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  <title>Bússola</title>
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  <description>Bússola - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Sat, 31 Jul 2010 17:56:06 GMT</lastBuildDate>
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  <pubDate>Sun, 25 Jul 2010 17:53:28 GMT</pubDate>
  <title>Joaquim Moutinho</title>
  <author>Jorge Fiel</author>
  <link>http://bussola.blogs.sapo.pt/149003.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/QH0azAqyWgbPgvZ7geoq&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0 none;&quot; src=&quot;http://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/b2e049166/6853990_jykMG.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium;&quot;&gt;Joaquim Moutinho, 58 anos, é dono de lojas de marcas como a Hugo Boss e a Max Mara, de que é o representante para Portugal. Durante 15 anos, celebrizou-se e correndo em pista, terra e asfalto, ao volante de carros míticos como o Renault 5 GT Turbo, Porsche Aurora e Opel Commodore GSE. Vencedor do Rali de Portugal, campeão nacional de ralis e de velocidade, foi nas corridas que aprendeu a não baixar os braços e ir buscar forças aonde não sabia que tinha para enfrentar com sucesso, no início da sua vida empresarial, duas crises graves (a dos incobráveis e a cambial), que lhe levaram 1, 3 milhões. “Neste mundo em mutação rápida, a vida no mundo dos negócios é cada vez mais aparecida com um rali cheio de nevoeiro e lama, em que não vemos nada à frente e não sabemos o que vai acontecer a seguir”, diz&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para celebrar a entrada na Faculdade de Economia e o 18º aniversário de Joaquim, o mais velho dos seus três filhos, o pai decidiu-se a oferecer-lhe uma bomba, o Datsun 1600 SSS, arranjado a bom preço pois, como empresário de plásticos e napas, era fornecedor do Entreposto, que montava em Setúbal os carros da famosa marca japonesa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas ele, que acabara de tirar a carta e desde pequenino era vidrado em automóveis, declinou a oferta generosa. Agradecia muito, mas preferia um carro mais modesto, em segunda mão, e até já tinha um em vista: o Datsun 1200 posto à venda por Teresa Gil da Silva.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pai fez-lhe a vontade (“Se é esse o carro que queres, seja...”) convencido de que ele estava a ser burro. Só mais tarde se aperceberia de que este estranho comportamento do filho foi o momento fundador de uma extraordinária carreira de piloto de automóveis, que se sagrou campeão nacional de ralis e de velocidade, e triunfou no Rali de Portugal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Joaquim Moutinho, 58 anos, recorda este episódio numa sala do número 15 da rua das Condominhas, junto ao Largo do Calém e ao rio Douro, onde bate o coração do seu grupo empresarial, que factura mais de dez milhões de euros/ano, e onde convivem lojas da Hugo Boss com a representação e lojas de outras marcas de vestuário, como a Max Mara.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele sonhava correr no Campeonato de Promoção (como se chamava na época à competição para iniciados) de ralis e nos troféus. E o Datsun 1200 apesar de menos potente que o 1600 SSS, já vinha com roll-bar e corta circuitos, ou seja preparado para competir sem ser necessário gastar dinheiro que ele não tinha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Manuel dos Santos Júnior viveu na ignorância da secreta ambição do filho até que numa sexta feira à noite, algures na Primavera de 1972, estava calmamente a ler jornal no sofá junto à lareira, na casa onde moravam, na rua Alexandre Braga, e Joaquim, com um ar comprometido, lhe interrompeu a leitura anunciando: “Pai, vou-me deitar mais cedo, porque amanhã vou entrar numa prova”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Vais entrar numa prova? Que prova?”, interrogou o pai, homem duro, deixando escorregar o jornal para o chão. Era o Rali do Académico, que começava com umas voltas ao Estádio do Lima, para estabelecer a ordem de partida, e se disputava em classificativas nocturnas que terminavam no alto de Santa Luzia em Viana do Castelo – a prova de estreia de Joaquim que para todo o resto da vida usaria o apelido da mãe (Lucinda Moutinho), porque, quando preencheu a papelada para tirar a licença desportiva, no ACP, em Gonçalo Cristóvão, não reparou no pedido para sublinhar os dois nomes porque queria ser conhecido. No entretanto, apareceu