O irmão mais velho foi futebolista profissional no Boavista. O mais novo distinguiu-se como internacional de voleibol pelo Leixões. Lá em casa alguém tinha de estudar a sério. Depois de ter falhado por três décimas a entrada em Arquitectura, Tozé arrastou-se sete anos pelo curso de Engenharia Civil, enquanto cá fora reunia os conhecimentos, experiência e competência que fariam dele um pioneiro da indústria de videojogos em Portugal
Como o filho do meio
rompeu o cerco paterno
Nome: António Gonçalves
Idade: 41 anos
O que faz: Director geral da Seed Studios
Formação: Frequentou Engenharia Civil (FEUP) e fez o curso de Design Assistido por Computador na ESAD (Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos), para além de uma data de cursos profissionais de fotografia, realização cinematográfica, representação e interpretação teatral, etc
Família: Casado, tem um filho de cinco anos, o Manuel Maria, que tem um PS3 adora videojogos
Casa: Andar recuado no Paço da Boa Nova, em Leça da Palmeira (Matosinhos)
Carro: BMW 320 D, com cinco anos
Telemóvel: Blackberry (“para usar mesmo como telefone”) e IPhone
Portátil: Asus ( mas vai mudar para Mac)
Hóbis: Adora videojogos, mas esclarece que quando está a divertir-se com o War Craft (o seu jogo preferido), na PS3, também está a trabalhar. Duas vezes por semana (domingos e às terças), joga futebol de sete com os amigos. Gosta muito de cinema, que consome maioritariamente em casa
Redes Sociais: “O Facebook é fantástico mas tenho pouco tempo para lá estar”
Férias: Como não gosta do Algarve na época alta (“é muita confusão”), faz lá praia em Junho, o que este ano até dá jeito porque tem já encomendado um irmão para o Manuel Maria, que deve vir ao mundo em Agosto. O ano passado estiveram 15 dias na praia de S. Rafael, junto a Albufeira. Em Agosto gostam de viajar para destinos diferentes, como Açores, Tailândia ou Madeira. Tem prometida à mulher uma viagem a Nova Iorque – “Talvez para o ano!”
Regra de ouro: “O que mais valorizo é o carácter. A seguir, a humildade, honestidade e ambição – que não deve ser confundida com ganância. Depois, vêm a criatividade e capacidade de trabalho”
Se não fosse o filho do meio muito provavelmente não seria agora um dos pioneiros da indústria portuguesa de videojogos, responsável pelo jogo mais caro de sempre jamais produzido no nosso país – o Under Siege, para PS3, cuja produção custou 1,4 milhões de euros e que começou esta semana a ser vendido na loja online da Sony, nos Estados Unidos.
Quis o destino que António (Tozé para os amigos) fosse o filho do meio do casamento entre uma doméstica e um funcionário do porto de Leixões – e que o Jorge, o irmão mais velho, se tornasse profissional de futebol (jogou na I Divisão ao serviço do Boavista) e que Armando, o mais novo, se salientasse no voleibol, onde acumulou internacionalizações.
António ainda alinhou a extremo esquerdo, nos juniores do Leixões, mas teve de arrumar as botas no ano da passagem a sénior. Naquela família alguém haveria de estudar e foi a ele que saiu essa fava.
Foi contrariado que se inscreveu em Engenharia Civil, na FEUP, onde se demorou sete anos sem concluir o curso. “Engenharia não tinha a ver com as minhas capacidades”,explica Tozé, que falhou por três décimas a entrada em Arquitectura, para onde, um ano depois, pediu sem sucesso a transferência – “Havia seis vagas, eu fiquei em sétimo”..
Mas não pensem que mandriava enquanto se arrastava pela rua dos Bragas. Arranjou um part time na Cinerama, uma produtora onde foi homem dos setes instrumentos (assistente de câmara, operador, editor…) e fez o curso de Design Assistido por Computador, na ESAD, enquanto se iniciava nas artes da 3D.
Ainda universitário, fez a sua primeira empresa (Urbimagem, especializada na produção de maquetes em 3 D para gabinetes de arquitectura), onde não aqueceu o lugar devido a divergências com os sócios. Partiu para outra, a Miragem, de Henrique Oliveira (o ex-Táxi agora na HOP), que o contratou como responsável pela 3D da série Major Alvega.
Em Outubro 1997, mal acabaram as aventuras televisivas do aviador, Tozé, com 27 anos, dá uma volta à sua vida. Vai dar aulas de Materiais e Tecnologia para a ESAD de Matosinhos, ganhando assim tempo para pensar e criar.
Seis meses volvidos, estava a criar a Linha de Terra (LT Studios), que fez a maquete em 3D do Estádio do Dragão e se iniciou no mundo dos jogos por causa de uma encomenda do Euro 2004. Tozé reuniu à sua volta competência na área de jogos (Filipe Pina, Bruno Ribeiro, Jeffrey Ferreira). Não acertaram à primeira (o jogo para o Euro 2004) nem à segunda (um jogo para PC intitulado Holy War), mas apenas à terceira. Em 2006, foi criada a Seed Studios, um spin off da Linha de Terra vocacionado para a produção de videojogos.
Após ter feito três jogos para Nintendo DS (Sudoku for kids, Aquatic Tales e Toy Shop Tycoon), a Seed aventurou-se a jogar na I Divisão e começou a namorar a Sony, propondo-se a fazer um jogo, o Under Siege, para a PS3.
“Apesar de termos uma equipa de 20 pessoas a trabalhar em full time no jogo, o projecto atrasou-se um ano. Tivemos todos os problemas que possa imaginar, desde técnicos, até burocráticos, operacionais e financeiros. Aconteceu-nos de tudo. Mas agora, para nós, fazer um videojogo já não tem segredos”, conclui Tozé, que espera alcançar três milhões de euros de vendas com o Under Siege e está empenhado em apoiar a criação de uma industria portuguesa de videojogos, sector que desde 2009 já factura mais do que o cinema e a música juntos.
Jorge Fiel
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A vocação para a Arquitectura começou a revelar-se no jeito para desenho e no gosto por brincar com legos. Confirmou-se com o incêndio do Chiado. Ainda adolescente, na Buraca, ajudou ao balcão de uma drogaria e fundou a Trombeta, um jornal local. Antes de ir para a faculdade, trabalhou na Dun & Bradstreet, um emprego que abriu uma nova janela na vida deste arquitecto que ganha a vida a vender janelas eficientes
O arquitecto que ganha a vida
a vender janelas eficientes
Nome: João Ferreira Gomes
Idade: 38 anos
O que faz: Presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Janelas Eficientes (ANFAJE) e director comercial e de marketing da Caixiave
Formação: Licenciado em Arquitectura
Família: Vive há oito anos em união de facto com uma socióloga que tem um negócio de moldes de plástico
Casa: Apartamento em Linda-a-Velha, Oeiras
Carro: VW Passat
Telemóvel: Blackberry (“que nos deixa viciados…”)
Portátil: Tsunami (“fabricado em Portugal pela JP Sá Couto”, sublinha)
Hóbis: Gosta de dar passeios ao ar livre (“evito ir a centros comerciais”), visitar exposições e ir ao cinema – é frequentador assíduo da Cinemateca, Gulbenkian e CCB
Redes Sociais: Facebook, que vai actualizando através do Blackberry
Férias: Não se mete no avião para fazer praia. “Da minha casa, em Linda a Vela ponho-me na praia de Carcavelos em menos de dez minutos”. Prefere fazer férias culturais. O ano passado esteve 15 dias em Nova Iorque. No anterior andou entre Moscovo e S. Petersburgo. Este ano talvez vá à China
Regra de ouro: O caminho faz-se andando
O incêndio do Chiado, que o apanhou no 9º ano, levou-o a tomar contacto com o mundo da Arquitectura e teve o condão de lhe acender a vocação. Ainda adolescente, começou a acompanhar os planos para recuperar a zona ardida, riscados por Álvaro Siza Vieira, o autor da edifício que João mais aprecia – o Pavilhão de Portugal - apesar que achar deplorável que se mantenha sem funções há mais de uma dúzia de anos.
Não entrou à primeira. O acesso a Arquitectura exige médias elevadas e os 92%, com que se candidatou eram curtos. Para ser admitido precisava de ter 98%. Como o dinheiro não abundava em casa, enquanto se preparava para a segunda tentativa de entrar no curso que queria, arranjou emprego, respondendo a um anúncio do Expresso Emprego que pedia um business analyst .
Durante um ano trabalhou na Dun & Bradstreet, a recolher informações comerciais, fazendo telefonemas e espiolhando à lupa relatórios e contas de centenas de empresas. Além de dinheiro, ganhou experiência e uma visão mais alargada da vida e do mundo.
Filho mais novo (o irmão, oito anos mais velho, é polícia) do casamento de uma doméstica com um responsável pela doca de Alcântara, João fez o secundário no Liceu Nacional de Queluz, onde o seu jeito para desenho deu logo nas vistas.
“Passava as aulas a desenhar. Nos primeiros dez minutos aprendia, depois distraía-me a desenhar caricaturas dos colegas e professores”, recorda João, acrescentando que por causa disso foi acumulando faltas de castigo, pois nem sempre os professores apreciavam a sua veia artística. Os primeiros sinais da vocação que o levou a arquitectura manifestavam-se nesta queda para o desenho e no gosto por brincar com legos, que ainda mantém (“Ofereço legos aos meus sobrinhos e depois aproveito e sou eu que os monto”, conta).
Desenrascado, cedo começou a ganhar dinheiro. Com 14 anos, nas férias grandes, arranjou um biscate ao balcão de uma drogaria ao pé de casa. E depois, num rasgo precoce de empreendedorismo, dinamizou o grupo de colegas do bairro que fundou um jornal local, a Trombeta, financiado com as receitas de publicidade angariadas junto dos comerciantes da Buraca.
Mas quando finalmente entrou na faculdade, teve de abandonar os ganchos. “O curso de Arquitectura é excelente, mas um full time job. Nos outros podia estudar-se de véspera. No nosso tinha de ser o ano inteiro”, conta João, que herdou do pai o seu primeiro carro, um Fiat 127 preto, com uma risca laranja, que fez mais de 250 mil km sem uma única avaria, e que ele, nas descidas, punha em ponto morto para poupar gasolina.
Acabado o curso e o estágio (no atelier de Nuno Leónidas), ainda fez alguns pequenos projectos de arquitectura, para familiares e amigos, mas logo reparou que o trabalho era pouco e a concorrência grande, pelo que tinha de se virar para outro lado. Começou por promover as torneiras Oliva, tendo como patrão Ludgero Marques, antes de em 1999 desaguar no mundo das janelas.
“Além das vantagens em segurança e isolamento acústico, ter janelas eficientes permite uma poupança até 40% em aquecimento e ar condicionado”, explica João Ferreira Gomes, que além de trabalhar, desde 2004 no departamento comercial da Caixiave (empresa de Famalicão que é líder ibérica em janelas em PVC), fundou a Associação Nacional de Fabricantes de Janelas Eficientes, para ajudar a superar as debilidades de um sector muito atomizado e que carece de inovação permanente.
