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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

O de cima diz bem do de baixo

Ao ver que não o ia conseguir domesticar, Lisboa recebeu-o com pedras. A campanha suja contra o bastonário eleito pelos advogados da província decorreu com o profissionalismo que Fernando Gomes testemunhou quando teve a fraqueza de trocar o lugar de melhor presidente da Câmara que o Porto teve por um gabinete subalterno na esquina do Terreiro do Paço, onde Manuel Buíça feriu de morte a Monarquia.

A campanha falhou no que estava programado ser o ato final da lapidação, o tribunal da TVI onde a tonta Moura Guedes teve a imprudência de chamar bufo a um homem que após ter sido preso pela Pide, em Coimbra, aguentou como um herói as humilhações, os três dias e três noites de interrogatórios e os 34 dias no isolamento, em Caxias.

O arraso que o bastonário deu à apresentadora televisiva, que por ter a boca maior que o cérebro está sempre a tentar dar passadas maiores que a perna, é um dos meus vídeos favoritos (a par do dos golos do 5-0 que o meu Porto deu ao Benfica do Marinho), que de vez em quando revisito no YouTube. É um espetáculo de cidadania.

Tenho muito orgulho em ser amigo do Marinho, de quem fui colega durante quase 20 anos, na Redação do "Expresso", quando ele usava o nome António Marinho.

Um das coisas que mais admiro nele é que ao longo das suas sucessivas reencarnações - universitário revoltado com a ditadura, professor, advogado, jornalista e bastonário - nunca teve medo de dizer o que pensa em voz alta e de pertencer aquele raro grupo de pessoas que quando lhe fazem uma pergunta a sua resposta não tem por objetivo agradar a quem a fez.

Com o Marinho e Pinto, bastonário reeleito por maioria absoluta e com a maior votação de sempre, estive apenas umas duas ou três vezes, a última das quais, há quase dois anos, terminou à mesa, à volta de um leitão, no Albatroz.

Mas, para além de coabitarmos um vez por mês esta página do nosso JN, vou acompanhando e aplaudindo à distância o seu combate por uma justiça mais barata, contra a soberba dos juízes, que se julgam donos dos tribunais, e um Parlamento que se tornou numa central de tráfico de influências, onde os deputados podem ter clientes com interesses nas leis que eles fazem.

Gostei da frontalidade com que avisou os estudantes para fugirem do cursos de Direito, evitando assim que a massificação acentue a proletarização e degradação da classe. E assino por baixo quando ele, de sobrolho carregado, denuncia uma Justiça injusta, cheia de silêncios e mentiras, que se curva perante os ricos e poderosos - e maltrata os pobre e desprotegidos.

Mas o que mais tenho a agradecer ao meu amigo Marinho é ter desmentido a fatalidade dos provincianos, como nós, se deixarem corromper pelo luxo e prazer - o cheiro a canela... - de Lisboa, tão bem caricaturado por Camilo, em "A queda de um anjo", na pessoa do deslumbrado fidalgo minhoto Calisto Elói.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

O que 007 ensina ao Vaticano

 

O que me espantou em "Skyfall" não foi o vilão Raoul Silva (magnificamente interpretado por um Bardem oxigenado) acariciar lubricamente as virilhas de Bond. O que mais me surpreendeu foi a resposta equívoca - "E quem disse que é a primeira vez?" - de um 007 que, de acordo com a publicação científica britânica "Sex Roles", teve 46 parceiras sexuais, da Ursula Andress em "Dr. No" (1962) até Hale Berry (a minha preferida) em "Morre noutro dia" (2002).

Um James Bond bissexual? Já esteve mais longe, até porque o segredo da sobrevivência da saga 007 no ambiente ultracompetitivo de Hollywood tem sido a sua capacidade de inovação e adaptação a um mundo em vertiginosa mudança.

A série Bond foi pioneira no aproveitamento dos filmes para vender carros (foi o vil metal que impôs o BMW 750 no lugar do Aston Martin DB5 prateado ressuscitado por Sam Mendes para morrer em "Skyfall"), bebidas (a Heineken pagou para James preferir cerveja ao seu clássico martini "stirred not shaken"), relógios (o Omega Seamaster vai no 7.oº filme consecutivo),telemóveis e tablets Xperia, televisores Sony e por aí adiante.

