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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Sobre a necessidade de uma banda gástrica

Anda para aí uma data de gente que nunca o gramou. Assim de repente (e para além do pioneiro e inimputável Sousa Lara), estou a lembrar-me de Rio, que proibiu o Porto de ter uma rua com o nome ele, do presidente da Câmara de Mafra, que impediu uma escola de ser baptizada José Saramago, ou até do PR, que não achou necessário dar-se à maçada de estar presente no seu último adeus.

Mas olhem que vale bem a pena visitar as páginas que ele escreveu e deixar que alguns pedacinhos de sabedoria nos abram os olhos e inundem de luz, como por exemplo, o conselho contido no Ensaio sobre a Cegueira: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Eu olho para o Ministério da Educação e vejo o mistério do encerramento da EB 1 da Várzea de Abrunhais, em Lamego, que no ano passado foi premiada pela Microsoft e integrada na rede mundial das escolas inovadoras, com os seus alunos -  habituados a usar o Magalhães nas aulas, a um ambiente wireless e a um quadro interactivo – a serem transferidos para uma escola sem telefone nem Internet.

Eu olho para Ministério das Obras Públicas e vejo-o atolado no pântano da mal amanhada tentativa de introdução das portagens nas Scuts do Norte (que ainda ninguém sabe ao certo como vão ser cobradas), com a Estradas de Portugal à espera de recolher 53 milhões ainda este ano e o secretário de Estado Paulo Campos a dar-se por satisfeito se pingarem uns 15 milhões.

Eu olho para o Ministério das Finanças e reparo que ele é incapaz de controlar a despesa (entre 2005 e 2009 os gastos correntes do Estado cresceram 14,6 mil milhões de euros!) e cumprir o prometido a Bruxelas no PEC – apesar da regra de um carro novo por cada três abatidos e de se continuar a modernizar, o parque de veículos do Estado teima em manter-se estabilizado nas 28.793 viaturas.

Eu olho para o Governo e reparo que ele é declaradamente impotente para fazer emagrecer um Estado obeso e bulimico, com 14 mil instituições confortavelmente instaladas, com o guardanapo enfiado no colarinho e a faca e o garfo afiados, sentados à mesa do orçamento que nós financiamos, pagando cada vez mais impostos.

O nosso sistema está com Alzheimer. Atingiu um tal estado de desordem que não consegue gerar os factores que possibilitem a sua regeneração, se não mudarmos as bases da organização político-administrativa da nação.

Se apesar das auto-estradas do asfalto e de fibra óptica, o Governo não consegue ver ao longe, de Lisboa para Lamego, o melhor é regionalizar já todo o país e aproximar o poder dos cidadãos.

Se a barriga do Estado é tão grande que o Governo não consegue ver o chão que pisa, dieta e exercício físico já não são suficientes – é preciso uma banda gástrica.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Raquel Sampaio

 

Raquel Sampaio, 29 anos, é professora de Relações Públicas e a produtora artística da Academai das Emoções, empresa espeializada em acções de motivação e team building, que integra ilusionistas, maestros e bailarinas no seu corpo de formadores. “Ajudamos um grupo a chegar a equipa”, explica esta fanática por desporto, que durante seis anos correu com a camisola amarela do Jovens Unidos Num Ideal, um clube da sua terra (Guimarães). “Foi o atletismo que me fez crescer. Ganhei capacidade de sofrimento e disciplina”, afirma esta mulher que faz musculação e já foi bailarina e instrutora de fitness. “O que o nosso corpo diz é muito importante e deve ser trabalhado. O corpo fala tanto como a boca”, explica

 

Ela é uma falsa alta. Mede 1m65 - mas parece muito maior. Engana porque anda sempre em cima de saltos altos e é muito magra. Agora, que faz musculação, pesa 55 quilos, mas quando corria tinha menos dez quilos. Era uma lingrinhas. À partida para as provas, não eram nem uma nem duas, mas muitas as pessoas que olhavam para ela, levezinha e um pedaço de gente como a Rosa Mota, e apontavam: “Quem vai ganhar é aquela”.

Ao longo dos seis anos que correu por pistas, estradas e a corta mato, com a camisola amarela do JUNI (Jovens Unidos por um Ideal) vestida, Raquel, 29 anos, ganhou umas provas e perdeu outras. A princípio, na sua primeira época, não estava ainda com a cabeça a 100% sintonizada no atletismo. Apesar de miúda, não abandonou logo os hábitos de fumar, beber uns copos e sair à noite. Mas, logo no 2º ano, após ter feito os mínimos para os Nacionais, na prova dos 1500 metros, começou a ganhar o gosto pelas vitórias e numa mais deixou de lutar por elas. Sempre e muito.

“Comecei a adorar ganhar provas e a gostar de ver atletismo na televisão, que antes considerava uma seca”, explica Raquel, que nasceu e cresceu em Guimarães (onde ainda mantém o centro de gravidade) filha do matrimónio entre uma funcionária pública e um operador de máquinas, uma família de benfiquistas, o que reconhece ser uma anormalidade na cidade berço: “98% dos vimaranenses são vitorianos!”.

Irrequieta, na primária fartava-se de andar a correr de um lado para o outro, mas curiosamente, quando chegou ao secundário, feito na Francisco de Holanda, a primeira modalidade que praticou como federada foi o voleibol, em Fermentões, por influência de umas amigas e vizinhas. Treinava três a quatro vezes por semana, mas o jogo não apaixonava. Ao fim de uma época desistiu.

O atletismo a sério veio por acaso. Sempre que havia corta-matos escolares ela participava e era sempre das primeiras a chegar à meta. Um dia, ficou em segundo e a que ganhou, que era federada e corria pelo JUNI, perguntou-lhe se ela não queria entrar no atletismo. Ela disse que sim, mas não estava muito convencida. Na primeira época, faltou a alguns treinos e levava uma vida pouco regrada. “Tinha jeito, mas não gostava muito”, confessa. Foi uma questão de tempo até se apaixonar pela modalidade, onde logo se revelou uma atleta polivalente, que entregava bons tempos e resultados nos três pisos (tartan, estrada e corta-mato) e em distâncias variadas, que iam dos 400 até aos 3000 metros.

