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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

2 conselhos de Homer e 3 aflições minhas

Num episódio dos Simpsons, Homer dá ao seu filho Bart dois conselhos que ajudarão a navegar com sucesso na vida.

O primeiro é repetir a frase “Boa ideia, chefe”. Belíssimo conselho! Nunca ouvi ninguém a queixar-se de que abusar da graxa lhe prejudicou a carreira - e é mais provável conhecer um marciano verde do que um chefe insensível à bajulação.

O segundo consiste em responder, num tom educado mas firme, “Quando cá cheguei já era assim”, sempre que questionado por um superior sobre determinado procedimento. Outro conselho magnífico, que bebe a  sabedoria no dizer popular “a culpa morreu solteira”.

A falta de fruta no hotel de Moscovo onde esteve hospedada a Selecção Nacional, na véspera de um jogo de apuramento para o Euro 84, foi a explicação dada pelo mítico (e falecido) guarda redes Bento para a derrota copiosa de 5-0 que nos foi infligida pela URSS.

Não estamos culturalmente treinados a assumir as responsabilidades pelos nossos erros. Pelo contrário, somos muito bons a inventar desculpas e a sacudir para costas mais largas a culpa dos nossos fracassos.

Da última vez que o PSD ganhou as legislativas, a primeira coisa que Durão Barroso fez foi cunhar o famoso soundbyte “O país está de tanga”, uma tentativa mais ou menos bem sucedida de atirar para cima do guterrismo a responsabilidade pela decisão de elevar a carga fiscal  – depois de ter passado a campanha eleitoral a jurar que não aumentaria os impostos.   

Este péssimo hábito de sacudir a água do capote anda normalmente de mão dada com um outro não menos nojento: a mais completa ausência de frontalidade. Apesar de não ser fã de reuniões, esforço-me sempre por nunca faltar a nenhuma, pois estou careca de saber que estar ausente é um convite a dizerem mal de nós.

(Ora aqui está matéria prima para mais conselhos de Homer a Bart: Nunca faltes a uma reunião e antes de dizeres mal de alguém certifica-te primeiro se ele não está presente).

Servem estes desabafos para explicar que neste período pré-eleitoral o que mais me aflige é ninguém estar a pensar o que é preciso fazer - mas sim em quem culpar pela situação em que estamos atolados.

Aflige-me também saber que, em média, a despesa cresce o dobro em ano de eleições – a fonte é um livro do insuspeito Nogueira Leite, que aponta 1991 (Cavaco) e 2009 (Sócrates), como os anos de maior despautério.

Afligem-me também as conclusões do estudo de Pedro S. Martins (Queen Mary University), que abrange o período 1980-2008 e demonstra que as contratações do Estado aumentam significativamente antes e imediatamente depois das eleições - não se registando neste particular qualquer diferença entre o comportamento do PSD e do PS.

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Rui Oliveira

 

Lembram-se de Fernando Gomes, o célebre avançado portista que ganhou duas Botas de Ouro, ter dito que a sensação de marcar um golo era idêntica à de ter um orgasmo? Ora a ciência está aí a demonstrar que ele não disse um  disparate …

Uma equipa do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) que mede as variações hormonais a partir de amostras da saliva de futebolistas e adeptos, recolhidas antes, depois e durante os jogos, prova que a alegria do golo coincide com um elevado pico de testosterona  - não será exactamente um orgasmo mas anda lá por perto.

“No final de um jogo em que ganharam, as futebolistas também estão cheias de andrógenos”, afirma Rui Oliveira, 45 anos, o biólogo que é reitor do ISPA e tem a teoria (e a prática) de que uma escola do ensino superior não se pode limitar a transmitir conhecimento – tem também de o produzir.

O surf foi o caminho que levou Rui, nascido numa família da classe média (o pai negociava com Vinho do Porto) da avenida de Roma, a apaixonar-se pela biologia marítima. Os pais tinham uma casa em S. João da Caparica, onde ele passava as férias grandes a fazer surf e a aguçar a curiosidade sobre os mistérios de vida dos peixes.

Os cabozes, abundantes no parque da Arrábida , foram o primeiro objecto da sua curiosidade cientifica, ainda estudante universitário, numa altura em que dava aulas de mergulho em Sesimbra.

Com a ajuda de Vítor Almada (professor do ISPA) descobriu que os cabozes, que vivem na zona das marés, desenvolveram uma apreciável memória espacial, que lhes permite sobreviver na maré baixa, saltando de poça para poça quando sentem em perigo. O estudo do comportamento social dos cabozes permitiu-lhe ainda apurar que coexistem duas variedades de machos, sendo que a mais fraca, incapaz de se reproduzir, faz um travesti, disfarçando-se de fêmea.

“Somos menos únicos do que pensamos”, declara o reitor do ISPA, que após acabar o curso e a tropa (feita na artilharia, em Cascais), conseguiu uma bolsa de doutoramento para estudar a influência hormonal no comportamento dos tilápios, um peixe oriundo dos grandes lagos de África faz parte da gastronomia brasileira e africana.

Rui, que trabalha em laboratório com um cardume de 150 tilápias, só por uma vez comeu uma, no Brasil. Não gostou. O seu peixe preferido continua a ser o robalo ao sal, mas também aprecia as pataniscas de bacalhau com  arroz de tomate, que almoçamos na esplanada do Lautasco, num pátio em Alfama que fica a cinco minutos do ISPA, numa refeição que empurrou com  ice tea de limão (não bebe álcool) e rematou com mousse de chocolate e chá de cidreira.

