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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Luciano Vilhena Pereira

Luciano, com dois anos, no meio das vinhas da quinta do pai em Chaves

 

As nuvens da crise não mancham o céu do Douro, que brilha tão azul que até parece acabado de lavar. Em 2010, pela primeira vez neste século desgraçado, as vendas do Porto aumentaram. E o Douro continua a deixar os críticos de boca aberta, como é demonstrado pela dúzia de vinhos da região que constam da lista dos 100 melhores do ano divulgada pela Wine Spectator..

“O Douro tem melhores condições que Bordéus”, declara, definitivo, Luciano Vilhena Pereira, 64 anos, que  há pouco mais de dois anos preside ao Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), o que equivale a dizer que é o guardião da mais antiga região vinícola demarcada e regulamentada do Mundo e o responsável pela promoção dos vinhos nos mercados internacionais, onde luta com armas desiguais. “Eu tenho 2,5 milhões de euros para a promoção. Bordéus tem 40”, refere.

Luciano sabe do que fala. Nascido em Chaves, mais velho de quatro filhos de uma família de agricultores, que tinham vinho, batatas, cereais, cortiça e algum gado, cresceu no meio das vinhas. E, desde 1999, produz vinho do Douro na quinta da mulher, em Freixo de Espada a Cinta.

“Temos os custos de produção mais caros do Mundo. Há dificuldade em encontrar mão de obra e as características do vale do Douro não favorecem a mecanização. Em regiões como o Alentejo, Napa Valley ou a Argentina, as grandes extensões de vinha permitem-lhes podar com tractor, adubar com tractor, vindimar com tractor”, descreve Luciano, um advogado que iniciou a sua intervenção política ainda estudante de Coimbra, antes do 25 de Abril, e depois foi vice-governador do Porto, presidiu ao Ateneu Comercial do Porto durante uma dúzia de anos e liderou a Comissão Inter-profissional da Região do Douro.

O reverso da medalha dos altíssimos custos de produção são um clima e solos únicos no Mundo e é disso que o Douro está a tirar partido.”Temos vinhos fabulosos, com personalidade própria, diferentes de todos os outros. A nossa aposta é na qualidade, para podermos pedir preço, pois o Douro faz parte do lote restrito de regiões onde se fazem os melhores vinhos do Mundo, ao lado de Bordéus, Borgonha, Rioja e de algumas de Itália, como a Toscana que tem o Brunello de Montalcino”, garante Luciano, que escolheu almoçarmos na Grade, um pequeno restaurante da Ribeira que dista a não mais de 500 metros (a subir no regresso …) da sede do IVDP.

À nossa chegada, a mesa já estava posta com um data de petiscos, sardinhas de escabeche, bolinhos de bacalhau, polvo em molho verde, bola de carne, presunto, que por si só chegavam e sobravam. Apesar disso, cometemos a imprudência de encomendar um polvo à lagareiro que estava divino, o que só agravou o pecado de termos deixado ficar quase metade da travessa.

Como Luciano é freguês da Grade, o sr Ferreira - que em parceria com a sua mulher (D. Helena) gere o restaurante – sugeriu que acompanhássemos a refeição com um Vale de Rotais de 2006, o vinho que o presidente do IVDP produz em Freixo de Espada a Cinta.

Sugestão acertadíssima, que permitiu apreciar ainda melhor as estatísticas sobre o excelente desempenho do sector no ano passado, com as vendas dos Douro DOC a situarem-se na casa dos 40 milhões de euros e as de Porto nos 370 milhões de euros. “64% do total dos vinhos que exportamos são do Porto”, precisa Luciano, que desfilou com orgulho durante o almoço a estatísticas, que vistas de qualquer lado, atestam o bom momento do vinho do Porto: subida do preço médio (3%), das exportações (5,2%), do mercado interno (5%) e das categorias especiais (18%).

Luciano é um apreciador de tawnies velhos (de 20 anos para cima). No final do almoço, subimos até à sede do IVDP -  um instituto financiado pelo sector, onde trabalham 170 pessoas, instaladas num palacete novecentista, do outro lado da rua do Palácio da Bolsa -, onde, refastelados em sentados em sofás de couro antigo, apreciamos um delicioso tawnie da garrafeira do instituto. “Como envelheceu no Douro, e não aqui nas caves de Gaia, apanhou mais calor, mais variação térmica. É mais forte. Menos lotado. Mais próximo da colheita”, legendou o nosso convidado.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Grade

Rua de S. Nicolau 9, Porto

Entradas  … 10,00

Polvo à lagareiro…  30,00

Vale de Rotais 06 … 25,00

Café … 2,00

Total … 67,00 euros

 

Curiosidades

 

O vinho produzido  em Chaves pelo pai de Luciano ganhou um Prémio da Junta Nacional de Vinhos. Ele cresceu no meio das vinhas, como o demonstra esta fotografia quando tenha dois anos, que é uma das mais antigas do seu álbum familiar

 

É a partir de uvas de duas vinhas velhas (um com 90 anos e outra com 50) da quinta da sua mulher, em Freixo de Espada a Cinta, que produz os seus vinhos, o Vale de Rotais (uma produção de 3000 garrafas, comercializadas a 18 euros cada)  e o Bardo (sete mil garrafas, 6,5 euros), que distribui por restaurante, garrafeiras e amigos . “Não dá para viver, mas ganha-se algum”, diz 

 

Luciano estava sentado atrás de Alberto Martins, quando o então dirigente da AAC, no momento mais emblemático da Crise Académica de 69, se ergueu no Anfiteatro das Matemáticas e pediu a palavra a Américo Tomás. Um coronel ainda tentou impedir Alberto de falar, mas Luciano pôs-lhe a mão no ombro, sentou-o e confundiu-o ao dizer-lhe enigmaticamente: “Está tudo sob controlo”

 

Lídia Tarré

 

Começou por passar parte das férias da Escola Alemã a embalar peixe, a 8º graus centigrados, na sala de laboração da Gelpeixe. Depois de estudar  Gestão, no ISEG, aprendeu a cultura IBM, passou por um gabinete de contabilidade e foi auditora. Aos 26 anos, sentiu que estava pronta para desembarcar na empresa feito pelo avô, pai e tio

 

De como Lídia conseguiu

apagar o selo de filha do patrão

 

