Para começar, deitam-se todos de costas no chão, de preferência em círculo, olhos fechados e mão dada com a pessoa do lado. Raquel pede-lhes para pensarem em coisas positivas enquanto ouvem, durante três minutos, uma voz agradável e profunda, a dizer, em português do Brasil, palavras como Amor, Sucesso e Criatividade.
A seguir é a massagem colectiva. À vez, cada um dos membros do grupo (idealmente constituído por 18 pessoas), vai para o meio e, com os olhos vendados, é massajado da cabeça aos pés pelos outros, ao som de Mr Jones (“Shalalalalala, uh huh…Yeah), dos Counting Crows. Cada massagem dura apenas um minuto. “As pessoas gostam. Querem mais, mas não pode ser”, explica a produtora artística da Academia das Emoções, empresa especializada em acções de motivação e team building, que tem ilusionistas, maestros e bailarinas no seu corpo de formadores porque o seu conceito base consiste em usar a arte para trabalhar e fortalecer o espírito de equipa.
“As pessoas têm medo do toque. Não compreendem a importância de um bom aperto de mão ou de um abraço forte na hora certa”, explica Raquel, 29 anos, natural de Guimarães, com um curso de Animação Artística feito na Escola Superior de Educação de Bragança, e que trabalha o poder de comunicação corporal dos outros com a credibilidade que lhe advém do seu próprio corpo, magro mas com a musculação bem definida, resultado de milhares de horas no ginásio e na dança - foi bailarina de diferentes géneros, do clássico à salsa, passando pelo hip hop e o funk (“Gosto de ritmos africanos”, confessa). “Sempre fui fanática por desporto”, reconhece a ex-atleta de competição do JUNI (Jovens Unidos num Ideal), que uma operação aos pés obrigou a abandonar o atletismo precisamente na altura em que foi convidada para correr pelo FC Porto.
Quebrado o gelo com a massagem, a sessão tipo de team building de Raquel prossegue com exercícios de improvisação que promovam o riso, em que o pessoal abandona definitivamente a pose de quadro superior de uma empresa de telecomunicações ou seguradora, e entrega-se a brincadeiras em que imita a reacção de animais como o elefante, crocodilo ou leão. O objectivo é a risota.
Fazer um andar esquisito (mancar, andar à Charlot…) e transformá-lo num passo de dança, ajuda a ultrapassar o medo do ridículo. E o número de dobrar o jornal estimula a criatividade e põe as pessoas a desempenhar papéis em que nunca se viram. A coisa passa-se assim. É colocada no chão uma folha de jornal. O grupo divide-se em pares, que, à vez, têm de aguentar três segundos com os pés em cima da folha - que se vai dobrando e ficando mais pequena até haver um vencedor. Há truques para se ir longe nesta competição, como pôr-se às cavalitas (ou ao colo…) do outro. E nada impede os mais espertos de arrastarem a folha do jornal para junto à parede…
“Ajudamos um grupo a chegar a equipa”, sintetiza Raquel, que a nosso pedido detalhou o programa de tipo de uma das suas sessões, o que a impediu de comer como deve ser, tanto mais que o exercício de dobrar o jornal anda pelo fim da primeira hora de uma sessão que dura quatro.
Escolheu almoçarmos no Prós & Contras, um restaurante que fica junto no edifício do teleférico para a Penha e cujo único inconveniente era a música brasileira ambiente estar aos berros - o que foi prontamente remediado. Mas pode ser que não seja assim todos os dias e se tratasse apenas de uma gentileza da casa com a convidada, que mais tarde confessou gostar de ouvir música alto. “A música puxa-me para cima”, diz, Raquel, que usa o apelido optimismo no seu email (raqueloptimismo@gmail.com) e refere Maria Gadu e Lauryn Hill, como duas das suas preferências musicais no momento.
“O que o nosso corpo diz é muito importante e deve ser trabalhado. O corpo fala tanto como a boca”, garante Raquel, que fez rádio em Bragança (“gostava de um dia trabalhar a voz”) e deixou no prato metade do folhado de caça e da sobremesa (apenas o sumo de laranja natural marchou todo), muito provavelmente por culpa minha, pois não se pode falar e comer ao mesmo tempo...
Jorge Fiel
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Prós & Contras
Lugar das Hortas, Edifício Teleférico-Costa, Guimarães
Pão … 1,00
Couvert … 4,00
Revuelto de setas e gambas … 5,00
Folhado de caça … 32,00
Sumo laranja .. 2,50
Copo de vinho verde…3,50
Folhado de maçã … 4,00
1 café … 0,90
Total… 52,90 euros
Curiosidades
Os princípios básicos do trabalho de Raquel assentam em três palavras iniciadas por um S (tal como o seu apelido): Sinfonia, Sincronia, Sinergia
Uma das coisas que Raquel trabalha é os tiques. “Toda a gente tem tiques, mais frequentes quando estão nervosas”, diz ela, que confessa corrigiu um que tinha e considerava horrível (passar a língua pelos dentes da frente com a boca fechada) e mantém outro que não a incomoda – puxar pelas unhas (que usa bem compridas e muito tratadas)
Adora música dos anos 80, ao ponto de dizer que gostaria de ter nascido em 1965 (e não em 1980) para ter sido contemporânea da onda disco
Eu sabia perfeitamente o que arriscava quando ontem, por volta da hora do almoço, atendi um número privado. Era a Elsa Leitão, muito simpática e educada (apesar de mal paga) como a generalidade do pessoal do call center do Santander, a perguntar-me se eu já tinha pensado na proposta que a Rita me fizera na 6ª feira.
O seguro até é curioso. Se me fanarem a carteira ou eu a perder, basta um telefonema e encarregam-se de anular todos os cartões (seja qual for a entidade emissora), cobrindo ainda as despesas de emissão não só de novos Visa e Multibanco mas também de todos os outros documentos extraviados – BI, passaporte, cartão de sócio do FC Porto, etc, etc. Mais. Pelo mesmo preço, não teria de me preocupar se esquecesse a chave dentro de casa ou perdesse a chave do carro. Um telefonema e, zás!, aparece um tipo a abrir-me a porta e a fornecer um nova chave.
Senti-me tentado. Como agravante agradaram-me a sofisticação da resposta quando perguntei o preço (dez cêntimos/dia assustam menos que 35 euros/ano), bem como a correcção política com que a Rita apresentou a possibilidade de “a pessoa com quem vive” subscrever o mesmo seguro por 27 euros.
Só não gostei da agressividade da venda. Ao confessar que achava o produto interessante, habilitei-me logo a receber em casa a documentação e depois, se por acaso mudasse de ideias, bastava no prazo de cinco dias fazer um telefonema gratuito a dizer que não queria. Alto e pára o baile!
Vem isto dos números privados a propósito do facto do telemóvel ter ultrapassado o automóvel como o mais indispensável objecto da nossa vida e esse fenómeno não ter sido acompanhado da elaboração de um corpo sólido de regras sobre a sua utilização.
Nos primeiros tempos, o número do telemóvel era uma espécie de segredo. Perdi a conta às vezes em que ouvi um irritado “Quem lhe deu o meu número?” (em 95% dos casos tinha sido ele…). Agora, que as pessoas se começam finalmente a convencer que quem lhes paga o salário são os clientes e não o patrão, os números de telemóvel já começam a constar dos cartões de visita.
No quadro desta mudança, e dando o meu contributo para a definição de uma etiqueta, acho imperdoável não enviar o nosso número e não responder às chamadas não atendidas de números conhecidos. Pensei em activar a opção de enviar a SMS “telef. mais tarde” sempre que não posso atender. Mas detesto a equívoca ambiguidade da formulação. Ficamos sempre sem saber se devemos insistir ou aguardar calmamente que nos liguem. O “telef. mais tarde” é tramado. Dá para os dois lados. É por essas e por outras que o pais nunca mais vai para a frente.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Joaquim Moutinho, 58 anos, é dono de lojas de marcas como a Hugo Boss e a Max Mara, de que é o representante para Portugal. Durante 15 anos, celebrizou-se e correndo em pista, terra e asfalto, ao volante de carros míticos como o Renault 5 GT Turbo, Porsche Aurora e Opel Commodore GSE. Vencedor do Rali de Portugal, campeão nacional de ralis e de velocidade, foi nas corridas que aprendeu a não baixar os braços e ir buscar forças aonde não sabia que tinha para enfrentar com sucesso, no início da sua vida empresarial, duas crises graves (a dos incobráveis e a cambial), que lhe levaram 1, 3 milhões. “Neste mundo em mutação rápida, a vida no mundo dos negócios é cada vez mais aparecida com um rali cheio de nevoeiro e lama, em que não vemos nada à frente e não sabemos o que vai acontecer a seguir”, diz
Para celebrar a entrada na Faculdade de Economia e o 18º aniversário de Joaquim, o mais velho dos seus três filhos, o pai decidiu-se a oferecer-lhe uma bomba, o Datsun 1600 SSS, arranjado a bom preço pois, como empresário de plásticos e napas, era fornecedor do Entreposto, que montava em Setúbal os carros da famosa marca japonesa.
Mas ele, que acabara de tirar a carta e desde pequenino era vidrado em automóveis, declinou a oferta generosa. Agradecia muito, mas preferia um carro mais modesto, em segunda mão, e até já tinha um em vista: o Datsun 1200 posto à venda por Teresa Gil da Silva.
O pai fez-lhe a vontade (“Se é esse o carro que queres, seja...”) convencido de que ele estava a ser burro. Só mais tarde se aperceberia de que este estranho comportamento do filho foi o momento fundador de uma extraordinária carreira de piloto de automóveis, que se sagrou campeão nacional de ralis e de velocidade, e triunfou no Rali de Portugal.
Joaquim Moutinho, 58 anos, recorda este episódio numa sala do número 15 da rua das Condominhas, junto ao Largo do Calém e ao rio Douro, onde bate o coração do seu grupo empresarial, que factura mais de dez milhões de euros/ano, e onde convivem lojas da Hugo Boss com a representação e lojas de outras marcas de vestuário, como a Max Mara.
Ele sonhava correr no Campeonato de Promoção (como se chamava na época à competição para iniciados) de ralis e nos troféus. E o Datsun 1200 apesar de menos potente que o 1600 SSS, já vinha com roll-bar e corta circuitos, ou seja preparado para competir sem ser necessário gastar dinheiro que ele não tinha.
