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  <title>Bússola</title>
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  <description>Bússola - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Sun, 27 Jan 2013 17:32:53 GMT</lastBuildDate>
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  <pubDate>Sun, 27 Jan 2013 10:10:28 GMT</pubDate>
  <title>Pássaro, lombrigas e rinoceronte</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/219866.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=r6Yfmiuz6eVHMr6tzOMg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B09126034/14496124_lBd9p.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Paquidérmico e grotesco, o rinoceronte é também neurótico e pouco sociável. O seu temperamento irascível é famoso entre a bicharada. Duro de ouvido e quase cego, deve parte de leão da sua qualidade e tempo de vida ao tchiluanda, um pequeno e improvável amigo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tchiluanda é um pássaro africano que vive à custa do rinoceronte. Cata as carraças que se alojam nas suas orelhas ou pele grossa. E usa o bico pequeno e afiado para retirar os restos de comida que se alojam nos dentes. Ou seja, ao mesmo tempo que se alimenta, alivia o rinoceronte do vampirismo da carraça e impede que os seus dentes apodreçam e ele acabe por morrer à fome.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este pequeno pássaro faz ainda de sentinela, avisando o rinoceronte da presença de inimigos através de um grasnado agudo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Estado português é como o rinoceronte - paquidérmico, grotesco, duro de ouvido e quase cego - graças à incompetência e ausência de sentido de Estado de políticos que se entretiveram a comprar retumbantes vitórias eleitorais à custa do dinheiro dos nossos impostos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando chegou ao poder, em 1985, prometendo menos e melhor Estado, Cavaco encontrou 464 mil funcionários públicos. Quando saiu, dez anos depois, deixou-nos 639 mil, mais bem pagos e com mais regalias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A reforma do sistema remuneratório da Função Pública, promovida por Cavaco, foi a mãe do monstro despesista que nos asfixia e quase atirou para a falência. O diagnóstico é do insuspeito Miguel Cadilhe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;1991 é o ano da segunda maioria absoluta de Cavaco e também o ano recorde do crescimento da despesa com a Função Pública: subiu 15,2%.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao contratar 87 mil novos funcionários públicos por legislatura, Cavaco estabeleceu um recorde de que nem Guterres (75 mil por legislatura) se conseguiu aproximar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos últimos dois anos, os cortes na despesa do Estado foram horizontais, atingindo por igual todos os funcionários que vivem à sua custa, quer os que lhe são úteis e até indispensáveis (como é o caso do tchiluanda), quer os parasitas inutéis e absolutamente dispensáveis , como os montes de lombrigas que pululam nas bostas de rinoceronte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais mil para trás ou para a frente, parece pacífico que o ajustamento do Estado obriga à exclusão de 70 mil funcionários (ou seja 10% do efetivo) da sua folha de salários.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta tarefa é bem mais fácil do que pode parecer, pois há 65 mil funcionários públicos (dos quais 40% na Defesa e 15% na Educação) contratados a prazo, 34 mil pediram a reforma (antecipada, no caso de 25 mil) e ainda há que contabilizar rescisões por mútuo acordo e o recurso à megabolsa de excedentários.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A arte do Governo não está em livrar-se de 70 mil funcionários, mas sim em cortar apenas na gordura, não atingindo nervos e veias. Ou seja, livrar-se das lombrigas mas preservar os tchiluandas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>função pública</category>
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  <pubDate>Thu, 24 Jan 2013 10:10:19 GMT</pubDate>
  <title>Trabalho sexual é trabalho!</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/219638.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=jzCFMtqtzRR4leOk1jAj&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba612c3a9/14495408_zbFgh.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;277&quot; height=&quot;277&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ann, uma rapariga de Southampton que conheci (em todas as aceções do verbo, incluindo a bíblica) na apanha do morango, em Inglaterra, proporcionou-me uma iniciação sexual bastante completa. Naquele verão de 1972, em que viajei pela Europa de InterRail, eu tinha 16 anos, acabados de fazer. Sei que muito provavelmente devo à Ann o facto de, até agora, nunca ter sentido necessidade de usar os serviços de profissionais para ter uma vida sexual regular e satisfatória.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta declaração de nunca ter ido às putas pode encerrar algum orgulho mal disfarçado, mas acreditem que não contém uma gota sequer de crítica velada às trabalhadoras do sexo e seus clientes. Também nunca comi lampreia, fui à neve ou joguei golfe, e isso não quer dizer que menospreze ou critique quem se entretém a fazer grandes caminhadas animado pelo objetivo de enfiar uma pequena bola num buraco, ou os fanáticos pela lampreia e o esqui.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E se escrevi um prudente até agora na última frase do primeiro (e longo) parágrafo isso deve-se apenas a uma cautela derivada da leitura de um caso curioso ocorrido na Dinamarca, onde o diretor de um lar de terceira idade provocou uma enorme polémica ao incluir uma prostituta nos serviços de conforto - barbeiro, manicura e pedicura, enfermeiro, médica, etc. - providenciados aos idosos residentes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&quot;Registamos melhorias significativas na disposição e saúde dos idosos após a visita da acompanhante&quot;, contou o diretor do lar dinamarquês, que enfrentou o usual coro de críticas de hipócritas e falsos moralistas, mas contou com o apoio do ministro da Saúde dinamarquês.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há no nosso país uma indústria do sexo, que envolve cerca de 60 mil pessoas (mais ou menos tantos quantos os profissionais de saúde), cujos diferentes setores - que vão desde a prostituição até à rede de 150 sex shops, passando pelos/as strippers, atores e atrizes de filmes porno, trabalhadores de linhas eróticas, etc. - vivem na penumbra, entre uma legalidade disfarçada e uma clandestinidade consentida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que atire a primeira pedra quem nunca usufruiu de um produto desta indústria. E, por favor, na hora de meterem a mão na consciência, não esqueçam as loucas festas de despedida de solteiro, que nunca um livro vendeu tanto em tão pouco tempo como &quot;As 50 sombras de Grey&quot; (rotulado de porno para mamãs) e que as estatísticas juram que um em cada dois homens e uma em cada cinco mulheres veem regularmente pornografia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Numa altura em que quase toda a gente espreita uma oportunidade para fugir aos impostos e condena o crescimento da economia paralela, convinha deixarmos de ser hipócritas e aplaudir a luta dos/as prestadores de serviços sexuais que reivindicam a legalização da sua atividade e querem ser reconhecidos como trabalhadores como outros quaisquer, que pagam IRS e descontam para a Segurança Social, para em contrapartida terem direito a férias, subsídio de desemprego e reforma. Trabalho sexual é trabalho!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 22 Jan 2013 10:10:36 GMT</pubDate>
  <title>22 maquinistas da CP no Dragão?</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/219249.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=3LCFzz0A1wW8Tb1vBy6k&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1d12c601/14495030_CM4cD.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No dia em que encherem o Estádio das Antas com gente a pagar bilhete para ver 22 escriturários a escreverem à máquina, estarei de acordo com os que criticam o dinheiro que os jogadores de futebol ganham. Este argumento, do saudoso José Maria Pedroto, foi o melhor que ouvi em defesa dos elevados salários dos futebolistas, que à época eram muito menos pornográficos e estratosféricos do que agora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No início dos anos 80, o jogador mais bem pago do Porto ganhava o equivalente a 30 salários mínimos. Agora leva para casa cerca de 300 salários mínimos. Em 30 anos, ao nível do topo, a inflação no futebol português andou dez vezes mais rápida do que no resto da sociedade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O argumento de Pedroto é bom e racional. Mas apesar de saber que as exibições e golos do Cristiano Ronaldo ajudam a encher o Santiago Bernabéu (e o Real Madrid a cobrar um balúrdio pelas transmissões televisivas dos seus jogos), confesso que a minha consciência judaico-cristã fica bastante incomodada por saber que um português com o salário mínimo precisaria de trabalhar 300 anos (até ao século XXV, portanto) para receber o que o CR7 ganha num mês.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O argumento de Pedroto é bom e racional. No entanto nunca consegui digerir muito bem o hábito de pagarem aos futebolistas prémios de vitória ou até de empate. Compreendo o mecanismo de estimular um trabalhador através da instituição de um sistema de prémios por objetivos, mas no caso dos futebolistas até parece que o que lhe pagam ao fim do mês (e não é assim tão pouco) é para perderem os jogos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Também não consigo entender algumas peculiaridades do regime de trabalho dos 1200 maquinistas da CP, que beneficiam de 18 subsídios (oito fixos e dez variáveis), apesar das constantes transfusões de dinheiro dos contribuintes serem a única coisa que impede a morte de uma empresa com um passivo XXL de 3,3 mil milhões de euros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre que termina um período de trabalho completo, o maquinista da CP recebe um prémio. Cada vez que conduz, manobra ou faz o acompanhamento de um comboio, ganha um abono. E se o seu trabalho estiver organizado por turnos ou escalas, tem direito a um subsídio. E por aí adiante. Ao ler a lista arrependi-me de não ter ido para maquinista da CP.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Percebo que os maquinistas queiram defender o belíssimo pacote de regalias (algumas próprias de futebolistas, como a de receberem um prémio por terem cumprido o seu horário de trabalho...) mas não me parece justo que os clientes da empresa (os passageiros) sejam os únicos prejudicados pelas greves que fazem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até porque, e usando a imagem de Pedroto, acho muito duvidoso que alguém pague um bilhete para ver 22 maquinistas da CP a brincar aos comboios - pouca-terra, pouca-terra - no meio do relvado do Dragão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 14 Jan 2013 10:10:41 GMT</pubDate>
