Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

A Relação errou: Névoa não é burro

Admiro o capitão Haddock por ter elevado o insulto à categoria de arte. O velho marinheiro, colérico e amigo de entornar o seu copo, é autor da mais fabulosa colecção de insultos da história da humanidade, sem nunca fazer cedências à banalidade pouco imaginativa do calão corrente, tendo elaborado um dicionário onde figuram pérolas como analfabeto diplomado, flibusteiro, astronauta de água doce, cataplasma e bando de bachi-bouzouk (mercenários do exército otomano) – só para citar uma mão cheia de insultos da antologia haddockiana, onde o professor Marcelo foi beber o “troglodita” de que usa e abusa, com uma intenção bem mais ofensiva do que a original (os geógrafos antigos designavam de trogloditas um povo do sul do Egipto).

Também gosto de outra classe de insultos, mais coloridos e directos, categoria em que o mais espectacular que ouvi foi proferido numa zaragata entre duas mulheres, nas imediações da rua Escura, na zona da Sé. “Sua badalhoca, não te lavas por baixo!” foi a acusação que me impressionou ao ponto de, 20 anos depois, ainda se manter, no topo do meu top ten de insultos favoritos.

Mas sei apreciar um tipo de insulto mais fino, escrito a filigrana nas entrelinhas, que escapa escorregadio a mentes mais leves ou distraídas, como o que foi cuspido a Domingos Névoa pelos desembargadores da Relação de Lisboa, na sentença em que o inocentarem da condenação de corrupção que trazia da primeira instância.

Ao fundamentarem a absolvição no facto do vereador Sá Fernandes não ter poderes para fazer o que Névoa lhe pedia, os juízes estão a chamar, por outras palavras, burro, asno e idiota ao empresário bracarense, que se preparava pagar 200 mil euros a um tipo que tinha tanta capacidade como eu ou o leitor para desencalhar o problema que a Bragaparques tinha na  Câmara de Lisboa.

Estou convencido que os juízes estão enganados e o Névoa não é burro como eles pensaram e escreveram. Apesar de não o conhecer pessoalmente, toda a gente me jura que ele é um tipo finório, que sabe perfeitamente de que lado do pão está a manteiga. Não se faz uma fortuna na construção civil a untar as mãos às pessoas erradas.

Mas acredito sinceramente que a sentença da Relação configura um caso de insulto involuntário -  e que o empresário bracarense partilha desta minha opinião e por isso não vai processar os juízes por difamação. Assim como assim, ainda lhe pouparam os cinco mil euros de multa a que o tribunal de primeira instância o condenou para expiar a pena de corrupção de que o julgaram culpado.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias      

Música: Under the bridge, Red Hot Chili Peppers
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Terça-feira, 27 de Abril de 2010

Alberto Teixeira

 

Alberto Teixeira, o defesa central do FC Porto e  Boavista, que conquistou três Taças de Portugal e ajudou a mudar a face do futebol português ao apresentar José Maria Pedroto a Pinto da Costa, é agora o presidente da Ibersol, empresa cotada no Euronext Lisbon, que vende 215 milhões de euros de fast food em mais de 330 restaurantes Pizza Hut, Burger King e KFC, entre outros, entre Portugal e Espanha 

 

Alberto Teixeira, 60 anos, economista, não tem muitas razões para se queixar da vida. Indiferente ao recuo de 3,1% da actividade económica, à queda de 25% nas vendas de gasolina e ao trambolhão de 30% das nossas exportações, a cotação das acções da empresa a que preside subiu mais de 40% no primeiro trimestre.

As acções da Ibersol  - a empresa a que preside e de que é um dois maiores accionistas (o outro é o seu amigo António Pinto de Sousa) – sobem em direcção ao céu,  no Euronext Lisbon, propulsionadas pelas vendas dos 330 restaurantes que gere, em Portugal e Espanha.

Nos finais de Março, o lucro da companhia já ia em 2,7 milhões de euros, pois apesar da crise, os portugueses não deixaram de comer e as pizzas, sandes, tacos e pastas da Pizza Hutt, Burger King, Kentucky Fried Chicken, Pasta Café, Cantina Mariachi e Pans & Company (algumas das insígnias ad Ibersol) são uma opção que tem tanto de rápida como barata.

O rei da fast food na Península Ibérica tem ainda mais razões para estar feliz, já que o clube da sua paixão acaba de juntar a Taça de Portugal ao tetra campeonato.

Por nada deste mundo, Alberto perde um jogo no Dragão, que saboreia ao mesmo tempo que um Cohiba, a partir do camarote da Ibersol – que, como não podia deixar de ser, é a responsável pelo catering em todo o Estádio.

Mas enganam-se os que pensam que ele é apenas um desportista de bancada. Todos os fins de semana, religiosamente, pratica outra das suas paixões – o golfe. É sócio da Estela e tem handicap 14.

O golfe, em que reconhece estar viciado, começou por ser um desporto refúgio, que começou a praticar quando a força física foi desaparecendo. Na sua juventude, Alberto viveu tardes de glórias um pouco mais a norte do Dragão, no relvado das Antas. Foi futebolista profissional, conquistou três Taças de Portugal, e posou com a camisola do FC Porto e do Boavista para as inevitáveis cadernetas de cromos.

A última etapa que teve de vencer para chegar ao cimo da montanha, percorreu-a no grupo Sonae, onde se demorou 17 anos, e vagabundeou pela  indústria (em Portugal e Espanha), a holding e a distribuição, até que a 1 de Janeiro de 1998, ele e o seu Pinto de Sousa) compraram a Ibersol a Belmiro de Azevedo. O negócio tem corrido bem  - em onze anos multiplicaram os indicadores por quatro. À cotação actual, vale 163 milhões de euros.

Mas o que lhe permitiu estudar e fazer o curso de Economia foi o futebol, onde foi parar por um daqueles acasos em que a vida é fértil.

 Estávamos em 1962, a guerra colonial alastrava em Angola. Ele tinha 14 anos e, como de costume, foi ao campo de treino das Antas ver os juniores e os juvenis. Morava perto, na rua Honório de Lima. Só que desta vez, Pinga, então o treinador dos miúdos, reparou nele. Mirou-o de alto a baixo, gostou do que viu e fez a pergunta que lhe mudou a vida : “Queres equipar-te e treinar?”

“Eu era alto para a idade”, explica Alberto, que já era um atleta, pois jogava hóquei em patins no Vigorosa, desde os 11 anos. O hóquei era o outro dos seus dois amores, cultivado pelo pai, que o levava a ver a selecção nacional jogar no Palácio de Cristal.

Jogava no Vigorosa mas era já portista encartado. O seu herói era Jaburu (“Era um ídolo, a imagem dele saía como brinde no bolo rei. Tinha um remate fortíssimo, foi um dos jogadores que mais me marcou”), o ponta de lança brasileiro que Yustrich trouxe para a equipa do FC Porto campeã nacional em 1955/56 (tinha ele oito anos) e onde alinhavam Pedroto (que viria a seu treinador no Porto e Boavista), Hernâni  (“uma figura de proa”) e Miguel Arcanjo (“um tipo muito simpático com os miúdos”).  

Contra a promessa solene de que não iria nunca deixar que o desporto lhes prejudicasse os estudos, o pai, director fabril na Raione, fê-lo sócio do FC Porto, habilitando-o assim a ir ver os treinos às Antas.

No hóquei, transferiu-se para o FC Porto, onde foi treinado pelo economista e jornalista Correia de Brito e se cruzou com um seccionista que “tinha uma piada fabulosa e tinha uma grande facilidade no relacionamento com as pessoas”, chamado Jorge Nuno Pinto da Costa.

Acumulou o hóquei e o futebol até que teve de escolher e o FC Porto o obrigou a descalçar os patins, o que fez com alguma pena.

Alberto está convencido que tinha mais aptidão para o hóquei do que para o futebol, modalidade em que seu irmão Arménio (que se viria a licenciar em Medicina) era muito melhor do que ele  - só não passou do Castelo da Maia por falta de ambição.

Como o pai morreu novo,  Alberto tornou-se adulto mais cedo ao ver-se na contingência de ajudar a mãe, que com o seu magro salário de empregada na Companhia dos Telefones tinha de sustentar os quatro filhos e a sogra. “Eu meti na cabeça que era capaz de ser futebolista e continuar a estudar”, conta, acrescentando que ficará para sempre em dívida com o futebol por lhe ter pago os estudos e permitido licenciar-se em Economia.

No percurso pelos iniciados, juvenis e juniores – onde Artur Baeta era a alma mater - foi tendo colegas que se tornaram lendas do nosso futebol, como Artur Jorge, que passou a sénior no ano anterior ao dele, e Pavão.

“Lembro-me perfeitamente do dia em que ele chegou às Antas, vindo de Chaves e com a fama de ter estado treinar no Benfica. Estávamos no estádio principal e ele entrou a substituir-me no jogo-treino. Foi como se tivesse chegado alguém do outro mundo. Com ele, a bola parecia mais redonda. Era um jogador tipo Deco, box to box”, recorda Alberto, acrescentando que João Alves foi o único colega de equipa que teve cujo talento se aproximava do de Pavão.

Alberto cobriu-se de glória na sua última época como júnior, a de 1965/66. Enquanto os Magriços se preparavam para fazer um brilharete no Mundial de Inglaterra, ele foi campeão nacional e conquistou o Torneio de Limoges, feito rijamente festejado na Baixa do Porto, que se encheu num S.João antecipado. “Na altura a cidade contentava-se com pouco”, refere.

Foi “um sonho, uma alegria, uma maravilha” fazer parte daquele reduzidíssimo lote de juniores que foram escolhidos por José Maria Pedroto para ficarem nas Antas no ano em que foram promovidos a seniores. Hernâni era então o responsável pelo departamento de futebol. O presidente era o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães.

Começou a receber dois mil escudos por mês, o que lhe permitiu logo no segundo ano de profissional, comprar o seu primeiro carro, um Simca 1000, enquanto os estudantes franceses faziam o seu Maio.

Tratava por “senhor” os mais velhos. Era senhor Américo para aqui, senhor Custódio Pinto para acolá. Mesmo não sendo titular, era frequentemente convocado. Estreou-se a lateral direito (fazia todas as posições na defesa, se bem que central fosse a favorita), a substituir o magriço Festas, num jogo em que o Porto perdeu 2-0 com a Sanjoanense.

“O Eusébio era diferente de todos os outros, e o Benfica tinha melhor equipa do que nós – mas era muito favorecido pelas arbitragens. Como não havia televisão, jogos fora éramos quase sempre roubados”, recorda.

A esperteza de Pedroto ajudava a equilibrar um pouco os pratos da balança. “Quem sabia era ele. Organizava muito bem e era inteligente no que fazia. Era aquele tipo de pessoa que teria sucesso em tudo quanto se metesse”.

No final da sua terceira época como sénior, após uma digressão a Angola (de onde o FC Porto trouxe Seninho), Alberto foi emprestado a União de Lamas, que estava na II Divisão e era dirigido pelo comendador Henrique Amorim, e treinado por Américo.

Na época seguinte, 1970/71, volta a ser emprestado, mas desta vez ao Boavista onde voltará a encontrar Pedroto como treinador, conquistará duas Taças de Portugal e um 2º lugar no campeonato.

Esteve no Boavista até ao precoce final da sua carreira, com uma parêntesis em Cabora Bassa, Moçambique, em cuja equipa jogou nos tempos deixados livres da sua actividade de oficial de artilharia do exército português. “A tropa ajudou-me muito a crescer”, garante Alberto, que andava pelo Norte de Moçambique, de arma na mão, quando Pavão morreu nas Antas e se deu o 25 de Abril.

Regressou ao Bessa, onde foi treinado por Jimmy Hagan (“Era muito bom a preparar fisicamente as equipas. A começar o mandava-nos dar 20 voltas ao campo. Nunca corri tanto na minha vida”), José Maria Pedroto e Mário Wilson (“a diferença entre eles era da água para o vinho”).

Não precisa de pensar um segundo sequer para eleger Pedroto como o melhor de todos: “Nós acreditávamos religiosamente em tudo quanto ele nos dizia no balneário. Sabia ver futebol como ninguém. Falou-se muito do 3x3x4 na passagem do Co Adriaanse pelo FC Porto. Mas, quando estávamos a perder nas Antas, o Pedroto já usava esse sistema, mudando o Bernardo da Velha de defesa direito para ponta de lança”.