Manuel dos Santos Júnior viveu na ignorância da secreta ambição do filho até que numa sexta feira à noite, algures na Primavera de 1972, estava calmamente a ler jornal no sofá junto à lareira, na casa onde moravam, na rua Alexandre Braga, e Joaquim, com um ar comprometido, lhe interrompeu a leitura anunciando: “Pai, vou-me deitar mais cedo, porque amanhã vou entrar numa prova”.
“Vais entrar numa prova? Que prova?”, interrogou o pai, homem duro, deixando escorregar o jornal para o chão. Era o Rali do Académico, que começava com umas voltas ao Estádio do Lima, para estabelecer a ordem de partida, e se disputava em classificativas nocturnas que terminavam no alto de Santa Luzia em Viana do Castelo – a prova de estreia de Joaquim que para todo o resto da vida usaria o apelido da mãe (Lucinda Moutinho), porque, quando preencheu a papelada para tirar a licença desportiva, no ACP, em Gonçalo Cristóvão, não reparou no pedido para sublinhar os dois nomes porque queria ser conhecido. No entretanto, apareceu o Joaquim Santos que leu as letras pequeninas e ele ficou Joaquim Moutinho para todo o sempre.
Dificilmente o Rali do Académico podia ter corrido melhor. Nas voltas ao Lima, fez o 12º tempo, imediatamente à frente do seu amigo Pedro Meireles, um veterano que já andava nos ralis há quase um ano e meio, e que por isso partiu um minuto atrás, o que se viria a revelar uma bênção para Joaquim.
“O carro tinha a suspensão preparada para rampas e pista, No asfalto tudo bem. Mas na primeira classificativa em terra, em Orbacém, a traseira estava sempre a bater na terra. A princípio isso não incomodou. O que importava era que o carro andasse e virasse. Aqueles Datsun nem com um martelo partiam. Mas não demorou muito até o Meireles nos apanhar. Encostamos para o deixar passar a uma velocidade louca”, recorda.
Edgar Fortes, o navegador, fechou as notas, e disse a Joaquim: “Ou vamos atrás dele, ou vamos para casa”. Foram atrás de Meireles. Para o seguir, tiveram de andar à maluca. “Ele vai-se matar”, gritou Edgar ao ver como o carro da frente entrava numa direita lenta. “É impossível andar assim com esta lama e nevoeiro”, acrescentou. Estava enganado.
“Claro que era possível. Quando chegamos ao controlo, colados à traseira do Meireles, estavam lá quatro carros a recolher o carimbo. Foi nessa noite que aprendi a andar na terra”, garante Joaquim Moutinho. À chegada a Santa Luzia, reinava o entusiasmo e optimismo geral entre a maioria das cerca de 50 equipas participantes. Os tempos de penalização que declaravam deixaram-no apreensivo. “Por este andar, o último lugar é nosso”, comentou com Edgar.
No dia a seguir, domingo, foi fazer companhia ao pai que foi de carro para Lisboa. “Não correu lá muito bem”, respondeu quando o pai lhe perguntou que tal tinha corrido o rali. À chegada à capital, telefonou para Edgar e ficou surpreendido quando soube que tinham ficado em 4º na geral, apesar de serem estreantes, e competirem contra Porsches num carro de 60 cavalos e com a suspensão preparada para provas de velocidade. Afinal no alto de Santa Luzia, os outros navegadores tinham-se enganado nas contas de somar.
Na longa de viagem de regresso ao Porto, pela EN1, o pai perguntou o material de que precisava para poderem competir em pé de igualdade com os outros. E ofereceu-lhe dois amortecedores e molas. “O 4º lugar deu-me a sensação de que podia ganhar. Mas fiquei com vontade de provar o sabor da vitória com alguma rapidez”, explica. Não precisou de esperar muito. No rali, seguinte, o de S. Mamede, foi o primeiro na geral com o seu Datsun 1200 castanho metalizado. Era o início de uma bela carreira, que prosseguiria em todos os pisos, desde a terra dos ralis até ao asfalto quente das pistas.
Tinha sete anos quando pregou um enorme susto à mãe que o surpreendeu a manobrar o seu carro, um Fagst igualzinho ao Fiat 600. “Chegava aos pedais porque era grande para a idade e puxava o banco todo à frente”, conta Moutinho, que mede 1m85. O pai alimentou-lhe desde cedo esta paixão. Em 1960, quando ele acabou a primária no Colégio Italiano da rua da Restauração, ofereceu-lhe um kart MC 10 - e nas férias e fins de semana levava-o, a bordo do seu Lancia APP, até ao circuito de São Caetano, em Vilar do Paraíso (Gaia) onde ele demonstrava a suas habilidades precoces competindo taco a taco com pilotos bem mais velhos.
Os 15 anos em que foi piloto deram-lhe muitas alegrias e afinaram-lhe o carácter, mas obrigaram-no a desistir a meio do curso de Economia e a começar a ganhar a vida a trabalhar na empresa do pai, até que um dia, em 1986, sentiu que casado e com 35 anos, tinha de fazer alguma coisa por ele próprio. Meteu-se num Mercedes 280E de 6 cilindros a gasolina e conduziu até Metzingen, na Alemanha, com o objectivo de ganhar a representação da Hugo Boss. Apesar de haver 92 candidatos, a reunião correu tão bem que no final o contrato estava apalavrado e ele foi ao armazém encomendar roupa.
A volta canhão de 2m05,45seg que fez no autódromo do Estoril (e que ainda é recorde do circuito) na primeira vez que se sentou no Opel Commodore GS/E e permanece é uma das boas recordações que guarda dos gloriosos tempos das corridas, até pelo sacrifício que implicou a compra do carro. “Como os patrocínios não abundavam, para comprar o Commodore ao meu amigo e grande piloto Carlos Santos tive de vender dois carros - um Datsun 1200 GX e um Alfa Romeu 2000 GTV com os quais cheguei a participar em várias provas - juntei todas as minhas economias, e ainda fiquei a pagar 12 prestações de 3.500 escudos, que era uma pipa de massa. E fiquei a andar a pé. Ia para a Faculdade de Economia de autocarro, o que até deu jeito porque naquela época os “burgueses” que tinham carro estavam sujeitos ao ódio revolucionário”, recorda.
A vitória no Troféu Datsun, em 1972, os triunfos no Nacional de Ralis (85 e 86), ao volante do seu mítico Renault GT Turbo, e no Nacional de Velocidade (81) com o não menos mítico Porsche Aurora preparado por Eduardo na sua célebre garagem na Foz, são os momentos Kodak de uma carreira a que pôs termo em 1986.
Abandonou por várias razões. O negócio de representação ocupava-lhe a semana e ao fim de semana tinha as provas, pelo ficava sem tempo para as três filhas que tinha (uma de sete e as gémeas, com cinco, a que se viria a juntar, nove anos depois a mais nova, que tem agora 15 anos) – uma das quais é casada com o filho de Rui Moreira, o presidente da Associação Comercial do Porto. E, last but not the least, o ano da despedida ficou marcado por dois acidentes muito graves. No Rali da Rota do Sol o susto foi tão grande que quando saiu do carro não conseguia aguentar-se de pé. E nos Açores, saiu do R5 GT Turbo in extremis, imediatamente antes do carro começar a arder.
“Tomei a decisão de abandonar no dia do acidente dos Açores. O carro ficou totalmente destruído. Acabamos o campeonato no Alto Tâmega com um carro emprestado pela fábrica, que pesava menos 200 quilos que o nosso e tinha sido do Jean Ragnotti. Pediram-nos para ter muito cuidado com ele porque ia a seguir para o museu da Renault”, diz Moutinho, que questionado sobre os pilotos que mais admirou, nomeia Ayrton Senna , na velocidade, e Henri Toivonen, nos ralis, “dois supra sumos em termos de rapidez”, mas não esquece a inteligência fria de Alain Prost.
“A pista é muito diferente dos ralis. O fundamental é a análise detalhada dos pormenores que todos juntos fazem a diferença. O que conta é a constância e o rigor em todas as voltas. Não é nada fazer uma volta a 1m52, a seguinte a 1m50 e a terceira a 1m54. É fundamental saber gerir os pneus e perceber que uma corrida começa a ganhar-se nos treinos”, explica.
Na velocidade, está-se em confronto directo com os outros competidores, sabe-se sempre em que lugar se vai. Nos ralis já não é assim - é um contra-relógio. “Cada um de nós anda sozinho, entregue a si e ao co-piloto, que é tão importante como o condutor. Há o inesperado, a lama, a chuva, a noite e o nevoeiro”, compara Joaquim, que agora conduz um BMW 7.30 D, com cinco anos “e não tem um barulho”.
O que é mais parecido com a vida? O rali ou a velocidade? “No princípio é uma mistura das duas coisas. É preciso aliar o rigor e consistência da pista com a capacidade de improviso e o instinto que leva a fazer as coisas certas e evitar as erradas, que se ganham nos ralis. Mas agora com o mundo em mutação rápida, a vida no mundos dos negócios é cada vez mais aparecida com um rali cheio de nevoeiro e lama, em que não vemos nada à frente e não sabemos o que vai acontecer a seguir”.
“Nas corridas aprendi a enfrentar as dificuldades, a não baixar os braços e a ir buscar forças que não sabia que tinha”, concluiu Joaquim Moutinho, que bem precisou dessa capacidade para, nos primeiros anos da sua vida empresarial, ultrapassar com sucesso duas crises bem graves: a dos incobráveis, em que perdeu 800 mil contos, e a cambial, que lhe levou meio milhão de contos.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo
Ninguém disse que o mundo é justo. Enquanto nós nos deliciávamos com uns filetes de linguado com legumes e gengibre no vapor e uma vista de cortar a respiração sobre o Tejo, os alunos ainda em aulas nas escolas deste país comiam frango assado com esparguete e salada. Um menu bem mais frugal, mas a verdade é que o Ministério da Educação paga 1,20 por refeição à Eurest, enquanto o nosso almocinho custou à roda de 40 euros por cabeça.
E ainda há mais atenuantes. O frango assado é a refeição preferida dos portugueses, seguida pelas variantes do porco (lombo, costeletas e febras) e o bacalhau à Brás. Nos peixes, o salmão é o que mais cresce em procura. “Não tem muitas espinhas”, explica Henrique Leite, 40 anos, director geral da Eurest, empresa que diariamente fornece o almoço a 200 mil portugueses, em 1 200 restaurantes e cantinas de hospitais, escolas, prisões, áreas de serviço, autarquias e empresas.
