Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Só aceitaria substituir o Portas

Há uma data de gente que se entretem a imaginar o que faria se ganhasse o Euromilhões. Eu não perco tempo com essa fantasia por várias razões e mais uma - seria uma fantasia completamente idiota, pois nunca apostei no Euromilhões, nem tão-pouco no Totoloto. Joguei uma meia-dúzia de vezes no Totobola e apenas uma vez na Lotaria, e com o único intuito de evitar fazer má figura, quando em 1979 fui convidado pelos meus colegas da Revisão do nosso JN a comparticipar na compra de um bilhete inteiro para o sorteio da taluda de Natal. Não saiu nada.

Não quero com isto dizer que de vez em quando não me entregue aos meus devaneios, como, por exemplo, o que faria se me convidassem para o Governo. E já tenho algumas certezas relativamente a esta situação.

Recusaria liminarmente qualquer convite para secretário de Estado. Considero que a minha experiência, idade e estatuto são incompatíveis com a aceitação de um lugar subalterno no Governo. Possuo excesso de habilitações para o cargo.

Já quanto a ministérios, tenho assente que só aceitaria de caras o dos Negócios Estrangeiros, que é um emprego de sonho.

Não chateava ninguém, fartava-me de viajar, fazia declarações às televisões, à partida e à chegada da Portela, e enchia o gabinete com molduras bonitas de fotografias minhas a dar um beijo à Merkel, um passou-bem a Hollande e sentado junto à lareira da Casa Branca na amena cavaqueira com o Obama.

Não tenho a menor das dúvidas de que se remodelasse o guarda-roupa (os meus fatos da Alto by Maconde estão a ficar cheios de lustro) e me escanhoasse, com cuidado, todos os dias, em menos de dois meses já seria percecionado pelos eleitores como um estadista.

No caso de o convite ser para outras pastas, já tenho uma resposta decorada: "Sinto-me muito honrado com o convite, que agradeço, mas há coisas que não sei fazer ou não tenho motivação para fazer". A frase não é original - a partir da segunda vírgula, é uma cópia da desculpa que António Vitorino arranjou quando decidiu não se candidatar à liderança do PS, a seguir à demissão de Ferro Rodrigues - mas temos de concordar que é muito boa, e, como agravante, verdadeira, já que cobre as duas situações possíveis.

Há coisas que não sei fazer - sei, por exemplo, estar desprovido das competências exigidas a um ministro das Finanças. E há coisas que não tenho motivação para fazer - como, por exemplo, sentar-me nas cadeiras elétricas que são os ministérios da Educação, Saúde ou Justiça.

Estou consciente de que ao partilhar este devaneio de uma noite de verão, arrisco seriamente a ser adjetivado de presumido e egoísta. Não me importo. Acho que o Mário de Sá-Carneiro estava cobertinho de razão quando disse que em terra de doidos quem tem juízo passa por doido. E nesta terra de doidos, nunca correremos o risco dos lugares de secretários de Estado e ministros ficarem por preencher.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D