  <title>O parasita defende o seu bife</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/218963.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=uOhBRjFJ6oIt6VTegBdd&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc0131341/14494689_zMw5b.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;353&quot; height=&quot;353&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As famílias portuguesas habituaram-se rapidamente à ideia de que não podiam continuar a gastar mais do que ganhavam. Confrontadas com o desemprego, aumento dos impostos e do custo dos serviços (transportes, água, luz, saúde...), e a diminuição do poder de compra e apoios sociais, ajustaram-se, mudando o seu perfil do consumo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Começaram por transferir o consumo para dentro de casa, para mal dos restaurantes e bem dos super e hipermercados, que viram as vendas de congelados crescer em flecha. Depois, em 2012, repararam que cozinhar em casa ficava mais barato do que meter uma lasanha no micro-ondas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As empresas portuguesas habituaram-se rapidamente à ideia de que não podiam continuar a suportar custos superiores às receitas. Acabado de vez o tempo do crédito fácil e barato, com o consumo interno em queda livre, viraram-se para a exportação e, para evitarem o abismo da falência, ajustaram-se aumentando a produtividade, à custa da diminuição do poder de compra dos trabalhadores (chamados a produzir mais em troca de menos dinheiro) e de despedimentos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Estado é o único setor da sociedade portuguesa que continua a viver como dantes e a prova dos nove deste autismo criminoso é a cândida resposta dada pelo gabinete do secretário de Estado da Cultura (o sem vergonha Barreto Xavier) quando questionado sobre a nomeação de 27 funcionários publicada - só nove são novos, disseram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Estado português é o único setor da economia que quando está em dificuldades (a dívida pública é de 200 mil milhões de euros, 120% do PIB, o dobro do valor máximo a que nos com prometemos) continua a contratar, em vez de despedir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É preciso ser muito idiota para acreditar que tudo pode continuar na mesma, que o Estado e os seus funcionários podem passar incólumes e a assobiar para o lado à custa do sangue dos impostos e sacrifícios das famílias e das empresas privadas. O nosso drama é quem não consegue sequer identificar o problema é absolutamente incapaz de arranjar&quot;uma solução.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As contas estão feitas. O número mágico é quatro. Quatro como os evangelhos canónicos, os pontos cardeais, os ventos e as bestas do Apocalipse. Quatro mil milhões de euros é quanto o Estado tem de passar a gastar menos todos os anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parece difícil mas não é. Quatro mil milhões são 5% do Orçamento do Estado. Centenas de milhares de famílias e empresas já fizeram ajustamentos bem superiores a 5% dos seus orçamentos e sobreviveram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, por favor, não tentem atirar--nos areia para os olhos. Poupem--nos à histeria mentirosa de que cortar 5% ao Orçamento implica desmantelar o Estado social. Isso é o paleio de parasitas e ladrões de impostos que prosperam com a mão metida nos nossos bolsos. Quando o parasitado (o Estado obeso) está em perigo, o parasita defende-o. Defende o seu bife.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O nosso drama é que a vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 08 Jan 2013 10:10:30 GMT</pubDate>
  <title>Cavaco fez-se ao penalti</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/218774.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=PJvwOOGZSOoB5Bk3czKS&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B45122de0/14494491_lCL0p.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho para mim que, no futebol, num lance de penálti, a única verdade objetiva e incontestável é a paixão subjetiva de quem emite um juízo. Tal como o reformado algarvio que preside à nossa nação, nestes casos eu raramente me engano e nunca tenho dúvidas. Sempre que o árbitro assinala um penálti a favor do Porto está carregadinho de razão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E todos os penáltis marcados a favor do Benfica são, no mínimo, duvidosos, para não dizer escandalosos ou até verdadeiros &quot;roubos de igreja&quot;, como diria o saudoso Pedroto, opinião que creio ser partilhada pela reformada transmontana que é a segunda figura do Estado e portista encartada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho uma enorme admiração e algum respeito pelos árbitros. Entre tangíveis (dinheiro) e intangíveis (fama) ganham uma ínfima parte do que é pago aos futebolistas. Sabem que a sua honestidade, bem como a honorabilidade das suas mães, será questionada. E, como agravante, ainda são obrigados a ajuizar logo, no momento, se num determinado lance há ou não lugar à marcação de grande penalidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mesmo depois das imagens terem sido revistas vezes sem conta, em câmara lenta e a partir de diferentes ângulos, é raro gerar-se o consenso entre os peritos na matéria. Deu primeiro na bola ou nas pernas? Tinha intenção de fazer falta? Foi dentro ou fora da grande área? Qual a intensidade do encosto? Bola no braço ou braço na bola? O árbitro estava bem posicionado?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As dúvidas, atenuantes e perguntas sem resposta que a tecnologia potencia são tantas que um penálti deixou de ser o castigo máximo assinalado de acordo com as regras do jogo para se tornar num estado de espírito do árbitro, que tem de ajuizar na hora e incorpora na decisão não só a sua visão do lance mas também o resultado, o peso relativo das duas equipas, e mais uma data de coisas, entre as quais o cadastro do jogador que pede a falta, pois todos sabemos que o que mais abunda são avançados especialistas em simular grandes penalidades.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No caso do pedido ao Tribunal Constitucional para que verifique se três artigos do OE 13 violam a Constituição, parece-me nítido que o reformado Cavaco se está a fazer ao penálti. Trata-se de matéria que o afeta pessoalmente (optou por receber as reformas da Caixa Geral de Aposentações e do Banco de Portugal, por a soma ser muito superior ao salário de 6523 euros que compete ao PR) e de que há um ano se queixou, quando disse temer que o dinheiro não lhe chegasse para as despesas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como se isso não bastasse, os juízes do Constitucional vão decidir numa matéria que também lhes interessa pessoalmente. Assunção Esteves reformou-se aos 42 anos, com uma pensão de 7255 euros (por que optou por ser superior ao salário de 5219 euros que compete ao presidente da AR) após dez anos de extenuante trabalho no Tribunal Constitucional. Atendendo a estes óbvios conflitos de interesse, estou curioso de saber a decisão. Será marcado penálti contra Passos?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>cavaco</category>
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  <pubDate>Thu, 03 Jan 2013 10:10:02 GMT</pubDate>
  <title>É preciso mudar de medicação</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/218385.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=eEaL1U8Kn1Ndt78gZnaO&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bce11fa5a/14494374_tLVFn.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;262&quot; height=&quot;262&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho um método simples e infalível para não me desiludir, que consiste em nunca me iludir. Só se desilude quem previamente se iludiu. Ao recusar a ilusão adquiri um seguro imbatível que me protege do terrível sofrimento da desilusão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inicio a minha mensagem de Ano Novo aos leitores do JN, que tão generosamente me beneficiam com a sua atenção, partilhando este truque, válido para todas as esferas da nossa vida, mas inútil relativamente ao ano que está a dar os primeiros passos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;OCDE, Governo, Banco de Portugal, Comissão Europeia e todos os outros organismos que ousam insultar o futuro tentando prevê-lo foram unânimes no alerta. Os tempos que se avizinham são péssimos. 2013 vai ser pior que 2012 . Mais desemprego e menos apoios sociais. Menos salário e mais impostos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O céu vai estar carregado de nuvens negras, de acordo com todos os boletins meteorológicos dos economistas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em face de tantos e tão credenciados avisos, não há lugar a ilusões e só por hábito e cortesia é que desejamos Bom Ano a amigos e conhecidos. Sabemos que o mais certo é que 2013 seja um ano mau.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de, por princípio, ser avesso a ilusões, também não sou daquelas pessoas que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não tenho com a vida mal-entendidos que me levem a ser pessimista. Sei que a unanimidade nem sempre é consensual. E já aprendi que prever o futuro olhando para o passado é partir do princípio que as condições vão permanecer constantes - ou seja, é exatamente a mesma coisa que guiar um carro a olhar apenas para o retrovisor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por isso, recomendo que olhemos para a estrada à nossa frente, não deixando que a árvore das caneladas entre S. Bento e Belém, que vão ter de ser dirimidas pelo Tribunal Constitucional, nos distraiam e toldem a visão da floresta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E olhando para a frente com olhos de ver, quer-me parecer que mais lá para o fim deste ano, talvez após as eleições alemãs, o médico vai convencer-se que o doente até está a portar-se mais ou menos bem (tem feito dieta, toma os remédios e esforça-se por adotar um estilo de vida mais saudável), mas o tratamento não está a dar os resultados esperados, pelo que talvez seja melhor mudar a medicação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até porque, como nos ensinou George Bernard Shaw, o progresso é impossível sem mudança e aqueles que não conseguem nunca mudar de ideias não podem mudar nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E se algures entre a 7.ª e a 8.ª avaliações da troika, o médico alemão se convencer de que é melhor prescrever um tratamento diferente ao paciente português, apesar de eu não ser dado a ilusões, acredito que este 2013, que começou como o ano das Tormentas, acabe por se transformar no ano da Boa Esperança.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>austeridade</category>
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  <pubDate>Sun, 30 Dec 2012 10:10:15 GMT</pubDate>
