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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

BCP precisa mais do CR7 do que o Real

Tenho a mania de ler os jornais duas vezes. A primeira é logo no dia. Dou-lhes uma rápida vista de olhos, em papel ou no online, para me manter a par das coisas banais, como as proezas do novo guarda redes do Benfica ou a nova descida do rating que a Moody’s atribui a Portugal. Depois guardo-os num monte até ao fim de semana, altura em que lhes dedico uma leitura mais cuidada, antes de os enfiar pela boca dentro do contentor azul.

Estou muito satisfeito com este método, que recomendo a todos os que, como eu, usam os jornais como matéria prima no seu trabalho, pois a passagem do tempo ajuda a calibrar as notícias. Um dossier de várias páginas sobre o braço de ferro entre a Telefónica e Sócrates perde rapidamente o prazo de validade, enquanto que uma pequena notícia sobre o misterioso  desaparecimento de casa dos seus pais, em Valbom, do presidente da Comissão Política da Juventude Popular de Gondomar, ganha outra importância quando cinco dias depois ele é encontrado a vaguear num praia em Aveiro e declara que fugiu porque tinha vergonha de estar desempregado.

Às vezes temos de esperar, pois ninguém consegue resolver um puzzle quando metade das peças ainda estão na caixa. E a leitura em bloco dos jornais de uma semana ajuda à resolução dos puzzles complicados que este mundo extravagante vai pondo à nossa frente -  e a perceber que o acontece primeiro não é necessariamente o princípio.

Vejamos o caso do filho do Ronaldo. Quando soube que os direitos exclusivos da criança lhe custaram 12 milhões de euros, logo me precipitei pensando que tinha sido muito caro, apesar de apresentar boas estatísticas: com 4,3 kg e 53 cm promete ser um rapagão. Eu tenho três filhos, com idades diversas, que de acordo com os cálculos feitos de uma consultora espanhola, me deverão custar uns 300 mil euros, ao longo de toda a vida. Muito mais em conta que o mini-Ronaldo. 

Reforcei a minha convicção de que o CR7 tinha feito um péssimo negócio quando li declarações da avó a garantir que o bebé é parecido com ela. Mas não foram precisos dez minutos para mudar radicalmente de opinião, quando um jornal mais recente informava que o leilão da venda da primeira foto do Ronaldo Jr vai muito provavelmente ultrapassar os 14 milhões de euros pagos pelo exclusivo fotográfico dos gémeos de Angelina Jolie e Brad Pitt. Dois milhões de euros de mais valias em menos de um mês! O Ronaldo é um génio financeiro. Atendendo ao que jogou na África do Sul, o que ele tem a fazer é pendurar as botas e dedicar-se à banca. O BCP precisa mais dele do que o Real Madrid.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Vítor Constâncio está fora de jogo

É muito difícil ser árbitro. Sábado, no Dragão, Paulo Baptista errou ao validar o primeiro golo do Porto no jogo contra o Leiria, já que a bola chutada por Bosingwa  foi desviada pelo corpo de Farias, que estava em fora de jogo.

À vista desarmada, no campo e na televisão, o desvio foi imperceptível. Apenas foi detectado depois, por uma repetição televisiva do lance obtida a partir de um ângulo muito diferente do olhar do árbitro e da esmagadora maiorias dos espectadores.

A revista Science et Vie dedicou um interessante  artigo científico à extrema dificuldade de avaliação das situações de fora de jogo , concluindo que a velocidade da jogada, as limitadas capacidades do olho humano  e sua posição no terreno impedem muitas vezes o juíz de linha de tomar  a decisão acertada.

È muito difícil o trabalho de os árbitros que têm a tarefa de supervisionar 22 homens manhosos, que passam hora e meia a correr espalhados por um hectare,  e de se certificarem que as regras do jogo são cumpridas.

A diculdade é acrescida por as suas decisões do árbitro serem tomadas na hora, em fracções de segundo, e sofrerem a concorrência desleal das imagens colhidas por mais de uma dezena de câmaras de televisão e que são repetidas vezes sem conta ao longo do resto da semana.

