Arquimedes formulou o princípio que o celebrizou ao tirar a correcta ilação científica do facto da água transbordar à medida que o seu corpo mergulhava na banheira. O Eureka de Joaquim Jorge (mais conhecido por Jota Jota, ou tão só Jota) deu-se quando ele estava na cama da sua moradia, no centro de Gaia.
Por um lado, queria ter intervenção política e não estava bem a ver nem como nem aonde. Por outro, estava farto do formato habitual: “um político a falar durante mais de uma hora, metade de sala a dormir, no final três perguntinhas da assistência e está feito, vai tudo para casa”.
O Clube dos Pensadores (a madrinha foi Graça, a mulher com quem está casado há 27 anos) foi a solução para esta equação. “Votar não chega. É uma fórmula pobre de intervenção. Nós, os cidadãos, temos de questionar o poder e exigir aos políticos que nos prestem contas. Isto para mim é muito claro, mas parece que é escuro”, explica Jota, 53 anos (faz 54 a 30 de Agosto), que se licenciou em Biologia depois de ter andado no Colégio Brotero, e foi professor de Biologia no Secundário e na Escola Superior de Enfermagem.
Gaia é o centro de gravidade dele. É lá que vive e trabalha. E o GaiaHotel, na avenida da República, a sede onde se realizam os debates do Clube dos Pensadores. Mas nasceu e cresceu em São Mamede, onde o pai era o dono da Favorita e ele jogou andebol na Académica e futebol no Infesta. Talvez tenha sido por esta ligação a Matosinhos que escolheu almoçarmos no restaurante do seu amigo Zeferino, um transmontano de Mesão Frio que deitou âncora perto da lota.
Jota tem um farto curriculum de desportista (além do andebol e do futebol, foi campeão nacional de futsal pelos Dragões 85) e ainda continua a jogar futebol de sete, às 2ª e 6ª, em partidas em que também alinha Pedro Miguel, 22 anos, estudante de Engenharia, o seu filho único que passou pela formação do FC Porto, onde foi treinado por André Vilas-Boas.
“Nos dias de jogo vou para cama de gatas”, confessa, o que explica a disciplina com que encarou a refeição – não tocou no vinho, comeu um filete de pescada, metade do meio bife e metade da meia torta de limão feita por Maria, a mulher de Zeferino. Quer manter o peso nos 85 kg (mede 1m80) para poder continuar a jogar futebol duas vezes por semana.
A ideia do clube demorou apenas três meses a passar da potência ao acto. Em Março de 2006, Vicente Jorge Silva, dava o pontapé de saída para a actividade do Clube dos Pensadores que já promoveu 53 debates com gente tão diversa como Passos Coelho, Vítor Baía, Portas, Alegre, Santana Lopes, Carvalho da Silva, Medina Carreira, Louçã, Luis Filipe Menezes e João Jardim – e deu origem à publicação de dois livros.
Mais de cinco anos volvidos, o formato dos debates mantém-se inalterado. O convidado fala no máximo 20 minutos, após o que a iniciativa passa para a plateia. Cada interveniente tem três minutos para fazer uma pergunta. A sessão dura duas horas e termina às 23h30 em ponto.
“Os políticos deviam usar as orelhas para conquistar as pessoas – seduzir a ouvir e não só a falar. Mas não é isso que acontece. Nós temos duas orelhas e uma boca. Mas até parece que os políticos têm duas bocas e apenas uma orelha”, explica JJ, acrescentando que além dos debates o clube também é um blogue (clubedospensadores@blogspot.com) e um programa de rádio (4ª feira, entre as 19 e as 20h) no Rádio Clube de Matosinhos.
A estrutura é ligeira e flexível. Para ser membro (há cerca de 1500 inscritos) basta pagar um euro, ficando-se assim habilitado a receber, por mail e SMS, informação sobre as actividades do clube e a participar no jantar privado com o convidado que antecede o debate.
“Namoro com os cidadãos. Não estou casado com eles. Não há obrigações”, declara Jota que tem de puxar pela imaginação para financiar as actividades do clube sem ter de recorrer ao seu próprio bolso (o que acontece com alguma frequência). Bagão Félix, em Setembro, é o senhor que se segue.
Jorge Fiel
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Dom Zeferino
Rua do Godinho 163, Matosinhos
Pataniscas de bacalhau … 3,00 euros
Água das Pedras ... 0,70
Lusitano (branco da Ervideira) … 6,50
1/2 Filetes de pescada com arroz de feijão … 9,00
Bife à D. Zeferino … 13,00
Tarte de limão.. 3,50
3 cafés ………………2,70
Total ……………….. 38,40 euros
Na Bretanha, o carapau não chega a vir para terra. É apenas usado como isco. Isso explica o ar de espanto com que chef bretão Olivier Roellinger (três estrelas Michelin) perguntou “Ça se mange?” quando o Miguel lhe falou de carapau.
Foi esta conversa que deu origem ao tártaro de carapau com gengibre em sopa de coentros, um dos pratos do banquete que degustamos no Largo, o restaurante que Frederico Collares Pereira abriu no Chiado, entregando o comando da cozinha a este Miguel e confiando a outro Miguel (Câncio Martins) a transformação dos claustros do Convento da Igreja dos Mártires num espaço onde o moderno e antigo se casam num ambiente especial.
“Trata-se de um prato desagradavelmente saudável, azeite, limão, gengibre e o carapau, que é um peixe azul”, discorre Miguel Castro Silva, 50 anos, naquele tom sarcástico que o caracteriza, precisando que o gengibre entra só para emprestar frescura, não para dar sabor.
Filho de um oftalmologista português e de uma alemã, nasceu no Porto, onde estudou no Colégio Alemão. A música foi a sua primeira paixão. Amigo e vizinho de Rui Veloso, no Pinheiro Manso, teve uma banda com Toli (o baterista dos GNR) e sonhou ser pianista. As suas interpretações de peças de Mozart e Chopin fizeram dele o aluno favorito da Juventude Musical Portuguesa. Até que, aos 14 anos, “alguma coisa se fechou” e abandonou o piano.
Foi para Kiel, sob o pretexto de estudar Biologia Marinha. Mas o que ele queria mesmo era viver da música. Quando desistiu dos estudos, da Alemanha e do sonho de ser músico, fez a tropa em Santarém (para manter a nacionalidade portuguesa), e começou a trabalhar como product manager de um suíço. “ Nunca ganhei tanto dinheiro nem viajei tanto como durante esses cinco anos”, recorda.
Por azar zangou-se com o suíço ao mesmo tempo que fechou a têxtil onde a mulher trabalhava. Estava com 30 anos e resolveu abrir um restaurante. Os anos 90 estavam a começar. Os primeiros tempos não foram fáceis.
“ Na altura, abrir um restaurante sem filetes de pescada ofendia a honra portuense. Fui insultado por cozinhar bacalhau com vinho do Porto”, conta Miguel, que atingiu a consagração com o Bull & Bear (o 3º dos seus restaurantes), eleito em 97 pelo Financial Times como um dos 25 melhores da Europa.
Quando há dois anos, Frederico Collares Pereira o desafiou a trocar Leça pela Lapa, já tinha as suas credenciais estabelecidas. Na viragem do milénio, a Academia Portuguesa de Gastronomia proclamou-o cozinheiro do ano. E a partir de 2007 passou a ter três receitas no Larouse Gastronomique.
José Quitério confessa não perceber como é que os portuenses não o impediram de se mudar para a capital: “No lugar deles tinha fechado a ponte da Arrábida”. Miguel explica a mudança, adaptando uma tirada de Cavaco: “Deixem-me cozinhar” (já estava farto de ser ao mesmo tempo chef e empresário de restauração).
Degustar um banquete na companhia do chef que inventou o que comemos e bebemos (um Dão branco, Paços dos Cunhas, em parceria com Carlos Lucas, e um Douro tinto, Cassa, em parceria com Rui Madeira) é um privilégio idêntico ao ver um filme com o realizador a comentar ao nosso lado.
Para memória futura aqui fica um relatório sintético de uma experiência inolvidável: creme de coentros com tomate assado (amuse bouche); vieiras grelhadas em infusão de dois azeites com colorau e alho (não descascado); lulinhas salteadas em azeite sobre batatas crocantes cozinhadas com pele (“Já me insultaram por ter tentado tirar esta entrada da lista”); tártaro de carapau; risotto de rucola e robalo escalfado com lingueirão (“Ainda não tinha provado este prato. Às vezes não tenho paciência para a minha cozinha… “); carrilheiras de porco preto em vinho tinto com cominhos (“Tento ter sempre na lista alguns pratos bem portugueses”).
Para rematar três sobremesas: Parfait de amêndoa com molho moscatel; mousse de chocolate zero graus com praliné de avelã; gratinado de maçã com molho de baunilhas.
“Não gosto de fazer sobremesas. E como não as como, tenho tendência a fazer sobremesas pouco doces”, explica, antes de sintetizar numa frase a sua teoria: “Comer com prazer sem que isso signifique um exercício intelectual”.
Jorge Fiel
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Largo
Rua Serpa Pinto 104, Lisboa
Frederico Collares Pereira foi intransigente na decisão de não me deixar pagar. Quando insisti, explicando que era importante dar aos leitores uma ideia de quanto custaria fazer uma refeição destas, fez o seguinte exercício de preço por pessoa para um almoço em que dois comensais partilhassem um menu Largo e a sobremesa:
Largo… 29,00
Água Chic 1 litro … 3,90
1 copo branco Paços dos Cunhas de Santar … 5,00
1 copo tinto Cassa … 5,50
Mousse chocolate … 5,50
1 café …. 2,00
Total … 50,90 euros
Curiosidades
Como a licença para iniciar as obras no Largo (um espaço que era usado como armazém de material eléctrico) demorou 18 meses a chegar, Miguel foi-se entretendo em formatar a lista da petisqueira lisboeta De Castro Elias, o restaurante onde Isabel dos Santos fechou o negócio de entrada na Zon – e gostou tanto da comida que contratou a cozinheira para o restaurante Ondah, em Luanda
“A América não é a Europa. E a Europa não é Portugal. Se Alain Ducasse viesse para cá, o restaurante dele fechava em três meses”, vaticina Miguel
“Desde miúdo que gostava de cozinhar”, confessa Miguel, que praticou muito com tachos e panelas durante os anos em que estudou e viveu na Alemanha, entre Kiel e Munique, já que cozinhava para os colegas com que partilhava o apartamento. “Assim não tinha de levantar a mesa e lavar os pratos, explica.
“Hoje estou a cometer um excesso”, confessa, Sofia Sousa, 37 anos, enquanto olha, com um sorriso ligeiramente maroto, para o prato (pequeno) de raviolis de espinafres, com beterraba e couve, que trouxe do bufett do restaurante do Holmes Place de Miraflores, explorado pela cadeia de comida saudável Bits & Pieces.
O excesso de Sofia eram os raviolis. Por norma, ela não come massas. “Gosto mais de peixe do que de carne. E na carne prefiro sempre a branca à vermelha”, explicou a directora geral da Holmes Place Portugal, uma rede nacional de 19 clubes, com cerca de 60 mil sócios.
Sofia iniciou com um creme de legumes uma refeição que acompanhou com o sumo do dia (banana, laranja e morango). Estar em forma é uma preocupação que a acompanha desde os três anos, a idade em que a mãe (jurista) e o pai (jornalista) acharam apropriada para ela começar a fazer ginástica no Colégio Portugal, na Parede.
Ganhou-lhe o gosto e nunca mais parou. Fez ginástica desportiva, no Clube Nacional de Ginástica, até que no início da adolescência, em meados dos anos 80, se deixou contagiar pela moda da aeróbica, introduzida por Jane Fonda.
Pelo menos três a quatro vezes por semana, Sofia começa o dia às 7h30 com um treino de 45 minutos, de RPM (bicicleta) ou Total Condicionamento (“trabalha, localizadamente, diversos grupos musculares”, esclarece), em aulas com professor, num dos ginásios da rede Holmes – o seu centro de gravidade está em Algés, mas devido às suas funções, ela passa boa parte da semana em digressão pelos diferentes clubes.
“O treino relaxa-me”, afirma Sofia, que pesa 58 quilos, distribuídos por 1m72 de altura, o que além de excelente cartão de visita para a empresa que gere é a prova dos nove de que compensa ter um estilo de vida saudável, exercitando regularmente o corpo e sendo criterioso na escolha do que metemos na boca.
Licenciada em Gestão de Empresas pela Lusíada (1997) e sócia desde a primeira hora do Holmes (que abriu em 1998, com o clube da Quinta da Fonte), nunca passou pela cabeça a Sofia que iria trabalhar e ganhar a vida no local onde tinha prazer - e que pagava para frequentar.
Debutou profissionalmente no sector financeiro. Após um estágio no Credit Lyonnais, passou pelo BNU, experiência que recorda como deveras gratificante: “Na faculdade inundam-nos com muitos conceitos e teoria. No BNU vi como é que as coisas se faziam na vida real, lidando directamente com os clientes, enfrentando todos os dias situações diferentes. Aprendi muito com esta experiência enriquecedora”.
O departamento financeiro da Samsung, em Linda a Velha, foi a última etapa antes de deitar âncora no Holmes Place Portugal. Soube que havia uma vaga de directora de serviço, candidatou-se e ficou. Foi há uma dúzia de anos que começou a fazer alpinismo na hierarquia da empresa – até atingir, o ano passado, o vértice da hierarquia, dirigiu os clubes de Defensores de Chaves e de Miraflores e foi supervisor regional.
“Gosto do que faço, porque adoro trabalhar com pessoas e para pessoas, Aqui não há rotinas. Todos os dias há situações diferentes para resolver . Temos de ter a cabeça aberta e sermos humildes para estar sempre a aprender”, sintetiza.
Sofia (ainda?) não sentiu os efeitos da crise. Após o acelerado crescimento inicial, o número de sócios está estabilizado nos 60 mil (na maioria mulheres e do escalão etário 35/45 anos). Está preparada para enfrentar algumas desistências no pequeno grupo de sócios absentistas, que não frequentam os clubes (a média geral ronda as duas visitas por semana). Mas acredita que num período de crise as pessoas são mais criteriosas na aplicação do seu dinheiro e não vão poupar na prevenção e privar-se de um estilo de vida saudável.
“O conceito do Holmes é diferente dos ginásios de bairro. Nós somos um clube, que os sócios frequentam para treinar, nadar, fazer um sauna ou banho turco, relaxar no jacuzzi, encontrar os amigos, conviver com eles, fazer uma refeição ou até fechar negócio. É um convívio presencial e por isso bem mais simpático e saudável do que o Facebook”, conclui Sofia.
Jorge Fiel
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Bits & Pieces
Holmes de Miraflores, Oeiras
Creme de legumes …1,90
Prato do dia pequeno … 6,50
Prato do dia grande … 7,50
2 sumos naturais … 4,50
2 cafés … 2,40
Total … 22,80
Curiosidades
De acordo com um estudo do IHRSA, apenas 6 a 7% da nossa população faz exercício regulamente (o que não significa necessariamente que estejam inscritos num ginásio ou health club) . Ou seja, o Holmes Place tem uma quota de cerca 10% no mercado de 600 mil compatriotas cuja dose diária de exercício físico vai além do gesto de rodar a chave na ignição do carro e pressionar o botão de chamada do elevador. Há pois margem para o negócio crescer, tanto mais que em Espanha a percentagem de pessoas que pratica regularmente actividade física é o dobro da nossa (14%)
Os 900 mil portugueses obesos são, a um tempo, um dado estatístico preocupante e um target apetecível. Com o reality show Peso Pesado, a Sic faz surf em cima da preocupante tendência para engordar. O Holmes Place Portugal formatou um produto para ajudar obesos e pessoas com peso a mais (40% da nossa população) a tornarem-se mais saudáveis. Peso Vital é o nome deste programa específico, com a duração de um ano e o custo de 149 euros/mês, em que os participantes são reunidos em grupos com um máximo de dez participantes e beneficiam de acompanhamento por um médico e um nutricionista
Sofia não encara como concorrentes do Holmes as cadeias de clínicas de estética que pululam no nosso país como cogumelos depois da chuva: “Não se trata apenas de perder peso. A nossa preocupação vai além disso, contemplando mudança de hábitos e estilos de vida”
O feijão verde, a cenoura, o ovo, a couve flor e as batatas, ou seja todos os acompanhamentos da posta de pescada cozida que foi o almoço de José Paulo Duarte, tinham sido entregues nesse dia, pela manhãzinha, por uma das suas empresas (a Confraria da Horta), na cozinha do restaurante O Policia.
Se lhe falam em Paulo Duarte o mais provável é que a primeira coisa que lhe venha à cabeça sejam camiões e não os espargos ou as mais 200 variedades de produtos frescos que as 14 carrinhas da Confraria distribuem, todos os dias, ao romper da bela aurora, por hotéis, restaurantes, cafés e lares de toda a Grande Lisboa.
Já todos nos cruzamos na estrada com um dos 600 camiões da Paulo Duarte, a maior empresa portuguesa de transporte de alimentos e combustíveis - mais de 75% da sua frota é constituída por camiões cisternas.
Mas sucede que o quartel general da Transportes Paulo Duarte é em Torres Vedras, onde bate o coração do Oeste, a região que concentra cerca de 80% da produção nacional de frescos, pelo que se compreende que José Paulo Duarte, 55 anos, não tenha resistido à tentação de investir na produção e distribuição de produtos horto-frutícolas.
Além da Confraria da Horta, o grupo controla a Abrunhoeste, responsável por uma produção anual de mais de seis mil toneladas de fruta, essencialmente pêra rocha (4,7 mil toneladas), mas também ameixa (775 t), maçã (400 t) , pêssego, meloa e nectarinas.
“Temos óptimas condições naturais para a produção de horto-frutícolas. A laranja algarvia é deliciosa, enquanto que na maior parte das vezes a laranja espanhola é intragável. O problema é haver poucos agricultores empresários. Em 2009, as exportações do sector valeram 800 milhões de euros, mais 200 milhões que as de vinho. E a procura externa de fruta e produtos hortícolas portugueses não pára de crescer. Só nos últimos três meses, e para um único cliente alemão, transportámos 1500 camiões de batata, cenoura e cebola”, afirma José Paulo Duarte, que vai alargar em mais 90 hectares a sua área de produção.
Apesar do futuro próximo na nossa economia se apresentar carregado de nuvens, os negócios do grupo Paulo Duarte prosperam sob o céu tão azul que até parece acabado de lavar na máquina. A fruta toda vendida e no primeiro trimestre do ano o negócio dos transportes registou um crescimento de 20%, completamente à revelia do ciclo económico.
A falência de muitas pequenas empresas, com apenas um ou dois camiões, que baseavam a sua competitividade num preço baixo (e não acautelavam nos contratos uma revisão de preço em caso da subida do gasóleo) ajuda a perceber esta performance brutal da Transportes Paulo Duarte, que tem a sua blindagem à crise reforçada pelo facto de se ter especializado no transporte de bens de primeira necessidade (alimentação e combustíveis).
“Temos dezenas de camiões a andar 24 horas por dia durante os 365 dias do ano”, declara José Paulo, que durante a juventude foi ginasta e jogou hóquei em patins na Física de Torres Vedras, e começou a trabalhar na empresa fundada pelo pai, quando, com 24 anos, decidiu casar e pôr um ponto final a uma carreira universitária feita entre Agronomia (quatro anos) e Gestão de Empresas (dois).
Escolheu almoçarmos no Polícia, e não era preciso ser muito observador para reparar logo que é a cantina onde faz as suas refeições, quando está em Lisboa. Os empregados, que trata pelo nome, conhecem-lhe os hábitos. E a clientela habitual ou o cumprimenta ao longe ou vai mesmo à sua mesa dar duas de paleio.
“Desde pequeno que venho aqui com o meu pai. Dantes havia ali, junto ao restaurante, um posto de abastecimento da Sacor e os transportadores tinham o hábito de virem aqui almoçar”, conta, antes de atender um telefonema. Era um amigo (mas não cliente) que estava desesperado e precisava muito que ele lhe assegurasse um transporte. José Paulo pediu desculpa, mas não podia fazer-lhe esse favor. A sua frota, apesar de recentemente aumentada, só chega para as encomendas dos clientes habituais…
Jorge Fiel
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O Polícia
Avenida Conde Valbom 127
Pescada cozida …17,50
Garoupa grelhada … 21,00
Vinho da casa branco (Vinha das Servas) … 11,00
2 cafés … 2,40
Total … 51,90
Curiosidades
José Paulo Duarte pai (na foto) nasceu em 1918, numa família de agricultores abastados do Oeste. Como ficou órfão com 14 anos (o pai dele morreu tuberculoso), foi trabalhar como mecânico para ajudar a mãe a sustentar os seus sete irmãos. Depois de ter aproveitado a tropa (feita em Cascais) para tirar a carta, em 1946 comprou um camião Chevrolet e estabeleceu-se, fundando a Transportes Paulo Duarte. À sua morte, o filho homónimo sucedeu-lhe à frente do grupo, onde já trabalha a terceira geração – Gustavo e António, filhos de José Paulo Duarte filho, ambos internacionais de rugby
A maçã Royal Gala ultrapassou a Golden na preferência dos portugueses. Mas a fruta de eleição de José Paulo Duarte é a pêra rocha, que aprecia ao natural, cozida (sem açúcar à sobremesa) ou mesmo a substituir batatas ou arroz como acompanhamento: “Fatias fininhas de pêra rocha, salteadas em azeite e sal, ficam muito bem com um prato de porco”
A criação do mercado único europeu com a abertura das fronteiras tornou o transporte rodoviário imbatível relativamente à concorrência ferroviária. “Dantes, ficávamos um ou dois dias parados em Vilar Formoso. Agora fazemos Madrid-Lisboa em oito horas. E em 36 horas ponho os morangos de Odemira à porta do comprador inglês. Hoje em dia, as empresas não tem stock. O stock está no camião”, diz José Paulo Duarte
O que está a dar no franchising é, em primeiro lugar, o negócio de compra e venda de ouro. O que faz todo o sentido. O ouro é o valor em que historicamente todo o mundo se refugia em tempos de crise e de incerteza como aqueles em que vivemos. Quem tem ouro e precisa de dinheiro vai vendê-lo. Quem tem dinheiro para aplicar compra ouro. Este movimento levou a cotação do ouro a ultrapassar os 1500 dólares a onça e há analistas a prever que atinja os 2000 dólares.
Só em 2010, a rede Valores, um conceito português nascido há três anos em Braga, foi acrescentada por 60 novas lojas, abertas em regime de franchising, que fazem surf em cima da acelerada mudança de mãos do ouro das famílias.
Logo a seguir ao ouro, os cuidados estéticos são o sector mais procurado pelos portugueses que recorrem ao franchising para abrir um negócio. O que volta a fazer todo o sentido. Todos os economistas sabem que as vendas de baton disparam nos momentos de crise, porque as mulheres sentem que devem caprichar ainda mais no seu aspecto - e fica muito mais barato chamar a atenção para uns lábios atraentes do que comprar um vestido novo.
O negócio do franchising é dos que melhor tira partido da crise e por isso ostenta invejáveis indicadores de crescimento. No ano passado, o volume de negócios do sector (12.044 unidades, de 570 marcas) cresceu 450 milhões de euros, passando a valer 3,1% do PIB, e criou 3.600 novos empregos.
“Há cada vez mais pessoas a usarem o franchising para criarem o seu próprio emprego”, explica Andreia Jotta, 35 anos, directora do Instituto de Informação em Franchising (IIF), uma organização privada que além de recensear o sector e editar a revista Negócios e Franchising, também promove, anualmente, duas feiras e encontros, para atribuição de prémios e troca de experiências.
Licenciada em Relações Internacionais pela Autónoma de Lisboa, Andreia passou pela Unesco, a Comissão Euro do Ministério das Finanças, e a formação e organização de conferências antes de aterrar no grupo francês IFE, que, entre outras coisas, edita a Teleculinária e há três anos comprou o Instituto de Informação em Franchising (IIF).
Andreia apareceu sem adornos de ouro (e usando um baton discreto) no Green Pepper o restaurante da José Malhoa que escolheu por duas razões: fica próximo da sede do IIF e é ovo-lacto-vegetariano.
“Não sou exactamente vegetariana. Como frango e, muito de vez em quando, vaca. Porco é que nunca”, explicou a directora do IIF, que acompanhou o buffet de quentes e frios com sumo de laranja e beterraba – e não tomou café.
O almoço serviu para perceber porque é que até o aumento de desemprego é benéfico para o desenvolvimento do franchising. Só no ano passado, cinco mil portugueses aproveitaram os incentivos ao auto-emprego, recebendo à cabeça todo o subsídio de desemprego a que tinham direito para abrirem um negócio.
“Nunca houve tanto interesse pelo franchising. Muitas pessoas recorrem a ele para minimizarem o risco, já que arrancam com um modelo de negócio já testado e beneficiam logo à partida de formação e apoio”, explica Andreia.
Além de ser mais rápido abrir um negócio obtendo um franchise, as estatísticas garantem que também está a aumentar as probabilidades de a coisa dar certo. De acordo com Andreia, a taxa de sucesso de um novo negócio em franchising varia entre os 80% e os 90%, percentagem que, nos novos negócios independentes, cai para o intervalo 20% a 40%.
Como o financiamento é muitas vezes o único entrave à abertura de um negócio, a tendência é para os donos das marcas (franchisadores) subirem o standard de exigência para conceder uma licença mas baixarem o nível do investimento inicial.
Para aspirar a abrir um McDonald’s é preciso ter 450 mil euros em carteira, mas com três mil euros já se pode tornar um Mr Electric (dono de uma área geográfica exclusiva para usar a marca e proceder a trabalhos de electricista e reparações de electrodomésticos e) e se tiver 3500 euros já pode ter uma loja Optimus Negócio.
Jorge Fiel
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Green Pepper
Avenida José Malhoa 148, Lisboa
2 Buffets de quentes e frios …13,90
4 Sumos de laranja e beterraba … 7,40
1 café expresso …0,75
Total … 29,45
Curiosidades
Se fosse abrir agora um negócio, Andreia escolheria um franchise tipo Comfort Keepers, por apostar num aumento da procura da prestação ao domicílio de cuidados de enfermagem, higiene pessoal e de alimentação a idosos
A maior rede de franchising em Portugal é a Optivisão, seguida da ReMax e Multiópticas. O panorama varia de país para pais. Em Espanha, quem lidera são as redes de distribuição e restauração. Em França, cadeias de artigos de decoração para cozinha, como a Genevieve Lethu, têm um enorme impacto. E em Itália a liderança é dividida pelas lojas de iogurtes gelados e as de estética
A Melom, um conceito formatado por Manuel Alvarez (que, com Beatriz Rubio, detém o master franchise para Portugal da ReMax), é um bom exemplo de um dos segmentos que está a conhecer uma procura mais explosiva – o de reparações e obras domésticas, de remodelação ou manutenção
A alcunha que transportou enquanto futebolista profissional deve-a aos fregueses da taberna do pai, a Nova Aurora, estrategicamente situada ao lado da Câmara Municipal, na praça principal de Tondela.
“Vai nascer um novo Águas”, vaticinavam os frequentadores da taberna, brindando a isso com copos cheios de vinho do Dão, desejo que agradava ao promitente pai, um benfiquista fanático que festejava as vitórias do seu clube oferecendo uma pipa de vinho, a que (conta o filho) prudentemente adicionava água com o duplo objectivo de controlar o prejuízo e a euforia da clientela.
Capitaneado por José Águas, o Benfica foi campeão em 1957, o ano em que nasceu Carlos Marta, com jeito para a bola e que – isso os fregueses da Nova Aurora nunca conseguiriam adivinhar – acabaria por ocupar o melhor gabinete do edifício vizinho da taberna: os Paços do Concelho.
O Águas de Tondela debutou como futebolista aos 15 anos, com a camisola verde e amarela do clube local, mas na época 75/76, ainda miúdo de 18 anos, já o vemos na Académica, a jogar ao lado de veteranos consagrados como Rui Rodrigues, Gervásio e Manuel António.
Académico de Viseu, U. Leiria e Marítimo foram as escalas seguintes de uma carreira que acabou com o regresso à terra, alinhando quatro épocas no Mangualde e começando a dar aulas.
O talento para a bola pode ter-lhe mudado o futuro (no liceu pensou fazer Medicina) mas não o impediu de fazer o curso do ISEF, em Lisboa, onde foi colega de Carlos Queiroz e Rui Caçador . “Eu era o único jogador de futebol, os outros eram empurradores de bola”, ironiza Carlos Marta, 54 anos, que cedo sacrificaria a docência no altar de uma carreira política, que o levou a ser deputado durante dez anos, eleito nas listas do PSD.
Em 2001 retornou a Tondela e foi eleito presidente da Câmara com 73% e a vitória em 24 das 26 freguesias. Na segunda reeleição, em 2009, manteve os 73% e ganhou todas as 26 freguesias, incluindo a de Tonda, onde fica o Três Pipos, o restaurante que escolheu para almoçarmos.
A mesa já estava posta, com apetitosas entradas variadas, mas o melhor ainda viria a seguir: a vitela à Lafões regada com um tinto Dão, ou seja as duas componentes da marca Dão Lafões da Comunidade Intermunicipal (CIM) presidida por Carlos Marta.
Assada no forno, a vitela de Lafões deve a fama ao facto das rações não constarem da sua dieta (alimenta-se apenas nos pastos) e é cortada às postas, não à fatia. Uma das grandes apostas da CIM Dão Lafões é a gastronomia típica da região, onde constam a chanfana e o cabrito da Serra do Caramulo.
A oferta turística da região vai ser aumentada com a inauguração, em Maio, da maior ecopista do país, que tem 56 km de extensão e atravessa três concelhos (Viseu , Tondela e Santa Comba Dão). Este aproveitamento da antiga linha ferroviária do Dão vai ser gerido pela CIM Dão Lafões e é um dos 96 projectos, no valor de 73 milhões de euros, que candidatou ao QREN.
Carlos Marta está contente por a comunidade a que preside ter a segunda melhor taxa de execução do país e fala com entusiasmo de outros projectos em curso, com o da rede urbana para a competitividade, que fomenta o empreendedorismo em seis concelhos e em áreas pré-definidas: biotecnologia em Tondela (que acolhe empresas como a Labesfal e a Controlvet), automóvel em Mangualde, cultura em Viseu, empreendedorismo social em Santa Comba, e termalismo em S. Pedro do Sul (que tem as maiores termas da Península Ibérica).
Os ganhos de escala que a comunidade intermunicipal permitiu já deixam satisfeito Carlos Marta, que se declara desfavorável à Regionalização:
“ A Regionalização já está feita com as CCDR. Sou contra a criação de mais cargos políticos. Câmaras e juntas de freguesia têm dado muito bem conta do recado. E, quando é necessário, agrupam-se em organismos intermédios de gestão, como as comunidades intermunicipais. Sou um municipalista convicto”, afirma Carlos Marta, o antigo Águas de Tondela, que não teme os cortes que estão a ser cozinhados em Lisboa pela troika: “É preciso reduzir de forma assustadora o aparelho de Estado. Até chegarem aos municípios vão ter muito de cortar e em muito lado”.
Jorge Fiel
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Três Pipos
Rua Santo Amaro 876, Tonda, Tondela
Vinho da casa (Tinto do Dão)
Pão
Água
Entradas (pastas diversas, azeitonas, enchidos, provaduras, pataniscas, salada de polvo, moelas)
Mimos de vitela de Lafões
Manga
2 Cafés
Curiosidades
O momento mais alto da carreira de futebolista do Águas de Tondela foi ter marcado em Alvalade o golo da vitória por 1-0 do Académico de Viseu, que assim evitou a descida de divisão. “Foi a única vez em que o Académico fez duas épocas seguidas na I Divisão”, conta Carlos Marta. A vítima foi o guarda redes sportinguista Vaz
Não satisfeito por não nos ter deixado pagar a conta, Carlos ainda por cima fez questão de nos oferecer uma bilha de segredos (o segredo é saber como se bebe por ela sem deixar verter liquido), uma peça de artesanato do concelho. Os barros de Molelos são famosos por serem negros, devido à redução de oxigénio durante o processo de cozedura.
Criada em 2007, para candidatar projectos ao QREN, a Comunidade Intermunicipal Dão Lafões é constituída pelos seguintes 14 municípios: Aguiar da Beira, Carregal do Sal, Castro Daire, Mangualde, Nelas, Oliveira de Frades, Penalva do Castelo, Santa Comba Dão, S. Pedro do Sul, Sátão, Tondela, Vila Nova de Paiva, Viseu e Vouzela. Viseu e Tondela são os concelhos mais populosos desta comunidade, que reúne mais de 300 mil pessoas. No momento da fundação, todos os 14 concelhos eram laranja (ou não estivessemos no Cavaquistão!). Agora há três câmaras rosas, mas entendem-se todos bem - e as decisões importantes são sempre tomadas por unanimidade.
Leão, Portugal, Produtos Estrela (PE), Siul são algumas das históricas marcas portuguesas de fogões que foram parar ao cemitério. Com turcos e brasileiros a tomarem conta do mercado do preço e a imagem pouco sexy do Made in Portugal, não é nada fácil sobreviver em Portugal neste negócio. Que o diga Pinto da Costa, muito menos bem sucedido a vender fogões do que a gerir o FC Porto.
A Meireles, que faz 80 anos, é única sobrevivente da enclítica geração de fabricantes fogões. Os segredos desta longevidade foram o tema da conversa, à volta de um polvo à lagareiro (cozinhado num forno Meireles), com um neto do fundador da empresa.