O ponto de viragem foi quando fez os mínimos para os Nacionais, disputados em Mafra, proeza que deu direito a entrevista de página, com fotografia, num jornal de Guimarães, o que além de encher de orgulho a família Sampaio também lhe inchou o ego e levou a meter-se em brios.

Rapidamente se transformou numa das estrelas do JUNI, um clube pequeno, com não mais de uma dúzia e meia de atletas, treinados por dois homens, o senhor Salvador (que também andou pelo ciclismo) e o chefe Gaspar (assim chamado por ser graduado nos Escuteiros), cuja coroa de glória era terem sido colegas de Carlos Lopes, a glória máxima do nosso atletismo, que pôs a Portuguesa a ser tocada no Estádio Olímpico de Los Angeles.

“Os treinadores, em especial o chefe Gaspar, diziam que eu tinha qualidade, os meus pais adoravam que eu corresse, os resultados começaram a aparecer, e eu entusiasmei-me. Cortei nos cigarros, nos copos e nas saídas à noite”, explica Raquel, que se demorou seis anos pelo atletismo, treinando todos os dias, nas praias, dunas, serra, pinhais, pista ou estrada, apenas com uma folga por semana –  às 19h00, de 2ª a 6ª,  aos sábados à tarde e a ao domingo de manhã.

Ficou eternamente grata ao atletismo, por a ter ajudado a crescer. “Ganhei capacidade de sofrimento, disciplina e responsabilidade”, refere, acrescentando que apesar da corrida ser um desporto iminentemente individual, também aprendeu a trabalhar em equipa - nos treinos e nas provas em que havia também pontuação por clubes.

Confessa que às vezes lhe custava um bocado sair de casa, principalmente no Inverno, quando no início do treino já era noite. A chuva não a incomodava-a. “Correr à chuva até sabe bem. No Verão era mais fácil sair de casa, mas o treino era mais duro. É muito desgastante correr com muito calor”.

O amor pelo atletismo era tanto, que um dia teve de ser a mãe a impor-se proibindo-a de sair da cama, pois  apesar de engripada e com 39º graus de febre, ela teimava em levantar-se para ir treinar. “Nesse dia, treinávamos em pista que era o meu piso favorito. “, recorda, acrescentando que por essa altura já estava completamente viciada na modalidade – não queria falhar, só pensava em ganhar.       

Foi contemporânea de Fernanda Ribeiro e Manuela Machado, mas também de Jessica Augusto. Desistiu do atletismo devido à conjugação no espaço e no tempo de uma data de acontecimentos, pouco depois de ter ultrapassado o ponto de viragem da promoção de júnior a sénior, uma passagem em que uma atleta habituada a ganhar começa a perder e tem de aprender a aceitar a derrota e não desistir. “O atletismo é muito duro. Para se vencer é preciso ser muito forte, não só fisicamente mas também de cabeça. Metade do sucesso é a cabeça. Veja-se o caso do Mamede, que falhou tantas vezes apesar de ser fisicamente mais forte que o Lopes”, exemplifica.

Para começar foram os estudos. Acabado o secundário, foi para a Escola Superior de Educação de Bragança estudar Animação e Produção Artística (o curso que era o seu plano B accionado mal falhou a primeira opção, que era fazer Design de Comunicação, em Coimbra). Depois foi a operação aos pés que a obrigou a parar precisamente na altura em que o FC Porto começava a namorá-la – e a fez andar nove meses de canadianas. Como se isto não bastasse, apareceram-lhe duas novas nova paixões: a musculação e a dança.

Ainda andava de canadianas quando começou a frequentar o ginásio, que nunca mais deixou. Quando recomeçou a andar pelo seu próprio pé, envolveu-se na dança e foi bailarina de diferentes géneros, do clássico à salsa, passando pelo hip hop e o funk (“gosto de ritmos africanos”, confessa). Por fim tirou um curso de instrutora de fitness.

“Tenho saudades do atletismo. Arrependo-me de ter desistido. Mas agora, com 29 anos, já é tarde para voltar”, diz Raquel, que divide o tempo entre a sua actividade de professora (à 2ª e 3ª feira dá aulas de Relações Públicas na Escola Tecnológica e Profissional da Zona do Pinhal, em Leiria) e de produtora artística da Academia das Emoções, empresa especializada em acções de motivação e team building, que integra ilusionistas, maestros e bailarinas no corpo de formadores porque o seu conceito base consiste em usar a arte para trabalhar e fortalecer o espírito de equipa.

“Ajudamos um grupo a chegar a equipa”, sintetiza Raquel, que a nosso pedido resumiu o programa tipo de uma das suas sessões, que em média duram quatro horas e se dirigem a quadros de primeira linha de grandes empresas.

Para começar, deitam-se todos de costas no chão, de preferência em círculo, olhos fechados e mão dada com a pessoa do lado. Depois, ela pede-lhes para pensarem em coisas positivas enquanto ouvem, durante três minutos, uma voz agradável e profunda, a dizer palavras como Amor, Sucesso e Criatividade. A seguir é a massagem colectiva. À vez, cada um dos membros do grupo (idealmente constituído por 18 pessoas), vai para o meio e, com os olhos vendados, é massajado da cabeça aos pés pelos outros, ao som de Mr Jones (“Shalalalalala, uh huh…Yeah), dos Counting Crows.

Cada massagem dura apenas um minuto. “As pessoas gostam. Querem mais, mas não pode ser”, “As pessoas têm medo do toque. Não compreendem a importância de um bom aperto de mão ou de um abraço forte na hora certa”, explica Raquel, que trabalha o poder de comunicação corporal dos outros com a credibilidade que lhe advém do seu próprio corpo, magro mas com a musculação bem definida, resultado de milhares de horas no ginásio e na dança.