Jorge Fiel
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Quis ser polícia, lavou carros, distribuiu auto-colantes, foi caddy, carregou e descarregou camiões, montou palcos para os Rolling Stones e The Cure, criou uma software house. Até que tropeçou na rua num antigo colega da faculdade que tinha uma empresa chamada PacSis e precisava de alguém que lhe desse uma mão, durante duas ou três semanas, na preparação de uma exposição sobre a Apollo XIII…
A viagem atribulada e engraçada
de um patriota romântico
Nome: Pedro Guimarães
Idade: 42 anos
O que faz: Director geral da PacSis
Formação: Uma cadeira atrasada do 4ª ano (Investigação Operacional) separa-o da licenciatura em Gestão, pelo ISEG
Família: Casado uma antiga colega de turma, com que começou, aos 18 anos, um namoro que durou mais de dez anos. Têm duas filhas
Casa: Andar em Alfragide, que se vê da varanda do escritório da PacSis
Carro: A6 (carrinha), com cinco anos de idade
Telemóvel: iPhone
Portátil: Toshiba
Hóbis: “O que é isso?” Adora muito de ler. “Livros são a prenda mais frequente que dou e recebo”. Lê de tudo, desde ficção histórica a não ficção, passando por técnicos, revistas, etc . “Não sou obcecado por nada”.Também gosta de ir ao cinema (parte importante do namoro com a mulher foi passado nas salas do Quarteto)
Férias: A rotina consiste em duas a três semanas de férias de Verão, em Portugal, repartidas por vários locais – a praia da Rocha, no Algarve (onde os sogros têm casas), Baiões, S. Pedro do Sul (em casa dos pais) e Reguengos, no Alentejo. “Nas férias gosto de passar os dias sem fazer nada”. No resto do ano fazem pontualmente escapadas pelo país, nos fins de semana
Regras de ouro: “Honestidade, fiabilidade, espírito de equipa, vontade de aprender e trabalhar. Não se pode ser preguiçoso, nem ficar mais ou menos satisfeito com o trabalho que fizemos. Cada um tem de se preocupar em ser o melhor que puder em tudo o que faz”
Aos três anos queria ser polícia. Já adolescente, adorava História, mas escolheu Económicas por não achar sexy a perspectiva de passar o resto da vida a dar aulas. Lavou carros, foi caddy, montou palcos para os Rolling Stones e passou pela publicidade, até aterrar na PacSis, empresa de marketing especializada em promoções e na gestão de vales de desconto.
Ao longo dos seus 42 anos de vida, Pedro cumpriu à risca o conselho de Agostinho da Silva: “Não faças planos para a vida para não estragares os planos que a vida tem para ti”.
“Sou um patriota romântico”, diz, num auto-retrato a la minuta, este empresário descomplexado (“Não me importo nada de ir fazer café, tirar fotocópias ou passar aqui uma noitada a ajudar os meus colegas”), acrescentando: “Vivemos num mundo difícil e exigente. Mas tem sido uma viagem engraçada”.
A viagem começou em Luanda, onde nasceu em 1968 (o ano em que começou a florescer a breve Primavera marcelista), filho de uma professora de liceu (dava Português, Inglês e Alemão) e de um geólogo que deixou o seu nome associado à estrada da Serra da Leba, uma das mais emblemáticas obras da engenharia portuguesa.
Retornada a Portugal, a família deitou âncora na Linha. Pedro fez o liceu entre Paço de Arcos e Oeiras, enquanto, à míngua de mesada, se ia desdobrando em diversos biscates.
“Sempre quis fazer coisas. Habituei-me a suportar as minhas despesas. Fiz de tudo, desde lavar carros a distribuir auto-colantes do posto médico, passando por carregar os sacos dos jogadores de golfe, na sua maioria estrangeiros. Ganhar um tanto por volta, recebia gorjetas e praticava o inglês”, conta.
A fluência em inglês foi-lhe muito útil na ocupação seguinte que consistiu em criar com uns amigos uma empresa especializada em fazer o back office dos mega-concertos das digressões de estrelas rock que tocaram o nosso país, entre o final dos anos 80 e os 90.
Descarregavam os camiões TIR, montavam o palco e voltavam a carregar tudo. Estrearam-se com Gary Moore, no Dramático de Cascais, e foram por adiante, sendo os homens por detrás da cortina das memoráveis actuações em Alvalade de Rolling Stones, The Cure, Iron Maiden, entre outros.
No entretanto, lá ia progredindo no curso, que achou engraçado. “Viviam-se os tempos esperançosos dos primeiros anos do governo Cavaco, cheios de orgulho por termos ultrapassado a Grécia. A escola estava a modernizar-se, ainda funcionava a dois tempos, mas a cultura dominante era que o seu papel não devia ser formar empregados mas sim empreendedores”, recorda.
Andava pelo 4º ano quando começou a trabalhar numa agência de publicidade e a negligenciar os estudos. Era claro que a vida planeava que ele fosse empreendedor. Em 1995, após ter passado três anos como sócio de uma software house, tropeçou na rua num antigo colega, que tinha uma empresa de serviços de marketing para o grande consumo, chamada PacSis, e precisava de alguém como ele para lhes dar uma mão na preparação de evento para um cliente (Omega) - uma exposição sobre a missão da Apollo XIII nas Amoreiras e CascaiShopping.
Foi o início de uma bela amizade empresarial. Pedro foi parar a PacSis para dar uma mão, durante duas ou três semanas. 16 anos depois ainda lá está, como sócio, e transformou a empresa, especializando-a na gestão de vales de desconto e em todo o tipo de promoções, ou, para ser mais preciso, “na gestão operacional das ferramentas de marketing promocional e directo”.
A Matemática inviabilizou-lhe o sonho de fazer Arquitectura. Direito foi um recurso e um pesadelo. Não estava feliz e resolveu seguir o conselho do pai, que lhe perguntou: “Se não estás bem, porque é que não mudas?”. Uma boleia a uma amiga levou-a até ao IPAM. Apaixonou-se à primeira vista pela escola. Doze anos depois, está a fazer o Marketing de uma escola de Marketing
Deu uma boleia e acabou a fazer
o Marketing da escola de Marketing
Nome: Solange Ribeiro
Idade: 31 anos
O que faz: Directora de Marketing do grupo Talent, que, entre outras coisas, compreende o IADE e os IPAM do Porto, Aveiro e Lisboa
Formação: Licenciada em Gestão de Marketing pelo IPAM, com um mestrado em Marketing de Serviços feito no IADE (2008)
Família: Casada, tem dois filhos, o Vasco, sete anos, e a Matilde, quatro. Tem com o marido - que competiu em motocrosse (ela própria também participou em algumas provas) - uma empresa que promove eventos relacionados com motas e motociclismo
Casa: Apartamento na Praia das Maçãs, em Sintra
Carro: A3 ou A4 (um é dela outro do marido, e vão variando). Têm também um Honda na garagem
Telemóvel: Blackberry
Portátil: Toshiba
Hóbis: Brincar com os filhos no parque, pinhal e praia. Ouvir música, no carro (anda entre a música alternativa da Antena 3 e a Rádio Comercial, por causa do Markl). Na televisão gosta de ver séries do AXN (CSI Miami e Nova Iorque, Mentalista…)
Redes sociais: Linkedin e Star Tracker. Não tem Facebook – “Tenho resistido…”
Férias: Passam sempre 15 dias no Algarve, ou no Vau ou em Tavira. O ano passado fizeram um fim de semana prolongado em Milão, sem os filhos. Dos seus planos fazem parte umas férias em Bali
Regra de ouro: “Ser apaixonada por aquilo que faço. Se eu gostar muito, está tudo bem”
Uma banal boleia foi responsável pelo momento decisivo da vida de Solange, uma rapariga de Almoçageme (Sintra), que, após uma experiência de pesadelo em Direito, andava de nariz no ar a decidir-se em que curso apostar.
No secundário, feito entre Colares e Amadora (“Mudei para lá para sair da zona de conforto”, explica, acrescentando que a vida dela passou a ser bastante mais desconfortável pois tinha de apanhar o comboio das sete da manhã J), foi óbvio que tinha jeito para desenho e só desistiu da ideia de ir para Arquitectura quando os professores lhe explicaram que iria apanhar muita Matemática pela frente.
Direito foi um recurso e uma seca tremenda. Guarda péssimas recordações do ano que lá andou. Estar sentada numa mesa cheia de calhamaços e sem conseguir navegar pela matéria. Aulas em anfiteatros com 300 pessoas. Pouca (para não dizer nenhuma) atenção por parte dos professores. Dois chumbos na oral de Direito Constitucional (“Precisava de sete, davam-me 6,5…”). Resumindo e baralhando: não era feliz. Nesta curva da vida valeu-lhe o pragmatismo do pai.
“Se não estás bem porque é que não mudas?”, perguntou-lhe o pai, um comercial que trabalhava a representação dos fornos para a indústria de panificação da Bongard Iberia.
Solange resolveu mudar e andava mergulhada na prospecção da oferta de cursos (e com uma ligeira inclinação para tentar Comunicação Social) quando um belo dia de Setembro, deu boleia para Lisboa, no seu Citroen Saxo cinzento, à Andreia, a uma amiga que tinha de ir ao IPAM pagar a primeira propina.
“O IPAM era na Rovisco Pais, junto ao Técnico. Nunca teria ido lá parar por mim”, reconhece Solange, que enquanto Andreia resolvia o seu assunto foi coscuvilhando as instalações e conversando com a professora (Catarina Ferreira) encarregada das admissões. Foi coup de foudre. 15 minutos bastaram para ficar apaixonada pelo curso de Gestão de Marketing.
“Encantou-me ser um curso muito prático e a proximidade com os professores, duas coisas que contrastavam com Direito, onde não se sentia acompanhada e ninguém me explicava nada. Pensei logo: OK é por aqui, vais pensar produto!”, recorda Solange.
Nas questões de dinheiro, sempre foi uma rapariga desembaraçada e habituada a lutar pela auto-suficiência. Ainda adolescente, nas férias grandes arredondava a mesada a trabalhar em antiquários, feiras e colónias de férias. Mais tarde, já universitária, arranjou emprego numa agência de publicidade, a Pink (“a principio foi caricato porque nem um fax sabia mandar”), onde se demorou dois anos. “Sabia muito bem receber o dinheiro em notinhas dentro de um envelope”, lembra.
Ainda fez um estágio de seis meses com a equipa de Tecnologias de Informação da Tracy International antes de concluir o curso e de ser convidada a ficar a dar aulas no IPAM, primeiro da cadeira de Comunicação Institucional depois de Gestão de Comunicação e Publicidade.
“As oportunidades são para se agarrar”, diz Solange, explicando porque é que em 2008 aceitou o convite para suceder a Carlos Sá (administrador do IPAM) no lugar de director de Marketing de um grupo com 4000 alunos, 450 professores e 17 cursos distribuídos pelo IPAM e IADE.
“O IPAM é a escola de Marketing. O IADE é a universidade criativa”, sintetiza Solange, que aterrou de pára-quedas no IPAM, por ter dado uma boleia a uma amiga, e que adora dar aulas e fazer o marketing de uma escola de marketing.
Jorge Fiel
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Sem o saber, o irmão mais novo mudou-lhe a vida ao levar para casa da família, em Monção, uma cachorrinha rafeira que achara na rua. Ela tinha 14 anos, um bom coração, e apaixonou-se por animais para todo o sempre. Trocou o sonho de ser pediatra pelo de ser veterinária, que acabaria por transformar em realidade na UTAD. Em Vila Real, fez amizade com outra Catarina e o Miguel, sócios na aventura de criarem o seu próprio emprego abrindo uma clínica veterinária no Grande Porto
A cachorrinha rafeira que mudou
a vida da rapariga com bom coração
Nome: Catarina Alves
Idade: 32 anos
O que faz: Médica veterinária e Sócia da Clínica Veterinária de Águas Santas (Maia, Porto)
Formação: Licenciada em Medicina Veterinária
Família: Casada (o marido é gestor) sem filhos, mas com dois gatos, o Gatuso (que ela tirou da rua) e uma gatinha vadia que uma senhora entregou na clínica e ela adoptou. De vez em quando, os gatos recebem a companhia da Graf (uma rafeira que a clínica adoptou no primeiro dia de actividade) e do Tobias (um Epagneul Breton, que era do pai do seu sócio Miguel, e como era muito medroso era péssimo para a caça). “Quando ficam lá em minha casa, dormem junto com os gatos e o Gatuso dá-lhes a boas vindas com turras nos focinhos”
Casas: Apartamento em Águas Santas
Carro: VW Golf na versão carrinha para transportar os cães e gatos
Telemóvel: Nokia
Portátil: Asus
Hóbis: Viajar, jantar fora e ir ao cinema (“Pelo menos de 15 em 15 dias vamos ao Arrábida, que preferimos porque com 20 salas dá mais escolha”)
Redes sociais: Tem Facebook mas não vai lá todos os dias
Férias: Passa sempre 15 dias em Caminha, onde a família tem casa. Em Setembro, usando como pretexto a irmã estar a fazer um mestrado no Norte de Itália, deram uma volta de carro que começou em Milão e acabou em Veneza, com escalas no Lago Como, Suíça e Áustria. Em Maio vão a Marraquexe – já têm a viagem comprada na Ryanair
Regra de ouro: Todos os dias é preciso fazer algo para “mimar” a felicidade.
