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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

O Governo está a ficar para trás

A troika só cá está há pouco mais de um ano, mas acho que quase todos nós já nos começámos a habituar a esta nova normalidade, em que o emprego passou a ser um bem precioso, escasso e irremediavelmente precário, recebemos menos, os bancos deixaram de nos querer impingir dinheiro e passaram a interessar-se pela nossa poupança, e pagamos mais pelos bens (por cortesia dos aumentos do IVA) e serviços, como a eletricidade, água, transportes, educação, saúde e comunicações, etc.

O grande trambolhão do consumo interno privado - que registou, em 2011 , a maior queda desde que há estatísticas e continua a cair - é a prova dos nove de que as famílias portuguesas se estão a ajustar e a começar a entender, se bem que à força (se calhar não não podia ser de outra maneira), que o importante não é aquilo que temos, mas antes aquilo que somos.

Eu próprio já despi os hábitos de consumo desenfreado, ganhos nos tempos do dinheiro fácil e barato, em que fui acumulando furiosamente livros que não sei quando vou conseguir ler e discos que não sei quando vou conseguir ouvir, em regime de dedicação exclusiva.

A vida ensinou-me que o mais importante não é a propriedade das coisas, mas antes o seu usufruto. E até estou, confesso-vos, um bocadinho orgulhoso com esta minha capacidade de adaptação a um novo normal, onde os nossos hábitos em relação às despesas contam mais que o salário.

O problema é que o Governo está bastante atrasado em relação a nós neste esforço de ajustamento. Não dá mostras sérias de ter percebido que os hábitos do Estado em relação às suas despesas têm de contar mais que o esforço desesperado para meter a mão nos nossos bolsos na vã tentativa de aumentar as receitas fiscais.

Os empresários privados já compreenderam que o luxo de manter empregados com mau desempenho é uma coisa do passado. O milhão de desempregados é a verdade de sangue que documenta esta compreensão, que lamentavelmente ainda não foi realmente assumida por um Governo que ainda não deu sinais de saber o que há-de fazer para eliminar os grotescos passivos das empresas públicas de transportes e emagrecer um Estado balofo e ineficiente que parece não saber viver sem gerar enorme desperdício.

Eu sei perfeitamente que pensar é fácil, agir é difícil - e agir em conformidade com o que pensamos ainda é mais difícil. Mas é indispensável regressarmos aos princípios básicos. Deve ser o Governo a trabalhar para os cidadãos e não os cidadãos a trabalhar para o Governo. E os cidadãos têm de perceber que o Estado não dá nada, apenas distribui o que recebe - e tem de reduzir drasticamente as comissões que cobra para alimentar um aparelho enxameado por sucessivas camadas de filhos das fábricas partidárias.

O Governo está a ficar para trás e infelizmente nós não podemos dar- nos a esse luxo.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

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