Há árbitros honestos e outros que nem tanto. Há árbitros competentes e outros que nem por isso.  As competências e honestidade dos árbitros estão sob permanente escrutínio. Os menos capazes ou corruptos são despromovidos ou irradiados. Os melhores são chamados para apitar jogos e competições internacionais.

Vitor Constâncio também é um árbitro. Um árbitro muito bem pago, pois ganha cinco vezes mais que o responsável pela Reserva Federal norte-americana. E um árbitro que não se pode queixar da falta de gente que o ajude, pois o Banco de Portugal emprega 1700 pessoas que custam 160 milhões de euros/ ano e levam vida santa  já que é regra de ouro lá na casa que às 18h00 horas as portas têm de estar fechadas e as luzes apagadas.

O Governador do Banco de Portugal é  bem pago e muito auxiliado mas é um árbitro muito fraquinho que não dá conta das patifarias praticadas debaixo do nariz dele pelos jogadores que era suposto supervisionar.

Esteve distraido, a dormir na forma ou a olhar para o outro lado que não o BCP, nos lamentáveis episódios das 17 off shores anónimas, das 20 off shores dos accionistas, dos empréstimos mais que duvidosoa a familiares e accionistas.

As seis horas de audição parlamentar não chegaram para  nos convencer que ele não sabia das irregularidades. E é claro e cristalino que as trapalhadas que atiraram o BCP para o tapete são o resultado de falhas da supervisão do Banco de Portugal.  

Não estou a dizer que Constâncio seja desonesto e tenha feito vista grossa por mal. Mas é, no míinimo, condescendente, na opinião avalizada do seu ex-colega Ulrich. Provou que não serve para o cargo. Não sei porque teima em manter-se quando toda a gente já reparou que está completamente fora de jogo.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi hoje publicada no diário económico Oje (www.oje.pt)

 

O BCP e a parábola da sanita entupida

Vivi em Lisboa no ano quente de 1975, sob o pretexto de estudar Psicologia no ISPA, que ficava na rua da Emenda, paredes meias com a sede do PS.

 

Dormia na Flamenga (Santo António dos Cavaleiros) num T1 alugado, em que a renda mensal de 2100 escudos era dividida pelos três residentes – eu e os meus camaradas Francisco Sardo e Francisco Vasconcelos, que tratávamos por Toupeira em virtude de usar óculos com lentes ainda mais grossas que os fundos das garrafas.

 

O apartamento era acanhado. Como tinha sido ele a alugar a casa, o Toupeira atribui a si próprio o quarto. Eu instalei-me na sala, com um colchão e uma estante de tijolos. O Sardo, que à época cumpria o serviço militar na EPAM, ficou com o hall de entrada.

 

Como os três andávamos muito entretidos a fazer a revolução na rua, é natural que negligenciássemos a manutenção da casa.

 

A lâmpada da entrada – o aposento do Sardo – fundiu sem que ninguém (nem ele próprio) se tenha dado ao trabalho de a substituir, apesar dessa infeliz ocorrência nos obrigar a usar uma lanterna ou fósforos sempre que entravamos em casa, para evitar tropeçar numa fotocopiadora de proporções bíblicas, «expropriada» no assalto à sede do CDS no Largo do Caldas que se seguiu ao 11 de Março, que nunca mais na sua vida cumpriu a sua função de duplicar documentos.

 

Mais tarde, e penso que em simultâneo, a casa de banho ficou severamente incapacitada: a lâmpada fundiu e a sanita entupiu.

 

Como é óbvio, nenhum de nós tinha agenda ou disponibilidade de espírito para sequer comprar uma lâmpada. A urgente e nobre tarefa de construirmos um Mundo melhor absorvia-nos de tal maneira que seria absurdo pensar que disporíamos de tempo para contratar um canalizador que desentupisse a sanita.

 

Prudentemente, abstive-me de usar a sanita e passei a satisfazer fora de casa as minhas necessidades fisiológicas de carácter líquido e sólido. Atitude que, estou convencido, também foi adoptada pelos meus colegas de apartamento.

