Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

É preferível ter um filho picheleiro

 

Primeiro foi o autoclismo da casa de banho que começou a verter. Não era sempre. Tinha os seus humores. Se pressionado de determinado jeito, enchia normalmente o depósito, depois da descarga. Mas se o ativássemos de forma descuidada era capaz de ficar para ali a verter, a desperdiçar água e engrossar a conta do SMAS.

Depois foi a vez da canalização da banca da cozinha que começou a pingar e nos fez ganhar a consciência que tínhamos um problema cuja resolução não podíamos adiar mais. Pedimos ao Hélder, o vizinho arquiteto que não se importa de tratar da gestão do condomínio, se fazia o favor de nos arranjar um picheleiro.

O diagnóstico foi rápido e exigente em material. O sifão do autoclismo já dera o que tinha a dar e precisava de ser substituído, tal como a torneira e a canalização da banca. A obra afigurava-se dispendiosa, o que se confirmou: a soma de todas as parcelas da conta tinha três dígitos. De mão de obra foram 60 euros, o que dá cerca de 20 euros à hora, ou seja mais ou menos quatro vezes mais que o SNS se propõe a pagar a enfermeiros tarefeiros.

Como o meu filho mais novo, o João, que nasceu no ano 2000, está a revelar-se pouco interessado nos estudos fiquei muito seriamente a pensar que se calhar o melhor é começar a encaminhá-lo para o ensino profissional, onde pode aprender uma arte que lhe permita desembrulhar-se na vida.

É preferível ter um filho picheleiro a ganhar 20 euros à hora do que um filho advogado desempregado - ou a ganhar cinco euros à hora na caixa de um supermercado. Além de tudo, dá mais jeito.

Nem de propósito, no dia a seguir à visita do picheleiro, o nosso JN vinha confirmar a justeza das minhas ideias sobre o futuro profissional do João, ao noticiar que nas ofertas de emprego existentes no IEFP, há, em Lisboa, vagas para mecânicos a ganhar 1500 euros e para engenheiros civis com um salário de 700 euros - igual ao oferecido a um serralheiro no Marco de Canaveses.

Os dados do IEFP confirmam o enorme desajustamento entre as profissões procuradas e os profissionais que o sistema de ensino forma.

O mercado pede mecânicos, serralheiros, picheleiros, montadores de tubos e torneiros. A escola dá-lhe professores, especialistas em relações internacionais, gestores de empresas e jornalistas.

Um ano depois do bastonário dos Advogados ter apelado aos estudantes do Secundário para fugirem dos cursos de Direito, por o mercado estar saturado, não deixa de ser curioso que os dois cursos públicos com mais vagas no próximo ano letivo serem Direito de Lisboa (450 vagas) de Coimbra (330).

O que se espera do Governo, em matéria de Educação, é que, no quadro do esforço de qualificação da mão de obra nacional, use o poder que tem para conciliar a oferta e a procura. O que exige uma maior e mais séria aposta no ensino profissional.

No futuro, posso garantir, continuará a haver canos rotos, torneiras a pingar e autoclismos a verter.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D