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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

João Pires da Cruz

Para começar teve a sorte de ter nascido em 1965, o que o lhe permitiu ter 21 anos quando Portugal aderiu à CEE. Depois teve a sorte de não saber o que queria ser quando fosse grande, o que o poupou a grandes desilusões. Finalmente, quando acabava o curso de Física, teve a sorte de ter arranjado o primeiro emprego no pior sítio do Mundo, o que obrigou a fazer pela vida. Uma breve história da vida de um físico com cérebro matemático que fundou a Closer, consultora de tecnologias de informação

 

O físico que teve a enorme sorte

de ir parar ao pior sítio do Mundo

 

 

Nome:  João Pires da Cruz

Idade: 45 anos

O que faz:  Sócio gerente e partner da Closer

Formação: Licenciado em Física na Faculdade de Ciências de Lisboa (1989), fez também um mestrado em Engenharia Física. Está a concluir o doutoramento

Família:  Casado, tem dois filhos, o João, 12 anos, que faz esgrima como o pai, e o Henrique, oito anos

Casa:  Apartamento em Carcavelos, a 30 metros da praia

Carro:  BMW 520 é o carro da empresa que usa. O dele é um Honda Civic, de 97, em que a mulher anda

Telemóvel:  Blackberry, “daqueles que é só um telemóvel e não um computador”

Portátil:  Compaq

Redes Sociais: Tem Facebook, que actualiza diariamente, e Linkedin

Hóbis:  Treina esgrima duas vezes, no Clube Atlântico de Cascais. Também duas vezes por semana, à noite, faz um jogging de 11 km, no passeio marítimo, entre Carcavelos e Paço de Arcos 

Férias:  Este ano não fez férias. “Entre o trabalho, o doutoramento, o esgrima e os filhos, alguma coisa tinha de ficar de fora”, explica João, que aproveita os fins de semana e todos os tempos livres para escrever a tese de doutoramento. O ano passado fizeram praia no Carvoeiro, Algarve. Não costumam fazer grandes viagens ao estrangeiro porque ele odeia andar de avião (“dois dias antes começo logo a ficar nervoso”), e por isso só voa por motivos profissionais, nunca por lazer

Regra de ouro: "O saber não ocupa lugar. Quando alguém me diz que não sabe uma coisa, eu respondo: Então vai saber, porque o saber não ocupa lugar. Além disso faço sempre por não me atrasar. O meu orientador de tese, que é meio alemão, diz que eu sou mais alemão  do que ele”

 

Aos 17 anos, quando acabou o liceu em Oeiras e se matriculou no curso de Física, não sabia o que queria ser quando fosse grande. “Os que sabem são os que têm as maiores desilusões”, explica João , 45 anos, um dos dois filhos (o irmão trabalha na Câmara de Cascais) do matrimónio entre uma educadora de infância e um empregado de escritório de uma firma de import/export.

Teve a fase de sonhar ser astronauta, como nove em cada dez rapazes da sua geração, e ainda lhe passou pela cabeça ser arqueólogo (efeito de ter conhecido um, na ilha do Pessegueiro), mas no final da adolescência, por influência do programa televisivo Cosmos, de Carl Sagan, decidiu inscrever-se em Ciências. “ Estava apaixonado pelo clima, geologia e geografia. Queria ser geofísico”, recorda. Cedo desistiu dessa ideia. No 3º anos optou pela área tecnológica.

Ao tê-lo em 1965, os pais nunca poderiam imaginar que lhe estavam a proporcionar o timing mais do que perfeito de ter 21 anos quando Portugal aderiu à CEE e passou a receber uma formidável enxurrada de fundos vindos de Bruxelas.

“Ganhei o triplo do meu antecessor. 250 contos em seis meses. Quando recebi o cheque, pensei que estava rico. Não descansei enquanto não encontrei um balcão do BPA para o depositar”, conta João, a propósito do primeiro emprego, como investigador estagiário num laboratório estatal, onde debutou quando andava o 4º ano.

“Tive a sorte de ter ido parar ao pior sítio do Mundo”, confessa, a propósito do laboratório onde ganhou o primeiro dinheiro. Como estava no pior sítio do Mundo, agarrou com ambas as mãos o convite para ir para a Fábrica do Braça de Prata trabalhar no desenvolvimento de um simulador de combate baseado em lasers, que passou da fase de protótipo para a de produto usado na instrução de soldados, em Mafra.

Demorou-se quatro anos nesta empresa do grupo INDEP, na altura próspera pois fornecedora ambos os lados do conflito entre Irão e o Iraque, “uma guerra de sonho, pois era longe, só morriam árabes, e, como tinham petróleo, pagavam bem e a tempo e horas”.

O projecto que desenvolveu no Braço de Prata era na área da electrónica, e aumentou-lhe a paixão pela programação que despertara desde quando recebeu um Spectrum 48K, a sublinhar a entrada para a faculdade.

Entre 1994 e 1995, quando estava a chegar aos 30 anos, a vida dele levou uma grande volta. Tirou a carta, comprou o primeiro carro (um R5 em 2ª mão, “que consumia metade da produção petrolífera do Iraque”), casou-se e desembarcou no admirável mundo da informática ao aceitar o convite para trabalhar na Praetor, uma software house que pouco tempo depois foi comprada pela Novabase.

“Tive finalmente a certeza de que estava a fazer o que queria. Gosto de coisas e neste sector há todos os dias coisas novas”, diz João, que se estreou como programador a trabalhar com bancos de negócios  (como o BESI e DBI, que ainda hoje são seus clientes), que também estavam a dar os primeiros passos.

“Aprendemos juntos”, afirma João, que em 2002 saiu da Praetor/Novabase, para fazer, com mais três colegas, a consultora de tecnologias de informação KPI, onde esteve até 2005, ano em que fez 40 anos, deixou de fumar, começou a praticar esgrima, vendeu a sua parte na KPI (“quando se deixa de fumar a primeira coisa que vai ao ar é a paciência”)  e fundou a Closer, que emprega 60 engenheiros informáticos, matemáticos e físicos num 14º andar das Amoreiras, com uma vista deslumbrante de Lisboa.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

Para que serve o Presidente da República?

