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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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O Pai Natal e as caixas vazias

O meu filho mais novo tem oito anos e não acredita no Pai Natal.

O João acredita no Natal e acredita que o pai tem influência na quantidade e qualidade das prendas que vai receber no Natal -  e ele tem um medo terrível de lhe calharem caixas vazias, ou seja de abrir os embrulhos e não estar nada lá dentro!

Mas não acredita na existência do Pai Natal, esse velho com 1600 anos que encabeça a lista dos mais ricos da Forbes, na categoria de milionários de ficção, atirando o Tio Patinhas para um vergonhoso quarto lugar.

O valor da fortuna do velho pançudo e de barbas brancas, que anda sempre vestido de vermelho, é considerado incalculável pela Forbes, o que até se compreende se levarmos em conta que é dono de um rentável fábrica no Pólo Norte, onde são produzidas as prendas que são distribuídas no Natal a crianças de todo o Mundo.

Eu sou como o João e sempre desconfiei de todos os Pais Natais,  numa atitude cínica que o povo na sua sabedoria condensou numa frase: “Quando a esmola é grande, o pobre desconfio”.

Não acredito no Pai Natal, mas acredito no Natal, tal como o João, os comerciantes (que fazem nesta época 30% do seu negócio anual) e os industriais (que fornecem os comerciantes).

Quando se sabe que 40% dos livros são vendidos no Natal, dá pena ver a Byblos morrer quando a praia podia estar à vista.

Quando se sabe que 70% do dinheiro das prendas é gasto em roupa e sapatos, ficamos a fazer figas para que a quebra seja ligeira e não fustigue demasiado as indústrias de têxtil e de calçado.

Para já, o cenário de catástrofe parece afastado. A Deloitte calcula que vamos gastar menos que 4,8% do que no ano passado. Na primeira quinzena, os levantamentos no multibanco caíram 80 milhões de euros face ao mesmo período de 2007, mas as compras com cartão estão estacionárias. É capaz de ser o pior Natal desde a recessão de 2003. Mas esperemos que não seja o pior desde 1984.

A mais preocupante crise desde que vivemos em democracia (ministro das Finanças dixit)  obrigou o primeiro ministro a vestir o fato vermelho e disfarçar-se de Pai Natal.

Para reanimar a economia, Sócrates promete gastar dois mil milhões de euros em prendas para as famílias e as empresas. É muito dinheiro (1,2% do PIB) e os embrulhos são vistosos – estradas, barragens, escolas, rede de banda larga, crédito fácil para as empresas, 100 mil empregos, menos IRC, descida do IMI, aumento deduções no IRS, etc.

Mas eu estou com um medo terrível, igual ao do João, de abrir estas prendas e deparar com caixas vazias .

Em Junho, no debate sobre o Estado da Nação, Sócrates anunciou uma bela prenda às famílias: a redução para metade do preço dos passes dos transportes públicos para os estudantes.

Abri a prenda e fiquei desiludido. Os 50% de desconto eram sobre o valor da assinatura (23 euros/mês, no caso do passe Cidade no Porto) e não sobre os 18 euros que o João paga, como menor. E a poupança de 6,5 euros tinha um custo elevado. O passe do Sócrates só dá para o percurso casa-escola-casa e não serve ao fim de semana.

Era uma caixa vazia.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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