O preço de cada refeição varia entre os sete euros, pagos por grandes multinacionais como a IBM ou a Tabaqueira, até aos 1,20 euros das escolas, onde vigora o regime de prato único (não há escolha) e estão previamente acauteladas uma data de condicionantes: fritos só de 15 em 15 dias e em óleo de amendoim, doces à sobremesa só duas vezes por semana, e a salada e sopa são como Deus: omnipresentes.
“Os miúdos já começam a gostar de sopa e a ser críticos. Preferem as sopas que levam massa”, confidencia Henrique, o comandante de um exército de seis mil pessoas (dos quais 800 cozinheiros) que anualmente facturam 150 milhões de euros e compram e transformam brutalidades de tudo: 1,5 mil toneladas de maçãs, 900 mil quilos de alface, 308 mil quilos de alface e por aí adiante.
O director geral da Eurest, que preferiu à sopa uma entrada de folhado de tomate, mozarella de bufala e beringela, contou-nos alguns dos segredos do seu negócio. O frango assado estava a ser servido nas escolas acompanhado por esparguete porque era 6ª feira. A massa vai-se fazendo na hora, enquanto as batatas têm de ser previamente descascadas o que implica desperdício se a procura de refeições for inferior ao previsto. E à 2ªfeira a opção é por menus expeditos, como febras com arroz, porque há menos tempo para preparação.
“O frango é o único produto das grandes famílias de alimentos em que somos auto-suficientes. Em tudo o resto, excepção feita ao leite e ovos, somos dependentes do exterior”, lamenta Henrique, que deve em parte ao ovo a ascensão meteórica (adequada a quem nasceu em 1969, o ano em que o Homem chegou pela primeira vez à Lua) na Eurest.
Nascido no Porto (o avô era o chefe de estação CF de Espinho), filho do matrimónio entre uma professora primária e um técnico da Betão Liz, fez o curso de dietista por um daqueles acasos em que a vida é fértil. No final do Secundário, estava acampado com a família em Pedrógão, sem saber o que havia de fazer, pois a média era curta para entrar em Medicina, quando um tio médico o desafiou a iram no dia seguinte a Coimbra, apreciarem a oferta na Escola Superior de Tecnologias de Saúde.
Soou-lhe bem a hipótese de se tornar dietista. “Imaginei-me logo a dar consultas a senhoras simpáticas que queriam emagrecer”, conta. Havia só um pequeno problema: 600 candidatos para 100 vagas. Meteu-se em brios, agarrou-se aos livros e arrancou a 6º melhor nota no exame de admissão. Passou os quatro anos seguintes no forrobodó coimbrão, o que não impediu de ser um dos melhores alunos do curso, ao ponto de ter sido convidado para ficar lá a dar aulas, hipótese que declinou (cherchez la femme..,) rumando a Lisboa, onde facilmente arranjou emprego.
Estávamos no início dos anos 90 e uma intoxicação alimentar no Colégio Moderno tinha posto os holofotes em cima das fornecedoras de refeições. Recém chegado ao controlo de qualidade da Eurest, Henrique fez o diagnóstico - o ovo é o primeiro responsável pelas intoxicações e a carne assada é o segundo - e delineou o plano para atacar o problema. Acabou com a carne assada de véspera e passou a comprar os ovos pasteurizados numa empresa de Pombal que dava os primeiros passos (Derovo). E assim exterminou as intoxicações.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
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Tágide
Largo da Academia Nacional das Belas Artes, 18 a 20, Lisboa
Água das Pedras 1 litro … 1,75 euros
Água tónica … 1,75
2 Menus 6ª feira (entrada, linguado e ananás) …46,00
Duas Quintas branco … 22,00
4 cafés … 8,00
Total … 79,50 euros
Curiosidades
A Eurest Portugal foi fundada a 24 de Abril de 1974. Durante muitos anos pertenceu ao grupo francês hoteleiro Accor (Novotel, Sofitel, Ibis, etc). Em 1995 foi adquirida pelo ingleses da Compass, o maior grupo mundial do sector, com 400 mil empregados que servem quatro biliões de refeições/ano em 55 países
Para aceitar um cliente, a Eurest exige, por norma, que o número mínimo de refeições diariamente servidas seja de 50, o que considera ser a massa crítica mínima para instalar uma cozinha
Tenho a mania de ler os jornais duas vezes. A primeira é logo no dia. Dou-lhes uma rápida vista de olhos, em papel ou no online, para me manter a par das coisas banais, como as proezas do novo guarda redes do Benfica ou a nova descida do rating que a Moody’s atribui a Portugal. Depois guardo-os num monte até ao fim de semana, altura em que lhes dedico uma leitura mais cuidada, antes de os enfiar pela boca dentro do contentor azul.
Estou muito satisfeito com este método, que recomendo a todos os que, como eu, usam os jornais como matéria prima no seu trabalho, pois a passagem do tempo ajuda a calibrar as notícias. Um dossier de várias páginas sobre o braço de ferro entre a Telefónica e Sócrates perde rapidamente o prazo de validade, enquanto que uma pequena notícia sobre o misterioso desaparecimento de casa dos seus pais, em Valbom, do presidente da Comissão Política da Juventude Popular de Gondomar, ganha outra importância quando cinco dias depois ele é encontrado a vaguear num praia em Aveiro e declara que fugiu porque tinha vergonha de estar desempregado.
Às vezes temos de esperar, pois ninguém consegue resolver um puzzle quando metade das peças ainda estão na caixa. E a leitura em bloco dos jornais de uma semana ajuda à resolução dos puzzles complicados que este mundo extravagante vai pondo à nossa frente - e a perceber que o acontece primeiro não é necessariamente o princípio.
Vejamos o caso do filho do Ronaldo. Quando soube que os direitos exclusivos da criança lhe custaram 12 milhões de euros, logo me precipitei pensando que tinha sido muito caro, apesar de apresentar boas estatísticas: com 4,3 kg e 53 cm promete ser um rapagão. Eu tenho três filhos, com idades diversas, que de acordo com os cálculos feitos de uma consultora espanhola, me deverão custar uns 300 mil euros, ao longo de toda a vida. Muito mais em conta que o mini-Ronaldo.
Reforcei a minha convicção de que o CR7 tinha feito um péssimo negócio quando li declarações da avó a garantir que o bebé é parecido com ela. Mas não foram precisos dez minutos para mudar radicalmente de opinião, quando um jornal mais recente informava que o leilão da venda da primeira foto do Ronaldo Jr vai muito provavelmente ultrapassar os 14 milhões de euros pagos pelo exclusivo fotográfico dos gémeos de Angelina Jolie e Brad Pitt. Dois milhões de euros de mais valias em menos de um mês! O Ronaldo é um génio financeiro. Atendendo ao que jogou na África do Sul, o que ele tem a fazer é pendurar as botas e dedicar-se à banca. O BCP precisa mais dele do que o Real Madrid.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Apesar de pilotar um Lotus, Jim Clark foi o seu primeiro ídolo. Mas Ferrari foi a marca que ele sempre venerou, numa admiração que se estendeu naturalmente aos pilotos que deram grande alegrias à escuderia de Maranello, como Nikki Lauda, Clay Regazzoni ou Michael Schumacher.
Foi preciso chegar aos 47 anos para ter bolsos suficientemente fundos para comprar o seu primeiro e único Ferrari, um 360 Modena, que comprou e vendeu pela mesma razão – e lhe proporcionou a mais estreita das ligações entre a sua paixão pela velocidade e profissão de cirurgião plástico.
“O Modena era um carro fantástico. Comprei-o pelo trabalhar do motor. Quando passava toda a gente virava a cabeça. E vendi-o pelo mesmo motivo. O trabalhar era muito bonito mas a partir de determinada altura não conseguia mais aguentar aquele barulho. Mas ainda o tive dois anos”, explica Serafim Ribeirinho Soares, 55 anos, dono da clínica Artlaser na Foz do Douro, Porto, um cirurgião plástico que não consegue deixar de ser infiel aos carros. Há um par de semanas, usa um Porsche Cayenne S Hybrid, que substituiu um Panamera que apesar de qualificar como “o melhor estradista que já guiei”, não durou mais de nove meses nas suas mãos.
Foi ao volante do seu Ferrari Modena que sofreu o único das largas dezenas de acidentes que pontuam a sua vida que o obrigaram a recorrer aos serviços de um colega cirurgião plástica. Foi algures em 2002, seguia calmamente pela Diogo Botelho, em frente à Católica, quando foi abalroado por um jipe que vinha a alta velocidade de uma transversal. “Tive culpa zero, mas no final acabei por ser eu a pagar a conta, que não foi pequena”, comenta Serafim, tenente coronel médico na reserva, que tem no seu gabinete um retrato seu assinado por Lanhas, que ele caracteriza como “um amigo e a pessoa mais interessante que conheci em toda a minha vida”.
Ao longo dos 28 anos que leva como cirurgião plástico, Serafim calcula lhe tenham passado pelas mãos mais de 14 mil pacientes, dos quais muitos passageiros frequentes da revistas sociais, cujo nome se escusa revelar, em obediência aos regras da deontologia médica. Limita-se a garantir que nunca tratou pessoalmente de José Castelo Branco apesar desta socialite por mais de uma vez ter afirmado publicamente que recebeu tratamento na sua clínica.
Serafim herdou do pai - um clínico geral homónimo que apesar de já contar com 85 anos mantém o consultório aberto (ele não tem outro hóbi senão a Medicina”, explica o filho) – o gosto pelos automóveis. Foi nos jardins da casa em que cresceu, na rua do Falcão, em campanha, que pela primeira vez agarrou num volante e engrenou uma velocidade no Volvo 444 “marreco” do pai, quando ainda tinha nove anos, mal chegava aos pedais e recebia a educação básica ao domicílio, leccionada por uma professora particular – regime também aos seus três irmãos mais novos, duas irmãs e Jorge (que é engenheiro agrónomo), seu companheiro de precoces aventuras e desventuras automobilísticas.
Quando a mãe tirou a carta, estava ele a entrar na adolescência e aproveitou a oportunidade para assistir às aulas de código e assim completar uma formação prática feita em regime autodidacta mas que implicou largos prejuízos às finanças domésticas. Lembra-se, entre outras coisas, de ter batido, nos jardins da casa de Campanhã, com o Fiat Sport do pai, pequena e involuntária patifaria, principalmente se comparada com as malfeitorias protagonizadas pelo irmão, que uma vez deu cabo da frente do Volvo paterno e noutra ocasião destruiu o Austin Maxi novinho em folha que um amigo da família deixara à entrada de casa. “O Volvo era muito alto e como ele estava a tirá-lo em marcha atrás não dava para ver que o outro carro estava em cima da rampa”, alega Serafim, como atenuante para as desgraças perpetradas pelo irmão mais novo.