“Os peixes, apesar de terem cérebros pequenos, são qualitativamente capazes de fazer quase tudo o que fazemos. Reconhecem-se e recolhem informações sobre os outros que depois usam em seu proveito. Comportam-se de maneira diferente consoante têm ou não audiência. E conseguem inferir que se A é maior que B e B é maior que C então A é maior que C, o que não é adquirido seja percebido pelas crianças como menos de três anos”, diz.

O estudo do comportamento social dos peixes permitiu a Rui encontrar a sua resposta à velha questão que divide a comunidade científica: É a socialização ou a genética?

“O mundo não é a preto e branco, mas não há fado genético. O ambiente social pode mudar a biologia. Não há determinismo biológico para o sucesso social.”, conclui Rui, que iniciou em 1994, como assistente convidado do ISPA uma carreira que o levaria, em 2010, ao cargo de reitor, principal responsável por uma escola com 200 professores (dos quais 62 exclusivos), mais de 20 cursos entre os três ciclos (um 1º ciclo em Biologia é a mais recente novidade) e 1700 alunos.

Apesar da curva demográfica e da crise estarem a reduzir a população universitária, o ISPA registou um aumento da procura, a que não são estranhos os bons indicadores de empregabilidade: um ano depois de concluírem o curso, 3/4 dos seus licenciados estão a trabalhar em Psicologia , um em cada quatro ficam ligados à instituição onde fazem o estágio e a taxa de desempregabilidade, medida a partir dos inscritos nos centros de emprego, é de apenas 4,1%. Nada mau.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Lautasco

Beco do Azinhal, 7 e 7-A, Lisboa

Couvert …2,00

Salada mista  … 5,90

Nestea de limão …. 1,75

Água … 1,60

2 pataniscas com arroz de tomate … 21,80

Copo de Borba tinto … 1,75

Mousse de chocolate … 3,40

1 chá de cidreira … 2,20

1 café ..0,95

Total … 41,35

 

 

 

Curiosidades

 

Há 28 escolas portuguesas que dão cursos de Psicologia, o que é considerado excessivo pelo reitor do ISPA que está à espera que uma entidade externa os avalie, acredite e elabore um ranking. “Fechar cursos será positivo, não para eliminar a concorrência, mas para elevar a qualidade do ensino”, defende

 

O peixe zebra (zebra fish), originário da India e Bangladesh, está substituir os tradicionais ratinhos como cobaias para as experiências nos laboratórios de Ciências Biomédicas. Estão à venda linhagens de zebra fish transgénicos especialmente preparados para linhas de investigação específicas, como a doença de Parkinson ou as insónias. São inúmeras as vantagens destes pequenos mas robustos peixes: são mais baratos, ocupam menos espaço, têm ninhadas muito maiores, e, ainda por cima, como as larvas são transparentes, permitem aos investigadores visualizar os circuitos do cérebro enquanto expressam comportamentos. Rui Oliveira já trabalha com peixes zebra

 

Costuma dizer-se que tudo que se sabe sobre comportamento se deve aos ratos e aos estudantes de Psicologia, as tradicionais cobaias nestes estudos, Há que acrescentar os peixes zebra e não esquecer os cães. Umas das experiências em curso no ISPA parte de uma selecção de cães optimistas e pessimistas, feita de uma maneira curiosa. Os cães são habituados a perceber que se a tigela é posta do lado direito é porque tem comida – e do lado esquerdo está vazia. Quando a tigela é colocada no meio, os cães optimistas são os que correm esperançados em que ela tenha comida. Os outros são os pessimistas que acham sempre que a garrafa está meia vazia… 

António Freitas

Não foi à primeira que acertou com a vocação. Escolheu Artes, que trocou pela Economia, antes de aterrar no Marketing. Uma breve história do quarto de século de vida do filho do meio do dono dos Transportes Freitas, que foi DJ e piloto de automóveis antes de reconverter  num espaço cool e multiusos, denominado Creme, uma discoteca do Edifício Transparente, no Porto

 

O DJ que andou pelas corridas

antes de montar o seu negócio

 

Idade: 25 anos  

O que faz: Sócio-gerente do Creme, que acumula as valências de café, clube, restaurante e esplanada, localizado no Edifício Transparente, entre a praia e o Parque da Cidade, no Porto

Formação: Está a fazer o curso de Marketing no IPAM, depois de ter desistido de Gestão, quando andava no 2º ano

Família:  Solteiro

Casa:  Vivenda em Rebordões, Santo Tirso

Carros:  dois BMW (Z4 e 535D) e um Ford Escort

Telemóvel: Blackberry

Portátil:  Mac

Hóbis:  Desde que pôs entre parêntesis a sua carreira de piloto de ralis, diverte-se a pôs música (electrónica, de dança e soul), como dj. Compra muita música na Fnac. Antena 3 e Rádio Nova são as suas estações preferidas. Também gosta de nadar – durante seis anos foi nadador de competição em Santo Tirso    

Redes sociais: Linkedin, ASmallWorld e Orkut

Férias: No ano passado não teve férias por causa do Creme. Há dois anos esteve em Florianópolis. Este ano vai até Miami, onde tem uns amigos. “Não gosto de praia. Nem de férias calmas. Para mim, as férias não são para descansar”  

Regra de ouro: “Integridade, objectivos, coragem, humildade e entusiasmo”

 

No princípio foi a música. António tinha 16 anos, acabadinhos de fazer, quando começou a pôr música em discotecas, não só durante as férias algarvias mas também no Vale do Ave, onde nasceu e cresceu. Primeiro foi por graça e de graça, mas não demorou a passar a cobrar dinheiro – e não ganhava mal (150 euros/hora).

“A partir de determinada altura achei que devia ser recompensado pelo tempo que gastava a preparar-me. Para as pessoas ouvirem a música que passava na rádio não valia a pena estar eu ali nos pratos”, explica António, um DJ que apesar de não ter escolhido um nick apelativo (AFreitas) brilhou em discotecas como a Pedra do Couto, uma das coqueluches da noite de Santo Tirso e arredores.