Os 007 são o mais luminoso caso de product placement, ou seja, do negócio de meter publicidade dentro das fitas. E a escolha das localizações também não é inocente. As cenas rodadas em Xangai e Macau só uma óbvia piscadela de olho ao mercado chinês, que no ano passado gastou 2,1 mil milhões de dólares em produtos made in Hollywood.

Claro que uma coisa são 2000 anos e outra são 50, mas também é verdade que no último meio século o Mundo acelerou mais do que nos restantes 1962 da era cristã. Por isso, o Vaticano terá muito a ganhar se estudar com atenção como a saga 007 se tem adaptado à mudança de vidas e costumes.

Alguma coisa está mal quando Fátima perde meio milhão de peregrinos, a diminuição de donativos obriga a Igreja a fazer despedimentos e vêm a público casos como o do vice-reitor do seminário do Fundão.

Alguma coisa está muito mal quando num mundo que treme de incerteza, as pessoas fogem da fé em vez de nela buscarem refúgio e conforto.

E o que está mal não se resolve tentando refrescar a imagem de uma religião revelando que a vaca e o burro não podiam ter assistido ao nascimento do Menino (mas que, por piedade e amor à tradição, podem ficar no presépio) e que os Reis Magos terão vindo do Sul da Península Ibérica (quem sabe se não serão algarvios de Silves?).

Está na hora de Igreja Católica iniciar um processo de perestroika e glasnost que reveja situações tão absurdas e anacrónicas como barrar o acesso das mulheres ao sacerdócio e a questão do celibato.

É melhor reconhecer os direitos das mulheres e homens da Igreja a terem uma vida sexual saudável, independentemente da sua orientação, do que reprimi-la com os resultados à vista no lamentável caso do padre do Fundão

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

Don´t fuck my job

O problema dos carros com mudanças automáticas é o pé esquerdo ficar a sobrar. Guiar um carro com caixa de velocidades é um trabalho que envolve os dois pés. O direito divide-se entre o acelerador e o travão, enquanto o esquerdo se especializa na embraiagem. Nos automóveis com caixa automática, é absolutamente proibido deixar o pé esquerdo entrar na dança dos pedais, senão...


Quando pego num carro automático, sei que tenho de estar em permanente tensão para evitar que as minhas rotinas de condução se imponham. Senão é asneira pela certa.


A minha asneira mais frequente é levar ao travão um pé esquerdo habituado a esmagar o pedal até ao fundo, provocando assim uma travagem brusca, cujas consequências se têm (felizmente) resumido a um susto, cheiro a borracha e desgaste escusado dos pneus.

Noutro dia, ao ler no "Jornal de Negócios" uma magnífica história da vida de Maria Isabel Lucas, 50 anos, uma estivadora do porto de Setúbal, fiquei a saber que a minha asneira não é a única a que um condutor habituado a carros com mudanças está exposto quando tem de guiar um automático.


Em defesa do argumento de que trabalhar na estiva não é para qualquer um, Isabel dá um exemplo: "Tem de ter muitos anos de experiência, aqui é tudo ao milímetro. Tenho aí visto acidentes de automóveis quando os carros são automáticos, em vez de travar, o pessoal às vezes acelera e pum, o carro galga por cima de outro carro".


Saber da estranha confusão que os estivadores fazem entre o pedal do travão e o do acelerador nos carros com mudanças automáticas desembraiou logo na minha cabeça a ideia de que a criminosa greve que desde agosto afeta os portos de Lisboa, Setúbal, Figueira da Foz e Aveiro só pode ter na sua origem a falta de discernimento de quem a faz.
 

Os cerca de 400 estivadores que envergam T-shirts trendy e cosmopolitas dizendo "Don't fuck my job" ainda não perceberam que quando se está num buraco a regra número 1 é parar de escavar - e como estão confusos, ao ponto de não se terem apercebido do tempo em que vivemos, prosseguem, egoístas, a sabotagem do esforço das empresas exportadoras.


Os cerca de 400 estivadores que abrilhantam os protestos vestidos com coletes refletores, calçados com botas de borracha de biqueira de aço e com a cara coberta por lenços pretos, à John Wayne, não perceberam que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros - e por isso não se importam de lixar o emprego dos outros para manterem direitos, privilégios e regalias absolutamente insustentáveis.