“ O pai nunca nos bateu. Ficava muito zangado, tentava mostrar-nos o que estava certo e errado, e insistia muito para que não voltássemos a cometer os mesmos erros. Mas nunca nos levantou a mão”, recorda Serafim, que fez o secundário no Colégio Almeida Garrett (que fora fundado por um ti bisavô) e sempre pensou em ser médico, ambição que atribui à influência do pai, que acumulava o consultório com a prática de Medicina do Trabalho na Hidroeléctrica do Cávado (que viria a integrar-se na EDP).
Cresceu numa família que não ligava a futebol, mas estava consciente da importância do desporto na formação de um jovem. Fez equitação, na GNR, até o tempo livre começar a escassear após entrar para a exigente Faculdade de Medicina do Porto. E foi dos primeiros a aderir à moda do karaté, mal esta arte marcial se começou a instalar e popularizar no nosso país, durante os anos 60.
No Soshinkay, na rua Pinto Bessa, foi obrigado a fazer muita ginástica e educou a sua força de vontade. “Para se vencer no karaté é preciso ter uma concentração muito grande”, afirma, acrescentando que o hipismo lhe deu disciplina, rigor e equilíbrio: “Aos domingos, acordava às seis da manhã para ir para os cavalos, onde vigorava uma disciplina militar. O capitão Frazão tratava-nos como se fossemos recrutas”.
Serafim sublimava a montar em cavalos de carne e osso a impossibilidade de dar livre curso à sua paixão pelos motores com muitos cavalos. Como o pai não lhe dava o dinheiro que lhe permitisse concretizar o sonho de ser piloto de corridas, devorava o Motor e o Volante, deleitando-se com os feitos de Carlos Santos, um dos seus heróis.
Jura que só andou pela primeira vez com um carro na rua quando tirou a carta, com 18 anos, em 1972. “Antes do 25 de Abril a polícia era danada e ser apanhado a conduzir sem carta dava direito a prisão”, explica. Não foram muito auspiciosos os seus inícios ao volante do seu primeiro carro, um Fiat 850 Sport vermelho. Logo no primeiro acumulou 21 acidentes, boa parte deles nos descampados vizinhos do Hospital de S. João, quando testava os limites do carro e treinava algumas habilidades. Certo dia, à saída das aulas, com uma mão no volante e outra dependurada na janela, fez uma curva mais apertada, o Fiat bateu no passeio e capotou. A mão que ia de fora ficou tão maltratada que teve de fazer meia volta e dirigir-se à Urgência para receber tratamento. “Andava depressa demais”, reconhece.
Atendendo à sua mania das velocidades, no final da adolescência deixou-se seduzir pelos karts, a cuja prática teve acesso através de Luís Filipe Figueiredo e Silva, seu colega no Almeida Garrett, cujo pai, “que era engenheiro e uma pessoa fantástica”, tinha uma oficina por debaixo de casa onde morava, na rua de Bessa Leite.
No negócio da venda ao engº Figueiredo e Silva do Citroen DS do pai (que só gostava de Mercedes e apenas tinha comprado o carro francês, cuja suspensão era gabada, porque tinha acabado de ser operado às costas) Serafim arranjou maneira de ficar dono de uma kart Zip, com motor Comet, em que atingiu velocidades na ordem dos 100 km/hora em provas no circuito de S. Caetano, em Miramar, até que um dia sofreu o mais grave de todos os seus acidentes. “Não morri por acaso”.
Como não podia deixar de ser, ia de gás. Tinha acabado de entrar, fez uma ultrapassagem, desfez uma curva para a direita, ainda passou a parabólica, mas os pneus estavam frios e na curva seguinte saiu em frente contra um poste, o capacete, que estava mal apertado, voou e a sorte dele foi que não bateu com a cabeça, antes com as partes baixas, e ficou inconsciente. “Magoei-me a sério. O susto foi tão grande que deixei os karts”.
No final do curso, esteve dois anos a fazer a periferia em Boticas, antes de passar no exame para médico militar e corrigir o tiro quanto à especialidade. Ser cirurgião geral era o seu projecto até conhecer o cirurgião plástico Paralta de Figueiredo. Quando regressou às corridas em 97, já tinha participado na primeira lipo-aspiração realizada no nosso país (em 1983, no Hospital S. João) e na mais complicada operação da sua carreira, que demorou mais de 24 horas e teve lugar na Casa de Saúde da Boavista, e envolveu, entre outras coisas, o transplante de dedos dos pés para as mãos de um politraumatizado que tinha sofrido um grave acidente de viação.
Andou pelos troféus, primeiro pelo Fiesta, depois pelos Toyotas, até que um dia o Carlos Rodrigues, que era seu vizinho, lhe tentou vender um Escort, negócio que nunca se veio a concretizar, devido a uma irremediável diferença entre os preços pedido e oferecido, mas que acabaria por ser involuntariamente decisivo no ingresso de Ribeirinho Soares no Nacional de velocidade, na categoria de Clássicos.
As coisas passaram-se assim. Serafim e Carlos Rodrigues estavam a assistir ao Circuito de Vila do Conde, quando, após uma passagem de Mário Silva ao volante de um Chevron B19, o cirurgião plástico desabafou com o amigo e vizinho: “pelo preço que tu me pedes pelo Escort, eu compro em Chevron”. Tudo poderia ter ficado por aqui se não se desse o facto de Carlos Rodrigues não tivesse posto a circular no mercado que o Ribeirinho Soares estava interessado em comprar um Chevron.
O boato chegou aos ouvidos de Carlos Barbot, que pouco tempo depois ligou a Ribeirinho Soares, estava ele de férias a comunicar-lhe que tinha comprado uma barqueta para os dois e que em Setembro iam experimentá-la. Serafim não disse que não. E em Setembro, estava em Silverstone ao volante de um Lola T 212. “Apesar de estar a chover e de nunca ter guiado um carro daqueles, ajeitei-me. E fiz um tempo que todos consideraram fantástico”, relata. Fez negócio.
Logo na primeira prova do Nacional de Velocidade, no ano 2000, em Braga, fez um pódio (2º lugar). E com o Lola seria por das vezes consecutivas campeão nacional (2005 e 2006) que continua a disputar, agora com um Porsche 934.5 . “As corridas representam um escape da minha actividade profissional e obrigam-me a fazer diariamente preparação física”, diz Serafim, acrescentando que a sua melhor característica como piloto é “ser muito ousado e atirado para a frente” e o principal defeito a dificuldade que tem em afinar os carros, que deriva do facto de ter começado tarde.
“Há uma comparação perfeita entre ser cirurgião e piloto. Quando estou a disputar uma prova, tenho de estar super-concentrado, não posso pensar em mais nada, e estou sempre a tentar superar-me. Quando estou a fazer cirurgia passasse o mesmo. Tenho de estar super-concentrado e a superar-me”, concluiu.
Jorge Fiel
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Olha-se para a cara dela e vê-se que anda feliz. O caso não é para menos. Enquanto a esmagadora maioria dos seus colegas estão a despedir gente, Catarina vive no Paraíso dos directores de Recursos Humanos (RH), pois no quadro do seu plano de expansão em Portugal de três para sete lojas, o Ikea vai contratar mais 4500 pessoas nos próximos cinco anos.
“Adoro estar na loja fardada de amarelo”, conta Catarina Tendeiro, 36 anos, que vendeu umas capas de sofá no dia de abertura do Ikea de Loures, onde trabalham as 480 pessoas, das quais 40% licenciadas (em áreas que vão do Direito à Biologia, passando pela História e engenharias), que chegaram ao fim de um processo de selecção a que se candidataram 30 mil.
“Até há pouco tempo, os bons não estavam muito tempo sem trabalho, mas agora…”, comenta a directora de RH do Ikea Portugal, que escolheu almoçarmos na cantina dos empregados da loja de Loures, onde éramos os únicos à civil – ela está dispensada, porque trabalha na área central. É uma questão de cultura. Todos os 1500 trabalhadores do Ikea se tratam por tu, sem excepção. E à vista do cliente não há nada que diferencie o chefe da loja de um colaborador de base, que ganha 600 euros/mês. Ambos estão fardados e a placa identificativa não se revela o posto – apenas o primeiro nome e bandeiras que identificam as línguas que fala. Nem a idade dá uma pista sobre o lugar que ocupam na hierarquia, pois a empresa faz questão de recrutar gente com 50 e 60 anos. “Os mais velhos nunca faltam, são pessoas sólidas e ajudam a equilibrar as equipas, lembrando aos mais novos a importância de ter um emprego e de comer por pouco mais de um euro..”, explica.
O menu da cantina dos empregados é mais variado do que o do restaurante aberto ao público, pois seria uma violência passarem meses a fio a almoçar almôndegas ou salmão. Havia francesinha, mas Catarina optou por uma lasanha vegetariana, acompanhada por salada e sobremesada com uma gelatina.
Ela é daquele tipo de pessoas despachadas, que são eleitas chefes de turma. Filha de um barman, que passou por diversos hotéis do Estoril, e de uma auxiliar de educação, cresceu na Parede e desde miúda se habituou a trabalhar nas férias. Distribuiu jornais no autódromo, esteve ao balcão numa loja de animais, mas o emprego temporário mais estável e lucrativo que teve foi no bar da piscina do Hotel Inglaterra, servindo pregos e imperiais, nas férias grandes ou ao fim de semana.
A meio do curso de Sociologia percebeu que se tinha enganado na escolha, o que ela queria era tratar de pessoas, mas nessa altura não havia nada a fazer senão acabar o curso e corrigir o tiro depois. Foi o que fez. O primeiro emprego a sério foi na Linha Directa do Banco Fonsecas & Burnay, colocada pela Manpower, com um contrato de seis meses.
No início andou apavorada. Em meados dos anos 90, a banca dava os primeiros passos na relação à distância com os clientes e ainda não descobrira a importância de forma quem atendia o telefone. Rapidamente, e em regime auto-didacta, ela fez uma pós graduação em produtos financeiros e passou a tratar por tu leasing, ALD, cartões de crédito, compra e venda de acções, bem como envios de dinheiro para o estrangeiro. Ao fim de um ano já era a supervisora e organizava o call center do banco.
Há sete anos, quando lhe apareceu a hipótese Ikea, não hesitou um segundo. Estava em Palmela, numa fornecedora da AutoEuropa, e ,por causa da crise provocada pelo 11 de Setembro, passava o dia nos tribunais, escritórios de advogados ou em negociações com delegados sindicais que ela ainda não tinha dito nada e eles já estavam a dizer que não concordavam.