A culpa foi do irmão mais novo que levou lá para casa uma cachorrinha, adorável e completamente rafeira, encontrada na rua. Catarina tinha 14 anos e apaixonou-se pela cadela, baptizada Pipa. Ela já estava habituada a dar-se com a bicharada, pois o avô tinha uma quinta com cavalos e cães. Mas era a primeira vez que tinha a seu cargo a vida e conforto de um animal doméstico. Dois anos depois da Pipa (já falecida), adoptaram a Guga, achada a vagabundear pelo meio da linha de caminho de ferro em Caminha.
Os animais vieram para ficar na vida de Catarina, nascida há 32 anos em Monção, a capital do vinho Alvarinho, filha do meio do matrimónio de uma professora primária com um advogado – a mais velha seguiu a carreira do pai, especializando-se em Direitos Humanos, enquanto o mais novo, o que a viciou em animais, se quedou pela terra natal, dirigindo A Terra Minhota, um jornal fundado há 60 anos pelo avô.
A meio da adolescência, Catarina já tinha uma ideia bastante clara sobre a sua vocação. Como queria auxiliar os seres humanos indefesos, que não sabem como pedir ajuda, começou por encarar a hipótese de ir para Medicina e depois especializar-se em Pediatria, antes de mudar a agulha e tomar a solene de decisão de ser médica veterinária.
Como o último teste de Química lhe correu muito mal e os 17,2 valores de média se revelaram curtos para entrar à primeira em Medicina Veterinária, na UTAD, inscreveu-se em Zoologia por onde passou por um cometa antes de ser aceite, na 2ª fase, em Novembro, no curso que queria. “Fui praxada duas vezes”, conta, em jeito de balanço dos danos colaterais da pequena desgraça que foi o último teste de Química não lhe ter corrido bem.
Mudou de Monção (Minho), para Vila Real (Trás-os-Montes), onde cedo fez amizade com outra Catarina (Silva) uma rapariga do Porto que se tornaria namorada (primeiro), mulher e sócia (depois) de Miguel (Mateus), um rapaz de Tomar.
Enquanto andavam na universidade, várias vezes os três falaram na hipótese de fazerem juntos uma clínica. Mas se fossem desafiados a isso, não apostariam dinheiro em como esse sonho se viria a tornar em realidade.
No final do curso, os caminhos dos três amigos bifurcaram-se. A nossa Catarina e Miguel estagiaram, durante um trimestre, para a Washington State University, em Seattle (EUA), enquanto a outra Catarina viajou para Barcelona.
De regresso a Portugal, arranjaram uns biscates nem muito atraentes nem especialmente bem remunerados (Catarina, por exemplo, fazia as tardes na Clínica Catassol). Um belo dia, estavam à conversa no café Velasquez (Porto), onde paravam, quando desenterraram o velho projecto de fazerem a sua própria clínica.
Começaram por pensar ir para Leiria. Depois reconsideraram o pressuposto inicial que não havia mais espaço para mais uma clínica veterinária no Grande Porto. Fizeram e refizeram as contas, bateram a todas as portas em busca de apoios, gastaram solas à procura de um local, até reunirem os 200 mil euros necessários para transformar em clínica um antigo stand de automóveis, em Águas Santas, Maia.
“Achávamos que as coisas iam ser mais fáceis”, confessa Catarina, olhando para os quase seis anos que se passaram desde a abertura da clínica, a 25 de Julho de 2005. Não foi fácil. Mas as centenas de gatos (com infecções urinárias ou vitimas de quedas) e de cães (com problemas de pele ou vitimas de atropelamento) que trataram compensam largamente esses espinhos.
Jorge Fiel
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Uma maravilhosa máquina de calcular Casio, em que tropeçou quando passeava em Oxford Street, mudou por completo a vida de um jovem adolescente que sonhava ser engenheiro químico. Trocou as experiências num laboratório doméstico pela iniciação, em regime auto-didacta, nos segredos da programação Basic. Nascia um empreendedor na área das novas tecnologias, que nem Jardim Gonçalves conseguiu desencaminhar
O miúdo que se apaixonou por
uma máquina de calcular Casio
Idade: 46 anos
O que faz: Director geral Voxtron Ibérica
Formação: Licenciado em Engenharia de Sistemas Decisionais, pela Cocite, em 1987, formação de base a que acrescentou cursos nas áreas da Gestão e Marketing Relacional
Família: Casado, tem três filhos (15, 13 e 12 anos), sendo que a mais velha quer ser médica como o bisavô
Casa: Andar em Sete Rios, Lisboa
Carros: Audi Q 7 e um Mercedes SLK descapotável
Telemóvel: iPhone
Portátil: Mac Book Pro (é um fã da Apple)
Hóbis: Joga ténis pelo menos três vezes por semana, entre o CIF e o Clube 7 (onde faz ginástica regularmente, em especial aulas de alongamento). Está a preparar-se para voltar ao golfe. E gosta muito de viajar
Férias: Miami (Palm Beach) e Algarve (o Sheraton Pine Cliffs, “vou para lá há 16 anos, é como se fosse uma segunda casa”) são os seus dois sítios preferidos para fazer praia. Dos seus planos de curto prazo, fazem parte um safari no Kruger, com os filhos, e uma viagem romântica às Maldivas com a mulher
Regra de ouro: “Corpo são, mente sã. Se por causa da chuva diminuo a carga de exercício físico noto logo que o meu raciocínio fica mais lento, menos musculado”
O clique deu-se algures em Agosto de 1980, quando parou na montra de uma loja de Oxford Street, com o olhar preso numa calculadora Casio. Foi coup de foudre. “Apaixonei-me logo por aquela máquina cheia de botões”, conta Cristóvão.
Passou fome nos últimos dias da viagem a Londres dos finalistas do Liceu Camões, pois torrou na compra da máquina de calcular quase todo o dinheiro que tinha. E não descansou enquanto não descobriu as funções de cada um das teclas. A informática estava num ponto de viragem. Estava a acabar a era dos cartões perfurados. E na sua espantosa Casio, em regime de absoluto auto-didactismo, iniciava-se no maravilhoso mundo da programação Basic.
“Fiquei fascinado”, confessa. Mudou logo a agulha do percurso académico. AC (antes da Casio) queria ser engenheiro químico e divertia-se em casa a fazer experiências num laboratório. DC matriculou-se em Engenharia de Sistemas Decisionais.
Mais velho dos três filhos do casamento de um quadro da Nestlé com uma húngara que conhecera em S. Paulo (onde família se refugiara após a tomada de poder pelos comunistas), Cristóvão nasceu no Porto, mas cresceu nas avenidas novas, em Lisboa, atravessando a adolescência a frequentar o Apolo 70 e o Imaviz, entre sessões de cinema no Monumental.
Revelou-se bastante venturosa a mudança da Química para a Informática, operada pela Casio, que lhe proporcionou notas altíssimas a todas as cadeiras de Estatística e Matemáticas Aplicadas até que, no 3º ano, colegas invejosos fizeram queixa dele aos professores, que desconheciam ser possível ter as fórmulas todas alojadas na memória da máquina…
Rapidamente começou a converter os conhecimentos em dinheiro. Ainda universitário, já orientava formação, prestava serviços de consultadoria e dava os primeiros passos como empreendedor, fazendo jogos para o ZX Sprectrum, que depois vendia nas lojas.
O negócio das cassetes de jogos (com capas bonitas, ilustradas fotografias de naves espaciais e outras coisas do género, pois ele já tinha a noção da importância do marketing) prosperou ao ponto de ter de por o irmão (engenheiro mecânico e professor no Técnico) a trabalhar para ele – e permitiu-lhe comprar, quando andava no 4º ano, o seu primeiro carro, um Fiat Uno 55 S, branco, com jantes especiais e vidros fumados.
Acabado o curso em 1987, foi muito requisitado para orientar a avalanche de acções de formação financiadas pelo Fundo Social Europeu e tinha já uma boa carteira de clientes quando um dia, a jogar golfe em Belas, foi desafiado pelo parceiro (um engenheiro chamado Jorge Jardim Gonçalves) a embarcar na aventura da fundação do BCP.
Terrível dilema, que o torturou até se decidir a ficar com os clientes e continuar empresário desenvolvendo vários negócios nas áreas da tecnologia e informática, o mais recente dos quais é a comercialização na Península Ibérica dos sistemas inteligentes de contact center fabricados na Bélgica pela Voxtron, um software aberto que corre em equipamentos de diferentes marcas e dá inteligência às centrais telefónicas.
“Quando uma ATM fica sem papel, notifica logo o nosso sistema, que automaticamente liga ao responsável por aquela máquina informando-o do que está a acontecer”, exemplifica Cristóvão, acrescentando que o grande valor acrescentando do sistema Voxtron consiste em dispensar a telefonista e fazer com que o telefone passe a ser parte integrante da gestão da empresa.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Estava escrito nas estrelas de que ia ganhar a vida a transformar as uvas em vinho. Nasceu em Lisboa, cresceu entre Torres Vedras, Évora e Beja. Agora vive em Vila Real e não raros são os dias em que faz mais de mil quilómetros ao volante da sua carrinha Passat. Uma breve história da vida enóloga da Roquevale
A nómada que não escapou
ao destino de viver do vinho
Nome: Joana Roque do Vale
Idade: 37 anos
O que faz: Enóloga e directora de exportação da Roquevale
Formação: Licenciada em Engenharia Alimentar, pela Escola Superior Agrária de Beja, fez dois estágios na Escola de Enologia de Bordéus
Família: Casada, tem dois filhos, o Artur, nove anos, e o Pedro, sete
Casas: Moradias em Vila Real e Évora
Carro: Carrinha VW Passat que já fez mais de 330 mil quilómetros desde que a comprou em Dezembro de 2003
Telemóvel: Samsung
Portátil: Toshiba
Hóbis: Não tem tempo para hóbis. Descontrai aos fins de semana na quinta da família, em Torres Vedras, em reuniões de amigos
Redes Sociais: “Tenho resistido muito a aderir. Uso o Skype para falar a adega e o estrangeiro”
Férias: Passa sempre a primeira quinzena de Agosto numa casa que a família tem na praia da Luz (Algarve), a menos de cem metros do mar. “Aproveito para não pegar no carro durante 15 dias”
Regra de ouro: Máxima liberdade, máxima responsabilidade – tanto em casa como no trabalho
Apesar de ser uma força de expressão, pode muito bem escrever-se que Joana nasceu com o vinho a correr-lhe no sangue. Os bisavôs, do lado materno, já faziam vinho, que comercializavam com as marcas Casal do Castelão e Quinta Manjapão. Ela ainda se lembra do avô, com 86 anos, andar com o carro carregado de caixas de vinho para venda. E ela tinha dez anos quando os pais transformaram a quinta alentejana da família (a Herdade da Madeira, no Redondo) na base de operações da Roquevale, famosa pelos vinhos Tinto da Talha e Terras de Xisto.