Bernardino Meireles, 54 anos, presidente da administração, escolheu almoçarmos no Líder, nas Antas, e hesitou entre o sável e o polvo numa refeição regada por um tinto do Douro que ajudou a relembrar histórias dos tempos do liceu (ambos frequentamos o Alexandre Herculano, no mesmo ano, mas em turmas diferentes).
“A mão de obra pesa 16% no custo final do fogão”, conta Bernardino, justificando porque é que se afastou do mercado do primeiro preço. A hora mão de obra custa nove a dez euros no nosso país, cinco euros na Polónia (em parceria com os italianos da Nardi, a Meireles tem um fábrica em Wroclaw), e 21 a 22 euros em Itália.
Depois da tropa (EPC Santarém, 78/79) lhe ter interrompido o curso de Electrotecnia, Bernardino não mais voltou à FEUP (Engenharia do Porto) – foi directo para a fábrica, ajudar o pai.
Quando, em 1996, Bernardino assumiu a presidência, a Meireles era forte como um Titanic, liderando o mercado nacional com uma quota de 24%. Mas percebeu que se não mudasse o rumo iria chocar com um enorme iceberg e naufragar.
Para não evitar fazer companhia no fundo do mar às outras marcas históricas de fogões, começou a exportar, apostou na inovação e estabeleceu uma aliança estratégica com os italianos da Nardi para dar resposta à moda dos encastráveis.
“O fogão foi o electrodoméstico que menos evoluiu”, afirma Bernardino, antes de descrever o programador que a Meireles instalou em fogões eléctricos topo de gama, que permite, antes de sairmos de casa pela manhã, deixar a carne no forno com a hora marcada (e temperatura definida) para ele começar a trabalhar, de modo a termos o assado pronto para o jantar.
Esta é apenas uma das inovações. Para satisfazer uma encomenda de três mil fogões de máxima segurança feita por cliente australiano, a Meireles está a fabricar um fogão com a porta fria, com três portas (o forno normal tem duas) e um sistema de refrigeração que baixa para 70º (em lugar dos habituais 110º) a temperatura da porta exterior quando o forno está a 250º..
Mas o grande trunfo competitivo são as instalações para restauração e hotelaria (que valem 15% da facturação) e o maxi-forno, com largura de 90 cm por 60 cm de profundidade (as medidas standard são 60x60 ou 55x60), desenhado a pensar no Médio Oriente.
As cozinhas de palácios de vários membros da família real saudita foram equipadas pela Meireles, que tem no Médio Oriente o seu segundo maior mercado de exportação, a seguir a Espanha, onde tem uma quota de mercado de 11,5%.
“Os sheiks têm palácios onde são servidas três mil refeições/dia”, conta Bernardino, acrescentando que o maxi-forno Meireles, com capacidade para assar um cabrito inteiro ou quatro frangos ao mesmo tempo, é o adequado aos hábitos alimentares das famílias numerosas do Médio Oriente, que usam mais o forno (até para fazer a doçaria) que as ocidentais.
Marrocos, Argélia, Tunísia, Egipto, Jordânia, Bahrein e Irão fazem por isso parte da geografia da expansão da Meireles, que fabrica 100 mil fogões/ano e faz fora de portas 44% do seu volume de negócios de 20 milhões de euros.
Bernardino sabe que para continuar a ter sucesso é preciso manter os sentidos bem despertos aos sinais do mercado e saber adaptar-se às suas mudanças e idiossincrasias.
“Por ser Made in Portugal, o preço dos nossos fogões tem de ser 10% a 15% inferior ao que seria se levasse a etiqueta Made in Italy”, lamenta Bernardino, que com a aposta na exportação, inovação e na parceria com a Nardi ainda conseguiu que a quota da Meireles no mercado interno subisse de 24% para 36%.
Jorge Fiel
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Lider
Alameda Eça de Queiroz 126, Porto
Couvert …6,00
2 Polvo assado … 37,00
Água 1 l … 3,50
Prazo Roriz (Douro, Symington) … 16,00
4 cafés … 4,00
Ananás natural … 4,50
Total …71,00
Curiosidades
António Meireles (1900-1976), o avô de Bernardino tinha a 3ª classe e 31 anos quando fabricou o primeiro fogão eléctrico português, depois de ter desmontado e montado por vários vezes um fogão Husqvarna importado da Checoslováquia. Chefe do turno da noite na estação de Massarelos (onde recolhiam os carros eléctricos do Porto), em vez de passar o dia a dormir e jogar bilhar, aproveitou o facto de ser curioso e jeitoso de mãos para começar a ganhar mais umas coroas fabricando camas de ferro e fogões no quintal da sua casa, na rua de S. Cosme, na zona Oriental do Porto. Foi assim que nasceram os célebres Fogões Meireles
Um fogão Meireles, para uso doméstico médio, custa em média 300 euros. No caso de um semi-profissional, o preço sobe para 1500 euros. O fogão a gás é esmagadoramente (90%) maioritário nos lares portugueses. Apenas 10% usam o fogão misto (mesa de trabalho a gás, por ser mais rápido, e forno eléctrico), que Bernardino considera o ideal
O programa intensivo de construção de vários bairros sociais no Porto, desenvolvido entre os anos 50 e 60, ajudou ao crescimento da Meireles, já que as habitações eram entregues aos moradores já equipadas com um pequeno fogão
Ainda mal tinha acabado de largar as fraldas e já era notório que Joana tinha sido prendada com uma bela voz, que exercitava com gosto repetindo os cantares alentejanos que os pais lhe ensinavam. E pouco depois de ter deixado de ser analfabeta, logo começou a escrever poemas. Juntando a boa voz com o gosto pelo canto e o prazer da escrita, talvez estivesse escrito nas estrelas que Joana Espadinha, 27 anos, se iria licenciar em jazz no Conservatório de Amesterdão e daria o nome a um quinteto.
Filha mais velha do matrimónio entre dois alentejanos (ela de Serpa, ele da Vidigueira), que se conheceram no Liceu de Beja mas só começaram a namorar em Lisboa, onde cursaram História, Joana cresceu em Cascais numa família com queda para a música – o irmão é guitarrista de jazz e a irmã toca piano clássico.
Aos 12 anos vemo-la no coro dos Pequenos Cantores do Estoril. Quatro Verões mais tarde já está a liderar os Mind Astray, uma banda de covers , formada na Secundária de Cascais, com u mrepertório se baseava em êxitos dos Cranberries, Bryan Adams e por aí adiante… Sheryl Crow e Bem Harper eram dois dos seus cantores favoritos.
Hesitou muito quando chegou a altura de escolher o curso. Era apaixonada por música e pela escrita. Encarou ser jornalista. Ainda que um bocado contrariada, deixou-se convencer pelo argumento que muitos jornalistas eram juristas e matriculou-se em Direito.
Foi uma enorme chatice. “Toda a gente me conhecia por estar sempre a adormecer nas aulas”, conta Joana, que, por altura do 3º ano, começou a acumular as aulas de Direito com as de canto, na escola do Hot Club, prometendo aos pais que isso não iria pesar mais no orçamento familiar.
Durante os três anos em que estudou jazz no Hot Club, pagou as propinas com o dinheiro poupado das prendas de anos e Natal, mas também com a voz - actuava no Coro SOS, que abrilhantava casamentos e conferia uma solenidade a enterros (“nos funerais não cobrávamos cachet”), e, pela mão do baterista Gualdino Barros, começou a cantar em público um reportório de standards celebrizados por Billie Holiday, Carmen McRae, etc.
Já sabia perfeitamente o que queria fazer quando acabou Direito, em 2006, e não se deixou convencer das vantagens em, pelo sim pelo não, fazer o estágio de advocacia. Decidiu ir estudar jazz no Conservatório de Amesterdão com a mesma determinação com que insistiu em encomendar o magret de pato, apesar de ter sido aconselhada a optar pelas costeletas de borrego pela chefe de mesa do Rossio, o restaurante do último andar do Altis Avenida.
“Guiar com muita atenção à música pode ser perigoso”, gracejou Joana, quando comentávamos que a maioria das pessoas raramente consome a música como actividade exclusiva, mas sim como banda sonora, quando está a estudar, comer, ler, trabalhar ou conduzir - no carro, ela gosta de ouvir a Europa-Lisboa e a Marginal.
Na escolha de Amesterdão pesou não só a boa reputação do seu Conservatório, mas o dinheiro. Senão teria preferido a Manhattan School of Music. Durante os quatro anos em que viveu em Amesterdão, foi praticamente auto-suficiente – o praticamente justifica-se pelo facto de a mãe lhe ter pago algumas viagens a Portugal. Joana beneficiou da generosidade do Estado holandês (que oferece aos trabalhadores um cartão para os transportes públicos e uma bolsa mensal de 250 euros), não desperdiçava uma hipótese de ganhar dinheiro a cantar, e trabalhou em restaurantes – num argentino (em que só lhe davam frango para comer) e num mexicano ( galo, pois ela não gosta de comida picante).
A conversa ia boa, mas teve de ser interrompida, pois às 15h30 Joana tinha de dar uma aula de canto a Oeiras. Em Julho do ano passado, quando regressou de Amesterdão, foi dizendo que sim a tudo e acabou a dar por ela professora em quatro escolas (Hot Club, Crescendo Musical, Interartes e Centro Musical de Cascais). “Gosto de dar aulas, mas não posso dedicar-lhes tanto tempo. Um músico profissional não pode deixar de estudar senão estagna”, concluiu Joana, uma música que toca voz - ou, se preferirem a expressão feliz de Bernardo Moreira, toca garganta.
Jorge Fiel
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Brasserie Rossio
Altis Avenida Hotel
Rua 1º Dezembro, 120, Lisboa
Couvert …5,00
Magret de pato, açorda de espargos e maçãs, molho frutos silvestres … 16,50
Carré de borrego em crosta de ervas, batata a murro e peixinhos da horta… 18,00
2 Copos Areias Arinto … 9,00
1 café ristretto … 2,75
Total … 57,25
Curiosidades
“Em palco fico sempre nervosa”, confessa Joana, acrescentando ter ficado mais sossegada quando soube que Elis Regina (“uma das minhas maiores influências”), antes dos concertos, andava sempre numa pilha de nervos. “Um bocadinho de nervoso em palco até nem é mau se o conseguirmos canalizar para dar mais energia à actuação”, conclui
Joana foi estudar para Amesterdão acompanhada por dois Joões, com quem partilhou uma casa, “com ratos por todo o lado”, alugada por mil euros/mês. Os dois Joões tocam ambos no seu quinteto - o Hasselberg (que se tornou seu namorado) no contrabaixo, e o Firmino (que se tornou no melhor amigo dela) na guitarra. As primeiras impressões de Amesterdão não foram muito favoráveis, devido ao Red Light District. As segundas também não foram espectaculares. “O dinheiro é demasiado importante na mentalidade holandesa. E nota-se uma desconfiança relativamente aos estrangeiros”, diz
50 euros é o cachet médio que um músico de jazz cobra para uma actuação num café, clube ou pequena sala de espectáculos
O segredo do café expresso perfeito está na moagem. Se demasiado fina, o café sabe a queimado. Se demasiado grossa fica aguado. O ponto crítico é a moagem, mas o segredo, segundo Rui Miguel, 32 anos, começa por um bom café, condição necessária mas não suficiente. “Não se fazem omeletas sem ovos, mas com ovos e fazer-se uma péssima omeleta”, comenta o neto do homem que há 50 anos, criou a Delta, em Campo Maior, num armazém de 50 m2, com duas bolas de torrefacção com capacidade para 30 kg.
O expresso perfeito “obriga a olho e mão para a moagem”, e exige sete gramas de bom café, água a 90ºC e uma pressão entre 19 e 21 bar. Quem o garante é Rui, que a nosso pedido, no final da refeição, foi até à máquina tirar os cafés, demonstrando que além da teoria também tem a prática.
Os dois expressos perfeitos remataram uma refeição em que ele optou por um caril de gambas à Oriental. A escolha do vinho não teve segredos. Foi só pedir o saca rolhas. Na mesa na Doca de Santo, reservada pela Delta, já estava uma garrafa de tinto alentejano Reserva do Comendador, da família Nabeiro.
Rui Miguel não tem poiso certo ao almoço. Está sempre a variar pois aproveita para contactar clientes. E a Delta tem uma data de clientes directos: mais de 45 mil, trabalhados por uma rede de 250 vendedores, que cobrem todas as ruas do país.
Apesar das raízes da família Nabeiro estarem solidamente estabelecidas em Campo Maior (onde empregam cerca de 60% da população), Rui Miguel nasceu e cresceu em Lisboa, onde fez um percurso escolar calmo (secundário nos Salesianos, Gestão na Católica), desprovido de segredos quanto ao futuro. Nos fins de semana e nas férias grandes, em Campo Maior, o avô (que fez 80 anos na 2ª feira) estava sempre a dizer aos netos: “Vocês têm de vir ajudar o avô. Não posso ficar sozinho”. Todos os três lhe fizeram a vontade: Rita, a irmã de Rui Miguel, ocupa-se do marketing dos vinhos, e Ivan, o primo, trabalha em Campo Maior.
“O avô começa a trabalhar às seis da manhã e nunca pára antes das nove da noite. E transmitiu-nos essa energia. Temos de lhe agradecer ter-nos proporcionado uma vida confortável e estudarmos sem preocupações. E a melhor forma de lhe agradecer é dar o nosso contributo para o grupo que ele criou e desenvolveu”, explica Rui Miguel, acrescentando, meio a brincar (por isso também meio a sério): “Nós não trabalhamos para viver. Nós vivemos para trabalhar”.
Acabou o curso em Julho (2003) e a 1 de Setembro estava a apresentar-se em Madrid, no escritório da Coprocafé (o maior comprador mundial de cafés verdes), a iniciar uma pós graduação informal em café, que o levou ao Vietname (maior produtor mundial de café robusta), e a Winthertur (no estado maior suíço da Volcafé, outro gigante da compra de cafés verdes).
De montante (os cafés verdes) passou jusante (o tirar do café propriamente dito) com uma estada em Itália no fabricante de máquinas de Brasilia, onde afinou a mão e o olho para acertar no ponto da moagem. Passou ainda por Santos, no Brasil, onde frequentou o único curso mundial de provadores de cafés.
Imbuído de toda esta ciência, regressou a Portugal, passando dois anos em Campo Maior, junto ao departamento de inovação, preparando a resposta à ofensiva da Nestlé, que tirava partido da novidade Nespresso para aumentar a sua quota num mercado liderado pela Delta.
A Sarah Lee, gigante mundial do café, resolveu atacar a Nestlé produzindo cápsulas que funcionam nas máquinas Nespresso. A Delta não quis ir por esse caminho, que Rui Miguel considera pouco leal e um desrespeito pelo trabalho dos outros: “Em vez de atacar com o coração, resolvemos usar a cabeça ”.
Usar a cabeça foi apostar em máquinas próprias, com fabrico e design nacional, e replicar em cápsulas o café que a Delta é boa a fazer, com o paladar, aroma e equilíbrio que o português gosta - e não um produto internacional. Em menos de três anos, a Delta Q tem mais de 200 mil máquinas vendidas e calcula ter uma quota de 30% (nada mau, pois a Nespresso começou há dez anos) num mercado que vai crescer, uma vez que com a cápsula, que já trás a gramagem e moagem certa, é muito mais fácil tirarmos em casa o café expresso perfeito.
Jorge Fiel
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Doca de Santo
Doca de Santo Amaro Armazém CP, Lisboa
Pão …0,70
Azeitonas … 1,00
Água 0,5 l … 1,90
Tinto Reserva Comendador … 45,00
Caril de gambas à Oriental …12,50
Bacalhau espiritual … 8,95
2 cafés ..3,00
Total … 73,05
Curiosidades
Nelly Furtado vai estar no Festival Delta Tejo, que este ano, em que a marca de café comemora 50 anos, vai ter o seu cartaz reforçado apesar das limitações que a sua filosofia própria impõe - o palco está reservado a músicos portugueses (Nelly entra devido à sua costela açoriana) ou provenientes de países produtores de café. Em meio século de vida, a Delta é líder nos mercados português (resistindo a todos os ataques da Nestlé) e angolano de café, e está no top 5 espanhol (sendo líder na Estremadura e Andaluzia)
Rui Miguel, que tem dois filhos (João e Luca) e é casado com uma italiana, bebe cinco cafés dia. Dois expressos com leite logo ao pequeno almoço, outro a meio da manhã, um a seguir ao almoço e o quinto a meio da tarde. À noite, no momento depois do jantar, bebe um Red Q, uma das cápsulas vedeta da Delta Q, que parece um café mas efectivamente é um chá Roiboos, tranquilizante e muito rico em anti-oxidantes
Ir tomar café é um momento socialmente importante para nós, portugueses. Quando queremos falar com uma pessoa, convidamo-la para tomar café – mesmo que depois encomendemos uma água, cerveja ou Coca Cola. Os espanhóis, nas mesmas circunstâncias, dizem: vamos tomar uma caña? Apesar disso, o consumo anual de café no nosso pais é mais baixo (2,5 kg per capita) que o espanhol (cerca de três kg) e está a milhas do dinamarquês (11 kg) e dos restantes nórdicos, que estão sempre beber litros de café arábica (que tem metade da cafeína do robusta)
Lembram-se de Fernando Gomes, o célebre avançado portista que ganhou duas Botas de Ouro, ter dito que a sensação de marcar um golo era idêntica à de ter um orgasmo? Ora a ciência está aí a demonstrar que ele não disse um disparate …
Uma equipa do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) que mede as variações hormonais a partir de amostras da saliva de futebolistas e adeptos, recolhidas antes, depois e durante os jogos, prova que a alegria do golo coincide com um elevado pico de testosterona - não será exactamente um orgasmo mas anda lá por perto.
“No final de um jogo em que ganharam, as futebolistas também estão cheias de andrógenos”, afirma Rui Oliveira, 45 anos, o biólogo que é reitor do ISPA e tem a teoria (e a prática) de que uma escola do ensino superior não se pode limitar a transmitir conhecimento – tem também de o produzir.
O surf foi o caminho que levou Rui, nascido numa família da classe média (o pai negociava com Vinho do Porto) da avenida de Roma, a apaixonar-se pela biologia marítima. Os pais tinham uma casa em S. João da Caparica, onde ele passava as férias grandes a fazer surf e a aguçar a curiosidade sobre os mistérios de vida dos peixes.
Os cabozes, abundantes no parque da Arrábida , foram o primeiro objecto da sua curiosidade cientifica, ainda estudante universitário, numa altura em que dava aulas de mergulho em Sesimbra.
Com a ajuda de Vítor Almada (professor do ISPA) descobriu que os cabozes, que vivem na zona das marés, desenvolveram uma apreciável memória espacial, que lhes permite sobreviver na maré baixa, saltando de poça para poça quando sentem em perigo. O estudo do comportamento social dos cabozes permitiu-lhe ainda apurar que coexistem duas variedades de machos, sendo que a mais fraca, incapaz de se reproduzir, faz um travesti, disfarçando-se de fêmea.
“Somos menos únicos do que pensamos”, declara o reitor do ISPA, que após acabar o curso e a tropa (feita na artilharia, em Cascais), conseguiu uma bolsa de doutoramento para estudar a influência hormonal no comportamento dos tilápios, um peixe oriundo dos grandes lagos de África faz parte da gastronomia brasileira e africana.
Rui, que trabalha em laboratório com um cardume de 150 tilápias, só por uma vez comeu uma, no Brasil. Não gostou. O seu peixe preferido continua a ser o robalo ao sal, mas também aprecia as pataniscas de bacalhau com arroz de tomate, que almoçamos na esplanada do Lautasco, num pátio em Alfama que fica a cinco minutos do ISPA, numa refeição que empurrou com ice tea de limão (não bebe álcool) e rematou com mousse de chocolate e chá de cidreira.
“Os peixes, apesar de terem cérebros pequenos, são qualitativamente capazes de fazer quase tudo o que fazemos. Reconhecem-se e recolhem informações sobre os outros que depois usam em seu proveito. Comportam-se de maneira diferente consoante têm ou não audiência. E conseguem inferir que se A é maior que B e B é maior que C então A é maior que C, o que não é adquirido seja percebido pelas crianças como menos de três anos”, diz.
O estudo do comportamento social dos peixes permitiu a Rui encontrar a sua resposta à velha questão que divide a comunidade científica: É a socialização ou a genética?
“O mundo não é a preto e branco, mas não há fado genético. O ambiente social pode mudar a biologia. Não há determinismo biológico para o sucesso social.”, conclui Rui, que iniciou em 1994, como assistente convidado do ISPA uma carreira que o levaria, em 2010, ao cargo de reitor, principal responsável por uma escola com 200 professores (dos quais 62 exclusivos), mais de 20 cursos entre os três ciclos (um 1º ciclo em Biologia é a mais recente novidade) e 1700 alunos.
Apesar da curva demográfica e da crise estarem a reduzir a população universitária, o ISPA registou um aumento da procura, a que não são estranhos os bons indicadores de empregabilidade: um ano depois de concluírem o curso, 3/4 dos seus licenciados estão a trabalhar em Psicologia , um em cada quatro ficam ligados à instituição onde fazem o estágio e a taxa de desempregabilidade, medida a partir dos inscritos nos centros de emprego, é de apenas 4,1%. Nada mau.
Jorge Fiel
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Lautasco
Beco do Azinhal, 7 e 7-A, Lisboa
Couvert …2,00
Salada mista … 5,90
Nestea de limão …. 1,75
Água … 1,60
2 pataniscas com arroz de tomate … 21,80
Copo de Borba tinto … 1,75
Mousse de chocolate … 3,40
1 chá de cidreira … 2,20
1 café ..0,95
Total … 41,35
Curiosidades
Há 28 escolas portuguesas que dão cursos de Psicologia, o que é considerado excessivo pelo reitor do ISPA que está à espera que uma entidade externa os avalie, acredite e elabore um ranking. “Fechar cursos será positivo, não para eliminar a concorrência, mas para elevar a qualidade do ensino”, defende
O peixe zebra (zebra fish), originário da India e Bangladesh, está substituir os tradicionais ratinhos como cobaias para as experiências nos laboratórios de Ciências Biomédicas. Estão à venda linhagens de zebra fish transgénicos especialmente preparados para linhas de investigação específicas, como a doença de Parkinson ou as insónias. São inúmeras as vantagens destes pequenos mas robustos peixes: são mais baratos, ocupam menos espaço, têm ninhadas muito maiores, e, ainda por cima, como as larvas são transparentes, permitem aos investigadores visualizar os circuitos do cérebro enquanto expressam comportamentos. Rui Oliveira já trabalha com peixes zebra
Costuma dizer-se que tudo que se sabe sobre comportamento se deve aos ratos e aos estudantes de Psicologia, as tradicionais cobaias nestes estudos, Há que acrescentar os peixes zebra e não esquecer os cães. Umas das experiências em curso no ISPA parte de uma selecção de cães optimistas e pessimistas, feita de uma maneira curiosa. Os cães são habituados a perceber que se a tigela é posta do lado direito é porque tem comida – e do lado esquerdo está vazia. Quando a tigela é colocada no meio, os cães optimistas são os que correm esperançados em que ela tenha comida. Os outros são os pessimistas que acham sempre que a garrafa está meia vazia…
Por amor ao lobo, Sílvia, uma bióloga de 38 anos, dedicou os últimos 15 anos da sua vida a seleccionar e criar cães de gado para proteger os rebanhos dos ataques dos lobos. Parece contraditório, mas não é.
Na década de 70, havia lobos no Alentejo, mas hoje em dia estão, no seu essencial, acantonados entre o Gerês e Trás os Montes. De acordo com o último censo, há cerca de 300 lobos no nosso país, agrupados em 63 alcateias, das quais 54 a norte do Douro, e apenas nove a sul, onde a espécie está mais ameaçada – o rio é uma barreira importante.
Ameaçado pelo ódio ancestral dos pastores (que não lhes perdoam os prejuízos dos seus ataques aos rebanhos), pelas auto-estradas e parques eólicos que lhe invadem o habitat, e, ainda, pela escassez da sua alimentação tradicional (veado e corço), o lobo ibérico muito provavelmente já estaria extinto em Portugal se não fossem os esforços para o proteger desenvolvidos pelo Grupo Lobo, uma ONG fundada há 26 anos por Francisco Petrucci-Fonseca, professor Faculdade de Ciências de Lisboa.
“Não temos qualquer tipo de apoio regular por parte do Ministério do Ambiente”, esclarece Silvia Ribeiro, que mal acabou o curso de Biologia, em Lisboa, se mudou para Vila Real, onde está o quartel general do programa Cães de Gado do Grupo Lobo - que vive dos prémios que ganha (um dos mais recentes foi o Biodiversidade, atribuído pelo BES) e dos projectos que consegue aprovar.
Silvia - que acaba de ser distinguida pelo prémio europeu Terre des Femmes 2011, instituído pela Fundação Yves Rocher para premiar mulheres empreendedoras na área do ambiente - nasceu e cresceu no Seixal, onde se habituou a lidar com animais, pois os avós tinham cães de caça e criavam coelhos, porcos, burros e vitelas.
Sempre teve animais em casa, sobretudo cães (que prefere aos gatos), como o Dique (um pastor alemão que morreu velhinho), o Ameijoeira (um castro laboreiro vitimado em 2004 por um ataque cardíaco). Agora tem uma cadela serra da Estrela, que, “para ser original”, baptizou Estrela. Não espanta por isso que na hora de escolher o curso o seu coração tenha balançado entre Veterinária e Biologia.
Demonstrar que é possível a coexistência pacífica entre lobos e pastores é a cruzada da Silvia. Ressuscitar o método tradicional de uso de cães de gado para proteger os rebanhos, é a sua principal arma para aumentar a tolerância das comunidades rurais face ao lobo.
“Não é fácil ver um lobo. Em 15 anos só os vi três vezes. O lobo tem um comportamento furtivo. Não arrisca um ferimento e por isso não entra à maluca num rebanho guardado. Se pressentir um cão, tem o cuidado de se por contra o vento, para o cheiro não denunciar a sua presença. E só ataca pela certa, apanhando uma ovelha ou cabra, doente ou coxa, que fica para trás”, explica Silvia, que escolheu almoçarmos na Proa, o único edifício desalinhado do plano riscado a régua e esquadro por Siza Vieira para revitalizar Matosinhos Sul, uma zona à beira mar outrora ocupada por fábricas conserveiras e armazéns.
Bebeu apenas um copo de Evel branco, a acompanhar a entrada de polvo e o arroz de peixe, partilhamos, e acabou com uma sericaia (desprovida de ameixa e de molho) uma refeição em que falou do seu trabalho de criação de cães de gado e de diplomacia em favor do lobo junto dos pastores.
São quatro as raças nacionais adequadas para cão de gado. Castro Laboreiro, Serra da Estrela, Rafeiro Alentejano e Cão de Gado Transmontano. Silvia selecciona os cães, adquire-os (cada um pode custar entre 350 e 500 euros), coloca-os nos pastores, ajuda a educá-los e nunca os perde de vista.
“É preciso tempo e dedicação para criar um cão de gado. Por volta dos dois meses, logo após o desmame, o cachorro é posto a viver no curral com o rebanho, para criar laços sociais com o gado, evitando-se o contacto desnecessário com pessoas, em especial crianças. Só depois de um período de habituação nunca inferior a 15 dias é que pode começar a acompanhar o pastoreio”, conta Silvia, que sabe de cor o nome de 300 cães de gado que colocou, mas admite que por vezes não se recorda à primeira do nome de um pastor.
Jorge Fiel
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Proa
Rua Sousa Aroso 22, Matosinhos
Couvert … 4,00
Água … 1,50
Polvo com molho verde… 3,50
Arroz de peixe … 19,00
Evel branco … 8,00
Sericaia … 3,10
2 cafés … 2,20
Total … 41,30 euros
Curiosidades
“Na montanha, os cães são muito felizes”, garante Silvia, co-autora do livro Cães de Gado, uma edição Bizâncio, e que após se ter licenciado em Biologia (Faculdade de Ciências de Lisboa) e feito um mestrado em Etologia (ISPA) está a doutorar-se no ICBAS com uma tese sobre o comportamento dos cães, nomeadamente os aspectos endocrinológicos subjacentes ao processo de vinculação social
Vila Real é a base das operações de Silvia que ao volante de uma Citroen Berlingo cinzenta (“Não é branca para não se confundir com a do padeiro e a do peixeiro”, explica), percorre regularmente toda a zona de habitat do lobo ibérico, para acompanhar os cães de gado que colocou e falar com os pastores
Farrusco, Dique, Pastor, Laica, Benfica e Mantorras são alguns dos nomes com que os cães de gado são baptizados. Para um rebanho de dimensão normal (150 a 200 animais) são necessários dois cães de gado. Mas há rebanhos com 400 a 600 cabras…
Não deve ser nada fácil andar por aí pelo país a convencer donos de bares, ginásios ou supermercados a pagarem por uma coisa que estão habituados a usar de borla. E accionar judicialmente as rádios que se esquivam a pagar os direitos devidos pelas músicas que emitem pode não ser exactamente o melhor caminho para o líder de uma banda se tornar popular no meio radiofónico. Mas alguém tinha de o fazer.
“Uma discoteca sem música não existe. Da mesma maneira que paga pelas bebidas que vende e remunera os seus empregados, o dono de uma discoteca começa a ficar sensibilizado para pagar pela música que passa”, explica Miguel Guedes, 38 anos, líder dos Blind Zero e um dos rostos da PassMúsica, a marca da cruzada para trazer para uma plataforma legal toda a gente que utiliza a música em beneficio da sua actividade comercial.
Se estivéssemos no tempo das vacas gordas, como em 2002 – ano em que as vendas de CD em Portugal atingiram os 100 milhões de euros -, autores, artistas e editores podiam fechar os olhos à pequena pirataria, como a da cabeleireira que põe como música de fundo o Love the way you lie, de Rihanna, para tornar o ambiente do seu salão mais agradável. Mas as receitas das vendas de discos estão em queda livre (30 milhões de euros, em 2010) pelo que se tornou urgente diversificar as fontes de receitas.
Não é difícil simpatizar com a causa de que Miguel é o cavaleiro andante. Não parece justo que uma estação de rádio ganhe dinheiro a passar músicas como (só para citar um exemplo) Perto , dos Movimento, e não pague por isso. E a verdade é que os grandes grupos privados nacionais de rádio estão em conflito judicial com a PassMúsica porque não pagam um tusto sequer de direitos pelas canções que passam.
Músico, dragão notório - é o representante portista no Trio de Ataque, da RTPN, e no Grandes Adeptos, da Antena 1 -, e director da PassMúsica (marca que agrupa os artistas, reunidos na GDA, e os editores, agrupados na Audiogest), Miguel começou a construir um sistema de licenciamento e cobrança sustentável que este ano vai, pela primeira vez de uma forma significativa, remunerar os artistas pela execução pública da sua música.
“Sinto que estamos no bom caminho. Dos 12 mil estabelecimentos que nos solicitaram licenciamento, já emitimos oito mil licenças que estão pagas”, conta Miguel, à mesa do Casa d’oro (um dos oito mil licenciados!) o restaurante italiano instalado na única casa da marginal fluvial do Porto que fica em cima do rio e foi construída para albergar o estado maior de Edgar Cardoso, durante os trabalhos de construção da ponte da Arrábida.
A Casa d’oro funciona a duas velocidades. Em cima servem-se pizzas e pastas. No andar inferior, a uns dois ou três metros acima das águas do Douro, a lista é mais sofisticada. Miguel cresceu e vive na outra margem do rio (Gaia), mas é cliente frequente deste restaurante, pelo que me recomendou a Tagliata al aceto balsamico (bife de lombo com vinagre, que pedi mal passado). Como não estava em dia para vinagres, ele optou por um Filletto gratinato com zucchini e mozarella, rematando com a Mousse de chocolate com morangos uma refeição regada por um tinto siciliano escolhido pelo empregado.
“Tudo isto está em ebulição. Agora a maior receita dos músicos são os espectáculos ao vivo, o que em Portugal, na esmagadora maioria dos casos, não dá para viver”, comenta o líder dos Blind Zero, que após cinco anos sem um novo álbum de originais editaram em 2010, em etiqueta própria, o álbum Luna Park, que vendeu cinco mil exemplares (“pagou-se à justa” ) - que, à luz da actual conjuntura do mercado discográfico, Miguel considera comparáveis com os 30 mil vendidos em 1995 por Trigger, o álbum de estreia que foi o primeiro disco de rock de uma banda portuguesa a ser Disco de Ouro.
Miguel sente-se confortável com o lado legal da sua actividade como gestor da PassMúsica porque fez o curso de Direito, em Coimbra (a ideia inicial era fazer Relações Internacionais em Braga, mas falhou a entrada por décimas…), e o estágio para advocacia. “A frase é batida, mas o que eu gosto mesmo é de comunicar”, concluiu.
