantar a casa de amigos e 50 para guardar), mesmo antes do grupo Amorim ter montado uma operação de recolha para reciclagem. À sobremesa, comeu abacaxi, lamentando não haver opções sustentáveis, pois a oferta esgotava-se com manga e papaia, tudo frutos importados, o que implica gastos enormes em energia para transporte e conservação.

Deixar o mundo pelo menos no estado em que o encontramos, combater a pobreza, atenuar as desigualdades e promover o bem estar são o catecismo em que se baseia a evangelização que Luís Rochartre e o BCSB fazem junto dos empresários.

“Não posso chegar a uma empresa e dizer: Irmãos, está aqui a verdade! Prostrai-vos!”, explica Luís, que prefere chamar a atenção para o impacto positivo da eco-eficiência na conta de resultados, pois pode produzir-se mais gastando menos.

Em colaboração com a Logoplaste, a Água do Luso desenvolveu uma garrafa de plástico que gasta menos 35% de matéria prima. Ao reduzir a espessura da embalagem ao mínimo e a cápsula a metade, poupa-se dinheiro e o planeta.

Ao deixar de dar sacos de plástico (passaram a custar três cêntimos) e estimular a compra de sacos maiores, mais resistentes e reutilizáveis, o Pingo Doce cortou na despesa e aumentou a receita, ganhando dinheiro ao ser amigo do ambiente.

A mastodôntica sede da Caixa, que gasta tanto em energia como Santarém, passou a ser eco-eficiente, após um forte investimento que contemplou a instalação da maior central térmica solar do país. O negócio foi tão bom que o modelo vai ser replicado noutras instalações.

“O pay back é rápido. Por norma, em dois anos o investimento está pago e começa-se a ganhar dinheiro”, garante Luís, que na sua evangelização junto das empresas usa a música que elas querem ouvir (a do lucro) e apenas lamenta que o Estado não a entenda: “Para fornecer o Estado, basta provar que se tem impostos em dia e não se deve nada à Segurança Social. Não há problema se for um assassino ambiental…”

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

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VIP Grand Lisboa Hotel

Av, 5 de Outubro 197, Lisboa

Couvert … 4,00 euros

Creme de legumes … 4,00

2 Filetes de pescada de Sesimbra dourados sobre arroz de agrião e alho roxo …24,00

Vitalis 1 litro … 4,00

Paulo Laureano Alentejo tinto … 15,00

Abacaxi … 4,75

1 café… 1,50

Total … 57,25

Esta vida são dois dias

Não preciso de ser dono deste quadro do Dórdio Gomes para tirar prazer dele

Quando eu tinha 14/ 15 anos, a felicidade era muito barata. Podia custar 17$50, o preço da francesinha e um príncipe no Capa Negra do Campo Alegre. Podia até ficar de borla, se a miúda que nos punha as hormonas aos saltos não tirava a mão dela, quando lhe dávamos a nossa, alimentando as legítimas expectativas de que mais tarde ou mais cedo (de preferência mais cedo!) passaríamos a formas superiores de luta, ao nível do contacto físico.

A partir destas experiências de prazer procurado, percebi que sofrimento e risco fazem parte do processo de obtenção da felicidade. A francesinha sabia melhor quando eu tinha fome e a cerveja quando estava com sede. Para nos habilitarmos a uma queca, é preciso arriscar sofrer um pontapé nos tomates do nosso amor próprio, se a rapariga dos nossos sonhos húmidos retira rapidamente a mão que lhe demos e explica, toda lampeira, que gosta de muito de nós - mas só como amigos. O sexo e o amor sabem muito melhor quando estamos cheios de fome e sede deles.

Nos últimos 30 anos, o período de maior prosperidade de toda a história da humanidade, registou-se uma hiper-inflação dos custos da felicidade, provocada pela febre da propriedade, em que as pessoas erradamente confundiram posse com o prazer, esquecendo de que mais importante do que ter uma coisa é usufruir dela e que são os objectos que nos possuem – e não o contrário.

Deste período de correcção de valores e comportamentos, que designamos por crise, vai emergir um novo normal, marcado pela diminuição do custo de utilização dos produtos, em que alugaremos a roupa de bebé, que dura apenas três meses, e acharemos ridícula a mania de todos possuírem um carro próprio – imaginem que não havia outra maneira de usar avião a não ser ter um nosso!

No novo normal, avaliaremos em termos custo/beneficio a relação entre o tempo que gastamos a ganhar dinheiro e o tempo de prazer de que desfrutamos com o produto do nosso trabalho. Tom Jobim tinha razão quando disse que “o que importa é ser feliz” mas temos de ser criteriosos sobre onde se adquire a felicidade - se na cama, na pastelaria ou no fundo de uma garrafa – e no preço a pagar por ela. 

Nestes tempos difíceis, que põem à prova a alma dos homens, não podemos dar demasiado importância à “situação explosiva”, “morte lenta”, escutas, Face Oculta, dívida, desemprego ou défice. O melhor é descontrair-se e divertir-se. Abra a garrafa de Barca Velha que corre o risco de se passar. Goze as milhas do cartão antes que caduquem. Tire partido de tudo quanto é de borla e pode dar muito prazer. Esta vida são dois dias e o primeiro está a acabar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

José Manuel Silva Rodrigues

O presidente da Carris está a dar uma nova dimensão a um dos mais famosos fados de Amália Rodrigues, já que começou a perfumar os autocarros com uma fragância denominada “Happy City”, onde, de acordo com o autor, se misturam os aromas de Lisboa –  jacarandá, Tejo, pastel de nata, alfazema e canela.

José Manuel Silva Rodrigues, 58 anos, não consegue distinguir todas estas nuances no perfume, mas garante que ele cheira bem e promete que esta experiência sensorial, em curso em 40 autocarros, se alargará a toda a frota.

Vencer o preconceito contra os transportes públicos e tornar as viagens de autocarros mais atraentes e agradáveis é a cruzada particular deste macro-economista, que há mais de um quarto de século trabalha neste sector, com escalas na CP, Fertagus e Rodoviária Nacional.

“Cheira bem, cheira a Lisboa” não foi o primeiro fado que o inspirou. Numa anterior passagem pela Carris, em 95/96, o poema “O Amarelo da Carris” de Ary dos Santos, imortalizado por Carlos do Carmo, esteve na origem da decisão de mandar pintar os autocarros de amarelo, pondo-os em sintonia cromática com os eléctricos e tornando a paisagem urbana de Lisboa indiscutívelmente mais bonita e alegre.

O comandante da frota de 750 autocarros (Volvo, MAN e Mercedes) e 60 eléctricos, que, guiados por 1650 tripulantes impecavelmente fardados (“o mau fardamento pode dar origem a processo disciplinar”, adverte), fazem diariamente 95 carreiras escalando 2 000 paragens, chegou para o almoço conduzido por um motorista e num Mercedes da Carris – mas preto, não amarelo.

Escolheu o Sancho, na Travessa da Glória, ao lado do elevador celebrizado pela Xana dos Rádio Macau e um dos quatro (além da Lavra, Bica e Santa Justa) Monumentos Nacionais e emblemas de Lisboa que integram o património da Carris. A poluição e o congestionamento foram os principais assuntos de uma conversa feita à mesa de um restaurante que fica numa pequena perpendicular da mais poluída e congestionada avenida do país.

Logo à chegada, enquanto despia a gabardina, apaixonou-se à primeira vistas pelos salmonetes expostos à entrada na bancada de peixe. Pediu um, bem grelhado, que temperou generosamente com limão e acompanhou com grelos cozidos e uma flute de Encosta d’Arêgos, um vinho minhoto de carácter limonado. À sobremesa, voltou aos tons laranja (que vestiam os autocarros até à sua chegada à Carris) ao pedir uma papaia.

Em 2003, quando voltou à Carris, investiu 94 milhões de euros na renovação da frota, baixando a sua idade média de 16,5 anos para seis (a de Madrid tem oito). “540 dos 750 autocarros são novos”, diz com orgulho, este antigo director-geral dos transportes terrestres, que começou a trabalhar com 21 anos, como técnico de 3ª no Ministério do Ultramar, e que no início dos anos 80, nos Governos Balsemão, foi adjunto dos ministros das Finanças Morais Leitão e João Salgueiros.

Diariamente, entram em Lisboa meio milhão de carros, com uma média de 1,2 pessoas a bordo. As consequências são terríveis em poluição, congestionamento, ruído e horas perdidas em engarrafamentos, calculando-se que impliquem um desperdício equivalente a 6% do PIB.