As consequências da irresponsabilidade suicida dos 400 estivadores grevistas só não são mais catastróficas porque o elevado sentido de responsabilidade dos outros 900 estivadores e da UGT mantêm a funcionar os portos de Leixões e Sines.


Neste caso da greve dos portos, o Governo tem uma oportunidade de ouro para demonstrar firmeza e impedir que os 400 estivadores grevistas,

em vez de cavarem apenas a própria sepultura, destruindo o seu emprego altamente remunerado, também enterrem o que resta da nossa competitividade e lixem os nossos postos de trabalho.


Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

Passos não é um idiota batizado

Calma! As aparências iludem. Ao contrário do que poderá parecer à primeira vista, Passos Coelho não é burro e sabe perfeitamente o que anda a fazer. Disfarça bem, mas sabe. Disfarçar é uma tática. Há gente assim, que parece idiota, sabe que parece idiota, mas como não é efetivamente idiota tira partido desse aspeto para levar a sua avante. Senão vejamos:

A Região Norte tem a mais elevada taxa de desemprego do país e a Área Metropolitana do Porto é onde a pobreza é mais dramática e se regista um mais elevado número de falências.

Portugal é o país mais desigual da UE a 27,já que 65% da nossa população vive em regiões onde o rendimento per capita é inferior a 75% da média comunitária. No país que vem a seguir, a Grécia, essa percentagem (22%) é 1/3 da portuguesa.

O Norte é a mais exportadora de todas as nossas regiões e onde são pagos os mais baixos salários do país. O salário líquido mensal em Lisboa é de 934 euros, a média nacional é 900, no Norte é de 746 - mais baixo que o pago no Alentejo, Centro e Algarve.

Neste cenário, ao tomarmos conhecimento que o primeiro-ministro se vangloriou de ter conseguido em Bruxelas um cheque extra de mil milhões de euros a ser aplicado na Madeira (100 milhões) e Lisboa (900 milhões) - as duas únicas regiões do país com rendimento per capita superior à média comunitária - é fácil sucumbir à tentação de considerar que Passos ou é um calhau com olhos ou um idiota que se prepara para acentuar a macrocefalia lisboeta que nos asfixia.

Mas é preciso ter calma. As aparência iludem. Estou em crer que Passos não é uma coisa (calhau com olhos) nem outra (um idiota centralista), e que, por isso, depois de ter o cheque do lado de cá, vai tirar da cartola um golpe de génio.

Passos vai explicar que a reindustrialização - a pedra de toque da sua agenda de crescimento, que espera que contrabalance os esfeitos perniciosos da austeridade e permita tornar o ajustamento sustentável - exige fortes investimentos a norte, a única região do país onde o tecido industrial tem as raízes mais fundas e está disponível a mão-de-obra indispensável para o sucesso deste esforço.

Com quatro ativos por cada reformado, o Norte é a região portuguesa que melhor resiste ao envelhecimento.

E se Bruxelas lhe perguntar: então pediste dinheiro para Lisboa e vais investi-lo no Norte? Passos Coelho vai argumentar, todo lampeiro, com o famoso efeito dispersão, explicando que a reindustrialização aumentará a receita fiscal e diminuirá as despesas com subsídios e prestações sociais, engordando assim os cofres do Estado com quartel-general em Lisboa.

Estão a ver? Não nos devemos precipitar. Afinal tudo leva a crer que o Passos Coelho afinal não é um idiota batizado, mas sim um tipo genial e fino como um alho.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

 

O Estado Downton Abbey

Ando viciado na Downton Abbey. Não perco um episódio desta fascinante série que mostra como em apenas um século o Mundo e a vida privada viraram do avesso. A história começa em 1912, com o naufrágio do Titanic a lançar um salpico de perturbação no invejável ramerrão da vida dos Crawley, uma família aristocrática inglesa que caminha para a falência, imperturbável e com pompa.

Downton Abbey é o castelo do Yorkshire onde os Crawley - Lord Grantham, a mulher (Cora, uma americana rica), as três filhas, e a mãe (a fabulosa professora McGonagall da saga Harry Potter) - vivem ociosa e alegremente acima das suas possibilidades.

Uma legião de criados, comandados com punho de ferro pelo mordomo Mr. Carson, permitem aos Crawley levar a vida sem mexer uma palha. A principal canseira no seu dia a dia é, quando acordam, decidirem se tomam o pequeno-almoço na cama ou descem à sala - onde lareira e candeeiros foram acesos com antecedência para tornar o ambiente confortável.