Jorge Fiel
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Casa d’oro
Rua do Ouro 797, Porto
Zucchini … 16,50
Tagliata all’aceto … 16,00
2 coperto … 3,50
1 Làvico rosso da Sicilia … 16,00
Musseline … 4,50
4 cafés … 4,00
Total … 60,50
Curiosidades
A introdução de Miguel na música foi feita através de um álbum dos Queijinhos Frescos que o pai, empregado de escritório, lhe deu quando ele era miúdo. As suas preferências foram amadurecendo com a idade, à medida que lhe foram sendo apresentados Bob Dylan, Tom Waits, Xutos e Pontapés, Suzanne Vega e David Bowie, entre outros. A Rádio Energia contribuiu muito para a educação do seu gosto musical. Hoje, segue o trajecto de alguns artistas e bandas. Segue, por exemplo, Bruce Springsteen, que começou a fazer música no ano em que ele nasceu, e confessa que também aprecia os seus trabalhos menos conseguidos, como Human Touch ou Lucky Town
Miguel tinha 20 anos quando se constituíram os Blind Zero, que apesar de serem uma banda portuguesa a cantar em inglês beneficiou de um sucesso praticamente instantâneo. “Não somos um produto de consumo fácil. Entre o alternativo e o mainstream, somos claramente mais alternativo. Somos muito agarrados às nossas ideias. Para fazer coisas que nos impõem, vou trabalhar por conta de outrem…”, explica
Após ter completado o secundário em Canidelo (Gaia), Miguel foi estudar Direito para Coimbra, que ele classifica como “uma cidade bipolar” pois vive de uma produção cultural externa que desaparece nas férias. No final do curso fez o estágio, mas não encarou a hipótese de ser advogado (”Acho o tribunal muito interessante como micro-cosmo, mas não me apetecia lidar com determinadas coisas e conviver com conceitos em que não me revejo”) ou juiz – “Tenho uma enorme dificuldade em condenar. Só isso iria ser um grande problema”
O único pequeno incidente a registar tem a ver com o tempo de fritura da dourada, cujos pequenos lombos se apresentavam mais para o cru do que para o cozinhado. O pormenor não escapou ao olhar de lince do professor Abel Matos, que logo instruiu Safik, o aluno investido na função de chefe de sala, para me sugerir a substituição do peixe.
Como não queria dar maçada, agradeci a gentileza mas disse-lhe que não valia a pena. Apesar desta minha declaração de boa boca, não demorou mais que uns minutos até Safik estar a proceder à delicada operação de troca de um bocado de dourada com a carne raiada de vermelho por um outro muito branquinho. Serviço é serviço!
Para nós era um almoço mas para o profe Abel Matos e o Safik foi uma aula de Técnica de Serviço de Restauração e Bebidas. Na cozinha, decorria uma aula de Técnicas de Cozinha e Pastelaria, em que os alunos do 3º ano A confeccionaram a refeição, sob a orientação do professor Vasco Alves.
“O objectivo é aprender e treinarem a servir clientes reais”, explica Lídia Serras, a directora da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa (EHTL), que escolheu almoçar em casa, no restaurante da escola, que está aberto ao público e onde se pode usufruir de um pequeno banquete (o nosso compreendeu cinco pratos e duas bebidas) a 15 euros por cabeça (dez euros para convidados).
“O tomate liga muito bem com a manga, não acham?”, perguntou Safik depois de servir a sopa fria de tomate com manga e camarão, que antecedeu a dourada e sucedeu aos secretos de porco preto – um saboroso pedacinho dos ditos, em cima de uma tosta de broa de milho barrada com uma mousse de cogumelos com molho vinagrete (“a sua acidez ajuda a equilibrar os sabores”), acompanhada por uma folha de alface carvalho. Estava delicioso!
O tomate liga bem com a manga, da mesma maneira que se revelou muito feliz o casamento do espumante com o sumo de maracujá no aperitivo que abriu o almoço com Lídia, nascida em Água das Casas (aldeia do concelho de Abrantes, que fica na margem da albufeira da barragem de Castelo de Bode) no ano em que Eusébio e os Magriços brilharam no Mundial de Inglaterra.
Filha de agricultores, que também criavam cavalos, Lídia veio para Lisboa estudar Relações Internacionais, no ISCSP, porque “tinha vontade de conhecer mundo”. Começou logo a conhecê-lo no final do curso, em 1990. O primeiro emprego, na área de cooperação internacional da AIP, deu-lhe a conhecer Tanzânia, Gabão, Angola, África do Sul, Moçambique, na preparação e acompanhamento de missões empresariais.
Apaixonou-se por Moçambique, para onde foi viver em 97, dirigindo o programa de formação da Agência Sueca de Desenvolvimento Internacional. Em Maputo apaixonou-se por um holandês, com quem casou e é o pai das suas duas filhas (Hanna, de dez anos, e Miguel, de sete). Trabalhou ainda para Banco Mundial, em África, para a Shell, em Amesterdão, e montou a área de formação do Tribunal Penal Internacional, em Haia. Há três anos, já contente com o mundo que conhecera, regressou a Lisboa e instalou-se com a família numa casa ao pé da praia, em Santo Amaro de Oeiras.
Lídia está orgulhosa das novas e magnificas instalações da EHTL, que ainda cheiram a novo, após as obras de reconversão de um edifício em Campo de Ourique outrora ocupado pela Escola Industrial Machado de Castro, que permitiram a criação de um Hotel de Aplicação (o Hotel da Estrela), concessionado ao grupo Lágrimas, onde os alunos treinam com clientes reais o que aprenderam.
“A nossa taxa de empregabilidade ronda os 90%. Ser chef é uma profissão com glamour”, diz a directora da escola, que este ano lectivo começou a leccionar totalmente em inglês um curso de Gestão e Produção de Cozinha (Culinary Arts).
Relativamente ao episódio da dourada, a coisa tem que se lhe diga. Não fiquem a pensar que foi por distracção que ela veio para a mesa disfarçada de sushi. No final do almoço, o profe Abel Matos esclareceu-nos que a opinião dominante na cozinha é a de que os alimentos devem ser cada vez menos cozinhados, para não perderem qualidades...
Jorge Fiel
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Restaurante da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Rua Saraiva Carvalho 41, Lisboa
Cocktail de champanhe com maracujá
Casa de Santar (Dão) branco
Secretos de porco preto
Sopa fria de tomate e manga
Dourada com compota de maçã, tomate e cenoura baby
Lombo de porco com molho de cogumelos e cerejas
Pêra bêbada gratinada com crocante de frutos silvestres
2 cafés
Total … 20,00
Curiosidades
Certificada internacionalmente pela mais prestigiada escola do mundo (a de Lausanne), a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa tem cerca de 400 alunos nos três cursos que lecciona: Gestão e Produção de Cozinha (que confere o grau de cozinheiros de 1ª), Gestão Hoteleira-Alojamento e Gestão Hoteleira- Alimentação de Bebidas
O último seminário diplomático, que reuniu no Palácio das Necessidades 150 representantes de Portugal no estrangeiro, foi servido pelos alunos da EHTL. “Esta ano espero conseguir 30% receitas com aluguer de espaços, venda de cursos, organização de sessões de team bulduing. A sustentabilidade é um valor importante”, explica Lídia, que além de formar profissionais qualificados para um dos sectores mais dinâmicos da economia também está empenhada em dar a conhecer a escola à comunidade
Lídia adorou viver em Maputo, onde tinha um casa, na avenida Friedrich Engels, com vistas para o Índico: “Foi a única vez na vida que tive cozinheiro”
Falhar não é uma opção para António Balha e Melo, 56 anos, que há oito anos dirige a Servilusa, que, sem falsas modéstias, considera ser “a melhor empresa de serviço funerário da Europa”.
“Na nossa carta de valores estamos proibidos de falhar. Ninguém morre duas vezes. Qualquer coisa desagradável que possa acontecer durante o serviço ficará para sempre na memória dos familiares”, explica este gestor formado no ISCEF (1976), que após o primeiro emprego numa auditora (BDO) passou pelos negócios de ferramentas (Wurth), máquinas agrícolas (Galucho), bebidas (Martini Rossi), catering (Catermar) e revistas (Impala) até que, aos 49 anos, aceitou o desafio de um caçador de cabeças (Rafael Mora) para tentar salvar da morte a Servilusa.
Na viragem do século, a calma, paz e sossego que caracterizam o sector funerário foram perturbadas pela febre aquisitiva das duas maiores companhias norte-americanas do sector, que desataram a comprar agências na Península Ibérica. Foi uma passagem de cometa. Ao cabo de dois anos, venderam a uma companhia espanhola (agora controlada pela 3i, um gigante britânico do capital de risco) o que tinham concentrado.
Assim nasceu a Servilusa, que tinha um ano e estava moribunda quando, impregnado do pragmatismo pombalino (cuidar dos vivos, enterrar os mortos) António tomou conta desta companhia resultante da fusão de 26 agências e dotou-a de identidade e cultura próprias, fazendo o funeral das respectivas marcas (Magno, Barata, Salgado) e tiques.
Oito anos volvidos, sentado à mesa do Sabores do Atlântico, no Parque das Nações (onde ele mora), nota-se que está satisfeito. A Servilusa factura 25 milhões de euros e lidera um sector cada vez mais fragmentado – nos últimos cinco anos o número de agências cresceu de 986 para 1400.
Em Portugal, morrem anualmente cerca de 100 mil pessoas (óbitos e nascimentos equivalem-se), um número em regressão devido ao aumento da esperança de vida. A Servilusa é líder, com os 5 500 funerais/ano (média de 15 por dia), sobrando uma média de 1,3 funerais/semana para as outras agências, o que pressupõe uma disputa titânica pelos restantes mortos.
Dignidade, respeito e humanismo são o mantra do director geral da Servilusa, que apesar do peculiar sector em que actue acaba de ser eleita a quarta melhor empresa para trabalhar em Portugal. Enquanto comia o cherne, cozinhado no papelote com amêijoas e camarão, que empurrou com água (deixou no copo metade do vinho), António deu as pistas para compreender esta escolha.
António Ramos, o director operacional, começou como motorista e fez o 9º ano nas Novas Oportunidades. Vítor Sebastião, o director dos Recursos Humanos, trabalhava no call center. “Quem entra não sai. O nosso grande valor são as pessoas. Pagamos as propinas a quem anda na universidade – não podem é chumbar”, diz.
A forma como encaramos a morte tem evoluído desde que ele trocou a Nova Gente e a Maria (os navios almirantes do grupo Impala) pelo sector funerário. Para começar os funerais ecológicos, com urnas de madeira, revestidas a verniz aquoso (“com o sintético os bichinhos têm de trabalhar mais para conseguirem entrar, o que atrasa o processo de decomposição”), rendas de pano (e não em nylon), nada de plásticos, tudo materiais biodegradáveis.
A opção pela cremação está a subir de uma forma exponencial. Mais que duplicou em dois anos, passando de 4% para 9% do total nacional (em Lisboa já são mais que 50%), que ainda são o valor mais baixo de toda a Europa, muito longe dos 36% espanhóis.
E há mais pompa nos funerais. O mercado está a acolher bem os novos produtos lançados pela Servilusa, como usar as cinzas para ajudar a crescer uma árvore, que eterniza a presença do ente falecido, ou transformar em diamante de uma madeixa do cabelo do morto. E há a música, um extra que pode ser fornecido. Harpa ou violino durante o velório, ou um coro quando o caixão baixa à terra. “É uma coisa muito linda, com toda gente a chorar”, conclui António Balha e Melo, que, como é cada vez mais corrente, já contratou em vida o serviço funerário que quer (optou por ser cremado).
Jorge Fiel
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Sabores do Atlântico
Rua da Pimenta 47, Parque das Nações, Lisboa
2 cherne em papelote … 30,00
Água 0,5 l … 1,50
Azeitonas … 2,50
Cesto de pão … 2,00
½ vinho da casa branco … 3,00
1 café … 1,00
1 descafeinado … 1,00
Total … 41,00
Curiosidades
O protocolo é muito rigoroso. Logo após a recepção da chamada no call center, que funciona 24horas por dia nos sete dias da semana, é mobilizado um dos 36 técnicos comerciais que fardados com de fato cinzento, pin da Servilusa na lapela, camisa branca, gravata verde alface, se desloca ao local do óbito num Ford Focus castanho. Mostra à família o catálogo que leva no portátil e aconselha nas opções. Assinado o contrato, é logo digitalizado e enviado por email para o coordenador do serviço, que imediatamente destaca uma assistente, uma rapariga jovem com formação em Humanísticas, vestida com calças e casaco cinzentos, camisa branca e lenço azul, que toma conta da operação até ao seu final
Malangatana, Saramago e Ernâni Lopes saíram deste mundo pela mão da Servilusa, que apesar de ser a preferida da elite se orgulha de também oferecer os funerais mais baratos do mercado. Para a Misericórdia faz uns 400 a 500 todos os anos, a um preço especial (270 euros cada). Para o mercado, o mais barato é de 328 euros, com um só transporte (ou seja o morto vai directamente para o cemitério, sem velório). Se for cremado, a despesa pode subir para cerca de 1200 euros. O serviço médio ronda os 3500/4000 euros. Como a Segurança Social contribui com uma verba até 2460 euros, António observa que “na maior parte dos serviços é o morto que paga o funeral”. O mais caro jamais feito pela empresa custou 50 mil euros.
“Em média, há um óbito de oito em oito anos em cada família”, conta António. A fidelização da clientela é uma das preocupações da Servilusa, que todos os anos promove missas em memória dos defuntos de cujo serviço funerário se encarregou. Em Lisboa, a missa enche sempre os Jerónimos
“O dinheiro deve seguir o doente. Dar ao cidadão o poder de escolher onde quer ser tratado é um exercício de democracia económica, que estimula a eficiência e a qualidade da oferta porque obriga os prestadores a serem competitivos para captar o cliente. Financiar as instituições vicia o sistema”. Quem fala assim é Teófilo Leite, um engenheiro mecânico com uma visão económica do sector da saúde.
Teófilo, que acaba de tomar posse em Berlim como presidente do lóbi europeu dos privados da saúde (União Europeia de Hospitalização Privada -UEHP), tem uma agenda baseada em três princípios: acesso universal, sem qualquer tipo de descriminação (mesmo económica); elevada qualidade (“sem infecções hospitalares e doentes operados ao membro errado”); e sustentabilidade.
Toda a gente sabe que a saúde é cara. Em Portugal já consome mais do que 10% da riqueza nacional e continua a subir. Teófilo estima que se não houver um inflexão, rapidamente atingirá 1/3 do PIB. Para ele o farol é a Holanda, onde a saúde não é financiada pelo Orçamento mas sim pelos seguros de saúde obrigatórios – “tal como acontece cá com o seguro automóvel”.
Com um avô materno que fabricava formas para calçado, um avô paterno que fazia calçado por medida para os seminaristas de Felgueiras, e um pai comerciante de couros e calçados, estava escrito nas estrelas que Teófilo, 62 anos (“Ando nos 63, como se diz em Serzedo, Guimarães, onde nasci”) e seis filhos (a mais velha tem 36, o mais novo tem um), iria parar à indústria dos sapatos.
Nono de uma fornada de onze filhos, fez o secundário no Porto, no Liceu Alexandre Herculano, após o que rumou a Coimbra, onde o curso de Engenharia Mecânica foi interrompido pela Crise Académica de 69, que o atirou para Mafra, na companhia de Alberto Martins, Barros Moura e outros dirigentes estudantis.
Estava na tropa quando casou, em 1971, com uma filha do dono da Campeão Português. Acabou o curso no Porto, no ano seguinte, aproveitando as facilidades concedidas aos militares. O primeiro emprego foi como monitor na FEUP, mas quando passou à peluda foi logo mobilizado pelo sogro para o ajudar a gerir a maior fábrica portuguesa de calçado, que rapidamente pôs a produzir 12 mil sapatos/dia.
Em 1986, andava nos 38 anos, decidiu seguir o seu próprio caminho, deixando a Campeão Português e criando, também em Guimarães, uma empresa industrial, que baptizou ICC Indústria e Comércio de Calçado, especializada em calçado profissional de segurança (fornece o exército holandês, a IBM, Volvo, Mercedes, etc), que factura 15 milhões de euros anos e emprega 150 trabalhadores, que por ocasião do 25ª aniversário da fábrica receberam um seguro de saúde de prenda do patrão.
Foi parar à saúde por causa da conjugação no espaço e no tempo de uma série de acasos em que a vida é fértil. Primeiro foi um jovem médico que ajudara o seu pai nos últimos anos de vida e lhe propôs entrar no projecto que viria a ser a Casa de Saúde de Guimarães. Depois foi obrigado a perceber o sector por dentro durante os quatro anos (94-98) em que apoiou a mulher na sua luta inglória contra um cancro.
“A saúde é um sector estratégico para a nossa economia. Portugal deve ser a Florida da Europa. Temos muitos dias de sol e todas as condições para atrair os reformados do Norte da Europa”, afirma Teófilo, que escolheu almoçarmos no restaurante do Camélia Hotel & Homes, em Guimarães, o seu mais recente investimento, que ainda está a funcionar em regime de soft opening.
Vindo da sua hora de exercício diário no spa desta unidade, Teófilo atacou o bife enquanto manifestava o seu desagrado pela “visão mesquinha e corporativa” dos que querem aplicar à formação de médicos os princípios bolorentos do condicionamento industrial:
“É inadmissível que o país esteja a gastar dinheiro com os universitários que estão a estudar Medicina em Cuba, Espanha e República Checa, e a importar médicos de outros países. As nossas fábricas de saber têm de produzir médicos em quantidade não só para os dez milhões de portugueses mas também para os 30 milhões dos Palop, que vão precisar de cem mil médicos. Saúde é riqueza!”.
Jorge Fiel
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Camélia Hotel & Homes
EN 105, 787, Covas, Guimarães
Sopa de legumes
Bife com batatas alouradas e esparregado
Água
Vinho verde Gavinha Dourada
Fruta laminada (morango, ananás, laranja,uva)
Nota: O restaurante ainda não está aberto ao público. Como ainda não tem lista, o almoço foi oferecido
Curiosidades
Teófilo lidera um grupo na área da saúde, onde trabalham cerca de 250 médicos espalhados pela Casa de Saúde de Guimarães (30 quartos), Hospital Privado de Guimarães (96 quartos), Clihotel de Gaia (96 quartos), clínicas em Vizela, Urgezes, Pevidém e Taipas, a que acaba de juntar o Camélia Hotel & Homes (62 quartos)
Pensado inicialmente para acolher seniores, nacionais (calcula-se que 1/3 dos portugueses terão, em 2050, mais de 65 anos) e estrangeiros, o Camélia Hotel & Homes corrigiu o seu alvo e vai também funcionar como um hotel de saúde e aproveitar o facto de Guimarães ir ser, em 2012, Capital Europeia da Cultura, para captar turistas
O sector público continua a ser maioritário na saúde em Portugal, com um volume de negócios anual de cerca de seis mil milhões de euros, contra mil milhões dos privados. Teófilo chama a atenção para os 25% de desperdício na saúde pública, apontados pelo Tribunal de Contas, e defende que os privados devem subir a sua quota de mercado até 50%: “Já não há a desculpa de que os privados só são melhores em hotelaria e os casos difíceis têm de ir para o público. Neste momento, os equipamentos mais avançados estão nos privados”
Assim como quem não quer a coisa, a fotocopiadora saiu do canto do escritório onde estava arrumada. Além de duplicar documentos, passou também a digitalizá-los e a imprimir os ficheiros que lhe enviamos do nosso computador. Deixou de estar isolada e passou a estar integrada em rede num local bem central dos sistemas de informação das empresas. Está tão inteligente e útil que tem memória, não se limita à passividade de receber documentos (também os expede ou classifica e organiza, é questão de nós querermos) e pode estar equipada com teclado e ecrã. A fotocopiadora, cuja manutenção estava a cargo das secretárias, emigrou para o domínio dos informáticos - e ficou tão esperta que foi rebaptizada, passando a responder pelo nome de multifuncional.
Os multifuncionais são o negócio de Vasco Falcão, 35 anos, director geral da Konica Minolta Portugal, eleita em 2010 a melhor subsidiária europeia da multinacional japonesa que em 2004 vendeu à Sony a tecnologia da área de equipamentos fotográficos para se concentrar nos sistemas de informação.
Os 20 milhões de euros que a Konica Minolta Portugal facturou no ano passado, dividem-se, em partes iguais, entre venda de equipamentos e de serviços, mas a tendência vai no sentido desta última parcela ir ganhando um peso cada vez maior.”Queremos criar valor para os nossos clientes. Ajudá-los a ser mais eficientes e optimizar o seu parque de equipamentos”, diz Vasco, acrescentando que a tendência vai no sentido da sua empresa passar fazer a assistência e manutenção não só dos multifuncionais mas também do conjunto dos sistemas de informação dos clientes.
“Ao fim de uma semana, propomos uma solução que baixa em 30% os custos”, garante Vasco, para demonstrar que o know how é tão importante como a qualidade dos equipamentos. “Há quem tenha um Mini e precise de um Ferrari. E quem tenha um Ferrari e precise apenas de um Mini. Adequando os equipamentos às necessidades e racionalizando o seu uso, conseguem-se enormes poupanças”, diz este gestor, que nasceu em Castelo Branco mas cresceu e estudou, até aos 17 anos, no Entroncamento, pois o seu pai, sargento paraquedista, foi colocado em Tancos.
A série televisiva Quem Sai aos Seus, em que Michael J.Fox faz o papel de Alex P. Keaton, um jovem ambicioso que adora dinheiro, influenciou-o a escolher Gestão. “Sempre me senti atraído pelo dinheiro”, confessa, acrescentando que esta Tio Patinhas foi decisiva na opção da Arthur Andersen (“Uma grande escola, uma faculdade com prática”) para seu primeiro emprego. “Sempre fui muito ambicioso. Não gosto de estar parado”, explica e a vida dele está aí que não o deixa mentir. Após cinco anos como consultor, um head hunter levou-o para director financeiro da Minolta e, quatro anos volvidos, já era director geral, comandando 170 pessoas, apesar de ainda não ter idade para se candidatar a PR.
Comer e beber não é o forte de Vasco, que normalmente almoça a correr num self service, em frente à sede da Konica-Minolta no Prior Velho. “Não acredito em negócios à mesa. Não sou um bom garfo”, diz. Empurrou com água as tranches de pescada e deixou ficar mais de metade do sorvete de limão, no Água e Sal, que escolheu por simbolizar a resistência em condições adversas – o restaurante é uma ilha no meio do grande estaleiro de obras de ampliação do Oceanário.
“São sobreviventes como nós, que num ano em que o mercado caiu 15%, conseguimos crescer”, afirma, com orgulho, Vasco que passou o almoço a contar as habilidades dos novos multinacionais da sua marca. Sabia que estão programados para não duplicarem notas? Sabia que é possível atribuir a cada trabalhador um tecto mensal de impressões e cópias (a preto e branco e a cores)? Sabia que o multifuncional pode identificá-lo, digitando um código, lendo o seu cartão de identificação ou a impressão digital? Sabia que pode impedir que um documento possa ser impresso ou duplicado? Sabia que cada cópia ou print leva uma marca de água e a Konica Minolta pode identificar a máquina onde foi impressa? Chegados a esta altura, concordará comigo. As velhas fotocopiadoras estão cada vez mais espertas.
Jorge Fiel
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Água e Sal
Esplanada D. Carlos I, Oceanário de Lisboa
2 couvert … 2,50
Olho de bife com batatas à provençal … 13,00
Verduras assadas … 4,25
Tranches de pescada com creme de espargos e amêndoas gratinadas com migas de ervas frescas e parmesão … 14,00
Água 1 litro … 2,00
2 copos tinto Quinta Farizoa … 5,00
Sorvete de limão com frutos exóticos … 4,75
2 cafés … 2,00
Total… 47,50 euros
Curiosidades
Vasco casou com a Minolta a 20 de Maio de 2003 e três dias depois com a sua mulher (uma médica, especialista em Ginecologia e Obstetrícia, que já lhe deu duas filhas, de cinco e três anos). Quando voltou da lua de mel, no México, a Minolta tinha-se fundido com a Konica e a a sua primeira tarefa foi regista o novo nome da empresa: Konica Minolta Business Solutions Portugal
A quantidade de documentos impressos no nosso país está estável mas apenas devido à crise, já que, de acordo com Vasco Falcão, tem tendência para crescer: “Quanto mais informação é distribuída e está a circular, mais será impressa”. A tendência vai no sentido de o número de impressões ser cada mais maior que o de cópias”
Vasco atribui ao marketing de uma loja, que ficava em frente ao Centro Cultural do Entroncamento, a origem da expressão fenómenos do Entroncamento. “Lembro-me de passar por essa pequena loja e ela ter sempre na montra abóboras gigantes e outras anormalidades deste tipo, que os agricultores da Golegã lhe faziam chegar e eram usadas como chamariz”
Luciano, com dois anos, no meio das vinhas da quinta do pai em Chaves
As nuvens da crise não mancham o céu do Douro, que brilha tão azul que até parece acabado de lavar. Em 2010, pela primeira vez neste século desgraçado, as vendas do Porto aumentaram. E o Douro continua a deixar os críticos de boca aberta, como é demonstrado pela dúzia de vinhos da região que constam da lista dos 100 melhores do ano divulgada pela Wine Spectator..
“O Douro tem melhores condições que Bordéus”, declara, definitivo, Luciano Vilhena Pereira, 64 anos, que há pouco mais de dois anos preside ao Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), o que equivale a dizer que é o guardião da mais antiga região vinícola demarcada e regulamentada do Mundo e o responsável pela promoção dos vinhos nos mercados internacionais, onde luta com armas desiguais. “Eu tenho 2,5 milhões de euros para a promoção. Bordéus tem 40”, refere.
Luciano sabe do que fala. Nascido em Chaves, mais velho de quatro filhos de uma família de agricultores, que tinham vinho, batatas, cereais, cortiça e algum gado, cresceu no meio das vinhas. E, desde 1999, produz vinho do Douro na quinta da mulher, em Freixo de Espada a Cinta.
“Temos os custos de produção mais caros do Mundo. Há dificuldade em encontrar mão de obra e as características do vale do Douro não favorecem a mecanização. Em regiões como o Alentejo, Napa Valley ou a Argentina, as grandes extensões de vinha permitem-lhes podar com tractor, adubar com tractor, vindimar com tractor”, descreve Luciano, um advogado que iniciou a sua intervenção política ainda estudante de Coimbra, antes do 25 de Abril, e depois foi vice-governador do Porto, presidiu ao Ateneu Comercial do Porto durante uma dúzia de anos e liderou a Comissão Inter-profissional da Região do Douro.
O reverso da medalha dos altíssimos custos de produção são um clima e solos únicos no Mundo e é disso que o Douro está a tirar partido.”Temos vinhos fabulosos, com personalidade própria, diferentes de todos os outros. A nossa aposta é na qualidade, para podermos pedir preço, pois o Douro faz parte do lote restrito de regiões onde se fazem os melhores vinhos do Mundo, ao lado de Bordéus, Borgonha, Rioja e de algumas de Itália, como a Toscana que tem o Brunello de Montalcino”, garante Luciano, que escolheu almoçarmos na Grade, um pequeno restaurante da Ribeira que dista a não mais de 500 metros (a subir no regresso …) da sede do IVDP.
À nossa chegada, a mesa já estava posta com um data de petiscos, sardinhas de escabeche, bolinhos de bacalhau, polvo em molho verde, bola de carne, presunto, que por si só chegavam e sobravam. Apesar disso, cometemos a imprudência de encomendar um polvo à lagareiro que estava divino, o que só agravou o pecado de termos deixado ficar quase metade da travessa.
Como Luciano é freguês da Grade, o sr Ferreira - que em parceria com a sua mulher (D. Helena) gere o restaurante – sugeriu que acompanhássemos a refeição com um Vale de Rotais de 2006, o vinho que o presidente do IVDP produz em Freixo de Espada a Cinta.
Sugestão acertadíssima, que permitiu apreciar ainda melhor as estatísticas sobre o excelente desempenho do sector no ano passado, com as vendas dos Douro DOC a situarem-se na casa dos 40 milhões de euros e as de Porto nos 370 milhões de euros. “64% do total dos vinhos que exportamos são do Porto”, precisa Luciano, que desfilou com orgulho durante o almoço a estatísticas, que vistas de qualquer lado, atestam o bom momento do vinho do Porto: subida do preço médio (3%), das exportações (5,2%), do mercado interno (5%) e das categorias especiais (18%).
Luciano é um apreciador de tawnies velhos (de 20 anos para cima). No final do almoço, subimos até à sede do IVDP - um instituto financiado pelo sector, onde trabalham 170 pessoas, instaladas num palacete novecentista, do outro lado da rua do Palácio da Bolsa -, onde, refastelados em sentados em sofás de couro antigo, apreciamos um delicioso tawnie da garrafeira do instituto. “Como envelheceu no Douro, e não aqui nas caves de Gaia, apanhou mais calor, mais variação térmica. É mais forte. Menos lotado. Mais próximo da colheita”, legendou o nosso convidado.
Jorge Fiel
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Grade
Rua de S. Nicolau 9, Porto
Entradas … 10,00
Polvo à lagareiro… 30,00
Vale de Rotais 06 … 25,00
Café … 2,00
Total … 67,00 euros
Curiosidades
O vinho produzido em Chaves pelo pai de Luciano ganhou um Prémio da Junta Nacional de Vinhos. Ele cresceu no meio das vinhas, como o demonstra esta fotografia quando tenha dois anos, que é uma das mais antigas do seu álbum familiar
É a partir de uvas de duas vinhas velhas (um com 90 anos e outra com 50) da quinta da sua mulher, em Freixo de Espada a Cinta, que produz os seus vinhos, o Vale de Rotais (uma produção de 3000 garrafas, comercializadas a 18 euros cada) e o Bardo (sete mil garrafas, 6,5 euros), que distribui por restaurante, garrafeiras e amigos . “Não dá para viver, mas ganha-se algum”, diz
Luciano estava sentado atrás de Alberto Martins, quando o então dirigente da AAC, no momento mais emblemático da Crise Académica de 69, se ergueu no Anfiteatro das Matemáticas e pediu a palavra a Américo Tomás. Um coronel ainda tentou impedir Alberto de falar, mas Luciano pôs-lhe a mão no ombro, sentou-o e confundiu-o ao dizer-lhe enigmaticamente: “Está tudo sob controlo”
A secretária de Greg Carr telefonou-lhe. O multimilionário norte-americano, que está a financiar a recuperação do Parque da Gorongosa, ia fazer uma escala no Porto. Será que ele poderia indicar-lhe um imóvel na cidade susceptível de lhe interessar comprar?
O partner e director executivo da Sotheby’s Realty Portugal pôs-se em campo e enviou para o outro lado do Atlântico imagens e informações detalhadas de uma penthouse requintadamente recuperada num prédio da av. Boavista, no valor de um milhão de euros. A resposta veio carregada de ironia. Se o melhor que ele tinha para oferecer era aquilo, Mr Carr pernoitaria num hotel – e se gostasse dele até o poderia comprar… Tiago contrapropôs um palacete de seis milhões de euros, na zona da av. Boavista em que já se sente a maresia. “Sim, é uma coisa desse estilo que Mr Carr quer”, aprovou a secretária.
“Muitos dos nossos clientes mantêm casas em diferentes pontos do globo”, explica Tiago, que após concluir o curso de Gestão no ISEG, fez escalas na banca (analista financeiro no BFE), informática (Ensitel) e vestuário de alta gama e luxo (geriu as 80 lojas de marcas como a Burberrys, Timberland, Tods, Furla, Sebago, do grupo Brodheim) antes de 2007 deitar âncora no imobiliário de luxo.
Tiago escolheu almoçarmos no Rio’s, com vista para a Marina de Oeiras e a meio caminho entre dois (Estoril e CCB) dos quatro escritórios da Sotheby’s Realty Os outros são no Ritz Lisboa e em Vilamoura. A rede vai ser acrescentada com um segundo escritório no Algarve (Carvoeiro) e outro no Porto.
Ele estava inclinado para a asa de raia mas mudou de ideias quando reparou que o havia rucola no arroz de vieiras. Ele adora rucola. E foi-nos iniciando nos pequenos segredos da imobiliária de luxo enquanto fazíamos a refeição que sepultou com um prato de fruta laminada (morango, ananás, amoras e kiwi) e um descafeinado.
No princípio foi um bocado complicado. O subprime já era tema de conversa na festa da inauguração da actividade, realizada em Outubro de 2007, na embaixada americana em Lisboa, tendo como anfitrião o embaixador Hoffman que a Wikileaks viria a celebrizar.
“Uma loja de roupa, é muito fácil encher as prateleiras. No imobiliário andamos entre seis meses a um ano a angariar produtos”, explica, acrescentando que o preço (elevado) não é critério para a Sotheby’s. Uma vista fantástica, uma localização privilegiada, ser uma casa com história ou de arquitecto são factores que contam. “ Um T1 no Estoril, com uma vista fantástica, que custa 400 mil euros, pode interessar-nos. Um prédio de dois milhões de euros na Amadora já não nos interessa”, diz.
Quando foi para o mercado, estava a Lehman a ir à falência, o que não facilitou a partida mas não o impediu de prosperar. “Não vejo ameaças. Só vejo oportunidades. O que é preciso é estar atento e trabalhar”, explica Tiago que vive num apartamento em Algés, e se pudesse ir viver para um dos 1600 imóveis da sua carteira (só a Sotheby’s USA tem mais) escolhia uma casa de 500 m2 na Costa da Caparica, com 5000 m2 de terreno, com uma vista deslumbrante do estuário do Tejo (preço: seis milhões de euros).
