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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

O problema não é de Lisboa ( 1 )

 

Caros bussolistas !

A pensar na Semana Santa que aí vem , muito propícia à reflexão e ao lazer , começo hoje a publicação de um notável ensaio do meu amigo Manuel Cerqueira Gomes , ilustre advogado portuense.

Para conforto dos leitores mais ocupados e também para criar um suspense que o texto merece , a publicação será dividida em 8 posts incluindo o de hoje que estarão disponíveis no vosso Bússola até à Páscoa.

Numa opinião que  também subscrevo, Cerqueira Gomes  acha que o  problema não é de Lisboa enquanto cidade, bonita por sinal, o problema é da gentinha, talvez a mais provinciana de todo o Portugal, que tornou uma cidade, que deveria ser a capital de Portugal, num monstro macrocefálico e asfixiante.

 

AS RAZÕES DA SITUAÇÃO

 

AUSÊNCIA DE VOZ POLÍTICA ORGANIZADA

 

O estado a que tudo isto chegou tem culpados que são facilmente identificáveis – TODOS NÓS NORTENHOS.

 

É verdade que houve sempre uma certa subserviência relativamente à capital.

 

Se recuarmos na História verificamos que sempre nos sacrificámos pelo país, muitas vezes em proveito de Lisboa.

 

A história das tripas, na célebre expedição a Ceuta, é paradigmática.

 

Tripas essas que, de restos menores do animal, se transformaram num dos ex-libris da gastronomia portuense.

 

Mas tudo mudou.

 

Já há muito concluímos que não há mais razões para sermos subalternizados relativamente a Lisboa.

 

De resto, acho que não há, na maioria das pessoas do Norte, qualquer complexo de menoridade relativamente a Lisboa.

 

Noto, isso sim, algum desconforto e dor de cotovelo de muita gente de Lisboa quando o nome do Porto se começa a ouvir cada vez mais e pelas melhores razões, nomeadamente quando se fala:

·        do esmagador êxito, Nacional e Internacional, do FC Porto;

·        dos dois maiores bancos portugueses pós 25 de Abril terem sido fundados no Porto;

·        dos dois maiores empresários do país, no pós 25 de Abril, serem do Norte;

·        de Serralves, como uma referência mundial na gestão de Museus;

·        das ruas do Porto e das estradas do norte cheias de turistas trazidos por companhias estrangeiras (não pela TAP);

·        que os arquitectos do Porto são repetidamente galardoados nos melhores prémios da arquitectura mundial; etc.

 

Muitos, geralmente do sul, dizem que nós estamos sempre a dizer mal de Lisboa, por isto e por aquilo.

 

Não nos preocupa o que Lisboa tem. O que verdadeiramente nos preocupa é aquilo que não temos e que deveríamos ter caso este país fosse, conforme todos nos prometeram, descentralizado.

 

Mas se é evidente que já se nota um despertar das gentes do norte relativamente às injustas assimetrias deste país, também não deixa de ser verdade que ainda não nos insurgimos com a determinação que a situação justifica.

 

Pergunto:

Quantas pessoas vieram para as ruas no Porto, ou em Braga, por causa do traçado e dos timings TGV?

 

Na verdade,

Causa-me grande incomodidade verificar que as Injustiças causadas pela macrocefalia não provocam, ainda, qualquer reacção organizada.

 

A não ser uma cobarde resignação de todos nós.

 

Por um lado, sofremos para dentro.

 

Não explodimos como os espanhóis.

 

Por outro, não somos devidamente orientados por uma referência, por um líder, que assumidamente nos defenda.

 

Já viram que ao longo de tanto tempo ainda não fomos capazes de criar um líder político que defendesse os nossos interesses?

 

Dos políticos que aqui nasceram, muitos deles brilhantes, não houve um sequer que nos dissesse aquilo porque ansiosamente aguardamos: “Sou político, sou do Norte, quero defender a causa dos meus conterrâneos e, sosseguem, a última coisa que quero é ir para Lisboa”.

 

Infelizmente todos eles tiveram a mesma tentação fatal, isto é, não descansaram enquanto não chegaram a Lisboa, uns para deputados, outros para o governo…

 

E o Norte sente muito isso, só que sofre para dentro, pelo feitio próprio das nossas gentes.

 

Para se ver como sofre e não esquece, está o caso paradigmático do castigo que o povo do Porto infligiu ao Dr. Fernando Gomes que, incompreensivelmente, trocou a Presidência da Câmara do Porto pelo ministério da polícia de Lisboa. Como foi possível ter acontecido?

 

Acho que as gentes do Porto ficaram desiludidas, sentiram-se atraiçoadas.

 

Verificámos que não era aquela a pessoa que precisávamos.

 

Com todo o respeito pelo vosso trabalho e com o que é feito noutras iniciativas, julgo que não chegaremos a lado nenhum sem que tenhamos um canal político próprio que possa, de forma sistemática e organizada, defender os interesses do Norte.

 

Podem dizer: mas estamos todos fartos dos políticos e dos partidos! Também eu, e é por isso que faz falta quem faça política de forma diferente, uma politica próxima do eleitor e em que este se reveja.

 

Já viram o que seria um partido político do Norte que elegesse deputados?

 

Que forçasse uma verdadeira regionalização!

 

Temo, contudo, que tal não possa ser levado a cabo por impossibilidade legal/constitucional.

 

Alguém ainda tem dúvidas que o crescimento de Espanha se deve, em grande parte, à força das regiões autónomas e da vontade que têm de se afirmar?

 

A cumplicidade positiva entre as forças vivas de uma determinada zona com o poder político regional que as representa tem sido um dos segredos do crescimento de Espanha.

 

Repugna-me ter de continuar a eleger deputados que vão confortavelmente para o hemiciclo dizer que sim a tudo aquilo que o partido impõe, esquecendo, pura e simplesmente, que estão lá para defender os interesses das pessoas que os elegeram.

 

Não temos, em conclusão, um verdadeiro sistema representativo!

Manuel Cerqueira Gomes

Próximo capítulo  " A mentira em que vivemos " a postar brevemente

Exército de Salvação Nacional

Batalhão Bússola

Pelotão de Co produção

Manuel Serrão

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