Baptizado com o nome do pai, António é o irmão do meio dos três filhos de uma família que já trabalha em transportes há três gerações. Começou pelo avô, que se dedicou ao transporte de carga geral, continua com o pai (que especializou a Transportes Freitas na distribuição de combustíveis), e João, o seu irmão mais velho, que após se ter licenciado em Economia na Católica, trabalhou em Lisboa na Galp antes de voltar a Santo Tirso para ajudar no negócio de família – onde até a mãe trabalha, nos escritórios.

Não foi à primeira que António descobriu a vocação. Após ter completado o 9º ano, em Guimarães, matriculou-se no 10º ano em Arte, em Santo Tirso, com a perspectiva de seguir para Arquitectura ou Design Industrial. Depressa pôs de lado essas ideias. “Não era bem daquilo que eu estava à espera. Tinha muita teoria”, explica.

Mudou a agulha para Económico-Social, completando o 12º nesta área, na Vila das Aves, vencendo os trajectos casa-escola-casa montado numa scooter, enquanto debutava à noite a sua carreira de DJ, que acabou interrompida pela erupção de uma outra paixão: as corridas de automóveis .

Mal fez 18 anos, não descansou enquanto não tirou a carta e começou a conduzir, na observância da legalidade, o VW Carocha 1302 que o pai tinha parado na garagem. Aos 20 anos, António já era dono de um Mini Cooper S (de 1963), e estreava-se nas pistas em Vila Real, ao volante de um Datsun 1200, alcançando um honroso 7º lugar, entre 20 concorrentes, na corrida de clássicos.

Da velocidade saltou para os ralis, onde competiu com um Ford Escort RS Mark II, que lhe deu vitórias e pódios. No ano passado, o último em que correu, ficou em 2º lugar no campeonato da sua classe.

No entretanto, concluído o 12º ano, mudou para o Porto, onde andou no curso de Economia na Católica até constatar que se tinha enganado mais uma vez e que “não era bem aquilo que queria”.

Foi o momento das grandes decisões. Mudou de Economia para Marketing, que acaba para o ano (“À terceira é de vez”, garante), deixou as corridas e investiu no seu primeiro negócio, transformando uma discoteca do Edifício Transparente num espaço polivalente (restaurante, café, bar, esplanada), baptizado Creme, um local cool e que nos jovens adultos e adultos a sua clientela alvo.

“A ideia é rentabilizar o espaço e tirar partido da sua localização privilegiada, entre a praia e a o Parque de Cidade, através da oferta sucessiva de serviços variados, desde as dez da manhã até às duas ou quatro da madrugada”, explica António, acrescentando que a última etapa do seu plano de voo será  trabalhar na Transportes Freitas, o maior distribuidor oficial da Galp, e que tem 14 bombas de gasolina cobranded (Freitas/Galp).

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

Os cinco estarolas no clube dos totós

Até simpatizo com o Sporting, provavelmente por causa do equipamento, que fica lindamente em relvados bem tratados (não é o caso do de Alvalade…), em particular nos jogos nocturnos. No género vintage, também acho graça à camisola Stromp, mas esgotam-se aqui os factores de atractividade de um clube que teima em mimetizar o que Portugal tem de pior.

Há coisa de cinco anos, quando conheci José Eduardo Bettencourt, num curso no INSEAD, fiquei com a ideia de que era um óptimo comercial, opinião favorável reforçada quando Horta Osório, o Mourinho da banca, o promoveu a administrador do Santander Totta.

Pena que tenha arruinado a reputação em ano e meio com presidente do Sporting. Perdeu quota de mercado (medida em sócios pagantes e média de assistências em Alvalade) e apesar de, em 18 meses, ter investido 27 milhões de euros em 18 jogadores, não conseguiu um único titulo e aprofundou a estratégia suicida de contratar ex-craques caros e vender, ao desbarato e antes do tempo, as jovens promessas formadas na Academia.

Os cinco directores desportivos (Pedro Barbosa, Sá Pinto, Salema Garção, Costinha e Couceiro) e quatro treinadores (Paulo Bento, Carvalhal, Paulo Sérgio e Couceiro) que desfilaram no seu curto consulado são a prova dos nove de uma gestão errante, cuja incoerência ficou demonstrada no episódio da transformação de João Moutinho de “maçã podre” (Julho) em “profissional fantástico” (Novembro).

Bettencourt é bom nos soundbytes mas carregará para sempre a cruz de ter conferido à eternidade a dimensão do efémero (meio ano depois do “Paulo Bento forever”, o treinador foi despedido) e de sair de cena sem revelar quem é o Herri Batasuna do Sporting.

Neste Outono da dinastia Roquette (inaugurada há 16 anos por Santana Lopes), também não ficam bem na fotografia os sócios e os cinco estarolas que se candidataram a gerir o clube dos cinco violinos.

Seis meses após ter sido eleito com 90% dos votos, Bettencourt já estava a ser fisicamente ameaçado por adeptos, que nitidamente subavaliou ao classificá-los como “uma minoria de cretinos”.

Abrantes Mendes pode pecar por excesso quando afirma que o Sporting é “um clube de totós”, mas arrepia ouvir o provável futuro presidente do clube (etiquetado de “Vale Azevedo de 3ª” por Godinho Lopes) dizer que ex-Pides chegaram a ministros após o 25 de Abril.