Quebrado o gelo com a massagem, a sessão team building prossegue com exercícios de improvisação que promovam o riso, em que o pessoal abandona definitivamente a pose de quadro superior de uma empresa de telecomunicações ou seguradora, e entrega-se a brincadeiras em que imita a reacção de animais como o elefante, crocodilo ou leão. O objectivo é a risota.

Fazer um andar esquisito (mancar, andar à Charlot…) e transformá-lo num passo de dança, ajuda a ultrapassar o medo do ridículo. E o número de dobrar o jornal estimula a criatividade e põe as pessoas a desempenhar papéis em que nunca se viram. A coisa passa-se assim. É colocada no chão uma folha de jornal. O grupo divide-se em pares, que, à vez, têm de aguentar três segundos com os pés em cima da folha - que se vai dobrando e ficando mais pequena até haver um vencedor. Há truques para se ir longe nesta competição, como pôr-se às cavalitas (ou ao colo…) do outro. E nada impede os mais espertos de arrastarem a folha do jornal para junto à parede… 

Raquel adaptou os três andamentos do desporto  - ouvir e assimilar os ensinamentos do treinador, ser bom a executá-los, apreciar a performance e aproveitar as criticas para a melhorar – à coreografia empresarial dos seus workshops. “Primeiro cria-se, depois executa-se, por fim avalia-se. O que o nosso corpo diz é muito importante e deve ser trabalhado. O corpo fala tanto como a boca”, garante Raquel, que fez rádio em Bragança (“gostava de um dia trabalhar a voz”) e adora os anos 80. “A música puxa-me para cima”, conclui a ex-atleta, que cita Maria Gadu e Lauryn Hill, como duas das suas preferências musicais no momento.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

Vítor Soares

É na mitologia grega e na filosofia que o aquariano Vítor encontra as respostas às questões que assaltam uma cabeça habituada a pensar fora do quadrado e dotada de uma extraordinária capacidade para conceber e desenhar coisas tão fora do vulgar como sete novos formatos de colarinhos e oito de punhos de camisa.

Não é de agora que Vítor Soares, 46 anos, professor universitário de Psicologia de Bragança, pensa diferente. Na noite em que o escudo deu lugar ao euro, acordou a meio da noite com o desenho de uma carteira adequada às novas notas gravado na cabeça – que passou imediatamente ao papel e registou na manhã seguinte no notário do Porto.

A aproximação à camisa foi feita através de inovadores nós de gravata que ia moldando em espuma e começaram a pedir colarinhos especiais para assentarem bem. Estavam lançadas as bases para a Porthus Krauss, a  marca de roupa de luxo para homem que Vítor está a lançar.

“Faço camisas únicas e de alta qualidade, confeccionadas com os melhores tecidos da Somelos. Toda a roupa e acessórios da Porthus Krauss são feitas em Portugal. O tecido dos fatos (65% algodão e 35% seda) são da Paulo Oliveira”, faz questão de notar esta antigo capitão da Força Aérea, que aos 33 anos passou à reserva por não suportava a perspectiva de ver toda a vida à sua frente programada a régua e esquadro – e com o tecto baixo (como não era piloto aviador não passaria de coronel).

Almoçamos no Canaletto, um dos principais restaurantes do pastiche da praça de S. Marcos (atravessada por canais onde circulam gôndolas) do The Venetian, de Las Vegas, onde Vítor estava a apresentar, no âmbito da Magic (a maior feira de vestuário do Mundo) as suas camisas com colarinhos e punhos diferentes do habitual – recebidos com entusiasmo pelos compradores, que apontavam o preço (130 dólares a unidade) como o único senão.

Conquistados pela originalidade do desenho, alguns compradores em vão o tentaram convencer a usar tecidos mais baratos, importados da Turquia. Vítor manteve-se intransigente a dois dos seus princípios básicos: usar os melhores tecidos disponíveis na confecção da sua roupa e produzi-la integralmente em Portugal.

Apesar de estarmos numa falsa Veneza, adaptamos o velho e batido  aforismo (em Roma sê romano) e fomos italianos na hora de encomendar, optando por um risotto acompanhado por água lisa.

Vítor nasceu em Luanda, em 1964, onde o pai, militar de carreira na Força Aérea, cumpria uma comissão de serviço (e arredondava o fim do mês dando explicações de Matemática a enfermeiras), e passou parte da infância em Lourenço Marques, até que o fim das guerras coloniais levou a família Soares a instalar-se em Bragança - tinha ele nove anos.

Não se demorou muito por Trás-os-Montes. Aos 12 anos, encontrámo-lo em Lisboa, no Colégio Militar, onde se distinguiu na esgrima (medalha de ouro de mérito) e na ginástica. No final do secundário, concluído com a apreciável média de 17 valores, optou por trilhar o mesmo caminho que o pai e foi para a Força Aérea.

Na recruta foi o primeiro a tudo, menos a tiro. Aprendeu informática, no tempo dos cartões perfurados e das bandas magnéticas, antes de se decidir a adquirir uma formação suplementar, fazendo o curso de Psicologia na Lusófona. Despiu de vez quando atingiu a idade com que morreu Jesus Cristo e estava no Centro de Psicologia da Força Aérea.

Manteve-se na capital pois foi logo recrutado para Egor, de onde saiu um ano e meio volvido, sem ter conseguido cumprir a tarefa para a qual tinha sido contratado, que era abrir a sucursal em Maputo daquela empresa de Recursos Humanos.