Aos 28 anos acabou o curso de Economia (onde teve como colegas Daniel Bessa e Teixeira dos Santos)  e  arrumou  as botas, não aceitando o convite de Pedroto para regressar ao Porto, onde quebraria o jejum de 20 anos sem títulos.

“Tenho para mim que devemos sair enquanto as pessoas nos querem – e não empurrados”, explica. No entanto, antes de arranjar o seu primeiro emprego como economista, dera um valioso contributo para a hegemonia actual dos portistas.

Num jogo do Boavista no Estádio do Mar, apareceu lá Pinto da Costa e pediu-lhe para ser apresentado a Pedroto. Alberto explicou ao treinador que Jorge Nuno estava a tentar reerguer o Porto. Os dois homens apertaram as mãos – e foi o início de uma bela amizade que mudou o rumo do nosso futebol. 

Jorge Fiel

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Música: El sombrero de tres picos, Falla
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Domingo, 25 de Abril de 2010

João Pires da Cruz

João Pires da Cruz, 44 anos, é sócio fundador da Closer, a consultora de sistemas de informação a que a generalidade dos bancos recorre quando carece de soluções para os seus problemas mais complexos. Quando fez 40 anos, decidiu trocou pela esgrima o desporto diário de desenrolar o celofane de três maços de Marlboro. Já foi campeão nacional nesta modalidade, que além do o ajudar a deixar de fumar, o ensinou a ser paciente, a abordar os problemas com mais inteligência e a articular o desempenho individual com o trabalho de equipa: “Tal como nas empresas, a preparação é feita em equipa mas, no fim do dia, cada um de nós tem que encarar e resolver individualmente os desafios”

 

 

Físico de formação e com cérebro matemático, planeou ao milímetro a operação de deixar de fumar, promessa feita a si próprio no dia em que completou 40 anos e fumou três maços de tabaco, um vício que o acompanhava desde os tempos da Faculdade de Ciências de Lisboa.

A decisão foi tomada a 27 de Novembro de 2005, mas com efeitos apenas a partir de 1 Dezembro, data que foi escolhida para o seu dia da independência do tabaco por ser feriado e 5ª feira. No dia seguinte não ia trabalhar e fazia ponte. Os termos da equação eram simples: “Era importante estar quatro dias sem fumadores à volta, sem tentação para pegar num cigarro. Se chegasse a 2ª feira sem fumar, estava ganho”, explica.

Durante estes quatro dias, sempre que lhe apetecia um cigarro ia correr para a marginal – cresceu e viveu sempre junto à praia, na linha de Cascais. O remédio revelou-se eficaz. Na primeira corrida, os pulmões e os músculos das pernas aguentaram apenas dois km antes de ele ficar completamente de rastos e sem vontade de ver cigarros, ou sequer ouvir falar deles.

João despedira-se ao mesmo tempo da adolescência e da prática desportiva. Naquele final de 2005, quando planeou evadir-se do tabaco, era um sedentário que só dava conta que estivera a trabalhar toda a noite quando acabava o tabaco, olhava para o relógio e via que eram cinco da manhã.

“Na altura, o meu desporto era desenrolar o celofane dos Marlboro”, graceja João que quando deixou de fumar estava a ultimar a criação da Closer, a empresa de tecnologia na área de sistemas de informação, que arrancou, em 2006, com 22 consultores, e hoje conta com 72 especialistas com formação diversa (físicos e matemáticos, mas também informáticos e economistas), factura dois milhões de euros e está instalada no 14º andar da Torre 2 das Amoreiras, com uma vista deslumbrante sobre Lisboa.

Na 2ª feira, 5 de Dezembro de 2005 sabia que o primeiro assalto ao tabaco estava ganho, mas que para ser vitorioso no combate tinha de começar a praticar regularmente desporto - e as corridas na Marginal não o estavam a entusiasmar. Quem o levou para a esgrima foi o seu colega e amigo Miguel Amaral, antigo esgrimista e veterano nas andanças de deixar de fumar.

“O Miguel disse-me que era importante arranjar uma paixão maior que o vicio do tabaco e a que o fumo fosse prejudicial”, conta João, que a convite do seu amigo um fim de tarde, no final do trabalho, foi experimentar no  Clube Atlântico de Cascais uma modalidade que conhecia mal, apenas de ver transmissões televisivas de provas olímpicas, nunca tendo até então percebido porque é que nem sempre o desfecho era o mesmo quando a luzinha acendia - ignorava as nuances nas regras das três disciplinas (sabre, espada e florete) da modalidade.

Foi todo um mundo novo que se abriu à frente de João, que nunca encarou a hipótese de ir para o golfe porque “andava à procura de um desporto e não de uma ocupação”. A primeira surpresa foi o fato, que parece leve, mas, na realidade, até é bastante pesado. A segunda foi a exigência em termos físicos, que é muito maior do que parece. “Percebi logo porque é que nenhum assalto dura mais do que três minutos”. A terceira foi a descoberta de que o fato não protege das pancadas.

“Quando cheguei a casa tive de dar explicações porque tinha o corpo todo coberto de nódoas negras”, graceja João, acrescentando que agora as mesmas nódoas negras garantem à mulher que ele esteve mesmo no treino de esgrima, onde apesar de o objectivo é não ser estocado, acaba-se sempre por ser tocado pelos adversários.

Foi um caso de amor à primeira vista. “É um desporto com um ponto de entrada muito baixo. Se eu for correr com o Obikwelu só o vejo na linha de partida; depois nunca mais lhe ponho os olhos em cima. Na esgrima, basta esticar o braço. Se o campeão mundial estiver a jogar com displicência pode perder com um adversário muito inferior”.

O lado mais sexy da esgrima é ser um dos poucos desportos onde é possível que um atleta, como o João, apesar de se ter iniciado apenas aos 40 anos, ter chegado ainda a tempo de ser campeão nacional.

“Há lugar para todos. Num campeonato nacional participam atletas com idades entre os 16 e os 70 anos e não há categorias de peso porque um toque faz-se com uma força de 750 gramas. Os mais novos usam a frescura física, enquanto os mais velhos tiram partido da sua experiência”, afirma João, que antes de assentar os pés na terra ainda viveu fugazmente a ilusão de ser um predestinado para a modalidade, entusiasmado pelo facto de apesar de ser estreante conseguir dar uns toques em esgrimistas do top ten.

Filho de uma educadora de infância e de um empregado de escritório da Sacor, era um miúdo esperto que não precisava de fazer um grande esforço para ter boas notas no Liceu de Oeiras. Na altura, achava óptimo não ter de estudar, mas agora acha que isso “péssimo” pois “inevitavelmente chega uma altura na nossa vida em que se tem de trabalhar no duro”.

A geofísica foi a sua primeira paixão, escorada na série Cosmos, em que ele ficava como que hipnotizado em frente ao televisor a beber as explicações de Carl Sagan sobre o funcionamento do Universo.

Morava junto à praia, mas não se tornou surfista como irmão. Praticava atletismo, jogava futebol e badminton, desembrulhando-se bem em todas estas modalidades de que gostava por igual. “Apaixonei-me por muitas coisas”, refere este benfiquista por herança familiar, que nunca entrou no novo Estádio da Luz e declara-se incapaz de estar horas seguidas a ver futebol na televisão: “Aprecio ver desporto praticado a alto nível, mas tanto pode ser futebol como basebol”.

“Gosto mais do Benfica do que de futebol”, explica este neto de um comerciante madeirense doente pelo clube da Luz, que teve cabeleireiros em Lisboa e marisqueiras em Luanda. “O meu avô materno era do tipo de ir esperar a equipa ao aeroporto. A sala de troféus do Benfica era o único sítio onde me levava a passear”.

Apesar do amor pela Geofísica, acabou por seguir a via tecnológica, na Faculdade de Ciências, atravessando sem ondas o curso de Física Tecnológica (“não fui um aluno brilhante”) que lhe abriu a porta de um laboratório do Estado, onde se demorou apenas um ano, pois, como analisou um amigo, “teve a sorte de ir parar ao pior sítio do mundo”, o que o levou a estar com os olhos e ouvidos em alerta permanente relativamente a oportunidades de emprego.

Esteve quase três anos na Fábrica do Braça de Prata, até agarrar com as duas mãos um convite para a Preator, uma consultora de sistemas de informação, que funcionou como o Abre-te Sésamo para o sector onde acabaria por deitar âncora, tornar-se empresário e conhecer o sucesso.

Estávamos em 95, nas vésperas do boom das dotcom e a Preator andava à procura de pessoas capazes de programar. “Bastava ter olhos e pernas”, ironiza, acrescentando que gostou logo de dar consultadoria na área informática, onde os problemas são todos os dias diferentes - e deu por si a pensar que se calhar era aquilo mesmo que sempre quis fazer. Demorou 30 anos até encontrar a vocação profissional e 40 até descobrir o seu desporto favorito.

Enquanto arruinava os pulmões fumando três maços de Marlboro por dia, começou a desenhar soluções à medida das necessidades dos clientes, na sua maioria bancos de investimento que, tal como ele, davam os primeiros passos em instrumentos financeiros sofisticados como derivados, futuros e opções.

“Tive a sorte de aprender com pessoas que estavam também a aprender”, diz, identificando este como o momento em que teve de começar a estudar no duro, designadamente na tese de mestrado, onde procedeu a uma crítica impiedosa aos processos markovianos que acreditam que o futuro depende do instante em que estamos e não dos instantes anteriores.

“Esta crise deita abaixo metade da Matemática que se conhece”, afirma João, um físico tecnológico que não tem dúvidas em atribuir a modelos matemáticos errados a crise do subprime. “Como tudo se baseava no facto do mercado imobiliário nos Estados nunca parado de subir, até ao rato Mickey emprestavam dinheiro. Toda a gente come uma coisa quando está embrulhada em boa matemática”.

A esgrima ajudou-o não só a deixar de fumar mas também a compreender melhor o mundo e os negócios. “A primeira lição que se aprende é a segurança. E a segunda é que antes de ser um desporto, a esgrima é uma arte. Tenho de tocar no outro sem ser tocado. A regra é tão simples que a maneira de fazer tem de ser bastante complicada, o que tem muito a ver com actividade da Closer, que consiste em desafiar a complexidade. A espada tem o mesmo comprimento para ambos os contendores e, teoricamente, tocam-se em simultâneo se cada um esticar o braço. Um problema com esta simplicidade desarmante tem de atacado com inteligência, depois com paciência – não se consegue ganhar nada sendo precipitado - e, finalmente, com certeza. E este é o nosso dia-a-dia, aquilo para o qual trabalhamos, seja de espada na mão, seja de caneta, seja de teclado”

 “A esgrima é um jogo que se ganha com a cabeça, é xadrez jogado à velocidade da luz. Um jogador burro não consegue ganhar uma prova. Temos de enganar o adversário, convencê-lo que está perto de nos tocar”, acrescenta João, o 27º no ranking nacional de uma modalidade que tem, no nosso país, cerca de dois mil praticantes e um nível internacional atestado pelo facto de Portugal foi campeão europeu de florete por equipas, em 2000, e de Joaquim Videira ter sido vice-campeão do Mundo em 2007.

Ter sido campeão nacional por equipas e participar na Taça do Mundo foram os pontos mais altos da carreira de João, que deve à esgrima o facto de estar hoje a cumprir o seu 1607º dia consecutivo sem fumar.

Os seus dois filhos, rapazes de 12 e sete anos, já andam de espada na mão no Clube Atlântico de Cascais, porque o pai ache que este desporto, a que foi tardiamente apresentado, é uma enorme lição para a vida sobre a articulação entre o desempenho individual e o trabalho de equipa:

“Sendo um desporto individual, a esgrima treina-se em equipa. Tal como num ambiente empresarial, toda a preparação dos atletas profissionais é feita em equipa mas, no fim do dia, cada um de nós tem que encarar e resolver individualmente os desafios, sem atirar o ónus da responsabilidade para os outros”.

Jorge Fiel

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Música: L'indecision, Da Silva
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Sábado, 24 de Abril de 2010

Carmo Fonseca

A cara dela, com o cabelo curto e a determinação a transbordar dos olhos azuis, andou aí pelas ruas, reproduzida nos enormes outdoors da campanha de promoção de Portugal como West Coast da Europa. Quando se tratou de mostrar os melhores de entre nós, os escolhidos foram Mourinho, Joana Vasconcelos, Cristiano Ronaldo, Mariza e Carmo Fonseca, investigadora de Medicina Molecular, que, no meio século de vida que leva, já tem na bagagem uma quantidade impressionante de prémios, comendas e outras honrarias. Ela faz parte do clube restrito dos melhores dos melhores.

