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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Um justo e merecido elogio à imaginação criativa dos nossos bravos da PJ

 

Van Gogh não passou a noite em branco para pintar a sua célebre Noite Estrelada

 

 

O pessoal da PJ pode não ser dotado de grandes aptidões para a investigação criminal mas alardeia uma brilhante imaginação criativa no baptismo das suas operações.

 

Não posso deixar de apresentar os meus mais sinceros parabéns ao (à) inventor (a) da Operação Furacão.

 

Se tivermos em conta os resultados, não podemos deixar de pensar que teria sido mais prudente e adequado apelidá-la de Operação Brisa -  ou até mesmo Operação Corrente de Ar.

 

Mas nota-se que quando foi cunhada a operação a intenção dos padrinhos era magnífica, a de semear um rasto de destruição e devastação nos bancos e grandes companhias que se divertem a ganhar ao Fisco no jogo das escondidas.

 

Valha-nos a intenção, apesar de todos estarmos carecas de saber que o Inferno está repleto delas (das boas intenções).

 

Não posso esconder a inveja que sinto pelos agentes da PJ que crismaram a Operação Apito Dourado.

 

Trata-se de um nome feliz, que compreende uma conotação erótica (o apito é da cor do chuveiro na expressão inglesa «golden shower» que designa a bizarra prática sexual de urinar em cima de outrém), como convém a um caso onde abundam a fruta e os pingos escuros – bem como outras variedades de café com leite.

 

Se eu, por um daqueles acasos em que a vida é fértil, decidir torrar na inauguração de um bar de alterne a massa que o Expresso me pagou para se ver livre de mim, não hesitarei um micro-segundo em baptizá-lo Apito Dourado. Com a devida vénia aos génios da PJ.

 

Até me parece que já estou a ver o letreiro luminoso, com um enorme apito dourado a piscar em cima de um cesto de fruta copiado de uma natureza morta do Cezanne.

 

Não posso deixar de aplaudir, de pé, a argúcia e bom humor que se dissimulam por detrás do baptismo da operação em curso, Noite Branca, desencadeada com o benemérito intuito de colocar um ponto final à criminalidade violenta que tem sacudido a noite portuense.  

 

Em primeiro lugar, saúdo o saudável sentido de humor do padrinho, que estava perfeitamente consciente de que os agentes envolvidos na operação iriam passar uma data de noites em branco, por causa da Operação Noite Branca.

 

Depois, descortino na escolha do nome uma cifrada sugestão enviada ao cuidado de Rui Rio, para que ele imite a iniciativa do seu homólogo parisiense e promova anualmente no Porto uma noite branca.

 

Assino por baixo a sugestão. Por um daqueles acasos em que a vida é fértil (não sei porquê mas estou convencido que já não é a primeira vez que uso esta expressão J ) eu estava em Paris no dia da primeira noite branca.

 

Foi uma coisa em grande. Todos os monumentos nacionais e edifícios públicos estiveram de porta aberta durante toda a noite.

 

Aproveitei para subir , de borla, até ao topo da Notre Dame, onde estão os aposentos do Corcunda. E assisti a uma irrepetível sessão de leitura de poesia numa repartição de Finanças no Marais.

 

Para conferir uma visibilidade extra a esta meritória iniciativa, o «maire» gay de Paris, Bertrand Delanoe (amigo íntimo e de longa data de António Monteiro, o nosso embaixador em Paris) deixou-se apunhalar, a meio da noite, no Hotel de Ville, no meio de um multidão de testemunhas.

 

Atirando para trás das costas as recordações parisienses, resumindo e baralhando. Os PJ até podem ser desajeitados na investigação criminal. Mas são exímios no que toca a baptizar operações e sempre que as coisas resvalam do estreito terreno da realidade para o fértil território da ficção.

 

Moita Flores, o ex-inspector da PJ reconvertido em prodigioso argumentista de telenovelas, é a prova dos nove do que acabo de escrever.

 

Jorge Fiel

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