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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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Don´t fuck my job

O problema dos carros com mudanças automáticas é o pé esquerdo ficar a sobrar. Guiar um carro com caixa de velocidades é um trabalho que envolve os dois pés. O direito divide-se entre o acelerador e o travão, enquanto o esquerdo se especializa na embraiagem. Nos automóveis com caixa automática, é absolutamente proibido deixar o pé esquerdo entrar na dança dos pedais, senão...


Quando pego num carro automático, sei que tenho de estar em permanente tensão para evitar que as minhas rotinas de condução se imponham. Senão é asneira pela certa.


A minha asneira mais frequente é levar ao travão um pé esquerdo habituado a esmagar o pedal até ao fundo, provocando assim uma travagem brusca, cujas consequências se têm (felizmente) resumido a um susto, cheiro a borracha e desgaste escusado dos pneus.

Noutro dia, ao ler no "Jornal de Negócios" uma magnífica história da vida de Maria Isabel Lucas, 50 anos, uma estivadora do porto de Setúbal, fiquei a saber que a minha asneira não é a única a que um condutor habituado a carros com mudanças está exposto quando tem de guiar um automático.


Em defesa do argumento de que trabalhar na estiva não é para qualquer um, Isabel dá um exemplo: "Tem de ter muitos anos de experiência, aqui é tudo ao milímetro. Tenho aí visto acidentes de automóveis quando os carros são automáticos, em vez de travar, o pessoal às vezes acelera e pum, o carro galga por cima de outro carro".


Saber da estranha confusão que os estivadores fazem entre o pedal do travão e o do acelerador nos carros com mudanças automáticas desembraiou logo na minha cabeça a ideia de que a criminosa greve que desde agosto afeta os portos de Lisboa, Setúbal, Figueira da Foz e Aveiro só pode ter na sua origem a falta de discernimento de quem a faz.
 

Os cerca de 400 estivadores que envergam T-shirts trendy e cosmopolitas dizendo "Don't fuck my job" ainda não perceberam que quando se está num buraco a regra número 1 é parar de escavar - e como estão confusos, ao ponto de não se terem apercebido do tempo em que vivemos, prosseguem, egoístas, a sabotagem do esforço das empresas exportadoras.


Os cerca de 400 estivadores que abrilhantam os protestos vestidos com coletes refletores, calçados com botas de borracha de biqueira de aço e com a cara coberta por lenços pretos, à John Wayne, não perceberam que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros - e por isso não se importam de lixar o emprego dos outros para manterem direitos, privilégios e regalias absolutamente insustentáveis.


As consequências da irresponsabilidade suicida dos 400 estivadores grevistas só não são mais catastróficas porque o elevado sentido de responsabilidade dos outros 900 estivadores e da UGT mantêm a funcionar os portos de Leixões e Sines.


Neste caso da greve dos portos, o Governo tem uma oportunidade de ouro para demonstrar firmeza e impedir que os 400 estivadores grevistas,

em vez de cavarem apenas a própria sepultura, destruindo o seu emprego altamente remunerado, também enterrem o que resta da nossa competitividade e lixem os nossos postos de trabalho.


Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

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