Nome:  Lídia Tarré

Idade: 30 anos

O que faz:   Responsável pelo Marketing da Gelpeixe

Formação:  Licenciada em Gestão pelo ISEG (2002), com pós graduações em Fiscalidade e Controlo de Gestão, no ISCTE

Família:  Casada com um engenheiro informático, de quem tem um filho, o Gabriel, de quatro meses

Casa:  Andar na zona da Expo, Lisboa

Carro:  Honda CRV

Telemóvel:  iPhone

Portátil: Sony Vaio

Redes Sociais: “Tenho consciência de que é importante estar lá, mas não tenho tempo” 

Hóbis: Tem um piano em casa, onde de vez em quando toca peças de Debussy, Mozart ou Beethoven. Na adolescência teve aulas na Academia de Música Santa Cecília, no Lumiar, mas cedo percebeu que se queria ser boa pianista isso iria reflectir-se negativamente no rendimento escolar. Faz regularmente yoga, gosta de dar passeios na praia e passar fins de semana fora – e sempre que pode não perde os concertos dos seus artistas preferidos, como, por exemplo, Leonard Cohen  

Férias: No Verão, faz normalmente uma a duas semanas de férias na casa da família, na Praia da Rocha. Viajar é uma paixão. Em 2009, o ano em que se casou, foi à Costa Rica antes de fazer a lua de mel no Sudeste Asiático (Tailândia, Vietname e Cambodja). Praga é o próximo destino   

Regra de ouro: “Se deres um peixe a um homem vai alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar vais alimentá-lo toda a vida” (Lao-Tzu)

 

Desde que na adolescência passava parte das férias grandes a embalar peixe congelado, a 8 graus centígrados, na sala de laboração da fábrica de Loures, que Lídia sabia que a sua vida ia passar pela Gelpeixe. Só não sabia era quando.

Fundada em 1977, pelo avô Francisco (que tinha em Loures uma daquelas lojas onde se vende um pouco de tudo) , o tio Joaquim e o pai Manuel (que tinham acabado estudos e tropa), a Gelpeixe é três anos mais velha do que ela e a sua criação uma base estatística – a seguir a Japão e Islândia, Portugal é o país do Mundo com maior consumo de peixe per capita.

Lídia cresceu no Lumiar e fez o secundário na Escola Alemã, que além da fluência em alemão teve a grande vantagem de lhe ensinar que nem toda a gente no mundo tem os nossos valores e modo de encarar a vida.

Sempre viveu muito a Gelpeixe. “O meu pai sempre achou que devíamos passar pela sala de laboração, para merecermos o respeito das pessoas que lá trabalham e nos ajudar a passar por cima do selo de filhos do patrão”, explica Lídia, que fez de tudo menos serrar peixe. O primeiro dinheiro ganho a manipular a pescada ultracongelada foi direitinho para umas Levis.

Não teve dúvidas em escolher Gestão, curso feito no ISEG e concluído ainda com 21 anos. Sabia que mais tarde ou mais cedo iria desaguar na Gelpeixe, mas também sabia que primeiro tinha de fazer o tirocínio fora do ambiente protector da empresa familiar. “Expliquei ao meu pai que o primeiro emprego tinha se ser eu a consegui-lo”, conta.

Não foi só o primeiro, mas também o segundo e o terceiro. Debutou na DCSI, uma joint venture entre PT e IBM, instalada no Tagus Park, onde se deixou impregnar pela cultura típica de uma multinacional norte-americana. Um conselho do pai (“um bom gestor tem de saber ler um balancete”) levou-a a mudar-se para um gabinete de contabilidade, de onde transitou para uma empresa de auditoria que lhe abriu as portas do mundo das grandes empresas.

A decisão de que tinha chegado a hora de ir para a Gelpeixe foi tomada, entre pai e filha, numa calma noite da Primavera de 2006, num passeio à beira Tejo, na zona da Expo. O marketing estava a precisar de uma mãozinha e no percurso de quase cinco anos feito a solo, Lídia já tinha conseguido reunir competências e apagar o selo de filha do patrão.

Desembarcou em Loures no Verão e cedo fez o diagnóstico. Havia um canal aberto, de logística e distribuição, que podia e devia ser aproveitado para disponibilizar oferta de produtos sintonizados com as novas necessidades dos consumidores mais jovens e citadinos, que têm menos tempo e paciência para estar na cozinha – e não sabem ou não querem cozinhar.

Dois anos volvidos, começavam a desembarcar nas prateleiras dos supermercados, em embalagens apetitosas e com a submarca Gelpeixe Gourmet, os primeiros produtos da diversificação e sofisticação (sushi, filetes de espada preto…) introduzida por Lídia numa gama que se esgotava na pescada, tamboril, polvo e outros peixes congelados. Seguiram-se mais duas vagas. A submarca Delidu é um incursão na carne, com uma oferta de porco preto em várias declinações. E a Chef vai até às sobremesas.

Jovem mãe e consumidora citadina, com pouco tempo para passar na cozinha, Lídia tem aproveitado muito a nova gama de produtos que lançou na Gelpeixe. Lombos de espadarte Gourmet, pitta kebab e crepe de chocolate (ambos Chef) são os seus pratos preferidos.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

O lado orgástico da ida do Coelho à Coelha

Ksawery Knotz, monge capuchinho de 45 anos e conterrâneo do beato João Paulo II, publicou um livro intitulado Não Tenhas Medo do Sexo, onde defende a tese de que Deus está no orgasmo.

Ainda não decidi se encomendo na Amazon esta obra, que mereceu o apoio da Igreja Católica polaca, o que se compreende perfeitamente. Se Deus é omnipresente, ou seja, está em toda a parte, é natural que esteja também no orgasmo, por muito que isso custe a engolir ao respeitável economista João César das Neves, que mantém activa uma cruzada particular contra "os fanáticos do orgasmo".

Como nunca me dei ao trabalho de penetrar no conceito de "orgasmo vertical", que, do meu ponto de vista, é uma das mais misteriosas peças do vasto legado intelectual do falecido Eduardo Prado Coelho, penso ter as credenciais para não ser considerado com um "fanático do orgasmo".