“Tenho um gravíssimo problema de tempo”, confessa esta mulher que acumula os prazeres de ser cientista com o de professor (dá aulas de Biologia Molecular aos caloiros de Medicina) e directora executiva do Instituto de Medicina Molecular e do programa Harvard Medical School Portugal.  Supervisiona mais de 300 investigadores, que trabalham em projectos tão apaixonantes como a descoberta de um algoritmo que, ao monitorizar a frequência cardíaca do feto, permita identificar o momento em que ele entra em sofrimento e deve ser provocado o nascimento para evitar lesões graves.

Filha de um engenheiro que esteve em grandes obras públicas (ponte sobre o Tejo e a barragem de Cabora Bassa), Carmo nasceu na Beira, Moçambique, mas cresceu em Almada, educada pela mãe, que deixou de ser professora primária para tratar da sua única filha, que em nome da paixão pela Ciência decidiu não ter filhos. “Não sou do tipo doméstico”, diz a cientista que não admite ser perturbada quando está a escrever um paper (como tem o curso de instrutora de obediência canina, o casal de pastores alemães que tem na sua casa em S. Domingos de Rana nunca a incomoda), ou que haja música no ar quando está concentrada nas experiências, em que é viciada.

Apaixonou-se à primeira vista pela descoberta do funcionamento da vida quando, ainda no ciclo, recebeu os primeiros livros de Ciência. A partir do meio do liceu, incapazes de satisfazer a sua inesgotável curiosidade, os professores despachavam-na para a outra margem do Tejo, para buscar as respostas nos livros da biblioteca da Faculdade de Ciências, onde os seus colegas universitários lhe achavam piada e forneciam moscas para ela investigar ao microscópio, tentando arranjar uma explicação para umas terem olhos brancos e outras vermelhos.

Fartou-se dos livros quando deixou de encontrar neles as respostas e foi para o laboratório resolver as questões em aberto. “Um dos males do nosso ensino é privilegiar a reprodução e memorização do conhecimento, em vez de estimula a análise , interpretação e criação de novo conhecimento”, explica Carmo, que estudou Medicina mas nunca exerceu, e escolheu almoçarmos no La Gondola. Como de costume, comeu uma sopa e uma salada (com folhados de queijo de cabra) dispensando o café, pois vai buscar a adrenalina a outros lados.

Carmo tem um físico de atleta que denuncia ter sido remadora de competição no Clube Ferroviário de Portugal (Alcântara), e a prática de canoagem e windsurf.   Coxear ligeiramente lembra-lhe a queda grave, em que se partiu toda (sofreu fractura exposta do fémur e foi submetida a diversas operações), quando, com 20 anos, praticava escalada no Farol da Guia. “Eu era fanática por escaladas. O meu maior gozo é superar dificuldades”, explica a cientista, que agora se diverte com o Airsoft,  modalidade que consiste em interpretar no terreno situações que podiam ser enredo dos thrillers de Daniel Silva – no último exercício a equipa dela foi bem sucedida na missão, que consistia em tomar um posto inimigo, descobrir o mapa que indicava a localização do prisioneiro, libertá-lo e conduzi-lo são e salvo ao ponto de aterragem do helicóptero que o evacuou.

“O meu objectivo na vida não é fazer muitas coisas mas arranjar boas soluções para os problemas”, sintetiza Carmo, que na sua investigação sobre o genoma humano percebeu o porquê da distrofia muscular que afecta alguns rapazes (e que por isso perdem progressivamente a força muscular e não chegam a atingir a idade adulta) – e esta resposta a vai ser usada para tratar esta doença.  

 

Curiosidades

Na Faculdade de Medicina, alguns professores proibiram-na de os interromper com perguntas, tantas eram as questões que ela levantava. Carmo reconhece que era um bocado chata e não totalmente inocente: “Se eu sentia que um professor não estava muito à vontade numa matéria, não o largava com perguntas”

 “Foram os anos de isolamento do país, fruto da política do Orgulhosamente Sós de Salazar, que mataram o nosso desenvolvimento são responsáveis pelo nosso atraso”, garante Carmo, que defende a exportação de estudantes e investigadores para, no estrangeiro, cresceram em contacto com outros modos de pensar e encarar a vida

Não vê muita televisão e não é fã de futebol, mas 3ª feira à noite esteve em frente ao ecrã, com o marido (um engenheiro electrotécnico), ambos a torcerem pelo Inter no jogo da Champions contra o Braça: “Os portugueses deviam seguir o exemplo do Mourinho, que chegou a Inglaterra e afirmou ser especial perante aqueles ingleses snobs e arrogantes que nos tratam por Piggs. That’s it man! Temos de deixar de ser subservientes. Mas depois não se pode falhar na entrega, na prova do I can do it!”.

 

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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La Gondola

Av. Berna, 64, Lisboa

2 sopas família … 6,00

Salada com queijo de cabra … 10,50

Carpaccio … 10,50

4 Águas das Pedras  … 6,00

2 ananás natural.. 9,00

1 café…1,50

Total… 43,50

Música: The loosing end, Neil Young
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Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

Lendo nas cinzas do Eyjafjallajorvll

As 600 mil garrafas de vinho que a TAP compra todos os anos a produtores portugueses são apenas uma das muitas boas razões para que o método a seguir na sua privatização não seja o de a entregar no regaço de quem der mais para abater ao monstruoso défice que o desespero do Governo triplicou em 2009. Da equação fazem ainda parte o meio milhão de euros de sumos comprados à Compal, os sete milhões de cafés adquiridos à Delta, os 220 mil euros que a Renova ganha ao abastecer os aviões de papel higiénico e guardanapos. Isto para já não falar dos 6,5 milhões de turistas/ano que nos trás e asseguram 23 milhões de dormidas.

A TAP já devia ter vendida há muito tempo e a única que explicação que arranjo para não ter sido é que a sua manutenção no sector público foi útil porque permitiu que governos de todas das cores a usassem para fazerem uns jeitos aos amigos. Estou a pensar, por exemplo, na dor de cabeça de que o GES se livrou quando a TAP lhe comprou a Portugália – a alternativa era fechar as portas, ou seja os Espíritos não só não metiam algum ao bolso como ainda por cima ficavam mal na fotografia.

O facto da TAP ser a maior exportadora nacional, com vendas ao exterior de 1,4 mil milhões de euros em 2009, aconselha a que se aproveite a operação de privatização para garantir que ela sobreviverá ao combate de morte que se trava nos céus da Europa. Para resistirem ao domínio da Lufthansa, a Air France casou com a KLM e a British Airways não teve outro remédio senão fundir-se com a Ibéria.

Da mesma maneira que se quisermos ganhar ao Roger Federer não o devemos desafiar para uma partida de ténis (talvez tenhamos sorte nos matrequilhos ou no xadrez, mas no court é certo e sabido que estamos feitos ao bife), a TAP para sobreviver tem aprofundar as suas posições no espaço vital que lhe permitiu fechar 2009 com um pequeno prejuízo (3,5 milhões de euros) e aspirar a escrever com tinta azul o resultado deste ano.

A nuvem de cinzas do Eyjafjallajorvll desenhou a área onde a TAP (que apenas viu 50% dos seus voos afectados) deve continuar a apostar para ter futuro e prosperar – as rotas africanas e atlânticas (em particular as do sul). A óbvia vocação da TAP é fazer de Lisboa uma placa giratória, entre a Europa, África e América Latina. Nas cinzas do vulcão islandês é possível ler que o Governo deve aproveitar a privatização da TAP para promover uma fusão estratégica com a angolana TAAG e a brasileira TAM, que crie um gigante aéreo que fale português e domine pelo ar as rotas que os nossos antepassadas outrora controlaram no mar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Música: Helpless, Neil Young
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Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

Miguel Rangel

O logo dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, é uma das imagens, fotografias, pequenos textos e frases doutrinárias afixados nas paredes revestidas a papel prateado da sala do centro corporativo da Sonae, na Maia, onde durante mais de um ano esteve em análise e gestação a nova marca do maior grupo privado português.

“Tem de se pensar muito à frente para conseguir construir uma marca que vai ter valor dez anos depois de ter sido criada. Tem de ser uma coisa à prova de bala!”, explica Miguel Rangel, 34 anos, director de Relações Institucionais, Marca e  Comunicação da Sonae, que admira a antecedência com que as candidaturas têm de definir a sua imagem e a capacidade que a marca Olímpíadas têm de se ir vai renovando, de quatro em quatro anos, a partir de uma matriz com mais de um século.

A Sonae é bem mais nova que os Jogos Olímpicos da era moderna. Comemorou meio século a 18 de Setembro de 2009 numa festa marcada pela apresentação do novo logo da Sonae, o 5º desde que o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães fundou em 1959 a Sociedade Nacional de Aglomerados e Estratificados.

No vértice do processo de criação da nova marca esteve Miguel, que tinha 17 anos e era caloiro no curso de Gestão da Faculdade de Economia do Porto quando a Wolf Ollins criou a imagem que o maior empregador português (38 mil trabalhadores) usou ao longo dos últimos 17 anos.

Quando ele nasceu na Ordem da Trindade, Porto, Belmiro de Azevedo tinha acabado de pacificar a Sonae, que fora intervencionada após o 25 de Abril, e consolidava o seu controlo sobre a empresa, que conquistaria na sequência de um duro braço de ferro com os herdeiros e a viúva do banqueiro.

Encantado com marcas como a Lego (primeiro) e a Levi’s (depois), cresceu em Rebordosa, Paredes, onde vivem o pai (um benfiquista que trabalha na área da contabilidade) e a mãe, professora de Física no Secundário, numa casa com jardim de onde se avistava a Novopan, uma das mais importantes fábricas de aglomerados da Sonae, das primeiras a estar cotadas em bolsa, que, no entretanto, deu lugar a um Modelo (sinal dos tempos).

Ainda lhe passou pela cabeça ir para Arquitectura, mas acabou por escolher Gestão, e não teve dúvidas quando, no 5º ano do curso, teve de optar entre cadeiras da área financeira ou do marketing. O que o apaixonava era a área comercial.

O primeiro dinheiro ganhou-o com 20 anos, na Sorbonne, a dar aulas de Economia Portuguesa a luso-descendentes, quando estava em Paris, onde fez o 4º ano ao abrigo do Erasmus, dormindo na Casa de Portugal e comendo em cantinas. Ainda poupou  dinheiro para fazer um Inter Rail no Verão de 97, com partida da Gare Nord e escalas em Bruxelas, Amesterdão, Berlim (onde ficou impressionado pela floresta de gruas que marcavam a paisagem da cidade), Praga, Budapeste e Roma, antes de regressar a Paris.

Um ano volvido, com o curso acabado, disparou em várias direcções. No final, hesitou entre duas respostas aos currículos enviados pelo correio. A Decathlon dava-lhe a hipótese de retornar a Paris, mas ele preferiu um estágio remunerado de três meses (Setembro a Dezembro) na Sonae Distribuição, que apanhou a dura campanha de Natal. No final, a Sonae deu-lhe a melhor prenda de Natal - um convite para ficar a trabalhar no Marketing da Distribuição.

Andou pelas equipas de decoração de lojas, desenferrujou o francês como responsável pelo Modelo Bonjour (onde a Promodès era parceira), passou pelos novos formatos (Vobis e Worten) até que em 2004 lhe entregaram a gestão da mais valiosa marca do grupo (Continente), de que, no ano seguinte, iria liderar o processo de renovação.

“A distribuição foi uma escola. Vivia-se um ambiente muito competitivo e aguerrido, em que tínhamos como concorrentes grandes players internacionais -Auchan, Intermarché, Carrefour e Lidl - e ainda o grupo Jerónimo Martins”, afirma Miguel, que se declara “muito feliz e realizado” com a mudança da marca Continente.

Na holding também ficaram felizes pois, em 2008, pouco depois de Belmiro ter transmitido ao seu filho Paulo as rédeas da Sonae, Miguel foi convidado para gerir a comunicação institucional e marketing do grupo. Estava apenas há quatro meses na Maia, quando lhe pediram para olhar para a marca - e perceber se ela estava bem ou mal.