Há 1977 anos, na manhã de Páscoa, espantadas por verem o túmulo vazio, as mulheres piedosas foram informadas por um anjo da ressurreição de Cristo. Mais de 20 séculos volvidos, fez-se mais alguma luz sobre este episódio bíblico num fórum tão improvável como o debate televisivo entre Cavaco Silva e Defensor Moura.

“Para serem mais honestos de que eu, têm de nascer duas vezes”, declarou o algarvio, esperando pôr termo, com esta frase definitiva, ao massacre a que estava a ser submetido pelo adversário minhoto, a propósito do seu envolvimento e ligações à escandalosa fraude BPN, que nos vai custar pelo menos o equivalente ao TGV Lisboa-Porto-Vigo que tanta falta nos faz. 

Através desta epifania, ficamos a saber que a honestidade de Cristo e Cavaco estão niveladas, apesar do filho de Deus nunca ter sentido a necessidade de apregoar aos quatro ventos as suas boas acções, ao invés de Aníbal, que no debate com o camarada Chico Lopes (o que ia descalço para escola) se deixou levar pela gabarolice de recitar uma lista de benfeitorias cuja autoria reivindicou, da qual constam a compra da Auto-Europa para Palmela e a atribuição do 14º mês ao pensionistas (ambas as proezas cometidas com o nosso dinheiro).

A absoluta ausência de suspense relativamente ao desfecho, aliada aos diminutos poderes do cargo, levam a que a generalidade dos portugueses ligue tanto às eleições presidenciais como ao início da fase de grupos da Taça da Liga em futebol (ou seja, nada). Eu próprio só dei pela campanha por causa daquele episódio patético, contado pelo candidato Nobre, do miúdo pouco ambicioso que em vez de apanhar a galinha, estrafegá-la e mandá-la para o fundo do tacho, tentou tirar-lhe do bico um pedacinho de pão.

Acresce ser bastante questionável a necessidade do cargo de Presidente da República (PR), em particular num país que precisa desesperadamente de cortar nas despesas de funcionamento de um aparelho de Estado ineficiente e que sofre de avançada obesidade mórbida.

Razão tinham os deputados à Assembleia Constituinte de 1911, quando equacionaram a hipótese de não haver PR. Pena que tivessem acabado por criar o cargo, mas recorde-se que o rodearam de restrições como a obrigação do presidente pagar as despesas do seu bolso (renda do palácio de Belém incluída) e a proibição de se fazer acompanhar pela mulher nas cerimónias oficiais. E era eleito pelo parlamento, que podia demiti-lo antes do termo do mandato.

A maior parte das pessoas ultrapassa a idade dos porquês por volta dos dez anos.  Como ainda não consegui passar essa fase, gostava que alguém me explicasse para que é que serve, em Portugal, o Presidente da República?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

João Aroso

Demorou três anos a ter a certeza do curso que queria tirar, mas a partir dai foi sempre muito rápido nas decisões. Filho de engenheiros, foi para Economia porque sempre preferiu as pessoas às máquinas. Transferiu-se da Faculdade de Economia do Porto para a London School of Economics porque acredita que nada é difícil demais. Ganhou o primeiro dinheiro a organizar festas na discoteca Estado Novo. Agora, aos 23 anos, tem uma empresa chamada Página na Hora que vende sites prontos a serem postos no ar

 

Inventor da Página na Hora

debutou nas festas no Estado Novo

 

Idade: 23 anos

O que faz:  Sócio fundador Página na Hora

Formação: Finalista na London School of Economics

Família:  Quase casado

Casa:  Moradia em Miramar (arredores do Porto)

Carro:  Volvo C 30 (“obrigado pai”)

Telemóvel:  iPhone

Portátil:  Macbook Pro (“sou apaixonado pela Apple, quando for grande quero ser como o Steve Jobs”)

Hóbis:  Ténis, um hóbi que partilha com a namorada, que conheceu na Católica e também é tenista. Durante uma dúzia de anos jogou no Clube de Ténis do Porto   

Férias: Não gosta de praia e adora trabalhar em Agosto, o mês em que consegue fazer numa hora o que no resto do ano leva duas a três horas. Este ano esteve em Paris e Londres. Para o ano vai a Nova Iorque

Redes sociais: Está no Linked e no Facebook, mas não gosta muito. “As pessoas têm a tendência a confundir o que é viver a vida com viver a vida no Facebook. Isso perde um bocado o propósito. O objectivo devia ser aumentar a vida real, mas acaba por substitui-la”, lamenta

Regras de ouro: “Mais vale trabalhar pouco tempo, mas com qualidade”

 

O maior problema da sua vida surgiu-lhe no final do 11º ano, feito no Colégio Alemão. Como não sabia que curso seguir, lidou com a dúvida de forma sistemática. Fez sucessivamente o 12º ano nas áreas de Ciências, Artes e Economia até encontrar a resposta. Nascido em Janeiro de 1987, numa família de engenheiros, excluiu à partida seguir o caminho dos pais, ambos de Civil e professores da FEUP. “As Ciências Sociais atraíam-me. Sempre gostei mais de pessoas do que de máquinas”, lembra João, 23 anos.

“No SEBS tive uma professora inacreditável, a Silvia Amorim, que mudou a minha vida. Quando lhe contei que era a responsável por eu ter ido para Economia, ela pediu-me desculpa, a rir-se, acrescentando que não tinha sido por mal”, relata.

Um cartaz da London School of Economics (LSE) afixado numa parede da Faculdade de Economia do Porto (FEP) , ajudou-o a mudar ainda mais um bocadinho a vida dele. Um curso de seis meses era o produto oferecido, mas o cartaz pôs o João a pensar. Se aquele era o melhor curso de Economia da Europa, por que não obter lá o diploma, em vez de se contentar com uma estadia de meio ano?

“Um dos meus princípios é nunca acreditar que uma coisa é grande ou difícil demais”, explica. A média não era problema (tinha 18 valores). Escreveu a carta motivacional, foi à entrevista e conseguiu a transferência da FEP para a LSE. “Só tenho de ir a Londres duas a três vezes por ano. Assisto às aulas pela Internet e faço os exames no British Council. Qual foi a principal diferença que notei? Os ingleses são muitíssimo mais práticos que nós. O seu ensino é vocacionado para não perdermos tempo a tomar decisões num mundo rápido. Em Portugal há gente excelente e mentes brilhantes. O nosso maior atraso é a produtividade. Somos formatados para sermos muito pouco práticos”, diz.