Apesar disso, não posso em consciência negar que, a par de uma posta de rodovalho grelhado, uma botelha de Vértice, um livro do Henning Mankell ou um episódio do Good Wife, um orgasmo é uma das coisas boas que um homem (ou uma mulher, ou um transexual) leva desta vida. Mais nada!

Na sua imensa sabedoria, Deus está com toda a certeza no orgasmo, mas o orgasmo não está no voto, ao contrário do que pretendia o vídeo lançado pela Juventude Socialista da Catalunha em que uma rapariga muito bem-apessoada depositava o voto numa urna enquanto simulava ter um orgasmo - com bastante menos verosimilhança do que a Meg Ryan na célebre cena de When Harry Meets Sally, filmada no Katz Delikatessen de Nova Iorque, onde se pode comer a melhor sanduíche de pastrami do mundo.

Os 53,37% de eleitores que se abstiveram no domingo não partilham desta peregrina ideia dos socialistas catalães, senão não teriam desperdiçado tão ostensivamente uma boa oportunidade de obter um orgasmo.

Já não sei que dizer a este propósito dos 191 187 eleitores que votaram em branco ou dos 86 531 que anularam o boletim para manifestaram o seu desagrado com a oferta de candidatos. Vi no Twitter o boletim de uma eleitora que acrescentou Chuck Norris à lista e fez a cruzinha num quadrado desenhado à mão. Pode não ter tido um orgasmo, mas seguramente divertiu-se a kitar o boletim.

Eu faço parte dos 94% de portugueses que não confiam na classe política (sondagem GFK para o Projecto Farol, liderado por Belmiro de Azevedo e promovido pela Deloitte) e por isso fui um dos 189 036 eleitores que votaram em José Manuel Coelho. Não senti um orgasmo quando, por volta das 11.30, introduzi o boletim na fenda da urna da 8.ª secção da Católica do Porto. Mas fiquei satisfeito. Ao fim e ao cabo, há algo de intensamente orgástico na ida do Coelho à Coelha.

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

Tiago Queiroga

 

A secretária de Greg Carr telefonou-lhe. O multimilionário norte-americano, que está a financiar a recuperação do Parque da Gorongosa, ia fazer uma escala no Porto. Será que ele poderia indicar-lhe um imóvel na cidade susceptível de lhe interessar comprar?

O partner e director executivo da Sotheby’s Realty Portugal pôs-se em campo e enviou para o outro lado do Atlântico imagens e informações detalhadas de uma penthouse requintadamente recuperada num prédio da av. Boavista, no valor de um milhão de euros. A resposta veio carregada de ironia. Se o melhor que ele tinha para oferecer era aquilo, Mr Carr pernoitaria num hotel – e se gostasse dele até o poderia comprar… Tiago contrapropôs um palacete de seis milhões de euros, na zona da av. Boavista em que já se sente a maresia. “Sim, é uma coisa desse estilo que Mr Carr quer”, aprovou a secretária.

“Muitos dos nossos clientes mantêm casas em diferentes pontos do globo”, explica Tiago, que após concluir o curso de Gestão no ISEG, fez escalas na banca (analista financeiro no BFE), informática (Ensitel) e vestuário de alta gama e luxo (geriu as 80 lojas de marcas como a Burberrys, Timberland, Tods, Furla, Sebago, do grupo Brodheim) antes de 2007 deitar âncora no imobiliário de luxo.

Tiago escolheu almoçarmos no Rio’s, com vista para a Marina de Oeiras e a meio caminho entre dois (Estoril e CCB) dos quatro escritórios da Sotheby’s Realty Os outros são no Ritz Lisboa e em Vilamoura. A rede vai ser acrescentada com um segundo escritório no Algarve (Carvoeiro) e outro no Porto.

Ele estava inclinado para a asa de raia mas mudou de ideias quando reparou que o havia rucola no arroz de vieiras. Ele adora rucola. E foi-nos iniciando nos pequenos segredos da imobiliária de luxo enquanto fazíamos a refeição que sepultou com um prato de fruta laminada (morango, ananás, amoras e kiwi) e um descafeinado.

No princípio foi um bocado complicado. O subprime já era tema de conversa na festa da inauguração da actividade, realizada em Outubro de 2007, na embaixada americana em Lisboa, tendo como anfitrião o embaixador Hoffman que a Wikileaks viria a celebrizar.  

“Uma loja de roupa, é muito fácil encher as prateleiras. No imobiliário andamos entre seis meses a um ano a angariar produtos”, explica, acrescentando que o preço (elevado) não é critério para a Sotheby’s. Uma vista fantástica, uma localização privilegiada, ser uma casa com história ou de arquitecto são factores que contam. “ Um T1 no Estoril, com uma vista fantástica, que custa 400 mil euros, pode interessar-nos. Um prédio de dois milhões de euros na Amadora já não nos interessa”, diz.

Quando foi para o mercado, estava a Lehman a ir à falência, o que não facilitou a partida mas não o impediu de prosperar. “Não vejo ameaças. Só vejo oportunidades. O que é preciso é estar atento e trabalhar”, explica Tiago que vive num apartamento em Algés, e se pudesse ir viver para um dos 1600 imóveis da sua carteira (só a Sotheby’s USA tem mais) escolhia uma casa de 500 m2 na Costa da Caparica, com 5000 m2 de terreno, com uma vista deslumbrante do estuário do Tejo (preço: seis milhões de euros).