  <title>É preciso ter boca boca</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/218268.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=sb7VqjODhEplT7RJKItD&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8e11ddab/14437341_MLUyn.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aproveitei as folgas de 5.ª e 6.ª para uma escapada a Santiago de Compostela, que correu muito bem, pois no segundo dia não choveu e, ainda por cima, vi o futuro - bênçãos que só podem resultar da bondade do apóstolo, talvez uma maneira dele me retribuir a visita ao seu túmulo, na cripta da catedral, e o abraço que dei à sua figura, que domina o altar-mor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Comecei a ver o futuro logo na 5.ª, não nas folhas de chá, nem na bola de cristal, mas numa gasolineira da Repsol, na pessoa da trintona com rabo de cavalo que sozinha assegurava todo o expediente - atestava o depósito, depois ia até ao interior do posto receber o pagamento, antes de voltar à bomba para atender o cliente seguinte - , sempre com um sorriso nos lábios.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Engracei logo com a Susana, a rapariga da receção do hotel Altair, pelo despacho com que solucionou as minhas duas preocupações do momento. Assinalou no mapa o local onde estávamos e riscou com esferográfica o trajeto mais curto até ao parque de estacionamento La Salle (vizinho do Centro Galego de Arte Contemporânea, projetado por Siza), onde - acrescentou -, com o carimbo do hotel no bilhete do parque, eu beneficiaria de um desconto de três euros (de 12 para nove euros) na tarifa diária, se pagasse ao guarda e não na máquina. E não hesitou um segundo quando lhe perguntei pela melhor livraria de Santiago. Pegou no mapa, fez uma cruz e escreveu Follas Novas, onde comprei um guia de Santiago, uma História de Espanha e três livros de Vasquez Montalban, a biografia da Pasionaria e duas aventuras do Pepe Carvalho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na manhã seguinte, lá estava a Susana de volta, com ar divertido, a dar-nos à escolha café, chocolate ou chá, bem como croissants ou &quot;tostadas&quot;, e a trazer o sumo de laranja e o resto dos pedidos, depois de os ter confecionado à nossa vista, na cozinha ao fundo da sala do pequeno-almoço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na hora do regresso, o gabinete do guarda do parque de estacionamento estava deserto, apesar da janela aberta, indiciava a primeira mancha na eficiência galega.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Começava a desesperar quando reparei num papel colado no vidro onde estava escrito &quot;timbre&quot; e apontava para a campainha. Toquei e o guarda apareceu logo, de vassoura e apanhador, muito simpático, a pedir desculpa, &quot;andava nas limpezas&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A escapada a Santiago correu bem. Os mexilhões ao vapor do Gato Negro e o pulpo à feira da Maria Castaña estavam divinos. E que bem que sabe descansar das voltas pelo Casco Velho nos sofás do Café Casino, na rua do Vilar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas acima de tudo foi muito bom ter visto o futuro e confirmado que os maquinistas da CP e os trabalhadores do Metro de Lisboa (só para citar dois exemplos) são uma espécie de amish, parados no tempo e prisioneiros do passado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A trintona da Repsol, a Susana e o guarda do parking La Salle ensinam-nos que neste século XXI é imprescindível ter boa boca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 25 Dec 2012 10:10:59 GMT</pubDate>
  <title>A moral do bacalhau cozido</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/218091.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=NEAHrIEkWA0ZTrCrnaEI&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B81132e63/14436867_eBWzV.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parece que não, mas se espremermos as meninges, até do bacalhau cozido com batatas, couves, ovo, cebola, etc. (a cenoura e o nabo, que eu, por norma, dispenso, estão compreendidos no perímetro deste etc.), podemos aprender e tirar lições para a vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das 1001 receitas para confecionar pratos de bacalhau, o cozido é provavelmente a que exige mais do peixe e menos do(a) cozinheiro(a). Cozer não requer grande arte, mas antes belas postas do lombo, de preferência altas, com um estágio mínimo de cinco meses no sal e demolhadas a preceito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A tarefa do cozinheiro fica muito facilitada quando trabalha com matéria-prima de boa qualidade. E não me refiro apenas ao bacalhau. Se tenho nas mãos uma magnífica peça de carne, o meu papel é não a estragar. Basta temperá-la com sal, passá-la um bocado de um lado, virá-la e já está.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A criatividade do chef só é convocada quando a matéria-prima é de deficiente qualidade, o que obriga a puxar pela imaginação para apresentar um prato decente e atraente. Os franceses inventaram as natas para disfarçar o drama de uma peça de carne pouco saborosa e tão dura como a sola de um sapato. Os espanhóis abusam da cebola, tomate e alho para camuflar as misérias de um bacalhau anémico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nós, portugueses, para resolvermos uma refeição a partir de uma daquelas embalagens de bocados de bacalhau que estão à venda, a preços módicos, nos híper e supermercados, temos à mão uma série de recursos, como as pataniscas, os bolinhos, bacalhau à Braz, à Gomes de Sá, arroz de bacalhau, e por aí adiante - as punhetas, essa espécie de sushi à portuguesa, estão integradas no âmbito deste por aí adiante, apesar de carecerem de uma matéria-prima de qualidade irrepreensível para atingir o patamar da excelência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O grande problema, neste plano inclinado em que vivemos, é que a uma matéria de qualidade mais do que deficiente se junta um cozinheiro pouco imaginativo que teima em tentar aplicar uma receita que não agrada a ninguém.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo tem uma moral. É só preciso encontrá-la. Em abril de 1985, a Coca Cola surpreendeu o Mundo ao anunciar uma nova receita para o refrigerante mais vendido em todo o Mundo. O problema foi que o sabor mais doce que os consumidores tinham adorado nos testes acabou por ser liminarmente rejeitado no mundo real. Ao fim de três meses, a Administração da multinacional teve a inteligência e flexibilidade para reintroduzir no mercado a Coca Cola clássica. E só precisou de mais alguns meses para deixar de produzir a New Coke.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espero que o chef Passos Coelho tenha a inteligência, flexibilidade e sabedoria necessárias - que já nos deu a ideia de ter ao recuar no dossiê TSU - para mudar rapidamente de receita. A matéria-prima é fraca, pelo que o sucesso do prato depende muito da sua capacidade e audácia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A ver se daqui a um ano já não vivemos com esta sensação de vazio em tudo igual à que eu sentia no final do Natal quando era miúdo e ajudava a minha mãe a apanhar o papel dos presentes abandonado e espalhado debaixo da árvore.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>bacalhau</category>
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  <pubDate>Fri, 21 Dec 2012 10:10:03 GMT</pubDate>
  <title>Desliguem a televisão</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/217620.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=CY7oJqphe9gViRYM6kCV&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc11340c8/14436729_CNzju.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Alberto da Ponte é um tipo muito divertido, um pândego com um sentido muito apurado do espetáculo, o que só pode ajudar quando se é presidente da RTP. Algures nos anos 80, quando era uma estrela ascendente da Unilever - onde teve a seu cargo campeões de vendas como o Vim, Pepsodente e Rexina -, convocou a sua equipa para uma reunião de emergência em que confessou, com semblante carregado, que cometera um ato infeliz, de graves consequências para a vida e carreira de todos eles.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dito isto, pediu desculpa, sacou de uma pistola, deu um tiro na cabeça e caiu inanimado no chão, perante o desespero dos colegas, que demoraram longos segundos até se aperceberam que tinham acabado de presenciar a partida de Carnaval do Alberto da Ponte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de ter mais vidas do que um gato, a RTP atravessa um dos momentos mais difíceis dos seus 55 anos de vida. Para começar, ninguém compreende porque é que um país que corta nas pensões dos reformados teima em manter uma televisão com uma programação idêntica à dos canais privados - e que este ano nos custou 508 milhões de euros (Relvas dixit). Para terem um ideia, o Hospital de S. João custa 289 milhões/ano e na Casa da Música, para poupar um milhão, o Governo não respeitou a palavra dada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com as audiências em queda livre e incapaz de concorrer no prime time com o forte pacote de novelas da SIC (Dancin&apos; Days, Gabriela e Avenida Brasil) e o misto da TVI, que serve a Casa dos Segredos como sobremesa a duas telenovelas (Louco Amor e Doce Tentação), a RTP resolveu transformar-se num reality show - o Brutosgate - com um elenco de gente conhecida (apesar de deficitário na componente feminina) e os ingredientes certos: traição e perseguições, polícia e política.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Danado para a brincadeira, Alberto da Ponte é coprodutor deste reality show mas desempenha um papel secundário na telenovela da privatização da RTP, realizada por Miguel Relvas, que se está a revelar um thriller, cheio de reviravoltas inesperadas, onde o papel do principal protagonista (António Borges) se tem vindo a apagar e ainda ninguém conseguiu perceber a importância que os novos atores (os angolanos da Newshold), recém-chegados ao elenco, vão ter nas cenas dos próximos capítulos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O enredo é apaixonante e eu até era capaz de me estar a divertir com o assunto, se tudo isto não passasse de uma brincadeira, de uma partida de Carnaval. O problema é sermos nós, contribuintes, que estamos a pagar (e caro) esta tragicomédia. Por isso, não nos resta senão rezar para que esta novela esteja em últimas exibições e que a RTP seja despachada o mais depressa possível.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E já agora, se querem um bom conselho, para preservar a nossa sanidade mental o melhor que temos a fazer é desligar a televisão e ir para o café conversar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>rtp</category>
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  <pubDate>Thu, 20 Dec 2012 10:10:32 GMT</pubDate>
  <title>Desgovernados por intrujões</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/217521.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=0WIpBZ2nka86CzCeG0cl&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B09126a28/14436269_mbID7.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;339&quot; height=&quot;339&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sei se conhecem o Som da Rua, mas aviso já que pode ser enternecedor ouvir este coro, constituído por 40 sem- abrigo do Porto, que arrancou fartos aplausos quando atuou na Gulbenkian. Apesar de ser duro de ouvido e desafinado, ouço música quando leio, escrevo, conduzo, acordo e adormeço. Nietzsche tinha razão quando escreveu que sem música a vida seria um erro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além de entretenimento e diversão, a música é também uma ferramenta preciosa na reabilitação, terapia e formação. Impressionou-me saber que ter aprendido a tocar um instrumento era o maior denominador comum a todos os estudantes com média para entrarem em Medicina.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O coro HML - onde se reúnem médicos, enfermeiros e doentes do Magalhães Lemos e que tem um repertório onde avultam canções da autoria dos utentes do hospital - demonstra a importância da magia da música em complicados processos terapêuticos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E quem viu o espetáculo &quot;Bebé babá&quot;, produzido e levado à cena pelas mães e bebés da prisão feminina de Santa Cruz do Bispo, garante que ele é a prova provada do papel da música na reabilitação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que há em comum entre o Som da Rua, o coro HML e o espetáculo das mães e bebés presas é o Serviço Educativo da Casa da Música, que ajudou a nascer estes e muitos outros projetos luminosos, como o das 14 freiras franciscanas de Gondomar que não se queriam despedir da vida (têm todas mais de 80 anos) antes de gravarem as canções da sua meninice.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Casa da Música não é só aquele edifício estranho, tipo nave de extraterrestres, considerado, a par do auditório Walt Disney de Los Angeles e a sede da Filarmónica de Berlim, umas das três mais belas salas de espetáculos construídas nos últimos cem anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Casa da Música é a Sinfónica do Porto, a Orquestra Barroca, o Remix Ensemble e o Coro (as quatro formações residentes), e os 527 mil visitantes e 318 espetáculos que recebe anualmente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Casa da Música é também o Serviço Educativo, que envolve 50 mil pessoas, prováveis (estudantes) e improváveis (cegos, presos, sem- abrigo) nos 120 eventos que promove todos os anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não podemos aceitar que este trabalho notável seja posto em causa por um Governo de intrujões, que manda um secretário de Estado sobresselente dizer aos fundadores da Casa da Música que o corte ao financiamento público vai ser de 30%, e com efeitos retroativos, não honrando por isso a palavra dada por Francisco José Viegas de que seria de 20% (igual ao do CCB).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não podemos aceitar que uma Casa da Música bem gerida - é quem mais apoio de mecenas recolhe (três milhões/ano) -, que recebe 267 mil espectadores/ano nas suas atividades, seja tratada de forma diferente que um CCB que tem apenas 125 mil pessoas/ano a frequentar os eventos que organiza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Soubemos resgatar o Coliseu à IURD. Agora temos de impedir que um Governo de trampolineiros estrangule a Casa da Música.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 17 Dec 2012 10:10:53 GMT</pubDate>