Regressou a Trás-os-Montes e apostou na vida académica, começando a dar aulas. Ultimava o doutoramento sobre a relação entre os valores individuais e o burn out (concluiu que individualistas e pessoas com ambição desmedida são os mais atreitos a passarem-se), defendido em Salamanca, onde recebeu a classificação de excelente cum laude, quando lhe surgiram cabeça desenhos fora do vulgar de colarinhos e punhos – e acrescentou a condição de empresário à profissão de professor universitário.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Curiosidades

 

Vítor candidatou-se ao mesmo tempo aos Pupilos do Exército e ao Colégio Militar. “Escolhi o Colégio Militar, porque pensei que devia ser melhor, uma vez que não tinha ficado em primeiro nas provas”, explica

 

Do doutoramento, feito na Universidade de Salamanca queixa-se apenas do preço elevado (154 contos) que pagou pelas cópias e encadernações da tese

 

A escolha da marca foi simples. Porthus representa Portugal. Krauss é uma piscadela de olho ao mercado alemão, onde espera ter grande sucesso. Além disso. Acha que o r a seguir ao k transmite muita força à palavra

 

Menu

Canaletto Ristorante

The Venetian Resort Casino

3377 Las Vegas Blvd South, Las Vegas, Nevada

1 água lisa … 7,50 USD

2 risottos com secoe e funghi … 39,98

2 cafés expresso … 5,90

Tax …4,33

Total: 57,71 US dólares

 

Barracada à vista no Terreiro do Paço

A eleição de Barack Obama foi, até agora, o mais grave sinal da minha transformação em antepassado. Pela primeira vez na sua História, os Estados Unidos têm um presidente mais novo do que eu, o que até pode ser muito bom do ponto de vista do interesse geral da humanidade (até simpatizo com o homem!) mas a mim preocupa-me bastante.

Outro perigoso sintoma do meu envelhecimento é o facto de 37,9% dos polícias (estimativa pessoal e aproximada) serem raparigas e rapazes com aspecto razoável e idade para serem meus filhos, e não aqueles bófias velhos, gordos, parolos e de bigode a que me fartei de pregar partidas quando era adolescente.

Vem esta inútil reflexão a propósito do mega-acampamento que os sindicatos da polícia ameaçam montar hoje em frente ao edifício do Ministério da Administração Interna, que, mais ano, menos ano, vai ser reconvertido em Pousada de Portugal (excelente ideia!).

Seis mil polícias estão há mais de seis anos à espera de promoções (ou seja de mais dinheiro na conta ao fim do mês) e como já começam a desesperar resolveram mediatizar a sua luta. A ideia de acamparem, sine die, no Terreiro do Paço é fantástica. As televisões e os fotógrafos das agências internacionais vão adorar. E o timing não podia ser melhor, pois já começou a contagem decrescente para a cimeira da Nato que trará Obama a Lisboa.

Dito por outras palavras, se os camaradas Rui Pereira e Sócrates não querem passar pela vergonha do Obama dar de caras com um bivaque reivindicativo da polícia montado na principal praça do país, o melhor que têm a fazer é apressarem-se a descalçar esta bota.

Não posso deixar de felicitar os dirigentes sindicais da polícia, dando-lhes 20 valores em estratégia e agitprop. Eles, que recentemente viram um membro da sua corporação ser agredido à dentada por um assessor do Isaltino, sabem melhor do que ninguém que notícia é o assessor do Isaltino morder no polícia – e não o polícia passar uma multa ao assessor do Isaltino.

O único ponto fraco que detecto na organização desta luta é a dureza do piso do Terreiro do Paço, pelo que antevejo dificuldades nos trabalhos de fixar as espias das tendas e aconselho um reforço dos colchões para evitar que o pessoal do turno da noite acorde com as costas desfeitas.

Estou bastante satisfeito e solidário com a luta dos polícias. É mais um sinal de que se está a esgotar o tempo para os dirigentes incompetentes (barrete que deve ser enfiado pelos políticos de todos do arco governamental e pelas elites que controlam o mundo dos negócios) que atiraram o nosso país para o beco em que se encontra. Às vezes, as coisas são mais claras quando pioram. O mundo está em mudança - e eu quero acompanhar essa mudança.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Manuel Serrão

 

Manuel Serrão, 51 anos, é um empresário com negócios nos mundos têxtil, moda e eventos, que cuja cara, portismo e envergadura se tornaram familiares da esmagadora maioria dos portugueses devido às suas participações nas Noites da Má Língua e nos Donos da Bola. Mas poucos saberão que esteve quase a morrer de fome à nascença e ostenta um longo curriculum de desportista: foi campeão nacional de basquetebol pelo FC Porto, na categoria de iniciados, fundou e foi o capitão da Dragões 85/O Comércio do Porto, equipa afastada pelo Freixieiro nas meias finais da 1ª Taça de Portugal em futsal, e durante 14 anos jogou squash. Finalmente, aos 47 anos o joelho direito obrigou-o a converter-se ao golfe, desporto que compara ao sexo e adjectiva de tântrico: “pode demorar-se mais, mas chega-se lá na mesma”

 

 

Quem é Manuel Serrão? Um notório portista, irredutível defensor do Norte face ao centralismo lisboeta e um bom garfo que sabe apreciar as coisas boas desta vida. Acertou se respondeu assim, por estas ou outras palavras. Mas sabe mesmo o que é que ele faz para ganhar a vida? Após um momento de hesitação, uma larga minoria de leitores responderá empresário e/ou jornalista – o que também está certo, apesar de um pouco vago. O que muito poucos saberão é que tem sido, ao longo de mais de meio século de existência, um aplicado desportista, ao ponto de ter sido campeão nacional de basquetebol pelo clube que enche o seu coração, um entusiasmo que lhe deve ter sido pegado quando ainda era bebé e andava ao colo de um vizinho que vendia fogões, chamado Jorge Nuno Pinto da Costa.

Manuel José de Valadares Souto Pinto Serrão é um rapaz de Paranhos, que veio ao Mundo na Ordem do Carmo. A Trindade não caiu, mas os dias seguintes à sua vinda ao mundo, a 8 de Julho de 1959, não lhe foram muito venturosos, já que definhava a olhos vistos e manifestava um feitio irascível. Valeu-lhe o arguto diagnóstico do pai, catedrático de Anatomia Patológica e conselheiro do Vaticano.