Miguel instalou-se na sala do projecto, cujas paredes prateadas foram ganhando o aspecto de um caleidoscópio ao longo dos meses em que acolheu sessões de brainstorming e creative meetings. Centenas de pessoas passaram por esta sala do Learning Center da Sonae.

“À partida não sabíamos se íamos mudar ou não”, adverte Miguel, acrescentando que a partir de determinada altura se tornou claro ser preciso reforçar o entusiasmo na marca e acrescentar-lhe atributos essenciais como a criatividade e abertura – bem evidenciar a sua world class, ou seja os padrões internacionais porque se rege.

O resultado está aí, numa imagem de marca mutante - que representa um investimento de 700 mil euros e a cuja concepção está associada a portuguesa Ivity - que foi anunciada ao mundo há pouco mais de um mês (10 de Fevereiro de 2010) e começa agora a dar os primeiros passos.

“Estamos a lançar uma criança na vida, com uma nova mensagem muito inovadora”, resume Miguel, que tem experiência no assunto, pois tem um filho de seis anos, e que apesar de levar uma vida preenchida, ainda arranja tempo para relaxar jogando ténis, ir ao cinema no Arrábida Shopping, e para dar uso ao seu lugar no Dragão (é sócio do FC Porto há 20 anos) e à assinatura dos concertos Fora de Série da Orquestra Nacional do Porto da Casa da Música – uma das marcas portugueses que mais admira, quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista de conteúdos, e que é mutante, tal como a da Sonae.

 

Jorge Fiel

Esta peça foi publicada no Briefing 7, de Março 2010

 

Música: Fill me up. Linda Perry
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Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Afonso Camões

Desde miúdo, entre a infância e a adolescência atravessadas em Castelo Branco, que se revelou jeitoso de pés e mãos. A habilidade com os pés mostrou-a envergando a camisola preta do Desportivo e a vermelha do Benfica local. A queda para a escrita foi precocemente detectada nos escritos publicados na Reconquista e no Jornal do Fundão, quando ainda era menor de idade, se bem que já maior de juízo.

Podia ter feito carreira na bola. Mede 1m82 e já era espigado quando debutou nos juvenis, o que o qualificava para defesa central. Demorou-se apenas uma época no Desportivo, de onde se transferiu para o Benfica de Castelo Branco, onde foi sempre capitão de equipa e campeão distrital, disputando por isso participando por com U. Tomar, Académica e U. Leiria o apuramento da Zona Centro para a fase final dos nacionais.

O ponto mas alto das quatro épocas, em que jogou futebol, foi ter jogado, ainda com idade júnior, pelas primeiras do Benfica de Castelo Branco contra o Académico de Viseu, em que era jogador-treinador Cavém, velha glória do Benfica bicampeão europeu, um cromo que ele tinha virado vezes sem conta quando era puto, no recreio do liceu.

Um dirigente do Desportivo, olheiro por conta dos grandes do futebol, acenou-lhe com uns treinos na Luz e Alvalade, a ver se ficava, mas o pai não esteve pelos ajustes, cortando assim cerce as asas à carreira de futebolista de Afonso Barata Camões, a que o 25 de Abril pôs ponto final, quando outros valores mais altos se levantaram.

Era moço quando ganhou os primeiros dinheiros em biscates arranjados pelo pai, João Barata Camões, que tinhas umas hortas e teve a carpintaria como ofício principal até que o Correio Mor o nomeou, em 1963, carteiro provincial de 3ª classe. Nas férias grandes, Afonso carregava aparas para lenha na Serração Anjo da Guarda e ajudava o pai no giro rural, alugando por dois tostões o serviço de leitura de aerogramas e por cinco tostões o de escrever as cartas de resposta.

Repetiu, em Castelo Branco, o percurso escolar percorrido, em gerações anteriores por Ramalho Eanes e Marçal Brilo (Primário nº 7 e Liceu Nun’Álvares), repartindo o tempo pelos estudos, futebol, música e militância católica, sendo que a estas duas actividades ex-curriculares não foi estranha a influência de um professor progressista de Religião e Moral, que era amigo de Fanhais e nas aulas falava dos problemas da juventude, da sexualidade e das guerras em África e no Vietname. Tocou bandola na Orquestra Típica Albicastrense. Mais tarde aprendeu por ele viola – e actualmente anda com um curso de concertina na mala do seu Mercedes.

Aos 16 anos, em 1972, já a alfabetizar adultos e membro da Equipa Nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica), ao lado de Jorge Wemans, Manuel Pinto e Joaquim Azevedo. Foi esta a sua porta entrada para a política activa. Em 1973 colou cartazes e fez a campanha eleitoral pela CDE em Castelo Branco, e no ano seguinte, é um dos militantes da primeira hora do MES (Movimento de Esquerda Socialista).

Dirigente nacional do estudantes do MES, foi destacado para o Porto, onde se inscreveu em Economia, onde a falta de bases a Matemática o impossibilitou de brilhar tão alto nos estudos como no movimento estudantil. A lista para direcção de Estudantes da FEP por ele liderada derrotou sempre a da direita, onde sobressaia Rui Rio, que só logrou ser eleito quando Afonso trocou a faculdade pelo jornalismo.

Uma entrevista chegou para Freitas Cruz o admitir na Redacção de O Primeiro de Janeiro, em Janeiro de 1979, onde se destacou logo no ano seguinte, ao ganhar o prémio internacional de jornalismo atribuído pela Associação de Imprensa Mexicana com uma revisitação à nossa história trágico-marítima – uma reportagem sobre uma série de naufrágios ocorridos num curto espaço de tempo na costa do Porto.

Em 1982, tornou-se um dos heróis da luta pela elevação ao concelho de Vizela, quando a RTP filmou a GNR a rasgar-lhe o casaco e espancá-lo quando ele estava a cobrir o boicote dos vizelenses às eleições. O povo de Vizela deu-lhe um casaco novo e baptizou rua da Liberdade de Imprensa  a artéria em que foi sovado.

No ano seguinte, acompanhou Marcelo Rebelo de Sousa e Victor Cunha Rego na fundação do Semanário, onde trabalhou um ano no Porto, antes de se transferir para Lisboa, onde se distinguiu na secção Política pela sua perspicácia, demonstrada quando, em 1985, publicou pela primeira vez nos jornais as caras de Sócrates e Vara, que ilustravam um artigo intitulado “Duas jovens promessas do novo PS” .

Regressou a Castelo Branco, em 1988, onde esteve durante 126 semanas, fundando um jornal regional, a Gazeta do Interior, acto primeiro do sonho de criar uma rede nacional de jornais locais, que foi interrompido pelo convite de Rocha Vieira para ser director de Comunicação do Governo de Macau, cargo que ocupou de 1991 até que a 19 de Dezembro de 1999 o general dobrou a bandeira nacional e entregou o território aos chineses. Dos oito anos no Oriente trouxe, entre outras coisas, conhecimentos, a Medalha de Mérito Profissional de Macau, um curso de Gestão de Crises feito em Singapura, e uma poupança que lhe permitiu adquirir prédio rústicos e urbanos em Castelo Branco.

De volta à Europa, esteve três anos, por conta do grupo Lena, a construir a rede de jornais regionais da Sojormedia, enquanto fazia uma pós graduação em Jornalismo na Moderna. Convidado por Balsemão, lançou a Rede Expresso de jornais regionais, até que, em 2005, Joaquim Oliveira o contratou para administrador do seu grupo de media, que acabara de engordar com a compra da Lusomundo (JN, DN, TSF).

“Este é o segundo pin de ouro da Controlinveste. O primeiro sou eu que o tenho. Para conseguirem receber um vocês vão ter de fazer para o merecer, como o Afonso”, disse Joaquim Oliveira, no jantar, com todos os directores de primeira linha do grupo, que ofereceu a Camões para assinalar a sua partida para a presidência da Lusa, cargo que ocupa há exactamente um ano.

 

Afonso tem uma casa em Camões

O Camões que ele leva no apelido não tem a ver com o Luís Vaz, mas sim com um tetravô, chamado Manuel, que era de Camões e quando casou foi viver para outra freguesia passou a ser tratado por o Manuel de Camões, pois havia mais Maneis. E a coisa pegou. Afonso regressou às origens e comprou uma casa em Camões, com alguns hectares à volta, atravessada por um ribeiro, onde mantém um rebanho de nove ovelhas e acaba de plantar 12 marmeleiros, três freixos, dois liquidambares e três plátanos. Ao todo, tem 18 hectares de terra com oliveiras que lhe dão 135 litros de azeite/ano. Com dois filhos, Ana João, 22 anos, estudante de Guionismo, e Mário, 20 anos, graduado pelo Colégio Militar e estudante de Gestão, Afonso é casado com Margarida, uma professora que está a trabalhar no Instituto Camões – como dizia a outra, há coincidências.

 

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada no Briefing 8, de Abril 2010

Música: No air, Jordin Sparks
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Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

Gil Moreira dos Santos

Os tribunais não tem segredos para ele, que já se sentou em todos os lugares possíveis de uma sala de audiências, desde o de juiz, que faz levantar toda a gente quando entra, até ao de advogado de defesa, passando pelos de delegado do Ministério Público e arguido – condição mais recente em que se estreou por vias de ter puxado as orelhas e ralhado, ameaçando dar “tatau no tutu” a um colega do profissão, que disse mal dele na Internet. “Fiz o que se faz a um menino que se castiga”, explica.

Gil Moreira dos Santos, 69 anos, é agora conhecido como “o advogado do Pinto da Costa” (para quem conseguiu a absolvição em processos que se adivinhavam cabeludos), qualificação que lhe merece o recurso à ironia sarcástica que é uma das suas marcas de água: “Passei a ser considerado o Emplastro II. O Emplastro diz que é filho do Pinto da Costa. Eu sou o advogado”.

Filho de um empregado comercial, que esteve na fundação de diversos clubes de hóquei em patins, entre os quais o Infante Sagres, Gil nasceu no Porto a 1 de Dezembro de 1940, e deu os primeiros passos em Lordelo do Ouro, não muito longe do andar onde mora na marginal do Douro, junto à ponte da Arrábida. “Vivo debaixo da ponte, sou uma espécie de clochard”, graceja o advogado que vendeu a casa, junto a Serralves, quando o último dos seus três filhos deixou a casa paterna.

Aprendeu a ler nas páginas de “O Comércio do Porto”, tornando-se portista por apreciar a estética do salto de Barrigana, o keeper azul e branco. Viu muitos jogos do Porto no campo da Constituição e lembra-se de assistir a treinos dados por Yustricht nas Antas. Declara-se portista militante, mas acrescenta ser capaz de ver todas as cores do arco-íris e não aparenta estar incomodado por o seu clube ter falhado o segundo penta: “Deve haver intermitência. E de vez em quando só faz bem levar um banho de humildade”

Atravessou a adolescência a saltar entre a casa dos avós, no Porto, onde fez o liceu no Alexandre Herculano, e a casa paterna, em Oliveira de Azeméis, onde o pai era o gerente do Palácio Ford. Dúvidas quanto ao seu futuro, nunca as teve. Ainda andava na 4ª classe e já toda a gente o ouvia dizer que quando fosse grande queria ser juiz.

À mingua de curso de Direito no Porto, quando chegou a hora foi estudar para Lisboa, alugando um quarto em Alvalade, que lhe permitia ir e vir a pé das aulas, quando, a partir do 2º ano, a faculdade abriu as suas instalações na Cidade Universitária. Em Direito jogou rugby, na posição de três quartos (“como era franzino, metia a bola nas formações e distribuía jogo”) mas também futebol numa equipa que tinha um excelente guarda redes, “um tipo brilhante, mas muito teimoso, sempre do contra, chamado Medina Carreira que já ia no seu terceiro curso superior”.

Foi colega de gente conhecida e de obediências políticas diversas, como o socialista Afonso de Barros e o comunista Ramos de Almeida, num curso que acabou em 1962, o ano da crise académica de Lisboa liderada pelo Cenoura (a alcunha do futuro PR Jorge Sampaio).