  <title>O de cima diz bem do de baixo</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/217332.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=STkwBirlyNjlfwwYYLRd&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be011d442/14435838_hH9gE.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;315&quot; height=&quot;315&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao ver que não o ia conseguir domesticar, Lisboa recebeu-o com pedras. A campanha suja contra o bastonário eleito pelos advogados da província decorreu com o profissionalismo que Fernando Gomes testemunhou quando teve a fraqueza de trocar o lugar de melhor presidente da Câmara que o Porto teve por um gabinete subalterno na esquina do Terreiro do Paço, onde Manuel Buíça feriu de morte a Monarquia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A campanha falhou no que estava programado ser o ato final da lapidação, o tribunal da TVI onde a tonta Moura Guedes teve a imprudência de chamar bufo a um homem que após ter sido preso pela Pide, em Coimbra, aguentou como um herói as humilhações, os três dias e três noites de interrogatórios e os 34 dias no isolamento, em Caxias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O arraso que o bastonário deu à apresentadora televisiva, que por ter a boca maior que o cérebro está sempre a tentar dar passadas maiores que a perna, é um dos meus vídeos favoritos (a par do dos golos do 5-0 que o meu Porto deu ao Benfica do Marinho), que de vez em quando revisito no YouTube. É um espetáculo de cidadania.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho muito orgulho em ser amigo do Marinho, de quem fui colega durante quase 20 anos, na Redação do &quot;Expresso&quot;, quando ele usava o nome António Marinho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um das coisas que mais admiro nele é que ao longo das suas sucessivas reencarnações - universitário revoltado com a ditadura, professor, advogado, jornalista e bastonário - nunca teve medo de dizer o que pensa em voz alta e de pertencer aquele raro grupo de pessoas que quando lhe fazem uma pergunta a sua resposta não tem por objetivo agradar a quem a fez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o Marinho e Pinto, bastonário reeleito por maioria absoluta e com a maior votação de sempre, estive apenas umas duas ou três vezes, a última das quais, há quase dois anos, terminou à mesa, à volta de um leitão, no Albatroz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, para além de coabitarmos um vez por mês esta página do nosso JN, vou acompanhando e aplaudindo à distância o seu combate por uma justiça mais barata, contra a soberba dos juízes, que se julgam donos dos tribunais, e um Parlamento que se tornou numa central de tráfico de influências, onde os deputados podem ter clientes com interesses nas leis que eles fazem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gostei da frontalidade com que avisou os estudantes para fugirem do cursos de Direito, evitando assim que a massificação acentue a proletarização e degradação da classe. E assino por baixo quando ele, de sobrolho carregado, denuncia uma Justiça injusta, cheia de silêncios e mentiras, que se curva perante os ricos e poderosos - e maltrata os pobre e desprotegidos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas o que mais tenho a agradecer ao meu amigo Marinho é ter desmentido a fatalidade dos provincianos, como nós, se deixarem corromper pelo luxo e prazer - o cheiro a canela... - de Lisboa, tão bem caricaturado por Camilo, em &quot;A queda de um anjo&quot;, na pessoa do deslumbrado fidalgo minhoto Calisto Elói.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>marinho pinto</category>
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  <pubDate>Tue, 11 Dec 2012 10:10:36 GMT</pubDate>
  <title>O que 007 ensina ao Vaticano</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/217034.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=f3KA7HsR1J5kBk25kLA5&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B51126c0f/14433907_ZFbwv.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;162&quot; height=&quot;162&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que me espantou em &quot;Skyfall&quot; não foi o vilão Raoul Silva (magnificamente interpretado por um Bardem oxigenado) acariciar lubricamente as virilhas de Bond. O que mais me surpreendeu foi a resposta equívoca - &quot;E quem disse que é a primeira vez?&quot; - de um 007 que, de acordo com a publicação científica britânica &quot;Sex Roles&quot;, teve 46 parceiras sexuais, da Ursula Andress em &quot;Dr. No&quot; (1962) até Hale Berry (a minha preferida) em &quot;Morre noutro dia&quot; (2002).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um James Bond bissexual? Já esteve mais longe, até porque o segredo da sobrevivência da saga 007 no ambiente ultracompetitivo de Hollywood tem sido a sua capacidade de inovação e adaptação a um mundo em vertiginosa mudança.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A série Bond foi pioneira no aproveitamento dos filmes para vender carros (foi o vil metal que impôs o BMW 750 no lugar do Aston Martin DB5 prateado ressuscitado por Sam Mendes para morrer em &quot;Skyfall&quot;), bebidas (a Heineken pagou para James preferir cerveja ao seu clássico martini &quot;stirred not shaken&quot;), relógios (o Omega Seamaster vai no 7.oº filme consecutivo),telemóveis e tablets Xperia, televisores Sony e por aí adiante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os 007 são o mais luminoso caso de product placement, ou seja, do negócio de meter publicidade dentro das fitas. E a escolha das localizações também não é inocente. As cenas rodadas em Xangai e Macau só uma óbvia piscadela de olho ao mercado chinês, que no ano passado gastou 2,1 mil milhões de dólares em produtos made in Hollywood.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Claro que uma coisa são 2000 anos e outra são 50, mas também é verdade que no último meio século o Mundo acelerou mais do que nos restantes 1962 da era cristã. Por isso, o Vaticano terá muito a ganhar se estudar com atenção como a saga 007 se tem adaptado à mudança de vidas e costumes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alguma coisa está mal quando Fátima perde meio milhão de peregrinos, a diminuição de donativos obriga a Igreja a fazer despedimentos e vêm a público casos como o do vice-reitor do seminário do Fundão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alguma coisa está muito mal quando num mundo que treme de incerteza, as pessoas fogem da fé em vez de nela buscarem refúgio e conforto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o que está mal não se resolve tentando refrescar a imagem de uma religião revelando que a vaca e o burro não podiam ter assistido ao nascimento do Menino (mas que, por piedade e amor à tradição, podem ficar no presépio) e que os Reis Magos terão vindo do Sul da Península Ibérica (quem sabe se não serão algarvios de Silves?).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Está na hora de Igreja Católica iniciar um processo de perestroika e glasnost que reveja situações tão absurdas e anacrónicas como barrar o acesso das mulheres ao sacerdócio e a questão do celibato.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É melhor reconhecer os direitos das mulheres e homens da Igreja a terem uma vida sexual saudável, independentemente da sua orientação, do que reprimi-la com os resultados à vista no lamentável caso do padre do Fundão&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>igreja</category>
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  <pubDate>Fri, 07 Dec 2012 10:10:29 GMT</pubDate>
  <title>Don´t fuck my job</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/216624.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=l98m0ObWmykA8wSruLJ7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B03138608/14433260_z6nFD.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;265&quot; height=&quot;265&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema dos carros com mudanças automáticas é o pé esquerdo ficar a sobrar. Guiar um carro com caixa de velocidades é um trabalho que envolve os dois pés. O direito divide-se entre o acelerador e o travão, enquanto o esquerdo se especializa na embraiagem. Nos automóveis com caixa automática, é absolutamente proibido deixar o pé esquerdo entrar na dança dos pedais, senão...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando pego num carro automático, sei que tenho de estar em permanente tensão para evitar que as minhas rotinas de condução se imponham. Senão é asneira pela certa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A minha asneira mais frequente é levar ao travão um pé esquerdo habituado a esmagar o pedal até ao fundo, provocando assim uma travagem brusca, cujas consequências se têm (felizmente) resumido a um susto, cheiro a borracha e desgaste escusado dos pneus.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Noutro dia, ao ler no &quot;Jornal de Negócios&quot; uma magnífica história da vida de Maria Isabel Lucas, 50 anos, uma estivadora do porto de Setúbal, fiquei a saber que a minha asneira não é a única a que um condutor habituado a carros com mudanças está exposto quando tem de guiar um automático.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Em defesa do argumento de que trabalhar na estiva não é para qualquer um, Isabel dá um exemplo: &quot;Tem de ter muitos anos de experiência, aqui é tudo ao milímetro. Tenho aí visto acidentes de automóveis quando os carros são automáticos, em vez de travar, o pessoal às vezes acelera e pum, o carro galga por cima de outro carro&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Saber da estranha confusão que os estivadores fazem entre o pedal do travão e o do acelerador nos carros com mudanças automáticas desembraiou logo na minha cabeça a ideia de que a criminosa greve que desde agosto afeta os portos de Lisboa, Setúbal, Figueira da Foz e Aveiro só pode ter na sua origem a falta de discernimento de quem a faz.&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os cerca de 400 estivadores que envergam T-shirts trendy e cosmopolitas dizendo &quot;Don&apos;t fuck my job&quot; ainda não perceberam que quando se está num buraco a regra número 1 é parar de escavar - e como estão confusos, ao ponto de não se terem apercebido do tempo em que vivemos, prosseguem, egoístas, a sabotagem do esforço das empresas exportadoras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os cerca de 400 estivadores que abrilhantam os protestos vestidos com coletes refletores, calçados com botas de borracha de biqueira de aço e com a cara coberta por lenços pretos, à John Wayne, não perceberam que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros - e por isso não se importam de lixar o emprego dos outros para manterem direitos, privilégios e regalias absolutamente insustentáveis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;As consequências da irresponsabilidade suicida dos 400 estivadores grevistas só não são mais catastróficas porque o elevado sentido de responsabilidade dos outros 900 estivadores e da UGT mantêm a funcionar os portos de Leixões e Sines.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Neste caso da greve dos portos, o Governo tem uma oportunidade de ouro para demonstrar firmeza e impedir que os 400 estivadores grevistas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em vez de cavarem apenas a própria sepultura, destruindo o seu emprego altamente remunerado, também enterrem o que resta da nossa competitividade e lixem os nossos postos de trabalho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>estivadores</category>