No segmento em que a Sotheby’s trabalha, o “asking price” (preço pedido) não caiu. Mas ele reconhece que há uma maior elasticidade na negociação. “O poder está do lado dos compradores”, afirma, pelo que se eles fazem ofertas 20% ou 30% abaixo, compete ao mediador convencer o vendedor a baixar o preço
Para já, a Sotheby’s Realty Portugal tem conseguido duplicar o negócio todos os anos. Em 2010, as vendas foram 110% acima das de 2009. E para este ano o crescimento previsto é de 133%. “Ainda estamos na volta de aquecimento”, afirma Tiago para entusiasmar a equipa de 50 pessoas, das quais 35 comerciais, cada um com uma área a seu cargo (Birre, Monte Estoril, Chiado, Príncipe Real, etc), onde têm de saber tudo quanto se passa, frequentando cafés, cabeleireiros e lojas, de maneira a saberem quem se está a divorciar, a quanto está a ser transaccionado o m2, etc, etc. A recompensa deste trabalho de espionagem é boa. Em 2010, os vendedores de top levaram para casa 70 mil euros em comissões…
Jorge Fiel
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Rio’s
Complexo Turístico da Piscina Oceânica de Oeiras
2 couvert … 2,00
1 Risotto de vieiras com rucola estufada e óleo de trufa … 19,50
1 Polvo confitado em azeite perfumado de alecrim … 17,75
1 Água sem gás 0,75 … 3,10
1 Quina Cabriz branco… 14,00
1 prato fruta laminada … 7,00
1 café … 1,60
1 descafeínado … 1,60
Total.. 66,55
Curiosidades
A Sotheby’s nasceu em Londres em 1744, começando por leiloar livros, que à época eram objectos raros. Um dos seus mais famosos leilões foi o da biblioteca que Napoleão leu durante o seu exílio na ilha de Santa Helena. Em 1976 iniciou-se no imobiliário, numa lógica de cross selling. “Os clientes entregavam a sua colecção de arte para leilão e começaram a perguntar, já agora não querem também vender o palácio?”, explica Tiago.
O ramo do negócio imobiliário autonomizou em 2004, contando neste momento com cerca de 1500 escritórios espalhados pelo Mundo
Uma boa parte dos clientes da Sotheby’s Realty Portugal são estrangeiros (a maioria no Algarve e quase metade em Lisboa), o que até se compreende. “Com 300 dias de sol e luz natural somos um destino apetecível para um estrangeiro”, diz Tiago, acrescentando que Chiado e Príncipe Real são as duas zonas com mais procura no centro de Lisboa. A comissão cobrada pela Sotheby’s (6%) é superior à média do mercado (5% das grandes redes mediadores e 3% das tradicionais) o que ele justifica pelo serviço personalizado que presta. “Vamos buscar o cliente ao aeroporto, levamo-lo a jantar fora, resolvemos-lhe todos os problemas relacionados com a sua instalação – água, electricidade, etc. ainda recentemente tratamos da inscrição do Liceu Francês dos cinco filhos de um cliente francês”, conta
Erich Brodheim, o judeu austríaco que se refugiou em Portugal e fundou o grupo Brodheim (onde Tiago trabalhou durante oito anos), foi o responsável pela introdução no nosso país do fecho eclair
Se o director geral ibérico da Nespresso vai almoçar contigo e trás na mão um quilo de arroz para te oferecer é porque leva na cabeça uma mensagem para fazer passar. O saco de arroz extra longo carolino branqueado é igual a um dos sete mil oferecidos ao Banco Alimentar contra a Fome e é parte integrante do ramo de oliveira estendido aos ecologistas, em resposta às acusações sobre o impacto ambiental das cápsulas coloridas, após terem sido usadas para fazermos em casa um bom café expresso.
A Nestlé não correu o erro de fazer ouvidos de mercador à crítica dos ambientalistas e começou a montar operações de recolha das cápsulas, para reciclagem, acalmando a consciência sustentável dos consumidores e a fazendo baixar o volume de som dos protestos ecologistas.
Vicent Termote, o belga de 47 anos que dirige a operação ibérica da Nespresso, conseguiu ir mais longe no compromisso com a sustentabilidade, talvez devido à sua formação académica (licenciou-se em Agronomia, em 1986, em Louvaine), ao operar o suave milagre de transformar em arroz as cápsulas velhas. Bem, a rainha Santa Isabel pode ficar sossegada, pois este resumo é um pouco exagerado.
A operação consiste em recolher as cápsulas, separar o alumínio (que será refundido) das borras de café, que são uma excelente matéria prima para adubo, usado na produção de arroz na herdade ribatejana do Monte das Figueiras.
“A borra de café é um acelerador do processo de compostagem”, explica Vicent, que se escolheu Agronomia a pensar alistar-se no exército da FAO e ir combater a fome em África: “Sempre fui um idealista e romântico, que gosta de flores e ajudar os necessitados”.
Para convencer os consumidores a entregarem as cápsulas para reciclagem, a Nespresso compromete-se a dar 1,5 kg de arroz ao Banco Alimentar contra a Fome por cada 100 cápsulas recolhidas. No ano 2 desta operação, foram oferecidas sete toneladas de arroz, o que dá para 140 mil refeições. O objectivo é chegar às 50 toneladas, ou seja um milhão de refeições.
Ao almoço nem passamos fome nem comemos arroz. Deixamos a escolha ao cuidado do Miguel Reino, que no ano passado deslocalizou o Aqui há Peixe da Comporta para o coração do Chiado. O irmão do não menos célebre Gigi começou por nos trazer umas deliciosas Amêijoas à Bolhão Pato, seguidas de um esplêndido pregado (que suscitou a velha questão de apurar se trata de um primo do rodovalho ou tão só uma diferente denominação do mesmo peixe), tudo acompanhado por um Dona Maria 2009.
“Os meus colegas suíços, habituados a comer aqueles peixes do lago Leman que não sabem a nada, ficam doidos quando os trago aqui”, confidenciou-nos Vicent, que se expressa num perfeito português aprendido no Brasil, uma das escalas de uma vida quase tão aventurosa como a do mais famoso dos seus compatriotas (o repórter Tintin): começou na IBM, na Califórnia, passou pelo marketing da Exxon Chemical (“a petroquímica é uma indústria pouco sexy”) até que, quase por acaso, quando, em 1997, estava de férias em S. Paulo e “andava como um peixe à procura do seu aquário”, tropeçou numa oferta de emprego (da companhia de cosméticos Natura) e numa brasileira, com sangue italiano e americano a correr-lhes nas veias, que lhe viria a dar um filho no ano 2000.
Foi o filho (não queria que ele crescesse no meio da insegurança brasileira), que em 2003 o trouxe de volta para a Europa. Sente-se feliz a voar entre Lisboa (onde tem casa, comprada, no Príncipe Real), Madrid e Barcelona (onde tem casa alugada), a comer bom peixe enquanto dirige a bem sucedida operação ibérica da Nespresso (Portugal é o 8º maior consumidor).
“Só 1% do café produzido em todo o Mundo corresponde aos nossos requisitos de qualidade. Isso a ajuda a explicar o sucesso. O português é um enólogo do café. Um verdadeiro apreciador como só encontramos em Itália e numa parte da Hungria”, afirma Vicent, que se desembrulha da vida agitada que leva com a ajuda dos cinco cafés que toma durante o dia (o Roma e o Indrya são os seus preferidos); à noite só toma o descafeinado intenso que, elogia, “tem o corpo e alma de café”.
Jorge Fiel
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Aqui há Peixe
Rua da Trindade 18 A, Lisboa
Couvert … 5,00
Grissini… 1,50
Ameijoas à Bulhão Pato … 19,00
Pregado … 40,00
Água com gás … 1,50
Dona Maria 2009 … 17,00
2 cafés … 2,50
Total … 86,50 euros
Curiosidades
George Clooney foi escolhido para cara da Nespresso na sequência de um complexo processo de selecção de uma figura internacionalmente conhecida pessoa que representasse os valores e a atitude da marca. Monica Belucci fez parte da short list final, mas acabou por ser preterida devido ao elevado índice de rejeição que despertou junto da componente feminina dos focus group
O Ristretto (cápsula preto) é o café Nespresso preferido dos portugueses, seguido do Roma (cinzento) e o descafeinado intenso (vermelho escuro). A venda reparte-se, em partes iguais de 40%, pelas oito lojas e a Internet, sendo que 20% das encomendas são feitas pelo telefone
Todas as chávenas Nespresso existentes no Mundo são produzidas em Portugal pela Vista Alegre, a companhia vencedora de um concurso internacional
O NorteShopping tem uma árvore de Natal. À partida não é uma ideia muito original, pois nesta altura do ano todos os centros comerciais têm uma. A diferença é que a do NorteShopping nem sempre está iluminada. As luzes estão apagadas e são os visitantes do centro que as podem acender, produzindo a energia necessária ao pedalarem nas bicicletas dispostas em círculo à volta do pinheiro.
“Dantes, no Natal, ligava-se apenas ao aspecto lúdico. Agora, temos também a preocupação da responsabilidade social. E a árvore de Natal sustentável alia essas duas vertentes. Crianças e adultos divertem-se a pedalar para acender as iluminações, fazem exercício e ficam sensibilizadas para a questão da eficiência energética”, explica Joana Moura e Castro, 37 anos, Marketing Manager Portugal da Sonae Sierra, acrescentando que esta iniciativa é acompanhada de acções, feitas com a Quercus, para evangelizar os visitantes do NorteShopping a baixarem o consumo de energia.
Joana foi buscar a Copenhaga esta ideia da árvore de Natal sustentável. “O Natal de 2010 começa a ser planeado no Natal de 2009. Todos os anos é assim”, avisa esta licenciada em Relações Internacionais, que após um ano no departamento de comunicação do Instituto do Vinho do Porto se mudou para a Sonae Sierra, onde está há 12 anos – começou a carreira no MaiaShopping, passando pelo Via Catarina e GaiaShopping até desembarcar na estrutura central, em cujo vértice está, sendo a principal responsável pelo marketing dos 22 centros comerciais (com 2924 lojas) espalhados pelo país.
Há coisa de um ano, Joana andava a viajar pela Europa, de olhos bem abertos, bloco de notas em punho, a máquina fotográfica na carteira (pronta a ser usada para registar um detalhe), à cata de ideias. “Temos de ver o que os outros fazem para copiar o que corre bem e para não fazermos o que corre mal”, diz, traduzindo para português corrente a expressão “trabalho exaustivo de benchmark”.
Esteve na Puerta del Sol (Madrid) e nas Galerias Lafayette (Paris). Espreitou o ambiente natalício no Mónaco. Mas a ideia inspiradora foi encontrá-la no Reino da Dinamarca, onde descobriu uma árvore de Natal gigante iluminada pelo esforço de ciclistas (todos sabemos que os dinamarqueses são doidos por bicicletas) no meio da Radhuspladsen, a enorme praça em frente à Câmara de Copenhaga, ladeada pelas estátuas de Hans Christian Andersen e de uns trompeteiros, cujas trompas nunca se fizeram ouvir nunca se ouviram (reza a lenda que só soarão quando passar por eles uma virgem…)
O coração da Sonae Sierra bate na Maia, mas Joana escolheu almoçarmos no Pasta Caffé do NorteShopping (o centro comercial que usa para fazer as compras, pois vive relativamente perto), em Matosinhos, para podermos apreciar a árvore de Natal. Apenas molhou os lábios no copo de tinto italiano (mas bebeu a água toda) e deixou no prato quase metade da pizza La Regina (molho de tomate, queijo mozarella, bacon, cogumelos, tomate fresco, queijo extra e orégãos), apesar de garantir que estava boa – a causa provável é o efeito conjugado das preocupações com a linha e o não ter podido comer sossegada pois eu estava sempre a fazer-lhe perguntas.
“No Natal, queremos ver nos espaços públicos o que temos em casa, a árvore de Natal, as bolas, estrelas, iluminações, o presépio e o azevinho. O Natal não pode ser futurista. Tem de ser tradicional. As pessoas querem ver o que lhes faça lembrar a infância e reviver esses momentos despreocupados. Esta é a grande conclusão de todos os estudos que fazemos para podermos proporcionar momentos memoráveis aos nossos clientes e visitantes”, afirma Joana, que no Natal de 2008 andou em missão de espionagem nos Estados Unidos (“Nova Iorque é uma inspiração”, comenta), averiguando o que andavam a fazer trend setters como o Saks, o Macy’s e o Rockefeller Center.
Resumindo e baralhando. No Natal a tradição continua a ser o que era e as pessoas não embarcam em modernices. Na consoada, não vamos comer sushi, mas sim um posta enorme posta de bacalhau cozido, regada generosamente com azeite e acompanhada por couves, batatas, ovo, cebola e cenoura. Mais nada!
Jorge Fiel
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Pasta Caffé
NorteShopping, Matosinhos
Água com gás … 1,30
Àgua sem gás… 1,20
Azeitonas com feta … 1,25
Pizza la Regina … 7,50
Pizza Calzone … 7,50
2 copos Sangiovese tinto … 4,20
2 cafés … 1,70
Total … 24,65 euros
Curiosidades
A Sonae Sierra é uma multinacional de origem portuguesa que tem 51 centros comerciais em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Grécia, Roménia e Brasil, com uma área total de dois milhões de metros quadrados, que em 2009 foram visitados por 436 milhões de pessoas
“Não é bom deixar para a última hora as compras de Natal”, reconhece Joana, depois de ter confessado que ainda não tinha (o almoço foi na 3ª feira) começado a fazer as suas… Mas já sabe o que vai comprar para os filhos. O Diogo, quatro anos, vai receber um veleiro ou um cargueiro (ele é doido por barcos) enquanto a Maria, um ano, será contemplada com um brinquedo didáctico que “a faça sentir especial neste Natal” (palavras da mãe)
O grupo Sonae acumula os títulos de maior empregador português nas categorias absoluta e de Pais Natais. Neste momento tem largas dezenas de Pais Natais sob contrato, para animar a criançada nos seus centros comerciais. “O recrutamento de Pais Natais é de uma enorme responsabilidade. Têm de ser pessoas que gostem de crianças e saibam lidar com elas”, conta Joana, acrescentando que apesar de ninguém estar à espera de um Pai Natal anoréctico, quando aparece um candidato bom mas magrinho a coisa resolve-se com umas almofadas
Sempre que o encontra, Cavaco pergunta-lhe se já compra cereja da Cova da Beira. É muito doloroso, mas ele continua a responder que não. “Mas não é por não tentar”, garante João Miranda, 46 anos, presidente da Frulact, o quarto maior grupo europeu de preparados de fruta, com quartel general na Maia, seis fábricas (Portugal, França, Marrocos e Argélia), e vendas de 70 milhões de euros/ano, das quais 95% são exportações.
“Tivemos de parar um projecto, que tínhamos no túnel de saída, de um sumo à base de cereja para um cliente, porque os produtores da Cova da Beira não nos garantiam o abastecimento”, conta João, que sofre com a incapacidade dos produtores de fruta em estabelecerem relações estáveis, em termos de quantidades e preços, e a longo prazo com a indústria.
Os exemplos são como as cerejas. Este ano, João desafiou a cooperativa dos produtores da Cova da Beira a fornecer-lhe 1100 toneladas de pêssego. Pouco tempo depois do negócio apalavrado, disseram-lhe que só podiam vender 500 toneladas. Mais uns dias e afinal só garantiam 200 toneladas. No final, ficou tudo em águas de bacalhau. Nem um único pêssego! A Frulact teve de se virar para os produtores espanhóis que lhe colocaram à porta da fábrica, a 27 cêntimos o quilo (dez cêntimos abaixo do preço acordado com os portugueses), os pêssegos de que ele precisava.
Ganância e visão de curto prazo são as explicações para este estranho comportamento dos produtores portugueses de fruta. Como o mercado de fresco paga o dobro da indústria, eles sacrificam o compromisso a prazo no altar da tentação do imediato.
“Temos de trabalhar com quem nos garanta estabilidade, em preços e quantidade, pois temos compromisso com clientes como a Nestlé, Danone, Senoble e Unilever, que têm de por os seus produtos nas prateleiras. Não podemos suportar variações anuais de preços na ordem dos 100 a 200%, como alguns produtores querem. O máximo que podemos acomodar é uma variação de 10%. Nenhum consumidor admitiria que o preço do iogurte de cereja subisse 40% de um momento para o outro”, explica o presidente da Frulact, triste porque as compras em Portugal (essencialmente maçã, pêra e kiwi) valem menos de 5% das 20 mil toneladas que compra todos os anos. Os principais fornecedores são Polónia (morangos), Sérvia (framboesas e cerejas), Chile e Marrocos.
Almoçamos no restaurante da Casa de Chá da Boa Nova, a primeira obra prima de Álvaro Siza, em Leça da Palmeira, onde João cresceu, já que o pai, Arménio (um auto-didacta que se especializou em lacticínios na Iogurtes Sabóia), trabalhava ali perto, na Longa Vida, onde, entre muitas outras coisas, foi responsável pela produção do camembert.
“Conhecia os buracos todos desta praia. Nas noites de lua cheia, apanhávamos sapateiras e navalheiras que depois comíamos em grandes patuscadas”, recorda João, que nasceu em Roriz, Barcelos, onde tem uma quinta onde se refugia ao fim de semana e ainda é conhecido pelos mais velhos como o neto da Augusta do Monte - a avó materna, que tinha uma mercearia onde ganhava uns tostões contando o dinheiro ao fim do dia.
Fizemos uma refeição à altura do local, aberta com um Porto seco da Burmester e regada com um branco transmontano Bons Ares (2009) que constou de amêijoas à Bulhão Pato e camarões ao alho e robalo ao sal. Espicaçado por João, o empregado concedei que foi ainda melhor do que a servida a Chavez e Sócrates, quando o presidente venezuelano foi aos Estaleiros de Viana: “A eles servimos-lhes robalo no forno”.
A propósito da sua quinta em Barcelos, falamos dos investimentos que Belmiro de Azevedo está a fazer em fruta (em particular em kiwi). “Ele sabe que, em termos de sustentabilidade, a agricultura é o futuro do país”, declarou João, que, aos 23 anos, após ter trabalhado na gestão de stocks de uma oficina de tractores e na parte administrativa de uma estamparia, agarrou com ambas as mãos a oportunidade de fornecer chila e caramelo à Longa Vida. Pai e filho desalojaram patos, cães (Arménio é caçador) e patos do fundo do quintal, onde construíram um anexo com 120 m2. Estávamos em 1987 e nascia a Frulact.
Jorge Fiel
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Casa de Chá da Boa Nova
Leça da Palmeira, Matosinhos
2 Portos secos … 7,00 euros
2 Couvert … 5,00
Ameijoas … 22,50
Gambas ao alho … 12,50
Robalo ao sal … 45,00
Bons Ares… 16,50
Total … 110,50 euros
Curiosidades
João tem uma relação emocional com a chila, que esteve na génese da Frulact. Abastecia-se de chila em Gondomar, e começava o dia às quatro da manhã a cortá-las em quatro pedaços. Depois acendia a lenha e deixava a chila a cozer, enquanto ia buscar os trabalhadores que manualmente extraíam casca e pevides, e armazenavam a polpa em barricas, que ele entregava na Longa Vida, a quem fornecia 350 toneladas/ano
A produção da Frulact tem em conta o mercado a que se destina o preparado de fruta. Os portugueses gostam do sabor a morango maduro, enquanto os franceses, por exemplo, preferem o morango mas aberto e florado
A Frulact investiu dois milhões de euros no Frutech, um centro de inovação e tecnologia desenvolvido em parceria com o Instituto Politécnico de Viana do Castelo, que vai ampliar o trabalho que é feito por 30 pessoas no laboratório da empresa, uma fábrica de novos produtos, um dos quais consiste em acrescentar ómega 3 (presente no óleo de fígado de bacalhau) que é óptimo para a saúde, nos preparados de fruta
Não se fazem omeletas sem partir ovos. Esta verdade de hoje vai ser mentira, não amanhã, mas algures em meados do próximo ano, quando a Derovo começar a comercializar, com a marca Dovo, em super e hipers uma linha de produtos que nos vão poupar imenso tempo na cozinha.
Quer fazer um molotof? Compra só as claras. Doce de ovos? Adquire apenas as gemas. Abrimos um lata de atum, outra de feijão frade, adicionamos cebola picada e azeite e pensamos que um ovo cozido ficava a matar mas temos preguiça de sujar um tacho, esperar que a água ferva, o ovo fique uns bons dez minutos a cozer - e depois deixá-lo a estagiar em água fria, para a casca sair bem? Isso vai deixar de ser um problema, porque vão estar disponíveis ovos já cozidos descascados. E para saborear a gentil omeleta acabará a maçada de partir os ovos e batê-los com energia. Bastará compra o ovo líquido e derramá-lo na frigideira.
Deve dizer-se que a ideia inicial dos produtores de ovos do Vale do Vouga, Beira Litoral e Oeste, quando há 15 anos se associaram para criar a Derovo, não era facilitar a vida dos consumidores domésticos mas sim garantir a sobrevivência e escoamento da sua produção.
A industrialização da fileira revelou-se um sucesso tremendo e mensurável. Quando começou a laborar, em 1996, a fábrica do Pombal processava 120 mil ovos/dia. Hoje, o grupo Derovo transforma diariamente 3,8 milhões de ovos, em Portugal e Espanha (Astúrias), e tem em curso diversos investimentos no valor de 40 milhões em três projectos: uma fábrica de omeletas outra de sobremesas e um mega centro de produção de ovos.
“Praticamente, acabamos com as salmonelas, com a intoxicação alimentar no casamento por causa da maionese”, diz, com orgulho, Amândio Santos, 40 anos, o homem que organizou a fileira desde que a galinha põe o ovo até que ele aterra nos nossos pratos, assegurando pelo meio a segurança alimentar porque o ovo liquido ou em pó é pasteurizado, num choque térmico a 70º, durante 90 segundos, garantindo-lhe assim 28 dias de vida suplementar.
Natural do Pombal, onde bate o coração da Derovo, e filho de avicultores, Amândio cresceu no meio de 2400 galinhas que punham diariamente dois mil ovos - a exploração da família Santos, que não aguentou o embate da primeira vaga da industrialização do sector, que se seguiu à adesão de Portugal na CEE.
Amândio estudou, à noite, Contabilidade, em Aveiro, enquanto trabalhou na empresa que fazia a decoração das Pousadas de Portugal. Vendia janelas e escadas para sótãos quando os produtores de ovos o foram desinquietar.
A partir do zero, construiu o líder ibérico do sector e prepara-se para fechar a verticalização da sua actividade, de jusante (passando a vender também aos consumidores e não apenas à indústria alimentar) a montante – com o investimento no centro de produção de Proença-a-Nova onde um milhão de galinhas vão por ovos na estrita observância da nova legislação comunitária, que vela pelo bem estar das poedeiras.
“Vai ser uma espécie de resort para galinhas. Cada uma vai ter um espaço privativo de 750 cm2, areia para esgravatar, um ninho com aparas de madeira esterilizada e uma superfície de lima para desgaste das unhas”, conta Amândio. Com este investimento garante que não sofrerá solavancos na cadeia de abastecimento, já que as novas exigências da UE deverão dizimar muitas explorações – além de provocar um aumento de 30% no preço dos ovos.
Amândio escolheu almoçarmos no célebre Manjar do Marquês, à face da EN 1e o ponto de paragem obrigatória das camionetas que demoravam meia dúzia de horas a fazer o Porto-Lisboa, nos tempos gloriosos em que a A1 era uma miragem.
Num regresso ao passado, pedimos o menu tipo do camionista – arroz de tomate com filetes de pescada e panados de porco –, onde o ovo marcou presença, não só no revestimento do peixe e da carne, mas também nalgumas entradas (os bolos de bacalhau, por exemplo) e na sobremesa (leite creme). Como Amândio usa o restaurante como cantina, trata as empregados pelo nome e tem direito a um preço fixo de 15 euros por pessoa, independentemente do que come bebe – regalia de que beneficiámos.
Jorge Fiel
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O Manjar do Marquês
EN1, km 151, Pombal
Entradas (Lulinhas, polvo, rojões, queijo fresco, bolos de bacalhau, etc)
Arroz de tomate
Filetes de pescada
Escalopes de porco panados
Esteva tinto
Leite creme
Manga
1 café
1 chá de camomila
Total: 30,00 euros
Curiosidades
Nós, os portugueses, consumimos 180 ovos/ano per capita, uma média bastante inferior à espanhola (290 ovos/ano) e à europeia (mais de 300 ovos). “É uma questão cultural. Para nós o ovo não é olhado como uma alternativa ao peixe ou à carne. Só pedimos uma omeleta quando decidimos comer uma coisa leve”, lamenta Amândio
A Derovo (que este ano vai facturar 55 milhões de euros) está a desenvolver, em parceria com a Universidade do Minho, um protótipo de ovo estrelado pasteurizado, que depois de comprado bastará aquecer no micro-ondas
O prato de ovo preferido de Amândio Santos é a omeleta com salsa e cebola
Nós somos contadores de histórias. Apesar de não ter sido psicólogo, mas sim enfermeiro, Samora Machel tinha essa noção e por isso disse que “quem não sabe contar uma história é uma pessoa pobre”. “Nós somos contadores de histórias, desde que nascemos até que morremos. O elogio fúnebre é a última história. Contamos desde histórias pequenas, para explicar um atraso, até a grande história da nossa vida” confirma Telmo Mourinho Baptista, 51 anos, professor universitário de Psicologia que há 28 anos tem consultório aberto.
As quase três horas que durou o nosso almoço foram uma sucessão de histórias, subordinadas ao tema geral Afirmar o Psicólogo, a palavra de ordem do programa na base do qual Telmo foi eleito em Abril o primeiro bastonário da Ordem do dos Psicólogos, nascida após sete anos de persistentes esforços e que reúne mais de 17 mil psicólogos.
A escolha do Sessenta, na Tomás Ribeiro, tem uma história. A comissão pró-ordem funcionava ali ao lado, na Latino Coelho, a rua onde morava a mulher, que ele conheceu no Liceu Camões, que também foi frequentado pelos seus três filhos (um casal de gémeos, de 21 anos, e a mais nova de 15). Na oferta do menu almoço, apenas convergimos nas bebidas: dois copos de Seara d’Ordens (Douro) branco e dois cafés. Eu fui pelas pataniscas de bacalhau com arroz de feijão. Ele abriu com sopa e fechou com crepe de chocolate com gelado de nata uma refeição que teve como prato principal filetes de peixe gato gratinados com batata cozida e salada.
Nascido numa família de comerciantes de sementes de flores, que depois do almoço debatia as novidades que o DN trazia, com amigos e vizinhos, num café da praça do Chile, enquanto esperavam pela chegada do Popular, Telmo aproveitou o doutoramento para provar que o procedimento terapêutico para problemas relacionais, ansiedades e depressões deve ser entendido como um processo de narrativa. Observou mais de 30 casos, ao longo de séries de oito sessões, e concluindo que se pode avaliar se o bloqueio está a ser ultrapassado através da evolução da maneira como o paciente conta a história do seu problema.
Telmo trabalhou com timorenses, presos na sequência do massacre do cemitério de Santa Cruz, vítimas de tortura de uma violência indizível. A grande dificuldade que sentiu foi ajudá-los a contar a história do que lhes tinha acontecido. “Ajudamos as pessoas a perceberem e verbalizarem as suas emoções, a avançarem com a sua história, dizendo-a, elaborando-a e dando sentido ao sofrimento”, diz o bastonário, citando de cor Karen Blixen que escreveu: ”Todos os sofrimentos podem ser suportados se conseguirmos convertê-los numa história ou se contarmos uma história sobre eles”.
Para o fim do almoço ficaram as histórias dos grandes absurdos, o primeiro dos quais é o facto do Ministério de Educação não reconhecer aos psicólogos habilitação própria para darem aulas de Psicologia! O fraco uso que o país dá aos seus psicólogos é o outro grande absurdo que revolta o bastonário que conta uma história exemplar do investimento em prevenção: “Numa secundária de Lisboa, um colega fez um trabalho de despistagem de dislexia, identificou duas dúzias de alunos que sofriam desse problema, que pode ser muito melhorado com treino, trabalhou com eles e todos acabaram por passar de ano”.
“Portugal é um país muito rico porque temos os recursos e não os usamos. Agora fala-se muito em liderança e empreendedorismo. Isso também se ensina. Vamos ver o preço que custa não termos psicólogos em todas as escolas, centros de saúde, hospitais e empresas. Temos de aprender a lidar com o stress, de ensinar as pessoas a viverem com o factor incerteza que veio para ficar. Se eu detectar a tempo uma ansiedade grave, poupo sofrimento. Somos muito bons em e.gov, mas depois temos taxas gigantes de abstencionismo e abandono, a todos os níveis do ensino, desde o obrigatório até ao universitário”, conclui o bastonário, avisando que fazer remediação fica sempre muito mais caro do que investir em prevenção.
Jorge Fiel
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Sessenta
Rua Tomás Ribeiro, 60 Lisboa
2 menu almoço (prato+café) 17,00 euros
1 sopa 1,50
2 copos Seara d'Ordens 7,50
1 crepe de chocolate 1,50
Total 27,50 euros
Curiosidades
Há mais de 17 mil psicólogos inscritos na Ordem, a esmagadora maioria dos cerca de 20 mil que se calcula existam (a diferença explica-se pelos reformados e os que não exercem a profissão), um número que pode duplicar em dez anos, já que os 38 cursos de Psicologia existentes no país bombam todos os anos para o mercado aproximadamente dois mil novos licenciados. O bastonário, não imita o seu colega dos advogados, que apela aos estudantes para fugirem dos cursos de Direito, mas lá vai dizendo: “A formação superior é um benefício, mas temos de fazer as contas. A Itália, com 70 milhões de habitantes, tem 75 mil psicólogos. Os EUA têm 125 mil…”
Telmo é um estudioso da II Guerra Mundial e cita o caso de Viktor Frankl, um judeu que sobreviveu aos campos de concentração nazis, onde morreram o pai, a mãe, o irmão e a mulher que estava grávida. “Sobreviveram aquela barbárie os que conseguiram dar sentido à experiência. É preciso encontrar o sentido da vida para dar a resposta adequada a cada situação”, afirma
Telmo é não só fluente em inglês (deu aulas na UCLA) mas também em italiano e é apaixonado por tudo quando diz respeito a Itália. Passou as últimas férias com a família entre o Lago Como e Veneza, recorda o conjunto Marino Marini que povoou a sua infância, e é um fã dos filmes de Visconti e dos livros de Primo Levi e Italo Calvino
O aviso vem do telemóvel: Pode descer, o seu autocarro chega dentro de cinco minutos. A recolha, tratamento, personalização e distribuição de informação vai ser, num futuro bem próximo, a mais poderosa das armas de combate ao congestionamento do trânsito nas cidades, que além de nos enervar também desgraça o planeta, pois é responsável por 40% das emissões de CO2 e destrói milhões de horas de trabalho/dia.
A sofisticação irá muito além dos lembretes. Antes de sair de casa ou do local de trabalho, vamos poder ver no telemóvel a melhor maneira para de chegarmos rapidamente ao destino, recorrendo não só aos meios tradicionais (carro próprio, metro, eléctrico, autocarro, táxi), mas também a soluções novas como car sharing, car pooling, táxis colectivos…
“Estamos à beira de um revolução tecnológica nos transportes urbanos, com o uso de tecnologias e soluções que ainda não existem e vão mudar as cidades”, garante António Pais Antunes, 55 anos, engenheiro civil de Coimbra, que deu aulas em Princeton (EUA) e se doutorou em Louvaina (Bélgica), com um tese sobre planeamento de equipamentos colectivos, cujo modelo foi usado na definição do novo mapa judiciário português.
António é o motor, na área dos transportes, do projecto MIT Portugal, em que colaboram investigadores do Massachusets Institute of Technology, Técnico e das Engenharias do Porto e Coimbra. As suas credenciais são fáceis de estabelecer: integra o pequeno grupo que reúne a nata de especialistas mundiais que vai aconselhar o Governo de Singapura no desenvolvimento da sua rede de transportes – que é uma das avançadas do mundo.
Além disso, dirige o grupo contratado pela DLR (autoridade alemã que integra, entre outros, Lufthansa e o aeroporto de Frankfurt) para a ajudar a definir um plano estratégico para os próximos 25 anos – se devem ser criar mais aeroportos (e onde) e/ou expandir os existentes (e como). “A nossa parceria com o MIT aumentou de forma exponencial a nossa credibilidade e pôs-nos a jogar noutra divisão”, diz António Pais Antunes, para explicar a súbita procura internacional dos seus conhecimentos.
A informação é o combustível que alimenta os modelos de apoio à decisão construídos por António. Ele desenterra-a em praticamente todo o lado, como nas antenas dos operadores de telemóvel, que lhe dizem como é que as pessoas se estão a deslocar (a velocidade permite saber se vão ou não a pé) e para onde – e também às câmaras de segurança espalhadas pelas cidades, que o ajudam a medir o caudal de trânsito.
Apesar de viver em Coimbra (onde jogou futebol na Académica), tem um apartamento na avenida de Roma. “Neste país, é quase impossível passar uma semana sem vir a Lisboa”, lamenta António, que dirige mestrados e doutoramentos no Técnico, que fica a três estações de metro da sua casa (mas ele vai a pé quando faz bom tempo e não está muito carregado).
Almoçamos no Courenses, atrás do mercado de Alvalade, um restaurante barulhento que está sempre cheio como um ovo porque oferece comida boa e serviço rápido a preços razoáveis. Anteontem, Ana Maria Lucas, a primeira Miss Portugal, e Paulo Bento ajudavam a lotar as duas salas desta casa.
Ele escolheu o prato do costume (posta de carne). O vinho (Graco) foi-nos sugerido por Lasalete Fernandes e Jaime Antunes, que almoçavam numa mesa perto. Assinado por Paulo Laureano, é feito com uvas da herdade alentejana do casal fundador do Diário Económico. A boa qualidade da pinga não afectou a prudência de António, quando lhe perguntamos se achava ou não necessário o TGV.