o Joaquim Santos que leu as letras pequeninas e ele ficou Joaquim Moutinho para todo o sempre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dificilmente o Rali do Académico podia ter corrido melhor. Nas voltas ao Lima, fez o 12º tempo, imediatamente à frente do seu amigo Pedro Meireles, um veterano que já andava nos ralis há quase um ano e meio, e que por isso partiu um minuto atrás, o que se viria a revelar uma bênção para Joaquim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“O carro tinha a suspensão preparada para rampas e pista, No asfalto tudo bem. Mas na primeira classificativa em terra, em Orbacém, a traseira estava sempre a bater na terra. A princípio isso não incomodou. O que importava era que o carro andasse e virasse. Aqueles Datsun nem com um martelo partiam. Mas não demorou muito até o Meireles nos apanhar. Encostamos para o deixar passar a uma velocidade louca”, recorda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Edgar Fortes, o navegador, fechou as notas, e disse a Joaquim: “Ou vamos atrás dele, ou vamos para casa”. Foram atrás de Meireles. Para o seguir, tiveram de andar à maluca. “Ele vai-se matar”, gritou Edgar ao ver como o carro da frente entrava numa direita lenta. “É impossível andar assim com esta lama e nevoeiro”, acrescentou. Estava enganado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Claro que era possível. Quando chegamos ao controlo, colados à traseira do Meireles, estavam lá quatro carros a recolher o carimbo. Foi nessa noite que aprendi a andar na terra”, garante Joaquim Moutinho. À chegada a Santa Luzia, reinava o entusiasmo e optimismo geral entre a maioria das cerca de 50 equipas participantes. Os tempos de penalização que declaravam deixaram-no apreensivo. “Por este andar, o último lugar é nosso”, comentou com Edgar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No dia a seguir, domingo, foi fazer companhia ao pai que foi de carro para Lisboa. “Não correu lá muito bem”, respondeu quando o pai lhe perguntou que tal tinha corrido o rali. À chegada à capital, telefonou para Edgar e ficou surpreendido quando soube que tinham ficado em 4º na geral, apesar de serem estreantes, e competirem contra Porsches num carro de 60 cavalos e com a suspensão preparada para provas de velocidade. Afinal no alto de Santa Luzia, os outros navegadores tinham-se enganado nas contas de somar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na longa de viagem de regresso ao Porto, pela EN1, o pai perguntou o material de que precisava para poderem competir em pé de igualdade com os outros. E ofereceu-lhe dois amortecedores e molas. “O 4º lugar deu-me a sensação de que podia ganhar. Mas fiquei com vontade de provar o sabor da vitória com alguma rapidez”, explica. Não precisou de esperar muito. No rali, seguinte, o de S. Mamede, foi o primeiro na geral com o seu Datsun 1200 castanho metalizado. Era o início de uma bela carreira, que prosseguiria em todos os pisos, desde a terra dos ralis até ao asfalto quente das pistas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tinha sete anos quando pregou um enorme susto à mãe que o surpreendeu a manobrar o seu carro, um Fagst igualzinho ao Fiat 600. “Chegava aos pedais porque era grande para a idade e puxava o banco todo à frente”, conta Moutinho, que mede 1m85. O pai alimentou-lhe desde cedo esta paixão. Em 1960, quando ele acabou a primária no Colégio Italiano da rua da Restauração, ofereceu-lhe um kart MC 10  - e nas férias e fins de semana levava-o, a bordo do seu Lancia APP, até ao circuito de São Caetano, em Vilar do Paraíso (Gaia) onde ele demonstrava a suas habilidades precoces competindo taco a taco com pilotos bem mais velhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os 15 anos em que foi piloto deram-lhe muitas alegrias e afinaram-lhe o carácter, mas obrigaram-no a desistir a meio do curso de Economia e a começar a ganhar a vida a trabalhar na empresa do pai, até que um dia, em 1986, sentiu que casado e  com 35 anos, tinha de fazer alguma coisa por ele próprio. Meteu-se num Mercedes 280E de 6 cilindros a gasolina e conduziu até Metzingen, na Alemanha, com o objectivo de ganhar a representação da Hugo Boss. Apesar de haver 92 candidatos, a reunião correu tão bem que no final o contrato estava apalavrado e ele foi ao armazém encomendar roupa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A volta canhão de 2m05,45seg que fez no autódromo do Estoril (e que ainda é recorde do circuito) na primeira vez que se sentou no Opel Commodore GS/E