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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Papel higiénico, gravatas e preço

 

 

Compra-se um gravata por capricho, porque se gostou dela, foi amor à primeira vista, e não por precisarmos dela. Por necessidade, compramos liquido amarelo para a louça, papel higiénico leite ou meias pretas de algodão – não gravatas.

Quem usa gravata tem dezenas delas a encher uma ou duas gavetas da cómoda, um stock que incluiu a fatal gravata preta indispensável em funerais e velórios.

Eu desenvolvi  um método pessoal para a aquisição de gravatas. Se ao passar por uma montra me sinto atraído por uma, avalio-a mentalmente, fixo o preço que estou disposto a pagar por ela, entro n loja e pergunto quanto custa. Compro se o preço for igual ou inferior à minha avaliação.

Reconheço que o meu método de comprar gravatas não é muito original. A definição clássica do valor de um objecto ou recurso é o preço que conseguirmos obter por ele quando precisamos de o vender.

Os saldos foram o artifício inventado pelo comércio ocidental para escoar os artigos que ficaram enchalhados e consistem em ir baixando sucessivamente o preço até conseguir seduzir a clientela e empandeirar a mercadoria.

Os árabes que nunca aderiram à revolução do preço fixo (uma nódoa de socialismo que caiu no pano das economias capitalistas ocidentais) praticam um modelo de negociação bem mais avançado, em que cada transacção resulta de um esforço desenvolvido em conjunto por vendedor e comprador, de adequar a oferta à procura. Trata-se de um processo bastante sofisticado que qualificamos, um pouco depreciativamente, de ”marralhar”.

Os preços de agora já não como os de antigamente. A formação do preço mudou radicalmente por culpa do poder crescente dos consumidores.

Dantes os construtores de automóveis fabricavam o automóvel e depois estabeleciam o seu preço de venda. Agora fazem a contrário. Definem o preço a que o modelo vai ser vendido e só depois, sabendo o dinheiro que podem gastar, desenham e fabricam o automóvel.

O preço é o elemento nuclear da espécie de jogo do rato e do gato entre vendedores e compradores. Quando negociava a produção de um novo modelo de impressora, que queria lançar no mercado em duas versões – topo de gama e standard -, uma famosa marca norte-americana de produtos informáticos constatou que ficava mais barato fabricar só as impressoras caras. Não se atrapalhou. Fez a encomenda com um pedido adicional – no final tinham de retirar algumas funções ao lote que ia ser vendido a um preço mais baixo.

Quando o consumidor quer preço baixo não há outro remédio senão dar-lhe o produto barato. É esta a base do fenómeno “low cost”, de que o Pingo Doce é um belo “case study” pois apresenta baiar os preços para os nivesi dos seus  concorrentes”discount” Lidl e Minipreço,  conseguindo manter a imagem de cadeia para classe média com lojas agradáveis e variedade de produto.  

Mas quando o consumidor quer pagar caro por um produto diferente há também que lhe fazer a vontade. É esta a base para a prosperidade da indústria do luxo mesmo em tempos de crise.

Estas são as regras do jogo. E é muito gratificante ver que há empresas portugueses, como a Renova, que é eximia praticante deste jogo, em que ganham acumulando soluções tipo Ovo de Colombo. Inventou o papel higiénico preto e vermelho para os consumidores ricos. E agora desencantou uma solução para contornar o aumentando o preço do transporte – ao retirar o ar das embalagens consegue meter 7,3 toneladas de papel num caimão que dantes só transportava 5,3.

 

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi publicada no Diário de Notícias

 

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