Convinha ao país olhar-se ao espelho do Sporting e ver que há três meses, quando da convocação das eleições antecipadas, o clube lutava pela Taça da Liga e Liga Europa, e tinha 28 pontos. No entretanto, ficou fora de todas as competições, só somou mais dez pontos  - e está a 30 do meu clube. Vale a pena pensar nisto.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Acácio Oliveira

Nasceu em Aveiro, acabou a primária em Pretória, debutou, aos 16 anos, como servente de pedreiro em Tours. Aos 25 anos já tinha feito dois filhos e uma construtora com o seu nome. Breve resumo da vida de um português que, após 30 anos emigrado, regressou à terra como empresário

 

A montanha russa da vida

de um português no mundo

 

Idade: 52 anos

O que faz:  Sócio gerente Decorplus

Formação: Ensino básico, completado na África do Sul 

Família:  Casado, tem três filhos, o mais velho tem 30 anos e trabalha na Holanda,  a do meio tem 27 anos e está na Irlanda do Norte (mas em Dezembro está de volta a Portugal), e o mais novo tem dez anos e é filho do segundo casamento

Casa:  Moradia em Esgueira, Aveiro

Carro:  BMW X5

Telemóvel:  iPhone 4

Portátil: Mac Pro

Hóbis: É caçador (um gosto trazido de França) e andar de moto -  tem uma Kawazaki Ninja 900 e sempre que pode vai às concentrações de motards

Férias: Como tem de ir muitas vezes em trabalho ao Algarve, evita ir lá nas férias. Para este ano não tem planos, mas gosta de fazer fins-de-semana um pouco por todo o pais, do Alentejo a Trás-os-Montes

Regra de ouro: “O rumo da minha vida é traçado no sentido do bem estar de todos os que trabalham comigo e de que não falte nada em minha casa”

 

Nascido em 58, em Oliveirinha (Aveiro), Acácio tinha oito anos e andava na 2ª classe quando embarcou na montanha da russa da vida ao subir para o avião que o havia de levar a Pretória, onde o pai, que fizera a tropa em Angola, buscava as oportunidades negadas pelo Portugal a preto e branco dos anos 60.

Era tudo diferente, mas ele gostou. Apreciou a disciplina da escola e tornou-se fluente em inglês. E, como é comum nos rapazolas da sua idade, sempre que o deixavam adorava ver o pai a trabalhar, fazendo o reboco e acabamento de casas.

Não chegou a completar seis anos na África do Sul, porque em 72 o pai achou que era melhor partirem para França. Às portas do Outono, deitaram âncora em Tours, onde tinham família que os ajudou nos primeiros preparos.

Era tudo diferente e ele estranhou. Não a língua, que aprendeu com facilidade (diz-se que o sotaque francês mais puro é o de Tours), mas tudo o resto. Para começar o frio, depois a escola. “Não me adaptei à escola. Era tudo à balda”, conta.

Como não dava na escola, não demorou a procurar emprego para juntar ao salário que o pai trazia para casa da siderurgia em que trabalhava. Aos 16 anos, debuta como servente, no bâtiment, mas oito meses volvidos já estava a ser promovido a pedreiro de 1ª. “Subi rápido, porque gostava de saber e aprendia depressa”, explica.

Ainda não tinha 19 anos completos e já levava para casa um salário maior que o pai, a chefiar uma equipa que levantava vivendas para uma empresa de um compatriota.

Casou com uma portuguesa de Lamego e revelou logo, com tenros 21 anos, o seu espírito empreendedor ao aceitar o desafio de um mecânico franco-checo para ambos tomarem conta de uma construtora que era do seu sogro..

Durante quatro anos geriu com sucesso a empresa do sogro do checo, enquanto construía aos fins de semana, a sua primeira casa, até que decidiu estabelecer-se, como resposta à interrogação: “Por que é que ando a fazer coisas para os outros em vez de trabalhar para mim?”

As Construções Acácio Oliveira progrediram de vento em popa (“Fazíamos cerca de 40 vivendas por ano. Cheguei a ter mais de cem empregados”, recorda) até que em 1986 foram abaladas pela falência do promotor imobiliário para quem trabalhava.

“Foi muito mau. Ficamos com muito dinheiro a arder. Felizmente que na altura os bancos ainda acreditavam nas pessoas e o Credit Agricole emprestou-nos o dinheiro para aguentar o golpe. Aprendi com esta contrariedade. Decidi que não iria trabalhar para mais ninguém. Contratei desenhadores e vendedores e passei a ter um gabinete de projectos”, conta.

Com esta nova estratégia reiniciou um novo ciclo de prosperidade que durou até que, em meados dos anos 90, levou um segundo soco no estômago, com a falência da clínica para feito a obra dispendiosa de recuperação de um castelo. Temendo que não houvesse duas sem três, decidiu deslocar para Portugal o centro da sua actividade.

Como não queria fazer mais construção, após se ter metido num negócio de aluguer de máquinas, optou pelos interiores, criando a Decorplus, uma empresa de design, com base em Aveiro, que factura três milhões de euros a fazer remodelações de lojas e estabelecimentos (pastelarias, cafés, restaurantes, hotéis, agências bancárias…) por todo o país. E às 450 casas que fez na região de Tours, Acácio já juntou 350 lojas em Portugal, que levam as impressões digitais.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

A angústia do jogador na mesa do blackjack

Sabem jogar ao blackjack? É mais ou menos como o sete e meio, só que a pontuação máxima é 21 (se fizer mais, o jogador rebenta), as figuras valem dez, o ás pode ser contabilizado como um ou 11, enquanto as cartas de dois a dez respondem pelo valor nominal. As outras diferenças são de status. O blackjack é um dos musts dos casinos, enquanto o sete e meio é um passatempo de adolescentes ou uma alternativa ao dominó para os reformados. No sete e meio quem faz de banca é o dono do baralho (ou o irmão mais velho), enquanto que no blackjack esse papel é cometido a um profissional (o dealer).

