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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Vou passar a comprar “O Jogo”

O chefe Nuvem Sentada era já bastante velho quando morreu, no final do Verão, deixando os destinos da nação Comanche nas mãos do neto, Língua Irrequieta, um jovem desempoeirado mas inexperiente.

Só quando o Outono já ia alto, e o Conselho de Velhos lhe perguntou se os membros da tribo deviam começar a cortar lenha, é que Língua Irrequieta se apercebeu que decidir sobre o aprovisionamento de madeira fazia parte das suas novas funções. Disse-lhes que sim, que começassem a cortar.

Quando, passados 15 dias, voltou a ser confrontado com a mesma questão, já estava habilitado a decidir com base em informações. Telefonara para o Instituto de Metereologia que lhe falara de um Inverno com grandes massas de ar frio. Foi rápido na resposta: os irmãos deviam continuar a agir como valentes lenhadores.

Duas semanas depois, os velhos perguntaram de novo: “O grande chefe acha mesmo que o Inverno vai ser assim tão frio que a lenha já cortada não chegará para nos aquecer?”. Lingua Irrequieta disse que sim: Que sempre era melhor que, no final do Inverno, sobrasse lenha do que se faltasse. Mas ligou para a Metereologia, a saber se se confirmava que o Inverno ia ser anormalmente frio.

“Tudo leva a crer que sim, meu amigo. Os sacanas dos índios continuam a a cortar lenha como doidos!”, declarou-lhe o cientista.

Esta anedota dos índios, que me foi contada pelo meu amigo Antas Teles, ajuda-nos a perceber o processo de formação de um pensamento único em circuito fechado.

As causas produzem efeitos, que se transformam em causas nesta sociedade em que a informação se propaga a uma velocidade supersónica.

Alberto da Ponte contou noutro dia um episódio revelador de como se reproduz numa perigosa espiral esta “crise que só se vive uma vez na vida”  - que Basílio Horta compara a um “tremor de terra”, enquanto Ricardo Salgado fala de uma “tempestade”  (curioso que ambos atirem para a Natureza as culpas de uma situação que é da responsabilidade da ganância humana).

Um amigo médico, sportinguista como ele, contou ao CEO da Centralcer que, apesar de não sido afectado pela crise, deixara de comprar dois diários desportivos: “Por causa da crise, passei a comprar só um”.

Neste momento, em que o medo – o medo de consumir, o medo de decidir e o medo de falhar – se espalhou como uma epidemia e está instalado, vale a pena relembrar as sábias palavras de Roosevelt (que tirou os EUA da Grande Depressão), no primeiro discurso presidencial:

“Esta Nação, aguentará como aguentou, ressuscitará e prosperará. Por isso, antes de mais, deixem-me afirmar a minha firme convicção de que a única coisa que devemos ter medo é do próprio medo – do terror sem nome, irracional, injustificado, que paralisa os esforços para converter a retirada num avanço”.

Eu, que não comprava qualquer jornal desportivo, decidi que vou passar a comprar “O Jogo” todos os dias. Fico à espera que os meus amigos e conhecidos pensem o seguinte: “ Se o fonas do Fiel, que toma nota num papel de todas as despesas que faz, voltou a consumir, já podemos voltar a jantar fora pelo menos uma vez por semana…!”.

Jorge Fiel  

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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