“O que o rapaz tem é fome”, declarou Daniel Serrão. Não conseguia mamar bem no peito da mãe, professora de Educação Física e portista militante, à diferença do marido, que nunca ligou a futebóis; “Tem a mania que é do Sporting, mas nem gosta nem percebe de futebol”, esclarece o filho. Deram-lhe de comer como remédio e o bebé Manuel (que abriu caminho a uma ninhada global de seis filhos) medrou até se tornar no forte rapagão que todos conhecem, com 1m85 de altura, pé 43 e uma data de peso.

Aprendeu a desembrulhar-se com as palavras e os números entre a escola da Azenha, na rua de S. Tomé (Porto), e o Colégio da Avé Maria, em Lisboa, onde fez a 2ª e a 3ª classe, com os tios Fernando e Manuel a tomarem conta dele, enquanto o pai Daniel cumpria em Luanda o serviço militar obrigatório, como capitão médico.

Foi a asma que o atirou para o desporto. Os médicos das Termas de Vizela, recomendaram-lhe a prática desportiva. Como aos onze anos ele já era alto (1m70) inscreveram-no no mini-basquete do CDUP, onde se demorou dois anos, distinguindo-se não só por ser o mais alto da equipa mas também pela habilidade com que encestava, dote a que a que não eram estranhas as horas passadas a treinar em casa na tabela que o pai instalara no jardim, ainda hoje usada frequentemente pelas suas sobrinhas.

Andava no liceu D. Manuel II e tinha acabado de completar 14 anos quando trocou o CDUP pelos iniciados do FC Porto, treinados por Zulmiro Matos, onde fez amizade com Manuel Queiroz (director do i,) que viria a ser colega na Redacção de O Comércio do Porto. Estávamos em 1973, a cidade vivia a euforia do basquetebol, provocada pela equipa dirigida pelo fantástico jogador norte-americano Dale Dover (onde Fernando Gomes, actual presidente da Liga de Clubes, era o base), e o jovem Manuel conquistava o título de campeão nacional na categoria de iniciados, após ter deixado para trás, na poule final, Barreirense, Vasco da Gama e Ginásio Figueirense.

A política interrompeu-lhe uma carreira promissora no basquete. Trocou a luta nas tabelas pela luta partidária e no tórrido ano de 1975 fez-se notar quandoa irrequietude da sua militância na Juventude Centrista (de que era dirigente regional) foi premiada com uma prisão pelo Copcon, efectuada por ordens do brigadeiro Corvacho, à porta do António Nobre, o único liceu do Porto, onde, graças ao seu trabalho político, a direcção da Associação de Estudantes não era controlada pela esquerda. Devolveram-no ao mundo livre oito horas depois, quando se convenceram que o perigoso detido era menor – em questões de idade.

Além da prisão e da experiência de ter passado uma noite sitiado no Palácio de Cristal (quando da realização do Congresso do CDS, cercado por uma multidão de manifestantes de esquerda, de que eu fazia parte) a política deixou-lhe mais impressões digitais na vida. Chegada a hora de escolher o curso, optou pelo Direito. “Era o curso da maioria dos políticos”, explica Manuel, que se inscreveu no recém-criado curso da Católica, em Lisboa, onde esteve emigrado seis anos (os cinco da ordem, mais o propedêutico), instalado no Colégio Pio XII, onde foi colega de Fernando Seara, o autarca que ambiciona trocar a presidência da Câmara de Sintra pela da Federação Portuguesa de Futebol.

No Pio XII, todos os santos dias jogava cartas e futebol de cinco. Além disso, namorou compulsivamente, fez turismo, muita praia e vigarizou o Benfica ao usar um cartão se sócio correspondente para ir ver todos os jogos que queria. A Costa da Caparica e as bichas na ponte sobre o Tejo eram os locais predilectos de estudo.

Regressou ao Porto já doutor, em 1983, e logo começou a tratar da vida já que a tropa não o quis, estribando a desfeita na miopia do mancebo (4,5 diopterias no olho direito e 3,5 no esquerdo). Estagiou ano e meio no escritório de João Lopes Cardoso, onde tratou do único caso da sua vida: o divórcio de José Carlos Sousa (actual jornalista de A Bola), pelo qual nada cobrou – ganhando apenas o direito a ser convidado para o segundo casamento do amigo, que não primou pela fartura (o facto do noivo repetente ser judeu praticante ajuda a explicar a frugalidade da boda).

 “Não tinha a mínima dúvida de que não ia seguir a advocacia”, refere Serrão, acrescentando ter gostado do curso de Direito, apesar de a meio ter encarado a hipótese de mudar para Gestão de Empresas, o que só não fez porque lhe faltou a lata para por o assunto à consideração dos pais.

A opção de ingressar na vida artística, como jornalista de “O Comércio do Porto”, compreende-se por sempre ter gostado de escrever. Demorou-se apenas três anos pelo que era o mais antigo diário do país, tempo suficiente para chefiar uma secção desportiva recheada de nomes que se tornariam conhecidos - como Juca Magalhães (director de Informação da TVI), João Bonzinho, José Carlos Sousa, José Carlos Teixeira (todos na Bola), Jorge Barbosa (Record) e Adalberto Ramos (O Jogo) -, e para, em 1986, cobrir as mais célebres de todas as presidenciais (na 1º volta acompanhou Soares e na 2ª volta Freitas).

Durante estes três anos liderou a criação de uma equipa de futebol de salão, baptizada Dragões 85/”O Comércio do Porto”, que disputou o primeiro campeonato nacional e Taça de Portugal em futsal. “Fomos derrotados na meia final da Taça pelo Freixieiro”, recorda o sólido defesa de uma equipa que integrava, entre outros, Luís Amorim (empresário e sobrinho de Américo), Francisco Souto (administrador da Sogrape), Luis Jorge Pinto (gerente da Petúlia e filho de Ilídio Pinto) e Joaquim Jorge (Clube dos Pensadores).