Nunca joguei blackjack no pano verde e sempre pensei que era um jogo de sorte pura até que no último Verão o meu filho Pedro recebeu lições (gratuitas) desta matéria no Venetian, em Las Vegas, e me convenceu que há uma estratégia delineada a partir do cálculo científico das probabilidades que o jogador tem de alcançar uma pontuação superior à banca - ou de obrigar o dealer a rebentar. Simplificando, a teoria recomenda que se parta do princípio de que há uma grande probabilidade de a carta escondida do dealer valer dez ou 11. Daí que se aconselhe o jogador a ficar se tem 16 e a carta aberta do dealer é dois, três, quatro ou cinco - ou a pedir mais uma carta se o dealer tem uma figura ou ás virados.

Bem vistas as coisas, há uma data de situações na vida (como a escolha da mulher ao lado de quem queremos envelhecer) em que estamos na situação do jogador de blackjack. Recebes duas cartas, um rei e um três. Tens 13. Pedes mais uma carta, sai-te um cinco. Jogas pelo seguro, e ficas-te pelo 18, ou vais tentar o 21, mesmo que haja uma enorme possibilidade de rebentar? Esta angústia do jogador de blackjack não pára de atormentar Passos Coelho, que tem uma série de gente a gritar-lhe ao ouvido conselhos opostos e ele hesita entre pedir mais uma carta, provocando eleições e arriscando-se a rebentar com o ónus da responsabilidade do desembarque do FMI - ou jogar pelo seguro, ficando com o jogo (um 18 ou 19, na minha opinião), na esperança de que seja o dealer Sócrates a rebentar.

Quem incita Passos a pedir mais uma carta são os boys sem freios nos dentes, sequiosos do regresso ao poder, como Catroga e Capucho. A aconselhar-lhe calma estão vozes laranjas mais desinteressadas (Pacheco Pereira e Nuno Morais Sarmento) e os empresários, que falaram pela boca de Ricardo Salgado ("Na situação actual é muito complicado ir a eleições"). A decisão é difícil. O líder do PSD sabe que se perder fica sem o lugar à mesa de jogo (Santana já conspira e relançou o nome de Rio). Mas, se estivesse no lugar dele, eu ficava - não arriscava pedir mais uma carta.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Silvia Ribeiro

Por amor ao lobo, Sílvia, uma bióloga de 38 anos, dedicou os últimos 15 anos da sua vida a seleccionar e criar cães de gado para proteger os rebanhos dos ataques dos lobos. Parece contraditório, mas não é.

Na década de 70, havia lobos no Alentejo, mas hoje em dia estão, no seu essencial, acantonados entre o Gerês e Trás os Montes. De acordo com o último censo, há cerca de 300 lobos no nosso país, agrupados em 63 alcateias, das quais 54 a norte do Douro, e apenas nove a sul, onde a espécie está mais ameaçada – o rio é uma barreira importante.

Ameaçado pelo ódio ancestral dos pastores (que não lhes perdoam os prejuízos dos seus ataques aos rebanhos), pelas auto-estradas e parques eólicos que lhe invadem o habitat, e, ainda, pela escassez da sua alimentação tradicional (veado e corço), o lobo ibérico muito provavelmente já estaria extinto em Portugal se não fossem os esforços para o proteger desenvolvidos pelo Grupo Lobo, uma ONG fundada há 26 anos por Francisco Petrucci-Fonseca, professor Faculdade de Ciências de Lisboa.

“Não temos qualquer tipo de apoio regular por parte do Ministério do Ambiente”, esclarece Silvia Ribeiro, que mal acabou o curso de Biologia, em Lisboa, se mudou para Vila Real, onde está o quartel general do programa Cães de Gado do Grupo Lobo - que vive dos prémios que ganha (um dos mais recentes foi o Biodiversidade, atribuído pelo BES) e dos projectos que consegue aprovar.

Silvia - que acaba de ser distinguida pelo prémio europeu Terre des Femmes 2011, instituído pela Fundação Yves Rocher para premiar mulheres empreendedoras na área do ambiente - nasceu e cresceu no Seixal, onde se habituou a lidar com animais, pois os avós tinham cães de caça e criavam coelhos, porcos, burros e vitelas.

Sempre teve animais em casa, sobretudo cães  (que prefere aos gatos), como o Dique (um pastor alemão que morreu velhinho), o Ameijoeira (um castro laboreiro vitimado em 2004 por um ataque cardíaco). Agora tem uma cadela serra da Estrela, que, “para ser original”, baptizou Estrela. Não espanta por isso que na hora de escolher o curso o seu coração tenha balançado entre Veterinária e Biologia.

Demonstrar que é possível a coexistência pacífica entre lobos e pastores é a cruzada da Silvia. Ressuscitar o método tradicional de uso de cães de gado para proteger os rebanhos, é a sua principal arma para aumentar a tolerância das comunidades rurais face ao lobo.

“Não é fácil ver um lobo. Em 15 anos só os vi três vezes. O lobo tem um comportamento furtivo. Não arrisca um ferimento e por isso não entra à maluca num rebanho  guardado. Se pressentir um cão, tem o cuidado de se por contra o vento, para o cheiro não denunciar a sua presença. E só ataca pela certa, apanhando uma ovelha ou cabra, doente ou coxa, que fica para trás”, explica Silvia, que escolheu almoçarmos na Proa, o único edifício desalinhado do plano riscado a régua e esquadro por Siza Vieira para revitalizar Matosinhos Sul, uma zona à beira mar outrora ocupada por fábricas conserveiras e armazéns.