Ainda não acabou o curso porque desde que, aos 18 anos, ganhou o seu primeiro dinheiro, organizando uma festa com o DJ Grouse na discoteca Estado Novo, nunca mais parou de trabalhar. “É uma sensação maravilhosa, nova e incrivelmente agradável, ganharmos o nosso dinheiro”, conta João, que se diverte a investir na bolsa americana. No dia em que falamos tinha feito o melhor negócio da sua vida, ao vender na 5º feira, com uma valorização de 62%, o pacote de acções da Horyoshi Worldwide que comprara na 2ª feira.

A ideia da Página na Hora surgiu-lhe ao ler no Diário Económico que, à boleia das recomendações da Agenda Digital da UE, o Governo português oferecia às empresas o domínio pt. Inspirado na ideia da Empresa na Hora, João pensou logo que “seria porreiro fechar o ciclo disponibilizando a preços módicos modelos de sites de fácil manuseamento”. Se bem o pensou, melhor o fez. Juntou no mesmo barco o director criativo João Proença e o programador Nikolai Danychyk e criaram a Página na Hora, que disponibiliza online um catálogo de 2500 modelos de sites, que vendem ao preço base de 100 euros, com gestor de conteúdos e alojamento incluído.

“É por eu ser leigo que o nosso produto é simples e intuitivo. É uma vantagem eu não perceber nada de programação. Se o cliente já tiver conteúdos, uma hora depois de comprar o nosso modelo já pode ter um site completo no ar”, garante João, que está a negociar a exportação do produto para os mercados polaco, croata, húngaro, venezuelano  - e ainda não desistiu da ideia de convencer o Governo português a oferecer às PME as suas páginas na hora.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada hoje no Diário de Notícias

Será que anda tudo lelé da cuca?

Este ano, a Maria não vai dar prenda de Natal ao Aníbal. Fiquei tão intrigado com isto que até me passaram duas explicações pela cabeça enquanto viajava do título de 1ª página do JN até à pág. 20 da Notícias Magazine, onde estava a notícia.  

Será que ela ainda está chateada por o homem ter promulgado o casamento gay? A este primeiro pensamento sucedeu um outro. Na campanha para as presidenciais, em que tem a reeleição garantida mesmo que repita a graçola de encher a boca de bolo rei, Cavaco respondeu que até tinha ficha na Pide, quando Alegre puxou dos galões de antifascista .

Vai-se a ver e a ficha da Pide não passa de respostas anódinas a um questionário de rotina, em que a única curiosidade reside em saber que ele achou por bem  acautelar que não privava com Maria Mendes Vieira, com quem o sogro se casara em segundas núpcias.

Mas não. Não é por causa do casamento gay, nem por o marido não ter engraçado com a madrasta dela, que Maria não lhe dá prenda. O motivo é a contenção. Este ano, no Possolo, os adultos ficam a seco e são aconselhados a mandar o dinheiro das prendas para uma instituição de solidariedade social.

Fiquei horrorizado com esta atitude miserabilista. Aníbal e Maria têm uma vida bonita, os filhos estão criados, não devem ao banco, já não têm aplicações nem acções do BPN, e entre reformas e vencimento ganham uns bons 15 mil euros limpos todos os meses. Chega para prendas e sobra para ser solidário. E, já agora, permitam-me um reparo a Maria: o bem deve praticar-se em silêncio e é preciso ter muito cuidado a distinguir a filantropia da responsabilidade social da bolorenta caridade do bodo aos pobres.

Dias depois, reparei que Passos Coelho foi contaminado pelo miserabilismo natalício da primeira dama e anunciou que só a mais nova das suas quatro filhas vai ter prenda no Natal. Já começo a acreditar no estudo da OMS que diz que um em cada cinco portugueses sofre de perturbações mentais – só estou preocupado pelos lugares ocupados pelos lelés da cuca …

“Um dos riscos da actual crise é que as pessoas deixem de gastar e isso seria muito mau”. Peço a Maria e Pedro para que, antes de abrirem mais a boca, reflictam nesta frase sábia dita por Vítor Bento, o economista que Aníbal nomeou para o Conselho de Estado, em substituição do seu antigo amigo Dias Loureiro.

No entretanto, fico a pensar se perco o amor a uns 40 euros e ainda hoje vou à Fnac comprar prendas para Cavaco (Utopia, de Thomas Moore, ou Morte em Veneza, de Tomas Mann) e a Passos Coelho  - talvez o Ser e o Nada, de Sartre, porque aquele que ele gosta muito (A Fenomenologia do Ser)  e até leu antes de Kafka vai ser muito difícil de encontrar, porque não existe.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Joana Moura e Castro

O NorteShopping tem uma árvore de Natal. À partida não é uma ideia muito original, pois nesta altura do ano todos os centros comerciais têm uma. A diferença é que a do NorteShopping nem sempre está iluminada. As luzes estão apagadas e são os visitantes do centro que as podem acender, produzindo a energia necessária ao pedalarem nas bicicletas dispostas em círculo à volta do pinheiro.

“Dantes, no Natal, ligava-se apenas ao aspecto lúdico. Agora, temos também a preocupação da responsabilidade social. E a árvore de Natal sustentável alia essas duas vertentes. Crianças e adultos divertem-se a pedalar para acender as iluminações, fazem exercício e ficam sensibilizadas para a questão da eficiência energética”, explica Joana Moura e Castro, 37 anos, Marketing Manager Portugal da Sonae Sierra, acrescentando que esta iniciativa é acompanhada de acções, feitas com a Quercus, para evangelizar os visitantes do NorteShopping a baixarem o consumo de energia.

Joana foi buscar a Copenhaga esta ideia da árvore de Natal sustentável. “O Natal de 2010 começa a ser planeado no Natal de 2009. Todos os anos é assim”, avisa esta licenciada em Relações Internacionais, que após um ano no departamento de comunicação do Instituto do Vinho do Porto se mudou para a Sonae Sierra, onde está há 12 anos – começou a carreira no MaiaShopping, passando pelo Via Catarina e GaiaShopping até desembarcar na estrutura central, em cujo vértice está, sendo a principal responsável pelo marketing dos 22 centros comerciais (com 2924 lojas) espalhados pelo país.