“Vou dar-lhe uma resposta de professor. Necessidade temos sempre. Diminuir o tempo de viagem é sempre bom. Mas dado o volume de investimento, é demagogia dizer que é uma decisão técnica. Só um político pode fazer a ponderação”. Mas lá foi acrescentando que dado o seu raio máximo (mil km) o TGV deixa-nos em Barcelona. “No sítio onde estamos, para ir para lá dos Pirinéus, temos de usar o avião. A minha impressão é que a primeira prioridade devia ser o novo aeroporto de Lisboa. Do ponto de vista de condições aeroportuárias, a Portela é um aeroporto muito fraquinho”.
Jorge Fiel
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Os Courenses
Rua José Duro 27D, Lisboa
2 postas de vitela mirandesa … 22,00
Graco 2008 da Herdade Sousa da Sé … 16,00
2 pães … 1,20
4 cafés … 3,00
Total… 42,20 euros
Curiosidades
O aeroporto do Porto é a primeira coisa que lhe vem à cabeça, quando lhe perguntamos por coisas de grande qualidade que o nosso país tem na sua área de conhecimento. “O Sá Carneiro é um dos melhores a nível mundial na sua categoria”. A seguir elencou o metro do Porto, “um projecto extraordinário, pela sua extensão, adesão e eficácia”, e a A2.
“A A2 tem um traçado a todos os títulos magnífico, entradas correctíssimas, óptima integração na paisagem. É sempre muito elogiada a nível mundial nos congressos rodoviários. Há especialistas que vêm a Portugal de propósito para a verem”, revela António Pais Antunes, que fez ainda questão de salientar a Emel, que está a trabalhar em soluções inovadoras, como a de substituir os parquímetros por um sistema que identifica a chegada e saída dos carros e cobra o estacionamento recorrendo à Via Verde
O sistema de detecção e resolução de incidentes na rede de auto-estradas da Brisa é de categoria mundial. Se um cão entra numa auto-estrada, ou uma pessoa encosta o carro à berma para urinar, um segundo depois esses incidentes são detectados no centro de controlo. O sistema de monitorização da Brisa é provavelmente o melhor do mundo”, conta António Pais Antunes
O misterioso desaparecimento de enxames inteiros está a preocupar a comunidade científica internacional, que baptizou de Síndrome do Colapso das Abelhas (Colony Collapse Disorder) este fenómeno, ainda sem uma explicação cabal.
A varroa, um parasita que ataca as colmeias, e as antenas de telemóveis, cujas ondas podem desorientar a abelhas nos 40 voos diários que fazem para colectar néctar e pólen, são os principais suspeitos deste estranho síndrome que tira o sono aos cientistas. O caso não é para menos.
“Metade do que comemos depende da polinização das abelhas, que são também fundamentais para a preservação da biodiversidade. Se entrassem em vias de extinção seria uma catástrofe para a humanidade”, afirma Joana Godinho, 53 anos, engenheira agrónoma, professora na Escola Superior Agrária de Santarém e estudiosa das abelhas.
Senhora de um sotaque que denuncia ter nascido e crescido na Granja, na raia alentejana, onde cria bezerros, Joana escolheu almoçarmos no restaurante da pateira (actualmente deserta de patos) da Tapada da Ajuda, que acolhe a Escola Superior de Agronomia (onde ela se formou há 30 anos exactos) e o Posto Apícola Nacional.
Do bufete trouxe uma sopa, filetes de pescada (com migas e salada), e mousse de manga. Comeu tudo frio e à pressa, pois o entusiasmo com que falava dos hábitos e proezas das abelhas fazia esquecer-se de que tinha comida no prato, numa refeição que contou com participações esporádicas de um professor de Zootecnia, que almoçava na mesa ao lado e nos contou um truque.
No seu pomar algarvio onde tem uma colmeia, quando quer que as abelhas polinizem os dez hectares de ameixas, o professor Ortega pulveriza as laranjeiras com óleo de peixe. “É a polinização dirigida. A flor da laranjeira atrai não só pelo aroma mas também porque é mais doce. Há quem pulverize com açúcar para chamar as abelhas”, esclarece Joana que começou a carreira a matar ratos.
Mal conclui a licenciatura, foi contratada pelo Governo dos Açores para dizimar os ratos que são o maior perigo para a saúde pública na região. “O problema é que os roedores dos campos também vão comer as rações de farinha de milho que são postas no campo para alimentar as vacas que fazem a vida toda cá fora”, explica a agrónoma , que durante dois percorreu todas as ilhas do arquipélago (Corvo incluído), a organizar a matança dos ratos.
A pouca atenção que em Portugal é dada às abelhas deixa muito triste Joana, que lamenta já não haver uma cadeira de Apicultura no curso de Agronomia e restarem apenas 650 apicultores profissionais, apesar das nossas potencialidades naturais numa área em que somos o 5º maior produtor europeu - Espanha e Grécia são os dois primeiros. Sul, sol e flores são vantagens comparativas quando se trata de produzir mel.
“A apicultura deveria ser acarinhada. Produzimos mel de boa qualidade de muitas variedades, porque temos muita floresta e um quarto do território está protegida”, diz, acrescentando que os alemães (que tem um consumo anual de quatro kgs per capita, quatro vezes superior ao português) adoram o nosso mel de eucalipto, que importam em enormes quantidades.
A super-organização das abelhas é estudada e adaptada por diversas disciplinas, desde a Arquitectura à Matemática, passando pela Sociologia. Recentemente, um estudo de investigadores da escola de Biociências da Royal Holloway, em Londres, concluiu que as abelhas conseguem estabelecer o percurso mais curto entre as flores onde pousam, resolvendo de forma eficaz o problema do caixeiro viajante (o processo matemático de determinar o circuito mais curto que é possível efectuar entre determinadas cidades de modo a que cada cidade seja visitada apenas uma vez) um dilema que os computadores podem demorar dias a resolver
"As abelhas são um modelo de eficiência energética. Para economizarem tempo e energia escolhem sempre a trajectória mais curta. E a optimização do espaço nos seus favos hexagonais é admirada pelos arquitectos”, concluiu Joana, que, apesar de ter começado a carreira a matar ratos e de estar fazer um doutoramento nas doenças da couves, é uma apaixonada pelas abelhas.
Jorge Fiel
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A Pateira da Tapada
Tapada da Ajuda, Lisboa
2 Ementas do dia
Sopa
Filetes de pescada com migas e salada
½ de tinto alentejano Condado das Vinhas
Mousse de manga
2 cafés
Total: 25,00 euros
Curiosidades
A Granja, a aldeia alentejana de 746 habitantes onde Joana nasceu e mantém casa e terras, fica mais perto de Villanueva del Fresno (a localidade onde a PIDE matou Humberto Delgado), do que de Moura, a sede do concelho
Um enxame de 70 mil abelhas, incluindo uma rainha e uma a duas centenas de zangões (que só servem para fecundar a abelha rainha, após o que são mortos), custa cerca de 70 euros e pode produzir anualmente cerca de 30 quilos de mel
O mel era o único adoçante usado entre nós, antes dos Descobrimentos portugueses darem a conhecer à Europa a cana de açúcar e a beterraba, pelo que é um ingrediente básico de toda a doçaria conventual. O mel de rosmaninho é o mel mais apreciado por Joana e uma das muitas variedades e produzidas no nosso país - laranjeira, castanheiro, medronheiro, eucalipto, etc
João Paulo Martins, 56 anos, anda numa fase de brancos. À despedida, o edifício da Maternidade Alfredo da Costa testemunhou o conselho de experimentar acompanhar os queijos amanteigados, como os nossos Serra ou Azeitão, com um branco encorpado com muita madeira. “Vais ter uma surpresa!”, garantiu o professor de História reformado que ganhou o direito a ser chamado o papa dos vinhos portugueses por publicar ininterruptamente, desde 1994, o guia que vende 20 mil exemplares e é bíblia que nos orienta na hora de abastecer a garrafeira ou de tomar a decisão após a consulta da carta de vinhos.
Escolheu almoçarmos no Panorama, o restaurante do último piso do Sheraton, o mais alto edifício de Portugal de onde se desfruta de uma vista de cortar a respiração de Lisboa, num dia em que a cidade estava inundada de uma luz tão forte que faria as delícias dos impressionistas do século XIX. Optamos pelo menu executivo de três pratos, convergindo na entrada (carpaccio de novilho com batata frita chips com aroma de presunto) e saída (brulée de cardamomo e sorvete de morango com a sua geleia), divergindo apenas no prato principal – prudentemente ele foi para posta de garoupa com legumes e batatas salteadas enquanto eu cedi à tentação do bacalhau (arroz de bacalhau com feijão encarnado e grelos e sua posta frita).
Como não estava disponível o Chocapalha Reserva branco - um vinho feito pela enóloga e ex-modelo Sandra Tavares da Silva (que acaba de ter gémeos) na quinta ribatejana do pai -, João Paulo improvisou um plano B: o Cartuxa branco de 2008. ”Tem um aroma de recorte clássico e o volume e textura necessários para acompanhar um prato de bacalhau”, dixit.
Fazer um guia com notas de prova de quatro mil vinhos não é brincadeira. A empreitada começa a 15 de Maio e até 15 de Agosto ele não faz mais nada – nem sequer escreve para Revista de Vinhos, apenas mantém a coluna do Expresso. A disciplina é rigorosa. De manhã começa a provar brancos, depois passa para os tintos e fecha com Portos antes do almoço, em que não bebe álcool. Faz uma sesta e à tarde recomeça com um lote de brancos, fechando o dia com tintos. Ao jantar permite-se uma cerveja.
A esmagadora maioria das provas fá-las nas adegas cooperativas, para onde os produtores mandam duas garrafas de cada vinho - a segunda previne a hipótese de haver problemas com a rolha provocados por um fungo que está a ser combatido com sucesso. Nas quatro mil garrafas provadas por João Paulo, apenas cinco vinhos sabiam a rolha.
As coisas mudaram muito desde que ele começou a fazer o guia, em 1994, com 900 vinhos provados e três mil exemplares vendidos. A editora (Dom Quixote) é a mesma mas mudou de mãos. O modus operandi mudou radicalmente. Da primeira vez optou por provar os vinhos em casa e arrependeu-se. O apartamento ficou virado de pernas para o ar, deixou de haver espaço no frigorífico para os alimentos. Foi um inferno.
Mudaram mais coisas. O paradigma do vinho bom igual a vinho velho inverteu-se. Hoje o consumidor prefere vinhos novos, frescos e pujantes. E a ideia de que somos um país de tintos e não sabemos fazer brancos deixou de fazer sentido. “Temos brancos muito bons em várias regiões”, garante.
Passamos a beber menos (em 20 anos o consumo per capita caiu de mais de 90 litros/ano para menos de 50) mas melhor. A qualidade geral subiu imenso. “Nenhum dos quatro mil vinhos que provei era mau”, diz João Paulo, acautelando que isso não quer dizer que não os haja (“eu é que não os provei”) e acrescentando: “Uma das surpresas é a melhoria dos vinhos do Algarve”. Outra coisa que mudou foi o gosto pelo vinho, que passou a ser um elemento e conversa e socialização.
“Não gostar ou não perceber de vinhos passou a ser mal visto”, conclui João Paulo, que no seu apartamento em Benfica, com as telas da mulher (que dá aulas de música e pinta) encostadas à parede e caixas de vinhos espalhadas pelos corredores (“só me falta ter vinho debaixo da cama”), mantém uma garrafeira de três mil garrafas, que gere com alguma eficiência: “Esforço-me por manter actualizada a lista dos vinhos que têm de ser bebidos”.
Jorge Fiel
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Panorama (Sheraton Lisboa)
Rua Latino Coelho 1, Lisboa
2 menus executivos … 94,00
Cartuxa branco 2008 … 24,00
Vitalis 1 litro … 4,50
2 cafés … 8,00
Total… 130,50 euros
Curiosidades
João Paulo não era um homem de champanhes, mas mudou de ideias. “Agora estou como diz o David Lopes Ramos. Se pudesse bebia uma garrafa de Cristal Roederer todos os dias”, diz o critioa que considera os espumantes da Murganheira bem melhores que os Moet et Chandon correntes
O problema essencial do vinho português não é a qualidade, mas sim a imagem. “Tirando o Porto, apenas o Douro começa a ter imagem. Os Douro Boys fizeram um bom trabalho e os vinhos de mesa do Douro estão a entrar muito bem no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. São feitos a partir de vinhas velhas, pisados em lagar e produzidos pelos métodos tradicionais com castas originais, com nomes como Tinta Francisca e Touriga Nacional que eles têm dificuldade em pronunciar. O Douro tem história e a sua geografia, com terroirs muito diferentes oferece uma grande diversidade de vinhos”
O Mateus Rosé, o vinho português mais vendido em todo o Mundo, agrada a João Paulo Martins. “É um vinho muito bem feito que consegue manter a sua frescura ao longo do ano, porque a Sogrape usa uma técnica de manter o mosto parado nas cubas, como que adormecido, e vai fazendo a fermentação ao longo do ano, à medida que chegam as encomendas. Nos meus cursos, quando faço provas cegas em copos pretos, as pessoas vencem o preconceito e depois de o provarem identificam-no como um vinho branco muito agradável”
Na origem da VivaFit, a maior rede de ginásios do país – só para mulheres e com um inovador conceito de treino baseado em três voltas a um circuito de doze máquinas -, está o encontro acidental, num dia chuvoso, na carruagem bar do comboio Alicante-Madrid, entre Constance, uma jovem e atraente americana de Washington DC, e Pedro, um engenheiro naval luso-espanhol nascido em Paris, que fora à terra do torrão fazer um exame de mergulho.
Foi há exactamente 20 anos. Constance Morrissey (Connie para os amigos), 43 anos, estava em Madrid a aperfeiçoar o espanhol, após ter concluído o curso de Comunicação e Gerontologia. Naquele fim de semana viajara com uma amiga até ao sul para fazer praia – planos frustrados pela chuva, o que lhe lembrou a frase chave de My Fair Lady (The rain in Spain falls mainly in the plain). Como não tinham lugar no compartimento (a Renfe tem destas coisas) resolveram fazer a viagem na carruagem bar, onde conheceu Pedro. Nunca mais se largaram.
Quando ela regressou ao outro lado do Atlântico, o namoro continuou por correspondência (“Ele escrevia-me cartas muito bonitas”, revela Connie num português correcto, falado com um sotaque engraçado), mas não demorou até darem o nó em Washington, em 1993, onde apenas viveram seis meses. A recessão americana, que negava empregos e oportunidades, enxotou-os de volta à Península Ibérica.
Pedro Ruiz, 52 anos, é o segundo de sete filhos do matrimónio entre um antiquário madrileno e uma mulher que fazia questão de dar à luz em Paris, para aumentar a herança dos filhos com um passaporte francês. Tinha dez anos, quando o pai resolveu viver a reforma na Malveira da Serra. O português sem ponta de sotaque com que se expressa é a melhor prova de que cresceu do lado de cá da fronteira, onde se licenciou no Técnico, que lhe abriu as portas da Setenave.
Mas antes deste seu primeiro emprego como engenheiro, ele já tinha virado muitos frangos. Começou a ganhar os seus primeiros dinheiros a vender Bíblias em Málaga. Depois foi nadador salvador, barman, deu aulas de francês e professor de windsurf.
Escolheram almoçarmos no Restaurante do Lago, no Lagoas Park (Oeiras) onde têm montado o quartel general da VivaFit desenvolvida, uma rede de ginásios desenvolvida em franchising e que é um extraordinário caso de sucesso. No ecrã do seu computador, de onde controla tudo quanto se passa nos 113 ginásios frequentados por 40 mil sócias, Pedro confirma os números. O volume de negócios cresceu 25%, situando-se nuns invejáveis 14 milhões de euros/ano.
A ideia foi da Connie, que instalada num país estranho, começou por dar aulas de inglês. Um curso de aeróbica tirado durante umas férias nos States foi o abre-te Sésamo para a equipa que arrancou com o Holmes Place, abrindo o seu primeiro health club na Quinta da Fonte, do outro lado da A5.
Como não são do tipo de se deixarem acomodar, arriscaram em adaptar ao nosso mercado um novo conceito de ginásios que começava a fazer sucesso nos EUA – só para mulheres, low cost (a mensalidade base é de 39,90 euros), não muito exigentes em espaço (160 m2 chegam), e com um treino fácil e flexível, em sessões contínuas. A sócia chega, ocupa uma máquina livre, e animada e orientada por uma instrutora cumpre o plano de exercícios dando três voltas a doze máquinas.
“São ginásios para mulheres que não estavam habituadas a fazer exercício. Sem homens por perto, não se sentem intimidadas se forem um bocado descoordenadas e estão à vontade para tirarem as medidas e compararem o peso e centímetros que estão a perder”, explica Connie.
A coisa demorou a levantar voo. Escolheram mal a localização do primeiro ginásio (o Windlake, em Oeiras) e demoraram a acertar com lay out, iluminação e imagem. “Estivemos ano e meio a perder dinheiro. Disseram-nos que nós éramos malucos. Mas nunca duvidamos de que estávamos no caminho certo”, concluiu Pedro, que já vendeu o master franchising para Índia e está a negociar a exportação do conceito para outros países europeus e árabes.
Jorge Fiel
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Restaurante do Lago
Lagoas Park, Porto Salvo, Oeiras
Pão … 4,20
Bruxas … 36,00
Sopa … 2,00
Robalo … 72,00
Entradas … 17,00
D. Maria 2003 tinto … 18,00
Água … 3,80
Manga … 4,50
Café …3,75
Total… 161,25 euros
Curiosidades
Pedro tinha dez anos, quando o pai, que não esquecera os horrores da sangrenta guerra civil espanhola, resolveu vender o seu negócio de antiquário em Madrid, aposentar-se e instalar-se numa casa da Malveira da Serra, para poupar a família às confusões que previa iriam sublinhar o inevitável fim do franquismo. As contas saíram-lhe furadas. Pouco depois de chegar, Salazar morreu. E a transição para a democracia em Espanha foi bem mais suave do que do lado de cá da fronteira, pelo que no Verão Quente tiveram de se refugiar em Málaga. Regressaram em 1976, quando as coisas por cá acalmaram
Tal como Connie, Pedro é irrequieto e empreendedor. Quando soube que dezenas de milhar de oliveiras, centenárias e milenares, iam ser submersas pela barragem do Alqueva, logo tratou de as comprar, transplantar e vender. Um negócio muito lucrativo. E nas vésperas da Expo 98, o casal Ruiz investiu, em parceria com Beatriz Rubio e Manuel Alvarez (os donos da ReMax Portugal), num parque de campismo em Alcochete para albergar os turistas de visita à exposição de Lisboa
Pedro e Connie estão satisfeitos por a média da frequência dos ginásios VivaFit (duas vezes por semana) ser superior à da indústria (1,78). “A nossa guerra é para elas virem e terem resultados”, diz Connie. As sócias recebem prémios (toalhas, T-Shirts, garrafas de águas, etc) sempre que alcançam os resultados, perdendo peso e centímetros
Já lhe aconteceu manter na Net conversas erótico-pornográficas que, a serem divulgadas, exigiriam uma bolinha vermelha em cima e o/a deixariam embaraçado/a? Pois fica a saber que, para todos os efeitos (incluindo o legal), isso foi sexo, na douta opinião da comunidade científica que investiga o assunto. E escusa de invocar em sua defesa que tudo não passou de uma brincadeira com uma pessoa desconhecida e se resume a umas quantas frases tecladas no computador ou telemóvel. Foi sexo!
“Quando há uma interacção em tempo real, entre duas ou mais pessoas, com o objectivo de obter prazer sexual, isso é sexo”, afirma Ana Carvalheira, 38 anos, psicóloga clínica e sexóloga, que se doutorou em 2005, em Salamanca, com uma tese sobre relações interpessoais e comportamentos sexuais através da Internet.
Ana nem sempre pensou assim. Quando começou o trabalho de campo (uma amostra de 1266 utilizadores de chats) estava convencida que sexo implicava o olhar, o cheiro e o toque. O curso da investigação levou-a a mudar de ideias.
“No cybersexo online não há toque, mas há corpo e um contexto erótico e consensual”, diz Ana, acrescentando que 85% dos protagonistas de relações iniciadas online e a coberto do anonimato vieram a conhecer-se em carne e osso – e uma maioria destes (56%) acabaram por ter relações offline, ou seja na cama, com cheiro, toque e troca de fluidos.
Como em tudo na vida, as relações online têm os seus inconvenientes, mas também um sem número de vantagens que não se esgotam no facto de não se fazer filhos nem se apanharem doenças.
“A internet permite uma escalada na intimidade, facilitada por se tratar de um relacionamento escrito. Saltam-se etapas no jogo amoroso e de sedução. Dizemos coisas a um estranho que não contaríamos à nossa melhor amiga”, conta Ana, uma nómada nascida no Alentejo (Vendas Novas) onde se demorou até que aos 14 anos foi viver para Coimbra com a mãe advogada. De então para cá, teve casa no Porto, Oeiras e Salamanca, até deitar âncora no Estoril.
Escolheu almoçarmos na Linha, na esplanada do Saisa, onde nos despedimos do Verão com uns robalinhos grelhados, que ela acompanhou com um Super Bock stout, porque ainda está a amamentar o Francisco, que há cinco meses lhe proporcionou a estreia na condição de mãe (aparentemente a cerveja não interfere no leite materno).
A Net é um espaço social que permite o encontro entre as pessoas. Torna mais fácil fazer relações novas, uma moeda cujo reverso é o facto de levar à ruptura de muitas relações pré-existentes. Calcula-se que o Facebook seja responsável por 20% dos divórcios no Reino Unido.
Ana não estudou o ambiente do FB, mas sim o dos chats, onde não é socialmente condenável um anonimato, que ela classifica como libertador, “porque não só exercita a imaginação e a idealização do outro, como permite tirar as máscaras e expressar livremente os desejos sexuais sem medo de uma eventual avaliação negativa, mas também abre a porta a enganos, jogos e mentiras”.
A Net é o paraíso para os tímidos, deficientes (um dos membros da amostra, que Ana entrevistou pessoalmente, é surdo mudo), pessoas com algum estigma social e gente que redige bem. “A escrita é um poderoso instrumento de comunicação erótica. Quem escreve bem tem vantagem no jogo de sedução”, assegura a vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia.
O imediatismo é outro dos aspectos sexy da Net. Para arranjar um parceiro sexual pelo método tradicional (offline) uma mulher combina uma jantar com umas amigas que levam uns amigos, tem de produzir-se, ir ao cabeleireiro, fazer figas para encontrar alguém que lhe agrade no grupo, ir beber copos a um ou mais sítios e, se tudo correr mais ou menos bem, marcar um encontro para o dia seguinte.
“Na Net é tudo muito mais rápido. Não é preciso preparar nada. Pode arranjar-se no imediato um parceiro sexual para esta noite. E, se for com a câmara desligada, nem é preciso produzir-se nem lavar a cara, até pode estar de pijama”, explica Ana.
Fechamos o almoço com dois descafeinados (a máquina do café estava avariada). Não foi um problema. A conversa tinha tido cafeína que chegasse.
Jorge Fiel
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Saisa
Estrada Marginal, Santo Amaro de Oeiras
Robalinhos grelhados … 36,80 euros
Super Bock stout… 1,50
Água lisa … 1,50
2 copos branco da casa …3,00
2 descafeinados …1,30
Total: 44,30 euros
Curiosidades
O desejo feminino é o tema do pós doutoramento que Ana está a fazer, com base numa amostra de 3800 mulheres. Uma das conclusões é que o desejo nas mulheres é muito mais flutuante e volátil do que nos homens. A sequência desejo/excitação/orgasmo não se aplica a mulher, onde estes factores se desenvolvem de uma forma mais circular
Viver três anos em Salamanca, onde defendeu o doutoramento, permitiu a Ana passar a ser fluente em castelhano. “É um privilégio poder ler Gabriel Garcia Marquez na versão original”, diz
O trabalho de investigadora tem-na levado a passar boas temporadas em Vancouver, no Canadá, que considera um das cidades bonitas do mundo (não é a única…) e onde gosta de comer coreano.
É na mitologia grega e na filosofia que o aquariano Vítor encontra as respostas às questões que assaltam uma cabeça habituada a pensar fora do quadrado e dotada de uma extraordinária capacidade para conceber e desenhar coisas tão fora do vulgar como sete novos formatos de colarinhos e oito de punhos de camisa.
Não é de agora que Vítor Soares, 46 anos, professor universitário de Psicologia de Bragança, pensa diferente. Na noite em que o escudo deu lugar ao euro, acordou a meio da noite com o desenho de uma carteira adequada às novas notas gravado na cabeça – que passou imediatamente ao papel e registou na manhã seguinte no notário do Porto.
A aproximação à camisa foi feita através de inovadores nós de gravata que ia moldando em espuma e começaram a pedir colarinhos especiais para assentarem bem. Estavam lançadas as bases para a Porthus Krauss, a marca de roupa de luxo para homem que Vítor está a lançar.
“Faço camisas únicas e de alta qualidade, confeccionadas com os melhores tecidos da Somelos. Toda a roupa e acessórios da Porthus Krauss são feitas em Portugal. O tecido dos fatos (65% algodão e 35% seda) são da Paulo Oliveira”, faz questão de notar esta antigo capitão da Força Aérea, que aos 33 anos passou à reserva por não suportava a perspectiva de ver toda a vida à sua frente programada a régua e esquadro – e com o tecto baixo (como não era piloto aviador não passaria de coronel).
Almoçamos no Canaletto, um dos principais restaurantes do pastiche da praça de S. Marcos (atravessada por canais onde circulam gôndolas) do The Venetian, de Las Vegas, onde Vítor estava a apresentar, no âmbito da Magic (a maior feira de vestuário do Mundo) as suas camisas com colarinhos e punhos diferentes do habitual – recebidos com entusiasmo pelos compradores, que apontavam o preço (130 dólares a unidade) como o único senão.
Conquistados pela originalidade do desenho, alguns compradores em vão o tentaram convencer a usar tecidos mais baratos, importados da Turquia. Vítor manteve-se intransigente a dois dos seus princípios básicos: usar os melhores tecidos disponíveis na confecção da sua roupa e produzi-la integralmente em Portugal.
Apesar de estarmos numa falsa Veneza, adaptamos o velho e batido aforismo (em Roma sê romano) e fomos italianos na hora de encomendar, optando por um risotto acompanhado por água lisa.
Vítor nasceu em Luanda, em 1964, onde o pai, militar de carreira na Força Aérea, cumpria uma comissão de serviço (e arredondava o fim do mês dando explicações de Matemática a enfermeiras), e passou parte da infância em Lourenço Marques, até que o fim das guerras coloniais levou a família Soares a instalar-se em Bragança - tinha ele nove anos.
Não se demorou muito por Trás-os-Montes. Aos 12 anos, encontrámo-lo em Lisboa, no Colégio Militar, onde se distinguiu na esgrima (medalha de ouro de mérito) e na ginástica. No final do secundário, concluído com a apreciável média de 17 valores, optou por trilhar o mesmo caminho que o pai e foi para a Força Aérea.
Na recruta foi o primeiro a tudo, menos a tiro. Aprendeu informática, no tempo dos cartões perfurados e das bandas magnéticas, antes de se decidir a adquirir uma formação suplementar, fazendo o curso de Psicologia na Lusófona. Despiu de vez quando atingiu a idade com que morreu Jesus Cristo e estava no Centro de Psicologia da Força Aérea.
Manteve-se na capital pois foi logo recrutado para Egor, de onde saiu um ano e meio volvido, sem ter conseguido cumprir a tarefa para a qual tinha sido contratado, que era abrir a sucursal em Maputo daquela empresa de Recursos Humanos.
Regressou a Trás-os-Montes e apostou na vida académica, começando a dar aulas. Ultimava o doutoramento sobre a relação entre os valores individuais e o burn out (concluiu que individualistas e pessoas com ambição desmedida são os mais atreitos a passarem-se), defendido em Salamanca, onde recebeu a classificação de excelente cum laude, quando lhe surgiram cabeça desenhos fora do vulgar de colarinhos e punhos – e acrescentou a condição de empresário à profissão de professor universitário.
Jorge Fiel
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Curiosidades
Vítor candidatou-se ao mesmo tempo aos Pupilos do Exército e ao Colégio Militar. “Escolhi o Colégio Militar, porque pensei que devia ser melhor, uma vez que não tinha ficado em primeiro nas provas”, explica
Do doutoramento, feito na Universidade de Salamanca queixa-se apenas do preço elevado (154 contos) que pagou pelas cópias e encadernações da tese
A escolha da marca foi simples. Porthus representa Portugal. Krauss é uma piscadela de olho ao mercado alemão, onde espera ter grande sucesso. Além disso. Acha que o r a seguir ao k transmite muita força à palavra
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Canaletto Ristorante
The Venetian Resort Casino
3377 Las Vegas Blvd South, Las Vegas, Nevada
1 água lisa … 7,50 USD
2 risottos com secoe e funghi … 39,98
2 cafés expresso … 5,90
Tax …4,33
Total: 57,71 US dólares
Faça o favor de não se espantar se, por acaso, passar pela loja do MoMa em Tóquio e der de caras com uma imagem XXL de um guarda chuva de cortiça, identificado como o Pelcor umbrella, by Sandra Correia.
O guarda chuva e dois sacos (o messenger e o tote bag) em pele de cortiça, made in Portugal, são as coqueluches do catálogo e lojas de objectos de design do Museum of Modern Art, ao ponto de já representarem cerca de 10% das vendas da empresa dirigida por Sandra, 39 anos, uma algarvia de S. Brás de Alportel que reparte a vida entre Vilamoura e Lisboa, quando não está em viagem - amanhã voa para Nova Iorque onde apresenta 2ª feira os seus produtos na 5ª Avenida, no âmbito da Ecolux Fashion.
Na origem próxima desta paixão americana, está um telefonema do IAPMEI de Faro a perguntar a Sandra se ela estava interessada em receber a equipa do MoMa que vinha escolher objectos para a uma exposição sobre o nosso país. Foi um caso de amor à primeira vista. Estávamos em Maio de 2009. Um ano volvido, uma dúzia de artigos da Pelcor (guarda chuva, sacos, avental, pulseiras, anéis, etc) brilhavam na mostra Destination Portugal do museu da rua 53, entre a 5ª e a 6ª avenidas.
Sandra é a terceira geração de um negócio iniciado pelo avô António, fundador de uma fábrica de rolhas em S. Brás de Alportel, que subiu na cadeia de valor quando o seu filho César (o pai de Sandra é o antigo árbitro internacional de futebol César Correia) aproveitou o facto da cortiça algarvia ser mais fina para fabricar discos para rolhas de champanhe.
Os ventos sopravam de feição, após o investimento numa nova fábrica moderna, capaz de satisfazer as encomendas e cumprir as exigentes regras de clientes como a Moet & Chandon, quando, subitamente, a procura de champanhe na passagem do milénio se revelou inferior às previsões. Com os armazéns cheios, as casas de champanhe diminuíram substancialmente as compras de rolhas, nos anos seguintes, deixando os Correias barcos com mão de obra, cortiça e capacidade instalada em excesso.
Transformar a casca do sobreiro em pele de cortiça e usá-la como matéria prima para confeccionar roupa, calçado e acessórios, foi a solução inventada por Sandra para dar resposta ao excesso de cortiça, uma demonstração da acuidade da velha história dos chineses usarem o mesmo ideograma para significar crise e oportunidade – e mais uma subida na cadeia de valor do negócio da família, a coincidir com a chegada de uma nova geração.
Em Lisboa, os produtos da Pelcor estão à venda na loja própria, no nº 32 da rua das Pedras Negras, onde Sandra monta o seu quartel general quando está na capital e onde usa como cantina o Velho Macedo, um restaurante que fica a menos de cem metros de distância. Como sabe o que ela gosta, o dono pôs logo em cima da mesa um prato de broas de mel recheadas de presunto, esvaziado num abrir e fechar de olhos, e propôs-nos o pernil de porco (sugestão que ela aceitou, contanto que a sua dose viesse já desossada), que se revelou à altura e foi empurrado por um tinto da casa, oriundo de Torres Vedras e servido em jarro.
“Lá em casa sempre fomos todos Benfica”, contou ao Sandra, recordando que foi expulsa de uma aula por estar a ouvir um relato radiofónico de um jogo do clube do seu coração numa 4ª feira europeia. Acabado o Secundário, em Loulé, rumou para Lisboa e inscreveu-se no Instituto Superior de Comunicação. Desde miúda sonhava ser jornalista quando fosse grande, por influência do convívio com jornalistas da Bola e do Record quando acompanhava o pai por todo o lado.
No fim do curso, ainda fez um estágio no Record, mas rapidamente desistiu de ser jornalista e foi vender seguros da Tranquilidade Vida, onde não aqueceu o lugar, pois embirrou logo com a proibição de usar jeans. Depois de ter feito o pleno de três entrevistas, três contratos, despediu-se em protesto contra o dress code, fez as malas e retornou ao Algarve para trabalhar no negócio da família. Dito, por outras palavras, muito provavelmente não haveria guarda chuvas de cortiça à venda no MoMa se a Tranquilidade deixasse as vendedoras vestiram calças de ganga.