Joana nasceu em Lisboa, no último ano antes do 25 de Abril, mas cresceu e fez-se mulher entre Évora, Torres Vedras e Beja. A sua actual geografia de vida não é muito mais simples, pois apesar da sua primeira residência ser em Vila Real, mantém quartos com a cama feita (e uma escova de dentes na casa de banho) em Lisboa, Torres Vedras e Évora.
Este nomadismo, que só pode atrapalhar os técnicos do INE encarregados do Censos, obriga-a passar longas horas ao volante da sua Passat. “Há dias em que chego a fazer mil km”, confessa.
Para ela, férias grandes foram sempre sinónimo da azáfama das vindimas, pelo que se pode dizer que estava escrito nas estrelas que iria ganhar a vida a transformar as uvas em vinho. Mas ainda resistiu. ”Para ter outras saídas”, quando acabou o secundário, em vez de ir para lá do acidentado Marão, fazer o Enologia na UTAD (Vila Real), preferiu quedar-se pela planície alentejana e cursar Tecnologia das Indústrias Agro-Alimentares, onde estudou vinhos mas também azeite, conservas, etc.
Mas o vinho não a largou. No final do curso, o estágio curricular levou-a até à Herdade do Esporão, “era uma das adegas tecnologicamente mais evoluídas”, onde trabalhou na vindima de 1995, aprendendo com enólogos famosos como David Baverstock, Luis Duarte e Richard Mayson. E rendeu-se ao seu destino.
Aperfeiçoou em Bordéus os seus conhecimentos, antes de finalmente começar a trabalhar com o pai, na Roquevale, a ganhar 60 contos/mês. “Fazia de tudo. Andava com as mangueiras às costas, subia às cubas, carregava as sacas de ácido tartárico…”, recorda.
Na altura eram menos de meia dúzia e faziam 200 mil litros de vinho/ano. Hoje são 34 empregados permanentes e produzem anualmente três milhões de litros. Esta viagem foi pilotada por Joana, que, no entretanto, casou, completou em Beja a licenciatura em Engenharia Alimentar, teve o seu primeiro filho (o Artur, que andava com ela para todo o lado, adega incluída), acumulando as funções de enóloga com as de directora comercial para os mercados externos.
A Roquevale inovou ao fazer o bag-in-box com a marca Alecrim (“Poupam-se seis garrafas, seis rolhas e pode estar dois/três meses aberto e não se estraga”), alargou o portefólio de marcas e cresceu na exportação (onde escoa 23% da produção, sendo que Brasil e Macau são os principais mercados).
Entretanto os pais reformaram-se e foram viver para a Herdade da Capela, em Pias, e como, não conseguiam estar quietos, logo fizeram um vinho, o Monte da Capela, onde Joana dá uma mão.
“Sempre gostei mais de tintos do que de brancos”, confessa Joana, acrescentando que o seu próximo desafio é fazer um vinho com o marido (o enólogo transmontano Luís Soares Duarte), “uma coisa pequena, para dar e vender aos amigos, não é para fazer negócio” - e declarando não estar preocupada com a conjuntura económica: “Nas alturas de crise bebe-se mais vinho”.
Jorge Fiel
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Desistiu de ser veterinária quando o pai a avisou que podia acabar num matadouro. Descobriu o Marketing através do irmão artista, que estudava no IADE. Trabalhou ao balcão de um loja de decoração, na contabilidade de uma construtora, na venda de aspiradores Rainbow e numa empresa de comunicação antes de desembarcar, há oito anos, no Wall Street Institute, onde é responsável pelo Marketing ao nível ibérico
A mulher que vai pôr os espanhóis
a responder: “Por supuesto, I do!”
Nome: Joana Figueiredo
Idade: 36 anos
O que faz: Directora de Marketing ibérica do Wall Street Institute
Formação: Licenciada em Marketing, com uma pós graduação em Gestão, no ISCTE, em 2007 (“É sempre bom voltar à escola”)
Família: Casada com um empresário, tem um filho com um ano e meio de idade
Casa: Andar na Estrela, Lisboa
Carro: Citroen Picasso
Telemóvel: iPhone
Portátil: Dell
Hóbis: Ir todas as semanas ao cinema (Amoreiras), estar com os amigos e viajar – há muita África nas rotas que já fez, S. Tomé, Namíbia, África do Sul, Moçambique…
Redes Sociais: Facebook (“porque tem de ser, mas contrariada” e Linkedin (“Porque quero”)
Férias: Entre Fevereiro e Março, costuma fazer uma semana na neve, por norma nos Alpes franceses. No Verão, faz parte da rotina passar uma semana na praia, em Moncarapacho, no Algarve. Ao longo do ano consegue arranjar sempre tempo para um short break, em Roma ou Paris. Este ano vai dar uma saltada à Áustria, aproveitando o pretexto do irmão (João, que é artista plástico) ir fazer uma exposição em Viena
Regra de ouro: “Carpe Diem”
“Vais acabar a trabalhar num matadouro ou, na melhor das hipóteses, numa clínica para cães e gatos”. Foi com esta frase, brutal mas hiper-realista, que o pai lhe tirou da cabeça a ideia de ser veterinária.
Nascida no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, no ano do 25 de Abril, filha mais nova (o irmão é quatro anos mais velho) do casamento entre dois empregados de escritório que se conheceram no mundo dos electrodomésticos (ambos trabalhavam na AEG), Joana sempre teve bom coração e adorou a bicharada.
Teve hamsters, periquitos, coelhos, um cão chamado Kiko (que tirou da rua) e, no início da adolescência, começou a privar com cavalos, no Jockey Club, o que só lhe reforçou a ideia de ser médica veterinária quando fosse grande.
Para a salvar da desorientação quanto ao futuro, em que caiu após o pai lhe ter desfeito o sonho de ser veterinária, valeu-lhe João, o irmão mais velho, que lhe trouxe do IADE, onde estudava, uns papéis a propósito de um curso de Marketing.
Habituou-se a ganhar o dinheiro para os seus alfinetes a atender dondocas numa loja de decoração (que no entretanto fechou), para os lados do Rato, durante os três meses das férias grandes de intervalo entre o final do secundário, feito no Maria Amália (Joana cresceu em Benfica) e o ano de caloira no IADE.
Fez o essencial do curso à noite. Durante o dia trabalhava na contabilidade de uma empresa alemã de construção civil, emprego que lhe foi duplamente útil, pois não só aprendeu coisas que lhe serviriam no futuro, como ainda por cima amealhou o dinheiro necessário para comprar o seu primeiro carro, um Fiat Punto cinzento escuro, que curiosamente lhe permitiu tomar consciência do terrível facto de que em meados dos anos 90 o Marketing não era ainda uma actividade conhecida por aí além…
Ia ela um dia, toda lampeira, no seu Punto, junto ao Estádio da Luz, quando um carro descuidado lhe bateu. No preenchimento da papelada, o polícia perguntou-lhe a profissão. Quando ela respondeu “estudante de marketing”, ele retorquiu: “Isso não existe”, o que a levou a sugerir: “Então ponha aí que sou cozinheira”.
Curso acabado (“sai-se com pouca prática”, comenta), passou à prática, Primeiro numa empresa de comunicação, onde se ocupou de marketing directo, tornando-se familiar com ferramentas básicas como mailings e call centers. Depois, viveu uma experiência engraçada, trabalhando três anos no negócio da venda directa de aspiradores Rainbow, que, nas suas próprias palavras (ela ainda têm um!), “fazem tudo mais um par de botas”.
“Podia ser divertido, mas não era a minha praia”, diz Joana para explicar a mudança, em 2003, para o Wall Street Institute, onde, ao longo dos últimos oito anos foi fazendo alpinismo na hierarquia até chegar a responsável pelo Marketing para toda a Península Ibérica.
Tal como os irredutíveis gauleses, da saga criada por Goscinny e Uderzo, Joana Figueiredo só tem medo que o céu lhe caia em cima da cabeça. Não teme uma boa controvérsia. De outra maneira não abençoado a campanha de Mupis que o Wall Street Institute tem em curso, em que a cara de Zezé Camarinha aparece em bonecos com o corpo de Mourinho, Obama ou Sócrates, a dizer frases icónicas, tais como: “Aprender inglês vai tornar-te Special”, “Sim, tu consegues aprender inglês” ou “Aprender inglês é porreiro pá”.
Não foi à primeira que acertou com a vocação. Escolheu Artes, que trocou pela Economia, antes de aterrar no Marketing. Uma breve história do quarto de século de vida do filho do meio do dono dos Transportes Freitas, que foi DJ e piloto de automóveis antes de reconverter num espaço cool e multiusos, denominado Creme, uma discoteca do Edifício Transparente, no Porto
O DJ que andou pelas corridas
antes de montar o seu negócio
Idade: 25 anos
O que faz: Sócio-gerente do Creme, que acumula as valências de café, clube, restaurante e esplanada, localizado no Edifício Transparente, entre a praia e o Parque da Cidade, no Porto
Formação: Está a fazer o curso de Marketing no IPAM, depois de ter desistido de Gestão, quando andava no 2º ano
Família: Solteiro
Casa: Vivenda em Rebordões, Santo Tirso
Carros: dois BMW (Z4 e 535D) e um Ford Escort
Telemóvel: Blackberry
Portátil: Mac
Hóbis: Desde que pôs entre parêntesis a sua carreira de piloto de ralis, diverte-se a pôs música (electrónica, de dança e soul), como dj. Compra muita música na Fnac. Antena 3 e Rádio Nova são as suas estações preferidas. Também gosta de nadar – durante seis anos foi nadador de competição em Santo Tirso
Redes sociais: Linkedin, ASmallWorld e Orkut
Férias: No ano passado não teve férias por causa do Creme. Há dois anos esteve em Florianópolis. Este ano vai até Miami, onde tem uns amigos. “Não gosto de praia. Nem de férias calmas. Para mim, as férias não são para descansar”
Regra de ouro: “Integridade, objectivos, coragem, humildade e entusiasmo”
No princípio foi a música. António tinha 16 anos, acabadinhos de fazer, quando começou a pôr música em discotecas, não só durante as férias algarvias mas também no Vale do Ave, onde nasceu e cresceu. Primeiro foi por graça e de graça, mas não demorou a passar a cobrar dinheiro – e não ganhava mal (150 euros/hora).
“A partir de determinada altura achei que devia ser recompensado pelo tempo que gastava a preparar-me. Para as pessoas ouvirem a música que passava na rádio não valia a pena estar eu ali nos pratos”, explica António, um DJ que apesar de não ter escolhido um nick apelativo (AFreitas) brilhou em discotecas como a Pedra do Couto, uma das coqueluches da noite de Santo Tirso e arredores.
Baptizado com o nome do pai, António é o irmão do meio dos três filhos de uma família que já trabalha em transportes há três gerações. Começou pelo avô, que se dedicou ao transporte de carga geral, continua com o pai (que especializou a Transportes Freitas na distribuição de combustíveis), e João, o seu irmão mais velho, que após se ter licenciado em Economia na Católica, trabalhou em Lisboa na Galp antes de voltar a Santo Tirso para ajudar no negócio de família – onde até a mãe trabalha, nos escritórios.
Não foi à primeira que António descobriu a vocação. Após ter completado o 9º ano, em Guimarães, matriculou-se no 10º ano em Arte, em Santo Tirso, com a perspectiva de seguir para Arquitectura ou Design Industrial. Depressa pôs de lado essas ideias. “Não era bem daquilo que eu estava à espera. Tinha muita teoria”, explica.
Mudou a agulha para Económico-Social, completando o 12º nesta área, na Vila das Aves, vencendo os trajectos casa-escola-casa montado numa scooter, enquanto debutava à noite a sua carreira de DJ, que acabou interrompida pela erupção de uma outra paixão: as corridas de automóveis .