Há coisa de um ano, Joana andava a viajar pela Europa, de olhos bem abertos, bloco de notas em punho, a máquina fotográfica na carteira (pronta a ser usada para registar um detalhe), à cata de ideias. “Temos de ver o que os outros fazem para copiar o que corre bem e para não fazermos o que corre mal”, diz, traduzindo para português corrente a expressão “trabalho exaustivo de benchmark”. 

Esteve na Puerta del Sol (Madrid) e nas Galerias Lafayette (Paris). Espreitou o ambiente natalício no Mónaco. Mas a ideia inspiradora foi encontrá-la no Reino da Dinamarca, onde descobriu uma árvore de Natal gigante iluminada pelo esforço de ciclistas (todos sabemos que os dinamarqueses são doidos por bicicletas) no meio da Radhuspladsen, a enorme praça em frente à Câmara de Copenhaga, ladeada pelas estátuas de Hans Christian Andersen e de uns trompeteiros, cujas trompas nunca se fizeram ouvir nunca se ouviram (reza a lenda que só soarão quando passar por eles uma virgem…)

O coração da Sonae Sierra bate na Maia, mas Joana escolheu almoçarmos no Pasta Caffé do NorteShopping (o centro comercial que usa para fazer as compras, pois vive relativamente perto), em Matosinhos, para podermos apreciar a árvore de Natal. Apenas molhou os lábios no copo de tinto italiano (mas bebeu a água toda) e deixou no prato quase metade da pizza La Regina (molho de tomate, queijo mozarella, bacon, cogumelos, tomate fresco, queijo extra e orégãos), apesar de garantir que estava boa – a causa provável é o efeito conjugado das preocupações com a linha e o não ter podido comer sossegada pois eu estava sempre a fazer-lhe perguntas.

“No Natal, queremos ver nos espaços públicos o que temos em casa, a árvore de Natal, as bolas, estrelas, iluminações, o presépio e o azevinho. O Natal não pode ser futurista. Tem de ser tradicional. As pessoas querem ver o que lhes faça lembrar a infância e reviver esses momentos despreocupados. Esta é a grande conclusão de todos os estudos que fazemos para podermos proporcionar momentos memoráveis aos nossos clientes e visitantes”, afirma Joana, que no Natal de 2008 andou em missão de espionagem nos Estados Unidos (“Nova Iorque é uma inspiração”, comenta), averiguando o que andavam a fazer trend setters como o Saks, o Macy’s e o Rockefeller Center.

Resumindo e baralhando. No Natal a tradição continua a ser o que era e as pessoas não embarcam em modernices. Na consoada, não vamos comer sushi, mas sim um posta enorme posta de bacalhau cozido, regada generosamente com azeite e acompanhada por couves, batatas, ovo, cebola e cenoura. Mais nada!

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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Pasta Caffé

NorteShopping, Matosinhos

Água com gás … 1,30

Àgua sem gás… 1,20

Azeitonas com feta … 1,25

Pizza la Regina … 7,50

Pizza Calzone … 7,50

2 copos Sangiovese tinto … 4,20

2 cafés … 1,70

Total … 24,65 euros

 

Curiosidades

 

A Sonae Sierra é uma multinacional de origem portuguesa que tem 51 centros comerciais em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Grécia, Roménia e Brasil, com uma área total de dois milhões de metros quadrados, que em 2009 foram visitados por 436 milhões de pessoas

 

“Não é bom deixar para a última hora as compras de Natal”, reconhece Joana, depois de ter confessado que ainda não tinha (o almoço foi na 3ª feira) começado a fazer as suas… Mas já sabe o que vai comprar para os filhos. O Diogo, quatro anos, vai receber um veleiro ou um cargueiro (ele é doido por barcos) enquanto a Maria, um ano, será contemplada com um brinquedo didáctico que “a faça sentir especial neste Natal” (palavras da mãe)

 

O grupo Sonae acumula os títulos de maior empregador português nas categorias absoluta e de Pais Natais. Neste momento tem largas dezenas de Pais Natais sob contrato, para animar a criançada nos seus centros comerciais. “O recrutamento de Pais Natais é de uma enorme responsabilidade. Têm de ser pessoas que gostem de crianças e saibam lidar com elas”, conta Joana, acrescentando que apesar de ninguém estar à espera de um Pai Natal anoréctico, quando aparece um candidato bom mas magrinho a coisa resolve-se com umas almofadas

 

Paulo Almeida

 

Nasceu nos States, cresceu em Leiria, estudou em Lisboa, mas foi em Madrid que fez nome na área das novas tecnologias, ao ser um dos pilotos da revolução informática do grupo Santander. Agora corre em pista própria e não desiste nunca de tentar surfar em cima de um futuro cada vez mais escorregadio e rápido a transformar-se em passado

 

Faz surf em cima de um futuro

cada vez mais escorregadio

 

Nome:  Paulo Jorge Almeida

Idade:  48 anos

O que fazCountry manager para Portugal do portal cash back BeRuby. Consultor de Web e mobile marketing

Formação: Licenciado em Gestão

Família:  Divorciado, tem uma filha

Casa:  Andar em Entrecampos, Lisboa

Carro:  VW Golf GTD, com 170 cv, “para cumprir os limites de velocidade”

Telemóvel:  Blackberry

Portátil:  Além do IPad usa um Air da Apple, leve como convém a quem faz pelo menos dois voos por semana para Madrid e Barcelona

Redes sociais: Facebook e Linkedin

Hóbis:  Gosta de nadar e andar de bicicleta. “Tentei fazer surf , mas o meu peso e a prancha não chegaram a acordo” 

Férias:  No Verão passa sempre duas semanas em S.Pedro de Muel, onde tem casa. Este ano, fez também uma semana de praia na Falésia, no Algarve.  A próxima grande viagem que tem planeada é ao Chile e Peru

Regra de ouro: "Sou como a Nokia: connecting people. O meu trabalho é fazer pontes, procurar sinergias”

 

 

Quis a vida que Paulo Almeida (aka Paulo Jorge) fosse um pioneiro.  Por vias da carreira que fez no Santander, foi dos primeiros a entender a Península Ibérica como um único e grande mercado. As consequências estão à vista: é o country manager para Portugal do cash back portal espanhol BeRuby, tem uma namorada em San Sebastian  e dois amores no futebol: Benfica e Real Madrid.  “Sou dos que levam 5-0”, graceja, conformado.

