Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

O Meu Porto

 

 
Que vícios e hábitos urbanos são exclusivos do Porto?  
Mais do que ter vícios, o Porto vicia muito. É difícil explicar o que torna o Porto uma cidade única e exclusiva, pelo que isso tem de abstracto e sensorial. A Alma do Porto que se encontra no cimbalino, na conversa do barbeiro, no jornal apertado num pau, nos mercados das flores, das especiarias e do peixe, nas tascas que  rescendem a sopa e a vinho novo, nos cafés  de esplanada e bilhar montado, no barco rebelo que passeia por esse Douro melancólico, arreado de barris do vinho que leva o nome da Cidade ao mundo.  Depois também temos o resto,  mas a exclusividade do Porto e dos hábitos dos Portuenses estão nesta Alma nobre e Antiga...
 
O que tem mudado na Invicta?  
Felizmente pouco. A tradição aqui ainda é o que era.
É verdade que hoje há menos sedes de Bancos (capital), mas há mais arrumadores (trabalho), há menos voos no Sá Carneiro mas temos o Metro, há menos empregos mas há mais estudantes  
Mas também é verdade que as boas tripas continuam a ser no Ribeiro, o pato, com arroz de pato no Bule, o cozido e o  cabrito no Morfeu , o peixe e o marisco no Miguel ... O Bolhão apesar das obras e dos   excessos das pombas, está no mesmo sitio, o Majestic e a Arcádia recomendam-se,  o Coliseu ainda é dos Amigos, Serralves continua  belo e empreendedor, a Foz continua menina e luminosa, a Baixa continua granítica e romântica...., nós continuamos portuenses.   Enfim, as coisas seguras e verdadeiramente importantes, continuam por cá .  
 
Quais as características que diferenciam o Porto das restantes cidades?  
A Alma e o Corpo da cidade, feita de tantas coisas como as que já referi e o granito, a história e o rio.
O labor, a iniciativa e a generosidade das suas gentes...
 
Os portuenses têm uma forma própria de ser?
Sim, claramente. A face mais divulgada  (apesar de mal conhecida e confundida com outras regiões do Norte)  é a da pronúncia. Mas esta dimensão ajuda a perceber que o portuense tem um código genético  muito vincado.  A nossa pronúncia é principalmente a força do nosso carácter, traduzido em primeiro lugar no amor pela terra em que vivemos. Não foi por acaso que o território começou aqui e a expansão também. Só dá valor à sua terra quem lutou por ela. E nenhum outro como o portuense o fez, basta lembrar o Cerco do Porto, ou as Tripas que sobrevieram à carne oferecida pelos portuenses na expansão marítima. Depois temos com o burgo uma relação de serviço e de valor. E por isso a generosidade e o trabalho. E por isso a iniciativa e a vontade de vencer. Esta ideia de que com trabalho digno, com iniciativa e esforço é possível vencer -  ser Invicto, caracteriza muito a maneira de ser e de estar dos portuenses.   
 
O Porto ocupa o lugar que merece no panorama nacional?  
Nunca, jamais!  No caso do Porto,  o lugar que merece é seguramente o primeiro. Mas a verdade é que nenhuma região em Portugal tem o lugar que merece. Nem Lisboa que não  tem qualquer merecimento em  ser  declarada herdeira universal deste centralismo bacoco que não ajuda Portugal a ter um desempenho harmonioso e globalmente positivo.
 
Qual o local que mais aprecia na cidade?  
O Porto tem felizmente muitos portos de abrigo, apelativos ,   viciantes,  pelos quais continuo apaixonado.  A Foz, o Rio (Douro, claro)  e o Mar - o tal sabor a sal dos portugueses, são provavelmente no imaginário espacial do Porto, os lugares que mais me atraiem.
 
Quais os maiores problemas do Porto e de que forma os alteraria?  
O excesso de Estado na economia e o centralismo administrativo não ajudam o Porto. A sua iniciativa empresarial é obrigada,  pela prevalência do sistema financeiro e pelo investimento público, a deslocar-se para Lisboa. O seu capital humano tem que procurar oportunidades fora do Porto. O Porto desperdiça permanentemente talentos neste modelo político, económico e administrativo.  O que falta é mudar isto. Mudar o sistema político e fazer a verdadeira regionalização do País. Julgo até que se a globalização  económica e política não acabar com as nações e com as suas pronúncias, vai acabar por fazer justiça às regiões mais dinâmicas e com melhor iniciativa como o Porto.
 