“Comecei a jogar à frente e depois fui recuando até defesa central. Era um falso lento. Não é que fosse o Speedy Gonzalez, mas mexia-me”, auto-analisa Manuel Serrão que pendurou as botas aos 31 anos (em 1990), após ter sido expulso por Paulo Paraty, num jogo do Torneio Vitalis, disputado nos Maristas, por ter aproveitado a molhada de um canto para aplicar uma cotovelada num adversário que estava farto de lhe dar porrada.

1987 foi, para ele, um ano preenchido. Em Viena, o FC Porto atingia a glória. No Alto da Lixa, ele celebrou o primeiro dos seus casamentos. Na Bolsa fartou-se de ganhar dinheiro. Aproveitou este ano de todas as mudanças, para trocar de emprego e debutar na Exponor uma bem sucedida carreira de organizador de feiras e desfiles de moda (como o Portugal Fashion), que prosseguiu no Gabinete Portex até se tornar empresário neste ramo – o que não o coibiu de regressar ao jornalismo, como cronista e pela via do éter, primeiro aos microfones da Rádio Nova, como comentador desportivo, depois na TSF, com as Crónicas de Escárnio e Maldizer, a antecâmara das famosas noites da Má Língua, na SIC, que o catapultaram para o espaço e a celebridade.

Aos 33 anos, iniciou-se no squash, modalidade que praticou ininterruptamente durante 14 anos, no Solverde da Granja, até que o menisco externo do joelho direito o obrigou a parar. “Eu tinha decidido que aos 50 anos iria começar a jogar golfe. Antecipei três anos essa mudança”, conta. Aos 47 anos, teve a primeira lição no Clube do Fojo, que lhe desfez todas as dúvidas relativamente à nova modalidade: “Da primeira vez que fui ao campo vi logo que era para ficar”. De então para cá não deve ter passado uma semana sem ele dar umas tacadas.

É sócio de três clubes (Estela, Oporto e Viseu) e entre os seus companheiros habituais de golfe conta-se um punhado de amigos, como Costa Lima (BPI), António Souza Cardoso (antigo director geral da ANJE e seu sócio na HOP, empresa que organiza eventos) e Eurico Castro Alves (Entidade Reguladora da Saúde). Mantém uma contabilidade em aberto com o director de informação da TVI, um duelo que reconhece estar renhido, “principalmente desde que o Juca passou a ter lições particulares com o Joaquim Oliveira”.

Passando em revista o seu percurso desportivo, o empresário consegue identificar com detalhe o que cada uma das modalidades que praticou contribuíram para a sua formação e carácter:

“O basquetebol foi a iniciação ao desporto, fundamental para a minha saúde numa fase em que ficava sem respirar depois de dar duas corridas. E deu-me também a enorme alegria de poder jogar e ser campeão com a camisola do meu clube. O futebol representou a amizade, a solidariedade, o trabalho em grupo. Permitiu-me ainda fazer o tirocínio como gestor, e ganhar traquejo de organização, pois era eu que tratava de tudo; era jogador, mas também o capitão da equipa, chefe de departamento e quase o roupeiro. O squash foi o desabafo, a libertação da adrenalina e da tensão acumuladas ao longo do dia. Ao fim de 45 minutos de jogo eu já não queria bater em ninguém. Devo ao squash nunca ter tomado calmantes e nunca ter andado à pancada com ninguém. O golfe é diferente, dá prazer sem ser violento. É um desporto tântrico – pode demorar-se mais, mas chega-se lá na mesma”, conclui este portista e empresário que 51 anos depois continua com fome. Fome de comer bem e beber melhor. Mas também, e acima de tudo, com uma grande fome de vida, amor, divertimento e prazer, um hedonista perfeito, proprietário de um grande coração – e tensões baixas, como convém.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

Sandra Correia

Faça o favor de não se espantar se, por acaso, passar pela loja do MoMa em Tóquio e der de caras com uma imagem XXL de um guarda chuva de cortiça, identificado como o Pelcor umbrella, by Sandra Correia.

O guarda chuva e dois sacos (o messenger e o tote bag) em pele de cortiça, made in Portugal, são as coqueluches do catálogo e lojas de objectos de design do Museum of Modern Art, ao ponto de já representarem cerca de 10% das vendas da empresa dirigida por Sandra, 39 anos, uma algarvia de S. Brás de Alportel que reparte a vida entre Vilamoura e Lisboa, quando não está em viagem  - amanhã voa para Nova Iorque onde apresenta 2ª feira os seus produtos na 5ª Avenida, no âmbito da Ecolux Fashion.

Na origem próxima desta paixão americana, está um telefonema do IAPMEI de Faro a perguntar a Sandra se ela estava interessada em receber a equipa do MoMa que vinha escolher objectos para a uma exposição sobre o nosso país. Foi um caso de amor à primeira vista. Estávamos em Maio de 2009. Um ano volvido, uma dúzia de artigos da Pelcor (guarda chuva, sacos, avental, pulseiras, anéis, etc) brilhavam na mostra Destination Portugal do museu da rua 53, entre a 5ª e a 6ª avenidas.

Sandra é a terceira geração de um negócio iniciado pelo avô António, fundador de uma fábrica de rolhas em S. Brás de Alportel, que subiu na cadeia de valor quando o seu filho César (o pai de Sandra é o antigo árbitro internacional de futebol César Correia) aproveitou o facto da cortiça algarvia ser mais fina para fabricar discos para rolhas de champanhe.