Quis também a vida que ele fosse uma daquelas pessoas que nunca desistem de tentar adivinhar um futuro cada vez mais escorregadio e rápido a transformar-se em passado. O screentoo é a coisa mais à frente da sua carteira de novidades, uma aplicação permite entre a interacção entre emissor e receptor de um conteúdo televisivo. Se estou a ver o Lie to me no meu tablet posso satisfazer toda a minha curiosidade sobre a boa da Gillian Foster enquanto a Fox fica a par de informações mais finas sobre a audiência da série (quando e como eu vi, etc).

O empreendedorismo está no sangue deste gestor que nasceu em Hartford (Connecticut), durante uma passagem de cometa dos pais pelos Estados Unidos, após saírem de Angola no início da guerra.

Veio com três meses para Leiria, onde cresceu e ganhou a alcunha de Paulo da Superfresco, já que o pai, um self made man, era dono da fábrica que fazia as laranjadas e gasosas da marca Superfresco.

Após concluir o secundário, no colégio de freiras Cruz da Areia, chegou a tentar entrar em Medicina em Espanha, mas durante os três meses que viveu em Saragoça, para se preparar para os exames de admissão, descobriu que a cidade tinha atractivos bem mais excitantes que os estudos.

Mudou de agulha e veio para Lisboa fazer Gestão, instalando-se no Pio XII, onde fez amizade com Fernando Seara e Manuel Serrão.

Acabado o curso, como não queria regressar a Leiria, nem trabalhar no negócio da família (o pai tinha então uma fábrica de faianças em Aveiro), desatou a responder a anúncios até ser admitido como auditor júnior na BDO, onde teve como primeira tarefa comparecer na festa de Natal da firma, no restaurante Mónaco.

Demorou-se cerca de ano e meio pela BDO, até, em Maio de 1988, ser admitido com responsável pelo crédito de três balcões do BCI (antepassado do Santander Totta), o que implicava comparecer todos os dias, às nove da manhã, ao conselho de crédito, presidido por Francisco Veloso e onde tinham assento dois administradores.

Esteve no plano de expansão da rede do banco e na área internacional até que em 1992 desembarcou na área das tecnologias, o que lhe permitiu ser um dos pioneiros da introdução de novos produtos, como a banca electrónica e telefónica. Como o seu trabalho dava nas vistas (e ainda por cima falava bem espanhol), não demorou até ser chamado para o Madrid.

As acções dele estavam em alta junto de Botin, e por isso convidaram-no a esquecer Portugal e deitar âncora no centro corporativo do banco. Ainda hesitou,  mas acabou por regressar, em 1996.

Dois anos volvidos estava fora do banco e lançado numa carreira na área das novas tecnologias, baseada nos contactos ganhos durante os anos em que foi um dos pilotos da revolução informática do Santander.

“Estou levemente arrependido. Mas não olho para trás. Nunca olho devemos questionar as decisões tomadas no passado usando informações de não dispúnhamos na altura”, conclui o gestor que ganha a vida com a Internet.

 

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de  Notícias

Ofereço-me para director do Canal Parlamento

A televisão não é a minha praia (a escrever ainda se dá um jeito, agora ecrã...) mas uma pessoa tem de ganhar a vida e por isso participo semanalmente em dois programas televisivos, às terças no Porto Canal e às quartas no Canal Q. Feito este esclarecimento, devo dizer que a minha segunda reacção (a primeira foi rir-me tanto como quando leio o Inimigo Público) à notícia da constituição da 9.ª Comissão parlamentar de investigação ao acidente de Camarate foi a de me oferecer para director do Canal Parlamento.

Sei que a minha experiência em televisão não é nada por aí além. Aceito que não seja elegante usar esta coluna para me candidatar a um emprego. Mas estou sinceramente convencido de que sou capaz de tirar partido da matéria-prima que frequenta aquele edifício para aumentar de forma exponencial as audiências do Canal Parlamento - que quando passo por lá, no exercício do meu direito ao zapping, me parece tão animado como o Cemitério dos Prazeres à meia-noite.

A transmissão dos sonolentos debates devia ser integrada numa grelha dinâmica, com rubricas, reportagens e programas. A constituição da 9.ª comissão de inquérito ao acidente de Camarate deu-me a ideia de constituir outras comissões parlamentares para se ocuparem de assuntos de idêntico calibre e utilidade, como averiguar em definitivo a existência ou não do Pai Natal ou investigar as circunstâncias trágicas do desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir.

Acho que neste momento se impõe uma reportagem sobre as extremas dificuldades que José Lello, presidente do Conselho da Administração da AR, está a encontrar para implementar a decisão dos deputados de passarem a beber água da torneira, em vez da engarrafada.

Lembram-se do Ricardo Gonçalves, aquele deputado PS de Braga que, apesar de ganhar 3700 euros/ /mês (mais 60 euros/dia de ajudas de custo) se foi queixar ao Correio da Manhã que não tem dinheiro para comer? Quem melhor do que ele para ser a cara de uma rubrica sobre as tasquinhas que servem refeições económicas em Lisboa?

E a Inês Medeiros devia aproveitar a sua carinha laroca e a fama ganha naquele episódio de lhe pagarmos os voos para Paris para apresentar um programa de viagens.

E aquele assessor do PSD, apanhado em flagrante, às sete da manhã, pelas mulheres da limpeza, quando se preparava para dar uma queca à namorada em pleno hemiciclo, é a pessoa ideal para animar um debate semanal sobre sexo.

Acho que sou a pessoa certa para imprimir uma nova dinâmica ao Canal Parlamento. Se os responsáveis do canal forem desta opinião, não façam cerimónia, digam qualquer coisinha para o jfiel56@gmail.com. Obrigadinho!