“Era uma morte lenta. Uma semana despedia duas pessoas. Na seguinte três. Era um desgaste emocional muito grande”, recorda Catarina, que enquanto esperava para saber se tinha ou não sido admitido no Ikea, meteu-se no carro e foi à loja mais próxima da cadeia sueca (Alcorcón, próximo de Madrid) com um duplo objectivo. Comprar uns móveis de cozinha e sofás (estava a mudar de Carnaxide para Carcavelos) e “ver na cara dos trabalhadores se eram felizes”. Eram.
Jorge Fiel
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Cantina Ikea Loures
EN 250 Rua 28 Setembro, Frielas, Loures
Saladas Tata … 0,60
2 lasanhas vegetarianas … 2,20
Gelatina 0,30
Tarte de frutos silvestres … 0,60
2 águas … 0,60
2 cafés … 0,80
Total … 5,10 euros
Curiosidades
Quando começou o processo de recrutamento para a primeira loja do Ikea (que abriu em 2004 em Alfragide), Catarina pôs anúncios em jornais e pedia que as respostas fossem enviadas para um apartado (de que ainda guarda a chave) que visitava diariamente, munida com uma data de sacos de plásticos para trazer a enorme quantidade de envelopes com currículos. O recrutamento dos 480 trabalhadores para a loja de Loures decorreu em moldes completamente diferentes. As candidaturas e parte da triagem foram feitas online e ainda recorreu às redes sociais Linkedin e Facebook
Catarina está a fazer uma pós graduação (Programa de Direcção para Executivos) na AESE, que funciona com base em casos empresariais. Quando estavam a debater o caso Honda, e a particularidade dos trabalhadores desta companhia andarem fardados, um colega comentou: “Como se isso fosse possível Portugal…”. Ela contrapôs que não só é possível como existe. No Ikea todos os 1500 trabalhadores, excepção feita aos da área central, usam a farda azul e amarela. Na sequência deste esclarecimento pediram-lhe para escrever um caso Ikea, para ser estudado nos próximos programas
Nos bons velhos tempos em que as suas consumições empresariais se resumiam ao Expresso, Francisco Balsemão usava um truque eficaz para preservar a paz durante o fim de semana: fazia de conta que não mandava no jornal que fundou e lhe deu boa parte (a melhor) da sua reputação.
Ao longo de meses, talvez de anos, em que aturou amigos e conhecidos sabedores do seu número de telefone que consideravam ter sido prejudicados, ofendidos ou injustiçados na última edição do Expresso, Balsemão foi construindo laboriosamente a lenda de que era total e completamente alheio a tudo quanto era editorial, pelo que a reclamação estava a ser entregue no endereço errado.
Conta-se mesmo, que, num toque de artista, para credibilizar e adornar esta tese, contava a blague de um dia ter contratado uma agência de comunicação para meter uma notícia no Expresso. Claro que, na vida real, Balsemão não precisa de recorrer aos serviços de Luis Paixão Martins ou Cunha Vaz para fazer publicar uma notícia no seu jornal – basta-lhe telefonar a Henrique Monteiro (por uma agradável coincidência ambos fazem anos a 1 de Setembro, o dia em que também começou a II Guerra Mundial). Mas o fazer de conta que não mandava poupou-lhe uma data de dissabores, chatices e trapalhadas – e por isso ele cultivava essa imagem. A isto chama-se saber levar a vida.
A vantagem de vestir a pele de idiota foi uma das coisas mais importantes que aprendi com Francisco Balsemão. É magnífico ter poder e ser muito importante. Mas é muito melhor ainda ter o poder e ser importante sem o aparentar, para assim podermos escapar incólumes aos malefícios daí decorrentes, designadamente o cortejo de cunhas e queixumes.
Aprendi também que é preciso ter uma certa grandeza para se ser realmente humilde. E como isso carece de treino permanente, sinto a necessidade de parecer idiota pelo menos duas vezes por dia para me manter humilde.
Mas, atenção, que vestir a pele de idiota e exibir a humildade de um monge franciscano só é aconselhável se tiver a certeza absoluta de que, na realidade, não é nem idiota, nem arrogante – e não está em apuros. Devo, a propósito, lembrar uma luminosa frase de Groucho Marx: “O meu cliente tem ar de imbecil, mas desconfiem das aparências, ele é mesmo imbecil”.
Nestes tempos tristes, em que o desemprego oficial já roça os 11% e os bancos fecharam a torneira do crédito, se aparentar estar liso as pessoas fugirão de si como se fosse portador de uma doença contagiosa, com medo de que lhes peça emprego – ou, pior ainda, tente cravar dinheiro, com a promessa velha e gasta do “pago-te para a semana”.
Jorge Fiel
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Laurentina Gomes, 45 anos, é sócia e administradora do grupo Listopsis, que tem origem no departamento da Hoescht onde ela começou a trabalhar no armazém. Reconhece que foi uma grande passada aventurar-se a passar de empregada a patroa. “Sai-se de uma zona de conforto. Mas o atletismo tinha-me ajudado a fortalecer a personalidade e a ter a confiança, persistência e motivação extra que são indispensáveis para ultrapassar as dificuldades”, explica a ex-fundista do Mem Martins e do Campolide, que nunca na vida desistiu: “Sempre levei muito a sério tudo em que me meto. Sair da caminha ainda noite e calçar os ténis molhados para ir correr, não é para qualquer um. O que se aprende no desporto é a ser competitivo e ambicioso, a querer ganhar e fazer sempre mais e melhor”
Uma iogurteira. Por junto e atacado, uma iogurteira foi a única coisa simultaneamente útil e tangível que ela ganhou durante as duas épocas (82/83 e 83/84) em que disputou, ao serviço do Mem Martins e do Campolide muitas dezenas de provas de estrada e corta mato.
Após alguns anos em actividade, a iogurteira avariou e foi parar ao lixo. Ficaram as três ou quatro dúzias de taças e medalhas que Laurentina guarda no gabinete em Benfica, onde gere o grupo Listopsis, um grupo que fornece soluções, conselho e equipamentos na área da informação e impressão, facturando 10,5 milhões de euros e empregando 70 pessoas.
O seu hall of fame privado partilha a mesma parede com as distinções acumuladas pela empresa (os três anos em que foi PME Excelência, as certificações de qualidade, as placas de PME Líder, etc) e ainda com fotografias que documentam diversas etapas da vida dos seus mais valiosos troféus, os três filhos: a Cláudia, 19 anos, que estuda Gestão na Católica (quer trabalhar em Hotelaria e Turismo) e dois gémeos, o Guilherme e o Miguel, que apesar dos 13 anos se interessam de uma forma muito apaixonada por tudo quanto diga respeito à política nacional e internacional.
“O que de mais importante trouxe do atletismo para a vida foi a resistência, a capacidade de trabalho e o querer estar sempre a superar-me. Mantenho essa competitividade ao longo do meu dia de trabalho em que compito comigo própria para conseguir fazer tudo quanto planeei”, afirma Laurentina - Tina para os amigos.
Naquele início da década de 80, Portugal corrigia os excessos do pós 25 de Abril e preparava-se para dar um grande salto em frente para o futuro do país: a adesão à CEE. No atletismo, a prata de Carlos Lopes nos dez mil metros nos Jogos de Montreal, pré-anunciava um período de ouro para o fundo e meio nacionais.
Tina nasceu em 1965 no Hospital de Sintra, a segunda de quatro filhos (das quais todas as três raparigas praticaram atletismo), do matrimónio entre uma auxiliar de educação e um trabalhador de ferro para a construção civil.
Cresceu feliz em Algueirão, num ambiente semi-rural, habituada a brincar na rua, explorar as redondezas em grandes passeios de bicicleta, e a jogar futebol ou râguebi com os miúdos da vizinhança. “Era um bocado traquinas”, reconhece Tina, que recriava com os seus amigalhaços os ambientes e aventuras dos Cinco e dos Sete, inventadas por Enid Blyton e que ela devorava em casa. Como é óbvio, não descansaram enquanto não construíram uma casa no cimo de uma árvore.
Filha de um benfiquista ferrenho, era fã de desporto, gostava de futebol e até simpatizava com o clube da Luz. “Mas não se esqueça de dizer que desde que, há dois anos e meio, compramos a CVCIC no Porto, passei a interessar-me também pelo FC Porto”, pede Tina, que guarda da infância aquele ar e modos de miúda espevitada que nunca desperdiça uma boa oportunidade de ganhar dinheiro.
Aos onze anos, andava ela na escola das Mercês, o atletismo passou a ser a sua modalidade preferida. O clique deu-se quando viu na televisão o sportinguista Carlos Lopes ganhar o Mundial de Corta-Mato.
O fascínio por Lopes e por Rosa Mota, com quem se cruzaria em 1983 num Nacional de Corta Mota, em que ela ainda alinhou como júnior, empurram-na para o atletismo, onde debutou com 16 anos no Mem Martins o clube da sua terra.
Mal a viu, o treinador, o sr Medeiros, apostou logo nela. Era pequena (1m56) e magrinha (46 kg), ou seja tinha as características físicas ideias para ser uma boa fundista. E ainda por cima era aplicada. “Sempre fui muito persistente. Nunca desisti”.
Treinava todos os dias, nunca menos de uma hora e meia, correndo ao chuva e sol, por essas estradas, montes e vales, sempre com o Carocha do sr Medeiros atrás a controlar e a dar indicações.
A sua enorme determinação e resistência levaram o treinador a inscrevê-la numa prova de 30 km de estrada, entre o Guincho e Lisboa, onde conseguiu aquela que foi provavelmente a mais retumbante vitória da curta carreira no atletismo.
“Gostava mais de estrada. No corta-mato os percursos eram tão difíceis que muitas vezes até os ténis saíam dos pés”, recorda Tina, que após entrar para o ISCPSP, onde se licenciaria em Gestão, trocou o Mem Martins pelo Campolide, pois assim podia treinar na pista do CDUL em pista. Tinha de acordar em Sintra às cinco horas da manhã, para poder ir treinar antes das aulas, mas era recompensada no final pelo luxo de um banho quente.
Naquela altura, o atletismo tornava-se de dia para dia mais popular e, num avant la lettre do profissionalismo que as vedetas já abraçavam, os organizadores das provas ofereciam electrodomésticos como prémios para atrair a inscrição dos atletas mais credenciados. Além da já referida iogurteira, Tina ganhou prémios menores como o voucher de um almoço para duas pessoas no Nuno, o mais célebre e caro restaurante das redondezas.