Mal fez 18 anos, não descansou enquanto não tirou a carta e começou a conduzir, na observância da legalidade, o VW Carocha 1302 que o pai tinha parado na garagem. Aos 20 anos, António já era dono de um Mini Cooper S (de 1963), e estreava-se nas pistas em Vila Real, ao volante de um Datsun 1200, alcançando um honroso 7º lugar, entre 20 concorrentes, na corrida de clássicos.
Da velocidade saltou para os ralis, onde competiu com um Ford Escort RS Mark II, que lhe deu vitórias e pódios. No ano passado, o último em que correu, ficou em 2º lugar no campeonato da sua classe.
No entretanto, concluído o 12º ano, mudou para o Porto, onde andou no curso de Economia na Católica até constatar que se tinha enganado mais uma vez e que “não era bem aquilo que queria”.
Foi o momento das grandes decisões. Mudou de Economia para Marketing, que acaba para o ano (“À terceira é de vez”, garante), deixou as corridas e investiu no seu primeiro negócio, transformando uma discoteca do Edifício Transparente num espaço polivalente (restaurante, café, bar, esplanada), baptizado Creme, um local cool e que nos jovens adultos e adultos a sua clientela alvo.
“A ideia é rentabilizar o espaço e tirar partido da sua localização privilegiada, entre a praia e a o Parque de Cidade, através da oferta sucessiva de serviços variados, desde as dez da manhã até às duas ou quatro da madrugada”, explica António, acrescentando que a última etapa do seu plano de voo será trabalhar na Transportes Freitas, o maior distribuidor oficial da Galp, e que tem 14 bombas de gasolina cobranded (Freitas/Galp).
Jorge Fiel
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Nasceu em Aveiro, acabou a primária em Pretória, debutou, aos 16 anos, como servente de pedreiro em Tours. Aos 25 anos já tinha feito dois filhos e uma construtora com o seu nome. Breve resumo da vida de um português que, após 30 anos emigrado, regressou à terra como empresário
A montanha russa da vida
de um português no mundo
Idade: 52 anos
O que faz: Sócio gerente Decorplus
Formação: Ensino básico, completado na África do Sul
Família: Casado, tem três filhos, o mais velho tem 30 anos e trabalha na Holanda, a do meio tem 27 anos e está na Irlanda do Norte (mas em Dezembro está de volta a Portugal), e o mais novo tem dez anos e é filho do segundo casamento
Casa: Moradia em Esgueira, Aveiro
Carro: BMW X5
Telemóvel: iPhone 4
Portátil: Mac Pro
Hóbis: É caçador (um gosto trazido de França) e andar de moto - tem uma Kawazaki Ninja 900 e sempre que pode vai às concentrações de motards
Férias: Como tem de ir muitas vezes em trabalho ao Algarve, evita ir lá nas férias. Para este ano não tem planos, mas gosta de fazer fins-de-semana um pouco por todo o pais, do Alentejo a Trás-os-Montes
Regra de ouro: “O rumo da minha vida é traçado no sentido do bem estar de todos os que trabalham comigo e de que não falte nada em minha casa”
Nascido em 58, em Oliveirinha (Aveiro), Acácio tinha oito anos e andava na 2ª classe quando embarcou na montanha da russa da vida ao subir para o avião que o havia de levar a Pretória, onde o pai, que fizera a tropa em Angola, buscava as oportunidades negadas pelo Portugal a preto e branco dos anos 60.
Era tudo diferente, mas ele gostou. Apreciou a disciplina da escola e tornou-se fluente em inglês. E, como é comum nos rapazolas da sua idade, sempre que o deixavam adorava ver o pai a trabalhar, fazendo o reboco e acabamento de casas.
Não chegou a completar seis anos na África do Sul, porque em 72 o pai achou que era melhor partirem para França. Às portas do Outono, deitaram âncora em Tours, onde tinham família que os ajudou nos primeiros preparos.
Era tudo diferente e ele estranhou. Não a língua, que aprendeu com facilidade (diz-se que o sotaque francês mais puro é o de Tours), mas tudo o resto. Para começar o frio, depois a escola. “Não me adaptei à escola. Era tudo à balda”, conta.
Como não dava na escola, não demorou a procurar emprego para juntar ao salário que o pai trazia para casa da siderurgia em que trabalhava. Aos 16 anos, debuta como servente, no bâtiment, mas oito meses volvidos já estava a ser promovido a pedreiro de 1ª. “Subi rápido, porque gostava de saber e aprendia depressa”, explica.
Ainda não tinha 19 anos completos e já levava para casa um salário maior que o pai, a chefiar uma equipa que levantava vivendas para uma empresa de um compatriota.
Casou com uma portuguesa de Lamego e revelou logo, com tenros 21 anos, o seu espírito empreendedor ao aceitar o desafio de um mecânico franco-checo para ambos tomarem conta de uma construtora que era do seu sogro..
Durante quatro anos geriu com sucesso a empresa do sogro do checo, enquanto construía aos fins de semana, a sua primeira casa, até que decidiu estabelecer-se, como resposta à interrogação: “Por que é que ando a fazer coisas para os outros em vez de trabalhar para mim?”
As Construções Acácio Oliveira progrediram de vento em popa (“Fazíamos cerca de 40 vivendas por ano. Cheguei a ter mais de cem empregados”, recorda) até que em 1986 foram abaladas pela falência do promotor imobiliário para quem trabalhava.
“Foi muito mau. Ficamos com muito dinheiro a arder. Felizmente que na altura os bancos ainda acreditavam nas pessoas e o Credit Agricole emprestou-nos o dinheiro para aguentar o golpe. Aprendi com esta contrariedade. Decidi que não iria trabalhar para mais ninguém. Contratei desenhadores e vendedores e passei a ter um gabinete de projectos”, conta.
Com esta nova estratégia reiniciou um novo ciclo de prosperidade que durou até que, em meados dos anos 90, levou um segundo soco no estômago, com a falência da clínica para feito a obra dispendiosa de recuperação de um castelo. Temendo que não houvesse duas sem três, decidiu deslocar para Portugal o centro da sua actividade.
Como não queria fazer mais construção, após se ter metido num negócio de aluguer de máquinas, optou pelos interiores, criando a Decorplus, uma empresa de design, com base em Aveiro, que factura três milhões de euros a fazer remodelações de lojas e estabelecimentos (pastelarias, cafés, restaurantes, hotéis, agências bancárias…) por todo o país. E às 450 casas que fez na região de Tours, Acácio já juntou 350 lojas em Portugal, que levam as impressões digitais.
Jorge Fiel
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Nascido em Puerto Deseado, na Argentina. Jogou rugby e fez-se engenheiro. Começou por construir casas e silos de armazenagem, antes de se iniciar nas artes do Marketing com a Black & Decker, que o trouxe para a Europa e onde esteve até que os dinamarqueses da Dyrup em acharam por bem aproveitar o seu talento para gerir pessoas
O gestor da Patagónia que gosta
de trabalhar com pessoas felizes
Idade: 51 anos
O que faz: presidente Dyrup Ibérica
Formação: Licenciado em Engenharia Civil (1985), pela Universidade de Buenos Aires, fez um MBA na Deusto University (1994), e tem pós graduações em Marketing Management (ESADE, Barcelona, 1999) e Gestão (Insead, 2004)
Família: Casado com uma bióloga (Ursula). Têm um cão, golden retriever, chamado Toffee
Casa: Moradia em Sant Cugat del Vallès, Barcelona
Carro: Subaru Outback, “é um carro fantástico”
Telemóvel: iPhone
Portátil: Dell
Hóbis: Como nunca deixou de ser um amante do rugby, não falha na televisão um jogo do Torneio das Seis Nações. Quando lhe perguntamos qual é a melhor equipa de rugby do Mundo ele responde, sem pestanejar: “Os Pumas” (selecção argentina), mas acrescenta que “os All Black também fazem um bom trabalho…”. No Inverno gosta de esquiar (“Tenho boas pistas a hora e meia de casa”). Também adora fazer BTT aos fins de semana
Férias: Tem como rotina ir em Outubro à Argentina (onde é sócio do irmão num colégio), visitar família e os amigos – que brincam com ele, dizendo-lhe que “fala como um galego”. Em Agosto gosta de alugar um barco e navegar entre ilhas
Regra de ouro: “Respeitar as pessoas. E não só no aspecto formal, como por exemplo não gritar com elas. Temos de respeitar os desejos, as ambições e as capacidades das pessoas com que trabalhamos e convivemos. Isso torna a vida mais fácil para todos”
Um pouco por todo o mundo - mas fundamentalmente na Argentina, Dinamarca (onde bate o coração da Dyrup), Espanha e Portugal – há uma data de gente que dá graças a Deus pela presença de espírito revelada pela mãe de Eduardo, quando o filho, então com 22 anos, lhe apareceu pela frente, a rebentar de fervor patriótico, e anunciou a intenção de se alistar nas forças armadas para combater na guerra das Malvinas. “Ou te matam os ingleses ou te mato eu”, declarou a mãe, educadora de infância, cortando-lhe cerce os propósitos guerreiros.
A ideia de Eduardo não era tão desajustada como pode parecer. Ao fim e ao cabo, ele nasceu e cresceu em Puerto Deseado, a pequena localidade de nove mil habitantes, em plena Patagónia e em frente às Malvinas, que o pai médico escolheu para viver (em alternativa a Los Angeles), quando acabou Medicina em Buenos Aires, a sua cidade natal.
“Num raio de 300 km, não há nada à volta. E Buenos Aires fica a oito/nove horas de avião”, recorda Eduardo, que aos onze anos foi estudar para a capital, onde se apaixonou pelo rugby, que jogou até aos 35 anos, como 2º linha, posição onde se exige força para estar sempre a lutar pela posse de bola – “Essa é a história da minha vida”, desabafa Eduardo, que emana uma sensação de força tranquila.
No auge da sua carreira, chegou a receber convites para jogar rugby como profissional em Itália, que recusou pois fazer bem o curso de Engenharia era a primeira das suas prioridades. “O meu pai teria gostado que eu fosse médico, mas impressionava-me ver sangue, gostava muito de Física e era bom a Matemática”, explica Eduardo, que sempre gostou de futebol, mas tem a mania de ser do contra. Na Argentina, como o River Plate é o clube das elites, ele torce pelo popular Boca Juniores. Em Espanha, como vive em Barcelona, é adepto do Real Madrid.
Durante o curso, feito em plena época de hiperinflação na Argentina, ganhava os seus dinheiros dando explicações de Matemática e topando a todos os biscates, incluindo pintar casas, o que até se pode interpretar como premonitório da sua actual ocupação.
Acabada a licenciatura, dedicou-se à construção de escolas e de silos de armazenagem de cereais e líquidos, antes de ir para a Black & Decker, onde era director de Marketing e estava há pouco mais de um ano quando aceitou ocupar idênticas funções na subsidiária espanhola daquela multinacional norte-americana.
Foi em 1996 que atravessou o Atlântico e fixou o centro de gravidade da sua actividade na Europa. Após quatro anos na Black & Decker, agarrou com ambas as mãos a oportunidade que lhe ofereceram de ser o director geral da Dyrup Espanha. Até aí, o essencial da carreira tinha sido comercial. Queria testar a sua capacidade para gerir uma fábrica.
O teste resultou tão positivo, que em 2005 os dinamarqueses entregaram-lhe a direcção da filial portuguesa, que pesa o dobro da espanhola – dos 45 milhões de euros de facturação da Dyrup Ibérica, Portugal contribui com 30 milhões.