No segmento em que a Sotheby’s trabalha, o “asking price” (preço pedido) não caiu. Mas ele reconhece que há uma maior elasticidade na negociação. “O poder está do lado dos compradores”, afirma, pelo que se eles fazem ofertas 20% ou 30% abaixo, compete ao mediador convencer o vendedor a baixar o preço

Para já, a Sotheby’s Realty Portugal tem conseguido duplicar o negócio todos os anos. Em 2010, as vendas foram 110% acima das de 2009. E para este ano o crescimento previsto é de 133%. “Ainda estamos na volta de aquecimento”, afirma Tiago para entusiasmar a equipa de 50 pessoas, das quais 35 comerciais, cada um com uma área a seu cargo (Birre, Monte Estoril, Chiado, Príncipe Real, etc), onde têm de saber tudo quanto se passa, frequentando cafés, cabeleireiros e lojas, de maneira a saberem quem se está a divorciar, a quanto está a ser transaccionado o m2, etc, etc. A recompensa deste trabalho de espionagem é boa. Em 2010, os vendedores de top levaram para casa 70 mil euros em comissões…

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Rio’s

Complexo Turístico da Piscina Oceânica de Oeiras

2 couvert … 2,00

1 Risotto de vieiras com rucola estufada e óleo de trufa … 19,50

1 Polvo confitado em azeite perfumado de alecrim … 17,75

1 Água sem gás 0,75 … 3,10

1 Quina Cabriz branco… 14,00

1 prato fruta laminada … 7,00

1 café … 1,60

1 descafeínado … 1,60

Total.. 66,55

 

 

Curiosidades

 

A Sotheby’s nasceu em Londres em 1744, começando por leiloar livros, que à época eram objectos raros. Um dos seus mais famosos leilões foi o da biblioteca que Napoleão leu durante o seu exílio na ilha de Santa Helena. Em 1976 iniciou-se no imobiliário, numa lógica de cross selling. “Os clientes entregavam a sua colecção de arte para leilão e começaram a perguntar, já agora não querem também vender o palácio?”, explica Tiago.

 

O ramo do negócio imobiliário autonomizou em 2004, contando neste momento com cerca de 1500 escritórios espalhados pelo Mundo

Uma boa parte dos clientes da Sotheby’s Realty Portugal são estrangeiros (a maioria no Algarve e quase metade em Lisboa), o que até se compreende. “Com 300 dias de sol e luz natural somos um destino apetecível para um estrangeiro”, diz Tiago, acrescentando que Chiado e Príncipe Real são as duas zonas com mais procura no centro de Lisboa. A comissão cobrada pela Sotheby’s (6%) é superior à média do mercado (5%  das grandes redes mediadores e 3% das tradicionais) o que ele justifica pelo serviço personalizado que presta. “Vamos buscar o cliente ao aeroporto, levamo-lo a jantar fora, resolvemos-lhe todos os problemas relacionados com a sua instalação – água, electricidade, etc. ainda recentemente tratamos da inscrição do Liceu Francês dos cinco filhos de um cliente francês”, conta

 

Erich Brodheim, o judeu austríaco que se refugiou em Portugal e fundou o grupo Brodheim (onde Tiago trabalhou durante oito anos), foi o responsável pela introdução no nosso país do fecho eclair

Francisco Febrero

 

 

 

 

 

Filho de uma enfermeira e de um funcionário do Inatel, cresceu entre Alcântara e os Olivais. No secundário esteve muito longe de ser o melhor aluno do D. Dinis. Endireitou a carreira escolar no ISCAL. Trabalhou nos serviços do IVA, na Coopers e em empresas de refeições e ketchup, antes de tomar contacto com o SAP e entrar no maravilhoso mundo da informática. Breve resumo da vida de um dos fundadores da ROFF     

 

Como um rapaz dos Olivais chegou

ao 15º andar da Torre de Monsanto

 

Idade: 48 anos

O que faz:  Ceo da ROFF

Formação:  Bacharelato em Contabilidade e Administração, pelo ISCAL, e especialização profissional em Engenharia Informática (Técnico)

Família:  Divorciado, tem um filho de 22 anos que estuda Economia no ISCTE

Casa:  Andar em Telheiras, Lisboa

Carro:  BMW X5

Telemóvel:  Samsung  com dois cartões, um português outro angolano, ambos sempre activos, “além de passar uma semana por mês em Luanda também recebo muitas chamadas de lá”

Portátil:  Mac, “o Mário Oliveira (o O de ROFF) convenceu-me”

Redes sociais: Facebook (“sou obrigado, está lá toda a gente, mas actualizo pouco o perfil, normalmente vou lá só para ver o que o meu filho anda a fazer J”)

Hóbis:  É  raro falhar um jogo do Sporting em Alvalade, onde a ROFF tem um camarote (também tem na Luz, sendo que ambos os camarotes são acessíveis a todos os colaboradores da empresa, é só candidatarem-se) . Normalmente aproveita a semana por mês que tem de estar em Luanda, a trabalhar, para ir na 5ª anterior à noite e assim poder desfrutar de dois fins de semana , na casa duns amigos, no Mussulo  

Férias:  Em Agosto, passa sempre duas semanas de férias na Praia do Carvalhal (costa alentejana) onde tem casa. E todos os anos costuma fazer uma viagem com o filho. Em 2010 foi a Cluj, onde ele estava a fazer o Erasmus. Este ano devem ir aos Estados Unidos - “Está a ser negociado”

Regra de ouro: "Passa à frente, que atrás vem gente. O que importa é olhar para a frente e ter confiança nas nossas capacidades para resolver os problemas que inevitavelmente nos vão aparecer – e que serão bastantes"

 

 

 

“Se, quando eu tinha 25 anos, me perguntassem tu vais ser consultor informático, eu responderia logo que não”, conta Francisco Febrero, 48 anos, confortavelmente instalado, à frente de um Mac e de um chávena de chá, no seu gabinete envidraçado, no 15º andar da Torre Monsanto, de onde desfruta de uma vista de Lisboa de cortar a respiração.

É a partir deste gabinete, identificado à porta como Régie, que comanda o exército de 450 colaboradores (dos quais mais de 95% são licenciados) da da ROFF, líder no mercado de implementação de soluções SAP, com fábrica na Covilhã e escritórios no Porto, Paris, Estocolmo e Luanda.

Foi longo e sinuoso o caminho que trouxe até ao topo do mais alto edifício de escritórios de Portugal o filho do matrimónio entre uma enfermeira do Stª Maria (onde ele nasceu em 1962) com um funcionário do Inatel. A família Febrero, composta ainda por mais dois irmãos (Maria Gabriela e Pedro) beneficiava da profissão do pai para passa todos os anos belíssimas férias de Verão, a baixo preço, nas estâncias da Costa da Caparica, Albufeira, Foz do Arelho e Cerveira da antiga FNAT.

Estava a caminho dos 13 anos quando o 25 de Abril permitiu aos Febrero mudarem-se de Alcântara (o pai era o sócio nº 5 do Atlético, o tio era do rival Belenenses, mas ele puxou ao avô sportinguista) para os Olivais, um bairro que ele amou logo à primeira vista.