Licenciado iniciou a via sacra que na altura os candidatos a juízes tinham de percorrer, fazendo carreira no Ministério enquanto iam conhecendo o Portugal desconhecido. Como um saltimbanco, andou pela Feira, Amares (onde comprou o seu primeiro carro, um VW Carocha de matricula ED-21-00, que teve de vender quando foi chamado para a tropa), Melgaço, Santo Tirso e Porto, até que no ano em que fez 32 anos, atingiu finalmente o azimute traçado na 4ª classe e foi aprovado no concurso para juiz, tendo sido colocado em Cinfães. Pelo meio fez uma tropa regalada, entre 1964/67, passando a maior parte dos três anos colocado no Serviço de Justiça do Quartel General do Porto, escapando à mobilização para a Guerra Colonial por ter sido o 3º classificado do seu curso (Carlos Cruz, que ficou em 5º lugar, também evitou a ida para África e foi colocado nos serviços cartográficos do exército).

O primeiro caso foi o de um homem vinha acusado de homicídio involuntário porque a carga de pedras que transportava esmagou uma pessoa. Como ficou provado que o réu desconhecia que a vítima estava atrás, o juiz Gil Moreira dos Santos optou pela mais leve das penas: seis meses remíveis.

Mais sui generis foi o caso de uma rapariga que era taxista e a GNR acusava da transgressão por não usar o boné regulamentar. O caso encerrava em si alguma dose de hipocrisia. Só havia dois motoristas de táxi em Cinfães, a rapariga era um deles e fazia regularmente serviços para o Tribunal. Gil absolveu-a, argumentando que o boné não tinha sido feito a pensar na hipótese de uma mulher ser taxista.

Não se arrepende de nenhuma das sentenças que deu durante a sua vida de juiz, tumultuada pela Revolução de Abril. Como tinha feito serviço em dois tribunais plenários, foi saneado por uma lei aprovada em 1975. “Fui fascista por diploma legal”, comenta. Quando foi reintegrado, as coisas nunca mais foram iguais. Problemas com as colocações fizeram-se sentir a mais na Magistratura e levaram-no a tomar, com 37 anos, a dolorosa decisão de trocar a profissão com que sonhara desde criança pela de advogado em regime de profissão liberal.

Vasco Graça Moura, seu colega dos tempos, encontrou-o na avenida dos Aliados e mal soube que ele estava disponível, convidou-o para ir trabalhar para o escritório do seu tio Mário. A partir daqui foi sempre a subir. “Nunca me faltou trabalho”, reconhece Gil, que se diverte a viajar com a mulher (em Março foram à Hungria e República Checa, e em 2009 andaram pelo Vietname e Cambodja), a dar aulas na Portucalense e a escrever livros sobre Direito (e não só), editados pelo seu amigo Cruz dos Santos (ex-Inova e Oiro do Dia).

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada no Advocatus 1, de Abril 2010

 

Música: Let it rain, Amanda Marshall
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Domingo, 18 de Abril de 2010

António Pires de Lima

António Pires de Lima, 48 anos, presidente executivo da Unicer, fez-se homem no S. João de Brito, onde limpava todas as provas de fundo e corta-mato, correu nos kart e foi durante dois anos titular indiscutível no meio campo da selecção de futebol do colégio. Na Católica, foi fundador e atleta de uma equipa de futebol que fazia boa figura no campeonato universitário e por pouco não subiu à II Distrital da AF Lisboa.  “O desporto é uma forma de educação fantástica e uma escola de virtudes onde aprendemos a ganhar, a saber perder e a compreender a importância do trabalho em equipa”, afirma este gestor que até chegar às cervejas, passou pelos pensos Evax, tampões Tampax, papel higiénico Scottex, embalagens Tetra Pak e sumos Compal

 

O futuro de António Pires de Lima como futebolista ficou seriamente comprometido naquele dia em que a equipa da Católica foi à Musgueira derrotar os Águias por 1-0.

O jogo era decisivo para a subida à II Distrital da Associação de Futebol de Lisboa, e os adeptos locais não encararam bem que os betinhos da Católica, com um equipamento todo naice à Ajax (só que a barra vertical no meio da camisola era azul e não vermelha), tivessem a ousadia de ir ganhar ao seu campo.

O caldo entornou-se quando os universitários fizeram o golo, que o árbitro, insuspeito de caseirismo, validou, apontando para o centro do terreno. Levou logo com uma pedrada, que o deixou duas semanas de baixa, e o jogo quedou-se por ali.

Ao verem as coisas mal paradas, os jogadores da Católica rapidamente se refugiaram na casa de banho, onde permaneceram trancados - e sitiados pelos adeptos em fúria do Recreativo Águias da Musgueira - até à chegada do contingente da PSP que os resgatou.

Apesar de ter concluído num brilhante 2º lugar a época de estreia no Distrital da AF de Lisboa, a Católica descontinuou a sua participação nesta prova e concentrou os esforços no campeonato universitário de futebol, bem mais pacífico e onde o seu onze também fazia boa figura.

“Os jogos do Distrital, disputados em campo pelado e com o público sempre muito hostil, eram muito violentos. Os adversários davam muito cacetada e nós estávamos sempre lesionados porque não fazíamos o aquecimento como devia ser. Mas foi uma experiência engraçada”, diz António, em jeito de balanço da época em que andou pela Liga dos Últimos.

Ser futebolista do Sporting foi o primeiro e mais consistente sonho de juventude do presidente executivo da Unicer, ambição que não era incentivada pelo pai, homónimo, um advogado que chegaria a bastonário.

António nasceu a 7 de Abril de 1962, numa família conservadora e tradicional, em que, apesar do avô paterno ser director geral do Ministério do Interior, o pai não escapou a ser mobilizado por três vezes para o Ultramar, onde serviu no exército como capitão miliciano. Com quatro anos apenas, teve o baptismo do ar, ao embarcar com a mãe, na Portela, num avião da TAP com destino a Luanda, para se juntar ao pai que partira três meses antes para cumprir a sua terceira e última comissão.

“As minhas primeiras memórias – os cheiros, as imagens, as casas - são de Luanda. No mês passado, fui em trabalho a Angola e senti alguma nostalgia desses tempos quando passei junto à casa onde vivemos, no bairro de Alvalade, e relembrei as idas à escola e os meus primeiros passeios de bicicleta”, conta.

Em 1968, com seis anos, regressou a Lisboa e ao 4º esqº do nº 15 da rua Padre António Vieira, onde moraria até aos 22 anos – e que agora é habitado por Maria José Ritta e Jorge Sampaio, que compraram o andar aos pais dele (na altura em que ele miúdo moravam no rés-do-chão direito), onde são vizinhos do ex-ministro Correia de Campos, que reside no 4º dtº.

Os jesuítas encarregaram-se da sua formação, cultural e desportiva, durante os onze anos seguintes. Entre 1968 e 1979 fez a primária e o secundário no Colégio de S. João de Brito, um período marcante na sua vida.

Na altura, os terrenos do colégio estendiam-se até à Alameda das Linhas de Torres e incluíam uma pista de kart, gerida pelo padre Ferreira da Silva, que arranjava os karts e organizava corridas, em que António participou activamente, até à 4ª classe, sem resultados por aí além.

“Os motores nunca foram a minha especialidade”, confessa António, cujas capacidades motores o habilitavam a distinguir-se noutras modalidades, como o atletismo ou o futebol.  

Como tinha a mania das corridas - ao ponto de dispensar os serviços da Carris nas suas deslocações casa-colégio –, foi acumulando uma resistência notável que lhe permitiu limpar todas as provas de corta-mato e fundo, não só as internas, mas também as competições da Festa dos Alunos que contavam com a participação de atletas externos.

No futebol, começou logo a jogar na primeira classe, onde desde logo se tornou o delegado da turma para efeitos desportivos, organizando campeonatos e jogos com equipas de fora, como do Colégio Militar, do Valssassina ou até das camadas jovens do Sporting (“levávamos sempre grandes tareias”, recorda). Nos dois últimos anos no S. João de Brito, foi titular da selecção do colégio, alinhando a médio centro (posição para que recuou depois de ter sido avançado durante os quatro anos da primária), numa equipa orientada pelo padre Alberto, que teve o imenso prazer de rever este ano, no camarote do Sporting, após longos anos sem contacto,

Esta intensa actividade desportiva proporcionada pelas excelentes instalações desportivas do S. João de Brito, ajudavam a queimar os excessos de adrenalina acumulada num colégio cuja frequência estava vedada.

“É uma grande maldade educar jovens num ambiente exclusivamente masculino”, declara, antes de gracejar que Deus o compensou por isso, já que vive rodeado de mulheres: tem seis em casa (a mulher e cinco filhas), já não contando com a empregada - e duas afilhadas.

Além de estudar e praticar todo o tipo de desporto (desde os karts até ao futebol, passando pelo atletismo, caricas, basquetebol, etc), António ainda arranjou tempo no colégio para se iniciar na política, conquistando a direcção da Associação de Estudantes com uma lista feita com Paulo Portas, seu amigo e colega de turma desde a 1ª classe, que naqueles primórdios da sua juventude ainda era militante da JSD.

Hesitou quanto ao curso a seguir. Sabia o que não queria (continuar a tradição familiar e ir para Direito) mas não tinha certezas sobre o que queria, para além de ser um “um profissional bom”. Ainda lhe passou pela cabeça ir para Engenharia, mas depois, por exclusão de partes, optou por Economia.

Na Católica, onde apanhou pela frente um verdadeiro Dream Team de professores (Alfredo de Sousa, Cavaco Silva, os manos Pinto Barbosa, António Borges, João César das Neves, entre outros), começou por experimentar algumas dificuldades (o curso era demasiado conceptual para o seu gosto) até ter descoberto a vocação ao fazer umas cadeiras do curso de Gestão ligadas ao Marketing.

O curso de Economia não foi a única coisa que estranhou na Católica, onde, ao contrário do que sucedia no S. João de Brito, havia raparigas com fartura- mas não havia espaços dedicados à prática desportiva. Logo tratou de resolver o problema. Com a ajuda de colegas como Rui Horta e Costa (que viria a ser CFO da EDP), Paulo Pereira (“uma defesa central bruto como as casas”, que trabalha num banco de investimento), João Queimado (que posteriormente trocaria o futebol pelo rugby) e Carlos Mota (que se tornaria CEO das Carnes Nobre), montou a equipa de futebol da Católica e estabeleceu um protocolo para usarem o Estádio Universitário.

Além do futebol de onze – que disputou o campeonato universitário (“Classificava-nos entre o 2º e o 3º lugar. Quem ganhava sempre era o Técnico que tinha uma equipa muito boa”) e teve a passagem acidentada pela III Distrital já aqui referida -, António ainda alinhava regularmente na equipa de futebol de salão dos alunos, que aplicava grandes tareias à dos assistentes, onde jogavam António Mexia e Viana Baptista.

A paixão assolapada pelo Sporting, tolerada pelo pai, foi alimentada desde a infância pelo tio Zé, um empresário que vinha da Parede no seu Mini e que o ia buscar para ambos sofreram pelos leões no velho José de Alvalade, onde ele coleccionou alegrias e tristezas naquele tempo em que o seu clube ganhava um campeonato de quatro em quatro anos – e o Benfica arrematava os três que ficavam neste intervalo.

Yazalde foi um dos jogadores que mais lhe encheu as medidas, mas recita dum fôlego outros ídolos da sua adolescência: Damas, Pedro Gomes, Zé Carlos, Laranjeira, Baltasar, Dinis, Keita, Jordão, Manuel Fernandes. E Peres era indubitavelmente o melhor na posição em que alinhava (médio direito) nos gloriosos tempos da Católica: “O Fraguito, que veio do Boavista, também era muito bom mas as lesões encurtaram-lhe a carreira”.

Mas Carlos Lopes, vencedor olímpico da Maratona de Los Angeles, em 1984, foi sem dúvida o herói maior para ele, que se fartara de ganhar provas de fundo no S. João de Brito e estava na altura expatriado em Barcelona, onde fazia um MBA com patrocínio paterno. Como era tarado pelo Sporting, devorava a Bola, apesar de a receber com três dias de atraso. E o pai estava obrigado a ligar-lhe no final dos jogos para informá-lo dos resultados do seu Sporting – foi assim que soube dos memoráveis 7-1 aplicados ao Benfica.

Já de volta à pátria, chorou como uma Madalena no final do jogo em que Carlos Queirós deixou fugir o título ao ser derrotado por 6-3 com o Benfica. E, por muitos anos que viva, nunca mais se irá esquecer da tragédia leonina em que, numa semana, no ano em que o clube comemorava o seu centenário, perderam o título para o Benfica, a final da Taça UEFA, em Alvalade, contra o CSKA de Moscovo, e o apuramento para a Champions num jogo contra o Nacional.