Os ventos sopravam de feição, após o investimento numa nova fábrica moderna, capaz de satisfazer as encomendas e cumprir as exigentes regras de clientes como a Moet & Chandon, quando, subitamente, a procura de champanhe na passagem do milénio se revelou inferior às previsões. Com os armazéns cheios, as casas de champanhe diminuíram substancialmente as compras de rolhas, nos anos seguintes, deixando os Correias  barcos com mão de obra, cortiça e capacidade instalada em excesso.

Transformar a casca do sobreiro em pele de cortiça e usá-la como matéria prima para confeccionar roupa, calçado e acessórios, foi a solução inventada por Sandra para dar resposta ao excesso de cortiça, uma demonstração da acuidade da velha história dos chineses usarem o mesmo ideograma para significar crise e oportunidade – e mais uma subida na cadeia de valor do negócio da família, a coincidir com a chegada de uma nova geração.

Em Lisboa, os produtos da Pelcor estão à venda na loja própria, no nº 32 da rua das Pedras Negras, onde Sandra monta o seu quartel general quando está na capital e onde usa como cantina o Velho Macedo, um restaurante que fica a menos de cem metros de distância. Como sabe o que ela gosta, o dono pôs logo em cima da mesa um prato de broas de mel recheadas de presunto, esvaziado num abrir e fechar de olhos, e propôs-nos o pernil de porco (sugestão que ela aceitou, contanto que a sua dose viesse já desossada), que se revelou à altura e foi empurrado por um tinto da casa, oriundo de Torres Vedras e servido em jarro.

“Lá em casa sempre fomos todos Benfica”, contou ao Sandra, recordando que foi expulsa de uma aula por estar a ouvir um relato radiofónico de um jogo do clube do seu coração numa 4ª feira europeia. Acabado o Secundário, em Loulé, rumou para Lisboa e inscreveu-se no Instituto Superior de Comunicação. Desde miúda sonhava ser jornalista quando fosse grande, por influência do convívio com jornalistas da Bola e do Record quando acompanhava o pai por todo o lado.

No fim do curso, ainda fez um estágio no Record, mas rapidamente desistiu de ser jornalista e foi vender seguros da Tranquilidade Vida, onde não aqueceu o lugar, pois embirrou logo com a proibição de usar jeans. Depois de ter feito o pleno de três entrevistas, três contratos, despediu-se em protesto contra o dress code, fez as malas e retornou ao Algarve para trabalhar no negócio da família. Dito, por outras palavras, muito provavelmente não haveria guarda chuvas de cortiça à venda no MoMa se a Tranquilidade deixasse as vendedoras vestiram calças de ganga.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Curiosidades

Carlos Manuel, Bento e Veloso foram alguns dos ídolos do seu clube (Benfica) que ela conheceu quando acompanhava o pai. Mas era sueco e não português o jogador que punha o coração adolescente de Sandra a bater mais depressa; o loiro e esguio Stromberg 

 

Árbitro internacional, o pai estava ausente aos fins (ia apitar jogos do Nacional) e meios (jogos internacionais) de semana. Para a compensar, trazia-lhe sempre, de todos os novos países que visitava, uma boneca vestida com trajes típicos

 

O sucesso que o seu guarda chuva de cortiça teve quando o mostrou numa reunião de mulheres empresárias em Espanha foi para Sandra a prova dos nove de que estava no bom caminho

 

 

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Velho Macedo

Rua da Madalena 117, Lisboa

Água … 3,00 euros

Vinho … 6,00

Couvert …2,50

Broas de mel com presunto … 4,50

Pernil de porco no forno com batata e castanha … 24,00

Cafés … 3,00

Total … 43,10 euros

 

O Tio Abilio e Luis Filipe Vieira

No auge da sua juventude, no início dos anos 60, o meu tio Abílio jogou basquetebol e voleibol, em dois clubes diferentes (Vasco da Gama e Académico). Era um atleta mediano, que só por uma vez protagonizou os títulos dos jornais, com direito a foto a ilustrar a história – o motivo foi bom e adequado à velha regra do jornalismo de que notícia é o homem a morder o cão.

Num lance polémico de um set renhido, o árbitro, que começou por julgar a favor do Académico, fez marcha atrás na decisão depois do meu tio, por sua iniciativa, lhe ter garantido que os adversários tinham razão – a bola batera dentro, o ponto devia ser contabilizado à outra equipa.

Vem a lembrança deste caso luminoso a propósito do início de mais um ano lectivo e do papel decisivo da escola na construção do futuro, pois na sociedade de conhecimento em que vivemos a riqueza das nações não assenta em reservas de ouro, divisas, petróleo ou gás, mas sim na formação dos seus cidadãos.

Não posso deixar de estar preocupado com o facto de, apesar de investirmos em educação 5,3% do PIB (mais do que a média dos países da OCDE) termos a mais elevada taxa de abandono escolar da EU (40 mil deixam todos os anos os estudos) e uma elevadíssima percentagem de chumbos (que custa 700 milhões euros/ano) – e sermos o país europeu onde menos pessoas dizem ter aprendido uma língua estrangeira na escola.

Mas sei que o papel da escola não se esgota na transmissão de conteúdos e que tão importante quanto a acumulação de conhecimentos é a aquisição de outras aptidões, como a de saber pensar e ser melhor cidadão. Neste particular as melhorias notam-se à vista desarmada. Basta olhar para os passeios. Cuspir ou deitar papéis para o chão são actos cada vez mais raros. Reciclar está a tornar-se um hábito.

Ganha a batalha da higiene pública, é urgente triunfar também no culto da meritocracia, da produtividade e da coragem de assumirmos as nossas responsabilidades, exterminando a velha e cobarde mania de estar sempre a tentar atirar para as costas de terceiros a culpa dos nossos fracassos.

Bento, um guarda redes recordado com saudade pelos benfiquistas, deu um exemplo acabado desta atitude deplorável quando, em 1983, atribuiu a severa derrota (5-0) sofrida por Portugal frente à URSS ao facto de não haver fruta no hotel moscovita onde os jogadores estiveram hospedados.