Mrs. Patmore, a cozinheira, é a minha personagem preferida do populoso andar de baixo, onde habitam a austera governanta Mrs. Hughes e um número infindável de valets, footmen, maids, motoristas e ajudantes de cozinha, que trabalham para que nada falte aos Crawley.

Lord Grantham é um inútil simpático que após ter torrado na Bolsa o dote da mulher só evitou a bancarrota porque Downton Abbey foi resgatada pela infusão da fortuna que Matthew (um primo viúvo e afastado que se tornou seu genro ao casar com Mary, a mais velha das três filhas) herdou do sogro.

Downton Abbey faz-me lembrar o Estado português, que depois de ter vivido ociosa e alegremente acima das suas possibilidades, a contratar criadagem a eito (só entre 95 e 05, engordou a folha de salários com mais 100 mil novos funcionários públicos), apenas evitou a bancarrota ao ser resgatado pela troika.

E apesar da situação ser triste, dá--me vontade de rir quando vejo o debate sobre o nosso futuro situado em termos da escolha entre um Estado social ou um Estado liberal.

As despesas com o Estado social (pensões, saúde, subsídios de desemprego, etc.) representam apenas 25% do PIB. E Portugal é o terceiro país da OCDE onde os gastos sociais menos subiram desde o início da crise.

Em saúde, mesmo antes dos cortes, investíamos apenas 7% do PIB, menos que a média da OCDE (7,5%). Idem aspas nos apoios sociais: levam 18,7% do PIB, bem abaixo da média de 20,5%. Em contrapartida, só o Chipre (que vive em estado de guerra latente) gasta mais (4,7% do PIB) que nós (4,1%) em defesa e segurança.

A alternativa não é entre um Estado social e um Estado liberal. A alternativa é entre um Estado Downton Abbey - com 1182 empresas públicas, 29 mil carros, 356 institutos públicos, 343 empresas municipais e 1.3740 instituições sentadas à mesa do Orçamento - e um Estado bem gerido. O resto é conversa.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

 

Como lidar com arrumadores

Tenho o hábito de não dar uma moedinha aos arrumadores. Acho que eles são uns parasitas e pequenos chantagistas, que adotaram e adaptaram o engenhoso modelo de negócio inventado pela Máfia que consiste em cobrar aos comerciantes dinheiro para se protegerem deles próprios, os mafiosos.

Não é por o arrumador esbracejar a sinalizar um lugar vago que está à vista de toda a gente (pelo menos de quem tenha menos de 20 dioptrias em cada olho) que um condutor dá a moedinha. Está sim a proteger-se da ameaça velada, apesar de não verbalizada, de, na volta, encontrar o carro riscado.

Um risco no carro é o risco que corre quem não contribui para a felicidade dos arrumadores.

Eu corro esse risco na boa, pois até acho que os riscos no carro são como as rugas na nossa cara. Temos de nos habituar a viver com eles (os riscos) e elas (as rugas).

Claro que há honrosas exceções. Quando trabalhava no escritório do Porto do "Expresso", em Júlio Dinis, um colega meu mantinha sob contrato um arrumador que atuava na zona do Bom Sucesso.

Era uma espécie de serviço de valet parking, como está na moda ser disponibilizado à porta dos restaurantes de grandes metrópoles, como São Paulo ou Los Angeles, nas zonas onde lugares vagos de estacionamento são um fator escasso.

O Paulino chegava com o carro e não tinha de se preocupar em arranjar lugar. Deixava-o em segunda fila e confiava a chave ao arrumador, que o estacionava corretamente logo que surgisse uma vaga - e, mal detetava a presença de fiscalização, corria a meter diligentemente uma moedinha no parquímetro e o respetivo papelinho junto ao para-brisas.

O arrumador do Paulino não era um chantagista, mas sim um prestador de serviços, um empreendedor que sabia criar valor e um exemplo a elogiar e seguir - apesar de desenvolver a sua atividade no âmbito da economia paralela (estará muito longe de ser o único a fugir aos impostos).

Em junho, estava sentado numa esplanada, em Boston, em frente ao Macy, a preparar um passeio pelo North End, quando ouvi uma simpática voz feminina a disponibilizar-se para me ajudar.

Do you need some help? Não, não precisava, mas até parecia que sim, pois estava debruçado sobre um mapa e três guias (DK, Time Out e Gallimard).