“Era um bairro muito bem construído -  cheio de espaços verdes, onde podíamos jogar à bola ou à pedrada na rua -  e habitado por gente de diferentes classes sociais, o que foi decisivo para o nosso crescimento como pessoas. Ainda tenho amigos dos Olivais”, conta Francisco, que fez carreira como guarda redes de andebol,  modalidade em que foi campeão nacional da III Divisão e representou o Encarnação e Clube TAP.

A felicidade da sua adolescência foi apenas manchada por um desempenho escolar menos exemplar no D. Dinis, onde perdeu dois anos, o que exasperou o pai, que lhe arranjou um part time no 1º de Maio, o estádio do Inatel, onde passava os fins de  semana a montar e manter a instalação sonora de suporte às actividades desportivas, biscate cujas receitas lhe sustentavam o vício do tabaco.

No ISCAL, endireitou a carreira escolar e no último ano já o vemos a trabalhar nos serviços do IVA, corrigindo (à mão) as declarações dos contribuintes. Passou pela contabilidade de uma empresa que fornecia refeições, antes de assentar, na Coopers & Lybrand, em 1987 (“na altura, havia só um computador por equipa”), que lhe abriu as portas de Angola, onde fazia a auditoria da Sonangol.

“Por estar fora, ganhava mais, o que dava um jeitão porque tinha acabado de casar e comprar carro. Além disso conheci gente e adorei o país”, explica Francisco, que ainda passou como controller pela Idal (grupo Heinz) que tinha a maior fábrica de concentrado de tomate da Europa, antes de, pela mão do cunhado, tomar contacto com o SAP.

A Sigil, de António Melo Ribeiro, foi a porta de acesso ao maravilhoso mundo da informática. Depois foi a viagem de montanha russa habitual nas tecnológicas. Em 1996, Melo Ribeiro vendeu a Sigil e montou com os seus melhores quadros a ROFF (R de Ribeiro, O de Oliveira, dois F de Francisco Febrero e do seu irmão Pedro), que começou a funcionar com cinco pessoas, na casa dele em Cascais. Quinze anos e muitas voltas depois, são 450, ocupam os dois últimos pisos do mais alto edifício de escritórios de Portugal e facturam 35 milhões de euros.

Jorge  Fiel

Esta matéria foi publicada  hoje no Diário de  Notícias

É uma idiotice tentar medir a felicidade

A minha expectativa sobre o contributo para a nossa felicidade das presidenciais de domingo é absolutamente idêntica à que tenho relativamente ao relatório da Comissão Stiglitz. É zero!

A base da criação Stiglitz até é inteligente. O exemplo do engarrafamento, que faz crescer o produto ao aumentar o consumo de gasolina, chega para demonstrar aos mais distraídos que o PIB não é mais o indicador adequado para medir o progresso de uma sociedade, pois na sua cega avaliação numérica não contabiliza os perniciosos efeitos secundários do trânsito entupido: os atentados ao ambiente (poluição do ar) e ao bem estar do automobilista, bem como o desperdício de tempo, recursos e paciência.

Há dois anos, por sugestão de Sarkozy, foi cometida a dois laureados com o prémio Nobel (Joseph Stiglitz e Amartya Sen) a tarefa de elaborarem uma ciência de felicidade.

A felicidade tem sido bastante estudada pelos académicos, muitos deles norte-americanos, o que se compreende depois de Thomas Jefferson ter escrito na declaração de Independência dos EUA que a busca de felicidade é um dos direitos inalienáveis dos cidadãos.

Fujo a sete pés das pessoas avinagradas, de rosto amargo e ar de terem crescido no interior de um frasco de pickles, pois acredito que a felicidade é contagiosa, como defende Nicholas Christakis, investigador de Harvard.

Acredito em Bruno Frey, quando este professor universitário de Zurique afirma que “quanto mais televisão uma pessoa vez, menos feliz se sente”, até porque é muito difícil ser feliz quando se está doente ou sem emprego  - e desempregados e doentes são dos principais contingentes de consumidores de televisão.   

Tenho seguido o conselho de Jefferson, e além de tentar ser criterioso sobre os locais onde tento encontrar a felicidade (não é indiferente se é na cama, na pastelaria ou no fundo de uma garrafa) também tenho reflectido sobre o assunto e conclui que é uma rematada idiotice tentar chegar a uma fórmula de cálculo do índice de felicidade interna bruta. 

Podemos medir, e até acomodar num cabaz base, indicadores objectivos de desenvolvimento humano (educação, saúde, etc) mas é impossível aprisionar numa estatística coisas tão voláteis a excitação sexual despertada por um cheiro ou quantificar o prazer desfrutado na ponte da Arrábida com a visão de um pôr do sol.

Neste momento, a felicidade para mim seria não ter saber o dia da semana em que estamos - nem que a taxa a que Portugal está a colocar as OT a dez anos se aproxima perigosamente do recorde histórico de 7, 357% ,atingido a 11 de Novembro. Há coisas que preferia não saber. E isso não cabe num indicador estatístico alternativo ao PIB.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Vicente Termote

Se o director geral ibérico da Nespresso vai almoçar contigo e trás na mão um quilo de arroz para te oferecer é porque leva na cabeça uma mensagem para fazer passar. O saco de arroz extra longo carolino branqueado é igual a um dos sete mil oferecidos ao Banco Alimentar contra a Fome e é parte integrante do ramo de oliveira estendido aos ecologistas, em resposta às acusações sobre o impacto ambiental das cápsulas coloridas, após terem sido usadas para fazermos em casa um bom café expresso.

A Nestlé não correu o erro de fazer ouvidos de mercador à crítica dos ambientalistas e começou a montar operações de recolha das cápsulas, para reciclagem, acalmando a consciência sustentável dos consumidores e a fazendo baixar o volume de som dos protestos ecologistas.

Vicent Termote, o belga de 47 anos que dirige a operação ibérica da Nespresso, conseguiu ir mais longe no compromisso com a sustentabilidade, talvez devido à sua formação académica (licenciou-se em Agronomia, em 1986, em Louvaine),  ao operar o suave milagre de transformar em arroz as cápsulas velhas. Bem, a rainha Santa Isabel pode ficar sossegada, pois este resumo é um pouco exagerado.