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  <pubDate>Sun, 02 Dec 2012 10:10:48 GMT</pubDate>
  <title>Passos não é um idiota batizado</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=g2bRNhcEyCsU47OzSS41&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba8115541/14088423_zBz34.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;351&quot; height=&quot;351&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Calma! As aparências iludem. Ao contrário do que poderá parecer à primeira vista, Passos Coelho não é burro e sabe perfeitamente o que anda a fazer. Disfarça bem, mas sabe. Disfarçar é uma tática. Há gente assim, que parece idiota, sabe que parece idiota, mas como não é efetivamente idiota tira partido desse aspeto para levar a sua avante. Senão vejamos:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Região Norte tem a mais elevada taxa de desemprego do país e a Área Metropolitana do Porto é onde a pobreza é mais dramática e se regista um mais elevado número de falências.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Portugal é o país mais desigual da UE a 27,já que 65% da nossa população vive em regiões onde o rendimento per capita é inferior a 75% da média comunitária. No país que vem a seguir, a Grécia, essa percentagem (22%) é 1/3 da portuguesa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Norte é a mais exportadora de todas as nossas regiões e onde são pagos os mais baixos salários do país. O salário líquido mensal em Lisboa é de 934 euros, a média nacional é 900, no Norte é de 746 - mais baixo que o pago no Alentejo, Centro e Algarve.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste cenário, ao tomarmos conhecimento que o primeiro-ministro se vangloriou de ter conseguido em Bruxelas um cheque extra de mil milhões de euros a ser aplicado na Madeira (100 milhões) e Lisboa (900 milhões) - as duas únicas regiões do país com rendimento per capita superior à média comunitária - é fácil sucumbir à tentação de considerar que Passos ou é um calhau com olhos ou um idiota que se prepara para acentuar a macrocefalia lisboeta que nos asfixia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas é preciso ter calma. As aparência iludem. Estou em crer que Passos não é uma coisa (calhau com olhos) nem outra (um idiota centralista), e que, por isso, depois de ter o cheque do lado de cá, vai tirar da cartola um golpe de génio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passos vai explicar que a reindustrialização - a pedra de toque da sua agenda de crescimento, que espera que contrabalance os esfeitos perniciosos da austeridade e permita tornar o ajustamento sustentável - exige fortes investimentos a norte, a única região do país onde o tecido industrial tem as raízes mais fundas e está disponível a mão-de-obra indispensável para o sucesso deste esforço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com quatro ativos por cada reformado, o Norte é a região portuguesa que melhor resiste ao envelhecimento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E se Bruxelas lhe perguntar: então pediste dinheiro para Lisboa e vais investi-lo no Norte? Passos Coelho vai argumentar, todo lampeiro, com o famoso efeito dispersão, explicando que a reindustrialização aumentará a receita fiscal e diminuirá as despesas com subsídios e prestações sociais, engordando assim os cofres do Estado com quartel-general em Lisboa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estão a ver? Não nos devemos precipitar. Afinal tudo leva a crer que o Passos Coelho afinal não é um idiota batizado, mas sim um tipo genial e fino como um alho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>passos coelho</category>
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  <pubDate>Sun, 25 Nov 2012 10:10:31 GMT</pubDate>
  <title>O Estado Downton Abbey</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/216182.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=2THgiwhrymhLZ55LTvCr&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bfc120012/14088413_6utgt.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ando viciado na Downton Abbey. Não perco um episódio desta fascinante série que mostra como em apenas um século o Mundo e a vida privada viraram do avesso. A história começa em 1912, com o naufrágio do Titanic a lançar um salpico de perturbação no invejável ramerrão da vida dos Crawley, uma família aristocrática inglesa que caminha para a falência, imperturbável e com pompa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Downton Abbey é o castelo do Yorkshire onde os Crawley - Lord Grantham, a mulher (Cora, uma americana rica), as três filhas, e a mãe (a fabulosa professora McGonagall da saga Harry Potter) - vivem ociosa e alegremente acima das suas possibilidades.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma legião de criados, comandados com punho de ferro pelo mordomo Mr. Carson, permitem aos Crawley levar a vida sem mexer uma palha. A principal canseira no seu dia a dia é, quando acordam, decidirem se tomam o pequeno-almoço na cama ou descem à sala - onde lareira e candeeiros foram acesos com antecedência para tornar o ambiente confortável.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mrs. Patmore, a cozinheira, é a minha personagem preferida do populoso andar de baixo, onde habitam a austera governanta Mrs. Hughes e um número infindável de valets, footmen, maids, motoristas e ajudantes de cozinha, que trabalham para que nada falte aos Crawley.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lord Grantham é um inútil simpático que após ter torrado na Bolsa o dote da mulher só evitou a bancarrota porque Downton Abbey foi resgatada pela infusão da fortuna que Matthew (um primo viúvo e afastado que se tornou seu genro ao casar com Mary, a mais velha das três filhas) herdou do sogro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Downton Abbey faz-me lembrar o Estado português, que depois de ter vivido ociosa e alegremente acima das suas possibilidades, a contratar criadagem a eito (só entre 95 e 05, engordou a folha de salários com mais 100 mil novos funcionários públicos), apenas evitou a bancarrota ao ser resgatado pela troika.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E apesar da situação ser triste, dá--me vontade de rir quando vejo o debate sobre o nosso futuro situado em termos da escolha entre um Estado social ou um Estado liberal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As despesas com o Estado social (pensões, saúde, subsídios de desemprego, etc.) representam apenas 25% do PIB. E Portugal é o terceiro país da OCDE onde os gastos sociais menos subiram desde o início da crise.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em saúde, mesmo antes dos cortes, investíamos apenas 7% do PIB, menos que a média da OCDE (7,5%). Idem aspas nos apoios sociais: levam 18,7% do PIB, bem abaixo da média de 20,5%. Em contrapartida, só o Chipre (que vive em estado de guerra latente) gasta mais (4,7% do PIB) que nós (4,1%) em defesa e segurança.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A alternativa não é entre um Estado social e um Estado liberal. A alternativa é entre um Estado Downton Abbey - com 1182 empresas públicas, 29 mil carros, 356 institutos públicos, 343 empresas municipais e 1.3740 instituições sentadas à mesa do Orçamento - e um Estado bem gerido. O resto é conversa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>estado</category>
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  <pubDate>Fri, 23 Nov 2012 10:10:23 GMT</pubDate>
  <title>Como lidar com arrumadores</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/215945.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=zudpG7ectL6Ziw1jROhi&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb612bd16/14088412_TZaN6.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho o hábito de não dar uma moedinha aos arrumadores. Acho que eles são uns parasitas e pequenos chantagistas, que adotaram e adaptaram o engenhoso modelo de negócio inventado pela Máfia que consiste em cobrar aos comerciantes dinheiro para se protegerem deles próprios, os mafiosos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não é por o arrumador esbracejar a sinalizar um lugar vago que está à vista de toda a gente (pelo menos de quem tenha menos de 20 dioptrias em cada olho) que um condutor dá a moedinha. Está sim a proteger-se da ameaça velada, apesar de não verbalizada, de, na volta, encontrar o carro riscado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um risco no carro é o risco que corre quem não contribui para a felicidade dos arrumadores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu corro esse risco na boa, pois até acho que os riscos no carro são como as rugas na nossa cara. Temos de nos habituar a viver com eles (os riscos) e elas (as rugas).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Claro que há honrosas exceções. Quando trabalhava no escritório do Porto do &quot;Expresso&quot;, em Júlio Dinis, um colega meu mantinha sob contrato um arrumador que atuava na zona do Bom Sucesso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era uma espécie de serviço de valet parking, como está na moda ser disponibilizado à porta dos restaurantes de grandes metrópoles, como São Paulo ou Los Angeles, nas zonas onde lugares vagos de estacionamento são um fator escasso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Paulino chegava com o carro e não tinha de se preocupar em arranjar lugar. Deixava-o em segunda fila e confiava a chave ao arrumador, que o estacionava corretamente logo que surgisse uma vaga - e, mal detetava a presença de fiscalização, corria a meter diligentemente uma moedinha no parquímetro e o respetivo papelinho junto ao para-brisas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O arrumador do Paulino não era um chantagista, mas sim um prestador de serviços, um empreendedor que sabia criar valor e um exemplo a elogiar e seguir - apesar de desenvolver a sua atividade no âmbito da economia paralela (estará muito longe de ser o único a fugir aos impostos).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em junho, estava sentado numa esplanada, em Boston, em frente ao Macy, a preparar um passeio pelo North End, quando ouvi uma simpática voz feminina a disponibilizar-se para me ajudar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do you need some help? Não, não precisava, mas até parecia que sim, pois estava debruçado sobre um mapa e três guias (DK, Time Out e Gallimard).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mal ouviu a minha resposta, a senhora simpática pegou numa vassoura e começou a varrer a rua e eu fiquei a saber, pelos dizeres estampados (Ambassador Boston Downtown) na sua sweater verde (a cor de Boston) que era uma embaixadora da cidade, destacada para prestar serviço na Baixa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qualificar os arrumadores, transformando-os em prestadores de serviços de valet parking, e reconverter desempregados de longa duração e beneficiários do RSI em embaixadores multitarefas (que tanto limpam a rua como usam o walkie talkie para reportar problemas ou ocorrências e disponibilizam ajuda a quem passa) seriam boas ideias para melhorar o ambiente nas nossas cidades e garantir um trabalho digno e útil aos nossos concidadãos que atravessam uma fase menos boa das suas vidas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>arrumadores</category>