Jorge Fiel
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Curiosidades
Carlos Manuel, Bento e Veloso foram alguns dos ídolos do seu clube (Benfica) que ela conheceu quando acompanhava o pai. Mas era sueco e não português o jogador que punha o coração adolescente de Sandra a bater mais depressa; o loiro e esguio Stromberg
Árbitro internacional, o pai estava ausente aos fins (ia apitar jogos do Nacional) e meios (jogos internacionais) de semana. Para a compensar, trazia-lhe sempre, de todos os novos países que visitava, uma boneca vestida com trajes típicos
O sucesso que o seu guarda chuva de cortiça teve quando o mostrou numa reunião de mulheres empresárias em Espanha foi para Sandra a prova dos nove de que estava no bom caminho
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Velho Macedo
Rua da Madalena 117, Lisboa
Água … 3,00 euros
Vinho … 6,00
Couvert …2,50
Broas de mel com presunto … 4,50
Pernil de porco no forno com batata e castanha … 24,00
Cafés … 3,00
Total … 43,10 euros
“Como é que se chama a uma pessoa que trata de bebés?”. Educadora de infância, respondi a medo. “E a uma pessoa que anda de capacete nas obras?”, voltou a perguntar. Capataz? interroguei, já certo que não lhe estavam a faltar palavras e se tratavam de perguntar retóricas, mas ainda sem perceber que ela queria chegar à questão do sexo de determinadas profissões que conspira contra a igualdade dos géneros. Porque não há-de um homem tomar conta de crianças num jardim infantil e uma mulher estar no posto de comando de uma obra. Ponto feito.
Conceição Zagalo, 57 anos, é a presidente da direcção do Grace, que reúne cerca de 80 empresas preocupados em devolver à sociedade parte do muito que ela lhes deu (definição possível da expressão responsabilidade social que entrou definitivamente na moda) e também tem um pequeno problema de género. Somos tentados em pronunciar-lhe o nome à inglesa (Greice) e por isso atribuir-lhe o sexo feminino, mas o género correcto é o masculino, pois Grace são as iniciais de Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial - fundado há dez anos, por impulso da Flad e que conta no seu elenco de associados com o Gotha do nosso tecido empresarial, desde multinacionais (Microsoft, Ikea e McDonalds) e grandes companhias portuguesas (Unicer, Portucel e Porto Editora), passando por bancos (Rotschild, Montepio, etc) e sociedades de advogados (Miranda, VdA, etc).
As perguntas eram a introdução a uma acção que o Grace vai fazer no final deste mês em Campo Maior (adivinhou, a Delta também faz parte do grupo!), onde explicará a um grupo de 30 meninas do secundário que todas as engenharias e as profissões habitualmente masculinas também são opções para elas.
Partilhar, construir, agir e comunicar são os valores do Grace, que tem um largo espectro de iniciativas. Tanto ajuda uma emigrante romena a montar um negócio de lavandaria, como um sãotomense a criar uma agência de comunicação, ou um camionista de longo curso que, por causa de uma hérnia discal teve de largar o volante, a reconverter-se em secretário. E no âmbito do programa Giro (Grace Intervir Recuperar Organizar) transformam em realidade sonhos de diversas ONG. Com o trabalho de voluntários (dispensados pelas empresas associadas) recuperam os quartos e fazem um jardim no centro Luísa Canavarro que recolhe mães prematuras ou constroem uma pista de tartan no Centro de Jovens Tabor em Setúbal. “Ajudamos a semear, a regar e a colher os primeiros frutos. Depois deixamos as pessoas voarem sozinhas”, explica.
“Responsabilidade social e sustentabilidade são matéria de competitividade”, garante, citando os resultados de um inquérito feito pela IBM junto de 1130 CEO de todo o mundo, que referem o investimento em programas de cidadania empresarial como uma das prioridades no futuro. Ela sabe do que fale porque há 37 anos que trabalha na IBM, onde já fez praticamente tudo – foi administrativa, secretária, comercial e RP até que, em 2008, assumiu a responsabilidade do Marketing, Comunicação (interna e externa) e Responsabilidade Social.
Conceição escolheu almoçarmos na Brasserie Flo e aproveitou para dar o exemplo do Tivoli ter posto à disposição de Beatriz Costa uma suite vitalícia para afirmar que sempre houve responsabilidade social. Acompanhou com água o magret de pato, mas interferiu na escolha do género (“vinho é tinto”, disse) e da região do meu copo de vinho. Bebi um tinto ribatejano, pois ela nasceu em Riachos, em plena lezíria, filha do presidente da Câmara de Torres Novas, numa família enorme (cinco irmãos e um número incalculável de primos produzidos pelos nove irmãos do pai e os 15 da mãe), e cresceu numa quinta, onde passou uma adolescência arrapazada, subindo a árvores, brincando aos índios e aos cowboys e ganhando os primeiros escudos recolhendo numa cesta as azeitonas que caiam do chão.
“Os meus pais diziam-nos: façam o que fizerem, façam-no bem feito, sejam os melhores, padronizem-se pela excelência. Nunca me passou pela cabeça ser sofrível”, conclui esta mulher que só conhece uma forma de declinar o verbo fazer: “Há sempre duas hipóteses, fazer ou fazer, e uma terceira alternativa, que é fazer!
Jorge Fiel
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Brasserie Flo
Av. Liberdade 185, Lisboa
Magret de pato com risotto de cogumelos selvagens … 20,00
Bife de atum com espargos verdes, compota de tomate e esmagada de batatas … 19,75
Luso de um litro … 4,00
1 copo Lagoalva tinto … 3,50
4 cafés … 10,00
Total… 57,25
Curiosidades
Aos 20 anos, Conceição tinha duas hipóteses de primeiro emprego, uma mais sedutora (a de hospedeira da TAP, o sonho cor de rosa de qualquer rapariga nos anos 60 e 70) e outra nem tanto – um trabalho administrativo na IBM. Já se imaginava a voar pelo mundo, dentro de um bonito uniforme, quando a voz paterna da razão a levou a decidir, com os pés bem assentes na terra, pela oferta de trabalho mais estável e bem remunerada. A 1 de Junho de 1973 começou a trabalhar no escritório da IBM na Barata Salgueiro, com um ordenado inicial de cinco contos (seis meses depois foi aumentada para 6500 escudos)
Aos 17 anos desaguou em Lisboa, para estudar Germânicas, e monta quartel general em Algés em frente ao quartel dos bombeiros, num apartamento partilhado com os irmãos. Estava no 3º ano quando concluiu que não era aquilo que queria, desistiu e inscreveu-se num curso de secretariado e relações públicas no Instituto das Novas Profissões (INP), à Duque de Loulé.
Para começar, deitam-se todos de costas no chão, de preferência em círculo, olhos fechados e mão dada com a pessoa do lado. Raquel pede-lhes para pensarem em coisas positivas enquanto ouvem, durante três minutos, uma voz agradável e profunda, a dizer, em português do Brasil, palavras como Amor, Sucesso e Criatividade.
A seguir é a massagem colectiva. À vez, cada um dos membros do grupo (idealmente constituído por 18 pessoas), vai para o meio e, com os olhos vendados, é massajado da cabeça aos pés pelos outros, ao som de Mr Jones (“Shalalalalala, uh huh…Yeah), dos Counting Crows. Cada massagem dura apenas um minuto. “As pessoas gostam. Querem mais, mas não pode ser”, explica a produtora artística da Academia das Emoções, empresa especializada em acções de motivação e team building, que tem ilusionistas, maestros e bailarinas no seu corpo de formadores porque o seu conceito base consiste em usar a arte para trabalhar e fortalecer o espírito de equipa.
“As pessoas têm medo do toque. Não compreendem a importância de um bom aperto de mão ou de um abraço forte na hora certa”, explica Raquel, 29 anos, natural de Guimarães, com um curso de Animação Artística feito na Escola Superior de Educação de Bragança, e que trabalha o poder de comunicação corporal dos outros com a credibilidade que lhe advém do seu próprio corpo, magro mas com a musculação bem definida, resultado de milhares de horas no ginásio e na dança - foi bailarina de diferentes géneros, do clássico à salsa, passando pelo hip hop e o funk (“Gosto de ritmos africanos”, confessa). “Sempre fui fanática por desporto”, reconhece a ex-atleta de competição do JUNI (Jovens Unidos num Ideal), que uma operação aos pés obrigou a abandonar o atletismo precisamente na altura em que foi convidada para correr pelo FC Porto.
Quebrado o gelo com a massagem, a sessão tipo de team building de Raquel prossegue com exercícios de improvisação que promovam o riso, em que o pessoal abandona definitivamente a pose de quadro superior de uma empresa de telecomunicações ou seguradora, e entrega-se a brincadeiras em que imita a reacção de animais como o elefante, crocodilo ou leão. O objectivo é a risota.
Fazer um andar esquisito (mancar, andar à Charlot…) e transformá-lo num passo de dança, ajuda a ultrapassar o medo do ridículo. E o número de dobrar o jornal estimula a criatividade e põe as pessoas a desempenhar papéis em que nunca se viram. A coisa passa-se assim. É colocada no chão uma folha de jornal. O grupo divide-se em pares, que, à vez, têm de aguentar três segundos com os pés em cima da folha - que se vai dobrando e ficando mais pequena até haver um vencedor. Há truques para se ir longe nesta competição, como pôr-se às cavalitas (ou ao colo…) do outro. E nada impede os mais espertos de arrastarem a folha do jornal para junto à parede…
“Ajudamos um grupo a chegar a equipa”, sintetiza Raquel, que a nosso pedido detalhou o programa de tipo de uma das suas sessões, o que a impediu de comer como deve ser, tanto mais que o exercício de dobrar o jornal anda pelo fim da primeira hora de uma sessão que dura quatro.
Escolheu almoçarmos no Prós & Contras, um restaurante que fica junto no edifício do teleférico para a Penha e cujo único inconveniente era a música brasileira ambiente estar aos berros - o que foi prontamente remediado. Mas pode ser que não seja assim todos os dias e se tratasse apenas de uma gentileza da casa com a convidada, que mais tarde confessou gostar de ouvir música alto. “A música puxa-me para cima”, diz, Raquel, que usa o apelido optimismo no seu email (raqueloptimismo@gmail.com) e refere Maria Gadu e Lauryn Hill, como duas das suas preferências musicais no momento.
“O que o nosso corpo diz é muito importante e deve ser trabalhado. O corpo fala tanto como a boca”, garante Raquel, que fez rádio em Bragança (“gostava de um dia trabalhar a voz”) e deixou no prato metade do folhado de caça e da sobremesa (apenas o sumo de laranja natural marchou todo), muito provavelmente por culpa minha, pois não se pode falar e comer ao mesmo tempo...
Jorge Fiel
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Prós & Contras
Lugar das Hortas, Edifício Teleférico-Costa, Guimarães
Pão … 1,00
Couvert … 4,00
Revuelto de setas e gambas … 5,00
Folhado de caça … 32,00
Sumo laranja .. 2,50
Copo de vinho verde…3,50
Folhado de maçã … 4,00
1 café … 0,90
Total… 52,90 euros
Curiosidades
Os princípios básicos do trabalho de Raquel assentam em três palavras iniciadas por um S (tal como o seu apelido): Sinfonia, Sincronia, Sinergia
Uma das coisas que Raquel trabalha é os tiques. “Toda a gente tem tiques, mais frequentes quando estão nervosas”, diz ela, que confessa corrigiu um que tinha e considerava horrível (passar a língua pelos dentes da frente com a boca fechada) e mantém outro que não a incomoda – puxar pelas unhas (que usa bem compridas e muito tratadas)
Adora música dos anos 80, ao ponto de dizer que gostaria de ter nascido em 1965 (e não em 1980) para ter sido contemporânea da onda disco
Ninguém disse que o mundo é justo. Enquanto nós nos deliciávamos com uns filetes de linguado com legumes e gengibre no vapor e uma vista de cortar a respiração sobre o Tejo, os alunos ainda em aulas nas escolas deste país comiam frango assado com esparguete e salada. Um menu bem mais frugal, mas a verdade é que o Ministério da Educação paga 1,20 por refeição à Eurest, enquanto o nosso almocinho custou à roda de 40 euros por cabeça.
E ainda há mais atenuantes. O frango assado é a refeição preferida dos portugueses, seguida pelas variantes do porco (lombo, costeletas e febras) e o bacalhau à Brás. Nos peixes, o salmão é o que mais cresce em procura. “Não tem muitas espinhas”, explica Henrique Leite, 40 anos, director geral da Eurest, empresa que diariamente fornece o almoço a 200 mil portugueses, em 1 200 restaurantes e cantinas de hospitais, escolas, prisões, áreas de serviço, autarquias e empresas.
O preço de cada refeição varia entre os sete euros, pagos por grandes multinacionais como a IBM ou a Tabaqueira, até aos 1,20 euros das escolas, onde vigora o regime de prato único (não há escolha) e estão previamente acauteladas uma data de condicionantes: fritos só de 15 em 15 dias e em óleo de amendoim, doces à sobremesa só duas vezes por semana, e a salada e sopa são como Deus: omnipresentes.
“Os miúdos já começam a gostar de sopa e a ser críticos. Preferem as sopas que levam massa”, confidencia Henrique, o comandante de um exército de seis mil pessoas (dos quais 800 cozinheiros) que anualmente facturam 150 milhões de euros e compram e transformam brutalidades de tudo: 1,5 mil toneladas de maçãs, 900 mil quilos de alface, 308 mil quilos de alface e por aí adiante.
O director geral da Eurest, que preferiu à sopa uma entrada de folhado de tomate, mozarella de bufala e beringela, contou-nos alguns dos segredos do seu negócio. O frango assado estava a ser servido nas escolas acompanhado por esparguete porque era 6ª feira. A massa vai-se fazendo na hora, enquanto as batatas têm de ser previamente descascadas o que implica desperdício se a procura de refeições for inferior ao previsto. E à 2ªfeira a opção é por menus expeditos, como febras com arroz, porque há menos tempo para preparação.
“O frango é o único produto das grandes famílias de alimentos em que somos auto-suficientes. Em tudo o resto, excepção feita ao leite e ovos, somos dependentes do exterior”, lamenta Henrique, que deve em parte ao ovo a ascensão meteórica (adequada a quem nasceu em 1969, o ano em que o Homem chegou pela primeira vez à Lua) na Eurest.
Nascido no Porto (o avô era o chefe de estação CF de Espinho), filho do matrimónio entre uma professora primária e um técnico da Betão Liz, fez o curso de dietista por um daqueles acasos em que a vida é fértil. No final do Secundário, estava acampado com a família em Pedrógão, sem saber o que havia de fazer, pois a média era curta para entrar em Medicina, quando um tio médico o desafiou a iram no dia seguinte a Coimbra, apreciarem a oferta na Escola Superior de Tecnologias de Saúde.
Soou-lhe bem a hipótese de se tornar dietista. “Imaginei-me logo a dar consultas a senhoras simpáticas que queriam emagrecer”, conta. Havia só um pequeno problema: 600 candidatos para 100 vagas. Meteu-se em brios, agarrou-se aos livros e arrancou a 6º melhor nota no exame de admissão. Passou os quatro anos seguintes no forrobodó coimbrão, o que não impediu de ser um dos melhores alunos do curso, ao ponto de ter sido convidado para ficar lá a dar aulas, hipótese que declinou (cherchez la femme..,) rumando a Lisboa, onde facilmente arranjou emprego.
Estávamos no início dos anos 90 e uma intoxicação alimentar no Colégio Moderno tinha posto os holofotes em cima das fornecedoras de refeições. Recém chegado ao controlo de qualidade da Eurest, Henrique fez o diagnóstico - o ovo é o primeiro responsável pelas intoxicações e a carne assada é o segundo - e delineou o plano para atacar o problema. Acabou com a carne assada de véspera e passou a comprar os ovos pasteurizados numa empresa de Pombal que dava os primeiros passos (Derovo). E assim exterminou as intoxicações.
Jorge Fiel
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Tágide
Largo da Academia Nacional das Belas Artes, 18 a 20, Lisboa
Água das Pedras 1 litro … 1,75 euros
Água tónica … 1,75
2 Menus 6ª feira (entrada, linguado e ananás) …46,00
Duas Quintas branco … 22,00
4 cafés … 8,00
Total … 79,50 euros
Curiosidades
A Eurest Portugal foi fundada a 24 de Abril de 1974. Durante muitos anos pertenceu ao grupo francês hoteleiro Accor (Novotel, Sofitel, Ibis, etc). Em 1995 foi adquirida pelo ingleses da Compass, o maior grupo mundial do sector, com 400 mil empregados que servem quatro biliões de refeições/ano em 55 países
Para aceitar um cliente, a Eurest exige, por norma, que o número mínimo de refeições diariamente servidas seja de 50, o que considera ser a massa crítica mínima para instalar uma cozinha
Olha-se para a cara dela e vê-se que anda feliz. O caso não é para menos. Enquanto a esmagadora maioria dos seus colegas estão a despedir gente, Catarina vive no Paraíso dos directores de Recursos Humanos (RH), pois no quadro do seu plano de expansão em Portugal de três para sete lojas, o Ikea vai contratar mais 4500 pessoas nos próximos cinco anos.
“Adoro estar na loja fardada de amarelo”, conta Catarina Tendeiro, 36 anos, que vendeu umas capas de sofá no dia de abertura do Ikea de Loures, onde trabalham as 480 pessoas, das quais 40% licenciadas (em áreas que vão do Direito à Biologia, passando pela História e engenharias), que chegaram ao fim de um processo de selecção a que se candidataram 30 mil.
“Até há pouco tempo, os bons não estavam muito tempo sem trabalho, mas agora…”, comenta a directora de RH do Ikea Portugal, que escolheu almoçarmos na cantina dos empregados da loja de Loures, onde éramos os únicos à civil – ela está dispensada, porque trabalha na área central. É uma questão de cultura. Todos os 1500 trabalhadores do Ikea se tratam por tu, sem excepção. E à vista do cliente não há nada que diferencie o chefe da loja de um colaborador de base, que ganha 600 euros/mês. Ambos estão fardados e a placa identificativa não se revela o posto – apenas o primeiro nome e bandeiras que identificam as línguas que fala. Nem a idade dá uma pista sobre o lugar que ocupam na hierarquia, pois a empresa faz questão de recrutar gente com 50 e 60 anos. “Os mais velhos nunca faltam, são pessoas sólidas e ajudam a equilibrar as equipas, lembrando aos mais novos a importância de ter um emprego e de comer por pouco mais de um euro..”, explica.
O menu da cantina dos empregados é mais variado do que o do restaurante aberto ao público, pois seria uma violência passarem meses a fio a almoçar almôndegas ou salmão. Havia francesinha, mas Catarina optou por uma lasanha vegetariana, acompanhada por salada e sobremesada com uma gelatina.
Ela é daquele tipo de pessoas despachadas, que são eleitas chefes de turma. Filha de um barman, que passou por diversos hotéis do Estoril, e de uma auxiliar de educação, cresceu na Parede e desde miúda se habituou a trabalhar nas férias. Distribuiu jornais no autódromo, esteve ao balcão numa loja de animais, mas o emprego temporário mais estável e lucrativo que teve foi no bar da piscina do Hotel Inglaterra, servindo pregos e imperiais, nas férias grandes ou ao fim de semana.
A meio do curso de Sociologia percebeu que se tinha enganado na escolha, o que ela queria era tratar de pessoas, mas nessa altura não havia nada a fazer senão acabar o curso e corrigir o tiro depois. Foi o que fez. O primeiro emprego a sério foi na Linha Directa do Banco Fonsecas & Burnay, colocada pela Manpower, com um contrato de seis meses.
No início andou apavorada. Em meados dos anos 90, a banca dava os primeiros passos na relação à distância com os clientes e ainda não descobrira a importância de forma quem atendia o telefone. Rapidamente, e em regime auto-didacta, ela fez uma pós graduação em produtos financeiros e passou a tratar por tu leasing, ALD, cartões de crédito, compra e venda de acções, bem como envios de dinheiro para o estrangeiro. Ao fim de um ano já era a supervisora e organizava o call center do banco.
Há sete anos, quando lhe apareceu a hipótese Ikea, não hesitou um segundo. Estava em Palmela, numa fornecedora da AutoEuropa, e ,por causa da crise provocada pelo 11 de Setembro, passava o dia nos tribunais, escritórios de advogados ou em negociações com delegados sindicais que ela ainda não tinha dito nada e eles já estavam a dizer que não concordavam.
“Era uma morte lenta. Uma semana despedia duas pessoas. Na seguinte três. Era um desgaste emocional muito grande”, recorda Catarina, que enquanto esperava para saber se tinha ou não sido admitido no Ikea, meteu-se no carro e foi à loja mais próxima da cadeia sueca (Alcorcón, próximo de Madrid) com um duplo objectivo. Comprar uns móveis de cozinha e sofás (estava a mudar de Carnaxide para Carcavelos) e “ver na cara dos trabalhadores se eram felizes”. Eram.
Jorge Fiel
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Cantina Ikea Loures
EN 250 Rua 28 Setembro, Frielas, Loures
Saladas Tata … 0,60
2 lasanhas vegetarianas … 2,20
Gelatina 0,30
Tarte de frutos silvestres … 0,60
2 águas … 0,60
2 cafés … 0,80
Total … 5,10 euros
Curiosidades
Quando começou o processo de recrutamento para a primeira loja do Ikea (que abriu em 2004 em Alfragide), Catarina pôs anúncios em jornais e pedia que as respostas fossem enviadas para um apartado (de que ainda guarda a chave) que visitava diariamente, munida com uma data de sacos de plásticos para trazer a enorme quantidade de envelopes com currículos. O recrutamento dos 480 trabalhadores para a loja de Loures decorreu em moldes completamente diferentes. As candidaturas e parte da triagem foram feitas online e ainda recorreu às redes sociais Linkedin e Facebook
Catarina está a fazer uma pós graduação (Programa de Direcção para Executivos) na AESE, que funciona com base em casos empresariais. Quando estavam a debater o caso Honda, e a particularidade dos trabalhadores desta companhia andarem fardados, um colega comentou: “Como se isso fosse possível Portugal…”. Ela contrapôs que não só é possível como existe. No Ikea todos os 1500 trabalhadores, excepção feita aos da área central, usam a farda azul e amarela. Na sequência deste esclarecimento pediram-lhe para escrever um caso Ikea, para ser estudado nos próximos programas
“Pode viver-se só de soja”, garante Pedro, antes de dar mais uma garfada no pseudo bacalhau à Brás, o prato de resistência do nosso almoço no restaurante da loja da Celeiro Dieta na António Augusto de Aguiar, em frente ao El Corte Inglès. O regime é de self service, mas beneficiei do facto de estar sentado com o dono do negócio para a comida e bebida (uma razoável cerveja biológica alemã Lammsbrau) ser servida à mesa e experimentar variantes ao menu económico (4,80 euros, incluindo sopa, prato, sobremesa e sumo natural) e provar as três saladas de abacate: limão (a minha preferida), maçã e beterraba.
Pedro Lôbo do Vale, 55 anos, médico e empresário, nunca foi muito de comer carne e, no dia a dia, faz a dieta naturista que recomenda aos seus doentes e à farta clientela das 25 lojas (das quais quatro com restaurante) do Celeiro Dieta espalhadas pelo país - a nossa mesa era em frente à zona das caixas, que nunca tiveram descanso durante a refeição, um bom indicador da prosperidade de um negócio que faz surf com a crescente preocupação das pessoas em estarem em boa forma e terem uma alimentação saudável.
“Há cada vez mais gente preocupada com o que come. Hoje, nas sociedades desenvolvidas não se morre de fome mas por excesso de comida”, afirma Pedro, que ele próprio é um bom material de propaganda das suas recomendações e produtos, já que não aparenta estar prestes a fazer 56 anos. “Como sopa todos os dias ao jantar”, explica o médico, que na sua juventude foi um desportista abnegado e apaixonado, tendo praticado modalidades tão diversas como judo, karaté e voleibol.
Ele adora grelhar peixe e conta que no fim de semana anterior comprou a pescadores de Cascais um imperador e um robalo (“do mar”, precisou), que marcharam acompanhados de salada e batatas cozidas com casca. “É pelas barbatanas que se reconhece se o peixe é ou não do mar. Os de cativeiro têm as barbatanas muito arredondadas porque cresceram com pouco espaço e a bater com elas nos outros peixes”, esclarece.
A distribuição alimentar é, há várias gerações, um negócio de família. Da família dele e da família da mulher que eram sócias na Martins & Costa, que tinha duas mercearias finas, onde se vendiam frutas tropicais, caviar, salmão fumado, presunto de Parma, vinhos de Bordéus e queijos roqueforte e parmesão, e que tinham na sua carteira de clientes o madeirense Reid’s, o Hotal Aviz, o Tavares Rico, entre outros.
Foi o pai de Pedro, que tomou a decisão, tão improvável quanto estrategicamente acertada, de diversificar dos foie gras, deliciosos mas letais, para os produtos dietéticos (como o pouco sexy mas ultra saudável farelo de trigo) abrindo em Lisboa o primeiro supermercado Celeiro Dieta, onde ele, jovem estudante de Medicina, trabalhou ao balcão.
Os primeiros salários (o pai pagava-lhe 7500 escudos/mês) aplicou-os numa loja das Escadinhas do Duque, na compra de equipamento fotográfico em segunda mão: uma Yashica, várias objectivas e 14 livros de fotografia. Esta paixão acompanhou-o durante toda sua carreira como empresário, que desenvolveu a cadeia Celeiro Dieta, e como médico, feita entre o Desterro e o S. José – agora só tem prática privada, com consultório na Rodrigo Sampaio.
Falta-lhe o tempo e são tantos os compromissos que provavelmente já não está em idade para mudar tão radicalmente de vida, mas Pedro Lôbo do Vale gostava de ser um dos fotógrafos da National Geographic, uma ambição que não expressa verbalmente mas que é denunciada pelo tipo de viagens que faz e os destinos que escolhe (Etiópia, Mali e Uganda foram alguns dos mais recentes). Viaja sempre acompanhado por 18 quilos de equipamento fotográfico. No regresso, compendia as melhores fotografias num álbum, do tipo coffee table book, legendada e editado pela mulher, impresso na Suíça, e posteriormente distribuído pelos amigos.
À despedida, quando o convenci de que não era só por cortesia que eu lhe dizia que gostara do pseudo bacalhau à Brás (alho francês ripado fazia as vezes do fiel amigo), não resistiu a dar-me um conselho de amigo: “se vier cá comer mais frequentemente vai ver que perde essa barriga”.
Jorge Fiel
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Celeiro Dieta
Av. António Augusto de Aguiar 130, Lisboa
Saladas de abacate com limão, maçã e beterraba
Pseudo Bacalhau à Brás
2 cervejas Lammsbrau
Ananás e papaia
2 cafés biológicos Delta
Pedro argumentou ser o dono do restaurante para não deixar pagar a conta
Curiosidades
Tinha oito anos quando fez a sua primeira grande viagem de carro com os pais, que foram até Paris e Veneza. No regresso de férias, quando a professora primária pediu aos meninos para fazerem uma redacção com tema livre, ele narrou a viagem pela Europa, descrevendo com pormenor a visita ao Marché aux Puces, de Paris. A professora achou que era tudo resultado da sua fértil imaginação
Quando se deu um 25 de Abril em Portugal, Pedro estava em Moscovo, vindo de comboio de S.Petersburgo, no âmbito de um cruzeiro pelo Báltico a bordo de um navio alemão
Desagrada-lhe a cultura portuguesa do golpe. Dá um exemplo. Um dinamarquês tem vergonha de estar desempregado. E se os amigos acham que ele está a demorar tempo demais a arranjar um emprego um dia, quando estiverem todos a beber umas cervejas, fazem-lhe ver que são eles que o estão a sustentar.
Cá, um tipo que consiga viver à custa do Estado é invejado como um vivaço - “ele é que a sabe toda”, comentam os amigos. Os dinamarqueses (que produzem o dobro da nossa riqueza, apesar de serem apenas cinco milhões!) sabem que o Estado deve ser visto na primeira pessoa do plural (nós), enquanto a maioria dos portugueses teima em identificá-lo como a terceira pessoa do plural (eles).
“A rede de segurança em Portugal é muito alta. Não há factores de motivação para as pessoas se mexerem”, critica Luís Magalhães, 54 anos acabados de fazer, managing partner da Deloitte, consultora que comemorou o 40º aniversário, proporcionando as condições para que a elite do país procedesse ao exercício de introspecção nacional que dá pelo nome de Projecto Farol.
“Queríamos um documento que pudesse ser lido por toda a gente”, diz Luís, explicando por que é que as conclusões preliminares de um debate que envolveu dezenas de papers, centenas de pessoas e milhares de horas de trabalhos tenham sido em 50 páginas que contêm uma visão e um guia para o desenvolvimento de Portugal - e onde se elencam doze propostas imperativas, sendo que uma delas é estabelecimento de limites à carga fisacl e à despesa do Esatdo.
Luís Magalhães escolheu almoçarmos na trendy Cafetaria Mensagem do Altis Belém. Concordamos num bacalhau à lagareiro que ganhou claramente ao branco ribatejano Fiúza Três Castas com que o acompanhamos. A conversa à mesa levou-nos até Angola, França e Bélgica, a geografia percorrida por Luís até ser adulto e ir parar à Arthur Andersen pelo efeito conjugado do imperativo do abecedário e de um daqueles acasos em que a vida é fértil.
Nasceu no Lobito, onde a família tinha um negócio de impressão, mas cresceu entre cá e lá, viajando a bordo dos míticos paquetes Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique. Fez a primária entre Braga (a base dos Magalhães) e o Lobito. Repartiu o secundário entre o Liceu Camões e o da cidade do porto escoava as mercadorias que o caminho de ferro de Benguela trazia da entranhas de África.
Aos19 anos está em Luanda, no 1º ano de Engenharia Electrotécnica, quando se dá o 25 de Abril e os angolanos desatam aos tiros uns aos outros. Como gosta de praia, em Junho de 1975, quando voa para Portugal já decidira a continuar os estudos em Montpellier, eleita por ser a universidade mais francesa mais próxima do mar. Chegou lá e deu com o nariz na porta, mas o facto das inscrições para Engenharia já estarem encerradas não o impediu de dar um giro pela Côte de Azur.
As paredes do Técnico forradas com cartazes do MRPP ofenderam-lhe os princípios anti-comunistas, pelo que eliminou a hipótese de fazer o curso em Lisboa. Estava neste impasse, quando uma amiga de Lobito, que tinha ido para a Bélgica, lhe ligou a saber dele. “Queres que te inscreva cá?”, perguntou-lhe. “Já agora”, respondeu ele, que arrancou para Bruxelas convencido que ia estudar Engenharia - só à chegada soube que estava matriculado em Economia.
Estava convencido que estava de passagem, quando regressou a Lisboa em 1980, já com o curso na mão. Preparou candidaturas para fazer o MBA em diversas universidades americanas. Foi aceite numa data delas, mas em Agosto, farto de estar à espera sem fazer nada, abriu a lista telefónica e começou a anotar a morada de consultoras. A primeira que lhe apareceu foi a Arthur Andersen (que mais tarde se fundiu com a Deloitte). Foi até ao escritório, na avenida da Liberdade, perguntar se estavam a recrutar pessoas. “Por acaso estamos”, respondeu a recepcionista. Preencheu os formulários, foi à entrevista, e 30 anos depois este no vértice da pirâmide de 1500 pessoas que trabalham nesta consultora.
Na vida há mesmo coincidências. A amiga do Lobito que lhe telefonou de Bruxelas é a mulher de Luis Magalhães. E a recepcionista da Arthur Andersen, em 1980, é agora a sua secretária.
Jorge Fiel
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Cafetaria Mensagem
Altis Belém
Doca do Bom Sucesso, Lisboa
2 couvert … 6,00
2 bacalhau à lagareiro … 32,00
1 Luso … 4,50
Fiuza 3 castas … 12,50
2 cafés.. 6,00
Total… 61,00
Curiosidades
No início dos anos 80, a mãe de Luís (que ficou órfão de pai novo) foi chamada ao Bando de Portugal para explicar porque é que mandava tantos vales postais para Bruxelas. No entanto, ele não estava só dependente das remessas de dinheiro da família. Além de estudar, fazia diversos trabalhos em part time, como carregar e descarregar camiões para supermercados ou lamber envelopes e selos nas Selecções do Reader’s Digest
Há quase dez anos, Luís era o managing partner da Arthur Andersen em Portugal quando, a nível internacional, a consultora perdeu o nome na sequência do seu envolvimento no escândalo Enron. “São dessa altura a maior parte dos cabelos brancos que tenho”, comenta, acrescentando que teve de tomar comprimidos para dormir durante os dois meses em que tinha o nas mãos o futuro de 600 pessoas (e respectivas famílias). Tudo acabou em bem, com uma fusão com a Deloitte.
Não foi pai nem mãe a primeira palavra que lhe saiu da boca, mas sim cã, de cão, referindo-se ao galgo Doff com quem partilhou a primeira casa, um andar à Estefânia também habitado por um mocho (que viria a morrer tragicamente atrás do frigorífico), dois falcões, um gato e uma iguana. Atendendo aos antecedentes, não é de espantar que Sara Martinho, 33 anos, seja, entre outras coisas, uma activista da Animais de Rua e partilhe com duas gatas ex-vadias (Tigra e Mia) o apartamento de Santo Amaro de Oeiras onde vive com a namorada - e já tenham sido a FAT (Família de Acolhimento Temporário) de mais de 50 gatos que estavam à espera de adopção.
Os animais de rua são uma das muitas causas que cabem no coração de Sara, que se iniciou no voluntariado, ainda miúda de 14 anos, quando morava junto à Feira Popular e frequentava a paróquia do Campo Grande. Foi animadora sócio-cultural no Bairro das Murtas. Aos 21 anos, integrou o grupo de Acção social da Lusíada que dava apoio aos internados no Hospital Prisional de Caxias. Finalmente, aos 25 anos, tornou-se activista da Rede Ex-Aequo, que percorre as escolas deste pais a pregar a mensagem da igualdade dos géneros e a combater a discriminação dos homossexuais. “No primeiro trimestre, fomos a mais de 15 escolas. Não temos oradores que cheguem para as encomendas”, garante a vice-presidente da Ilga (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), que não falhou por muito o sonho de criança de vir a ser missionária.
