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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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A Dona Luisinha do 6º D

A minha mãe mora no 6ºC e tem uma boa impressão da vizinha do lado. Diz-me que a Dona Luisinha do 6º D está sempre pronta a ajudar – só tem o defeito de não conseguir evitar dar uma enorme publicidade às suas boas acções.

Sempre que empresta dinheiro à mulher do senhor Zé Manel ou vai à farmácia aviar a receita para a viúva do 10º A que está acamada, a Dona Luisinha faz questão que o prédio todo tome conhecimento destes seus actos generosos.

A minha mãe não aprecia que este vício da vizinha do 6º D e por isso evita pedir-lhe alguma coisa pois já sabe que esse favor vai ter o preço de cair no domínio público do prédio.

Vem a história da Dona Luisinha a propósito da excelente campanha publicitária em que o BES chama a atenção para o facto de que ser muito mais do que um banco que obtém lucros gordos a vender caro aos clientes o dinheiro que lhes compra barato.

A campanha é feliz não só do ponto de vista estético, mas também do ponto de vista de «timing» já que 2007 foi o primeiro ano em que as notícias do BES não transbordaram da página financeira para a dos escândalos, ao contrário do que sucedeu com os seus principais concorrentes.

È também feliz para as cofres dos meios de Comunicação Social que foram bafejados com ela. Três páginas duplas de publicidade (na versão tablóide) são um maná dos céus nestes tempos de incerteza e vacas magras.

Vejo a campanha do BES como um «teaser» para a divulgação do Relatório de Responsabilidade Social em que o banco detalhará o que fez para dar de volta à comunidade parte do dinheiro que ganhou no seu negócio.

A responsabilidade social e a sustentabilidade estão definitivamente na moda e todas as grandes companhias cotadas sentem a obrigação de acompanhar o Relatório e Contas, onde explicam como ganharam dinheiro, de um outro relatório onde pormenorizam como devolveram à sociedade parte da massa que lhe extraíram.

Só posso elogiar as empresas que se preocupam em reparar o que estragaram na Natureza com a sua actividade -  e que devolvem parte dos seus lucros sob a forma de subsídios à investigação científica e patrocínios culturais ou a actividades nobres de organizações não lucrativas. Só posso admirar companhias conscientes do seu papel social e que actuam em conformidade.

A única coisa que não me parece tão bem é que as empresas não resistam à tentação de obter ganhos de imagem à custa do bem que fazem, armando-se em santinhas e transformando-se numa espécie de correspondentes empresariais à Dona Luisinha do 6º D.

O Antigo Testamento ensinou-nos que dar aos pobres é emprestar a Deus - e que é um acto de justiça ajudar os necessitados. Mas o Novo Testamento precisa que esta ajuda não deve ser prestada com ostentação ao dizer-nos: «Que a tua mão direita não saiba o que fez a esquerda».

Março está aí, ao dobrar da esquina, e com ele o cortejo dos Relatórios – de Contas e de Responsabilidade Social. Nesta altura, acho que vale a pena pensar neste precioso ensinamento bíblico e evitar o pecado mortal da soberba.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi ontem publicada do diário económico Oje (www.oje.pt)

 

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