“O que tem mais valor é a capacidade de gerir pessoas. Não sei se é o que eu faço melhor, mas o que mais gosto de fazer é relacionar-me com a pessoa para obter o melhor de cada um”, explica Eduardo, um argentino da Patagónia, que acredita que pessoas felizes trabalham melhor e rendem mais e um adepto do bom senso – só lamenta que “senso comum não seja tão comum como isso…”
Jorge Fiel
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Como adorava desmanchar coisas, andava sempre com uma chave de parafusos na mão, o que deixava a mãe com os cabelos em pé. Apesar de ser um bocado a puxar para o lingrinhas, jogou 12 anos rugby, no Benfica e em Agronomia. As vicissitudes do 25 de Abril frustraram-lhe os planos de se tornar engenheiro mecânico. Com o curso de Gestão feito e o serviço militar cumprido, arranjou o primeiro emprego na IMS Health Portugal. 30 anos volvidos, não teve medo de voltar ao sitio onde foi feliz
O gestor que não teve medo
de voltar ao sítio onde foi feliz
Nome: Jorge Lemos
Idade: 55 anos
O que faz: Presidente e CEO da IMS Health Portugal
Formação: Licenciado em Gestão de Empresas, pós graduação no Insead
Família: Casado com Teresa de quem tem dois filhos, a Joana, 26 anos, designer de comunicação, que vive e trabalha entre Londres e Lisboa, e o António, 24 anos, engenheiro mecânico que está a fazer um mestrado em energias renováveis
Casa: Apartamento no Monte Estoril
Carro: Audi A5
Telemóvel: Blackberry. “Lutei muito para não ter, mas o ano passado desisti. Mas não sou viciado. Quando é urgente, já sabem, o melhor é telefonar”
Portátil: HP
Hóbis: É um apaixonado pelo rugby. Quando viveu em Inglaterra ia com frequência assistir a jogos do Torneio das Seis Nações. Os All Blacks são a equipa que ele mais admira. O todo o terreno é a sua outra paixão. Adora fazer raides e conduzir fora da estrada. Há dois anos, na Páscoa, fez o trajecto do Lisboa-Dakar num Mitsubishi Pajero. Ultimamente tem vindo a iniciar-se no golfe - e confessa que está a gostar
Férias: De vez em quando passa uns fins de semana em Vilamoura. O ano passado, voou até à Namíbia onde, ao volante de um Land Rover alugado, percorreu quatro mil quilómetros
Regras de ouro: “Acredito sempre que o que se faz bem se pode fazer ainda melhor. Não me resigno com facilidade. Aí o rugby foi uma grande escola”
A mãe tremia de terror sempre que o via com a chave de parafusos na mão. “Sempre gostei de desmanchar coisas”, confessa Jorge, admitindo que por causa dessa mania destruiu muitas coisas lá em casa.
Se não fosse o 25 de Abril, muito provavelmente teria sido engenheiro mecânico. Mas o dominó do destino fintou-o. Repetiu o 7º ano de Matemática por causa de uma professora chata que não o levou a exame. Por causa disso, apanhou pela frente o ano do Serviço Cívico, que era obrigatório e ele se recusou a fazer. Preferiu passar o Verão Quente de 75 a colar cartazes do PSD, em Lisboa, do que a alfabetizar camponeses, em Bragança. No ano lectivo seguinte ainda andou pelo Técnico, mas a confusão ainda era muita. Após uma tentativa falhada de se inscrever na Universidade de Louvaina, acabou por estudar Gestão no INP.
Antes das trapalhadas que o esperavam no final da adolescência, no Portugal a preto e branco do Outono do Estado Novo, era dos poucos miúdos privilegiados que comiam smarties e toblerones que o pai (director do hotel Metrópole, no Rossio) lhe arranjava no restaurante do aeroporto.
Fez a primária no Externato Luís de Camões e o secundário no Colégio Académico. Apesar de ser lingrinhas, distinguia-se no futebol jogado nas ruas dos Anjos e Areeiro, pelo que não espanta que um vizinho, de nome Mário Soares, o tivesse levado para jogar rugby no Benfica. Tinha 12 anos e estreou-se como médio de formação, evoluindo depois para médio de abertura. Acabou a carreira, já em Agronomia, com 24 anos, como médio centro. “Com a idade começa-se a jogar mais com a cabeça do que com o corpo”, explica, acrescentando que chutava bem e foi duas vezes vice-campeão nacional.
Foi a varejar amendoeiras no Algarve que ganhou o primeiro dinheiro, aos 16 anos, trabalho duro, que dava cabo das mãos e o deixava cheio de fome. O que ganhava durante dia estourava à noite no jantar e copos. Mais tarde arranjaria um part time bem mais leve: fazer inquéritos para a Norma, uma empresa de sondagens.
Aos 23 anos, com o curso tirado e o serviço militar cumprido, arranjou o primeiro emprego, na sucursal portuguesa da IMS Health, que naquele ano de 1979 se resumia a três pessoas: ele, a senhora alemã que dirigia o escritório e respectiva secretária. Contrataram-no porque andavam à procura de alguém que se entendesse bem com os números e falasse línguas.
Começou como uma espécie de faz tudo, sendo que o tudo incluía vender à industria farmacêutica os estudos sobre consumo de medicamentos produzidos pela IMS, uma espécie de Nielsen deste sector. A rapidez com que escalou na hierarquia fala sobre a eficiência do seu trabalho. Em 83, com 27 anos, casou com Teresa, professora de História, e foi promovido a director geral, cargo que desempenhou durante uma dúzia de anos, até ter o desafiarem a testar em vários mercados (Reino Unido, França, Itália, Espanha e Bélgica) o modelo comercial que ele concebera e fazia tanto sucesso em Portugal. Deu resultado e como prémio, em Junho de 95, entregaram-lhe a direcção do Reino Unido e Irlanda.
Após quatro anos em Londres, fez uma empresa, foi consultor de public health affairs da IMS e aceitou voltar a liderar a filial portuguesa. “Eram oito da manhã e eu estava a conduzir na Marginal quando tocou o telefone. Era o presidente europeu a dizer que precisava da minha ajuda”. Jorge Lemos sentiu que não podia dizer que não.
Jorge Fiel
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Como não queria levar uma vida aborrecida, sonhou ser trapezista e diplomata. Como queria ser independente, aos 14 anos habituou-se a ganhar dinheiro. Fez anúncios, foi modelo e baby sitter, serviu à mesa e varreu o chão, redigiu relatórios. Correu mundo. Acabado o curso de Ciências Políticas em Bruxelas, regressou a Lisboa para ser jornalista. Aos 30 anos decidiu assentar
A globetrotter que não queria
levar uma vida aborrecida
Idade: 40 anos
O que faz: Directora de Comunicação do Banco Santander Totta
Formação: Licenciada em Ciências Políticas com uma pós graduações em Gestão (Católica) e Ciências da Comunicação (Nova)
Família: Casada com três filhos, Francisco (seis anos), Manuel (quatro) e Mafalda (um)
Casa: Andar no Bairro Azul, em Lisboa
Carro: Ford Galaxy
Telemóvel: iPhone 4
Portátil: HP
Hóbis: Leitura (bastante), viajar, cinema (alternativo, não blockbusters), passear de bicicleta com os filhos junto ao rio Tejo, em Belém, jantar fora, dançar e beber uns copos
Redes Sociais: Facebook e Linkedin
Férias: Todos os anos passam 15 dias numa casa ao pé da praia, no Sotavento algarvio. Também faz parte da rotina uma semana de férias cá dentro (o ano passado foi na Madeira, há dois anos no Douro e há três no Alentejo) e outra na neve – a última vez foi em Ponte di Legno (Itália). Este ano planeia visitar Washington com uns amigos de Nova Iorque
Regras de ouro: “If it looks like a duck, swims like a duck and quacks like a duck, then it probably is a duck”
Fascinada pela elasticidade dos contorcionistas, ambicionou ser artista de circo (trapezista), sonho que a acompanhou até à adolescência, quando o substituiu pelo de ser diplomata, profissão mais respeitável que a poupava a uma vida aborrecida e lhe permitia viajar pelo mundo - mas de avião e não a bordo de caravanas, acompanhada pelo homem bala, os leões domesticados e a mulher de barbas.
O destino não quis que ela fosse trapezista ou diplomata mas foi bondoso ao levá-la de visita a ainda mais sítios que Fernão Mendes Pinto, talvez o mais famoso dos nossos viajantes, se não contarmos com José Megre, com quem (era inevitável!) ela se cruzou, trabalhando na organização de expedições ao deserto.
Nascida em Novembro de 1970, Cristina é a mais nova dos três filhos do matrimónio entre uma assistente social e um advogado, e cresceu no Lumiar. Nunca foi muito de criar raízes, como o demonstra um percurso escolar onde Dona Amália, ES Lumiar e Mira Rio foram as escalas que se seguiram à Escola Alemã, escolhida para ela deixar de ser analfabeta devido à sua costela germânica – Ruth Kloss, a avó materna, era uma prussiana casada com um algarvio, que a poupou aos horrores da II Guerra ao decidir, em 1939, deixar os negócios em Hamburgo e embarcar com destino e Portugal, onde se dedicou à cortiça, em S. Brás de Alportel.
Desde cedo se habituou a ganhar o seu dinheiro. Aos 14 anos, estourou num jantar no Bairro Alto, com as amigas, o cachet da participação num anúncio da CP que publicitava uma espécie de Interail nacional (entrava para o comboio, punha-se à janela a dizer adeus e o comboio partia, nada de muito complicado).
Aos 16 anos fez um Interail pela Europa, que financiou trabalhando numa casa de chá em Londres, onde fazia tudo, incluindo varrer o chão, e recebia boas gorjetas. Em Lisboa, também serviu à mesa, foi modelo fotográfico, trabalhou na Parfois e vendeu trapos na loja da Alain Manoukian das Amoreiras – como é bom de ver, acabou o secundário a estudar à noite.
Como toda a gente lhe gabava a lábia, ainda lhe passou pela cabeça ser advogada, ideia de que desistiu logo que a mãe decidiu ir trabalhar para a Comissão Europeia. Fez as malas e partiu com ela para Bruxelas.
Na Bélgica, inscreveu-se em Ciências Politicas e foi baby sitter antes de começar a trabalhar na Fundação Friedrich Ebert, onde em nome do cooperação e do diálogo Norte/Sul, recebeu delegações africanas, organizou eventos, fez relatórios - e perdeu a vontade de ser diplomata.
“Quando estive em Bruxelas, todo o dinheiro que ganhava era para viajar. Quando não estava a trabalhar, estava a passear por todo o lado. Fui a toda a Europa, Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai. Fiz 20 anos a descer, sozinha a Península da Tailândia, de Banguecoque a Singapura”, explica Cristina, que escreveu sobre o Rajastão para a Elle, sobre a Nova Zelândia para o Público, e sobre a Roma à noite para o Semanário Económico.
Regressou a Lisboa com o curso na mão e a vontade de ser jornalista do Independente na cabeça, mas no entretanto conheceu um arménio que a convenceu a fazer uma revista de música erudita, inspirada na BBC Music, que durou cinco números. Trabalhou na Rotas & Destinos, na Nova Expansão e na Fortuna, foi directora da Meios & Publicidade até que, aos 30 anos, teve uma crise existencial. “Gostava de escrever e de editar mas senti que tinha de mudar de vida”, explica. Tinha chegado a hora de assentar. Pediu dinheiro ao banco e fez um Mestrado em Comunicação na Nova.
No final, em 2001, foi trabalhar para a João Líbano Monteiro & Associados. Passou pela EDP e PT, antes de ancorar no Santander, onde é directora de comunicação.