Bebeu apenas um copo de Evel branco, a acompanhar a entrada de polvo e o arroz de peixe, partilhamos, e acabou com uma sericaia (desprovida de ameixa e de molho) uma refeição em que falou do seu trabalho de criação de cães de gado e de diplomacia em favor do lobo junto dos pastores.

São quatro as raças nacionais adequadas para cão de gado. Castro Laboreiro, Serra da Estrela, Rafeiro Alentejano e Cão de Gado Transmontano. Silvia selecciona os cães, adquire-os (cada um pode custar entre 350 e 500 euros), coloca-os nos pastores, ajuda a educá-los e nunca os perde de vista.

“É preciso tempo e dedicação para criar um cão de gado. Por volta dos dois meses, logo após o desmame, o cachorro é posto a viver no curral com o rebanho, para criar laços sociais com o gado, evitando-se o contacto desnecessário com pessoas, em especial crianças. Só depois de um período de habituação nunca inferior a 15 dias é que pode começar a acompanhar o pastoreio”, conta Silvia, que sabe de cor o nome de 300 cães de gado que colocou, mas admite que por vezes não se recorda à primeira do nome de um pastor.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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Proa

Rua Sousa Aroso 22, Matosinhos

Couvert … 4,00

Água … 1,50

Polvo com molho verde…  3,50

Arroz de peixe … 19,00

Evel branco … 8,00

Sericaia … 3,10

2 cafés … 2,20

Total … 41,30 euros

 

Curiosidades

“Na montanha, os cães são muito felizes”, garante Silvia, co-autora do livro Cães de Gado, uma edição Bizâncio, e que após se ter licenciado em Biologia (Faculdade de Ciências de Lisboa) e feito um mestrado em Etologia (ISPA) está a doutorar-se no ICBAS com uma tese sobre o comportamento dos cães, nomeadamente os aspectos endocrinológicos subjacentes ao processo de vinculação social

Vila Real é a base das operações de Silvia que ao volante de uma Citroen Berlingo cinzenta (“Não é branca para não se confundir com a do padeiro e a do peixeiro”, explica), percorre regularmente toda a zona de habitat do lobo ibérico, para acompanhar os cães de gado que colocou e falar com os pastores

Farrusco, Dique, Pastor, Laica, Benfica e Mantorras são alguns dos nomes com que os cães de gado são baptizados. Para um rebanho de dimensão normal (150 a 200 animais) são necessários dois cães de gado. Mas há rebanhos com 400 a 600 cabras…

 

Eduardo Cevasco

Nascido em Puerto Deseado, na Argentina. Jogou rugby e fez-se engenheiro. Começou por construir casas e silos de armazenagem, antes de se iniciar nas artes do Marketing com a Black & Decker, que o trouxe para a Europa e onde esteve até que os dinamarqueses da Dyrup em acharam por bem aproveitar o seu talento para gerir pessoas

 

O gestor da Patagónia que gosta

de trabalhar com pessoas felizes

 

 

Idade: 51 anos

O que faz:  presidente Dyrup Ibérica

Formação:  Licenciado em Engenharia Civil (1985), pela Universidade de Buenos Aires, fez um MBA  na Deusto University (1994), e tem pós graduações em Marketing Management (ESADE, Barcelona, 1999) e Gestão (Insead, 2004)

Família:  Casado com uma bióloga (Ursula). Têm um cão, golden retriever, chamado Toffee

Casa:  Moradia em Sant Cugat del Vallès,  Barcelona

Carro:  Subaru Outback, “é um carro fantástico”

Telemóvel:  iPhone

Portátil: Dell

Hóbis: Como nunca deixou de ser um amante do rugby, não falha na televisão um jogo do Torneio das Seis Nações. Quando lhe perguntamos qual é a melhor equipa de rugby do Mundo ele responde, sem pestanejar: “Os Pumas” (selecção argentina), mas acrescenta que “os All Black também fazem um bom trabalho…”.  No Inverno gosta de esquiar  (“Tenho boas pistas a hora e meia de casa”). Também adora fazer BTT aos fins de semana

Férias:  Tem como rotina ir em Outubro à Argentina (onde é sócio do irmão num colégio), visitar família e os amigos – que brincam com ele, dizendo-lhe que “fala como um galego”. Em Agosto gosta de alugar um barco e navegar entre ilhas 

Regra de ouro: “Respeitar as pessoas. E não só no aspecto formal, como por exemplo não gritar com elas. Temos de respeitar os desejos, as ambições e as capacidades das pessoas com que trabalhamos e convivemos. Isso torna a vida mais fácil para todos”

 

Um pouco por todo o mundo - mas fundamentalmente na Argentina, Dinamarca (onde bate o coração da Dyrup), Espanha e Portugal – há uma data de gente que dá graças a Deus pela presença de espírito revelada pela mãe de Eduardo, quando o filho, então com 22 anos, lhe apareceu pela frente, a rebentar de fervor patriótico, e anunciou a intenção de se alistar nas forças armadas para combater na guerra das Malvinas. “Ou te matam os ingleses ou te mato eu”, declarou a mãe, educadora de infância, cortando-lhe cerce os propósitos guerreiros.

A ideia de Eduardo não era tão desajustada como pode parecer. Ao fim e ao cabo, ele nasceu e cresceu em Puerto Deseado, a pequena localidade de nove mil habitantes, em plena Patagónia e em frente às Malvinas, que o pai médico escolheu para viver (em alternativa a Los Angeles), quando acabou Medicina em Buenos Aires, a sua cidade natal.

“Num raio de 300 km, não há nada à volta. E Buenos Aires fica a oito/nove horas de avião”, recorda Eduardo, que aos onze anos foi estudar para a capital, onde se apaixonou pelo rugby, que jogou até aos 35 anos, como 2º linha, posição onde se exige força para estar sempre a lutar pela posse de bola – “Essa é a história da minha vida”, desabafa Eduardo, que emana uma sensação de força tranquila.

