Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Por uma chuva democrática

Os putos recusam-se a andar de guarda-chuva. Eu compreendo-os perfeitamente. É muito chato andar com uma das mãos ocupada por um chuço, esteja ele aberto ou fechado. Depois ainda há as contrariedades laterais. Não sei como é convosco, mas eu, se calhar de entrar num café ou loja e à saída não estar a chover, é garantido que me esqueço dele lá dentro. Mais. Se o arrumo no bengaleiro é certo e sabido que quando voltar para o pegar ele não vai estar lá - há sempre alguém que fez de conta que o levou por engano e a melhor hipótese é que esse alguém tenha deixado um com duas varas partidas.

O problema é que quem anda à chuva molha-se - e passar um dia como os pés molhados e a roupa a secar colada ao corpo é ainda mais chato que a maçada de andar a passear um guarda-chuva, ainda por cima correndo o enorme risco de o perdermos ou de ele ser roubado ou trocado.

A minha política em relação ao uso do guarda-chuva é muito simples. Só o levo comigo se estiver a chover no momento em que saio de casa, do carro ou do jornal. Senão arrisco. Sei que não é prudente, mas tenho confiança no mercado, que funciona pior no Porto do que em Lisboa, onde basta caírem umas gotinhas para aparecer logo gente a vender guarda-chuvas em todos os acessos ao metro, mesmo que se trate de um dia de verão que que amanheceu com um sol radioso.

Como todos sabemos, a chuva forma-se nas nuvens, pelo que não nos podemos espantar que, de há três anos a esta parte, esteja a chover com tanta e crescente intensidade no nosso país e que cada dia que passa o céu esteja mais ameaçador e pejado por nuvens ainda mais negras.

O grande drama é que a chuva não molha a todos por igual. Há pessoas - estou a referir-me, por exemplo, a desempregados de longa duração e reformados com pensões baixas - que desgraçadamente têm sido atingidas por um temporal de chuva e vento tão inclemente que já lhes deu cabo do guarda-chuva. Por isso estão a tremer, enregeladas e molhadas até aos ossos.

Há outros, como eu - estou a falar dos que ainda têm trabalho e salário -, que têm sido mais felizes, pois só apanham aquela chuva de molha-todos, que se consegue suportar bem se usarmos gabardina comprida e um daqueles chapéus impermeáveis que são muito baratos nas lojas dos chineses.

Tudo leva a crer que Passos Coelho não é cego, nem surdo, não confunde determinação com intransigência e aprendeu com Mário Soares que só os burros não mudam de ideias. Só falta demonstrar que não é mudo e anunciar que errou no dossiê TSU.

Mas, por favor, não façam confusão. A tempestade pode passar, mas o mau tempo continuará. Se com toda esta austeridade em 15 meses o Governo só conseguiu cortar 1,5% no défice orçamental, vai ter de chover muito para que em 24 meses seja possível abater mais 4%

Para que possamos suportar estoicamente a chuva é urgente que ela seja democrática e atinja todos por igual - em particular os privilegiados que são useiros e vezeiros em passar pelo intervalo da chuva.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D