A operação consiste em recolher as cápsulas, separar o alumínio (que será refundido) das borras de café, que são uma excelente matéria prima para adubo, usado na produção de arroz na herdade ribatejana do Monte das Figueiras.

“A borra de café é um acelerador do processo de compostagem”, explica Vicent, que se escolheu Agronomia a pensar alistar-se no exército da FAO e ir combater a fome em África: “Sempre fui um idealista e romântico, que gosta de flores e ajudar os necessitados”.

Para convencer os consumidores a entregarem as cápsulas para reciclagem, a Nespresso compromete-se a dar 1,5 kg de arroz ao Banco Alimentar contra a Fome por cada 100 cápsulas recolhidas. No ano 2 desta operação, foram oferecidas sete toneladas de arroz, o que dá para 140 mil refeições. O objectivo é chegar às 50 toneladas, ou seja um milhão de refeições.

Ao almoço nem passamos fome nem comemos arroz. Deixamos a escolha ao cuidado do Miguel Reino, que no ano passado deslocalizou o Aqui há Peixe da Comporta para o coração do Chiado. O irmão do não menos célebre Gigi começou por nos trazer umas deliciosas Amêijoas à Bolhão Pato, seguidas de um esplêndido pregado (que suscitou a velha questão de apurar se trata de um primo do rodovalho ou tão só uma diferente denominação do mesmo peixe), tudo acompanhado por um Dona Maria 2009.

“Os meus colegas suíços, habituados a comer aqueles peixes do lago Leman que não sabem a nada, ficam doidos quando os trago aqui”, confidenciou-nos Vicent, que se expressa num perfeito português aprendido no Brasil, uma das escalas de uma vida quase tão aventurosa como a do mais famoso dos seus compatriotas (o repórter Tintin): começou na IBM, na Califórnia, passou pelo marketing da Exxon Chemical (“a petroquímica é uma indústria pouco sexy”) até que, quase por acaso, quando, em 1997, estava de férias em S. Paulo e “andava como um peixe à procura do seu aquário”,  tropeçou numa oferta de emprego (da companhia de cosméticos Natura) e numa brasileira, com sangue italiano e americano a correr-lhes nas veias, que lhe viria a dar um filho no ano 2000.

Foi o filho (não queria que ele crescesse no meio da insegurança brasileira), que em 2003 o trouxe de volta para a Europa. Sente-se feliz a voar entre Lisboa (onde tem casa, comprada, no Príncipe Real), Madrid e Barcelona (onde tem casa alugada), a comer bom peixe enquanto dirige a bem sucedida operação ibérica da Nespresso (Portugal é o 8º maior consumidor).

 “Só 1% do café produzido em todo o Mundo corresponde aos nossos requisitos de qualidade. Isso a ajuda a explicar o sucesso. O português é um enólogo do café. Um verdadeiro apreciador como só encontramos em Itália e numa parte da Hungria”, afirma Vicent, que se desembrulha da vida agitada que leva com a ajuda dos cinco cafés que toma durante o dia (o Roma e o Indrya são os seus preferidos); à noite só toma o descafeinado intenso que, elogia, “tem o corpo e alma de café”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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Aqui há Peixe

Rua da Trindade 18 A, Lisboa

Couvert … 5,00

Grissini…  1,50

Ameijoas à Bulhão Pato … 19,00

Pregado … 40,00

Água com gás … 1,50

Dona Maria 2009 … 17,00

2 cafés … 2,50

Total … 86,50 euros

 

Curiosidades

 

George Clooney foi escolhido para cara da Nespresso na sequência de um complexo processo de selecção de uma figura internacionalmente conhecida pessoa que representasse os valores e a atitude da marca. Monica Belucci fez parte da short list final, mas acabou por ser preterida devido ao elevado índice de rejeição que despertou junto da componente feminina dos focus group

 

O Ristretto (cápsula preto) é o café Nespresso preferido dos portugueses, seguido do Roma (cinzento) e o descafeinado intenso (vermelho escuro). A venda reparte-se, em partes iguais de 40%, pelas oito lojas e a Internet, sendo que 20% das encomendas são feitas pelo telefone  

 

Todas as chávenas Nespresso existentes no Mundo são produzidas em Portugal pela Vista Alegre, a companhia vencedora de um concurso internacional

 

Bernardo Simões

Foto Orlando Almeida

 

Filho de um chefe de cabina da TAP e de uma decoradora, este sportinguista extrovertido cresceu no bairro de Alvalade e estudou no Valsassina, onde decidiu trocar o sonho de ser deputado por uma carreira no marketing. Descolou na editora de livros escolares da Prisa, e fez escalas no Jornal de Negócios, Media Capital , Brisa e PT antes de aterrar na Bizdirect, da Sonaecom 

 

O alfaiate de sistemas de informação

que em miúdo sonhou ser deputado

 

 

Idade: 37 anos

O que faz:  Sales e Marketing Manager da Bizdirect

Formação: Licenciado em Comunicação Empresarial pelo Instituto Superior de Comunicação Empresarial

Família:  Casado com Margarida (directora financeira adjunta no grupo ETE), têm três filhos: Matilde, cinco anos, Salvador, três, e Francisca, dois

Casa:  Andar na Estrada da Luz,  Lisboa

Carro:  Carrinha Mercedes Classe E 250 CDI, “com três filhos pequenos, preciso de uma grande bagageira”

Telemóvel:  iPhone

Portátil:  Lenovo

Redes sociais: Facebook (“tenho lá a minha vida toda, a partir do iPad, estou sempre a actualizar o perfil”) e Linkedin

Hóbis:  “O hóbi são os meus filhos. Sou o maior pai babado que há. Às 19h45 em ponto, levanto-me e vou para casa”. Também gosta de ler, de ir ao cinema e de ver futebol. É sportinguista, tal como a mãe e os três filhos (o pai e o irmão, Vasco, são benfiquistas), por influência do avô materno: “Lembro-me de passar a tarde de domingo com o meu avô em Santarém a ouvir na rádio as proezas do Manuel Fernandes e do Jordão, nos relatos dos jogos do Sporting”

Férias:  Gosta do Algarve quando ele está cheio de gente e por isso todos os anos, em Agosto, alugam sempre a mesma casa, em Vilamoura, e durante três semanas desfrutam com a filharada das delicias do relvado, da piscina e da praia. O ano passado, ainda foram até Ibiza, no barco de um amigo

Regra de ouro: “Família e tranquilidade. Gosto de ter sucesso e sou muito ambicioso, mas tenho de ter sempre a mulher e filhos por perto. E tenho um sonho que é morar em Santarém”  

 

“Quero ser deputado” era a resposta que dava quando tinha uns 13/14 anos e lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande. No entretanto, este sportinguista, extrovertido e optimista, mudou de ideias. Ao longo da sua agitada vida profissional tem superado as barreiras que lhe vão surgindo pelo caminho até se tornar uma espécie de alfaiate de sistemas de informação.

