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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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Contra a reabilitação jacuzzi

A Pasteleira é um bom sítio para viver. Tem um bosque precioso e um parque estupendo, está razoavelmente servido de transportes públicos e fica junto ao rio e ao mar, que proporcionam vistas deslumbrantes aos felizardos que moram nos andares altos das torres ou não têm casas à frente. É muito fixe.

Morei mais de 20 anos na Pasteleira e gostei muito. Só mudámos porque a senhoria não se mostrou recetiva à proposta de lhe comprar o andar que fiz quando achei chegado o momento de investir em casa própria a poupança de uma vida.

É bem portuguesa esta mania de ser dono da sua casa. Trata-se de uma tendência filha do casamento entre a drástica redução da oferta de casas para arrendar a preços razoáveis (provocada pelo congelamento das rendas) e a oferta bancária massiva de crédito a habitação a preços baratos.

O resultado é um mercado habitacional desequilibrado, onde menos de 20% das casas são arrendadas (na Holanda são 40%) e perto de metade dos contratos são de rendas inferiores a 60 euros/mês.

Não obstante, comprar casa pareceu-me a medida mais acertada, à luz do objetivo de abordar o período conturbado que se avizinhava com um passivo praticamente nulo e encargos fixos mensais reduzidos ao mínimo - ou seja, menos capitalizado, mas capaz de sobreviver com um rendimento baixo. Ao contrário do que muita gente pensa, austeridade e empobrecimento não são necessariamente sinónimos.

Quando em 2008, o ano da falência da Lehman nos pusemos em campo, definimos as características do alvo - T4, duas casas de banho (uma com janela exterior) preferencialmente na zona ocidental - e o limite da nossa oferta: 200 mil euros.

Após meio ano e dezenas de visitas, apaixonamo-nos por um T4+1 duplex na Boavista, desabitado há mais de uma dúzia de anos e a precisar de grandes obras. Negociámos o preço do imóvel e das obras de reabilitação, até em conjunto excederem apenas ligeiramente o nosso teto.

Os sistemas elétricos e de canalização foram feitos de novo. Ficámos com pena (e frio no Inverno) de não haver dinheiro para lareira, aquecimento central ou vidros duplos. Tivemos de poupar muito na cozinha e casas de banho. Aproveitámos ao máximo os materiais existentes. Mas vai fazer agora três anos que nos mudámos e estamos todos muito satisfeitos com a casa nova.

Com base nesta minha experiência, fico de boca aberta ao saber que a SRU pede 82 mil euros por um T0 na Ribeira e 310 mil euros por um T3 em Mouzinho da Silveira - e que não está a ganhar dinheiro, mas a tentar vender a preços do custo.

O que o Porto precisa não é de uma reabilitação urbana jacuzzi para ricos - até porque a maioria deles prefere morar na Foz -, mas de uma reabilitação low cost, que aumente a oferta de casas pequenas, práticas e baratas para quem gosta e quer viver no Centro Histórico.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

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