Que figura  monárquica da Invicta mais marcou o rumo da história da cidade?
Não existem figuras monárquicas ou republicanas. Existem portugueses que nasceram involuntariamente em Monarquia ou em República. Porque acredito que a Monarquia trouxe melhores coisas a Portugal e mais bem estar aos portugueses, é normal que se tenham destacado também no Porto mais homens e mulheres que nasceram em Monarquia. Tenho dificuldade de pensar apenas numa figura. O Infante Dom Henrique é, por exemplo, um símbolo muito próximo  do empreendedorismo, da iniciativa e do arrojo dos portuenses.
 
António de Souza-Cardoso
 
Ps. Entrevista publicada no Destak de 3/12/2007
Publicado por António de Souza-Cardoso às 12:59
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101 comentários:
De O chacal a 5 de Dezembro de 2007 às 16:48
Se não conheces é sinal que falas sem saber. Lisboa tem mais turistas que o Porto muito devido aos congressos que lá se realizam e também porque tem 3 vezes mais do orçamento gasto na promoção do turismo, mas o Porto tem a maior taxa de crescimento anual de turistas quase sem publicidade e por este andar poderá em 2010 atingir 1 milhão de turistas ano... Isto chama-se igualdade..


De Alexandre a 5 de Dezembro de 2007 às 16:56
Lisboa faz muito bem em apostar nos congressos internacionais. Tem tudo para ser uma das cidades que mais congressos atrai, além de que os congressistas certamente adoram cá vir.
O Porto cresceu mais? Óptimo! Também partiu de um ponto inferior, logo em percentagem é normal que cresça mais.
Mas eu fico contente por saber que ambas são cidades atraentes do ponto de vista turístico.


De O chacal a 5 de Dezembro de 2007 às 17:02
Esqueceste-te de comentar a disparidade de investimento entre as duas cidades... Se o investimento fosse proporcional aos vossos impostos não existia CCB nem pavilhão Atlântico ..


De CT a 6 de Dezembro de 2007 às 02:30
Então você acha que no Porto pagam mais impostos do que em Lisboa? Só pode ser para rir...


De O chacal a 6 de Dezembro de 2007 às 09:08
Não percebe português, deve ser de Lisboa... Eu falei em proporção, sabe o que é isso, não disse que no Porto se pagava mais impostos...


De CT a 6 de Dezembro de 2007 às 12:31
Só poderia ser na proporção!


De Alexandre a 6 de Dezembro de 2007 às 11:26
Pagam, pagam.. deve ser como as portagens!


De O chacal a 5 de Dezembro de 2007 às 17:08
Não sei se sabes mas Portugal já sofreu avisos de Bruxelas devido as desigualdades de investimento... Também não devias saber..


De Alexandre a 5 de Dezembro de 2007 às 17:17
Sim, mas as disparidades de investimento são essencialmente Litoral-Interior, não Norte-Sul.
Queres ver que é só com os impostos do Porto que a Casa da Música e o "Metro" foram pagos?!
Invistam mas é no Alentejo, na Beira Interior e em Trás-os-Montes...


De O chacal a 5 de Dezembro de 2007 às 17:40
Desculpa lá mas os teus comentários só demonstram desconhecimento. A Casa da Música para ser terminada teve que se recorrer a privados e o metro vou-te contar a história; em 1991 Fernando Gomes apresentou o projecto em Lisboa sobre o metro do Porto e toda a gente se riu. Foi directamente a Bruxelas e conseguiu fundos mas o dinheiro em vez de vir directamente para o Porto fazia escala em Lisboa, que é a capital. Lisboa ficava com o dinheiro retido, não sei se prepositadamente, e para proseguir a abra com recorreu-se a emprestimos bancários o que contribuiu para a derrapagem. Ainda assim o metro do Porto ficou a metade do preço do de Lisboa. Se quiseres eu tenho muitas histórias para te contar... Já agora enquanto é que vai o orçamento da estação do terreiro do passo?
Só devemos falar daquilo que sabemos...


De Alexandre a 5 de Dezembro de 2007 às 18:18
Não faço ideia do orçamento da estação do Terreiro do Paço, mas aí creio que a culpa é dos engenheiros que não se precaveram para aquele terreno. Uma obra "normal" seria muito menos dispendiosa.

Bom, tens razão nalguns pontos, mas isso não invalida que as maiores disparidades de investimento sejam ao nível Litoral-Interior e não Norte-Sul.


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