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  <pubDate>Mon, 19 Nov 2012 10:10:27 GMT</pubDate>
  <title>Não gosto de dar esmolas</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/215635.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=yz0WBZhUUEiFa0nU8TzJ&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5c11b56f/14088411_jcqd5.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não tenho o hábito de dar esmolas. Incomoda-me ser confrontado por pessoas a quem não me liga qualquer espécie de laço e que, sem mais, me pedem dinheiro. Digo que não com a cabeça, mas fico com um sentimento de culpa por não ter correspondido ao pedido de auxílio de alguém que as circunstâncias da vida forçaram a abdicar dos mais básicos princípios da dignidade humana e a andar pelas ruas, de mão estendida, a pedir uma moedinha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto culpa mas também revolta até porque há algo de extorsão emocional no ato de pedir, a que sinto que não devo ceder.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&quot;Olha para ti, bem alimentado, dinheiro na carteira, salário a cair todos os fins de mês na conta e egoísta ao ponto de não me dares uma moeda de valor equivalente ao que custa uma saqueta de cromos para o teu filho ou ao que deixas de gorjeta na mesa do restaurante&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É esta censura chantagista que sinto no olhar dos pedintes de rua - e por isso evito cruzar-me com eles, o que já me obrigou a refazer os percursos. Em vez de subir a Av. da Boavista até à Rotunda, passei a cortar pela rua do cemitério de Agramonte para evitar a velhinha de óculos, com idade para ser minha mãe, que todas as manhãs estaciona bem cedo, nos semáforos da Casa da Música, e bate no vidro do lado do condutor a pedir uma moedinha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Infelizmente, a pobreza alastra como uma mancha de óleo. Com 1,4 milhões de reformados com pensões inferiores a 500 euros/mês, mais de um milhão de pessoas sem emprego, 330 mil a viverem do RSI e 550 mil a ganharem o salário mínimo, não nos podemos espantar quando o Eurostat diz que um em cada quatro portugueses vive em risco de pobreza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mais alarmante é que, por causa do desemprego, divórcio ou sobre-endividamento, 41% dos carenciados são novos pobres. E a pobreza de quem nunca foi pobre é socialmente mais preocupante do que a resignação das pessoas que já não se importam de a ostentar, andando pelas ruas a pedir uma moedinha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu sei que não me compete a mim, individualmente, combater a pobreza e desigualdade galopantes. Esse o papel de redistribuição da riqueza e fomento da coesão social pertence ao Estado que há 34 anos alimento com os meus impostos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas também sei que, a curto prazo, o Estado é tão capaz de ter sucesso nessa tarefa como uma bailarina com uma perna de pau.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por isso, todos nós devemos contribuir diretamente para atenuar a pobreza, de forma organizada e não dando esmolas, mesmo sabendo que isso é uma aspirina que atenua a dor mas não extirpa o mal. Por isso, vou ser particularmente generoso na próxima recolha do Banco Alimentar, agendada para o primeiro fim de semana de dezembro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Temos de ser cuidadosos a distinguir entre a filantropia da responsabilidade social e a bolorenta caridade do bodo aos pobres. Mas não podemos deixar de ajudar a diminuir o índice de infelicidade no próximo Natal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>esmolas</category>
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  <pubDate>Tue, 13 Nov 2012 10:10:48 GMT</pubDate>
  <title>Eu até nem desgosto das 2ª feiras</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/215550.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=Ay0cwen1zsR8v3YEaY9K&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bf012c46a/14088409_8rCS8.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;436&quot; height=&quot;436&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Umas das consequências do nosso &quot;Jornal de Notícias&quot; se publicar todos os 365 dias do ano (366 nos bissextos) é que também todos os dias há jornalistas (e não só) a trabalharem, esforçando-se para que o JN do dia seguinte seja ainda melhor que o do dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O meu sistema de folgas é simples. Se numa semana descanso ao sábado e domingo, na seguinte folgo às 5.ª e 6.ª e trabalho ao fim de semana. O resultado é uma sucessão alternada de semanas em que ou estou ao serviço apenas três dias (2.ª, 3.ª e 4.ª) ou trabalho sete dias (sábado, domingo, 2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª e 6.ª).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deve ser por isso que não faço coro com o protesto da mais famosa canção (I don&apos;t like mondays) dos Boomtown Rats, de Bob Geldof. À diferença da maioria do pessoal, que tem a rotina de trabalhar uma semana de cinco dias, nem suspiro pelas 6.as-feiras nem maldigo as 2.as. Eu até nem desgosto das 2.as-feiras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No geral, esta 2.ª, dia 11, foi bastante calma, se excluirmos o movimento no aeroporto de Lisboa, com a chegada de Merkel, para uma visita de médico de cinco horas, e de Vale e Azevedo, para uma estada mais prolongada de cinco anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As diferenças não se quedam por aqui. Enquanto o ex-presidente do Benfica vai ficar os cinco anos à sombra, a chanceler alemã só pode ter ido daqui com uma corzinha, pois esteve debaixo das luzes da ribalta (e das câmaras de TV) durante todo o tempinho que passou entre nós.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este frenesim de partidas e chegadas no aeroporto de Lisboa só pode ajudar, neste momento em que estamos a desfazer-nos da ANA (que, graças a Deus, tem bastantes pretendentes) e da TAP (para quem só há um noivo reticente, que se prepara para só ficar com ela se não pagar nem um cêntimo).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas achei bastante parola e provincianamente excessiva a cobertura televisiva da visita da chanceler. &quot;Última hora: Merkel aterrou em Lisboa&quot;? Por amor de Deus, deixem de fazer concorrência involuntária e desleal ao &quot;Inimigo Público&quot; e ao Ricardo Araújo Pereira!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Coube à RTP o melhor momento. Após ter transmitido em direto o número (pobre) que os Homens da Luta tinham preparado, a jovem repórter desafiou as forças do mal ao insistir para que eles mostrassem a prenda que traziam para Merkel. Obtida a garantia de que estavam em direto, o Jel e o Falâncio desembrulharam um das Caldas - quase tão enorme como o aumento de impostos anunciado pelo Gaspar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O alarido feito em torno da visita da chanceler só prova que quem manda no circo mediático televisivo ou não percebeu ou não quer perceber que é tão estúpido diabolizar a Merkel como as 2.as-feiras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ir trabalhar à 2.ª-feira é uma bênção num país com mais de um milhão de pessoas sem emprego. E por muito que nos custe reconhecer, culpar Merkel pelos nossos males é teimar em tentar sacudir para outros a culpa dos nossos erros - uma atitude irresponsável que apenas prova que se errar é humano ainda é mais humano atribuir os nossos erros aos outros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;</description>
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  <category>merkel</category>
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  <pubDate>Fri, 09 Nov 2012 10:10:11 GMT</pubDate>
  <title>Fazer filhos é patriótico</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/215243.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=fHNYsZNl0HeorRRBW3Sn&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B76122cd2/14088390_AcvBp.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;283&quot; height=&quot;283&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É uma vergonha. Somos o 14.º melhor país do Mundo para ter filhos - de acordo com a tabela da Save the Children (a Noruega é o melhor e o Afeganistão o pior) - mas não tiramos partido disso. Temos a taxa de natalidade mais baixa da Europa, 1,3 filhos em média por mulher em idade fértil. Neste particular dos bebés, até a Grécia nos ganha. E não é por falta de prática, já que nós, portugueses, somos os que fazemos mais sexo (em média, duas vezes por semana) no universo de 13 países europeus de um estudo promovido pela multinacional farmacêutica Lilly.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É uma vergonha. Em 1956, o ano em que a minha mãe me trouxe ao mundo, nasceram 210 mil bebés em Portugal. Em 85, a Mariana, a minha primeira filha, foi uma das 130 mil crianças nascidas no ano anterior à adesão à CEE. Três anos depois, em 88, quando nasceu o Pedro, já o número de partos tinha caído para 122 mil - pouco mais que os 120 mil bebés registados no ano 2000, quando lhe dei o João como irmão mais novo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este século XXI tem sido uma miséria, com a natalidade em queda livre e consistente. Em 2009, caímos pela primeira vez abaixo dos 100 mil bebés. E neste ano vamos bater novo recorde negativo. No primeiro semestre, registaram-se menos quatro mil nascimentos que em 2011, pelo que não vamos chegar aos 90 mil. Uma vergonha, até um em cada oito bebés é filho de estrangeiros residentes em Portugal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Anda tudo com os olhos postos na dívida pública, o desequilíbrio nas contas externas, a galopante taxa de desemprego e o défice orçamental, mas pouca gente se preocupa com o alarmante saldo natural negativo. Em 1961, nasceram mais 118 888 portugueses do que os que morreram. Em 2011, houve mais 4735 funerais do que partos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os mortos estão a ganhar aos vivos, dando razão à previsão da ONU de que em 2100 seremos apenas 6,7 milhões, ou seja, que num século a nossa população recuará cerca de 40%.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A letal combinação entre o envelhecimento acelerado e a queda a pique da natalidade arruinará a sustentabilidade da Segurança Social e comprometerá o nosso futuro coletivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O aumento da produtividade que a competitividade do país exige não se pode limitar aos locais de trabalho - tem de se estender à cama. Alguém tem de fazer alguma coisa, e esse alguém somos todos nós. Fazer filhos é patriótico. É investir no futuro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A crise não pode ter as costas largas. Em 1960, Portugal era muito mais pobre, havia muito menos apoios sociais e económicos à maternidade e, apesar disso, produzíamos 200 mil bebés por ano. Mais do dobro que agora. Dois filhos por casal é o mínimo, para repor o stock de portugueses. E não pega a desculpa de que na altura só havia um canal de Televisão e era a preto e banco. Bora aí fazer filhos como se não houvesse amanhã!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;</description>
