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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Um cheirinho no acelerador

O início da adolescência é provavelmente a idade mais achacada ao disparate. Atravessei essa fase, quando ter carro próprio (o meu pai não tinha) começava lentamente a deixar de ser um luxo. Naquele tempo em que o cinto de segurança era um acessório desconhecido e conduzir com os copos não era penalizado, a massificação do automóvel trouxe agarrada um culto pela velocidade, documentado pela popularidade do Clube 100 à Hora.

Crescia o culto de velocidade mas não cresciam as estradas onde se pudesse circular a 100 à hora com segurança. A autoestrada para Lisboa parou nos Carvalhos quando Salazar resolveu canalizar todos os recursos para a vã tentativa de que Angola continuasse nossa.

Para minimizar as consequências da loucura pela velocidade, o Governo usou o mais novo e excitante braço do aparelho de Estado (a RTP) para fazer pedagogia, mostrando fotografias horrorosas de trágicos despistes na curva do Mónaco no programa Sangue na Estrada, de Joaquim Filipe Nogueira (na foto).

Embalados por esta inconsciente mania das velocidades, nas excursões da escola, nós, os miúdos, passávamos metade do tempo a cantar um coro idiota: "Ó chofer, por favor, ponha o pé no acelerador".

Vêm estas recordações a propósito do triste facto de, fechado o parêntesis de 12 anos que decorreu entre o 25 de Abril e adesão à CEE, termos sido conduzidos por motoristas que não só não souberam escolher a rota mais adequada como ainda por cima excederam tantas vezes o limite de velocidade que acabaram por nos fazer despistar.

Esses motoristas andam por aí. Um está em Belém, a fazer de conta que não é nada com ele. Outro anda pelo Mundo a tratar dos refugiados. Há um em Bruxelas a sonhar com um palácio cor-de-rosa. E ainda aquele que está em Paris a estudar Filosofia.

Eu não gosto de guiar e não tenho a mania de que sou um ás do volante. Mas sei que manda a prudência que se trave antes de entrarmos numa curva longa e apertada - e que depois é conveniente dar um cheirinho no acelerador para manter o carro estável.

Depois da travagem brusca e a fundo imposta pela troika, chegou o momento de dar um cheirinho no acelerador. Os empurrões de manifestantes irados no Mercedes de um ministro podem ser o sinal de que não se deve esticar mais a corda.

Ao afirmar que "não faz sentido penalizar os portugueses por mais tempo", o primeiro-ministro está a segredar aos credores que após uma queda brutal de 24% no investimento, em dois anos, precisamos de voltar a ter licença para gastar - mas bem. Em ferrovia que leve as nossas mercadorias e ajude a estruturar a euro-região Galiza--Norte de Portugal. Em transportes públicos e na restruturação e privatização das EP deste setor. Na reabilitação urbana. Na modernização e emagrecimento do aparelho de Estado.

Não há milagres. Parar o galope do desemprego e a degradação da economia exige investimento. Querer crescer sem investir é a mesma coisa que querer ganhar o Euromilhões sem fazer a aposta.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 

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