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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

O direito a ser fábrica descoberta

Desde que nasci o meu corpo tem sofrido importantes modificações, e não me refiro às externas e óbvias, como o crescimento desmesurado da barriga ou a deserção massiva de cabelos (teria preferido que ficassem brancos, mas eles optaram por cair...).

Estou a falar de partes do equipamento de origem que me foram sendo retiradas, como as amígdalas, o pedaço de pele que cobria a cabeça do meu pénis e a vesícula. Curiosamente, mantenho o apêndice.

Tinha seis anos e andava a deixar de ser analfabeto na primária do Bonfim quando sofri uma infeção nas amígdalas. O médico foi perentório a recomendar-me a extração. Os meus pais aceitaram. Fui operado e fiquei sem elas.

No início da minha adolescência, ao verificar que a pele que cobria a cabeça da minha fábrica de fazer meninos não corria atrás com a eficiência necessária, um outro médico aconselhou a que eu fosse submetido a uma operação de circuncisão. Os meus pais concordaram.

O dias foram dolorosos até serem retirados os pontos, que tinham sido dados quando o pénis estava no tamanho mínimo e por isso qualquer variação, mínima que fosse (e toda a gente sabe que o calor dilata os corpos) no seu estado, era suscetível de proporcionar dores, que podiam ser excruciantes se calhava de subir atrás de uma moça de minissaia as escadas para o primeiro andar do autocarro da linha D. Isto para já não falar nas noites em que a Gina Lollobrigida me aparecia em sonhos e eu acordava aos berros ...

Mal os pontos saíram, o tormento acabou e não tenho razão de queixa (antes pelo contrário) de ser aquilo que em linguagem popular se designa no Porto como fábrica descoberta. Também não me queixo por não ter amígdalas - apesar de, um par de anos após ter ficado sem elas, a comunidade médica ter passado a valorizar o seu papel protetor.

Como já foi tirada comigo adulto, a vesícula não vem ao caso, que é a decisão de um tribunal de Colónia de proibir a circuncisão de crianças, alegando tratar-se de uma violação da sua integridade física praticada em nome da religião dos seus pais.

Esta deliberação do tribunal alemão, tomada na sequência de uma queixa apresentada por uns pais muçulmanos que não gostaram de que o seu filho de quatro anos fosse circuncidado, irrita-me e abre um precedente muito perigoso.

Os muçulmanos têm o hábito de deixar crescer a barba. E os judeus têm o hábito de circuncidar os filhos. O que não quer dizer que quem use barbas seja muçulmano e que todos os circuncidados sejam judeus. Eu não sou muçulmano, apesar de seis em cada sete dias da semana andar com a barba por fazer, e não sou judeu, apesar de ser fábrica descoberta desde os 14 anos.

O facto de os judeus terem o hábito de circuncidar as crianças não pode servir de pretexto para lançar um anátema sobre essa prática e para os tribunais se imiscuírem num campo como o da Medicina - para o qual não estão habilitados a arrotar postas de pescada.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

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