Apesar da homossexualidade ser o principal factor de discriminação no nosso país (67%), as apresentações nas escolas correm sempre muito bem. “Paneleiro é o pior insulto que há em Portugal. Quando peço aos alunos para esquecerem os professores e darem sinónimos de homossexual, eles normalmente ficam calados e constrangidos. Para quebrar o gelo, dou dois exemplos que tem a carga negativa de insulto: fufa e paneleiro. E pergunto-lhes se eu sou um insulto e se acham bem haver pessoas que são insultos”, conta Sara, a activista que obrigou a Galp a retirar a frase “e o último a chegar é paneleiro” da letra de um hino publicitário.
Ela foi a primeira a chegar à esplanada do Noobai, junto ao Adamastor, em Santa Catarina. “Tenho gadelha, camisa branca e sapatos amarelos”, identificou-se na SMS. O activismo desta morning person, capaz de mandar mails cheios de links às 6h05 da manhã, é a melhor explicação para ser magríssima e adorar comer. Escolheu uma tosta de queijo de cabra e, como estava calor, mudou para branco a encomenda inicial de um copo de tinto. Acabou com bolo de mousse de chocolate.
Não usa relógio, maquilhagem ou outros adornos, com a excepção de um discreto fio de ouro ao pescoço com uma abelha – que tem uma explicação. Com formação em Psicologia, trabalhou em headhunting até que há alguns meses se tornou Relações Públicas da Omoura (empresa que vende de jóias e relógios e é agente de marcas como a H. Stern, Chaumet e Dior) que lhe proporcionou profissionalizar o seu activismo, ou seja ganhar a vida a lutar por causas.
A abelha é o símbolo da Chaumet. Em coordenação com a Estação Apícola Nacional da Tapada da Ajuda e com o apoio daquela marca de luxo, Sara está a pôr de pé uma campanha de protecção das abelhas, cuja existência está ameaçada pelo ácora de verroa e pelos campos electromagnéticos dos telemóveis, que lhes baralham o sentido de orientação no regresso à colmeia.
“Se todas as abelhas do Mundo morressem de repente, a humanidade não teria mais de quatro anos de vida, pois elas são responsáveis pela polinização de produtos agrícolas que representam mais de dois terços da nossa alimentação”, diz, citando Einstein. Declara-se contente pela aprovação do casamento gay (“A nossa sociedade português ficou mais inclusiva ao permitir que todos possam escolher a figura que querem para proteger a sua relação”) mas avisa que a luta continua. “Ainda há muito a fazer até que todos tenhamos direitos e deveres iguais, como, por exemplo, no apoio à reprodução medicamente assistida”, diz Sara, que planeia casar, “mas sem mediatismos”.
Jorge Fiel
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Noobai Café
Miradouro do Adamastor, Santa Catarina, Lisboa
Tosta de queijo gratinado com tomate e oregãos … 5,50
Tortilha de frango com verdes, tomate, ananás, molho de iogurte e rutas glaceadas … 7,00
4 copos de branco …10,00
2 cafés … 2,40
Total… 29,10
Curiosidades
Como há muito mais gatos do que famílias que os queiram adoptar, a associação Animais de Rua tem em curso uma campanha de esterilização. Os voluntários apanham os animais vadios e enquanto eles estão anestesiados para a operação, é-lhes cortada a ponta da orelha esquerda, sinal convencionado internacionalmente que avisa os funcionários do canil municipal de Lisboa (que funciona na dependência do Departamento de Tratamento de Resíduos Sólidos) de que o gato pode ser deixado em paz porque não se vai reproduzir
Sara é vegetariana, mas não fundamentalista. De vez em quando come peixe, como, por exemplo, quando, após alguns dias de internamento no hospital, onde lhe tiraram a vesícula, não descansou enquanto não atacou um linguado grelhado
A administração da Jerónimo Martins (JM) está preocupada com as condições de vida dos seus 20 mil trabalhadores, que nos Pingo Doce cumprem duros horários de trabalho em contacto com o público. Vai daí, pediu ajuda à Sair da Casca para responder à pergunta: O que temos de fazer para que eles tenham uma vida melhor?
Este é um dos dossiês que está em cima da mesa de trabalho de Rui Loureiro, 49 anos, director geral da Sair da Casca, uma consultora especializada em ambiente e sustentabilidade, duas palavras que correspondem ao nó do maior problema que a humanidade enfrenta e que entraram na moda e no topo das preocupações dos gestores.
Os resultados das entrevistas a todos os trabalhadores da JM estão a ser trabalhados pelos 22 técnicos da Sair da Casca, gente com formação diversa (Psicologia, Engenharia, Gestão e Comunicação). “Há uma fragmentação de problemas, desde questões sociais, como mães solteiras que não têm onde deixar os filhos, até muita gente que tem dificuldade a chegar ao fim do mês”, afirma Rui, admitindo que a resposta poderá passar pelo facilitar do acesso a creches e bens alimentares.
“Queremos desenvolvimento, mas não a qualquer preço. As pessoas começaram a interrogar-se sobre o tipo de desenvolvimento que estavam a ter e a concluir que é tempo de parar para pensar. A Terra tem de ter futuro. Não podemos continuar a delapidar hoje os recursos que vão ser precisos amanhã”, acrescenta, elogiando a decisão da JM de deixar de dar sacos de plástico, que poupou recursos da empresa e do planeta: “As empresas já estão a perceber que é negócio ter um comportamento responsável”.
Rui escolheu almoçarmos no Aromas e Sabores, em Campo de Ourique, o bairro onde ele nasceu e o avô era dono de uma fábrica de limas. Tinha apenas três anos quando atravessou o Atlântico, acompanhando o pai que emigrou para o México para montar uma fábrica e por lá ficou. Cresceu, fez-se homem e licenciou-se em Engenharia Química entre tacos, burritos, nachos e fajitas – pratos que não constavam da lista do acolhedor restaurante que fica no 1º andar de uma loja “gourmet”.
Encomendou um risotto de queijo, acompanhado por um copo de tinto de uma garrafa vedada por uma rolha de cortiça – que depois de reciclada é transformada em pavimentos e revestimentos, sendo que as receitas da recolha de rolhas usadas são investidas na reflorestação do país com espécies autóctones. “O sobreiro quando cresce vai stockando CO2”, acrescenta o director geral da Sair da Casca, que deve o seu português fluente aos pais, que o obrigavam a fazer ditados e cópias na nossa língua, pelo menos duas vezes por semana.
No final do curso, veio para Portugal. Tinha com 26 anos e estávamos no ano da adesão da CEE. O primeiro emprego foi na GM de Ponte do Sor, onde tinha de andar meia hora para jogar matrequilhos, a única diversão disponível para além da mesa de pingue-pongue no quartel dos bombeiros, um choque para quem vinha de uma cidade com mais habitantes que todo o nosso país. Da indústria automóvel mudou-se para a consultora Coopers, que viria a integrar a PriceWaterhouse. Quando Al Gore e o aquecimento global puseram as questões ambientais na agenda, ele devotou-se a esta causa. “A sustentabilidade não era o core business da PwC”, diz, explicando porque é que há três anos trocou a multinacional pela Sair da Casca.
Rui anda satisfeito. Entre outras coisas, está a ajudar a desenhar a estratégia de sustentabilidade da McDonald’s, que contempla uma redução drástica das embalagens. Na Caixa, estimulou o aparecimento de um núcleo de 20 pessoas, gente com ideias, que já pôs em prática pequenos passos (como separar o papel para reciclagem e imprimir dos dois lados) e outros de maior alcance, como os micro-seguros, uma variante do micro-crédito que tão bons resultados tem dado – “A taxa de incumprimento é muito menor, o que prova que os pobres são mais honestos do que os ricos”.
“O que é preciso é criar conhecimento nesta área. É recompensador ver a Galp a estimular o carsharing e a EDP a deixar de ser uma vendedora de electricidade para se assumir como gestora de energia”, conclui.
Jorge Fiel
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Aromas e Sabores
Rua Tomás da Anunciação 44, Campo de Ourique, Lisboa
2 couvert … 5.00
3 copos tinto … 7,50
2 águas minerais … 3,00
1 risotto de queijo … 9,50
½ tábua de peixes fumados … 10,00
2 doces do dia … 9,00
2 cafés…1,50
Total… 45,50 euros
Curiosidades
O seu primeiro carro foi um “carocha” verde escuro. Após 58 anos de produção, o último VW Carocha saiu da linha de montagem da fábrica da Volkswagen em Puebla (México) a 30 de Julho de 2003
Rui Loureiro defende que é preciso reinventar os nossos hábitos e comportamentos, para evitar desperdícios sem sentido como as esferográficas e porta chaves de brinde que são oferecidos em tudo quanto é reunião ou congresso
“Temos de consumir menos. O cabaz básico de necessidades do comum das pessoas evoluiu de uma forma brutal. Hoje a qualidade de vida incluiu a televisão por cabo”, diz o director geral da Sair da Casca
Não tem a menor das dúvidas. As empresas estão a desperdiçar um capital precioso quando abdicam por completo do concurso das pessoas mais velhas. “Nós, os seniores, tomamos decisões muito mais rapidamente do que uma pessoa jovem, porque fazemos uma leitura dos problemas mais afectiva e emocional, menos intelectualizada. Reconhecemos os padrões das situações e avaliamos com base nas experiências que vivemos e memorizamos”, afirma Daniel Serrão, 82 anos, professor catedrático jubilado de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina do Porto.
Uma das decisões rápidas e sábias tomadas pelo professor foi escolher almoçarmos na Marisqueira do Miguel, onde nos banqueteamos com um robalo escalado com arroz de amêijoas, que estava divino, como convinha aliás, atendendo a que estava a ser servido a um conselheiro do papa. Há 14 anos que Serrão integra a Academia Pontifícia para a Vida, que aconselha o Santo Padre em matérias de bioética.
Acompanhamos a refeição com um EA branco, como não podia deixar de ser, pois o nosso convidado foi fundador da Lasvin (Liga dos Amigos da Saúde, Vinho e Nutrição), organização que está desactivada mas tinha o seguinte lema: “o vinho é o bem estar da alma e a alegria do coração, bebido a tempo e com moderação”.
Sepultamos com um pudim abade priscos uma refeição em que não passamos fome, apesar do professor avisar que “quem passa fome morre muito mais tarde”, recomendação a que o mais velho dos seus seis filhos (o indefectível portista Manuel, celebrizado pela Noite da Má Língua) não liga.
“O envelhecimento pode trazer muitas coisas positivas. A grande riqueza das pessoas é o que elas arquivam da sua experiência de vida. Com a idade, estou mais tolerante. Hoje à minha volta sinto tudo mais arredondado”, garante.
Está mais tolerante mas nem por isso menos activo, pois anda sempre a correr de um lado para o outro. Deixou de dar aulas de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina, mas passou a leccionar Bioética, na CESPU e na Católica, e Antropologia na Escola Superior de Educação Paula Frassinetti. Abandonou o laboratório de análises clínicas (onde de gaba de ter feito, entre 1975 e 2002, 1,6 milhões de análises sem nunca ter cometido um único erro) mas continua a não ter um dia livre.
Recém-chegado de Brasília, onde apresentara uma comunicação perante 300 bispos brasileiros, tinha estado na véspera em Trás-os-Montes (a região onde nasceu) – de manhã a falar sobre eutanásia aos alunos da ES de Alijó e à noite, em Bragança, num debate sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Depois do almoço seguiu para Lisboa onde participou num programa televisivo de Maria Elisa sobre o Erro Médico.
Nasceu em Março de 1928, um mês antes de Salazar assumir a pasta das Finanças, filho do ex-chefe de gabinete de um ministro do Comércio da I República, que na altura era o director de Estradas de Vila Real e não se deu com o Estado Novo.
Serrão fez os estudos entre Viana do Castelo, Aveiro e Coimbra, as terras onde o pai ia sendo colocado. Sempre quis ir para Medicina, não sabe bem porquê, mas admite tenha sido por, no início da adolescência ter gostado de uma consulta que fez com o médico Eduardo Santos Silva (avô do fundador do BPI). Licenciou-se em Medicina (17 valores), aos 23 anos, doutorou-se (com 19) aos 31 - e aos 43 já era catedrático. Apesar de jubilado há oito anos, não perdeu o contacto com as novas tecnologias.
“A Internet foi a minha salvação. Não sei como seria capaz de organizar a minha vida sem ela”, confessa o professor que mantém um site actualizado e acaba de reunir sete das conferências que deu ao longo dos últimos dez anos, a convite da Cofanor (Cooperativa das Farmácias do Norte), num livro intitulado Procurar a sabedoria Partilhar o conhecimento, apresentado 2ª feira no CCB por Marcelo Rebelo de Sousa – no Porto a apresentação será em Serralves, no dia 15 e estará a cargo de Leonor Beleza.
“Sei que gosto mais das pessoas agora do que quando tinha 40 anos”, atirou, à despedida, o professor, que é a prova viva que o envelhecimento da população não é uma coisa assim tão má como o pintam.
Jorge Fiel
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A Marisqueira de Matosinhos
Rua Roberto Ivens 717
2 torradas de pão de centeio … 2,50
Robalo … 35,00
1 garrafa EA branco … 8,00
2 pudins Abade Priscos …7,00
2 cafés … 2,60
Total … 55, 10
Curiosidades
“A Medicina ajudou os Aliados a ganhar a II Guerra Mundial. Churchill teve uma pneumonia e foi salvo pelo antibiótico que Fleming estava a desenvolver com base em penicilina. Tomou a vacina e no dia a seguir já estava a dar ordens ao Monty”, recorda Serrão. Os antibióticos só começaram a ser produzidos industrialmente a partir de 1945, nos EUA.
Daniel Serrão já viajou por todo o Mundo e quase todos os continentes, mas nunca foi aos Estados Unidos
O professor conheceu a mulher, Maria do Rosário (com quem casou em 1958), nos courts de ténis do Académico, em Costa Cabral. “Ela ganhava-me sempre porque era de Educação Física e eu era um nabo que tinha dificuldade em acertar na bola”, conta Serrão, que um dia ganhou coragem e convidou-a para almoçarem pescada cozida na Arcádia…
Quando viu na televisão as imagens da tentativa, patética e mal sucedida, da marinha espanhola empurrar o Prestige para as águas territoriais portuguesas, Paulo Magalhães, 42 anos, estava a pensar num diferendo no condomínio de sua casa. Uma vizinha pretendia que fossem todos a pagar o arranjo de umas janelas exteriores no seu apartamento, alegando que a obra beneficiava todo o prédio ao evitar a infiltração de águas.
Licenciado em Direito na Católica (Porto) e pós graduado em Direito Ambiental (Coimbra), Paulo relacionou, numa feliz sinapse, as imagens do petroleiro naufragado com o problema doméstico e concluiu que o seu prédio era um micro-cosmos do que se passa na Terra e que urge estabelecer regras e organizar a vizinhança global, dotando o planeta de um condomínio que impeça usos abusivos do bem comum.
Independentemente do Prestige naufragar em águas portuguesas ou espanholas, a mancha de petróleo derramado ia espalhar-se ao sabor das correntes, sem respeito pela linha de fronteira artificialmente riscada pelo Homem, e o impacto negativo desta maré negra (tal como está a acontecer no golfo do México) seriam sempre multinacionais.
“Condomínio da Terra. Das alterações climáticas a uma nova concepção jurídica do planeta” é o título do livro (já traduzido em inglês) onde Paulo expõe a teoria que deu corpo ao projecto Condomínio da Terra que lidera, com o apoio da Quercus e das 19 mil pessoas que já assinaram a Declaração de Gaia.
Almoçamos em Gaia, no Três Séculos, das Caves Taylor’s, o restaurante de onde se desfruta da mais soberba vista panorâmica do Porto. Foi aqui, que em Junho do ano passado se realizou o jantar de encerramento do conclave internacional que aprovou a Declaração de Gaia, constitutiva do Condomínio da Terra. Paulo não resistiu à piscadela de olho. Gaia é famosa por albergar as caves de Vinho do Porto mas é também o nome da deusa da Terra, que sucedeu ao Caos da confusão entre céu, águas e terra.
Ambos optamos por um lombo de bacalhau em cama de brandade de polvo (que estava delicioso teria custado 15 euros a dose, não fora a gentil teimosia da gerência em não trazer a conta e oferecer as refeições), bem acompanhado por um Evel tinto, que oleou a conversa com o único fundador da Quercus que, 25 anos depois, se mantém activo na mais conhecida organização ambientalista portuguesa e que, por influência dos documentários “O Homem e a Terra”, de Félix Rodriguez de la Fuente, se tornou militante da causa ecológica logo no início da adolescência – aos 13 anos já dirigia o Grupo de Expedições Científico-Naturais do Porto.
Paulo estudou leis (“tinha a noção que o Direito ia ser importante na questão ambiental”) e foi fotógrafo profissional (trabalhou para a Getty Images e são da sua autoria algumas das imagens de promoção do turismo em Portugal) mas nunca mais abandonou a militância na protecção e recuperação dos eco-sistemas.
“O bem e o mal que se faz à Terra circula livremente pela atmosfera, hidrosfera e biodiversidade. Não se detém nas fronteiras. A Amazónia não consegue reter, capturar, todo o serviço ambiental global que presta ao planeta. Se desflorestassem a Amazónia, em poucos anos deixaria de haver peixe, porque os oceanos são alimentados com a matéria orgânica que cai ao rio e é transportada pelo Amazonas. As árvores são muito mais valiosas para a humanidade vivas do que transformadas em madeira. O problema é que só têm valor económico quando são abatidas e convertidas em madeira. De que é que as próximas gerações precisam mais? De papel ou de árvores vivas?”, pergunta.
A declaração de Gaia propõe uma nova contabilidade mundial, que reponha a justiça ao premiar quem contribui de forma positiva e relevante para a conservação do planeta. “Caminhamos para a catástrofe se não mudarmos o paradigma de predação na Natureza”, alerta Paulo, que cita o inventor da teoria da relatividade para justificar o projecto Condomínio da Terra: “Não se acham terras novas com mapas velhos. Como nos avisou o Einstein, não podemos resolver um problema usando o mesmo nível de pensamento em que estávamos quando o criámos”.
Jorge Fiel
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Três Séculos
Rua do Choupelo 250, Gaia
Queijo e presunto
Lombo de bacalhau em cama de brandade de polvo
Água
Evel tinto
2 cafés
A refeição foi oferecida pela casa
Curiosidades
Paulo é um dos activistas do projecto Criar Bosques (www.criarbosques.org), que em dois anos plantou 128.507 árvores e arbustos de 60 espécies portuguesas (carvalhos, azinheiras, sobreiros, etc) em terrenos privados, públicos e baldios. Os proprietários comprometem-se a não deitar abaixo as árvores num prazo de 40 anos e, em troca, a Quercus planta-as e trata delas, com o apoio do ICN e das verbas da reciclagem de rolhas. “Se investíssemos na florestação do país com espécies autóctones o que gastamos em prevenção, os incêndios deixavam de ser devastadores”, avisa
Sacos de plástico lançadas à água durante anos a fio foram levadas pelas correntes para o Norte do Pacífico, onde há duas ilhas flutuantes de lixo, que cientistas estimam serem do tamanho dos EUA e conterem cerca de 60 milhões de toneladas de plásticos
Calcula-se que a empresa dos descobrimentos e expansão marítima dos portugueses implicou o sacrifício de oito milhões de carvalhos. A madeira de pinheiro era só usada nos mastros. Alguns séculos mais tarde, as exportações de vinho do Porto em barris de carvalho completaram a razia do carvalhal português
Para se perceber o que ela anda a fazer, é só olhar para um mapa da Península Ibérica e ter algumas noções de História: Mérida, onde está a sede da Junta da Extremadura, era, no tempo dos romanos, Emérita Augusta, a capital da Lusitânia, província que tinha em Olissipo o seu porto marítimo e no Tejo a coluna vertebral.
Guillermo Fernandez Jara, o socialista que há três anos preside à Junta da Extremadura, vem a Lisboa apanhar o avião para Bruxelas, não só porque Lisboa fica mais perto (280 km) de Mérida do que Madrid (320 km), mas também porque estreitar os laços com Portugal é uma vantagem competitiva para a sua comunidade autónoma no interior do Estado Espanhol.
Teresa, 39 anos, é, à primeira vista, 100% portuguesa. Não há pinga de sotaque no português rico e fluente em que se exprime, o que é natural pois viveu e estudou em Lisboa (licenciou-se em Relações Internacionais na Lusíada), apesar de ter nascido em Ávila, onde a mãe, espanhola de Valencia de Alcântara, teve todos os seus filhos.
Filha de um português, engenheiro da EDP que foi director geral das Pescas, cresceu em Lisboa mas a falar castelhano em casa, a frequentar o Instituto Cervantes, a ver a TVE (menos os filmes, pois não gosta deles dobrados), a ler e ouvir literatura e música espanholas. “A minha mãe sempre foi muito espanhola”, explica Teresa, casada com um espanhol de Badajoz, de quem tem duas filhas (Inês, cinco anos, e Marta, um), que conheceu em Bruxelas, onde trabalhou 15 anos e foi a representante da Extremadura junto da UE.
Trocou Bruxelas por Lisboa, para abrir e dirigir uma delegação da Extremadura na capital do seu primeiro parceiro comercial. Portugal é o principal cliente e fornecedor desta comunidade, deixando o segundo (a Alemanha) a enorme distância. Os 800 bebés portugueses nascidos em Badajoz desde que fechou a maternidade de Elvas, demonstram estarem já muito longe os tempos a raia era apenas atravessada por contrabandistas e turistas de um dia, em busca de caramelos ou café baratos.
Teresa escolheu almoçarmos na cafetaria do Altis Belém, próximo da zona das embaixadas no Restelo, onde em Junho de 2009 ela inaugurou a delegação da Extremadura em Lisboa, onde à varanda flutua a bandeira às riscas horizontais verde, branca e preta e no interior trabalham sete pessoas para esbater a barreira física e psicológica de uma fronteira com 428 km.
Ela vinha ao cheiro dos célebres risottos do chef Cordeiro, mas decidiu-se por um polvo, que estava delicioso, acompanhado por uma imperial e sobremesado por uma mousse de chocolate com morangos. “Faço um tortilla de batata muito boa”, confessou, acrescentando que o segredo está em ter paciência para deixar a batata absorver o sabor do azeite.
Ao almoçou, falou do programa “El Portugués abre puertas” , que faz da Extremadura a região espanhola onde mais se fala a nossa língua (há 12 mil estudantes de Português), das relações transfronteiriças (Évora, Coimbra e Mérida são os vértices de uma nova euroregião), do MEAC de Badajoz que tem a sinalização bilingue e uma rica colecção de arte contemporânea portuguesa - questões que arrumam Olivença numa pequena gaveta da História.
“Queremos que nos invadam. A Extremadura é o sitio ideal para os portugueses porem o pé, para verem como é, antes de darem o salto para o resto de Espanha”, desafia Teresa, que se declara portuguesa em Portugal e espanhola em Espanha, e já formatou a resposta para uma eventual final Portugal-Espanha no Mundial de futebol: “Ganho sempre e vou ter pena do que perdeu”.
O TGV para Madrid, que porá Badajoz a 40 minutos de Lisboa, está tremido, pois o primeiro troço (Lisboa-Poceirão) foi congelado, o que leva Teresa a criticar o ancestral pessimismo português. “É preciso olhar em frente, ver mais além, agarrar as oportunidades e pensar no futuro. Essa maneira de ser pessimista é o lado em que eu não sou portuguesa. De mãos dadas, chegamos a 700 milhões de pessoas, em países emergentes como o Brasil, Angola, América Latina. Podemos fazer tantas coisas!”, conclui esta luso-espanhola, portuguesa por fora, mas muito espanhola por dentro.
Jorge Fiel
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Cafetaria Mensagem
Altis Belém
Doca do Bom Sucesso, Lisboa
3 couvert … 6,00
2 polvo no forno … 29,00
1 mousse de chocolate … 4,50
2 imperiais Super Bock … 8,00
1 água do Luso 0,5 l … 3,50
2 cafés.. 6,00
Total… 57,00
Curiosidades
A Extremadura é uma comunidade autónoma espanhola que faz fronteira a oeste com Portugal (Centro Alentejo), a este e norte com Castela, e a sul com a Andaluzia. Tem 1,1 milhões de habitantes e 41,6 mil k2. Mérida é a capital administrativa, mas as duas cidades mais importantes são Badajoz e Cáceres. É a primeira autonomia espanhola com representação em Portugal
O pai português e a mãe espanhola de Teresa conheceram-se na Figueira da Foz, onde ambas as famílias passavam as férias de Verão há pelo menos duas gerações. Ela estudou Ciências Politicas e ele Engenharia. Depois de casarem em Ávila vieram viver para Lisboa
Os Deolinda e Dulce Pontes são muito apreciados na Extremadura, onde é raro realizar-se alguma grande iniciativa cultural, seja ela no domínio da música, cinema, literatura ou teatro (como, por exemplo, o Festival de Teatro Clássico de Mérida) que não conte com a participação portuguesa.
Keynes, que nestes tempos terríveis anda na boca de toda a gente, avisou-nos que a dificuldade não está nas ideias novas, mas sim em escapar das velhas, um ensinamento que tem sido o alfa e o ómega da actividade do seu compatriota Michael DaCosta Babb.
Um das ideias velhas de que Michael está a tentar escapar é a de que para termos uma casa para viver e trabalhar só há duas hipóteses: comprar ou alugar. Se for criativo e tiver vontade de habitar no centro histórico do Porto vi haver uma alternativa: um regime de propriedade conjunta. Escolhe um andar na Baixa, recuperado pela SRU Porto Vivo, paga metade, enquanto que os outros 50% são adquiridos por um fundo sem fins lucrativos, que lhe cobrará uma pequena renda. Fica dono de meia casa, mas com o seu usufruto a 100%.
Michael não é promotor imobiliário, mas sim o director executivo da ADDICT, e o que pretende com esta ideia meia nova e meia velha (inspira-se no share ownership inventado em Inglaterra para facilitar a compra de casa no centro por key workers, de rendimento curto, como enfermeiros, polícias ou bombeiros) é ajudar a repovoar a Baixa e fazer um caldo de cultura onde floresçam as indústrias criativas.
ADDICT são as iniciais porque responde a Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas, sector que entrou na moda após Cavaco, no discurso do 25 de Abril, ter anunciando que é ele a tabu de salvação a que o Porto se deve agarrar para evitar o naufrágio.
Viciado em criatividade, Michael é um inglês que nasceu e cresceu no Norte de Londres, filhos de um casal oriundo de Barbados (ela enfermeira, ele carteiro) , que se licenciou em Francês e depois de ter começado a trabalhar na City Limits (uma tentativa falhada de fazer concorrência à Time Out), vendendo publicidade e editando a secção de Moda, tirou o MBA em indústrias criativas na London School of Printing.
A maneira curiosa como se estreou no mercado de trabalho, escrevendo sobre moda ao mesmo tempo que procurava parcerias com anunciantes que assegurassem a sustentabilidade da publicação, ensinou-lhe para a vida a pragmática lição de que criar é precioso - mas arranjar dinheiro também.
Surfou em cima da onda das indústrias criativas, onde ganhou fama e notoriedade como Mr. Fix, o tipo que resolve, faz as coisas acontecerem e tem sempre na agenda do telemóvel o contacto certo a fazer para desatar um nó de marinheiro. O que o trouxe para o Porto? Cherchez la femme. Em Londres apaixonou-se pela portuguesa Eva e quando os frutos dessa paixão (Tiago, oito anos, e Matilde, quatro) começaram a crescer mudaram todos para cá.
Michael voltou a apaixonar-se à primeira vista, desta vez pelo país da mulher, mas a isso ajudou muito o facto de ter desembarcado cá nas vésperas do Euro 2004, com uma bandeirinha em cada janela e as ruas cheias de pessoal feliz. “Para uma pessoa do meu milieu, o Porto tem uma qualidade de vida superior à de Londres. A vida é calma, clima óptimo e as pessoas gostam muito de crianças”, explica, enquanto arrisca experimentar uma tibornada de bacalhau no Vinha d’ Alho, que fica na Ribeira, na porta ao lado da sede da ADDICT, com uma esplanada mesmo em cima do Douro.
“Vocês são muito modestos, o que até é bom, mas convém não exagerar. Se o Siza fosse espanhol, eles estavam a espalhar aos quatro ventos que tinham o melhor arquitecto do Mundo. Aqui, ninguém liga muito a isso. Os portugueses são demasiado relaxados para se gabarem. É preciso aumentar o volume” explica num inglês cool.
“Londres, Paris e Nova Iorque, são cidades fáceis de gostar à primeira. O Porto é para um relacionamento mais duradouro. As pessoas também são assim, não dizem que são best friend ao fim dez minutos de conversa. Demora-se mais tempo até conhecer a pessoa certa”, analisa Michael, que mantém o amor pelo país, apesar da paixão por Eva já ter desaparecido (agra está com uma polaca de Lodz). “Em Portugal não é preciso inventar coisas boas para vender. Elas existem mesmo. Há coisas óptimas a acontecerem. O PR tem razão. Porto tem todo o potencial para ser o centro de gravidade do cluster criativo” concluiu.
Jorge Fiel
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Vinhas d’Alho
Rua dos Bacalhoeiros 139-140, Porto
2 Menu executivo
Sopa de legumes
Tibornada de bacalhau
Pudim de manjericão …. 27,00
2 copos Arrojo 04 tinto Douro … 6,50
1 Vitalis 1 lt …2,00
2 cafés … oferta
Total… 35,50
Curiosidades:
Michael trabalhou muitos anos na publicidade. Uma das campanhas que mais o impressionou foi uma acção de marketing de guerrilha, que consistiu em colar o símbolo da Nike em todos os semáforos de Londres
Em Portugal, Michael colaborou com a Experimenta Design e adorou trabalhar com Guta Moura Guedes
Uma das sugestões do inglês é acrescentarmos a gastronomia, o bem estar e o turismo ao conceito tradicional de indústrias criativas que alberga disciplinas tão variadas como moda, publicidade, videojogos, design, media, software, música, antiguidades, etc, etc.
Não é fácil adivinhar qual o futuro das duas garrafas PET, de meio litro cada, que continham a água que acompanhou o nosso almoço de bacalhau à Brás no restaurante em frente à igreja da Cruz Quebrada, que o Luís usa no dia a dia como cantina, pois fica perto da sede da Sociedade Ponto Verde (SPV), onde dirige as 46 pessoas que trabalham na gestão do processo de recolha e reciclagem de 600 milhões de toneladas/ano de embalagens que para o lixo.
Se as duas garrafas de plástico integrarem o contingente das 61 mil toneladas que são anualmente recicladas, podem muito bem ressuscitar como novas garrafas PET (sabe-se lá se até na versão de 1,5 litros, pois as empresas estão a investir fortemente na redução do peso das embalagens, para pouparem dinheiro e o ambiente) ou assumir uma segunda vida sob a forma de fibras de poliester do casaco polar que nos vai aquecer no próximo Inverno.
Economista, com o curso e MBA em Marketing feitos na Católica, Luis Veiga Martins, 44 anos, passou pela Unissys, um banco estrangeiro (que prefere não nomear), Papéis Inapa e Portucel/Soporcel antes de, em Novembro de 2005, aceitar o desafio de atingir, até ao final de 2011, a meta de reciclar 55% do total das embalagens declaradas (1,1 milhões/ano), que Portugal prometeu a Bruxelas cumprir.
“Estamos muito próximo. Já vamos nos 53%”, garante Luís, reconhecendo que antes de aterrar na Ponto Verde era um “separador parcial”, que se limitava a meter os jornais velhos no ecoponto azul e as garrafas no amarelo. Comprou então um ecoponto doméstico e passou a ser um “separador total”, que confessa ter ficado com a rapidez com que enche o contentor amarelo – para onde vão os pacotes de leite e sumos, as embalagens de iogurtes, caricas, latas de conserva, sacos de plástico e aerossóis, entre outras coisas.
A nossa consciência recicladora não pára de aumentar. Entre 2007 e 2009, a percentagem de portugueses separadores totais quase triplicou, subindo de 12 para 34%, de acordo com um inquérito promovido pela SPV, que não se limita a fazer fé no que as pessoas dizem – também vai lá a casa inspeccionar o caixote do lixo, para ver se há alguma embalagem perdia no meio do lixo indiferenciado.
“Há 30 mil ecopontos espalhados pelo país – o dobro dos multibanco”, informa o director geral da SPV, para ajudar a explicar como é simples tornar-se separador total, e chamando a atenção para à elevação da nossa consciência recicladora não ser estranho o lóbi das crianças, “que além de serem as recicladoras do amanhã são já hoje a disciplinadoras dos pais”.
Nós, portugueses, produzimos cinco milhões de toneladas de lixo/ano (cerca de 500 kg por pessoa) das quais 1,5 milhões são embalagens que estão no centro da preocupação de Luís.
Criada em 1996, a SPV gere todo o processo que vai desde o momento em que deitamos ao lixo uma lata de conserva até ela ser reciclada em matéria prima para um bicicleta ou um pára choques.