O atletismo acabou por indirectamente influenciar toda a sua carreira profissional, já que foi uma amiga do atletismo que a poupou, para todo o sempre, à maçada de ter de andar à procura de emprego.
“Olha que na Hoescht andam à procura de uma pessoa para a gestão de stocks”. Quando uma amiga do atletismo lhe disse isto, Tina estava a milhas de adivinhar que aquela informação iria ser decisiva para o resto da sua vida.
Foi à entrevista, entusiasmada com a perspectiva de se tornar financeiramente independente. Contrataram-na para trabalhar no DEPSI, o departamento de sistemas de informação, instalado em Benfica, que constituía uma idiossincrasia nacional da sucursal portuguesa da multinacional alemã de produtos químicos.
A trabalhar de dia e estudar de noite teve de deixar o atletismo, mas isso era um preço muito baixo a pagar por ter passado a ganhar 30 contos/mês, mais dinheiro do que a mãe - e dez vezes o valor da bolsa de estudo com que vivia.
Desde gaiata que se habituara a nunca pensar duas vezes quando lhe surgia uma boa hipótese de ganhar dinheiro. Quando andava no liceu, em Sintra, era normal passar as férias grandes como monitora em colónias de férias e outros programas camarários de animação e ocupação dos tempos livres da pequenada.
“Era boa, mas não sentia que pudesse vir a ser uma nova Rosa Mota”, explica Tina, que quando deixou de correr estava a treinar para se dedicar à maratona.
No DEPSI da Hoescht gostaram dela e não demorou até lhe passarem para as mãos uma carga de trabalhos, ao fazerem-na acumular a gestão de stocks com a da importação dos equipamentos – computadores, faxes, fotocopiadoras, etc, vindos de sítios tão diversos como Japão ou Holanda. Um trabalho árduo naqueles tempos em que as barreiras alfandegárias ainda não tinham desabado.
“As pessoas hoje não imaginam como era complicado tratar de toda aquela papelada para desalfandegar as mercadorias”, recorda Tina, que depois de acabar o curso, em 1989, viveu uma revoada de intensos acontecimentos: foi promovida a adjunta da direcção financeira, casou com um colega do marketing e comprou o seu primeiro carro, um Alfa Romeu 33 vermelho que lhe permitiu deitar para trás as viagens de comboio da linha de Sintra e os trajectos nos autocarros da Carris.
Nunca deixou de seguir o atletismo. Sempre que podia, nunca perdia uma competição nos Jogos Olímpicos, em particular as estafetas e provas de velocidade. “No fundo e meio fundo trabalha-se e sofre-se muito. Mas sempre me fascinaram as provas de velocidade e as corridas de estafeta, não só pela sua beleza estética mas também pela coordenação, espírito de equipa e grandes competências técnicas que exigem”, explica Tina, que admirava Carl Lewis e Florence Griffith-Joyner.
Em 1992, o ano zero do desarmamento alfandegário e da constituição grande mercado único, os alemães decidiram por termo à originalidade da sua filial portuguesa de vender computadores e faxes, dando ordens a Lisboa para se concentrar no core business do grupo (os produtos químicos) e por à venda o DEPSI.
Onde a maioria dos mais de cem trabalhadores da empresa viram uma ameaça, Laurentina, o marido e os directores comercial e de pós vendas identificaram uma oportunidade que agarraram com ambas as mãos, aproveitando o solavanco para se tornarem empresários ao protagonizarem um MBO da divisão da Hoescht em que trabalhavam, que deu origem à Listopsis.
“Foi um risco, pois sai-se de uma zona de conforto. Mas o atletismo tinha-me ajudado a fortalecer a personalidade e a ter a motivação extra, confiança e persistência que são indispensáveis para ultrapassar as dificuldades”, afirma Laurentina, que passou os últimos 17 anos a construir um grupo que oferece soluções integradas e globais de sistemas de informação.
“Sempre levei muito a sério tudo em que me meto. No Inverno, quando o equipamento não secava de noite, cheguei a treinar com roupa e ténis molhados. Sair da caminha e calçar os ténis molhados para ir correr, não é para qualquer um. O que se aprende no desporto é a ser competitivo e ambicioso, a querer ganhar e fazer sempre mais e melhor ”, afirma Tina, que todos os dias, às 7h20 da manhã, entra no Solinca do Colombo para fazer 50 minutos de bicicleta e bodypump – e como não consegue deixar de competir com ela própria, está sempre a acrescentar mais peso quer na bicicleta quer nas barras.
“No desporto, continua a pensar que tenho 20 anos…”, explica esta mulher que acredita que se aplica a tudo na vida “o princípio de que o sucesso é 20% de inspiração e 80% de trabalho, persistência e confiança”.
Jorge Fiel
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“Pode viver-se só de soja”, garante Pedro, antes de dar mais uma garfada no pseudo bacalhau à Brás, o prato de resistência do nosso almoço no restaurante da loja da Celeiro Dieta na António Augusto de Aguiar, em frente ao El Corte Inglès. O regime é de self service, mas beneficiei do facto de estar sentado com o dono do negócio para a comida e bebida (uma razoável cerveja biológica alemã Lammsbrau) ser servida à mesa e experimentar variantes ao menu económico (4,80 euros, incluindo sopa, prato, sobremesa e sumo natural) e provar as três saladas de abacate: limão (a minha preferida), maçã e beterraba.
Pedro Lôbo do Vale, 55 anos, médico e empresário, nunca foi muito de comer carne e, no dia a dia, faz a dieta naturista que recomenda aos seus doentes e à farta clientela das 25 lojas (das quais quatro com restaurante) do Celeiro Dieta espalhadas pelo país - a nossa mesa era em frente à zona das caixas, que nunca tiveram descanso durante a refeição, um bom indicador da prosperidade de um negócio que faz surf com a crescente preocupação das pessoas em estarem em boa forma e terem uma alimentação saudável.
“Há cada vez mais gente preocupada com o que come. Hoje, nas sociedades desenvolvidas não se morre de fome mas por excesso de comida”, afirma Pedro, que ele próprio é um bom material de propaganda das suas recomendações e produtos, já que não aparenta estar prestes a fazer 56 anos. “Como sopa todos os dias ao jantar”, explica o médico, que na sua juventude foi um desportista abnegado e apaixonado, tendo praticado modalidades tão diversas como judo, karaté e voleibol.
Ele adora grelhar peixe e conta que no fim de semana anterior comprou a pescadores de Cascais um imperador e um robalo (“do mar”, precisou), que marcharam acompanhados de salada e batatas cozidas com casca. “É pelas barbatanas que se reconhece se o peixe é ou não do mar. Os de cativeiro têm as barbatanas muito arredondadas porque cresceram com pouco espaço e a bater com elas nos outros peixes”, esclarece.
A distribuição alimentar é, há várias gerações, um negócio de família. Da família dele e da família da mulher que eram sócias na Martins & Costa, que tinha duas mercearias finas, onde se vendiam frutas tropicais, caviar, salmão fumado, presunto de Parma, vinhos de Bordéus e queijos roqueforte e parmesão, e que tinham na sua carteira de clientes o madeirense Reid’s, o Hotal Aviz, o Tavares Rico, entre outros.
Foi o pai de Pedro, que tomou a decisão, tão improvável quanto estrategicamente acertada, de diversificar dos foie gras, deliciosos mas letais, para os produtos dietéticos (como o pouco sexy mas ultra saudável farelo de trigo) abrindo em Lisboa o primeiro supermercado Celeiro Dieta, onde ele, jovem estudante de Medicina, trabalhou ao balcão.
Os primeiros salários (o pai pagava-lhe 7500 escudos/mês) aplicou-os numa loja das Escadinhas do Duque, na compra de equipamento fotográfico em segunda mão: uma Yashica, várias objectivas e 14 livros de fotografia. Esta paixão acompanhou-o durante toda sua carreira como empresário, que desenvolveu a cadeia Celeiro Dieta, e como médico, feita entre o Desterro e o S. José – agora só tem prática privada, com consultório na Rodrigo Sampaio.
Falta-lhe o tempo e são tantos os compromissos que provavelmente já não está em idade para mudar tão radicalmente de vida, mas Pedro Lôbo do Vale gostava de ser um dos fotógrafos da National Geographic, uma ambição que não expressa verbalmente mas que é denunciada pelo tipo de viagens que faz e os destinos que escolhe (Etiópia, Mali e Uganda foram alguns dos mais recentes). Viaja sempre acompanhado por 18 quilos de equipamento fotográfico. No regresso, compendia as melhores fotografias num álbum, do tipo coffee table book, legendada e editado pela mulher, impresso na Suíça, e posteriormente distribuído pelos amigos.
À despedida, quando o convenci de que não era só por cortesia que eu lhe dizia que gostara do pseudo bacalhau à Brás (alho francês ripado fazia as vezes do fiel amigo), não resistiu a dar-me um conselho de amigo: “se vier cá comer mais frequentemente vai ver que perde essa barriga”.
Jorge Fiel
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Menu
Celeiro Dieta
Av. António Augusto de Aguiar 130, Lisboa
Saladas de abacate com limão, maçã e beterraba
Pseudo Bacalhau à Brás
2 cervejas Lammsbrau
Ananás e papaia
2 cafés biológicos Delta
Pedro argumentou ser o dono do restaurante para não deixar pagar a conta
Curiosidades
Tinha oito anos quando fez a sua primeira grande viagem de carro com os pais, que foram até Paris e Veneza. No regresso de férias, quando a professora primária pediu aos meninos para fazerem uma redacção com tema livre, ele narrou a viagem pela Europa, descrevendo com pormenor a visita ao Marché aux Puces, de Paris. A professora achou que era tudo resultado da sua fértil imaginação
Quando se deu um 25 de Abril em Portugal, Pedro estava em Moscovo, vindo de comboio de S.Petersburgo, no âmbito de um cruzeiro pelo Báltico a bordo de um navio alemão
O meu filho Pedro estuda Astronomia. Quando era miúdo também me passou pela cabeça estudar as estrelas, mas desisti da ideia mal um professor me explicou que, quando olhava para o céu, não estava a ver as estrelas actuais mas sim uma luz gerada milhares de anos atrás. Como o que eu estava a ver já tinha acabado, estudar estrelas passou, na minha cabeça, a ser um exercício um bocado sem sentido.
É a mesma falta de sentido que detecto nos esforços do Governo de adequar a legislação laboral às necessidades do mercado, já que o número de desempregados (cerca de 700 mil) ultrapassou o de portugueses com disfunção eréctil (meio milhão, estatística das farmacêuticas) o que é uma ameaça à virilidade da nossa economia.