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Alda Telles

Alda Telles, directora geral da Fonte, sonhou ser hospedeira e arquitecta antes de fazer Economia na Nova e arranjar no jornalismo o seu primeiro emprego à séria. Após três anos na revista Futuro, em que entrevistou Bill Gates e o pai do primeiro bebé proveta português, resolveu ir tratar do seu próprio futuro e desembarcou no então incipiente mercado das agências de comunicação

 

Loura, fala francês e fuma Ritz

 

Alda fuma Ritz por razões estéticas e profissionais. Não é preciso usar óculos para descortinar o lado estético da coisa. Desenhada em 1970 por António Garcia (que também vestiu outras marcas míticas, como os SG, nas suas variantes Filtro, Ventil e Gigante, High Life, Monserrate, Sintra e Kayak), a embalagem dos Ritz é realmente muito atraente.

A razão profissional conta-se em duas penadas. Alda fumava Lucky Strike, por razões estéticas e afectivas. Também não é preciso usar óculos para constatar o lado estético. Concebida em 1940 por Raymond Lowry (designer industrial que assinou marcas da Shell e Coca Cola, bem como os rótulos das sopas Campbell), a embalagem dos Lucky Strike é terrivelmente sexy.

A razão afectiva para ela fumar Luckies, tal como Mike Hammer (o duro detective que se farta de levar porrada nos policiais de Mickey Spillane), tem a ver com uma lenda sobre a origem do nome da marca, Lucky Strike, um trocadilho que traduzido para português tanto pode significar golpe de sorte como greve bem sucedida.

Reza a lenda, contada a Alda, que a marca foi criada pelos grevistas de uma tabaqueira que misturaram restos de tabaco existentes na fábrica e o comercializaram para arranjarem massa para aguentarem a greve. A lenda não deve ser verdadeira, pois a marca nasceu em 1853, quando os garimpeiros da corrida ao ouro na Califórnia precisavam mais de um golpe de sorte que os operários das tabaqueiras norte-americanas de financiamento para greves selvagens….

Voltando às razões profissionais para ela fumar Ritz, é preciso explicar que esta marca pertence à Tabaqueira (que após as vicissitudes decorrentes da sua privatização foi parar ao regaço da Phillip Morris), que desde tempo imemoriais faz parte da carteira de clientes de Alda.

Um belo dia, no meio de uma reunião, ia dando uma coisinha má ao CEO norte-americano da Tabaqueira, quando Alda acendeu um Lucky Strike (marca da concorrente British American Tobacco). Quando se recompôs, pediu-lhe que não voltasse a fumar tabaco da concorrência na sua presença. Ela mudou-se para o SG Gigante.

“Eu consumo os produtos dos meus clientes”, assegura Alda Magalhães Telles, 47 anos, directora geral e maior accionista da Fonte, consultora de comunicação onde a Euro RSGC detém 30% do capital desde 1995.

Filha de um industrial de metalurgia ligeira, nasceu no Campo de Ourique e tem levado a vida dentro de um quadrado com não mais de um quilómetro de lado, abrangendo a Estrela (onde a Fonte tem sede, no 60C da rua de S.Bernardo, ao lado da holding dos Espírito Santo), Amoreiras e Lapa (onde mora).

Não toca piano, mas é senhora de francês fluente e educação esmerada, prendas que não são estranhas ao facto de ter estudado do liceu francês, dos cinco aos 17 anos, onde foi colega de Rita Blanco.

Teria uma dúzia de anos quando começou a ganhar para os seus alfinetes dando explicações aos miúdos do prédio, actividade, que mais para o final do liceu começou a acumular com a realização de inquéritos de rua para a Marktest. 

Teenager, começou por sonhar ser hospedeira do ar (na altura era uma profissão com glamour), antes se decidir a ir para Arquitectura. Acabou por corrigir a rota, seguindo para Economia. Quando entrou na Nova, em 1981, o curso ainda cheirava a fresco – a primeira fornada de licenciados ainda não tinha saído.

Ir trabalhar para um banco ou para o INE eram as saídas mais óbvias para uma jovem licenciada em Economia, em 1986, o ano em que Portugal foi recebido na CEE. Como nenhuma destas perspectivas a seduzia, andou com o nariz no ar até descobrir que no INESC ia ser leccionado um curso, de nove meses, financiado pelo Fundo Social Europeu, sobre a gestão em ambiente de ninhos de empresas.

Era mesmo aquilo que ela queria: ganhar competências na área da gestão, num curso dado por bons professores (como Emanuel dos Santos, secretário de Estado do Orçamento, ou Luis Filipe Pereira, o ex-ministro da Saúde que agora lidera o grupo Efacec) que tinha como cereja em cima do bolo o facto de ser pago (40 contos/mês).

Estava a acabar a formação quando tropeçou numa oportunidade de trabalhar nos media, sector que desde miúda a maravilhava. “Sempre gostei de jornais e revistas, que comecei a devorar quando tinha 11 a 12 anos, por alturas do 25 de Abril. De manhã, o meu pai lia o Diário de Notícias. À tarde era o Diário de Lisboa. E levava muitas revistas lá para casa, como o Paris Match. Lembro-me de passar as férias a ler números antigos da Plateia, Flama, Século Ilustrado…Sempre gostei de coisas vintage e tive a mania de guardar tudo e mais alguma coisa”, confessa Alda, que colecciona caixas de fósforos, pacotes de açúcar, imagens de Madonnas, isqueiros Zippo, e por aí adiante.

Jorge Nascimento Rodrigues abriu-lhe as portas do fantástico mundo da Comunicação Social ao convidá-la para ser jornalista na Futuro, uma revista mensal de divulgação científica, onde se demorou três anos, foi coordenadora de Redacção, trabalhou com jornalistas veteranos como Luís Marques e Virgílio de Azevedo, e aproveitou por dar uma perninha no caderno de Economia do Expresso, dirigido por Jorge Wemans.

Ter conhecido Bill Gates, em Madrid, e ser a primeira a entrevistar Pereira Coelho, o médico que foi o “pai” do primeiro bebé proveta português, são algumas das recordações mais fortes que guarda da incursão pelo jornalismo.

Fundou a Ipsis, com o apoio de dois investidores, no final dos anos 80, desembarcando no mercado, ainda incipiente, das agências de comunicação em que Luis Paixão Martins (LPM), Madalena Martins e Carlos Matos (Imago) e Joaquim Letria foram os pioneiros.

“Era mais fácil do que agora. Havia imenso caminho a desbravar, mais dinheiro e menos concorrência – não havia concursos, era tudo ajustes directos. E as relações com os meios eram mais simples. As agências ajudaram a crescer o jornalismo económico de empresas e negócios, ao facilitar o acesso dos jornalistas às fontes”, afirma Alda.