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  <category>natalidade</category>
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  <pubDate>Mon, 05 Nov 2012 10:10:33 GMT</pubDate>
  <title>Tragédia à vista no aeroporto</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/214919.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=gu31MMaIz3NtLQHmb9ZV&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be7127d55/14088350_szt7z.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;421&quot; height=&quot;421&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao ver o amigo muito entretido com uma carraça, Tom Sawyer ficou invejoso e perguntou-lhe quanto queria por ela. Recebeu um não como resposta. Huckleberry Finn declarou solenemente não estar interessado em vendê-la.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&quot;Não faz mal, de qualquer maneira é uma carraça muito pequena&quot;, desdenhou Tom. &quot;Ora, qualquer um é capaz de dizer mal de uma carraça que não lhe pertence. Eu estou satisfeito com ela. Para mim é uma boa carraça&quot;, retorqui Huck.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&quot;O que não falta são carraças! Se quisesse, podia ter mil!&quot;, replicou Tom, num esforço de banalização do produto, logo demonstrado pelo amigo: &quot;Então por que é que não tens? Porque sabes perfeitissimamente que não podes! Esta carraça é muito nova, foi a primeira que vi este ano&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O negócio acabou por ser fechado. Concluída a primeira fase da negociação, passaram aos finalmente. Tom ofereceu um dente (cuja autenticidade estabeleceu levantando o lábio superior e mostrando a falha) pela cobiçada carraça, Huck não resistiu à tentação, a transação fez-se e os dois rapazes separaram-se, sentindo-se mais ricos e felizes do que eram antes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O episódio da troca da carraça pelo dente, constante das Aventuras de Tom Swayer, de Mark Twain, resume os princípios basilares da arte de negociar e é ainda um bom ponto de partida para a redação de um manual de vendas. Um bom negócio é como o celebrado entre Tom e Huck - um negócio em que no final todas as partes ficam satisfeitas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pressionado pela troika a vender a ANA à pressa e em tempos de crise, o Governo dificilmente conseguirá fazer um bom negócio, pelo menos do nosso ponto de vista - o dos vendedores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da nebulosa de interesses diversos que formam o interesse nacional na privatização da ANA, o único que até agora foi acautelado foi da Câmara de Lisboa, que abichou 286 milhões de euros, por conta dos terrenos na Portela, de propriedade duvidosa, enquanto a Câmara do Porto continua a chuchar no dedo, apesar de ser comprovadamente proprietária de uma parcela dos terrenos do aeroporto Sá Carneiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Embora não seja ainda conhecido o caderno de encargos da privatização da ANA, tudo aponta para que o Governo se prepara para ter o comportamento irresponsável de ignorar os mais básicos princípios da negociação enunciados por Mark Twain e fazer ouvidos de mercador não só às pretensões dos empresários e autarcas do Norte mas também à recomendação da OCDE, que para evitar os malefícios de uma posição de monopólio privado aconselhou a divisão dos ativos, antes da venda, como forma de garantir a concorrência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O aeroporto Sá Carneiro é demasiado importante para a economia do Porto e do Noroeste Peninsular. Seria criminoso abandonar incondicionalmente o seu futuro ao livre arbítrio de um monopólio privado - principalmente quando os empresários do Norte já se disponibilizaram para o comprar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;</description>
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  <category>aeroporto sá carneiro</category>
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  <pubDate>Thu, 01 Nov 2012 10:10:21 GMT</pubDate>
  <title>Estou quase a apanhar o Belmiro</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/214733.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=kuVegqbQlZ0QzyA1tdM4&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4c12d000/14088324_CJlyk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;198&quot; height=&quot;198&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre tive a mania de saber o lugar que ocupava na sociedade. Lembro-me perfeitamente do dia em que, ainda miúdo, perguntei ao meu pai se nós éramos ricos ou pobres. Ao que ele me respondeu que nem uma coisa nem outra. Éramos remediados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com a catequese ainda fresca, imaginei esse nosso estado de remediados como uma espécie de purgatório, onde penitenciávamos em trânsito, a caminho do céu dos ricos ou do inferno dos pobres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais tarde, já no liceu, percebi que estava errado pois a viscosidade doutrinária do Estado Novo favorecia o imobilismo social, e nem fazer 13 no Totobola ou ter comprado o vigésimo premiado garantia a entrada definitiva no clube dos ricos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como aos pobres, no final do mês, sobravam-lhes apenas dias, não dinheiro, e os ricos olhavam o futuro com ligeireza, a tarefa de aforrar repousava quase inteiramente em cima da nós, os remediados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A preocupação de poupar para acudir a uma eventual aflição ficou--me tatuada no caráter, por ter sido educado nos tempos da &quot;Outra Senhora&quot;, antes da generosidade democrática, a que o 25 de Abril abriu as portas, ter implantado um Estado Social no nosso país.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois de ter concluído o curso, cumprido o serviço militar obrigatório e arranjado emprego, senti--me apto a assentar vida, pelo que me casei, comecei a fazer filhos e a comprar certificados de aforro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca mais deixei de poupar, porque tive a dupla sorte de nunca me ter faltado trabalho, mesmo das três vezes em que perdi o emprego, e de ter escolhido esta profissão de jornalista, que me permitiu progredir dentro dos diferentes segmentos em que se subdivide a classe média, que é como se passaram a designar os outrora remediados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A minha transformação de contribuinte em tanso fiscal (expressão roubada ao saudoso Leonardo Ferraz de Carvalho), consumada sem margem para dúvidas a partir de janeiro, vai obrigar-me a diminuir a quantidade de dinheiro que mensalmente ponho de lado. Mas garanto-vos que não me vai impedir de continuar a poupar, por pouco que seja.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além de ajudar a acautelar o futuro da minha família, neste momento em que a Segurança Social treme por todos os lados, sei que poupar é a melhor maneira de ajudar o meu país, pois o dinheiro que aforramos poderá ser usado para financiar os investimentos público e privado, indispensáveis ao crescimento e à criação de emprego e riqueza, sem maltratar ainda mais as nossas já pobres contas externas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E tentando descortinar o lado bom do assalto fiscal à mão armada, de que vamos ser vítimas todos nós, tansos fiscais, que não conseguem escapar ao IRS, chamo a atenção para o facto não negligenciável de que já estou no escalão imediatamente anterior ao de magnatas como Ricardo Salgado, Soares dos Santos ou Américo Amorim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou quase a apanhar o Belmiro e a ser declarado oficialmente rico. Nada mal para um ex-remediado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;</description>
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  <category>fisco</category>
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  <pubDate>Fri, 26 Oct 2012 09:10:27 GMT</pubDate>
  <title>Um elogio aos ladrões</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/214408.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=WznoZs7bqhT56A8Wd09b&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B73126d57/14088310_TajpB.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se forem ao YouTube e pesquisarem &quot;Did you know&quot; encontram diferentes versões de um vídeo maravilhoso, recheado de dados reveladores do frenético ritmo dos tempos em que vivemos. Uma das coisas que mais me impressionaram foi ficar a saber que as dez profissões mais procuradas em 2010, nos EUA, não existiam em 2004 - o que equivale a dizer que estamos a preparar estudantes para empregos que ainda não existem, em que usarão tecnologias ainda não inventadas para resolver problemas que ainda nem sequer foram colocados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estes tempos exponenciais, de novas novidades e desvairadas mudanças de vidas e de costumes (frase roubada ao cronista Rui de Pina), obrigam-nos a nunca parar de aprender e a habituar-nos a conviver com a incerteza e a precaridade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Refletindo sobre esta matéria, cheguei à conclusão de que os pequenos e médios meliantes são um dos grupos que mais depressa atingiram a excelência na capacidade de adaptação a estes novos e difíceis tempos. Senão, vejamos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como as agências bancárias reduziram a um mínimo insignificante o dinheiro que têm em armazém e equipam os cofres com sofisticados sistemas de alarme e abertura retardada, os ladrões redefiniram como alvo os Multibanco, que é onde agora estão as tão desejadas notas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como a cotação do ouro não para de subir (é o valor refúgio em épocas de crise), os ourives passaram a figurar entre os alvos preferenciais dos assaltantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como os carros que vale a pena roubar não são os Clio, Punto e Corsa, em que os deputados da nação não querem andar, mas sim os Audi, Mercedes e BMW que todos os &quot;parvenus&quot; adoram - e estão num patamar tecnológico que não vai em cantigas de ligações diretas - os gatunos inventaram o carjacking, o roubo de viatura com condutor para lhe extorquir a chave/cartão que aciona a ignição.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como a trepidante industrialização chinesa inflacionou o mercado internacional de matérias-primas, os bandidos desataram a gamar tudo quanto lhe cheire a cobre, latão ou outro metal em alta - tampas de saneamento, placas de trânsito, campas, etc..&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A quem possa ficar chocado com este elogio aos pequenos e médios ladrões, recordo que eles desenvolvem a sua atividade desprovidos do mínimo apoio do Estado e do QREN (ou qualquer outro financiamento comunitário), na mais estrita observação da mais pura das regras do mercado (a lei da oferta e da procura) e com todos os riscos por sua conta - ao contrário dos tipos das PPP que têm o lucro garantido pois nós, os palermas dos contribuintes, alombamos com o risco por eles.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu, que em 56 anos de vida tive mais problemas com polícias do que com ladrões, tenho mais simpatia pelos pequenos e médios ladrões, que roubam os ricos, do que pelos ladrões de impostos, que vivem à nossa custa, sejam eles banqueiros desonestos ou políticos corruptos. São gajos que dão mau nome à classe dos ladrões.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>ladrões</category>