Ser responsável pelo marketing e as vendas da Bizdirect é a linha mais recente do curriculum que já vai gordo de um marketeer trintão que continua atento à coisa política. “Gosto de ver os debates no Canal Parlamento e estou sempre atento ao que se passa através da Sic Notícias, mas os políticos têm-me desiludido. A sua credibilidade e profissionalismo deixam muito a desejar”, confessa Bernardo, o mais velho dos dois filhos do matrimónio entre uma decoradora de interiores  e um chefe de cabina da TAP.

Por via da profissão do pai, fartou-se de viajar. Tinha sete anos quando desembarcou pela primeira vez no Rio de Janeiro. E aos dez anos passaram todos o Natal em Nova Iorque.

Cresceu entre o bairro de Alvalade e Santarém, onde nasceu e estão as raízes da família materna. “Tive a sorte de passar a infância e a adolescência a brincar e a jogar à bola na rua com os meus amigos”, recordar Bernardo, que fez a primária no Colégio Inglês e o secundário do Valsassina (onde andam agora os filhos), onde percebeu que o marketing era o curso certo para quem alguém tão extrovertido como ele.

Em casa, os pais exigiam-lhe a máxima responsabilidade em troca da máxima liberdade, uma política que implicava não haver mesada, pelo que ele habituou-se de miúdo a ser poupado e a arranjar dinheiro para as férias e pequenos luxos.

Todos os anos, trabalhava nas iniciativas da João Lagos Sports, fosse a servir bebidas no bar VIP do Estoril Open em golfe, a conduzir um tenista, ou a levantar a cancela do estacionamento para o torneio de voleibol. “Ganhava-se muito bem”, revela.

A sua fama no capitulo da gestão e organização começou a construir-se quando a mãe lhe passou para a mão o cartão multibanco da conta para as despesas domésticas e a responsabilidade pelo governo da casa.

“No final do mês sobrava sempre algum dinheiro para mim”, afirma com um orgulho, acrescentando que a sua mulher ainda fica doida com a mania dele pela perfeição e organização, que o impede de recolher à cama se as almofadas do sofá estão desarrumadas ou os comandos não estão alinhados no sitio certo.

Após dois estágios curriculares (McCann e TVI) durante o curso, iniciou, há 15 anos, na Constância, editora de livros escolares do grupo Prisa, um percurso profissional agitado.

Na Lusomundo, planeou campanhas de promoção de filmes. Deu uma mão a Diogo Madeira, Tiago Cortês e Pedro Santos Guerreiro na montagem do Canal  e o Jornal de Negócios.  Na Media Capital,  criou e ajudou a crescer o IOL e a Telelista. Na Brisa, foi o pai do Brisacess, que consistia em acrescentar valências ao identificador (pagamento de estacionamento e gasolina). Na PT trabalhou no desenvolvimento da oferta Megarede, sistema concorrente do Pay Shop. Até que em Setembro de 2010 se mudou de armas e bagagens para a Bizdirect.

“Estou rendido à Sonae. Aqui trabalha-se a 200 à hora. Estou a adaptar-me muito bem porque o grupo é como eu, muito focado e organizado”, conclui Bernardo, que sonhou ser deputado e acabou alfaiate de sistemas de informação.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

O misterioso caso do Nokia E 71 às escuras

Isto é um suponhamos. Numa 6.ª-feira, em Fevereiro de 2009, a Judite Sousa entra na Ensitel do Saldanha Residence e comunica a avaria na luz do ecrã do Nokia E71 que o Fernando Seara lhe comprou, nessa loja, há uma semana.

Sou capaz de jurar que as meninas da loja logo se prontificaram a trocar o telemóvel avariado e educadamente pediram desculpa pelo incómodo, pelo que o misterioso caso do Nokia E71 com o ecrã às escuras ficaria para todo o sempre encerrado.

Na vida real, a história foi diferente. Quem naquela 6.ª-feira entrou na loja Ensitel do Saldanha com o Nokia avariado foi a cara anónima da Maria João Nogueira (aka Jonas), pelo que o caso deu para o torto, com os seus efeitos a prolongarem-se até aos dias de hoje, tal como um mau cheiro que teima em não desaparecer.

O catálogo das desculpas (o problema do software, as lacunas do stock, o risco no ecrã, o risco na bateria, etc.), bem como a via sacra da Jonas, estão disponíveis para consulta (uma vista de olhos vale a pena) no blogue Jonasnuts.

O fundamental é que em Maio de 2009 um centro de arbitragem decidiu a favor da Ensitel e os danos na imagem desta empresa poderiam ter sido controlados se ela não tivesse caído na tentação de adornar a vitória ao, três dias antes do último Natal, accionar judicialmente Jonas, para a obrigar a apagar todos os posts que escrevera sobre o caso Nokia E71.

O céu das redes sociais abateu-se inclemente sobre a Ensitel, que demorou nove dias a perceber não lhe restar outro remédio senão bater em retirada, com o rabo entre as pernas, retirando a acção, reconhecendo publicamente a sua "postura inadequada", pedindo desculpas à cliente que transformou em inimiga e prometendo emendar-se.

Numa 6.ª-feira dia 13, a Ensitel passou três vezes debaixo de escadas, partiu dois espelhos e cruzou- -se com um gato preto, pelo que não pode queixar-se de azar por ter tropeçado numa cliente habituada a fazer valer os seus direitos (à diferença da maioria dos portugueses que se queixam muito mas reclamam pouco), e que, ainda por cima, coordena a comunidade de blogues do Sapo e é mais célebre e influente nas redes sociais do que a batata frita.