Em 1991, após ter constatado que as irremediáveis divergências que a separavam dos investidores (“nunca perceberam que as pessoas são o mais precioso activo neste negócio” a apresentou-lhes uma proposta de MBO (Management Buy Out). Eles recusaram e por isso Alda foi à vida dela, fundando a sua própria consultora de comunicação, que baptizou Fonte.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada na edição de Novembro do Briefing

 

 

“Não repares na secretária”

 

O gabinete é suficientemente amplo para albergar uma bicicleta e uma vuvuzela, vários posters (já amarelecidos..) de equipas campeãs do Sporting (que partilham as paredes com quadros da pintora Maria João), um confortável sofá preto de cabedal com um tapete afegão aos pés  - e a inevitável mesa redonda de reuniões. “Não repares na minha secretária”, disse Alda, um pedido difícil de atender, já que a sua enorme mesa de trabalho está apinhada de livros, CDs, DVDs, dossiers, deixando apenas livre o espaço para se movimentar o teclado do computador. Casada com um advogado que faz as compras lá para casa no super do Corte Inglês, Alda tem um filho de 15 anos, que frequenta escola alemã, e adora viajar. As últimas férias foram passadas entre Atenas, Santorini e Creta. Nas próximas pode ser que vá pela terceira vez à Índia.

João Miranda

Sempre que o encontra, Cavaco pergunta-lhe se já compra cereja da Cova da Beira. É muito doloroso, mas ele continua a responder que não. “Mas não é por não tentar”, garante João Miranda, 46 anos, presidente da Frulact, o quarto maior grupo europeu de preparados de fruta, com quartel general na Maia, seis fábricas (Portugal, França, Marrocos e Argélia), e vendas de 70 milhões de euros/ano, das quais 95% são exportações.

“Tivemos de parar um projecto, que tínhamos no túnel de saída, de um sumo à base de cereja para um cliente, porque os produtores da Cova da Beira não nos garantiam o abastecimento”, conta João, que sofre com a incapacidade dos produtores de fruta em estabelecerem relações estáveis, em termos de quantidades e preços, e a longo prazo com a indústria.

Os exemplos são como as cerejas. Este ano, João desafiou a cooperativa dos produtores da Cova da Beira a fornecer-lhe 1100 toneladas de pêssego. Pouco tempo depois do negócio apalavrado, disseram-lhe que só podiam vender 500 toneladas. Mais uns dias e afinal só garantiam 200 toneladas. No final, ficou tudo em águas de bacalhau. Nem um único pêssego! A Frulact teve de se virar para os produtores espanhóis que lhe colocaram à porta da fábrica, a 27 cêntimos o quilo (dez cêntimos abaixo do preço acordado com os portugueses), os pêssegos de que ele precisava.

Ganância e visão de curto prazo são as explicações para este estranho comportamento dos produtores portugueses de fruta. Como o mercado de fresco paga o dobro da indústria, eles sacrificam o compromisso a prazo no altar da tentação do imediato.

“Temos de trabalhar com quem nos garanta estabilidade, em preços e quantidade, pois temos compromisso com clientes como a Nestlé, Danone, Senoble e Unilever, que têm de por os seus produtos nas prateleiras. Não podemos suportar variações anuais de preços na ordem dos 100 a 200%, como alguns produtores querem. O máximo que podemos acomodar é uma variação de 10%. Nenhum consumidor admitiria que o preço do iogurte de cereja subisse 40% de um momento para o outro”, explica o presidente da Frulact, triste porque as compras em Portugal (essencialmente maçã, pêra e kiwi) valem menos de 5% das 20 mil toneladas que compra todos os anos. Os principais fornecedores são Polónia (morangos), Sérvia (framboesas e cerejas),  Chile e Marrocos.

Almoçamos no restaurante da Casa de Chá da Boa Nova, a primeira obra prima de Álvaro Siza, em Leça da Palmeira, onde João cresceu, já que o pai, Arménio (um auto-didacta que se especializou em lacticínios na Iogurtes Sabóia), trabalhava ali perto, na Longa Vida, onde, entre muitas outras coisas, foi responsável pela produção do camembert.

“Conhecia os buracos todos desta praia. Nas noites de lua cheia, apanhávamos sapateiras e navalheiras que depois comíamos em grandes patuscadas”, recorda João, que nasceu em Roriz, Barcelos, onde tem uma quinta onde se refugia ao fim de semana e ainda é conhecido pelos mais velhos como o neto da Augusta do Monte -  a avó materna, que tinha uma mercearia onde ganhava uns tostões contando o dinheiro ao fim do dia.

Fizemos uma refeição à altura do local, aberta com um Porto seco da Burmester e regada com um branco transmontano Bons Ares (2009) que constou de amêijoas à Bulhão Pato e camarões ao alho e robalo ao sal. Espicaçado por João, o empregado concedei que foi ainda melhor do que a servida a Chavez e Sócrates, quando o presidente venezuelano foi aos Estaleiros de Viana: “A eles servimos-lhes robalo no forno”.

A propósito da sua quinta em Barcelos, falamos dos investimentos que Belmiro de Azevedo está a fazer em fruta (em particular em kiwi). “Ele sabe que, em termos de sustentabilidade, a agricultura é o futuro do país”, declarou João, que, aos 23 anos, após ter trabalhado na gestão de stocks de uma oficina de tractores e na parte administrativa de uma estamparia, agarrou com ambas as mãos a oportunidade de fornecer chila e caramelo à Longa Vida. Pai e filho desalojaram patos, cães (Arménio é caçador) e patos do fundo do quintal, onde construíram um anexo com 120 m2. Estávamos em 1987 e nascia a Frulact.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Casa de Chá da Boa Nova

Leça da Palmeira, Matosinhos

2 Portos secos … 7,00 euros

2 Couvert … 5,00

Ameijoas … 22,50

Gambas ao alho … 12,50

Robalo ao sal … 45,00

Bons Ares… 16,50

Total … 110,50 euros

 

Curiosidades

 