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  <pubDate>Mon, 22 Oct 2012 09:10:45 GMT</pubDate>
  <title>O caso do tapete de Arraiolos</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/214059.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=6wf2usnq5sZOu4ZaE3Nm&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bda126226/13911511_gOzwT.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O caso do tapete de Arraiolos demonstra como eu posso ser sentimental. O meu Arraiolos (só tenho um) é vulgar, mas eu gosto muito dele - ponto grosso, desenhos em tons verdes e castanhos, um pouco mais de três m2.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao longo dos cerca de 30 anos que leva comigo, não teve uma vida fácil. Suportou o peso de muitos móveis e alombou com as tropelias inerentes ao crescimento de três crianças. Os maus tratos fizeram-se sentir sob a forma de rasgões perigosos, pois podíamos enfiar lá o pé e tropeçar. Impunha-se uma atitude.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O especialista da loja de tapetes de Arraiolos, que fica em Santa Catarina, sugeriu-me a eutanásia. Reconstruí-lo ficava 50 euros mais caro do que fazer um novo, igualzinho e mais durável, e 150 euros acima do preço de um novo, com desenhos e cores diferentes mas área idêntica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não foi fácil decidir. A razão ordenava-me que comprasse um novo. E o especialista em Arraiolos dava-me argumentos para enganar a emoção encomendando um clone. Mas eu preferi pagar mais 50 euros para evitar que o primeiro tapete que comprei, depois de ter saído de casa dos meus pais, fosse deitado ao lixo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me arrependi. Acho que atitudes sentimentais como esta são as mais adequadas ao novo normal a que nos temos de ir habituando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até agora, cada geração viveu sempre melhor que a anterior, e a subida da qualidade de vida, que deu um enorme salto com o 25 de Abril e a adesão à CEE, era quantitativamente mensurável nos seus diversos parâmetros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na saúde, beneficiamos do acesso democrático a cuidados médicos, da queda brutal da mortalidade infantil e do crescimento na esperança de vida. No ensino, registámos um aumento significativo dos licenciados e doutorados, bem como da quase erradicação do analfabetismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas condições de vida, passamos do défice para o superavit no parque habitacional, temos o país cheio de autoestradas sulcadas por BMW, Mercedes e Audi, os lares equipados com plasmas e LCD e os portugueses apetrechados com smartphones da última geração.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema foi que um dia os credores repararam que a aceleração do nosso poder de compra não tinha sido acompanhada de idêntico crescimento na produção de riqueza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Portugal foi ao tapete e estamos em contagem de proteção, para reduzir em 30% os salários, emagrecer um Estado que sofre de obesidade mórbida e reorientar para a produção de bens transacionáveis uma economia criminosamente obcecada pelos serviços.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para agradar aos credores, o Governo está a tentar ser eficaz na arte de depenar o pato (nós, os contribuintes), de modo a que ele grite o mínimo possível e a obter a maior quantidade de penas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para evitar darmos em doidos, é aconselhável dar espaço à afetividade, abandonar a religião do deus Dinheiro, e perceber que é mais fácil chegar à felicidade pela renúncia do que pela procura da satisfação de necessidades supérfluas - e cada vez mais numerosas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;</description>
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  <category>novo normal</category>
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  <pubDate>Sun, 21 Oct 2012 09:10:24 GMT</pubDate>
  <title>Não peças boleia a um taxista</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/213988.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=ZIYgPIF6an9cyI3Mc5Ma&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7f111338/13911509_iNBYa.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quarta-feira à noite, no aeroporto de Stansted, comprei o Daily Telegraph porque estava cheio de sede. Pode parecer bizarro, mas não é. O quiosque estava a fazer uma promoção. Quem adquirisse o jornal, por 1,20 libras, levava de borla uma garrafa de 750 ml de água mineral Braxton, que se comprada isoladamente custava 1,90 libras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para mim foi um bom negócio. Por cerca de 1,5 euros cometi um triplo assassinato: matei a sede, o tempo e a curiosidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A leitura do Telegraph preencheu as duas horas e pico da viagem de regresso após cinco dias em Londres, e fiquei a saber uma data de coisas interessantes, como, por exemplo, que no Reino Unido passou a ser incompatível ser polícia e ter tatuagens na cara, pescoço ou mãos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A manchete era sobre a decisão do attorney general britânico (que equivale à nossa PGR) de proibir a divulgação pública de 27 cartas que o príncipe Carlos enviou a diversos ministros do governo Blair. Motivo alegado? A publicação das cartas prejudicaria seriamente o seu futuro papel de rei dos britânicos. Dá para imaginar os disparates que o herdeiro da Coroa terá garatujado (ao que parece, a caligrafia dele assemelha-se perigosamente aos hieróglifos egípcios).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Achei bastante graça à resposta que Hilary Mantel - a primeira mulher a ganhar por duas vezes o Man Booker Prize - deu quando lhe perguntaram onde ia gastar as 50 mil libras do prémio. &quot;Na rehab (desintoxicação)&quot;, respondeu a mulher, cuja fotografia a 4 colunas ao alto dominava a primeira página. Da primeira vez, em 2009, em resposta à mesma pergunta, ela disse que ia torrar a nota toda em &quot;sexo, drogas e rock&apos;n&apos;roll&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para mim foi bom negócio pagar 1,5 euros por uma garrafa de água e um jornal atraente e bem escrito, com um caderno principal de 38 páginas broadsheet, mais um 2.0 caderno económico de 12 páginas e um 3.0º desportivo, com 20 páginas. Mas duvido que tenha sido bom negócio para os editores do Telegraph.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Doeu-me na alma ver exemplares do Telegraph, ainda por folhear, espalhados como lixo pelas cadeiras e cestos de papéis. Como me doía ver, no nosso país, gente a chegar a uma banca de jornais e pedir o copo de vinho branco ou o garfo de peixe - e não o título que trazia essa oferta, na vã tentativa de sustentar artificialmente a sua circulação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um jornal tem de se dar ao respeito. Produzir boa informação não é barato. Imprimi-la e distribui-la custa dinheiro. Por muito tentador que seja o atalho que pode dar resultados imediatos, não podemos esquecer-nos que ele é um passo no sentido do suicídio a prazo da indústria dos jornais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No início, o modelo de negócio dos jornais era simples. Consistia em vender informação e opinião aos leitores - e vender leitores aos anunciantes. O caminho certo é o regresso às origens, fazendo jornais que valham por si e os leitores achem que valem o dinheiro que custam. Ninguém no seu perfeito juízo pede boleia a um taxista, pois não?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;</description>
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  <category>jornais</category>
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  <pubDate>Fri, 12 Oct 2012 09:10:32 GMT</pubDate>
  <title>Ando com as tensões altas</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/213616.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/jorgefiel/fotos/?uid=gTmJkvVwzDjTafcA1Eit&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0px;&quot; src=&quot;http://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4c12ccb7/13911506_OPI5Q.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;351&quot; height=&quot;351&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lembram-se de Romário, aquele brasileiro baixinho que fazia golos tão simples como se estivesse a passar a bola para um colega que estava no fundo da baliza? Pois no dobrar dos anos 80 para os 90, entre sair do Vasco da Gama e brilhar no Barcelona, ele passou pelo PSV, e foi entrevistado em Eindhoven por um amigo meu jornalista que, a título de aquecimento, abriu a conversa perguntando-lhe como é que ele estava a dar-se na Holanda e obteve como resposta um longo rol de lamentações.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Romário queixou-se do clima, da comida, da língua e dos hábitos - na verdade, não deve ser fácil um latino habituar-se a uma sociedade em que o convite para ir jantar a casa de alguém é acompanhado da pergunta sobre quantas batatas vamos comer -, antes de entrar nas questões profissionais, ou seja, no futebol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois de se assegurar de que o meu amigo não iria publicar o seu desabafo, o brasileiro queixou-se dos colegas, que nunca lhe serviam a bola em condições: &quot;A princípio, até pensei que era de propósito, para me queimar. Mas não. Já entendi que se não passam bem é porque não conseguem. Não é por mal que não fazem melhor. É porque não sabem&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Converti esta frase numa espécie de mantra, que me tem ajudado muito a ter paciência quando confrontado com exasperantes situações de falta de profissionalismo ou de pornográfica incompetência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se pressinto que vou levantar a voz e estou prestes a explodir, repito mentalmente, as vezes que for preciso, o mantra -&quot;Não é por mal que não fazem melhor. É porque não sabem&quot; -, até me acalmar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando, há coisa de ano e meio, nos apercebemos de que as nossas finanças públicas estavam em pior estado que o chapéu de um trolha, foi claro para quase todos nós que até endireitarmos as contas iria ser preciso apertar o cinto e aguentar com abnegação o fel da austeridade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou até convencido de que, em nome do sucesso do milagre regenerador do grande sacrifício nacional, aceitaríamos com estoicismo que Passos Coelho sublinhasse a sua chegada a S. Bento com o anúncio de que os subsídios de férias e de Natal ficavam sine die por conta do esforço de consolidação orçamental.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema é que, ao longo destes quase 16 meses, contrariando a sábia recomendação de Maquiavel (o mal deve ser feito todo de uma vez, ao contrário do bem, que deve ser administrado em prestações), o Governo não para de anunciar a conta- -gotas mais medidas de austeridade - e são cada vez mais as vozes de economistas (como João Duque e Augusto Mateus) a avisar que daqui a um ano, quando estivermos a discutir o OE de 2014, vamos estar na mesma (ou seja, pior) porque os remédios amargos que estamos a tomar não estão a atacar o mal de que padecemos, mas antes a aliviar alguns dos seus sintomas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O drama é que se estas vozes estiverem certas, repetir o meu mantra - &quot;Não é por mal que não fazem melhor. É porque não sabem&quot; - não só não me acalmará como ainda por cima vai fazer subir mais a minha tensão arterial&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crónica foi hoje publicada no JN&lt;/p&gt;</description>
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