Mal ouviu a minha resposta, a senhora simpática pegou numa vassoura e começou a varrer a rua e eu fiquei a saber, pelos dizeres estampados (Ambassador Boston Downtown) na sua sweater verde (a cor de Boston) que era uma embaixadora da cidade, destacada para prestar serviço na Baixa.

Qualificar os arrumadores, transformando-os em prestadores de serviços de valet parking, e reconverter desempregados de longa duração e beneficiários do RSI em embaixadores multitarefas (que tanto limpam a rua como usam o walkie talkie para reportar problemas ou ocorrências e disponibilizam ajuda a quem passa) seriam boas ideias para melhorar o ambiente nas nossas cidades e garantir um trabalho digno e útil aos nossos concidadãos que atravessam uma fase menos boa das suas vidas.

Jorge Fiel

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Não gosto de dar esmolas

Não tenho o hábito de dar esmolas. Incomoda-me ser confrontado por pessoas a quem não me liga qualquer espécie de laço e que, sem mais, me pedem dinheiro. Digo que não com a cabeça, mas fico com um sentimento de culpa por não ter correspondido ao pedido de auxílio de alguém que as circunstâncias da vida forçaram a abdicar dos mais básicos princípios da dignidade humana e a andar pelas ruas, de mão estendida, a pedir uma moedinha.

Sinto culpa mas também revolta até porque há algo de extorsão emocional no ato de pedir, a que sinto que não devo ceder.

"Olha para ti, bem alimentado, dinheiro na carteira, salário a cair todos os fins de mês na conta e egoísta ao ponto de não me dares uma moeda de valor equivalente ao que custa uma saqueta de cromos para o teu filho ou ao que deixas de gorjeta na mesa do restaurante".

É esta censura chantagista que sinto no olhar dos pedintes de rua - e por isso evito cruzar-me com eles, o que já me obrigou a refazer os percursos. Em vez de subir a Av. da Boavista até à Rotunda, passei a cortar pela rua do cemitério de Agramonte para evitar a velhinha de óculos, com idade para ser minha mãe, que todas as manhãs estaciona bem cedo, nos semáforos da Casa da Música, e bate no vidro do lado do condutor a pedir uma moedinha.

Infelizmente, a pobreza alastra como uma mancha de óleo. Com 1,4 milhões de reformados com pensões inferiores a 500 euros/mês, mais de um milhão de pessoas sem emprego, 330 mil a viverem do RSI e 550 mil a ganharem o salário mínimo, não nos podemos espantar quando o Eurostat diz que um em cada quatro portugueses vive em risco de pobreza.

O mais alarmante é que, por causa do desemprego, divórcio ou sobre-endividamento, 41% dos carenciados são novos pobres. E a pobreza de quem nunca foi pobre é socialmente mais preocupante do que a resignação das pessoas que já não se importam de a ostentar, andando pelas ruas a pedir uma moedinha.

Eu sei que não me compete a mim, individualmente, combater a pobreza e desigualdade galopantes. Esse o papel de redistribuição da riqueza e fomento da coesão social pertence ao Estado que há 34 anos alimento com os meus impostos.

Mas também sei que, a curto prazo, o Estado é tão capaz de ter sucesso nessa tarefa como uma bailarina com uma perna de pau.

Por isso, todos nós devemos contribuir diretamente para atenuar a pobreza, de forma organizada e não dando esmolas, mesmo sabendo que isso é uma aspirina que atenua a dor mas não extirpa o mal. Por isso, vou ser particularmente generoso na próxima recolha do Banco Alimentar, agendada para o primeiro fim de semana de dezembro.

Temos de ser cuidadosos a distinguir entre a filantropia da responsabilidade social e a bolorenta caridade do bodo aos pobres. Mas não podemos deixar de ajudar a diminuir o índice de infelicidade no próximo Natal.

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

 

Eu até nem desgosto das 2ª feiras

 

Umas das consequências do nosso "Jornal de Notícias" se publicar todos os 365 dias do ano (366 nos bissextos) é que também todos os dias há jornalistas (e não só) a trabalharem, esforçando-se para que o JN do dia seguinte seja ainda melhor que o do dia.