No auge da sua carreira, chegou a receber convites para jogar rugby como profissional em Itália, que recusou pois fazer bem o curso de Engenharia era a primeira das suas prioridades. “O meu pai teria gostado que eu fosse médico, mas impressionava-me ver sangue, gostava muito de Física e era bom a Matemática”, explica Eduardo, que sempre gostou de futebol, mas tem a mania de ser do contra. Na Argentina, como o River Plate é o clube das elites, ele torce pelo popular Boca Juniores. Em Espanha, como vive em Barcelona, é adepto do Real Madrid.

Durante o curso, feito em plena época de hiperinflação na Argentina, ganhava os seus dinheiros dando explicações de Matemática e topando a todos os biscates, incluindo pintar casas, o que até se pode interpretar como premonitório da sua actual ocupação.

Acabada a licenciatura, dedicou-se à construção de escolas e de silos de armazenagem de cereais e líquidos, antes de ir para a Black & Decker, onde era director de Marketing e estava há pouco mais de um ano quando aceitou ocupar idênticas funções na subsidiária espanhola daquela multinacional norte-americana.

Foi em 1996 que atravessou o Atlântico e fixou o centro de gravidade da sua actividade na Europa. Após quatro anos na Black & Decker, agarrou com ambas as mãos a oportunidade que lhe ofereceram de ser o director geral da Dyrup Espanha. Até aí, o essencial da carreira tinha sido comercial. Queria testar a sua capacidade para gerir uma fábrica.

O teste resultou tão positivo, que em 2005 os dinamarqueses entregaram-lhe a direcção da filial portuguesa, que pesa o dobro da espanhola – dos 45 milhões de euros de facturação da Dyrup Ibérica, Portugal contribui com 30 milhões.

“O que tem mais valor é a capacidade de gerir pessoas. Não sei se é o que eu faço melhor, mas o que mais gosto de fazer é relacionar-me com a pessoa para obter o melhor de cada um”, explica Eduardo, um argentino da Patagónia, que acredita que pessoas felizes trabalham melhor e rendem mais e um adepto do bom senso  – só lamenta que  “senso comum não seja tão comum como isso…”

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

Notícias da cauda

Bonjour,

O meu pequeno-almoço preferido em Paris é na Ladurée, da Madeleine. A versão básica inclui um pão, um croissant, um pain aux raisins e um brioche, manteiga, frasquinhos de compotas e mel, bem como a escolha de uma bebida fria (opto sempre pela acidez do sumo de toranja em detrimento do de laranja) e outra quente - chá, café ou chocolate (não tão grosso quanto o espanhol, em que a colher quase consegue ficar de pé, mas bem mais saboroso).

O petit-déjeuner Ladurée não é barato, mas é uma experiência que recomendo a todos, até pela sala Império e a freguesia, uma mistura de adolescentes russas endinheiradas e velhas sul-americanas ricas com franceses/as bon chic bon genre. Imperdível.

Domingo, constatei que para beneficiar deste pequeno luxo não se paga só em dinheiro (18 euros por cabeça), mas também em tempo, pois esperamos 25 minutos na queue (fila) por uma mesa.

Queue foi a palavra-chave destas miniférias do Carnaval. Sábado, o voo da Ryanair aterrou em Beauvais por volta das 10.00, mas já passava das 13.00 quando chegámos a Paris, porque o nosso lugar na queue não nos habilitou a embarcar no autocarro das 10.30 para a Porte Maillot. Tivemos de aguardar estoicamente ao frio na queue até chegar o das 11.30.

À tarde, na paragem de autocarro, na Bastilha, demorámos meia hora a perceber que o 69 não ia chegar - uma manifestação interrompera o seu percurso. Por isso, fomos de metro até à hora e meia de queue para comprar os bilhetes para a Torre Eiffel.

Segunda-feira, em dez horas da Disneyland, conseguimos entrar em dez actividades, o que dá a aterradora média de 57 minutos de queue por três minutos de diversão. Caríssimo, pois há que acrescentar a este preço os 70 euros da entrada e do bilhete de RER. Muito mais baratos foram os 50 minutos investidos terça de manhã na queue para o Museu d'Orsay. Proporcionar aos nossos filhos a experiência de dúzias de Cézannes, Van Goghs, Degas e Rousseaus vale bem os oito euros da entrada (que não pagámos, beneficiando das borlas para menores de 12 anos, estudantes 18-25 anos e jornalistas) e o mesmo tempo de espera que a pífia Casa Assombrada da Disneyland.

Como temos de tirar partido de todas as situações, mesmo as adversas, nesta viagem aprendemos:

a) A língua dá-nos pistas que não raro negligenciamos: não é por acaso que os franceses usam o patientez quando nos põem à espera;

b) A paciência treina-se, e qualquer ocidental após um dia na Disneyland fica a pedir meças a um chinês;

c) Como o tempo é dinheiro, a fórmula de cálculo do custo efectivo de uma diversão deve contabilizar o tempo investido na queue;

d) Devemos pensar duas vezes antes de resmungar: "Isto só mesmo cá em Portugal."

Au revoir

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

Miguel Guedes

Não deve ser nada fácil andar por aí pelo país a convencer donos de bares, ginásios ou supermercados a pagarem por uma coisa que estão habituados a usar de borla. E accionar judicialmente as rádios que se esquivam a pagar os direitos devidos pelas músicas que emitem pode não ser exactamente o melhor caminho para o líder de uma banda se tornar popular no meio radiofónico. Mas alguém tinha de o fazer.