Com um orçamento anual de 80 milhões de euros, financiado pelas empresas em proporção do peso total das embalagens que vendem (o que faz das duas cervejeiras as maiores contribuintes), a Ponto Verde paga ao 29 sistemas inter-municipais que fazem a recolha selectiva do lixo em mais de 99% de todo o território nacional.
Depois, trata de colocar no mercado o lixo separado, como matéria prima secundária, sujeitando-se aos caprichos da lei da oferta e da procura. Em Outubro de 2008, no espaço de 15 dais, a cotação da tonelada de papel para reciclar despenhou-se de 70 para seis euros. E há casos em que tem de pagar para lhe ficarem com o lixo, como quando se trata das embalagens de cartão para alimentos líquidos (vulgarmente designadas Tetra Pak) – a SPV paga em média 40 euros pró toneladas para se livrar delas.
Na praia dos Pescadores, em Cascais, os bancos, passadiços e suportes de chapéus de sol parecem de madeira, mas são efectivamente são feitos de plástico, fabricado a partir de lixo, como sacos de batata frita que a SPV paga 150 a toneladas para o fabricante ficar com eles.
Jorge Fiel
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O Caçador
Rua Bento Jesus Caraça 6, Cruz Quebrada
Pão … 0,80
Queijo … 6,00
Azeitonas … 0,60
Salada de polvo … 5,00
2 águas 0,5 l … 2,00
Bacalhau à Brás ... 20,00
Melão … 3,00
2 cafés … 1,40
Total… 38,80
A cara dela, com o cabelo curto e a determinação a transbordar dos olhos azuis, andou aí pelas ruas, reproduzida nos enormes outdoors da campanha de promoção de Portugal como West Coast da Europa. Quando se tratou de mostrar os melhores de entre nós, os escolhidos foram Mourinho, Joana Vasconcelos, Cristiano Ronaldo, Mariza e Carmo Fonseca, investigadora de Medicina Molecular, que, no meio século de vida que leva, já tem na bagagem uma quantidade impressionante de prémios, comendas e outras honrarias. Ela faz parte do clube restrito dos melhores dos melhores.
“Tenho um gravíssimo problema de tempo”, confessa esta mulher que acumula os prazeres de ser cientista com o de professor (dá aulas de Biologia Molecular aos caloiros de Medicina) e directora executiva do Instituto de Medicina Molecular e do programa Harvard Medical School Portugal. Supervisiona mais de 300 investigadores, que trabalham em projectos tão apaixonantes como a descoberta de um algoritmo que, ao monitorizar a frequência cardíaca do feto, permita identificar o momento em que ele entra em sofrimento e deve ser provocado o nascimento para evitar lesões graves.
Filha de um engenheiro que esteve em grandes obras públicas (ponte sobre o Tejo e a barragem de Cabora Bassa), Carmo nasceu na Beira, Moçambique, mas cresceu em Almada, educada pela mãe, que deixou de ser professora primária para tratar da sua única filha, que em nome da paixão pela Ciência decidiu não ter filhos. “Não sou do tipo doméstico”, diz a cientista que não admite ser perturbada quando está a escrever um paper (como tem o curso de instrutora de obediência canina, o casal de pastores alemães que tem na sua casa em S. Domingos de Rana nunca a incomoda), ou que haja música no ar quando está concentrada nas experiências, em que é viciada.
Apaixonou-se à primeira vista pela descoberta do funcionamento da vida quando, ainda no ciclo, recebeu os primeiros livros de Ciência. A partir do meio do liceu, incapazes de satisfazer a sua inesgotável curiosidade, os professores despachavam-na para a outra margem do Tejo, para buscar as respostas nos livros da biblioteca da Faculdade de Ciências, onde os seus colegas universitários lhe achavam piada e forneciam moscas para ela investigar ao microscópio, tentando arranjar uma explicação para umas terem olhos brancos e outras vermelhos.
Fartou-se dos livros quando deixou de encontrar neles as respostas e foi para o laboratório resolver as questões em aberto. “Um dos males do nosso ensino é privilegiar a reprodução e memorização do conhecimento, em vez de estimula a análise , interpretação e criação de novo conhecimento”, explica Carmo, que estudou Medicina mas nunca exerceu, e escolheu almoçarmos no La Gondola. Como de costume, comeu uma sopa e uma salada (com folhados de queijo de cabra) dispensando o café, pois vai buscar a adrenalina a outros lados.
Carmo tem um físico de atleta que denuncia ter sido remadora de competição no Clube Ferroviário de Portugal (Alcântara), e a prática de canoagem e windsurf. Coxear ligeiramente lembra-lhe a queda grave, em que se partiu toda (sofreu fractura exposta do fémur e foi submetida a diversas operações), quando, com 20 anos, praticava escalada no Farol da Guia. “Eu era fanática por escaladas. O meu maior gozo é superar dificuldades”, explica a cientista, que agora se diverte com o Airsoft, modalidade que consiste em interpretar no terreno situações que podiam ser enredo dos thrillers de Daniel Silva – no último exercício a equipa dela foi bem sucedida na missão, que consistia em tomar um posto inimigo, descobrir o mapa que indicava a localização do prisioneiro, libertá-lo e conduzi-lo são e salvo ao ponto de aterragem do helicóptero que o evacuou.
“O meu objectivo na vida não é fazer muitas coisas mas arranjar boas soluções para os problemas”, sintetiza Carmo, que na sua investigação sobre o genoma humano percebeu o porquê da distrofia muscular que afecta alguns rapazes (e que por isso perdem progressivamente a força muscular e não chegam a atingir a idade adulta) – e esta resposta a vai ser usada para tratar esta doença.
Curiosidades
Na Faculdade de Medicina, alguns professores proibiram-na de os interromper com perguntas, tantas eram as questões que ela levantava. Carmo reconhece que era um bocado chata e não totalmente inocente: “Se eu sentia que um professor não estava muito à vontade numa matéria, não o largava com perguntas”
“Foram os anos de isolamento do país, fruto da política do Orgulhosamente Sós de Salazar, que mataram o nosso desenvolvimento são responsáveis pelo nosso atraso”, garante Carmo, que defende a exportação de estudantes e investigadores para, no estrangeiro, cresceram em contacto com outros modos de pensar e encarar a vida
Não vê muita televisão e não é fã de futebol, mas 3ª feira à noite esteve em frente ao ecrã, com o marido (um engenheiro electrotécnico), ambos a torcerem pelo Inter no jogo da Champions contra o Braça: “Os portugueses deviam seguir o exemplo do Mourinho, que chegou a Inglaterra e afirmou ser especial perante aqueles ingleses snobs e arrogantes que nos tratam por Piggs. That’s it man! Temos de deixar de ser subservientes. Mas depois não se pode falhar na entrega, na prova do I can do it!”.
Jorge Fiel
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La Gondola
Av. Berna, 64, Lisboa
2 sopas família … 6,00
Salada com queijo de cabra … 10,50
Carpaccio … 10,50
4 Águas das Pedras … 6,00
2 ananás natural.. 9,00
1 café…1,50
Total… 43,50
Pouca gente no Oeste saberá que o principal responsável por aeroporto de Lisboa não ir ser construído na Ota é um filho da região. Fernando Santo, 59 anos, nasceu e cresceu em Alcobaça, onde os pais têm pomares, pinhal e vinho. “Limitei-me a explicar de uma forma simples porque é que a Ota era uma má opção”, diz, modesto, o homem cuja intervenção pública forçou José Sócrates (que como é engenheiro técnico não está inscrito na Ordem) a reabrir a discussão sobre a localização do novo aeroporto.
O ex-bastonário da mais populosa das ordens (há 44 mil engenheiros, 36 mil médicos e 30 mil advogados) concede que o dossiê Ota foi a mais vistosa acção dos seus dois mandatos, mas chama a atenção para outra, menos visível, mas que ele considera ainda mais importante. “A nossa influência na produção legislativa cresceu imenso, porque o poder político passou a olhar com outros olhos para os nossos contributos. A Ordem ganhou credibilidade” reivindica este engenheiro civil, que declara: “Não estou alinhado com nenhum partido, penso com a minha cabeça”.
Fernando habituou-se a ser independente logo aos dez anos, quando foi viver para um quarto alugado, em Leiria, onde fez o liceu. “Nunca tive ninguém ao lado que me mandasse estudar. Mas nunca chumbei nem deixei qualquer cadeira para trás. Aprendi a trabalhar com objectivos”, conta, com orgulho.
Acabar o liceu com 14 – de média geral mas também a Física e a Matemática - para entrar no Técnico foi o primeiro objectivo. A agricultura, com despesa certa e receita incerta, nunca o seduziu. Desde miúdo que queria ser engenheiro. O Lego e o Meccano foram decisivos para este fascínio juvenil, confirmado quando os pais lhe deram uma caixa de construções electrónicas da Philips que lhe permitia fazer coisas como um rádio e um piano. Tinha 12 anos e ficou deslumbrado.
Sobreviver aos dois anos preparatórios do Técnico, com aulas das oito às 18, sábados incluídos, foi o objectivo seguinte. É com este saber de experiência feita, que critica Bolonha e a massificação do ensino feita à custa do abaixamento da qualidade.
“As escolas desceram o nível de exigência para terem mais alunos e assim se financiarem. A questão de fundo é que as pessoas se preocupam mais com os títulos académicos do que com o resultado da formação”, acusa o ex-bastonário, que escolheu almoçarmos no restaurante da Ordem, num 6º andar com vistas para o Parque Eduardo VII.
Abriu com uma sopa e seguiu com uma posta de garoupa grelhada (acompanhada por água e um copo de branco) numa refeição frugal sobremesada por fruta laminada. Já depois do café , aceitou, por insistência do presidente da Relação, uma fatia de bolo de chocolate da festa de aniversário de um juíza, comemorada por um grupo que almoça todas as 6ª no restaurante da Ordem dos Engenheiros – onde também almoçou ontem Maria de Belém Roseira, que é casada com um engenheiro.
“A capacidade técnica da engenharia portuguesa é reconhecida em todo o mundo devido ao saber acumulado durante cem anos de ensino exigente – e não por causa dos cursos da treta”, diz, considerando um disparate os 526 cursos de engenharia (entre licenciaturas e mestrados) existentes no nosso país e “andarem para aí a vender que a vida é uma coisa fácil, pelo que os meninos podem passar pela escola como se fosse uma zona de lazer”.
Fernando deixou os quartos alugados quando andava no 4º ano do Técnico e foi trabalhar no IV Plano do Fomento. Em 1976, trocou a alcatifa pela Somapre, que projectava e construía escolas e habitações prefabricadas. Após três anos em regime de profissão liberal, foi para a EPUL (onde voltou agora, como administrador), onde viveu a mais gratificante experiência profissional da sua vida: dirigir a construção de 540 apartamentos na Vila Expo.
“Para um engenheiro, é um enorme prazer ver, em Janeiro de 95, um pântano onde o meu jipe ficou atascado, e três anos depois ver uma cidade no mesmo local. Não havia derrapagem possível. A 22 de Maio de 1998 tinha de estar tudo pronto”, concluiu o ex-bastonário, que vive em Telheiras e se despede com uma mensagem: “No séc. XXI a engenharia é um recurso estratégico nacional”.
Jorge Fiel
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Ordem dos Engenheiros
Av. António Augusto de Aguiar, 3-6º andar, Lisboa
3 copos de branco Quinta do Cardo… 3,90
Águas … 1,30
2 refeições (sopa, garoupa e fruta) … 28,00
2 cafés.. 1,60
Total… 34,80
O que mais o intriga neste momento é a discrepância entre a resposta física do corpo e a percepção de prazer, que se regista em ambos os sexos mas com maior incidência nas mulheres. Dito por outras palavras, é muito frequente que a excitação medida na vagina não esteja em sintonia com a que é subjectivamente sentida. Uma questão que, no caso dos homens, se pode colocar da seguinte maneira: a verdade está na cabeça de cima ou na de baixo?
Pedro Nobre, 39 anos, psicólogo clínico, casado e com duas filhas, de seis e três anos (“Há três mulheres na minha vida”, graceja), sabe do que fala, pois dirige a equipa de cinco investigadores do primeiro laboratório experimental de sexologia em Portugal que, com um subsídio de 160 mil euros da FCT, está a estudar a reacção dos portugueses a estímulos sexuais.
O SexLab, que funciona na Universidade de Aveiro, trabalha com uma amostra de 100 voluntários (metade de cada sexo, com idades compreendidas entre os 18 e 50 anos) que gratuitamente se dispuseram a serem a matéria prima deste estudo.
O trabalho de campo desenrola-se numa sala, em que o/a voluntário/a está sozinho, confortavelmente sentado num sofá, a ver dois pequenos filmes – um porno e outro erótico -, com a duração de três minutos cada um. A privacidade é quase completa. Não há câmaras. O quase tem a ver com o aparelho que permite aos investigadores monitorizar as suas reacções físicas ao que se passa nos filmes.
Antes de iniciarem a sessão, os voluntários despem-se na cintura para baixo. Elas alojam no interior da vagina uma espécie de tampão (fotopletismógrafo) que indica a pulsação e volume sanguíneo na zona genital. Eles colocam no pénis uma espécie de anel (indium gallium gauge), que mede os estados de erecção induzidos pelas cenas dos filmes.
Os resultados preliminares deste estudo do SexLab de Aveiro serão apresentados no 10º Congresso da Federação Europeia de Sexologia, que reúne no Sheraton Porto, de 9 a 13 de Maio (coincide com a visita do papa), que Pedro está a organizar, na qualidade de presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia, que agrupa psiquiatras e psicólogos, mas também sociólogos, antropólogos e juristas.
Filho de um médico e uma farmacêutica, nasceu em Vila Perry, Moçambique, mas veio para Portugal com quatro anos. Cresceu em Lagos, fez o curso em Coimbra (onde integrou a direcção da AAC presidida por Vigário), e teve o primeiro emprego no Alentejo, na Vila Fernando, um estabelecimento correccional de menores, onde ficaram sepultadas algumas das suas convicções “humanistas e de esquerda” - “É utópico pensar que a escola se faz sem hierarquia e disciplina”. Demorou-se lá um ano e três meses, em que todos os dias sonhava com o dia em que se viria embora.
Deu aulas em Vila Real e agora está em Aveiro, mas mora no Porto, onde escolheu almoçar no Shis, o restaurante mais in da cidade. Apesar de ter chegado com mais de 40 minutos de atraso, não vinha stressado (a não ser que houvesse discrepância entre a aparência calma e o estado de espírito) e encomendou uma refeição completa, iniciada com sopa, continuada com robalinho e sobremesada com gelado de baunilha (não havia o de chá verde).
As disfunções sexuais foram o tema das teses de mestrado (curiosamente apresentada no ano em que saiu o Viagra) e doutoramento deste psicólogo que confessa ser “preciso ter muita abertura de espírito e estômago para ser terapeuta sexual”.
“O problema mais comum no homem é a ejaculação prematura”, afirma, acrescentando que, no entanto, 70% dos homens que procuram ajuda é por causa da disfunção eréctil, o que é explicado pelo facto de ainda ser dominante o mito do macho latino, “que atribuiu um papel central ao pénis e à penetração, bem como estar sempre pronto com uma erecção”,
”Está ainda muito enraizada a crença de que não ter erecção é catastrófico e significa ser menos homem. O que não é verdade. Pode ter-se prazer sem erecção”, conclui Pedro, citando o caso dos homens que continuam a ter sensações de prazer sexual apesar de não terem erecções devido a lesão vertebrais derivadas de acidentes de viação.
Jorge Fiel
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Shis
Praia do Ourigo, Foz do Douro, Porto
Couvert … 5,00
Sopa do dia … 2,50
Sushi Shis style … 15,00
Robalinho com algas wakame e ovas massago … 12,00
Água Vitalis 0,5 litro … 1,50
Água Castelo 0,20 l ... 1,20
Kopke Branco 0,74 l … 13,00
Gelado de baunilha … 3,00
2 cafés … 3,00
Total… 56,20
Beatriz, economista, 44 anos, e Manuel, jurista, 46 anos, são donos de um segredo valiosíssimo. Sabem como fazer felizes três mil colaboradores que apesar de não terem ordenado fixo estão tão satisfeitos que, com as suas respostas a inquéritos confidenciais, ajudaram a Re/Max a ser eleita como a melhor empresa para trabalhar em Portugal, interrompendo o longo reinado da Microsoft, que apaparica os empregados um enorme rol de regalias grátis, como fruta, iogurtes, massagens, serviço de concierge, ginásio, etc.
Beatriz e Manuel são um casal. Começaram a namorar em Saragoça, a terra natal dela, onde ele (natural de Badajoz), estudava porque o pai, bancário, aí tinha sido colocado pelo BBVA. Olhando para eles universitários, vê-se logo que são ambos da mesma madeira. Nas férias grandes, ela trabalhava no El Corte Ingles (“começou a vender cuecas de homem”, brinca Manel), onde se revelou um vendedora de primeira água e ganhava dinheiro para o resto do ano. Ele, desdobrava-se em ganchos diversos, desde fazer as férias de porteiros, até ser ajudante de armazém, passando pela recolha de lixo.
“Decidimos começar a vida com ordenados melhores”, diz Beatriz, explicando por que é que ambos fizeram o MBA antes de se mudarem para Madrid e atacarem o mercado de trabalho. Beatriz fez pontaria a L’Oreal, onde começou como gestora de tintas para o cabelo. A auto-confiança dela era tal que declarou-se disposta a trabalhar seis meses sem receber salário - não foi preciso (entrou a ganhar meio milhão de pesetas/ano). Manuel (que começara em Saragoça a ganhar 65 mil pesetas/mês para contar alfaces e outros perecíveis em armazéns da Eroski) foi trabalhar para o imobiliário dos supermercados Dia.
Estavam apenas na casa de partida, pois queriam experimentar viver no estrangeiro e ter o seu próprio negócio. Foi em Portugal que concretizaram os dois sonhos. “Vim para Lisboa pela primeira vez em 1987, na minha viagem de finalista. Lembro-me de ter passado por Cascais e pensado que não me importaria mesmo nada de viver aqui”, conta Beatriz, que agora mora com Manuel e os filhos (Marta, 14 anos, Patrícia, 12, e Manel, três) numa casa na Quinta da Marinha.
De entrada, picamos uns pimentos de Padron (nenhum deles especialmente picante), antes de Beatriz se decidir pela dourada, acompanhada por água. Manuel acompanhou o bacalhau com uma caña e encomendou uns deliciosos pastéis crocantes para a sobremesa. O almoço foi na Quinta da Beloura, onde está o quartel general da Re/Max que comanda o exército de três mil vendedores satisfeitos da vida, aquartelados em 220 agências, que o ano passado fizeram 26 mil transacções (das quais dez mil arrendamentos).
Foram os supermercados Dia que puseram Lisboa na rota do casal. Em 93 disse que sim quando o desafiaram a tripular a expansão da cadeia em Portugal. Cinco anos, depois abalançaram-se a investir num parque de campismo, em Alcochete, com 800 camas, para turistas que vinham ver a Expo 98. Como a coisa correu bem, puseram o nariz no ar para farejar oportunidades de negócio. Manuel gostou tanto da filosofia de repartição de comissões da Re/Max que quatro dias bastaram para meter a cave. Dois dias na convenção, em Toledo, da filial espanhola, decidiram-no a voar até Denver, onde comprou o direito a desenvolver em Portugal a rede Re/Max, em regime de franchise.
Com excepção de 2008 (onde as vendas caíram 7%) têm sido dez anos venturosa, com facturação sempre a subir na casa dos dois dígitos, curiosamente ajudados pela crise no imobiliário. “Como é mais difícil vender uma casa, as pessoas recorrem aos profissionais”, explica Manuel. As vendas directas ainda valem cerca de metade do mercado.
Beatriz resume na palavra “motivação” a explicação para a felicidade dos três mil vendedores sem salário fixo. Mas o dinheiro que levam para casa ao fim do mês também dá uma ajuda. Em 2009, a média do rendimento anual dos mediadores Re/Max rondou os 22 mil euros, mas o melhor vendedor ganhou 400 mil euros, e há cerca de duas dezenas que acumularam comissões superiores a 100 mil euros.
Jorge Fiel
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q.b. Restaurante
Quinta da Beloura, Sintra
Couvert … 3,75
1 litro água … 2,00
Pimentos padron … 7,50
Lombo de Dourada com legumes e batatinhas salteadas … 14,00
2 Bacalhau lascado com migas de broa à ribatejana … 32,00
2 imperiais … 6,00
2 pasteis q.b. … 11,00
3 cafés … 4,50
Total… 78,75
A fabulosa Vista de Lisboa antes do terramoto de 1755 recebe os visitantes na sede do BES por causa de Clara, que intermediou o negócio da venda ao banco deste quadro (de autor desconhecido, provavelmente Canaletto), por 2,75 milhões de euros, a mais cara obra de arte transaccionada no nosso país. E na compra do Tiepolo pelo Museu Nacional de Arte Antiga, por 1,5 milhões de euros, voltamos a encontrar as impressões digitais da proprietária da Leiria e Nascimento, a mais antiga leiloeira do país.
“Estamos sempre o lado de quem vende”, afirma Clara, lembrando que, no ano anterior ao do leilão do Tiepolo, o Governo tinha desperdiçado a oportunidade de adquirir por 600 mil euros esta obra de finais do século XVIII. “As peças vão à praça por um preço entre 30% a 50% abaixo do seu valor de mercado. O leilão é que tem de subir”, explica a leiloeira, que escolheu almoçarmos no Possolo, a tasca que ela usa no dia a dia como cantina porque tem sempre peixe e está perto da leiloeira, que fica ao lado do Hospital Militar. Como só havia uma posta de cherne, acordamos em partilhá-la - e em dividir também uma posta de salmão.
Filha de um joalheiro, Clara Ferreira Marques cursou Arquitectura de Interiores na Fundação Ricardo Espírito Santo e tem dedicado a vida ao negócio de arte, com excepção de um breve parêntesis (77/78) em que foi jornalista de política no Dia, dirigido por José Mensurado. Especializada em porcelana chinesa e Companhia das Índias, abriu uma loja de antiguidades em Lisboa, em frente à igreja de Santa Isabel, e iniciou por sua conta e risco uma carreira de corretora internacional de arte.
Passou a pente fino as comunidades portuguesas na América do Sul, propondo-lhes vender os objectos de arte que tinham levado na bagagem quando atravessaram Atlântico após o 25 de Abril. Ela sabia exactamente qual o mercado certo para colocar cada peça, se um particular em Lisboa, um leilão da Sothebys, em Londres, ou da Christie no Mónaco. “Cheguei a ir a três países no mesmo dia”, diz Clara, cuja vida levou uma volta quando, em 1986, soube que o Banco de Portugal queria leiloar o espólio de Miguel Quina.
Resolveu candidatar-se, mas para isso precisava de ter uma casa leiloeira. O Tio 29 (o petit nom do arqº Pimenta da Gama) sugeriu-lhe que comprasse a Leiria e Nascimento (LN), uma leiloeira que estava desactivada e tinha sido fundada, em 1882, por um mulher (Guilhermina Leiria), com o nome de Bazar Católico, e que face ao desinteresse do filho pelo negócio (ele só queria saber do violino) se viria a associar a João Filipe Nascimento, um bancário gerente da Casa Totta. Clara não olhou para trás, tratou de reunir os dez mil contos necessários para comprar a LN leiloeira e com uma proposta imbatível ganhou o direito a organizar o leilão Quina.
“Foi uma loucura completa. Um sucesso tal que ficou conhecido como o leilão do século. Vendi todas as peças, incluindo a segunda locomotiva que entrou em Portugal, que o comprador não levantou e ainda está na Quinta da Fonte Santa, em Odivelas, que era do Quina e onde fiz o leilão”, conta Clara, que aguentou estoicamente as tentativas de boicote da Câmara comunista de Loures, que achava que a colecção não podia ser vendida, porque era do povo, e a quinta devia ser transformada em museu de acesso livre.
Está convencida que o pior da crise já passou. “Em 2008, senti que atravessávamos um período complicado. As pessoas precisavam de dinheiro, mas achavam que nesse momento iriam vender mal e temiam que, como as peças são conhecidas, toda a gente ficasse a saber que estavam a desfazer-se de património”, diz Clara, que aposta na especialização e novos negócios.
Inovou ao fazer leilões de uma garrafeira particular, de instrumentos musicais (citado na CNN por ter um catálogo em braille) e de swatchs (o de um filme de Almodovar atingiu 1 100 euros). E tem em cima da mesa projectos de leilões tão variados como fosforeiras de prata, imobiliário de luxo ou carros antigos. “Basta haver uma boa colecção para vender e mercado. O negócio é um jogo”, concluiu Clara.
Jorge Fiel
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O Possolo
Rua do Possolo 59, Lisboa
Queijo e presunto … 6,00
Tinto da casa … 8,00
Cherne … 7,50
Salmão … 7,50
2 cafés.. 1,20
Total… 30,20
O telefone tocou ao 30º dia. “Fala da Editorial Caminho”, anunciou Zeferino Coelho. “Já lemos o vosso livro”, acrescentou num tom pausado, prolongando um suspense de concurso televisivo que estava a deixar Ana Maria, então com 36 anos, numa pilha de nervos: “Vamos publicá-lo”, concluiu o editor. “Ia-me dando um chilique”, confessa a escritora.
Em rigor, esta história, que já leva vários finais felizes, começou em 1976, quando Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada foram colegas de estágio na escola Fernando Pessoa. Deram-se logo bem. As outras professoras fotocopiavam, para dar aos alunos, os textos que elas escreviam. E como tinham filhos da mesma idade, até aproveitavam as idas às vacinas para preparem trabalhos para as aulas.
Os elogios aos textos eram tantos que elas aventuraram-se a escrever um livro. Em Janeiro de 82 sentam-se as duas num canto de uma mesa quadrada. Isabel à esquerda de Ana Maria, a dona da casa que escreve à mão as frases que fluem da conversa, em sessões com a duração máxima de quatro horas. “Sempre fui eu a escrever porque tenho uma caligrafia mais bonita, gosto de desenhar as letras, e assim facilitava o trabalho à dactilógrafa – que agora se chama processadora de texto”, explica.
Em Abril, escreveram a palavra Fim em Uma Aventura na Cidade . Mas a peregrinação pelas editoras não correu bem. “Paciência, não conseguimos. Deixamos isto para os nossos filhos” resignou-se Ana Maria, desanimada com as três negas recebidas. Por ela desistiam. Mas a Isabel insistiu e ela cedeu. E tentar uma quarta e última editora.
“Sem grande crença lá fui à Caminho. O Zeferino recebeu-me com uma enorme frieza. Disse que dentro de um mês dava uma resposta. Um mês!?! Para que é que ele precisava de um mês para saber se publicava ou não um livro de 100 páginas que se lê numa hora e meia?”, conta Ana Maria, que logo baixou as expectativas de Isabel: “Não tenhas grande esperança. O tipo é um chato!”.
“As editoras que nos recusaram não perceberam que estávamos a abrir uma nova porta, pois não havia cá nada no género”, analisa Ana Maria que nos contou esta e outras histórias à mesa da Mexicana, numa refeição testemunhada pelo belíssimo painel de azulejos Sol Mexicano de Querubim Lapa.
Sem olhar para a lista, encomendou a omeleta de cogumelos com arroz e Cola Zero, que come sempre nesta confeitaria, de que é freguesa desde miúda, porque cresceu ali ao lado na Alameda, onde moravam o pai médico, a mãe (fluente em seis línguas, além de arranhar o russo) e os quatro irmãos, um dos quais é Tó Zé Martinho, o primeiro destinatário das histórias que ela começou a inventar aos nove anos, a primeira das quais misteriosamente intitulada As Cabeças de Papel.
Não estava nos seus melhores dias porque tinha o 9º andar, na avenida dos Estados Unidos, onde vive com Zeferino Coelho (o seu segundo marido, outro desfecho feliz desta história) todo alagado, por causa de uma ruptura na conduta no 10º, mas não se cansou de contar histórias saborosas da sua vida, que podia ter levado outro rumo, se em vez de dar ouvidos aos que a convenceram a ir para Filosofia, porque o curso do ISPA não estava oficializado, tivesse teimado no seu gosto pela Psicologia.
Acabou por dar aulas de Português e História, durante 39 anos, o primeiro dos quais em 1969, em Lourenço Marques, para onde o primeiro marido fora mobilizado pelo Exército. “Nasci com a verdade ao pé da boca”, declara a escritora, que recebe 25 cêntimos por cada livro vendidos da colecção Uma Aventura (“os impostos levam metade”, lamenta) , de que vai ser agora o 52º episódio, passado no Pulo do Lobo, recanto do Alentejo profundo que ninguém conhecia antes de Cavaco o celebrizar.
A redacção da última aventura foi antecipada (costumava ser escrita de Setembro a Dezembro) por causa da previsível ida de Isabel para o Governo. “Agora como ela está mais ocupada, estou a fazer sozinha a revisão do volume sobre o século XIX da colecção de História de Portugal”. E em Abril, vai ser lançado um novo livro das duas, sobre o 5 de Outubro e a 1ª República. Apesar de Isabel ter ido para ministra, a dupla continua a bombar.
Jorge Fiel
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Mexicana
Avenida Guerra Junqueiro, 30, Lisboa
2 omeletes de cogumelos … 13,00
2 Coke … 3,70
2 cafés … 1,90
Total… 18,60
O único autor português que conseguiu ter um livro na lista dos mais vendidos do New York Times ganhou o hábito de escrever os seus best sellers com os polegares no teclado de um Nokia E 70, durante os longos passeios que dá pelo Parque da Cidade do Porto e pelas marginais fluvial e marítima de Gaia.
“Escrevo em qualquer lado. Preciso de andar para pensar. Não consigo estar muito tempo parado em casa sentado à frente do computador”, conta Luis Miguel Rocha, 34 anos, o autor de “The Last Pope”, thriller sobre o curto pontificado e a misteriosa morte do papa João Paulo I, que vendeu meio milhão de exemplares.
Luis cresceu em Viana do Castelo onde teve o seu primeiro emprego como recepcionista de um hotel, que acabou no dia em que o patrão foi mal educado com ele. “Não levo desaforos para casa”, explica a propósito de lhe ter respondido à letra.
Despediu-se e foi para o Porto, onde se instalou no apartamento na zona do Hospital de S. João onde ainda vive, apesar de ter acabado se assinar em Nova Iorque um contrato milionário com a Putnam, para a entrega de três livros novos thrillers religiosos, à razão de um por ano.
Monárquico, portista e vagamente católico (“Não compro o produto que eles vendem. A religião não me diz nada, mas às vez dou por mim a usar o nós quando falo dos católicos”, precisa), começou por ganhar a vida como cameraman da produtora que filmava as missas para a TVI, antes da primeira incursão no mundo da escrita, redigindo guiões e fazendo traduções.
Sempre teve uma queda para as letras. “Sabia que as minhas palavras tinham efeito”, confessa Luís, que por brincadeira, costuma dizer que escreve bem demais (“Não sei escrever mal”). “Não sou eu que mando nas personagens, são elas que mandam em mim”, garante, acrescentando interrompeu, durante uma semana, a escrita do seu segundo “best seller” (“The Holy Bullet”, que em Julho vai ser editado em paperback nos EUA e em Inglaterra) por ter ficado chocado com a morte de uma das suas personagens favoritas.
Luís escolheu almoçarmos no café da livraria Almedina do Arrábida Shopping, que. além de uma esplanada com uma vista soberba do Porto. tem 20 salas de cinema que ele frequenta regularmente. Acompanhou a refeição com água, porque quer perder peso e retomar a forma da fotografia da contra capa da edição hardcover de “The Holly Bullet”, tirada num estúdio em Nova Iorque, numa sessão que durou quatro horas e meia.
O momento de viragem deu-se quando um seu conhecido, que refere como “a fonte”, lhe deu acesso a material (incluindo uma cópia dos diários do papa) que acusava a loja maçónica P2 de ter responsabilidade no assassinato de João Paulo I, que planeava substituir membros da Cúria Romana envolvidos em lavagem de dinheiro.
Tinha 29 anos, quando, em Abril de 2005 contratou uma agente catalã, que com base nas primeiras 30 páginas do livro, vendeu na feira de Frankfurt os direitos de publicação para Espanha e Itália. A partir daí foi sempre subir e “The Last Pope” (onde a irmã Lúcia adverte João Paulo I que o terceiro segredo de Fátima é que ele vai ser assassinado) está editado em mais de 70 países – e em quase todos eles vendeu mais do que em Portugal, facto que ele aceita com um encolher de ombros.
“Um dia estava a tomar café na Piazza Navona com uma jornalista da Rádio Vaticano quando um alto dignatário da igreja apareceu e sentou-se na nossa mesa. Quando lhe perguntei o que diziam sobre “The Last Pope” ele respondeu: “É um livro que toda a gente lê, mas ninguém lê. A ordem é silêncio total porque tudo quanto escreveste nele é verdade”.
Luís tem duas jornalistas italianas a fazerem pesquisa para ele. Obrigou-se a ser muito rigoroso, pois os leitores americanos de thrillers verificam os factos, se possível até mesmo no local. Todos os padres, bispos e cardeais que aparecem nos livros existem na realidade.
No 4º livro desta saga (o 3ª é lançado a 5 de Agosto nos EUA), que ele começa a escrever para a semana, o enredo baseia-se no facto, que ele garante estar comprovado por ADN, de uma dos grandes papas do século XX ter tido uma filha.
Jorge Fiel
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Cafetaria Almedina
Arrábida Shopping, Vila Nova de Gaia
2 Creme de legumes
2 Polvo assados
1 Água
1 Sumo de abacaxi
2 Cafés
Total … 12,00