O meu sistema de folgas é simples. Se numa semana descanso ao sábado e domingo, na seguinte folgo às 5.ª e 6.ª e trabalho ao fim de semana. O resultado é uma sucessão alternada de semanas em que ou estou ao serviço apenas três dias (2.ª, 3.ª e 4.ª) ou trabalho sete dias (sábado, domingo, 2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª e 6.ª).

Deve ser por isso que não faço coro com o protesto da mais famosa canção (I don't like mondays) dos Boomtown Rats, de Bob Geldof. À diferença da maioria do pessoal, que tem a rotina de trabalhar uma semana de cinco dias, nem suspiro pelas 6.as-feiras nem maldigo as 2.as. Eu até nem desgosto das 2.as-feiras.

No geral, esta 2.ª, dia 11, foi bastante calma, se excluirmos o movimento no aeroporto de Lisboa, com a chegada de Merkel, para uma visita de médico de cinco horas, e de Vale e Azevedo, para uma estada mais prolongada de cinco anos.

As diferenças não se quedam por aqui. Enquanto o ex-presidente do Benfica vai ficar os cinco anos à sombra, a chanceler alemã só pode ter ido daqui com uma corzinha, pois esteve debaixo das luzes da ribalta (e das câmaras de TV) durante todo o tempinho que passou entre nós.

Este frenesim de partidas e chegadas no aeroporto de Lisboa só pode ajudar, neste momento em que estamos a desfazer-nos da ANA (que, graças a Deus, tem bastantes pretendentes) e da TAP (para quem só há um noivo reticente, que se prepara para só ficar com ela se não pagar nem um cêntimo).

Mas achei bastante parola e provincianamente excessiva a cobertura televisiva da visita da chanceler. "Última hora: Merkel aterrou em Lisboa"? Por amor de Deus, deixem de fazer concorrência involuntária e desleal ao "Inimigo Público" e ao Ricardo Araújo Pereira!

Coube à RTP o melhor momento. Após ter transmitido em direto o número (pobre) que os Homens da Luta tinham preparado, a jovem repórter desafiou as forças do mal ao insistir para que eles mostrassem a prenda que traziam para Merkel. Obtida a garantia de que estavam em direto, o Jel e o Falâncio desembrulharam um das Caldas - quase tão enorme como o aumento de impostos anunciado pelo Gaspar.

O alarido feito em torno da visita da chanceler só prova que quem manda no circo mediático televisivo ou não percebeu ou não quer perceber que é tão estúpido diabolizar a Merkel como as 2.as-feiras.

Ir trabalhar à 2.ª-feira é uma bênção num país com mais de um milhão de pessoas sem emprego. E por muito que nos custe reconhecer, culpar Merkel pelos nossos males é teimar em tentar sacudir para outros a culpa dos nossos erros - uma atitude irresponsável que apenas prova que se errar é humano ainda é mais humano atribuir os nossos erros aos outros.

Jorge Fiel

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Fazer filhos é patriótico

É uma vergonha. Somos o 14.º melhor país do Mundo para ter filhos - de acordo com a tabela da Save the Children (a Noruega é o melhor e o Afeganistão o pior) - mas não tiramos partido disso. Temos a taxa de natalidade mais baixa da Europa, 1,3 filhos em média por mulher em idade fértil. Neste particular dos bebés, até a Grécia nos ganha. E não é por falta de prática, já que nós, portugueses, somos os que fazemos mais sexo (em média, duas vezes por semana) no universo de 13 países europeus de um estudo promovido pela multinacional farmacêutica Lilly.

É uma vergonha. Em 1956, o ano em que a minha mãe me trouxe ao mundo, nasceram 210 mil bebés em Portugal. Em 85, a Mariana, a minha primeira filha, foi uma das 130 mil crianças nascidas no ano anterior à adesão à CEE. Três anos depois, em 88, quando nasceu o Pedro, já o número de partos tinha caído para 122 mil - pouco mais que os 120 mil bebés registados no ano 2000, quando lhe dei o João como irmão mais novo.

Este século XXI tem sido uma miséria, com a natalidade em queda livre e consistente. Em 2009, caímos pela primeira vez abaixo dos 100 mil bebés. E neste ano vamos bater novo recorde negativo. No primeiro semestre, registaram-se menos quatro mil nascimentos que em 2011, pelo que não vamos chegar aos 90 mil. Uma vergonha, até um em cada oito bebés é filho de estrangeiros residentes em Portugal.