Jorge Fiel
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Filha de juíz, passou a infância e adolescência a saltar de cidade em cidade. Esta vida de saltimbanco habituou-a a adaptar-se à mudança e a ter facilidade em estabelecer novas relações, características que viriam a revelar-se utilíssimas na vida profissional desta engenheira alimentar que não consegue estar parada – até parece que tem bichinhos carpinteiros
Uma engenheira e cervejeira
que tem bichinhos carpinteiros
Idade: 44 anos
O que faz: Directora de Pessoas e Comunicação da Unicer
Formação: Licenciada em Engenharia Alimentar pela Escola Superior de Biotecnologia da Católica (1989) e pós graduação em Ciência Cervejeira, feito em Louvaine, na Bélgica
Família: Casada, tem uma filha de 15 anos, a Francisca, que quer ser arquitecta
Casa: Andar nas Antas, Porto
Carro: Carrinha Mercedes C 220
Telemóvel: Nokia E 52
Portátil: HP
Hóbis: Ler, passear, viajar, poder ter tempo para não fazer nada
Redes sociais: Facebook e Linkedin
Férias: Todos os Verões, fazem15 dias de férias na casa que têm em Caminha, onde também vão passado alguns fins-de-semana ao longo do ano. Ao Algarve é raro irem. As férias internas são sempre complementadas com uma viagem pelo estrangeiro. O ano passado andaram pela Toscana, Há dois anos pelos Castelos do Loire. Este ano o projecto é irem a Goa
Regras de ouro: O comboio não passa duas vezes
Quando vivemos o momento mais decisivo das nossas vidas raramente nos damos conta disso. No Verão de 1983, Joana estava de férias na Quarteira, sem saber o que fazer à vida, pois a sua média no 12º revelara-se curta para ir para Medicina.
“Olha, se fosse a ti olhava para este curso que está aqui anunciado”, disse-lhe um daqueles amigos de família que nos habituamos a tratar por tios, enquanto lhe passava o Expresso para a mão. Sentiu-se logo atraída pela licenciatura em Engenharia Alimentar que a Católica iria iniciar no Porto.
“Fiquei convencida. Combinava novidade, desafio e risco”, explica Joana, 44 anos, a mais velha dos três filhos de um juiz desembargador. Começara por sonhar ser médica, provavelmente por influência das bonitas histórias que ouvira do seu avô paterno, um médico de Valença de coração generoso (não cobrava aos doentes pobres).
O curso, que estreou com mais 23 colegas, não a desiludiu. Tinha muitos professores estrangeiros. O ambiente era bom. As matérias entusiasmavam-na. Ainda estudava quando começou a aplicar os conhecimentos durante um estágio na conserveira Amorim, da Póvoa de Varzim, onde ganhou dinheiro para comprar o primeiro carro: um Fiat Uno preto.
Era uma copinho de leite, que só tocava em cerveja durante a Queima, quando agarrou com ambas as mãos a oportunidade de fazer uma pós-graduação na Bélgica em Ciências Cervejeiras, patrocinada pela Unicer, uma das fundadores da Escola Superior de Biotecnologia.
Não ficou atrapalhada por viver sozinha para Louvaina, onde não conhecia ninguém, e estudar numa língua (o francês) que não sabia falar. Desde pequena que estava habituada a mudar de cidade, adaptar-se a novas escolas e a fazer novas amizades, pois passou a infância e adolescência a saltar sempre de um lado para o outro, acompanhando os destacamentos do pai. Nasceu no Porto, mas viveu em Lisboa e Loulé, antes de começar em Castelo de Vide a primária que concluiu em Felgueiras, onde iniciou o secundário, que continuaria em Cascais e acabou no Porto.
Esta vida de saltimbanco habituou-a a adaptar-se à mudança e a ter facilidade em estabelecer novas relações, características que lhe ficaram tatuadas no carácter e se viriam a revelar-se utilíssimas.
Regressada da Bélgica, foi logo trabalhar para o Departamento de Qualidade Industrial da Unicer, onde ficou responsável pelo projecto de certificação de qualidade da empresa.
Este processo desenvolveu-lhe a capacidade de comunicação e permitiu-lhe ficar a conhecer por dentro e por fora as pessoas e processos da cervejeira. No final, com a Unicer certificada, passou a acumular a responsabilidade do sistema de garantia de qualidade com a comunicação interna e externa.
A chegada de Ferreira de Oliveira à liderança foi sinónimo de maior exigência mediática, pelo que Joana passou a concentrar-se na comunicação. Com António Pires de Lima, teve de mais uma vez se adaptar. A Unicer emagreceu para sobreviver e prosperar nos novos e difíceis tempos, o que a obrigou a um esforço suplementar de comunicar, externa e internamente, “de forma transparente e autêntica” ,“um processo muito duro” de dispensa de cerca de 700 pessoas.
Concluído o downsizing, passou a acumular Comunicação e Recursos Humanos numa direcção que rebaptizou de Pessoas e Comunicação, instalando-se simbolicamente com gabinete com paredes de vidros. “Transparência é um ponto. Ser verdadeiro é um ponto”, explica.
Jorge Fiel
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Filha de uma doméstica e de um serralheiro, trabalhou no bar da piscina do Estoril Sol, apanhou morangos no Algarve e andou de lanterninha, no escurinho dos cinemas de Carcavelos, a encaminhar o pessoal para os respectivos lugares. Licenciada em Psicologia Social, fez recrutamentos, orientou acções de team building e viveu um ano em Nova Iorque até que num sábado, na praia, a leitura de uma revista inspirou-a a mudara de vida e criar a Pegada Verde, uma espécie de Amazon de produtos ecológicos
A psicóloga que virou empresária
por causa dos copos menstruais
Idade: 29 anos
O que faz: Sócia fundadora da Pegada Verde
Formação: Licenciada em Psicologia Social e das Organizações, curso de Marketing de Eventos na New York University
Família: Vive com o Sérgio (seu sócio e companheiro) e a gata Pitucha
Casa: Apartamento em Torres Vedras
Carro: VW Polo preto, de 1991, “é o meu primeiro carro”
Telemóvel: Nokia, “daqueles que recebem emails”
Portátil: Macbook de 13’’
Hóbis: Praticar shiatsu, uma massagem japonesa terapêutica (ela está habilitada para as dar pelos Estudos Avançados em Naturologia), e correr uma meia hora logo depois de acordar
Redes Sociais: Tem Facebook e está lá todos os dias a partilhar dicas com a seguidores da Pegada Verde
Férias: O ano passado foi complicado. Teve vontade de fazer um terceiro InterRail - o primeiro foi para o Norte (França, Bélgica, Holanda…), o segundo foi para o Sul (Hungria, Croácia, etc) - mas não pode por causa das andanças da empresa. “Estivemos com um banca dos nossos produtos no Festival de Danças do Mundo, em S. Pedro do Sul”. Este ano vai ser um InterRail, ainda são percurso definido, ou então vão revisitar Nova Iorque
Regras de ouro: “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”
Estava com uns amigos na praia de Stª Rita, em Torres Vedras, quando soube da existência dos copos menstriuais A Sábado trazia um artigo sobre o livro Dormir nu é ecológico, da jornalista canadiana Vanessa Farkuharson, que elenca uma medida ecológica para cada dia do ano, sendo que uma delas é o uso do copo menstrual.
“Mas que raio é o copo menstrual?” interrogou-se Sofia, uma psicóloga que trabalhava (mas já não recebia) de uma empresa de Recursos Humanos que balançava à beira do abismo. Como ninguém sabia, mal chegou a casa pesquisou a resposta na Internet.
O copo menstrual é um pequeno objecto de uso feminino, reutilizável e alternativo a pensos e tampões, que encerra vantagens não só para o planeta (reduz a quantidade de lixo) mas também para a saúde (não faz alergias nem irritações) e bolsa (custa 30 euros e dura dez anos) da utilizadora.
Convertida ao uso desta pequena maravilha, Sofia debalde se lançou numa peregrinação pelas farmácias em demanda do copo menstrual. Não havia. O eureka deu-se quando estava no café a conversar sobre isso com Sérgio, o seu companheiro (que estudou Gestão). Resolveram logo ali aproveitar esta lacuna, fazendo uma empresa para importar da Finlândia e distribuir no nosso país copos menstruais. Estava a nascer a Pegada Verde.
Filha de uma doméstica e de um serralheiro com oficina própria, Sofia nasceu em 1981, em Manique. Acabou o secundário em Carcavelos, após ter estudado nos Salesianos até ao 9º. Quando tinha 12/13 anos, por influência dos filmes da saga Indiana Jones, sonhou ser arqueóloga, mas quando chegou a hora de escolher optou por Psicologia, a conselho de um tio materno que trabalhava na Refrige.
O primeiro dinheiro ganhou-o aos 16 anos, nas férias grandes, a trabalhar no bar da piscina do Estoril Sol (“como não estava habituada a andar de saltos altos chegava ao fim do dia toda partida”), um gancho arranjado por influência de um tio paterno. Mais tarde, ainda andou de lanterninha na mão, no escurinho dos cinemas de Carcavelos, a encaminhar as pessoas para os respectivos lugares.
Em 1998, entra no ISPA, onde foi feliz. “Os melhores anos da minha vida foram os que passei na universidade”, confessa, declarando-se também satisfeita com o curso: “Não desvenda mistérios, mas permite-nos crescer e dá-nos sensibilidade”. Recém licenciada, passou o Verão a apanhar morangos no Algarve, antes de se lançar à procura de trabalho na área da sua formação. Fez recrutamentos e acções de team building, com um ano parêntesis em que ela e Sérgio trabalharam na nossa missão junto das Nações Unidas, em Nova Iorque, no âmbito da preparação e da presidência portuguesa da UE. Até, que, no Verão de 2009, estava na praia a ler uma revista e soube da existência do copo menstrual.
O copo menstrual é o principal, mas não o único produto do catálogo da Pegada Verde, que vende online e distribui por farmácias e supermercados biológicos produtos reutilizáveis tão diversos como fraldas, pensos de algodão ou garrafas da alumínio, cosmética biológica e o go girl, um truque (reutilizável) que custa 12 euros e permite às mulheres fazerem xixi de pé - e é de grande utilidade em festivais de música com casa de banho imundas. “As mulheres portuguesas estão a aderir aos nossos produtos. É sempre bom não as subestimar”, declara Sofia acrescentando que quer ser “uma Amazon dos produtos ecológicos”.
Jorge Fiel
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Começou por passar parte das férias da Escola Alemã a embalar peixe, a 8º graus centigrados, na sala de laboração da Gelpeixe. Depois de estudar Gestão, no ISEG, aprendeu a cultura IBM, passou por um gabinete de contabilidade e foi auditora. Aos 26 anos, sentiu que estava pronta para desembarcar na empresa feito pelo avô, pai e tio
De como Lídia conseguiu
apagar o selo de filha do patrão
Nome: Lídia Tarré
Idade: 30 anos
O que faz: Responsável pelo Marketing da Gelpeixe
Formação: Licenciada em Gestão pelo ISEG (2002), com pós graduações em Fiscalidade e Controlo de Gestão, no ISCTE
Família: Casada com um engenheiro informático, de quem tem um filho, o Gabriel, de quatro meses
Casa: Andar na zona da Expo, Lisboa
Carro: Honda CRV
Telemóvel: iPhone
Portátil: Sony Vaio
Redes Sociais: “Tenho consciência de que é importante estar lá, mas não tenho tempo”
Hóbis: Tem um piano em casa, onde de vez em quando toca peças de Debussy, Mozart ou Beethoven. Na adolescência teve aulas na Academia de Música Santa Cecília, no Lumiar, mas cedo percebeu que se queria ser boa pianista isso iria reflectir-se negativamente no rendimento escolar. Faz regularmente yoga, gosta de dar passeios na praia e passar fins de semana fora – e sempre que pode não perde os concertos dos seus artistas preferidos, como, por exemplo, Leonard Cohen
Férias: No Verão, faz normalmente uma a duas semanas de férias na casa da família, na Praia da Rocha. Viajar é uma paixão. Em 2009, o ano em que se casou, foi à Costa Rica antes de fazer a lua de mel no Sudeste Asiático (Tailândia, Vietname e Cambodja). Praga é o próximo destino
Regra de ouro: “Se deres um peixe a um homem vai alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar vais alimentá-lo toda a vida” (Lao-Tzu)
Desde que na adolescência passava parte das férias grandes a embalar peixe congelado, a 8 graus centígrados, na sala de laboração da fábrica de Loures, que Lídia sabia que a sua vida ia passar pela Gelpeixe. Só não sabia era quando.
