Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Cavaco, talentoso ventríloquo

 

Com a idade mudou muito a maneira como manifesto a minha indignação. Adolescente, e nos tempos da Outra Senhora, apedrejei bancos, símbolos odiados de um capitalismo financeiro que vivia com a língua na boca do Estado Novo. Com o correr dos anos fui acalmando, seguindo um guião que afinal eu sabia de cor e salteado, pois tudo estava dito e explicado na letra da canção "Father and son", de Cat Stevens.

Como tenho para mim que votar é um direito (de que não abdico) e não um dever, vou demonstrando a minha indignação face à pobreza franciscana da oferta partidária de políticas e políticos optando por me abster nas eleições.

Senti-me um tudo nada desconfortável com esta maneira suave e passiva de exprimir a indignação, até ter a sorte de tropeçar numa frase saída da pena do grande Camilo - "A paciência é a riqueza dos pobres" - que deu cimento teórico à minha atitude pouco ativa.

Para evitar confusões, esclareço desde já que nada me move contra formas mais radicais de expressão da indignação, contanto que não resvalem para lá do aceitável, como no caso do inquilino revoltado de Gulpilhares que matou com um tiro a senhoria que o ia despejar.

Já não tenho nada contra (na verdade, até achei graça) ao cidadão ribatejano que, indignado com a política de austeridade aplicada pelo Governo, atirou um ovo à cabeça de Assunção Cristas, mas tendo tido o cavalheirismo de falhar o alvo e o bom gosto de usar um ovo são - e não um ovo podre.

Um ovo, como também o seria um tomate, é o objeto adequado para arremessar à ministra da Agricultura e até pode inaugurar uma alegre série de arremessos temáticos.

Estou a pensar, por exemplo, em protestos que contemplem bombardear Aguiar-Branco com aviões de papel, atingir o ministro Álvaro com mealheiros vazios, lançar miniaturas de submarinos contra Portas, ou atirar moedas (apenas de um ou dois cêntimos) à tola do Gaspar.

O Gastão, neste particular das modalidades de expressão da indignação, é o nosso presidente da República, um talentoso ventríloquo que pode dizer o que pensa mantendo a boca fechada, mesmo sem o auxílio de bolo-rei.

Cavaco tem a sorte de poder falar através de porta-vozes oficiosos, como o Alexandre Relvas, que acusou o primeiro-ministro de não perceber patavina do que se passa nas empresas, ou a Ferreira Leite, que apelou à revolta dos deputados da maioria contra Passos (que ela, quando era líder do PSD, impediu de ser deputado) e desculpou o seu velho amigo Aníbal, explicando aos romeiros que demandam Belém que nada podem esperar do PR, pois ele está atado de pés e mãos.

O PR tem cá uma destas sortes... Se fosse a ele, jogava no Euromilhões, a ver se deixa de ter de se preocupar com o dinheiro.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D