Anda tudo com os olhos postos na dívida pública, o desequilíbrio nas contas externas, a galopante taxa de desemprego e o défice orçamental, mas pouca gente se preocupa com o alarmante saldo natural negativo. Em 1961, nasceram mais 118 888 portugueses do que os que morreram. Em 2011, houve mais 4735 funerais do que partos.

Os mortos estão a ganhar aos vivos, dando razão à previsão da ONU de que em 2100 seremos apenas 6,7 milhões, ou seja, que num século a nossa população recuará cerca de 40%.

A letal combinação entre o envelhecimento acelerado e a queda a pique da natalidade arruinará a sustentabilidade da Segurança Social e comprometerá o nosso futuro coletivo.

O aumento da produtividade que a competitividade do país exige não se pode limitar aos locais de trabalho - tem de se estender à cama. Alguém tem de fazer alguma coisa, e esse alguém somos todos nós. Fazer filhos é patriótico. É investir no futuro.

A crise não pode ter as costas largas. Em 1960, Portugal era muito mais pobre, havia muito menos apoios sociais e económicos à maternidade e, apesar disso, produzíamos 200 mil bebés por ano. Mais do dobro que agora. Dois filhos por casal é o mínimo, para repor o stock de portugueses. E não pega a desculpa de que na altura só havia um canal de Televisão e era a preto e banco. Bora aí fazer filhos como se não houvesse amanhã!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

Tragédia à vista no aeroporto

 

Ao ver o amigo muito entretido com uma carraça, Tom Sawyer ficou invejoso e perguntou-lhe quanto queria por ela. Recebeu um não como resposta. Huckleberry Finn declarou solenemente não estar interessado em vendê-la.

"Não faz mal, de qualquer maneira é uma carraça muito pequena", desdenhou Tom. "Ora, qualquer um é capaz de dizer mal de uma carraça que não lhe pertence. Eu estou satisfeito com ela. Para mim é uma boa carraça", retorqui Huck.

"O que não falta são carraças! Se quisesse, podia ter mil!", replicou Tom, num esforço de banalização do produto, logo demonstrado pelo amigo: "Então por que é que não tens? Porque sabes perfeitissimamente que não podes! Esta carraça é muito nova, foi a primeira que vi este ano".

O negócio acabou por ser fechado. Concluída a primeira fase da negociação, passaram aos finalmente. Tom ofereceu um dente (cuja autenticidade estabeleceu levantando o lábio superior e mostrando a falha) pela cobiçada carraça, Huck não resistiu à tentação, a transação fez-se e os dois rapazes separaram-se, sentindo-se mais ricos e felizes do que eram antes.

O episódio da troca da carraça pelo dente, constante das Aventuras de Tom Swayer, de Mark Twain, resume os princípios basilares da arte de negociar e é ainda um bom ponto de partida para a redação de um manual de vendas. Um bom negócio é como o celebrado entre Tom e Huck - um negócio em que no final todas as partes ficam satisfeitas.

Pressionado pela troika a vender a ANA à pressa e em tempos de crise, o Governo dificilmente conseguirá fazer um bom negócio, pelo menos do nosso ponto de vista - o dos vendedores.

Da nebulosa de interesses diversos que formam o interesse nacional na privatização da ANA, o único que até agora foi acautelado foi da Câmara de Lisboa, que abichou 286 milhões de euros, por conta dos terrenos na Portela, de propriedade duvidosa, enquanto a Câmara do Porto continua a chuchar no dedo, apesar de ser comprovadamente proprietária de uma parcela dos terrenos do aeroporto Sá Carneiro.

Embora não seja ainda conhecido o caderno de encargos da privatização da ANA, tudo aponta para que o Governo se prepara para ter o comportamento irresponsável de ignorar os mais básicos princípios da negociação enunciados por Mark Twain e fazer ouvidos de mercador não só às pretensões dos empresários e autarcas do Norte mas também à recomendação da OCDE, que para evitar os malefícios de uma posição de monopólio privado aconselhou a divisão dos ativos, antes da venda, como forma de garantir a concorrência.

O aeroporto Sá Carneiro é demasiado importante para a economia do Porto e do Noroeste Peninsular. Seria criminoso abandonar incondicionalmente o seu futuro ao livre arbítrio de um monopólio privado - principalmente quando os empresários do Norte já se disponibilizaram para o comprar.

Jorge Fiel

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