Reconhece que teve alguma dificuldade em explicar ao avô que o seu primeiro emrpego, na Procter & Gamble, consistia em vender pensos higiénicos Evax, tampões Tampax e fraldas Dodot. Depois de três anos nesta multinacional, saltou para outra, arrancando, quase a partir do zero, com a operação portuguesa da Scottex e rapidamente abocanhou um quarto do mercado nacional de papel higiénico.

A Tetra Pak (92-93) foi a última escala no seu périplo por multinacionais, antes de decidir que criaria raízes em Portugal, cobrindo-se de glória na Compal/Nutrinveste, onde numa dúzia de anos logrou multiplicar os meiso libertos por 16.

“O desporto é uma forma de educação fantástica, que nos deixa preparação física para o resto da vida, e uma escola de virtudes, onde aprendemos a ganhar, a saber perder e a compreender a importância do trabalho em equipa. Foi uma óptima escola para a minha formação como gestor”, remata António Pires de Lima, que deixou de jogar futebol quando a dor da lesão superou o prazer da diversão e que agora vai umas duas vezes por semana ao ginásio, onde um personal trainer o ajuda a atenuar os efeitos de uma hérnia discal, e não passa um fim-de-semana sem jogar golfe (handicap 15), de manhãzinha cedo, no Estoril: “É um prazer enorme. Quando estou a jogar, desligo por completo das minhas preocupações profissionais e políticas. É o anti-stress total”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada hoje em O Jogo

Música: Woodstock, Joni Mitchell
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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Sábado, 17 de Abril de 2010

Carlos Tê

“Qual foi o último grande hit da música portuguesa?” A eternidade que demorei até articular uma resposta  - “Alguma coisa do João Pedro Pais?” – era parte da demonstração da tese de Carlos Tê de que “a música se tornou irrelevante, perdeu a capacidade de mexer com a vida das pessoas e de fazer parte do nosso imaginário colectivo”. A resposta certa era o “Encosta-te a mim”, de Jorge Palma, uma canção já velha de três anos.

A indústria musical deu uma grande volta desde que, há 30 anos, foi editado “Ar de Rock”, o álbum fundador do rock português que tinha como guarda avançada o “Chico Fininho”, uma canção que Carlos escrevera por gozo, para provar que o rock e a língua portuguesa eram incompatíveis.

Rui Veloso achou graça à música, que Carlos cantava a pedido nas festas de anos, deu-lhe um arranjo e inclui-a na cassete que mandou para a editora – o resto era tudo canções em inglês. Foi, por isso, com alguma surpresa que ouviram David Ferreira e Francisco Vasconcelos dizerem-lhes que editavam um disco se eles conseguissem arranjar mais dez canções iguais a “Chico Fininho”.

1979 foi um ano glorioso para Carlos Monteiro, aka Tê, abreviatura de Tarado Musical, alcunha que ganhou por saber tudo quanto se passava, o que, nos recuados tempos em que a Internet nem existia sequer nos livros de ficção científica da colecção Argonauta, era conseguido à custa da leitura compulsiva da imprensa da especialidade, nacional (“Disco Moda e Música”, “Memória de Elefante” e “Mundo da Canção”) e internacional (“Melody Maker”, “Sounds” e “New Musical Express”) adquirida na Bertrand de 31 de Janeiro.

“Os Who actuam hoje à noite em Hammersmith”, anunciava ele à mesa do Varanda da Barra, o café da Pasteleira onde parava com os amigos e enganavam a fome com os económicos pregos de corrida (sandes de pão com croquete, prensada no grelhador). Carlos andava sempre com os LP numa mão e na outra o gira-discos Philips de baquelite e a pilhas, que tinha vindo com o curso de correspondência onde aprendeu inglês – aos 14 anos desatinou com curso de montador de serralharia que andava a tirar na Escola Comercial e Industrial de Matosinhos e arranjou um emprego no escritório da rua D. João IV da Tasso de Sousa, a importadora Mazda.

Em 1979, andava apaixonadíssimo, escreveu à primeira, sem emenda, as letras das dez canções que fizeram companhia a “Chico Fininho” no álbum de estreia de Rui Veloso, e trocou o balcão de uma loja de material eléctrico, na rua de Belmonte, onde vendia interruptores e mudava a resistências dos ferros de engomar das velinhas, por um lugar no Banco de Portugal, onde se demorou 16 anos, durante os quais fez o exame ad hoc e se licenciou em Filosofia .

Escolheu almoçarmos no Shis, na praia do Ourigo, a centenas de metros da Cantareira parava o Chico Fininho. O dia convidava a uma mesa na esplanada, onde empurramos com vinho branco as 40 peças de sushi e sashimi, enquanto falamos de música e da vida durante mais de três horas – desde que em 1995 se reformou do Banco de Portugal que Carlos, 54 anos, não tem quem lhe imponha horários.

“Estamos a assistir ao fim da música tal como a conhecemos. O conceito de disco desapareceu. Fazem-se canções para meter no YouTube para arranjar espectáculos ao vivo. Hoje seria impossível estar sete meses em estúdio para gravar um álbum como “Mingos e os Samurais”. Fazem-se discos não para vender mas para arranjar espectáculos. A música como transgressão, dos anos 60 e 70, já não existe. Agora serve para sincronizar novelas”, resume Tê que apanhou a indústria musical no seu apogeu e agora escreve musicais e livros  - está para sair um com textos sobre o Porto, ilustrado por Manuela Bacelar.

Mas não se depreenda que ele está amargurado, tipo pickle conservado em vinagre. Quando José Manuel Fonseca, o presidente da Casa da Música, parou na mesa para dar dois dedos de conversa, Carlos elogiou entusiasticamente o concerto de Carla Bley com a Orquestra de Jazz de Matosinhos a que assistira na véspera, na Casa da Música: “Foi fabuloso. A rapariga do trompete fez um solo absolutamente fantástico!”

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

Curiosidades

Não tem iPod

Não tem iPod e ouve pouca rádio, para não aturar a ditadura das playlist. Ouve muita música no CD no carro, um Mazda 6 (o seu primeiro emprego foi no importador Mazda). Elvis Costello e Tom Waits são dois dos seus favoritos

 

Pearl, de Janis Joplin, e After the Gold Rush, de Neil Young, foram os primeiros

Os dois primeiros LP que comprou foram “Pearl”, de Janis Joplin, e “After the Gold Rush”, de Neil Young. Recorda-se de etr escrito uma carta a Neil Young, mas já não se lembra muito bem a dizer o quê

 

FC Porto de 2004 melhor equipa que o de 1987

Tê é um dragão ferrenho (foi ele que produziu a actual versão do hino do FC Porto, gravado com a Filarmónica de Londres) e como tal tem uma opinião sobre a questão (qual a melhor equipa, a de Artur Jorge, em 87, ou a de Mourinho, em 04?) que fractura a comunidade portista: “A equipa campeã europeia de 87 tinha mais génios individuais, como o Madjer, o Gomes e o Futre. Mas prefiro a de 2004 que só tinha um mágico, o Deco, e o resto eram trabalhadores, como o Nuno Valente - que conjugava um génio com muita abnegação, crença e trabalho”.

 

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Shis

Praia do Ourigo, Porto

Couvert … 5,00

Shis mix… 40,00

2 Águas 0,5 l … 3,00

Kopke branco  … 13,00

2 Apfelstrudel.. 12,00

1 café…1,50

1 descafeínado … 1,50

Total… 76,00

Música: Chico Fininho
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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Quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Gostava de ser Gastão mas sinto-me Peninha

No universo do Disney, os meus heróis são os personagens mais cheios de defeitos, como os infelizes irmãos Metralha ou o Zé Carioca, que é alérgico ao trabalho e mantém a forma fazendo os 400 metros planos a fugir dos credores. Os sobrinhos são insuportáveis. E apesar de detestar o Gastão, reconheço que as razões deste são idênticas às que levaram a raposa da fábula do Lafontaine a dizer “estão verdes, não prestam”.

Na verdade, adoraria ser tão sortudo como o ganso Gastão, mas, na triste e dura realidade, quando olho para o espelho, ele devolve-me a imagem do azarado pato Peninha muito mais vezes do que eu gostaria. A sorte e o azar existem, e se alguém o tentar convencer do contrário, pergunte-lhe porque é que o Durão Barroso é presidente da Comissão Europeia.

Os factos que se seguem tiveram lugar entre as 10h30 e as 13h00 de 3ª feira - era dia 13, mas não 6ª feira, não passei debaixo de uma escada, não me cruzei com um gato preto, nem parti um espelho.

Passei a manhã à conversa com Luís Vale, dinâmico director de marketing da Carris, que me falou com entusiasmo da meritória campanha Menos um Carro e do notável esforço de melhoria da qualidade do serviço. Em seis anos, a idade média da frota passou de 16,5 anos para 6,5 anos (é das mais jovens da Europa). A aposta na renovação alargou-se aos motoristas. É impressionante que num total de 2700 trabalhadores, haja um contingente de 1200 motoristas novos, que antes de serem lançados para o volante dos autocarros foram formados e instruídos para serem os embaixadores da Carris junto dos clientes.

Acabada a entrevista, despedi-me do Luís e atravessei a rua. Esperei menos de cinco minutos pelo 48 das 11h35, com destino ao Marquês do Pombal. Logo à entrada, sofri o primeiro contratempo. Como o saldo miserável (52 cêntimos) do meu cartão Lisboa Viva era insuficiente, gastei 1,40 euros na compra do bilhete a bordo.

Sentei-me lá atrás à janela e a viagem correu impecável, até que o 48 chegou às Amoreiras e claudicou.  O motor foi abaixo, era muito o fumo que estava a sair do escape, pelo que o motorista achou por bem evacuar o autocarro, explicando-nos ter medo que ele se incendiasse.

À saída do 48, vi um outro autocarro estacionado numa paragem, uns metros à frente. Era o 53, cujo destino desconhecia. Dei uma corrida para o apanhar, entrei, e o jovem motorista limitou-se a responder-me um sonoro “Boa tarde” quando lhe perguntei se o autocarro ia para o Marquês.

Já perceberam porque é que eu às vezes me sinto como o azarado repórter Peninha, de A Patada de Patópolis, propriedade do Tio Patinhas?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Música: Heart of Gold, Neil Young
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Domingo, 11 de Abril de 2010

João Pedro Pais

 

João Pedro Pais, 38 anos, é conhecido como o autor e cantor de hinos tão populares como Não Há, Lembra-te de Mim, Um Resto de Tudo, Mais Uma Vez ou Um Volto Já. Mas antes de ter emergido anonimato na 2ª edição da Chuva de Estrelas, já brilhava nos tapetes, tendo sido mais de uma dúzia de vezes campeão nacional de luta livre olímpica e luta greco-romana, enquanto estudava Artes Gráficas na Casa Pia. “Para se ser bom, na vida ou no desporto, é preciso trabalhar muito, ter ambição e capacidade de sacrifício. A maior parte das grandes estrelas, veio do bairro e queriam muito vencer na vida”, explica o cantor, que esteve quase a conseguir os mínimos para os Jogos Olímpicos de Barcelona

 

 

Saltar à corda dentro do sauna, vestido com um impermeável, para perder peso, era um enorme sacrifício físico. O peso normal dele oscilava entre os 58 e os 60 quilos (a balança continua a acusas o mesmo), mas a categoria internacional em que competia era a dos 52 quilos.

“Nunca mais hei-de esquecer a cena de um lutador nórdico que estava ao meu lado a rapar o cabelo, para abater 50 gramas ao peso”, lembra João Pedro Pais, que apesar de ir fazer 39 anos mantém a cara, corpo e expressões de um miúdo reguila, que abusa do adjectivo “brutal”, dito com os olhos a brilharem de admiração, sempre que a conversa aterra em algo genuinamente admira.

A fobia de perder o peso nas vésperas das grandes competições é a pior recordação que guarda dos 15 anos em que foi atleta de luta livre olímpica e greco-romana, modalidades em que um palmarés tão gordo que até perdeu a conta às vezes que foi campeão nacional – uma dúzia de vezes, pelo menos.