27 anos depois, na semana de abertura das aulas, Luís Filipe Vieira volta a dar um péssimo exemplo de carácter aos jovens benfiquistas ao atirar para cima de uma legião de terceiros (árbitros, Liga, Vítor Pereira, Joaquim Oliveira, adversários,  secretário de estado, etc) a culpa pelo facto do seu clube estar a jogar mal – e a perder.

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias    

Bom senso e afro-americanos

 “O mais elevado resultado da educação é a tolerância”

Helen Keller

 

Um apartamento na West 151th St., em Manhattan, foi a minha casa na semana passada, o que me deu enorme prazer, porque sou apaixonado por Nova Iorque, e me deixou bastante feliz, pois significa que o Harlem já não é mais um gueto vedado a rostos pálidos.

Das primeiras vezes que comprei aquelas excursões sightseeing em autocarros vermelhos, os doubledeckers abertos só circulavam em downtown. O percurso uptown era feito numa viatura fechada de um piso e o mais acima que se aventurava era a 125th para mostrar o Apollo Theatre.

É bom que gente de todas as cores possa passear em Sugar Hill e apreciar as belíssimas brownstones de Marcus Garvey Park (na foto),  outrora habitadas por famílias da alta burguesia novaiorquina, que buscavam no Harlem refúgio da confusão e insalubridade de downtown.

Obama na Casa Branca e o Harlem aberto são dois sinais positivos vindos da mais importante cidade da nação mais poderosa do mundo, um país que precisou de uma guerra civil para abolir a escravatura e que até aos anos 60 descriminava legalmente os cidadãos de acordo com a cor da pele.

Todos sabemos que os norte-americanos têm muitas coisas boas mas outras nem tanto – e o movimento do pêndulo que corrige o passado racista gerou comportamentos e tiques aberrantes.

Estou a falar, por exemplo, de Paulo Serôdio, naturalizado norte-americano mas nado e criado em Moçambique, que foi expulso da Universidade de New Jersey, acusado de conduta indigna, porque numa aula, quando a professora pediu aos alunos que se auto-definirem, se identificou como afro-americano – escandalizando uma colega negra que o denunciou como racista. Pelo visto nos States, afro-americano é etiqueta de uso exclusivo por negros (mesmo que tenham dificuldade em apontar no mapa onde fica Joanesburgo) e por isso proibido a brancos, mesmo que tenham nascido e crescido em África.

Estou a falar, por exemplo, de Laura Schlessinger, linchada publicamente e obrigada a abandonar o seu talk show radiofónico por ter desafiado um ouvinte a dizer por extenso a n word - e ela própria a ter repetido, argumentando que nos filmes e séries de televisão é banal os personagens negras tratarem-se constantemente por nigger.

A intolerável intolerância manifestada pelo mainstream liberal norte-americano nos casos de Paulo e Laura é tão inadmissível como a oposição da direita religiosa à construção de um centro islâmico nos arredores do Ground Zero.

Se não estiver revestida de bom senso, a boa vontade pode conduzir a maiores catástrofes do que os actos baseados em má vontade ou estupidez.

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

Os ricos que paguem a lavagem de reputação

Eli Broad, 77 anos, vai investir duas mil obras de arte e 300 milhões de dólares na eternização do seu apelido em livros, revistas, manuais de arte, guias turísticos e cabeças de pessoas cultas de todo o mundo, ao lado do de outros seus compatriotas, como JP Getty, Gertrude Whitney ou Solomon Guggenheim.

Com fortuna feita no imobiliário e seguros, Broad é desconhecido fora dos EUA e da alta roda dos negócios e da arte (está desde 1998 no top ten dos maiores coleccionadores mundiais de arte, elaborado pela ARTnews), mas acaba de comprar a emergência deste anonimato ao acordar com as autoridades de Los Angeles a instalação de um museu com a sua colecção na Grand Avenue, em frente ao MOCA (Museum of Contemporary Art) e ao lado do fantástico Walt Disney Concert Hall, riscado por Gehry.

A partir de 2012, o Museu Broad exporá em permanência 300 obras de uma colecção onde abundam os nomes que marcaram a cena dos anos 50 e 60 (Jasper Johns, Robert Rauschenberg, Claes Oldenburg, Wharhol e Lichtenstein), mas também de artistas contemporâneos e de LA, como Ed Ruscha e Mark Brandford.

Os termos do negócio são simples e públicos. Broad paga 7,7 milhões de dólares pelo aluguer do terreno, assegura a totalidade dos 100 milhões de dólares que custa a construção do edifício e oferece à fundação que vai gerir a instituição as duas mil peças da sua colecção bem como 200 milhões de dólares para suportar as despesas de arranque e funcionamento.

Ao ler esta notícia na primeira página dos Los Angeles Time lembrei-me logo dos contornos do negócio da colecção Berardo, e da deslumbrante sátira de Saramago, em As Intermitências da Morte, ao vício dos nossos empresários viverem debaixo das saias do Estado -  como as pessoas deixaram de morrer, as agências funerárias, “brutalmente desprovidas de matéria prima”, reivindicaram ao Governo “que tornasse obrigatório o enterramento ou a incineração de todos os animais domésticos que venham a defuntar”.

Feroz negociador, Berardo não gastou um tostão no aluguer do terreno nem na construção do edifício que alberga a sua colecção, emprestou ao Estado 862 obras, por um prazo de dez anos, mas ficou com uma opção de venda do espólio a um preço generoso previamente fixado, e não contribui com dinheiro para a manutenção do museu que imortaliza o seu apelido e a cuja Fundação preside.

Eu sei que os museus são as catedrais do século XXI, compreendo que empresários endinheirados usem a arte para lavarem a sua reputação e aceito que tentem libertar-se da lei da morte tatuando o apelido em museus – mas preferia que fossem altruístas, como Broad, e não fizessem a sua engenharia social à custa dos nossos impostos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

 

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