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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Lipstick jungle

 

O Índice do Baton é o um dos mais fiáveis barómetros financeiros para avaliar a intensidade de uma crise.  É muito mais sexy que as curvas do PSI 20, PIB, produção industrial e confiança dos consumidores que, enfeitiçadas pela força de gravidade, não cessam de mergulhar em direcção ao centro da Terra.

Este índice , baptizado pelo presidente da Estée Lauder, baseia-se na evidência estatística de que as vendas de cosméticos aumentam em razão proporcional à queda do poder de compra dos consumidores, e mede a percepção que a metade mais instintiva da humanidade (as mulheres) têm da profundidade da crise.

Em tempos de incerteza, por prudência ou absoluta falta de fundos, em vez de comprarem umas botas ou um vestido novo, as mulheres refugiam-se em artigos mais baratos, os cosméticos, que lhes permitem sentirem-se bonitas e atraentes.

Pintar as unhas e os lábios fica muito mais barato do que comprar um casaco Max Mara - e não deixa de produzir o seu efeito.

Nos meses a seguir ao 11 de Setembro de 2001, as vendas de cosméticos duplicaram. Foi a definitiva prova dos nove da fiabilidade do Índice Baton, que passou ser usado por jornais como o Financial Times, que acaba de agravar o pânico ao revelar que as vendas de cosméticos dispararam 40% nos últimos meses.

O Índice Baton encerra uma lição de importância fulcral: em momentos de crise temos de manter um bom aspecto exterior e aparentar que tudo nos corre às mil maravilhas.

Senão vejamos. Encontra, na rua, um amigo com um ar desmazelado. Pergunta-lhe pela vida e apanha na volta com um dramalhão: a mulher está a fazer quimio no IPO, o filho abandonou os estudos, a sogra mudou-se lá para casa, e, como se tudo isto não bastasse, ele ficou desempregado porque o sacana do chefe…  É fatal como o destino que nunca mais vai atender o telemóvel deste chato, com medo que lhe vá pedir dinheiro ou um emprego.

Como a generalidade das pessoas fogem da desgraça e miséria, faz todo o sentido camuflá-las. É neste sentido prático de sobrevivência que se baseia a infalibilidade do Índice do Baton.

Não acho, por isso, pertinentes as críticas ao cheque prenda de 2550 euros, para gastar na Fashion Clinic (representada pela Paula Amorim, a filha de Américo), que os membros do Governo ofereceram a Sócrates pelo Natal.

Nestes tempos de crise e incerteza, temos toda a vantagem em que o nosso primeiro ministro ande bem ataviado nos seus périplos por Caracas, Tripoli, Luanda e Bruxelas.

Sócrates faz bem em não poupar na cosmética - vestindo bons fatos, aligeirando com palavras optimistas a retórica da crise, abonecando os relatórios dos bancos e arejando as máquinas dos empreiteiros.

O problema é tudo isso é importante, mas não passa de cosmética, de aparências que não conseguem enganar o Indice Baton.

Para a economia portuguesa ultrapassar a crise, é vital diminuirmos o alarmante défice das transacções correntes. E para isso, temos de seguir o conselho sábio de Daniel Bessa: “Precisamos como de pão para a boca de pôr dinheiro em coisas que exportem”.

Jorge Fiel

 

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

 

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