 

A catástrofe deu-se um par de meses depois. Apesar de todos os três sermos ateus encartados, alguém (cuja identidade desconheço) acreditou, que por algum estranho e suave milagre, a sanita se tivesse desentupido pelos seus próprios meios - e cometeu o terrível erro de puxar pelo autoclismo. Não é preciso ter os dotes da Maya para adivinhar o que aconteceu.

 

O transbordo do esgoto foi a gota de água que fez transbordar o copo da minha paciência. Fiz as malas, abandonei o curso de Psicologia e regressei ao Porto.

 

Vem a recordação deste triste episódio, a propósito de um outro, ainda mais mal cheiroso: o do BCP.

 

Tenho muita pena que o Governo, preocupado com o entupimento do maior banco privado português, se tenha precipitado e cedido à tentação fácil de puxar logo pelo autoclismo, ao optar pela solução Santos Ferreira/Vara.

 

Teria sido muito mais assisado e prudente aconselhar os accionistas a arranjarem um canalizador bom e profissional (como por exemplo o Cadilhe) para desentupir primeiro a sanita.

 

Jorge Fiel

 

(www.lavandaria.blogs.sapo.pt)

 

Esta crónica foi hoje publicada no diário económico Oje (www.oje.pt)

 

A verdade leninista do Jardim Gonçalves fundador do BCP

 

O jovem Jorge Jardim Gonçalves quando estudava para ser engenheiro. Foi sempre um menino bem comportado, católico de modos suaves e delicados, que acompanhava as meninas a casa e não era dado a namoricos

 

Lenine ensinou-nos que uma mentira se dita insistentemente acaba por passar por verdade.

 

É precisamente isso que está a acontecer com a biografia de Jorge Jardim Gonçalves que, durante a interminável novela ainda em cartaz, foi sempre apelidado de «fundador do BCP» por jornalistas ignorantes e ansiosos por encontrarem sinónimos que lhes poupem repetições excessivas do nome do engenheiro.

 

(ora aí está um sinónimo rigoroso, pois o futuro ex-presidente do Conselho Geral e de Supervisão do BCP licenciou-se em 1958 em Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, e é frequentemente referido como «o engenheiro» nas conversas entre os quadros do banco)

 

Manda a verdade (não a leninista…) que se diga que Jorge Manuel Jardim Gonçalves não só não é «o fundador do BCP» como ainda por cima resistiu e colocou sérias exigências para aderir ao projecto que despontou na fervilhante cabeça de Américo Amorim e só se tornou uma realidade devido à indómita força de vontade deste empresário.

 

O BCP foi fundado no Verão de 1984 numa reunião de empresários na casa de apoio à piscina da vivenda da Granja (arredores do Porto) de Américo Amorim.

 

Amorim, que frequentara as reuniões promovidas por Artur Santos Silva que dariam origem ao BPI, zangou-se com este banqueiro e decidiu ele próprio fundar um banco comercial privado, inicialmente baptizado Banco Comercial Portuense ‑ a sigla BCP manteve-se, mas o qualificativo geográfico foi alargado com a substituição de Portuense por Português.

 

Jardim Gonçalves nem sequer foi a primeira escolha do grupo fundador liderado por Américo Amorim. Fernandes Tato, à época no Banco Borges & Irmão, foi o primeiro convidado mas declinou, por ter medo de embarcar na aventura.

 

Amorim e Jardim (à época presidente do BPA) não se conheciam. O primeiro encontro foi à mesa do grill do Altis.

 

O empresário não ficou com uma grande impressão deste seu primeiro encontro com o banqueiro, que se revelou ultra-cauteloso e praticamente se limitou a escutar razões e argumentos.

 

Jardim pediu tempo para pensar. Pensou e repensou. Após um mês de reflexão aceitou, mas só depois de Amorim lhe ter apresentado uma garantia bancária de 80 mil contos (ver para crer como S. Tomé).

 

Jorge Fiel

 

 

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