Pressionado por Bruxelas e pela oposição, Sócrates admitiu rever mais uma vez um Código de Trabalhoe que abre portas no domínio da flexibilidade (os bancos de horas e adaptabilidade de horários) que ainda não foram usadas pela generalidade dos empregadores.
Nesta questão há vários problemas e um deles é que o mito de que somos um dos países europeus com maior rigidez na legislação laboral, que de tantas vezes repetido por opinadores mal informados acabou por aceite como bom por quase toda a gente – com a excepção de despedidos e especialistas em Direito do Trabalho.
“O nosso passado recente demonstra que Portugal goza dos regimes mais flexíveis de despedimento colectivo de toda a UE”, afirma César Esteves (advogado de Direito de Trabalho da SRS) num artigo intitulado “Mais fácil despedir cem do que um”, publicado na Advocatus.
Na mesma publicação, Luís Miguel Monteiro (especialista na área laboral da MLGTS) avisa que o nó do problema está no confronto entre a realidade e a direcção do esforço legislativo. No novo normal que emerge da crise abundam crescentes formas de precariedade, quer em soluções (recibos verdes, empresários à força, falso trabalho temporário, etc), quer em número de pessoas abrangidas (1,2 milhões, entre as quais me incluo). “A normalidade reside naquilo que o sistema normativo só admite como excepção: as prestações de serviços que o são apenas de nome, o trabalho sempre temporário, o contrato a termo e a via sacar das respectivas renovações”, escreve o advogado da Morais Leitão.
Todos ganhávamos se o Governo deixasse de estar distraído com a luz de estrelas que já morreram e se preocupasse em regular os laços informais que a economia inventou para sobreviver num quadro legal obsoleto. O emprego efectivo para a vida é tão actual como ir a cavalo para o trabalho - ou escrever molhando no tinteiro o bico de uma pena.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
João Dionísio, 43 anos, é o o chief operating officer da Strat, agência de publicidade que tem em carteira marcas tão sonantes como a Super Bock, CTT, Galp e Jerónimo Martins. Licenciado em Psicologia e especializado em Terapia Familiar, tem 1m78, um peso na casa dos três dígitos e apresenta um tão longo quanto inesperado curriculum em modalidades tão diversas como a ginástica desportiva, basquetebol, karaté, andebol, pesca e tiro. Determinação, vigor e rigor são alguns dos ensinamentos que lhe ficaram tatuados no carácter durante os 13 anos em que foi guarda redes da equipa de andebol do Olivais e Moscavide
O pior eram as boladas na cara. Mas não foi difícil perder-lhes o medo. “Isso treina-se”, explica João Dionísio, que durante os 13 anos em que defendeu a baliza da equipa de andebol do Olivais e Moscavide foi conhecido por Constantino – o seu nome do meio.
No final do treino, viravam a baliza ao contrário. Para proteger a cara, ele punha-se atrás das redes e os colegas iam disparando a bola com toda a bolina, fazendo pontaria à sua fronha. O objectivo era ele habituar-se e deixar de piscar os olhos – pela simples razão de que com os olhos fechados não conseguia impedir a bola de o atingir.
“É um clássico. Quando um guarda redes está a defender tudo, começam a tentar acertar-lhe na cara, para ver se lhe criam medo”, explica João, 43 anos, licenciado em Psicologia Social, professor na Escola de Gestão do Porto e, desde o início do ano, o chief operating officer que está a reposicionar e reinventar a Strat, uma agência de publicidade portuguesa que trabalha para marcas como a Super Bock, CTT, Hyundai, Robbialac, Nívea, Galp, Jerónimo Martins e Hotéis Tivoli.
Com 1m78 e um peso na casa dos três dígitos, apresenta um tão longo quanto inesperado curriculum em modalidades tão diversas como a ginástica desportiva, basquetebol, karaté, andebol, pesca e tiro.
A responsabilidade pela sua iniciação precoce no desporto foi o pai, um marceneiro natural de Abrantes que emigrou para Lisboa para trabalhar nos TLP mas que nunca deixou de polir móveis, pelo que ele cresceu no meio de um cheiro a vernizes, bioxene e cera de abelhas.
A mãe, doméstica, teve-o em casa, no Poço dos Negros, mas não demorou muito até mudarem para Moscavide, onde, aos cinco anos, o inscreveram na classe de ginástica do Atlético Clube local, porque o Joãozinho, apesar de grande para idade, era de compleição frágil e atreito a anemias.
Divertiu-se à ganância durante os cinco anos que passou a fazer arrojados mortais encarpados e ousadas cambalhotas na cama elástica. “A ginástica foi uma poderosa componente da minha formação. Aprendi a respeitar a autoridade e a lidar com as minhas imperfeições e incapacidades. Ao ser obrigado a enfrentar exercícios perigosos, ganhei auto-confiança e noção do risco. E ajudou a disciplinar-me desde cedo, pois tinha de organizar a minha vida de maneira a apresentar-me no ginásio, todas as 2ª, 3ª e 5ª feira, às seis horas, com o equipamento completo”.
Enquanto na escola aprendia a desembrulhar-se no mundo dos números, e num atelier de pintura adestrava a mão e o olhar, no ginásio iniciava-se na noção do espectáculo e da performance. “As pessoas não falam muito disso, mas o desporto trabalha muito o ego. Começamos a gostar de ser o melhor do bairro e a ter muita gente a assistir às nossas exibições. Aprende-se a gostar de ter o pavilhão cheio no dia do Sarau”.
Aos cinco anos felizes na ginástica sucederem-se dois anos tristes no basquetebol. Ele andava na Gaspar Correia e o casting até fazia sentido, pois ele era maior que a média dos miúdos que andavam no ciclo. O problema é que era descoordenado, como todos os rapazes que aos 11/12 anos são grandes para a idade.
Após dois anos frustrantes, em que não chegou a tratar o cesto por tu, aproveitou o fantástico ecletismo do Atlético Clube de Moscavide para fazer uma incursão de três anos pelo karaté, que muito apreciou e onde chegou a cinto azul. “As artes marciais são o supra-sumo do desporto. Uma coisa muito filosófica que trabalha a nossa agilidade física e mental - e ensina a superar-nos e a controlar a intensidade da força. Gostei muito”.
João estava já no secundário, que fez com uma perna às costas na ES Vasco da Gama (“Sempre tive facilidade na escola. O rigor que trouxe do desporto ajudou muito. E estava com atenção nas aulas), quando o andebol surgiu na sua vida.
Ele não se lembra muito bem de como tudo começou. Mas a verdade é que, a páginas tantas, um grupo de amigos, que o incluía, decidiu fazer uma equipa de andebol e o Olivais e Moscavide, que não tinha essa modalidade, recebeu-os de braços abertos. Por causa do físico e da experiência (no ciclo tinha defendido a baliza da selecção da escola), o João, nome de guerra Constantino, foi para a baliza.
Sportinguista, por herança do pai, logo havia de calhar estrear-se em competições oficiais contra o clube do seu coração, que infligiu aos tenros juvenis do Olivais e Moscavide uma pesada derrota: 36-9. Estava dado o tom para a primeira época, em que perderam os jogos todos.
Na segunda temporada, as coisas começaram a endireitar-se e a primeira vitória, por 32-20, face à União Desportiva de Oeiras, ficará para todo o sempre gravada na memória de João Dionísio, tanto mais que nesse dia marcou um golo de baliza a baliza.
Os 13 anos que passou no andebol, como guarda-redes do Olivais e Moscavide, não foram sublinhados por medalhas, troféus ou retumbantes vitórias. “A nossa glória era jogar contra o Benfica, o Sporting e o Belenenses, e conseguir discutir o resultado e levantar-lhes dificuldades”, explica João que perdeu a titularidade da baliza após um par de épocas como sénior, quando o paradigma do andebol começou a mudar no nosso país.
“O andebol era uma modalidade muito democrática, em que todos tinham lugar. Os gordos iam para a baliza, os pequenos para pontas e havia pivots gordinhos, como o Hernâni, que jogava com uma enorme elegância e aparecia sempre no sítio certo. Isso mudou. Hoje no andebol são todos gigantes. Não há lugar para nem para os pequenos nem para os gordos. Com menos de 1m80 não jogam. O Maradona e o Messi não tinham lugar no andebol”.
Apesar de ter perdido a titularidade, jogou até ao final do curso, raramente faltando ao treino diário, entre as 20h30 e as 22h30, no pavilhão da ES Fernando Pessoa, apesar de além de estudar ter tido quase sempre trabalhos em part time.
Tinha 15 anos quando ganhou o primeiro dinheiro, fazendo, sob a supervisão do chefe Silva, o inventário completo das armas existentes na esquadra da PSP de Moscavide. Recebeu 4.500 escudos por 15 dias de trabalho. Nada mau. “Sempre fiz desporto e sempre trabalhei”, esclarece.
Nas férias grandes, foi monitor na Colónia Balnear do Século, em S. Pedro do Estoril, ocupando-se de miúdos carenciados. “Uns nunca tinham visto o mar. Outros não sabiam comer, ou seja sentar-se regularmente à mesa para tomar uma refeição. E muitos não estavam habituados a tomar banho. Aprendi a ser pai, a não dar pêssegos à noite às crianças porque senão elas ficam mal dispostas”, conta João, que tem dois filhos rapazes, o Tiago, de 13 anos (que desde os seis anos toca violino) e o mais novo com quatro.
A mulher e mãe dos seus filhos, educadora do Ensino Especial, conheceu-a na Cruz Vermelha, onde João trabalhou durante três anos, dando cursos de adaptação a ambulância (em corporações de bombeiros e grandes empresas, como a Galp e a Caixa) enquanto frequentava a faculdade.
Medicina foi a sua primeira opção, mas ditada por razões única e exclusivamente racionais, pois garantia emprego bem pago e socialmente prestigiado no final do curso. Não entrou por umas décimas.
Psicologia foi a sua segunda e última opção. Quando acabou o curso em Psicologia Social, com uma especialização em Terapia Familiar, esperava-o trabalho com famílias disfuncionais e toxicodependentes. Não se sentiu capaz. “Aos 24 anos ninguém está preparado para fazer terapia familiar. Eu nem sequer família tinha. Tudo o que mete relacionamento humano tem de meter tempo para amadurecer. Foi mais fácil e sério seguir a paixão pela comunicação, estudar e aprender o consumo”.