Perder peso era violento. Nas duas semanas anteriores, sofria um regime alimentar rigoroso, à base de saladas e fruta, o que, aliado a cargas pesadas de treino, o deixava física e psicologicamente fragilizado. O que ajuda a explicar porque é que ele, um rapaz vindo de baixo, dos bairros, sedento de vontade de vencer, falhou no início dos anos 90 o salto para o que teria sido o Everest da sua carreira de lutador – a participação nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992.

Não façam confusão. João Pedro é doido pelos Jogos Olímpicos. Um das coisas que mais o apaixonam é de, quatro em quatro anos, sentar-se num sofá em frente ao televisão a ver as provas de todas as modalidades, sem excepção.

“É brutal!”, qualifica o cantor que faz planos para, em 2012, assistir ao vivo em Londres às primeiras provas olímpicas, 20 anos depois de ter desperdiçado a hipótese de desfilar no Estadi Olímpic Lluis Companys, e ouvir na cerimónia inaugural dos Jogos a cantora lírica Montserrat Caballé a interpretar a famosa canção Barcelona  (gravada em 1988) em dueto virtual com Freddie Mercury, que tinha morrido no ano anterior.

Leonard Cohen é o ídolo número 1 de João Pedro, que elege o antigo vocalista dos Queen como o maior, em palco, de todos os tempos.  “Brutal!”, exclama o lutador, cuja carreira musical o levaria por diversas vezes à capital catalã, cidade onde gravou o videoclip da canção Um Resto de Tudo e actuou em 2003, quando assegurou as primeiras partes da tournée ibérica de Bryan Adams.

Em 1990, João Pedro fugiu da participação das Mundiais de Roma, onde era suposto conseguir os mínimos para Barcelona. Ele sabe porque não aguentou a  pressão. “O desporto de alta competição não é só corpo mas também alma”, afirma o artista, que além de cantar e tocar, também escreve as letras e compõe as músicas da esmagadora maioria das canções dos seis álbuns que editou.

Fragilizado pela violência da abundância do treino e da frugalidade da comida que lhe punham no prato, João Pedro precisava de ser compensado por uma energia positiva que o búlgaro que era seleccionador nacional não conseguir dar-lhe. “Nos momentos de grande tensão e esforço, tenho de se sentir confiança nas pessoas com quem trabalho. Na alta competição, o treinador tem de ser um líder, um substituto dos nossos pais e avós, e não apenas um técnico frio que age como uma esponja”, afirma João Pedro, sepultando assim o dossier da fuga aos Mundiais de Roma.

Tal como nove em cada dez lisboetas, João Pedro nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, em 1971. A mãe trabalhava na Praça do Chile, a fazer micro-radiografias e tinha a categoria de 3ª oficial. Foi criado na Estrela, pelos avós maternos, num lar onde havia sempre música no ar. “Tive uma infância brutal! E isso reflecte-se no futuro”.

A luta entrou na sua vida em 1980, porque era o único desporto disponível no Colégio de Santa Catarina, onde fez a primária, na companhia de uma vintena de rapazes e outras tantas raparigas. Treinado por Francisco Reis, aprendeu a lutar ao mesmo tempo em que começou a fazer contas de cabeça e a tratar as palavras por tu.

Treinava três vezes por semana, às 2º, 4ª e 6ª, duas horas de cada vez. Tinha nove anos e pesava 30 quilos e começou logo a dar nas vistas, ganhando os combates uns atrás dos outros. Usava mais a técnica do que a força bruta para atingir o objectivo – assentar as costas do adversário no chão é o cheque mate da luta.

“Eu tinha muita raça e estudava bem a linguagem corporal do adversário, para antecipar o movimento que ele ia fazer. E era muito rápido, tipo Lucky Luke, que é mais rápido que a própria sombra”, graceja, numa breve auto-avaliação das suas características como lutador.

Aos 17 anos, ainda com a idade de júnior, trouxe para Portugal um honroso 8º lugar no primeiro Mundial sénior em que participou, em Martigny, na Suíça, marco importante de um carreira que encerraria uma vitória num torneio internacional no Rio de Janeiro, em 1995, quando era notório que a luta deixara de ser compatível com a carreira musical que começava a levantar voo.

“Para se ser bom, na vida ou no desporto, é preciso trabalhar muito, ter ambição e capacidade de sacrifício. A maior parte das grandes estrelas do desporto são miúdos dos bairros sociais que espreitam no desporto uma boa porta para vencer na vida. Veja-se o caso do Luís Figo, do Cristiano Ronaldo, da Telma Monteiro, da Naide ou do Nelson Évora. Nenhum deles nasceu num berço de ouro”, afirma João Pedro, que conversou connosco na cafetaria do Centro de Alta Competição do Jamor, onde corre todos os dias seis a oito quilómetros. Meia hora depois, passou por nós Nelson Évora, que o cumprimentou efusivamente. E à saída, quando se dirigia para o seu Audi, para ir ter com a namorada (que estuda Gestão e mora em Benfica), trocou saudações com Naide, que seguia num Smart.

Enquanto estudava Artes Gráficas na Casa Pia, prosseguiu a carreira de lutador, limpando tudo na sua categoria, ao serviço de diversos clubes. Primeiro, representou a Junta de Freguesia de S. Paulo, depois o Lisboa Clube Rio de Janeiro, o Benfica e finalmente Sporting. As primeiras mudanças explicam-se pelo facto de seguir o primeiro treinador, Francisco Reis, a quem não poupa nas palavras quando se trata de o elogiar. O Benfica já tem a ver com ganhar uns dez contitos que lhe arredondava os fins do mês. Curiosamente nunca foi atleta do Belenenses, o clube do seu coração.

“Sempre gostei do Belém. É um clube cheio de carisma, que acompanhei muito de perto durante a presidência do engº Cabral Ferreira. Raramente falhava um jogo no Restelo, onde conheci o Jorge Jesus, por quem ganhei logo um enorme respeito. Ficamos amigos. É um trabalhador nato. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Admiro-o muito. Percebe de futebol como poucos, saber motivar os atletas e tem uma enorme vontade de vencer. Veio de baixo…”, diz João Pedro, que atravessou a adolescência sempre a cantar e a tocar numa viola comprada numa feira.

Quando, durante o Mundial de 91, em Varna, na Bulgária, juntou toda a comitiva lusa, incluindo o secretário geral da federação, a ouvi-lo a tocar piano no hall, já sabia que a luta não era o futuro – a música talvez.

Aos 17 anos, quando concluiu o curso de Artes Gráficas, na Casa Pia, ainda arranjou um emprego a trabalhar com uma máquina offset na Tipografia Mirandela. Mas apenas se demorou por lá dois anos. Já ganhava que chegasse para o seu sustento tocando e cantando em bares.

Começou a actuar no Hapenning, um bar na Estrela onde Luís Represas também debutou, e, numa daquelas coincidências em que a vida é fértil, uma dia estava lá a cantar e deu com o vocalista dos Trovante (e tal como ele adepto do Belém) na assistência - “ Foi estranho. Hoje somos grandes amigos”.

Não tinha muitos discos – Brothers in Arms, dos Dire Straits, foi um dos primeiros que comprou. Ouvia muito rádio. Zeca Afonso, Zé Mário Branco, Fausto,  Trovante, Já Fumega, Xutos e Pontapés, Rui Veloso, os Peacemakers, são os nomes que lhe vêm à cabeça quando o desafiamos a abrir o baú das recordações e dizer quem ouvia quando começou a tocar em bares e a compor, metendo letras dele em cima de canções conhecidas de outros autores.

Em 1994, a carreira dele levou um empurrão quando ficou em 2º lugar, com uma interpretação de Ao Passar de um Navio, dos Delfins, na segunda edição da Chuva de Estrelas - a vencedora foi Inês Santos, com Nothing Compares 2 U, de Sinnead O’Connor.

O concurso da Sic ajudou-o a emergir do anonimato e incentivou a compor as canções para o primeiro disco, intitulado Segredos, que foi editado em 1997 pela Valentim de Carvalho, depois de ter sido rejeitado pela EMI e pela Universal, que devem torcido a orelha (mas já não deitava sangue…) quando viram o seu álbum de estreia ultrapassar rapidamente a fasquia dos 20 mil vendidos e tornar-se o seu primeiro Disco de Ouro.

“As rejeições só me deram mais força. Eu sou muito competitivo. Nós somos aquilo que delineamos na vida, aquilo que vivemos, os livros que lemos, as experiências por que passamos e os amigos que temos”, explica.

“O desporto fez de mim aquilo que eu sou. Foi na luta que aprendi a não subestimar os outros e a respeitar os mais fracos. Se eu tenho algum juízo devo-o aos anos em que fiz luta”, acrescenta.

Deixou a luta quando as noitadas e o fumo dos outros (ele nunca fumou) nos bares começaram a tornar-se incompatível com os treinos, onde a possibilidade de magoar-se nos dedos punha em causa o seu ganha pão.

Mesmo depois de alcançar a fama, com canções que estão na cabeça de todo a gente, como Não Há, Um Volto Já ou Mais que uma vez, João Pedro soube manter-se o rapaz bom e humilde que cresceu na Estrela e fez o curso de Artes Gráficas na Casa Pia.

Marcado pela leitura de romances como Morreste-me e Cal, quando soube que José Luís Peixoto dava um work-shop junto à sede da FPF, na Praça da Alegria, foi lá pedir-lhe para autógrafos. “O Zé Luís é um intelectual moderno”, elogia.

Além de ler, como é claro, ouve muita música. Cohen é o ídolo número um, mas logo a seguir vêm Sting e Eddie Vedder a solo. “A banda sonora do filme O Lado Selvagem, de Sean Penn é brutal”, sentencia.  Como gosta de ver os músicos a actuar, é frequentador assíduo do YouTube.

“Não me chega ouvir, quero ver a imagem, as expressões. Nós mostramos o que somos ao vivo”, conclui João Pedro Pais, que em Maio vai voltar ao Rock in Rio Lisboa (ele fez parte do cartaz da primeira edição, de 2004) e se despede com mais uma referência à luta: “Devo ao desporto não me levar muito a sério, ter os pés bem assentes na terra e a consciência que o mundo não gira à minha volta”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

Música: California, Joni Mitchell
Publicado por Jorge Fiel às 17:49
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Sábado, 10 de Abril de 2010

Fernando Santo

 

Pouca gente no Oeste saberá que o principal responsável por aeroporto de Lisboa não ir ser construído na Ota é um filho da região. Fernando Santo, 59 anos, nasceu e cresceu em Alcobaça, onde os pais têm pomares, pinhal e vinho. “Limitei-me a explicar de uma forma simples porque é que a Ota era uma má opção”, diz, modesto, o homem cuja intervenção pública forçou José Sócrates (que como é engenheiro técnico não está inscrito na Ordem) a reabrir a discussão sobre a localização do novo aeroporto. 

O ex-bastonário da mais populosa das ordens (há 44 mil engenheiros, 36 mil médicos e 30 mil advogados) concede que o dossiê Ota foi a mais vistosa acção dos seus dois mandatos, mas chama a atenção para outra, menos visível, mas que ele considera ainda mais importante. “A nossa influência na produção legislativa cresceu imenso, porque o poder político passou a olhar com outros olhos para os nossos contributos. A Ordem ganhou credibilidade” reivindica este engenheiro civil, que declara: “Não estou alinhado com nenhum partido, penso com a minha cabeça”.

Fernando habituou-se a ser independente logo aos dez anos, quando foi viver para um quarto alugado, em Leiria, onde fez o liceu. “Nunca tive ninguém ao lado que me mandasse estudar. Mas nunca chumbei nem deixei qualquer cadeira para trás. Aprendi a trabalhar com objectivos”, conta, com orgulho.

Acabar o liceu com 14 – de média geral mas também a Física e a Matemática - para entrar no Técnico foi o primeiro objectivo. A agricultura, com despesa certa e receita incerta, nunca o seduziu. Desde miúdo que queria ser engenheiro.  O Lego e o Meccano foram decisivos para este fascínio juvenil, confirmado quando os pais lhe deram uma caixa de construções electrónicas da Philips que lhe permitia fazer coisas como um rádio e um piano. Tinha 12 anos e ficou deslumbrado.

Sobreviver aos dois anos preparatórios do Técnico, com aulas das oito às 18, sábados incluídos, foi o objectivo seguinte. É com este saber de experiência feita, que critica Bolonha e a massificação do ensino feita à custa do abaixamento da qualidade.