Orwell ensinou-nos que somos todos iguais, mas há uns que são mais iguais que outros. O caso Ensitel avisa-nos que nem todos aqueles que são mais iguais são portadores de uma cara famosa, arejada frequentemente nas televisões e revistas. Quantos dos mais de 40 mil empregados da Sonae serão capazes de identificar Margarida, a mulher de Belmiro? Por isso, e para evitar meter o pé na poça, recomenda-se a todos o regresso ao bom e velho princípio de que o cliente tem sempre razão.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

José Bento dos Santos

 

 “Temos o melhor peixe do Mundo”

 

Trazia novidades frescas da Academia Portuguesa de Gastronomia (APG), que se reunira ao almoço, na Casa Gallega, em Paço de Arcos, onde enquanto se empazinavam com massada de lavagante e rabo de boi estufado, empurrados por um Quinta de Monte d’Oiro 07, os académicos selaram o acordo para fazerem já este ano, um Guia Galp dos restaurantes portugueses, um Michelin à nossa moda, com saída marcada para a Páscoa.

José Bento dos Santos, 63 anos, broker de metais e produtor de vinhos em Alenquer  - Monte D’Oiro é o nome da sua quinta e de um vinho que já foi  considerado o melhor da Península -, preside a esta academia, que reúne um numerus clausus de 30 amantes da boa mesa, uma lista onde constam Francisco Balsemão, Mafalda Mendes de Almeida, Daniel Proença de Carvalho, Leonardo Mathias e André Gonçalves Pereira.

O Guia Galp, que recomendará mil restaurantes, não é uma experiência nova para a APG, que foi responsável pela edição portuguesa do Guia Repsol. “Não nos vamos armar em educadores da classe operária.”, adverte Bento dos Santos, defensor de um balanço equilibrado entre a cozinha tradicional portuguesa e a inovação: “Senão se inovasse ainda andávamos todos a comer bolotas”.

Os metais são os culpados da paixão assolapada (felizmente correspondida) pelos prazeres da mesa deste engenheiro químico, que antes de fundar a Quimibro (uma broker de metais onde teve como sócio Eduardo Catroga), começou a sua carreira profissional no grupo Cuf, onde aos 24 anos já dirigia 400 operários na metalurgia do cobre.

Bento dos Santos passou a vida a correr mundo. Comprava ouro, transformava cobre, transportava chumbo, vendia zinco. Tanto podia estar numa fábrica no Canadá, numa mina da Austrália ou à mesa com um cliente no Tour d’Argent, em Paris. “A vida comercial presta-se muito a convidar e a ser convidado para os melhores restaurantes”, reconhece. Como adorava cozinhar, aproveitava todas as oportunidades para, depois do jantar, ficar até às tantas na cozinha com os chefs, a conversar e aprender.

“Em Portugal, temos o melhor peixe do mundo”, declarou solenemente, a abrir o jantar, no restaurante por ele escolhido (o Vin Rouge, em Cascais), pelo que não abri a boca de espanto quando encomendou peixe espada e um tinto Vinha da Nora Syrah, da quinta de 42 hectares que comprou em Alenquer, após ter ouvido uma frase profunda da boca de um amigo americano, também negociante em metais. “A única commodity realmente escassa é a terra, pois só há a que existe e não cresce”.

Fazer de Portugal um destino gastronómico é a sua mais recente cruzada, enquanto responsável da campanha Taste Portugal. Reconhece que há matéria prima para ser bem sucedido (a comida é a resposta mais frequente dos turistas quando perguntados sobre o que mais gostaram em Portugal) mas alerta para o facto de ser preciso trabalhar muito para dar consistência à nossa oferta gastronómica, desenvolvendo uma multidão de pequenas iniciativas como, por exemplo, ensinar os alunos das escolas de hotelaria e turismo a trabalhar o peixe.

“A gastronomia portuguesa não se esgota no bacalhau, que nem sequer é nosso, e nas sardinhas, que só há dois meses no ano. É o caldo verde, os doces conventuais, é o peixe magnífico, o Porto e o Madeira, e o pastel de nata”, afirma, o presidente da APG, que considera a nossa diversidade culinária como a quarta melhor do mundo (a seguir à francesa, espanhola italiana), mercê da miscigenação das heranças romana e árabe (“uma  cozinha muito requintada, de que os folhados de Tentugal são um dos vestígios”), acrescentada pela infusão de novos ingredientes (as especiarias mas também o chocolate e a batata) trazidas pelos Descobrimentos.

À sobremesa, perturbamos-lhe a degustação da papaia com duas perguntas idiotas. Se pudesse, que restaurante escolheria para a sua última ceia? “Uma coisa comes ali e depois vais para o céu? O Alinea, em Chicago. E em segundo lugar o Le Pre Catalan, no Bois de Boulogne, em Paris, onde também de pode comer uma refeição de cair para o lado”. E qual é o seu prato preferido: “Pão. Pão com manteiga”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Menu

Vin Rouge

R Fernandes Tomás 1, Cascais

4 águas com gás …  4,00

2 couvert … 4,40

Peixe espada grelhado, cogumelos, patzle e coulis de salsa … 15,80

Bacalhau lascado em mil folhas com grelos e puré de feijão vermelho … 16,90

Vinha da Nora Syrah Reserva 2005 … 25,00

Papaia… 5,00

1 café … 2,00

Total:  77,70 euros

 

Curiosidades

 

A gastronomia pertence ao território do bom gosto, eminentemente subjectivo do bom gosto, como explica Bento dos Santos, socorrendo-se do exemplo da Serra de Sintra. “Fulano olha para ela e diz que é a montanha mais bonita do Mundo. Sicrano diz, com precisão, que o seu pico mais alto fica 529 metros acima do nível do mar. Beltrano opina que ao fim da tarde é uma paisagem muito agradável”

 

“O Vinha da Nora 99, da Quinta do Monte d’Oiro de Bento dos Santos, fez parte da ementa da apresentação à imprensa mundial do restaurante de Alain Ducasse em Nova Iorque

 

“Não faço vinho para matar a sede, para as pessoas gostarem ou não gostarem, mas sim para viverem uma emoção, como experimentam ao ouvir uma interpretação virtuosa das Variações Goldberg, de Bach”, explica

 

 

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