“Uma discoteca sem música não existe. Da mesma maneira que paga pelas bebidas que vende e remunera os seus empregados, o dono de uma discoteca começa a ficar sensibilizado para pagar pela música que passa”, explica Miguel Guedes, 38 anos, líder dos Blind Zero e um dos rostos da PassMúsica, a marca da cruzada para trazer para uma plataforma legal toda a gente que utiliza a música em beneficio da sua actividade comercial.

Se estivéssemos no tempo das vacas gordas, como em 2002 – ano em que as vendas de CD em Portugal atingiram os 100 milhões de euros -, autores, artistas e editores podiam fechar os olhos à pequena pirataria, como a da cabeleireira que põe como música de fundo o Love the way you lie, de Rihanna, para tornar o ambiente do seu salão mais agradável. Mas as receitas das vendas de discos estão em queda livre (30 milhões de euros, em 2010) pelo que se tornou urgente diversificar as fontes de receitas.

Não é difícil simpatizar com a causa de que Miguel é o cavaleiro andante. Não parece justo que uma estação de rádio ganhe dinheiro a passar músicas como (só para citar um exemplo)  Perto , dos Movimento, e não pague por isso. E a verdade é que os grandes grupos privados nacionais de rádio estão em conflito judicial com a PassMúsica porque não pagam um tusto sequer de direitos pelas canções que passam.

Músico, dragão notório  - é o representante portista no Trio de Ataque, da RTPN, e no Grandes Adeptos, da Antena 1 -,  e director da PassMúsica (marca que agrupa os artistas, reunidos na GDA, e os editores, agrupados na Audiogest), Miguel começou a construir um sistema de licenciamento e cobrança sustentável que este ano vai, pela primeira vez de uma forma significativa, remunerar os artistas pela execução pública da sua música.

“Sinto que estamos no bom caminho. Dos 12 mil estabelecimentos que nos solicitaram licenciamento, já emitimos oito mil licenças que estão pagas”, conta Miguel, à mesa do Casa d’oro  (um dos oito mil licenciados!) o restaurante italiano instalado na única casa da marginal fluvial do Porto que fica em cima do rio e foi construída para albergar o estado maior de Edgar Cardoso, durante os trabalhos de construção da ponte da Arrábida.

A Casa d’oro funciona a duas velocidades. Em cima servem-se pizzas e pastas. No andar inferior, a uns dois ou três metros acima das águas do Douro, a lista é mais sofisticada. Miguel cresceu e vive na outra margem do rio (Gaia), mas é cliente frequente deste restaurante, pelo que me recomendou a Tagliata al aceto balsamico (bife de lombo com vinagre, que pedi mal passado). Como não estava em dia para vinagres, ele optou por um Filletto gratinato com zucchini e mozarella, rematando com a Mousse de chocolate com morangos uma refeição regada por um tinto siciliano escolhido pelo empregado.

“Tudo isto está em ebulição. Agora a maior receita dos músicos são os espectáculos ao vivo, o que em Portugal, na esmagadora maioria dos casos, não dá para viver”, comenta o líder dos Blind Zero, que após cinco anos sem um novo álbum de originais editaram em 2010, em etiqueta própria, o álbum Luna Park, que vendeu cinco mil exemplares (“pagou-se à justa” ) - que, à luz da actual conjuntura do mercado discográfico, Miguel considera comparáveis com os 30 mil vendidos em 1995 por Trigger, o álbum de estreia que foi o primeiro disco de rock de uma banda portuguesa a  ser Disco de Ouro.

Miguel sente-se confortável com o lado legal da sua actividade como gestor da PassMúsica porque fez o curso de Direito, em Coimbra (a ideia inicial era fazer Relações Internacionais em Braga, mas falhou a entrada por décimas…), e o estágio para advocacia. “A frase é batida, mas o que eu gosto mesmo é de comunicar”, concluiu.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Casa d’oro

Rua do Ouro 797, Porto

Zucchini … 16,50

Tagliata all’aceto … 16,00

2 coperto … 3,50

1 Làvico rosso da Sicilia … 16,00

Musseline … 4,50

4 cafés … 4,00

Total … 60,50

 

Curiosidades

A introdução de Miguel na música foi feita através de um álbum dos Queijinhos Frescos que o pai, empregado de escritório, lhe deu quando ele era miúdo. As suas preferências foram amadurecendo com a idade, à medida que lhe foram sendo apresentados Bob Dylan, Tom Waits, Xutos e Pontapés, Suzanne Vega e David Bowie, entre outros. A Rádio Energia contribuiu muito para a educação do seu gosto musical. Hoje, segue o trajecto de alguns artistas e bandas. Segue, por exemplo, Bruce Springsteen, que começou a fazer música no ano em que ele nasceu, e confessa que também aprecia os seus trabalhos menos conseguidos, como Human Touch ou Lucky Town

 

Miguel tinha 20 anos quando se constituíram os Blind Zero, que apesar de serem uma banda portuguesa a cantar em inglês beneficiou de um sucesso praticamente instantâneo. “Não somos um produto de consumo fácil. Entre o alternativo e o mainstream, somos claramente mais alternativo. Somos muito agarrados às nossas ideias. Para fazer coisas que nos impõem, vou trabalhar por conta de outrem…”, explica

 

Após ter completado o secundário em Canidelo (Gaia), Miguel foi estudar Direito para Coimbra, que ele classifica como “uma cidade bipolar” pois vive de uma produção cultural externa que desaparece nas férias. No final do curso fez o estágio, mas não encarou a hipótese de ser advogado (”Acho o tribunal muito interessante como micro-cosmo, mas não me apetecia lidar com determinadas coisas e conviver com conceitos em que não me revejo”) ou juiz – “Tenho uma enorme dificuldade em condenar. Só isso iria ser um grande problema”

 

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