e permanece é uma das boas recordações que guarda dos gloriosos tempos das corridas, até pelo sacrifício que implicou a compra do carro. “Como os patrocínios não abundavam, para comprar o Commodore ao meu amigo e grande piloto Carlos Santos tive de vender dois carros - um Datsun 1200 GX e um Alfa Romeu 2000 GTV com os quais cheguei a participar em várias provas - juntei todas as minhas economias, e ainda fiquei a pagar 12 prestações de 3.500 escudos, que era uma pipa de massa. E fiquei a andar a pé. Ia para a Faculdade de Economia de autocarro, o que até deu jeito porque naquela época os “burgueses” que tinham carro estavam sujeitos ao ódio revolucionário”, recorda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A vitória no Troféu Datsun, em 1972, os triunfos no Nacional de Ralis (85 e 86), ao volante do seu mítico Renault GT Turbo, e no Nacional de Velocidade (81) com o não menos mítico Porsche Aurora preparado por Eduardo na sua célebre garagem na Foz, são os momentos Kodak de uma carreira a que pôs termo em 1986.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Abandonou por várias razões. O negócio de representação ocupava-lhe a semana e ao fim de semana tinha as provas, pelo ficava sem tempo para as três filhas que tinha (uma de sete e as gémeas, com cinco, a que se viria a juntar, nove anos depois a mais nova, que tem agora 15 anos) – uma das quais é casada com o filho de Rui Moreira, o presidente da Associação Comercial do Porto. E, &lt;em&gt;last but not the least&lt;/em&gt;, o ano da despedida ficou marcado por dois acidentes muito graves. No Rali da Rota do Sol o susto foi tão grande que quando saiu do carro não conseguia aguentar-se de pé. E nos Açores, saiu do R5 GT Turbo&lt;em&gt; in extremis&lt;/em&gt;, imediatamente antes do carro começar a arder.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Tomei a decisão de abandonar no dia do acidente dos Açores. O carro ficou totalmente destruído. Acabamos o campeonato no Alto Tâmega com um carro emprestado pela fábrica, que pesava menos 200 quilos que o nosso e tinha sido do Jean Ragnotti. Pediram-nos para ter muito cuidado com ele porque ia a seguir para o museu da Renault”, diz Moutinho, que questionado sobre os pilotos que mais admirou, nomeia Ayrton Senna , na velocidade, e Henri Toivonen, nos ralis, “dois supra sumos em termos de rapidez”, mas não esquece a inteligência fria de Alain Prost.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“A pista é muito diferente dos ralis. O fundamental é a análise detalhada dos pormenores que todos juntos fazem a diferença. O que conta é a constância e o rigor em todas as voltas. Não é nada fazer uma volta a 1m52, a seguinte a 1m50 e a terceira a 1m54. É fundamental saber gerir os pneus e perceber que uma corrida começa a ganhar-se nos treinos”, explica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na velocidade, está-se em confronto directo com os outros competidores, sabe-se sempre em que lugar se vai. Nos ralis já não é assim  - é um contra-relógio. “Cada um de nós anda sozinho, entregue a si e ao co-piloto, que é tão importante como o condutor. Há o inesperado, a lama, a chuva, a noite e o nevoeiro”, compara Joaquim, que agora conduz um BMW 7.30 D, com cinco anos “e não tem um barulho”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que é mais parecido com a vida? O rali ou a velocidade? “No princípio é uma mistura das duas coisas. É preciso aliar o rigor e consistência da pista com a capacidade de improviso e o instinto que leva a fazer as coisas certas e evitar as erradas, que se ganham nos ralis. Mas agora com o mundo em mutação rápida, a vida no mundos dos negócios é cada vez mais aparecida com um rali cheio de nevoeiro e lama, em que não vemos nada à frente e não sabemos o que vai acontecer a seguir”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Nas corridas aprendi a enfrentar as dificuldades, a não baixar os braços e a ir buscar forças que não sabia que tinha”, concluiu Joaquim Moutinho, que bem precisou dessa capacidade para, nos primeiros anos da sua vida empresarial, ultrapassar com sucesso duas crises bem graves: a dos incobráveis, em que perdeu 800 mil contos, e a cambial, que lhe levou meio milhão de contos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jorge Fiel &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>joaquim moutinho</category>
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  <lj:music>Rapsódia Hungara, Liszt</lj:music>
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