Acabou o curso em Julho de 1991 e em Setembro foi estagiar para a Multivaria, empresa de estudos qualitativos de mercado, e ficou por lá. “Tenho andado a vida inteira a aplicar o que aprendi na faculdade: olhar em profundidade para as coisas e pessoas. As pessoas são a mais valia das empresas. Os negócios são pessoas. Qualquer processo de venda tem a ver com vender ideias a pessoas e quem tem as ideais são pessoas, As pessoas são o tema, claramente”.
Cinco anos depois já era partner da Multivária, onde se demorou 18 anos, até aceitar o desafio para liderar o reposicionamento da Strat, subordinado ao mote “Criatividade com Estratégia”.
No final do curso, casou-se e deixou de levar boladas na cara. Deixou de ter tempo e disponibilidade de espírito para treinar todos os dias. Acabou o Constantino. Trocou por isso a bola de andebol pela cana de pesca. Neste momento é atleta, disputando o campeonato da 1ª Divisão da Associação de Lisboa em representação do Clube Amadores de Pesca de Lisboa. E mais recentemente, por influência da mulher que é atiradora, anda entusiasmado com o Field Target, ao ponto de ser o presidente do Clube de Tiro de Campo.
Do desporto trouxe para a vida muitas lições. Faz questão de recordar uma delas, aprendida com Vitor Paiva, seccionista do andebol do Olivais e Moscavide, que ele homenageia apelidando-o “um formidável formador de caracteres”:
“Uma vez, teria eu uns 15 anos, cheguei a uma reunião sem nada nas mãos. O Vítor Paiva chamou-me de lado e ensinou-me: Nunca vás para uma reunião com as mãos a abanar; deves trazer sempre papel e caneta para demonstrar às outras pessoas que dás importância ao que elas vão dizer, ao ponto de tomar notas”.
Determinação, vigor e rigor são alguns dos ensinamentos que lhe ficaram tatuados no carácter dos 13 anos em que praticou andebol, uma modalidade em que há muito contacto físico.
“Por haver muito contacto físico permitido, ao contrário do que acontece, por exemplo, no futebol e no basquete, o andebol exige-nos um grande controlo, auto-disciplina, e termos uma noção muito exacta da nossa força. É como nas empresas, em que se somos grandes temos de ter a noção do nosso poder; e e se somos pequenos temos de ter a noção da grandeza da nossa pequenez”, concluiu João Dionísio, o homem que treinou para deixar de ter medo de levar boladas na cara.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo
Desagrada-lhe a cultura portuguesa do golpe. Dá um exemplo. Um dinamarquês tem vergonha de estar desempregado. E se os amigos acham que ele está a demorar tempo demais a arranjar um emprego um dia, quando estiverem todos a beber umas cervejas, fazem-lhe ver que são eles que o estão a sustentar.
Cá, um tipo que consiga viver à custa do Estado é invejado como um vivaço - “ele é que a sabe toda”, comentam os amigos. Os dinamarqueses (que produzem o dobro da nossa riqueza, apesar de serem apenas cinco milhões!) sabem que o Estado deve ser visto na primeira pessoa do plural (nós), enquanto a maioria dos portugueses teima em identificá-lo como a terceira pessoa do plural (eles).
“A rede de segurança em Portugal é muito alta. Não há factores de motivação para as pessoas se mexerem”, critica Luís Magalhães, 54 anos acabados de fazer, managing partner da Deloitte, consultora que comemorou o 40º aniversário, proporcionando as condições para que a elite do país procedesse ao exercício de introspecção nacional que dá pelo nome de Projecto Farol.
“Queríamos um documento que pudesse ser lido por toda a gente”, diz Luís, explicando por que é que as conclusões preliminares de um debate que envolveu dezenas de papers, centenas de pessoas e milhares de horas de trabalhos tenham sido em 50 páginas que contêm uma visão e um guia para o desenvolvimento de Portugal - e onde se elencam doze propostas imperativas, sendo que uma delas é estabelecimento de limites à carga fisacl e à despesa do Esatdo.
Luís Magalhães escolheu almoçarmos na trendy Cafetaria Mensagem do Altis Belém. Concordamos num bacalhau à lagareiro que ganhou claramente ao branco ribatejano Fiúza Três Castas com que o acompanhamos. A conversa à mesa levou-nos até Angola, França e Bélgica, a geografia percorrida por Luís até ser adulto e ir parar à Arthur Andersen pelo efeito conjugado do imperativo do abecedário e de um daqueles acasos em que a vida é fértil.
Nasceu no Lobito, onde a família tinha um negócio de impressão, mas cresceu entre cá e lá, viajando a bordo dos míticos paquetes Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique. Fez a primária entre Braga (a base dos Magalhães) e o Lobito. Repartiu o secundário entre o Liceu Camões e o da cidade do porto escoava as mercadorias que o caminho de ferro de Benguela trazia da entranhas de África.
Aos19 anos está em Luanda, no 1º ano de Engenharia Electrotécnica, quando se dá o 25 de Abril e os angolanos desatam aos tiros uns aos outros. Como gosta de praia, em Junho de 1975, quando voa para Portugal já decidira a continuar os estudos em Montpellier, eleita por ser a universidade mais francesa mais próxima do mar. Chegou lá e deu com o nariz na porta, mas o facto das inscrições para Engenharia já estarem encerradas não o impediu de dar um giro pela Côte de Azur.
As paredes do Técnico forradas com cartazes do MRPP ofenderam-lhe os princípios anti-comunistas, pelo que eliminou a hipótese de fazer o curso em Lisboa. Estava neste impasse, quando uma amiga de Lobito, que tinha ido para a Bélgica, lhe ligou a saber dele. “Queres que te inscreva cá?”, perguntou-lhe. “Já agora”, respondeu ele, que arrancou para Bruxelas convencido que ia estudar Engenharia - só à chegada soube que estava matriculado em Economia.
Estava convencido que estava de passagem, quando regressou a Lisboa em 1980, já com o curso na mão. Preparou candidaturas para fazer o MBA em diversas universidades americanas. Foi aceite numa data delas, mas em Agosto, farto de estar à espera sem fazer nada, abriu a lista telefónica e começou a anotar a morada de consultoras. A primeira que lhe apareceu foi a Arthur Andersen (que mais tarde se fundiu com a Deloitte). Foi até ao escritório, na avenida da Liberdade, perguntar se estavam a recrutar pessoas. “Por acaso estamos”, respondeu a recepcionista. Preencheu os formulários, foi à entrevista, e 30 anos depois este no vértice da pirâmide de 1500 pessoas que trabalham nesta consultora.
Na vida há mesmo coincidências. A amiga do Lobito que lhe telefonou de Bruxelas é a mulher de Luis Magalhães. E a recepcionista da Arthur Andersen, em 1980, é agora a sua secretária.
Jorge Fiel
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Cafetaria Mensagem
Altis Belém
Doca do Bom Sucesso, Lisboa
2 couvert … 6,00
2 bacalhau à lagareiro … 32,00
1 Luso … 4,50
Fiuza 3 castas … 12,50
2 cafés.. 6,00
Total… 61,00
Curiosidades
No início dos anos 80, a mãe de Luís (que ficou órfão de pai novo) foi chamada ao Bando de Portugal para explicar porque é que mandava tantos vales postais para Bruxelas. No entanto, ele não estava só dependente das remessas de dinheiro da família. Além de estudar, fazia diversos trabalhos em part time, como carregar e descarregar camiões para supermercados ou lamber envelopes e selos nas Selecções do Reader’s Digest
Há quase dez anos, Luís era o managing partner da Arthur Andersen em Portugal quando, a nível internacional, a consultora perdeu o nome na sequência do seu envolvimento no escândalo Enron. “São dessa altura a maior parte dos cabelos brancos que tenho”, comenta, acrescentando que teve de tomar comprimidos para dormir durante os dois meses em que tinha o nas mãos o futuro de 600 pessoas (e respectivas famílias). Tudo acabou em bem, com uma fusão com a Deloitte.
Algures em meados dos anos 50, um congresso médico internacional decretou o fim da degola das amígdalas dos meninos que iam com as mães ao médico queixosos de dores na garganta. Na sequência desta decisão, os portugueses dividem-se entre empregados e desempregados, benfiquistas e anti-benfiquistas, os que preservam as amígdalas e os que foram desprovidos delas.
Esta última divisão coincide com um corte geracional. A esmagadora maioria dos portugueses com mais de meio século de existência não tem amígdalas e cresceu exposta à retórica anti-espanhola que era parte integrante da cultura do Estado Novo.
Na vã tentativa de todos cerrarmos fileiras em torno do chefe (“Portugueses quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!”) contra o inimigo externo mais à mão (o mar não se adequava ao efeito) os propagandistas do regime ditatorial agitavam o fantasma da Espanha enquanto enalteciam a padeira de Aljubarrota, alimentavam o folclore de Olivença e dramatizavam numa espécie de nova batalha de S. Mamede cada jogo de hóquei em patins entre as selecções dos dois países ibéricos.
Vítimas deste carpet bombing ideológico, muitos dos portugueses desprovidos de amígdalas estão sinceramente convencidos da bondade do provérbio “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” (o que não é verdade porque o excelente pata negra de Barrancos faz a sua cura exposto ao vento quente que sopra do outro lado da raia) - e estou em crer que evitam fazer compras no El Corte Ingles. Esta rançosa desconfiança não é partilhada pelo pessoal mais novo, que tem amígdalas e escolhe Espanha como destino preferido de Erasmus.
Eu não tenho amígdalas mas admiro as gentes que habitam no resto da Península, sejam eles galegos, catalães, andaluzes ou etc. Acho detestável aquela mania de chamarem pantalones vaqueros aos jeans e de dobrarem os filmes (o Marlon Brando a falar espanhol no Padrinho é de um tipo se rebolar no chão a rir), mas invejo-lhes o manchego, Barcelona, Almodovar, a alegria de viver, o Reina Sofia, a Plaza Mayor de Salamanca, o pulpo à feira, o casco velho de Santiago de Compostela, Penelope Cruz, o Guggenheim de Bilbau, os pimentos de Padrón, Lluis Llach e mais uma data de coisas que não cabem aqui.
Para mim, que não tenho amígdalas, o problema na Península Ibérica não se chama Espanha, mas sim Lisboa (e Madrid). E para os que não estão convencidos disso, recomendo a consulta de Economia Mundial: uma perspectiva milenar, de Angus Maddison, onde se prova que, em toda a nossa História, foi durante a União Ibérica que estivemos mais próximos da riqueza média europeia – 85% em 1600, contra 79% em 1500, 34% em 1913, 41% em 1950 e 69% em 1998.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias