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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

This is the end, beautiful friend, this is the end, my only friend, the end

 

Para assinalar o ponto final neste algo fastidioso desfiar do inventário de 100 coisas que amo no Porto, copiei um verso de uma das mais fantásticas canções («The End») dos Doors,  servida por um poema assassino, em que o Jim Morrison declara querer matar a mãe e o pai.

 

Como se sabe, o Jim acabou por patinar primeiro que os pais. A propósito, confesso-vos que já fui ao Père-Lachaise, em Paris, visitar a campa dele, que, em si, é uma desilusão.

 

A única vantagem do túmulo do Morrison é funcionar como chamariz para um cemitério que tem belos jazigos, como o do Géricault (o pintor da «Jangada da Medusa»).

 

 

CAFÉS

 

81. Bogani Café

 

Abortado como projecto empresarial (foi pensado pela Unicer como o primeiro de uma cadeia de cafés cheios de «panache», projecto entretanto abortado), o Bogani, no Cais de Gaia, oferece a partir da sua esplanada duas das melhores vistas do Porto – a mais clássica, a montante, e a mais inesperada, a curva do rio, a jusante. O moderno mobiliário Philippe Starck é bastante confortável.

 

 

82. Piolho

 

É o santuário de sucessivas gerações de estudantes. Tive escritório montado durante a quase toda a década de 70 no mítico Piolho, que no ocaso do Estado Novo (não confundir com a discoteca homónima) albergou todo o Contra, desde spontex até aos PC’s (então chamados de «revisas» pela extrema-esquerda), passando por todas as variantes (e eram muitas...) de maoistas, trotskistas, situacionistas e freaks. Alguns exemplos avulso:  Arturinho a la Gauche, Augusto Santos Silva, José Pacheco Pereira, João Botelho, António Pinho Vargas, Manuel Resende, Pedro Baptista e o falecido filósofo Francisco Sardo. Piolho é alcunha. Na verdade, chama-se Âncora de Ouro, mas ninguém o conhece por esse nome. Este café encerra em si o valioso segredo de nunca passar de moda.

 

 

83. Botânica

 

É o café que mais frequento. Por razões de conveniência geográfica, uma vez que fica meio caminho entre a minha casa (Pasteleira) e o escritório do Expresso no Porto (Júlio Dinis, perto da Rotunda da Boavista). Mas também devido à sua esplanada que fica em frente ao Jardim Botânico. É uma esplanada para todas as estações, porque está parcialmente protegida da chuva pelas oportunas arcadas do prédio. Tem a enorme vantagem de abrir muito cedo (não quero jurar, mas penso que às sete já está de porta aberta) e o pequeno inconveniente de fechar aos domingos.

 

 

84. Chalé Suisso

 

Este pequeno café com esplanada, no Jardim do Passeio Alegre, é o meu pouso preferido para as manhãs de sábado A elegante singeleza da sala (minúscula) e da esplanada, outrora frequentadas por Camilo Castelo Branco e Alberto Pimentel, compensa amplamente a ausência de casas de banho privativas. O que para os homens até uma vantagem já que os obriga a frequentar, no meio do jardim, junto ao mini-golfe, o mais bonito e asseado urinol público do país.

 

 

85. Majestic

 

É um clássico. O escritor lisboeta David Mourão Ferreira resumiu o essencial numa frase: «Nunca venho ao Porto sem ao menos dar um salto a este belo café Majestic, que não hesito em considerar como um dos que em toda a Europa melhor conserva a atmosfera do início do século XX». A fama e luxuosa beleza aristocrática deste café, que transporta até aos nossos dias um elegante ambiente Belle Époque, leva a que o contigente de clientes que folheiam guias turísticos suplante em número a freguesia indígena. A festa de inauguração do café, a 17 de Dezembro de 1921, foi rija e contou com a presença de gente importante à época, como Gago Coutinho  (que voltaria ao café acompanhado pela estonteante e emergente actriz Beatriz Costa)  ou que viria a sê-lo, como o cineasta Manoel de Oliveira.  Com os espelhos e dourados, o Majestic fez furor e acolheu nos seus sofás de veludo vermelho muitas tertúlias literárias e artísticas, animadas por gente diversa como Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes, José Régio ou António Ferro.

 

86. Ourigo

 

Não tenho a menor das dúvidas em declarar a esplanada marítima do Ourigo como a mais espectacular do Porto. É a número um. A cozinha nunca foi o forte deste café-restaurante, que agora está a atravessar uma fase japonesa. Mas a localização privilegiada da esplanada (situada numa plataforma sobre a primeira praia a norte da foz do Douro) desculpa tudo. Os fins de tarde são demolidores. O barulho das ondas a embater nas rochas (que salpicam de água salgada os mais audazes na escolha de mesa) é música para os ouvidos.

 

 

87. Lais de Guia

 

Este café de madeira com esplanada, implantado no areal, é um dos óasis que serve o largo e despojado Passeio Atlântico, a marginal desenhada por Souto Moura  que faz de separador entre a praia os prédios de apartamentos da moderna zona de Matosinhos Sul, erguidas nos quarteirões outrora ocupados por fábricas e armazéns, predominantemente ligados à indústria conserveira. 

 

 

88. Leitaria da Quinta do Paço

 

Os «eclair» recheados com chantilly, disponíveis em dois formatos, são pura e simplesmente míticos. A leitaria já tem ramificações em centros comerciais mas não nestas coisas não há nada que chegue à sede.

 

 

 

CASAS DE CHÁ

 

89. Casa de Chá de Serralves

 

Fronteira ao antigo campo de ténis da Casa de Serralves,  que nos quentes fins de tarde de Verão acolhe os concertos do programa Jazz no Parque. A Casa de Chá é um pedaço do Paraíso emprestado à Terra, um formidável refúgio de tranquilidade onde se pode comer scones e beber chá num fascinante ambiente de sonho.

 

 

90. Casa de Chá da Boa Nova

 

Sob a designação geral Casa de Chá  (a primeira e uma das mais justamente cantadas obras de Siza Vieira, datada de 57),  respondem uma casa de chá propriamente dita e também um restaurante. O mar, a beleza agreste do local, o barulho e movimento das ondas, as linhas depuradas de uma arquitectura de primeira água, deixam pouco espaço para o peixe grelhado ou para as cataplanas. A segunda obra de Siza foi a Piscina das Marés, também na Marginal de Leça, que exige uma visita.

 

 

RESTAURANTES

 

91. Adega Vila Meã

 

Em Lisboa, é hábito dizer-se que no Porto se come bem e são servidas doses abundantes. A descrição assenta como uma luva a este restaurante, o sítio certo para ir se queremos que nos sirvam à mesa doses pantagruélicas do que melhor se confecciona no país em termos de comida genuinamente portuguesa. Na lista acotovelam-se o Bacalhau Escachado, a Posta e as Febras de Salpicão, que sofrem a concorrência dos pratos do dia: as Pataniscas de Bacalhau com Arroz de Feijão, o Polvo assado, os Filetes de Polvo, o Sarrabulho à Moda de Ponte do Lima, enfim... Quinta é o dia do monumental Cozido à Portuguesa (atenção que um quarto de dose derrota o garfo mais exigente)  e por isso é mais avisado reservar mesa.

Rua dos Caldeireiros, 62

 

 

92. Antunes

 

Dirigido pela irmã de Reinaldo Teles, este restaurante vive um ambiente buliçoso durante os almoços de semana, alimentando trabalhadores de diferentes ofícios, com especial atenção para o habitualmente bem fornecido contingente da Câmara Municipal do Porto. A refeição recomendada integra Pernil de Porco Assado, regado a vinho da casa e sobremesado com as afamadas rabanadas, que são uma das especialidades da casa. Mas durante a semana, os pratos do dia revisitam a tradição da gastronomia tradicional portuguesa, o cozido, as tripas, os rojões – e também o arroz de pato.

Rua do Bonjardim 525/529.

 

 

93. Marisqueira de Matosinhos

 

Tem tudo o que de bom pode esperar de uma marisqueira de Matosinhos. O restaurante onde o sportinguista Miguel trabalha desde os 14 anos e se tornou sua propriedade na sequência dum MBO acordado com Henrique Torres,  o antigo patrão (que frequentemente é lá visto a almoçar), é uma Meca para quem demanda mariscos frescos e saborosos – camarão de Espinho, gordas gambas, ostras, percebes, búzios, camarões tigres e por aí adiante. Mesmo que seja doido por marisco, dê, por favor, uma oportunidade ao rosbife.

Rua Roberto Ivens, 547

 

 

94. Portucale

 

No sítio mais alto da cidade está aquele que é considerado o restaurante mais requintado do Porto. Se o dinheiro não é um problema, abra as hostilidades com crepes de lagosta, míscaros grelhados ou um sofisticado Mil folhas de foie gras com trufas, servido com gelatina de Vinho do Porto. Depois siga com um Linguado Walewska, uma perdiz estufada com castanhas, ou o incontornável bife flamejado confeccionado à nossa frente, para grandes espanto dos outros comensais desconhecedores desta hipótese. A lista de vinhos é irrepreensivelmente completa. Se é de sobremesas, experimente a encharcada de ovos.

Rua da Alegria 598

 

 

95. Bull & Bear

 

Uma bem sucedida fusão entre a «nouvelle cuisine»  e a cozinha tradicional portuguesa foi operada por Miguel Castro Silva, como se pode comprovar por uma simples visita a este restaurante. Os nomes dos pratos históricos são a prova dos nove da bondade e ousadia deste matrimónio: Ameijoas com feijão manteiga, Bacalhau com Porto Vintage, no Franguinho Recheado com Sabores Portugueses, Pescada com Camarão e Alho. Esta cozinha é imperdível. «Esteja onde o Miguel estiver é sempre de ser ir gastronomicamente atrás dele», Quitério dixit. Sigamos o Miguel!

Avenida da Boavista 3431

 

 

96. Cafeína

 

Apesar de estar de porta aberta há uns anos, continua a ser um dos mais «trendys» restaurantes do Porto, provavelmente devido aquele «je ne sais pas quoi» que Vasco Mourão empresta aos seus projectos. O facto das mesas estarem muito juntas é inibidor de pedidos de casamento ou conversas confidenciais. O Magret de Pato é uma boa opção numa lista variada, onde não faltam as massas frescas e uma razoável oferta de carpaccios.

Rua do Padrão 100, 226108059

 

 

LIVRARIAS

 

97. Lello

A Lello é a mais bonita livraria do Mundo. Enrique Villa-Lobos escreveu-o assim mesmo, sem a cautela do «provavelmente», no El Pais e nós não temos a mínima razão para desconfiar dele. A boca dos forasteiros abre-se mal olham para a monumental fachada neogótica, riscada pelo engenheiro Xavier Neves, e vão mantendo a boca escancarada até que saem – desde que deparam com a esplendorosa escadaria que liga os três andares e à medida que mergulham no interior desta livraria onde estão expostos 60 mil livros. Vasco Morais Soares, o arquitecto que dirigiu a renovação interior desdobra em palavras esta sensação de belo: «Transformámos a livraria sem lhe retirar o espírito vetusto, a monumentalidade neogótica e principalmente a luz coada que ali nos envolve como numa catedral ou na imaginação de um livro de Dickens, que, sem impor, sempre obriga a falar em voz baixa». Nesta remodelação, operada em 1995, o piso de cima, antigo balcão da caixa, foi convertido em bar, um espaço acolhedor onde se pode beberricar um Porto enquanto se folheia um livro ou se espreita na parede a carta do pai de Eça em que este recomenda aos editores o trabalho do filho, argumentando que «o rapaz» tinha queda para as letras.

 

 

98. Académica

 

Se perguntar a Mário Soares qual é o sítio certo para ir quando se está à procura de um livro antigo ou de uma raridade bibliográfica ele responderá, com toda a naturalidade que é a  Livraria Académica, no Porto. Nuno Canavez, o proprietário, é provavelmente o melhor alfarrabista do país, gosta de manter na sua livraria uma animada tertúlia (que conta coma valiosa participação do meu amigo Germano Silva o maior especialista vivo em questões portuenses) e está sempre disponível para dar um conselho.

 

 

E AINDA

 

99. Marginais

As marginais marítimas e fluviais do Porto, Gaia e Matosinhos (neste caso só marítima) são fantásticas. Do lado de Gaia, há que creditar a Menezes a recuperação de muitos quilómetros de marginal, que passaram a ser servidos por belos e funcionais passeios. Aquilo está um brinquinho. E não é só fachada. Não é por acaso que Gaia é o concelho do país com mais bandeiras azuis. Do lado do Porto, a marginal marítima pede um passeio a pé entre os castelos da Foz e do Queijo, tropeçando aqui e ali nas magníficas e abundantes esplanadas da Foz, que como nota Richard Zimler (escritor nova-iorquino radicado no Porto), correm o risco de passar despercebidas aos forasteiros apressados: «Cafés, restaurantes e passeios situam-se na zona mais baixa da beira-mar e facilmente passam despercebidos ao olhar dos passantes mais acima, na Avenida do Brasil. Acontece-me pensar que muitos visitantes da cidade, ao passarem velozmente de carro a caminho de algum restaurante de Matosinhos ou de algum clube na Foz, talvez nunca venham a aperceber-se que existe mais abaixo um mundo onde flores silvestres brotam ao longa de veredas emaranhadas, onde jovens fazem os possíveis para serem vistos nos sítios mais «in» e os grafitos gritam das paredes a rudeza das suas mensagens». E, chegado ao castelo do Queijo, se não lhe faltar o fôlego, faça a si próprio o favor de continuar em direcção a Matosinhos, passando pelo Edifício Transparente e Anémona até aceder ao calçadão desenhado por Souto Moura. Se estiver cansado, retempere forças com uma escala no Lais de Guia.

 

 

100. Universidade do Porto

 

Eu sou um ex-aluno da UP e tenho muito orgulho nisso. Licenciei-me em História, na FLUP (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), em 1980, no final de um curso acidentado, que começou no Seminário do Vilar e acabou na rua do Campo Alegre, se iniciou com a duração prevista de cinco anos e depois bruscamente, num «avant la lettre» de Bolonha, encurtou para quatro no Verão em que eu passei para o 5º ano. A Universidade do Porto é a maior do país e alberga cursos (Arquitectura, Engenharia, Medicina, só para citar três exemplos) cuja qualidade desperta muito justamente a cobiça alheia. Cosmopolita, com o seu milhar de estudantes estrangeiros, a UP é um dos mais vigorosos órgãos de soberania do Porto – e o mais fundamental numa altura em que o conhecimento é, mais do que nunca, a base do progresso e prosperidade.

 

Jorge Fiel

 

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