Renovada à frota e feito um esforço por facilitar a vida aos clientes, Silva Rodrigues declarou guerra ao automóvel ao desencadear a campanha Nem Mais um Carro. “Não basta ter um produto bom. É preciso que o mercado o conheça”, explica o presidente da Carris. O objectivo é aumentar em 5% a quota dos transportes pública na mobilidade lisboeta. Os progressos são lentos. Em 2009, o número de viagens de Carris subiu 2,5%, situando-se nas 240 milhões (num total de 400 milhões, em que a outra fatia pertence ao Metro).

“Para aumentarmos a velocidade média, que está estabilizada nos 14,8 km/hora, diminuir o tempo das viagens e cumprir os horários, é preciso aumentar os 60 km de corredores Bus que são 10% da nossa rede. Estamos a trabalhar com a Câmara para a afectação de mais espaço aos transportes públicos”, explica Silva Rodrigues, que preconiza medidas duras no combate ao estacionamento selvagem e indevido, bem como a criação de dificuldades, através do aumento dos preços, ao estacionamento na Baixa.

A oferta de soluções de mobilidade porta-a-porta, combinando autocarros, eléctricos, metro, comboio, bicicleta e o automóvel é o alfa e o ómega da acção do presidente da Carris, que teme o impacto dos carros movidos a electricidade.

“Ao ser mais barato, o veículo eléctrico pode ter efeito perverso de agravar o congestionamento”, avisa Silva Rodrigues, que na sua juventude nunca teve passe da Carris.  Como morava em S. Bento, ia a pé para o Liceu Passos Manuel e para o ISE. E fez a escola primária num colégio propriedade do padrinho, que era no prédio onde morava – só tinha de subir do 1º para o 2º andar.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

O TGV, a falta de tomates e o ministro

Na sua peregrinação por 200 empresas, em busca de apoios para o próximo Fantasporto, o meu amigo Mário Dorminsky não arranjou novos patrocinadores, apesar de não ter ouvido um único “não”. “Vamos a ver” foi a resposta 200 vezes repetida.

“Vamos a ver” é um novo sinónimo do velho e brutal (mas esclarecedor) “não”, uma versão da mentira “amanhã telefono-te” dita pelos amantes de uma só noite quando se separaram à luz do dia seguinte.

O “não” parece estar em vias de extinção nesta sociedade contaminada pelo vírus guterrista do querer agradar a toda a gente, em que se prefere adoçar a negativa com uma falsa esperança a desenganar as pessoas com a crua verdade.

O “vamos a ver” é um refúgio dos cobardes sem coragem para dizer “não” e que mantêm, em vão, acesa uma esperança que só se extingue após a 5ª chamada não atendida, o 6º mail não respondido, ou a 7ª SMS ignorada. Uma cobardia cara em desperdício de tempo e frustração de expectativas de quem ainda desconhece que o “vamos a ver” quer dizer “não” traduzido para português vernáculo.

Odeio a cultura do rodeio, das palavras a abater acompanhadas de hipócritas palmadinhas nas costas, que entranhou na nossa sociedade, substituindo o saudável “pão pão queijo queijo” por um linguarejar apaneleirado, em que ao básico “gosto”/“não gosto” foi acrescentado o assexuado “não desgosto”.

Lamentavelmente, o Governo, que devia ser um exemplo de coragem e frontalidade, também adoptou a linguagem circular e descafeinada para camuflar a sua falta de coragem.

Sábado, fiquei com uma pulga atrás da orelha quando o ministro das Finanças, questionado pelo Expresso sobre a ausência de adjudicações para as linhas de TGV Lisboa-Porto e Porto-Vigo, respondeu fazendo recurso a uma barragem de 122 palavras, compondo frases redondas como “o TGV tem de ser adaptado à realidade orçamental”,  “o calendário mantém-se, mas temos de fazer opções”, “não é dizer que está necessariamente comprometido”. 

Segunda feira, percebi tudo ao ler a manchete do Jornal de Negócios: “Estudo das Finanças reconhece que o TGV subirá o endividamento /Linhas do Porto e Vigo são as que mais contribuem/O novo aeroporto de Lisboa terá efeitos económicos positivos na economia”. O Governo pôs em marcha uma campanha de preparação da opinião pública para deixar ficar no tinteiro o TGV para o Porto e Vigo – uma campanha iniciada com a resposta “vamos a ver” de Teixeira dos Santos, mais um homem do Norte a quem os ares de Lisboa lhe fizeram encolher os ditos. Às tantas, está à espera que seja uma vez mais o ministro espanhol a dar-nos a má notícia e oficializar o adiamento…

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

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