João tem uma relação emocional com a chila, que esteve na génese da Frulact. Abastecia-se de chila em Gondomar, e começava o dia às quatro da manhã a cortá-las em quatro pedaços. Depois acendia a lenha e deixava a chila a cozer, enquanto ia buscar os trabalhadores que manualmente extraíam casca e pevides, e armazenavam a polpa em barricas, que ele entregava na Longa Vida, a quem fornecia 350 toneladas/ano

 

A produção da Frulact tem em conta o mercado a que se destina o preparado de fruta. Os portugueses gostam do sabor a morango maduro, enquanto os franceses, por exemplo, preferem o morango mas aberto e florado

 

A Frulact investiu dois milhões de euros no Frutech, um centro de inovação e tecnologia desenvolvido em parceria com o Instituto Politécnico de Viana do Castelo, que vai ampliar o trabalho que é feito por 30 pessoas no laboratório da empresa, uma fábrica de novos produtos, um dos quais consiste em acrescentar ómega 3 (presente no óleo de fígado de bacalhau) que é óptimo para a saúde, nos preparados de fruta

 

 

Manuel Andrade

A falência da têxtil onde o pai trabalhava obrigou-o a interromper os estudos de Direito em Coimbra e a regressar a Santo Tirso onde vendeu Unos e Puntos para financiar os cursos de Psicologia e Gestão de Marketing que fez a estudar à noite. A publicação de dois livros de poesia e um de contos permitiu-lhe espreitar as portas do Paraíso. O sonho dele sempre foi viver da escrita e para a escrita. Cumpriu metade do sonho ao fundar as editoras Cão Menor e Novembro. Já só lhe falta ter tempo, dinheiro e disponibilidade de espírito para ganhar a vida a escrever

 

 

O ex-vendedor da Fiat

que é dono da Cão Menor

 

 

Nome:  Manuel Andrade

Idade: 41 anos

O que faz:  Empresário, proprietário das edições Cão Menor e Novembro

Formação: Licenciado em Gestão de Marketing, pelo IPAM, e em Psicologia Clínica pela Lusíada

Família:  Casado (a mulher é secretária na antiga Reguladora), têm uma filha de quatro anos, a Maria

Casa:  Moradia em Santo Tirso

Carro:  Fiat Qubo

Telemóvel:  Blackberry

Portátil:  Toshiba (o mesmo que tinha fundou a editora)

Hóbis:  O principal é a escrita, mas desconfia que não é uma profissão de futuro. Além de adorar ler e escrever, gosta de ir ao cinema e de futebol – é doente pelo FC Porto e todas as semanas joga com os amigos, no Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso   

Férias: Por absoluta falta de tempo, há dois anos que não tira férias. “O trabalho chega a ocupar-me 16 horas por dia”, lamenta

Regras de ouro: “Nada se conquista sem trabalho, pelo menos para mim tem sido assim – não sei como é com os outros. O segredo é trabalhar mais do que o normal”

 

Se algures no ano passado, parasse num semáforo, em Penafiel, aguardando pelo verde para atravessar a rua, distraía-se durante o tempo de espera lendo frases do Saramago escritas na passadeira. Era uma das originais manifestações da Escritária, um festival multidisciplinar promovido pela Câmara local, em parceria com a Editora Cão Menor, de Manuel Andrade, que todos os anos homenageia um escritor lusófono vivo – em 2008, o ano de estreia, foi Urbano Tavares Rodrigues, em 2009 foi o Nobel português, este ano foi a vez de Agustina.

Viver da escrita e para a escrita é o sonho de Manuel, nascido em 1969 na terra que se celebrizou pela excelência dos seus jesuítas, filho do matrimónio entre uma auxiliar de educação e um empregado de escritório numa fábrica têxtil. Quando, durante os estudos secundários, feitos na Escola Secundária D. Dinis, chegou a hora de escolher o curso, optou por Direito.”Dizia-se que estava a dar”, explica.

A notícia e as consequências da falência da têxtil onde o pai trabalhava surpreenderam-no em Coimbra. Estávamos em 1989. Como não havia dinheiro para continuar a estudar em regime de exclusividade, regressou à base (Santo Tirso) e começou a procurar um emprego que lhe financiasse os estudos. Só tinha uma pequenina objecção: estava disposto a tudo menos vender automóveis.

Como é bom de ver, foi trabalhar para a Firmauto, concessionária Fiat, a vender Unos e Puntos, tarefa de que se desembrulhou com algum sucesso, acrescentando comissões razoáveis ao ordenado fixo. Dava para pagar livros e propinas, sobrando-lhe ainda dinheiro, bem como tempo e disponibilidade de espírito para escrever dois livros de poesia (Por esta avenida sem fim e Quadras deste lugar à margem), publicados pela Brasília Editora, e um de contos, Contos de Varziela, assinado com o pseudónimo Manuel de Varziela (os avós agricultores eram de lá), editado pela Campo de Letras, que lhe abriu uma janela para ele espreitar a felicidade.

Como nada tinha a perder, enviou dois contos traduzidos para a Follio, onde alguém gostou do que leu, decidiu publicar o livro em França e pagar-lhe para ler manuscritos de autores lusófonos e dar a opinião sobre se deviam ou não ser editados. Durou apenas meio ano esta República de receber para fumar e ler. Mas soube-lhe pela vida.

Quando acabou esta doce vida, ainda se dedicou-se à psicologia antes de se abalançar a cumprir uma das metades do seu sonhe fundando em Penafiel uma editora com duas chancelas -  Cão Menor, onde se acomodam textos mais ousados e experimentais, e a Novembro, que, entre outras coisas, trás para a luz do dia dissertações de mestrado e teses de doutoramento: Começou na garagem e com um efectivo reduzido. “Era eu, o meu portátil e uma rapariga que à noite fazia o design dos livros”, conta.

Setenta livros e um best seller depois (Alma de Viajante, de Filipe Morato Gomes, que andou pelos tops da Fnac), acrescentou à edição iniciativas como a Escritária, a Plast&cina (festival multidisciplinar, em parceria com a Câmara de Lamego, que arrancou em 2009 com uma homenagem a Emília Nadal e prosseguiu este ano tendo José Rodrigues como tema) e o Concelho de Estado (parceria com a CM de Arcos de Valdevez inaugurada este ano com uma homenagem a Mário Soares), enquanto suspira por poder cumprir a segunda parte do seu sonho :  viver de escrever e escrever para viver.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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