“As escolas desceram o nível de exigência para terem mais alunos e assim se financiarem. A questão de fundo é que as pessoas se preocupam mais com os títulos académicos do que com o resultado da formação”, acusa o ex-bastonário, que escolheu almoçarmos no restaurante da Ordem, num 6º andar com vistas para o Parque Eduardo VII.

Abriu com uma sopa e seguiu com uma posta de garoupa grelhada (acompanhada por água e um copo de branco) numa refeição frugal sobremesada por fruta laminada. Já depois do café , aceitou, por insistência do presidente da Relação,  uma fatia de bolo de chocolate da festa de aniversário de um juíza, comemorada por um grupo que almoça todas as 6ª no restaurante da Ordem dos Engenheiros – onde também almoçou ontem Maria de Belém Roseira, que é casada com um engenheiro.

“A capacidade técnica da engenharia portuguesa é reconhecida em todo o mundo devido ao saber acumulado durante cem anos de ensino exigente – e não por causa dos cursos da treta”, diz, considerando um disparate os 526 cursos de engenharia (entre licenciaturas e mestrados) existentes no nosso país e “andarem para aí a vender que a vida é uma coisa fácil, pelo que os meninos podem passar pela escola como se fosse uma zona de lazer”.

Fernando deixou os quartos alugados quando andava no 4º ano do Técnico e foi trabalhar no IV Plano do Fomento. Em 1976, trocou a alcatifa pela Somapre, que projectava e construía escolas e habitações prefabricadas. Após três anos em regime de profissão liberal, foi para a EPUL (onde voltou agora, como administrador), onde viveu a mais gratificante experiência profissional da sua vida: dirigir a construção de 540 apartamentos na Vila Expo.

“Para um engenheiro, é um enorme prazer ver, em Janeiro de 95, um pântano onde o meu jipe ficou atascado, e três anos depois ver uma cidade no mesmo local. Não havia derrapagem possível. A 22 de Maio de 1998 tinha de estar tudo pronto”, concluiu o ex-bastonário, que vive em Telheiras e se despede com uma mensagem: “No séc. XXI a engenharia é um recurso estratégico nacional”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

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Ordem dos Engenheiros

Av. António Augusto de Aguiar, 3-6º andar, Lisboa

3 copos de branco Quinta do Cardo… 3,90

Águas … 1,30

2 refeições (sopa, garoupa e fruta)  … 28,00

2 cafés.. 1,60

Total… 34,80 

Música: Sinal fechado, Chico Buarque
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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Quinta-feira, 8 de Abril de 2010

Eu, pecador, me confesso

 

Quando faço bem, sinto-me bem; quando faço mal, sinto-me mal. Essa é a minha religião

Abraham Lincoln

 

Sou um grande pecador. E não julguem que estou aqui para vos confessar pecadilhos arrumáveis na estante dos pecados veniais. Não sou preguiçoso ou avarento (se tiverem dúvidas, perguntem à minha ex-mulher). Mas 3ª feira ao jantar, na Marisqueira do Miguel, em Matosinhos, cometi o pecado (mortal) da gula na pessoa de uma enorme (e deliciosa) posta de bacalhau assada no forno.

Não posso mentir e esconder-vos que, ao preencher a declaração do IRS, fiquei cheio de inveja dos 3,1 milhões de euros que o Mexia levou o ano passado para casa – e de não ter sido eu o autor da genial ideia de arranjar maneira de que o salário do presidente da EDP fosse publicado nos jornais de 1 de Abril (as pessoas sempre ficaram na dúvida se seria ou não peta do Dia das Mentiras).

Foi a epidemia de notícias sobre actos de pedofilia praticados por membros do clero que me levou a fazer o exercício de introspecção onde conclui que cometo regularmente três (gula, inveja e luxúria) dos sete pecados mortais.

Trata-se de um exercício diletante porque apesar de ter sido baptizado, andado na catequese, feito a comunhão e até ter ajudado uma vez à missa, a meio da adolescência tornei-me um herege e passei a ter a mesma religião que o Lincoln.

Tenho muita pena de ter deixado de acreditar, pois passei a acumular e a carregar as minhas culpas. Tenho inveja (cá estou eu outra vez, a pecar) de não poder beneficiar do eficiente sistema inventado pela Igreja Católica para aliviar a consciência dos seus fieis e que tem como base o pecado em que Adão mergulhou a Humanidade.

A Santa Madre Igreja sabe que todos nós, sem excepção, somos pecadores, e por isso sossega-nos ao garantir que Deus, na sua infinita bondade e inesgotável misericórdia, está sempre pronto a perdoar-nos. Basta confessarmos os pecados, protestar o nosso arrependimento e aceitar trocar a absolvição por umas quanta penitências (e, atenção, porque uma esmola pode substituir um sacrifício!). Quando acabamos de rezar o Acto de Contrição, voltamos a ter zero quilómetros no longo caminho do pecado. Essa é que é essa.

Eu, pecador, me confesso. Morro de inveja por não estar abrangido por este eficaz sistema de alívio espiritual de consciências. E tenho uma dúvida. Serão católicos praticantes os pecadores que meteram ao bolso as comissões da compra dos submarinos?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Música: Querida, Miúcha
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Sábado, 3 de Abril de 2010

Pedro Nobre

 

O que mais o intriga neste momento é a discrepância entre a resposta física do corpo e a percepção de prazer, que se regista em ambos os sexos mas com maior incidência nas mulheres. Dito por outras palavras, é muito frequente que a excitação medida na vagina não esteja em sintonia com a que é subjectivamente sentida. Uma questão que, no caso dos homens, se pode colocar da seguinte maneira: a verdade está na cabeça de cima ou na de baixo?

Pedro Nobre, 39 anos, psicólogo clínico, casado e com duas filhas, de seis e três anos (“Há três mulheres na minha vida”, graceja), sabe do que fala, pois dirige a equipa de cinco investigadores do primeiro laboratório experimental de sexologia em Portugal que, com um subsídio de 160 mil euros da FCT, está a estudar a reacção dos portugueses a estímulos sexuais.

O SexLab, que funciona na Universidade de Aveiro, trabalha com uma amostra de 100 voluntários (metade de cada sexo, com idades compreendidas entre os 18 e 50 anos) que gratuitamente se dispuseram a serem a matéria prima deste estudo.

O trabalho de campo desenrola-se numa sala, em que o/a voluntário/a está sozinho, confortavelmente sentado num sofá, a ver dois pequenos filmes – um porno e outro erótico -, com a duração de três minutos cada um. A privacidade é quase completa. Não há câmaras. O quase tem a ver com o aparelho que permite aos investigadores monitorizar as suas reacções físicas ao que se passa nos filmes.

Antes de iniciarem a sessão, os voluntários despem-se na cintura para baixo. Elas alojam no interior da vagina uma espécie de tampão (fotopletismógrafo) que indica a pulsação e volume sanguíneo na zona genital. Eles colocam no pénis uma espécie de anel (indium gallium gauge), que mede os estados de erecção induzidos pelas cenas dos filmes.

Os resultados preliminares deste estudo do SexLab de Aveiro serão apresentados no 10º Congresso da Federação Europeia de Sexologia, que reúne no Sheraton Porto, de 9 a 13 de Maio (coincide com a visita do papa), que Pedro está a organizar, na qualidade de presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia, que agrupa psiquiatras e psicólogos, mas também sociólogos, antropólogos e juristas.

Filho de um médico e uma farmacêutica, nasceu em Vila Perry, Moçambique, mas veio para Portugal com quatro anos. Cresceu em Lagos, fez o curso em Coimbra (onde integrou a direcção da AAC presidida por Vigário), e teve o primeiro emprego no Alentejo, na Vila Fernando, um estabelecimento correccional de menores, onde ficaram sepultadas algumas das suas convicções “humanistas e de esquerda” - “É utópico pensar que a escola se faz sem hierarquia e disciplina”. Demorou-se lá um ano e três meses, em que todos os dias sonhava com o dia em que se viria embora.

Deu aulas em Vila Real e agora está em Aveiro, mas mora no Porto, onde escolheu almoçar no Shis, o restaurante mais in da cidade. Apesar de ter chegado com mais de 40 minutos de atraso, não vinha stressado (a não ser que houvesse discrepância entre a aparência calma e o estado de espírito) e encomendou uma refeição completa, iniciada com sopa, continuada com robalinho e sobremesada com gelado de baunilha (não havia o de chá verde).

As disfunções sexuais foram o tema das teses de mestrado (curiosamente apresentada no ano em que saiu o Viagra) e doutoramento deste psicólogo que confessa ser “preciso ter muita abertura de espírito e estômago para ser terapeuta sexual”. 

“O problema mais comum no homem é a ejaculação prematura”, afirma, acrescentando que, no entanto, 70% dos homens que procuram ajuda é por causa da disfunção eréctil, o que é explicado pelo facto de ainda ser dominante o mito do macho latino, “que atribuiu um papel central ao pénis e à penetração, bem como estar sempre pronto com uma erecção”,

”Está ainda muito enraizada a crença de que não ter erecção é catastrófico e significa ser menos homem. O que não é verdade. Pode ter-se prazer sem erecção”, conclui Pedro, citando o caso dos homens que continuam a ter sensações de prazer sexual apesar de não terem erecções devido a lesão vertebrais derivadas de acidentes de viação.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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Shis

Praia do Ourigo, Foz do Douro, Porto

Couvert … 5,00

Sopa do dia … 2,50

Sushi Shis style … 15,00

Robalinho com algas wakame e ovas massago … 12,00

Água Vitalis 0,5 litro … 1,50

Água Castelo 0,20 l ... 1,20

Kopke Branco 0,74 l … 13,00

Gelado de baunilha … 3,00

2 cafés … 3,00

Total… 56,20

 

Música: Sheherezade, Rimsky-Korsakov
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

Manter a RTP 1 pública é uma idiotice completa

Como sou uns meses mais velho que a RTP, cresci a salivar de entusiasmo, tal como o cão de Pavlov, sempre que ouvia o Jorge Alves dizer “Olá amiguinhos”, ao antecipar o imenso prazer de ver desenhos animados – os do Manda Chuva eram os meus preferidos.

As legendas de séries como o Mr Ed (o cavalo que falava) e de Bonanza foram tão importantes na lubrificação da minha capacidade de ler rapidamente como os volumes encadernados a couro do Mundo de Aventuras e Falcão que eu devorava durante as férias na Biblioteca Municipal, junto ao Jardim de S. Lázaro, que ficava umas escassas centenas de metros do 2º andar do nº 304 da avenida Rodrigues de Freitas, onde atravessei a infância e boa parte da adolescência.

Estou convencido que o ódio que tenho à tauromaquia se deve ao facto da “transmissão do exterior” que a RTP anunciava para a noite de 4ª feira se revelar uma tourada, na esmagadora maioria dos casos, e não um jogo de futebol (qualquer um servia). Treinei-me a aguentar firme as pequenas contrariedades da vida com a frequência com que aparecia no ecrã o cartão com a frase “Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos” – a mensagem que a RTP mostrava quando havia quebra de emissão.

Logo a seguir à véspera do Natal, imbatível pela conjugação entre a fartura da mesa e a abertura dos presentes, a grande noite do ano era a do Festival RTP da Canção, com o Henrique Mendes a receber pelo telefone, em alta voz, a pontuação atribuída pelo júri reunidos nas capitais de distrito.

Mas tudo isto não passa de um monte de recordações a preto e branco. O tempo não volta para trás, como pedia o António Mourão. O vento mudou, como cantava Eduardo Nascimento. A oferta, outrora limitada a um ou dois canais que emitiam a preto e branco e apenas parte do dia, amplificou-se de uma maneira brutal - recebemos por cabo em casa mais de uma centena de canais. A atenção humana é o único factor que se está a tornar escasso neste mundo de abundância.

Neste panorama audiovisual, manter a RTP 1 como canal público é uma idiotice completa (não é preciso ser serviço público para alinhar no Porto-Benfica dos túneis, qualquer privado teria todo o gosto em receber Pinto da Costa) que fica mais cara que alimentar um burro a pão de ló -  pois é este canal que absorve a fatia de leão dos 143 milhões que a RTP nos custa por ano, ou seja mais do dobro dos subsídios atribuídos à Carris e STCP. Nestes tempos de vacas magras, em que é preciso cortar na despesa e arranjar dinheiro para reduzir o défice, não sei de que é que Sócrates está à espera para passar a patacos a RTP1.

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

Música: Deathly, Aimee Mann
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Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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