Fundada em 1977, pelo avô Francisco (que tinha em Loures uma daquelas lojas onde se vende um pouco de tudo) , o tio Joaquim e o pai Manuel (que tinham acabado estudos e tropa), a Gelpeixe é três anos mais velha do que ela e a sua criação uma base estatística – a seguir a Japão e Islândia, Portugal é o país do Mundo com maior consumo de peixe per capita.
Lídia cresceu no Lumiar e fez o secundário na Escola Alemã, que além da fluência em alemão teve a grande vantagem de lhe ensinar que nem toda a gente no mundo tem os nossos valores e modo de encarar a vida.
Sempre viveu muito a Gelpeixe. “O meu pai sempre achou que devíamos passar pela sala de laboração, para merecermos o respeito das pessoas que lá trabalham e nos ajudar a passar por cima do selo de filhos do patrão”, explica Lídia, que fez de tudo menos serrar peixe. O primeiro dinheiro ganho a manipular a pescada ultracongelada foi direitinho para umas Levis.
Não teve dúvidas em escolher Gestão, curso feito no ISEG e concluído ainda com 21 anos. Sabia que mais tarde ou mais cedo iria desaguar na Gelpeixe, mas também sabia que primeiro tinha de fazer o tirocínio fora do ambiente protector da empresa familiar. “Expliquei ao meu pai que o primeiro emprego tinha se ser eu a consegui-lo”, conta.
Não foi só o primeiro, mas também o segundo e o terceiro. Debutou na DCSI, uma joint venture entre PT e IBM, instalada no Tagus Park, onde se deixou impregnar pela cultura típica de uma multinacional norte-americana. Um conselho do pai (“um bom gestor tem de saber ler um balancete”) levou-a a mudar-se para um gabinete de contabilidade, de onde transitou para uma empresa de auditoria que lhe abriu as portas do mundo das grandes empresas.
A decisão de que tinha chegado a hora de ir para a Gelpeixe foi tomada, entre pai e filha, numa calma noite da Primavera de 2006, num passeio à beira Tejo, na zona da Expo. O marketing estava a precisar de uma mãozinha e no percurso de quase cinco anos feito a solo, Lídia já tinha conseguido reunir competências e apagar o selo de filha do patrão.
Desembarcou em Loures no Verão e cedo fez o diagnóstico. Havia um canal aberto, de logística e distribuição, que podia e devia ser aproveitado para disponibilizar oferta de produtos sintonizados com as novas necessidades dos consumidores mais jovens e citadinos, que têm menos tempo e paciência para estar na cozinha – e não sabem ou não querem cozinhar.
Dois anos volvidos, começavam a desembarcar nas prateleiras dos supermercados, em embalagens apetitosas e com a submarca Gelpeixe Gourmet, os primeiros produtos da diversificação e sofisticação (sushi, filetes de espada preto…) introduzida por Lídia numa gama que se esgotava na pescada, tamboril, polvo e outros peixes congelados. Seguiram-se mais duas vagas. A submarca Delidu é um incursão na carne, com uma oferta de porco preto em várias declinações. E a Chef vai até às sobremesas.
Jovem mãe e consumidora citadina, com pouco tempo para passar na cozinha, Lídia tem aproveitado muito a nova gama de produtos que lançou na Gelpeixe. Lombos de espadarte Gourmet, pitta kebab e crepe de chocolate (ambos Chef) são os seus pratos preferidos.
Jorge Fiel
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Filho de uma enfermeira e de um funcionário do Inatel, cresceu entre Alcântara e os Olivais. No secundário esteve muito longe de ser o melhor aluno do D. Dinis. Endireitou a carreira escolar no ISCAL. Trabalhou nos serviços do IVA, na Coopers e em empresas de refeições e ketchup, antes de tomar contacto com o SAP e entrar no maravilhoso mundo da informática. Breve resumo da vida de um dos fundadores da ROFF
Como um rapaz dos Olivais chegou
ao 15º andar da Torre de Monsanto
Idade: 48 anos
O que faz: Ceo da ROFF
Formação: Bacharelato em Contabilidade e Administração, pelo ISCAL, e especialização profissional em Engenharia Informática (Técnico)
Família: Divorciado, tem um filho de 22 anos que estuda Economia no ISCTE
Casa: Andar em Telheiras, Lisboa
Carro: BMW X5
Telemóvel: Samsung com dois cartões, um português outro angolano, ambos sempre activos, “além de passar uma semana por mês em Luanda também recebo muitas chamadas de lá”
Portátil: Mac, “o Mário Oliveira (o O de ROFF) convenceu-me”
Redes sociais: Facebook (“sou obrigado, está lá toda a gente, mas actualizo pouco o perfil, normalmente vou lá só para ver o que o meu filho anda a fazer J”)
Hóbis: É raro falhar um jogo do Sporting em Alvalade, onde a ROFF tem um camarote (também tem na Luz, sendo que ambos os camarotes são acessíveis a todos os colaboradores da empresa, é só candidatarem-se) . Normalmente aproveita a semana por mês que tem de estar em Luanda, a trabalhar, para ir na 5ª anterior à noite e assim poder desfrutar de dois fins de semana , na casa duns amigos, no Mussulo
Férias: Em Agosto, passa sempre duas semanas de férias na Praia do Carvalhal (costa alentejana) onde tem casa. E todos os anos costuma fazer uma viagem com o filho. Em 2010 foi a Cluj, onde ele estava a fazer o Erasmus. Este ano devem ir aos Estados Unidos - “Está a ser negociado”
Regra de ouro: "Passa à frente, que atrás vem gente. O que importa é olhar para a frente e ter confiança nas nossas capacidades para resolver os problemas que inevitavelmente nos vão aparecer – e que serão bastantes"
“Se, quando eu tinha 25 anos, me perguntassem tu vais ser consultor informático, eu responderia logo que não”, conta Francisco Febrero, 48 anos, confortavelmente instalado, à frente de um Mac e de um chávena de chá, no seu gabinete envidraçado, no 15º andar da Torre Monsanto, de onde desfruta de uma vista de Lisboa de cortar a respiração.
É a partir deste gabinete, identificado à porta como Régie, que comanda o exército de 450 colaboradores (dos quais mais de 95% são licenciados) da da ROFF, líder no mercado de implementação de soluções SAP, com fábrica na Covilhã e escritórios no Porto, Paris, Estocolmo e Luanda.
Foi longo e sinuoso o caminho que trouxe até ao topo do mais alto edifício de escritórios de Portugal o filho do matrimónio entre uma enfermeira do Stª Maria (onde ele nasceu em 1962) com um funcionário do Inatel. A família Febrero, composta ainda por mais dois irmãos (Maria Gabriela e Pedro) beneficiava da profissão do pai para passa todos os anos belíssimas férias de Verão, a baixo preço, nas estâncias da Costa da Caparica, Albufeira, Foz do Arelho e Cerveira da antiga FNAT.
Estava a caminho dos 13 anos quando o 25 de Abril permitiu aos Febrero mudarem-se de Alcântara (o pai era o sócio nº 5 do Atlético, o tio era do rival Belenenses, mas ele puxou ao avô sportinguista) para os Olivais, um bairro que ele amou logo à primeira vista.
“Era um bairro muito bem construído - cheio de espaços verdes, onde podíamos jogar à bola ou à pedrada na rua - e habitado por gente de diferentes classes sociais, o que foi decisivo para o nosso crescimento como pessoas. Ainda tenho amigos dos Olivais”, conta Francisco, que fez carreira como guarda redes de andebol, modalidade em que foi campeão nacional da III Divisão e representou o Encarnação e Clube TAP.
A felicidade da sua adolescência foi apenas manchada por um desempenho escolar menos exemplar no D. Dinis, onde perdeu dois anos, o que exasperou o pai, que lhe arranjou um part time no 1º de Maio, o estádio do Inatel, onde passava os fins de semana a montar e manter a instalação sonora de suporte às actividades desportivas, biscate cujas receitas lhe sustentavam o vício do tabaco.
No ISCAL, endireitou a carreira escolar e no último ano já o vemos a trabalhar nos serviços do IVA, corrigindo (à mão) as declarações dos contribuintes. Passou pela contabilidade de uma empresa que fornecia refeições, antes de assentar, na Coopers & Lybrand, em 1987 (“na altura, havia só um computador por equipa”), que lhe abriu as portas de Angola, onde fazia a auditoria da Sonangol.
“Por estar fora, ganhava mais, o que dava um jeitão porque tinha acabado de casar e comprar carro. Além disso conheci gente e adorei o país”, explica Francisco, que ainda passou como controller pela Idal (grupo Heinz) que tinha a maior fábrica de concentrado de tomate da Europa, antes de, pela mão do cunhado, tomar contacto com o SAP.
A Sigil, de António Melo Ribeiro, foi a porta de acesso ao maravilhoso mundo da informática. Depois foi a viagem de montanha russa habitual nas tecnológicas. Em 1996, Melo Ribeiro vendeu a Sigil e montou com os seus melhores quadros a ROFF (R de Ribeiro, O de Oliveira, dois F de Francisco Febrero e do seu irmão Pedro), que começou a funcionar com cinco pessoas, na casa dele em Cascais. Quinze anos e muitas voltas depois, são 450, ocupam os dois últimos pisos do mais alto edifício de escritórios de Portugal e facturam 35 milhões de euros.
Jorge Fiel
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Foto Orlando Almeida
Filho de um chefe de cabina da TAP e de uma decoradora, este sportinguista extrovertido cresceu no bairro de Alvalade e estudou no Valsassina, onde decidiu trocar o sonho de ser deputado por uma carreira no marketing. Descolou na editora de livros escolares da Prisa, e fez escalas no Jornal de Negócios, Media Capital , Brisa e PT antes de aterrar na Bizdirect, da Sonaecom
O alfaiate de sistemas de informação
que em miúdo sonhou ser deputado
Idade: 37 anos
O que faz: Sales e Marketing Manager da Bizdirect
Formação: Licenciado em Comunicação Empresarial pelo Instituto Superior de Comunicação Empresarial
Família: Casado com Margarida (directora financeira adjunta no grupo ETE), têm três filhos: Matilde, cinco anos, Salvador, três, e Francisca, dois
Casa: Andar na Estrada da Luz, Lisboa
Carro: Carrinha Mercedes Classe E 250 CDI, “com três filhos pequenos, preciso de uma grande bagageira”
Telemóvel: iPhone
Portátil: Lenovo
Redes sociais: Facebook (“tenho lá a minha vida toda, a partir do iPad, estou sempre a actualizar o perfil”) e Linkedin
Hóbis: “O hóbi são os meus filhos. Sou o maior pai babado que há. Às 19h45 em ponto, levanto-me e vou para casa”. Também gosta de ler, de ir ao cinema e de ver futebol. É sportinguista, tal como a mãe e os três filhos (o pai e o irmão, Vasco, são benfiquistas), por influência do avô materno: “Lembro-me de passar a tarde de domingo com o meu avô em Santarém a ouvir na rádio as proezas do Manuel Fernandes e do Jordão, nos relatos dos jogos do Sporting”
Férias: Gosta do Algarve quando ele está cheio de gente e por isso todos os anos, em Agosto, alugam sempre a mesma casa, em Vilamoura, e durante três semanas desfrutam com a filharada das delicias do relvado, da piscina e da praia. O ano passado, ainda foram até Ibiza, no barco de um amigo
Regra de ouro: “Família e tranquilidade. Gosto de ter sucesso e sou muito ambicioso, mas tenho de ter sempre a mulher e filhos por perto. E tenho um sonho que é morar em Santarém”
“Quero ser deputado” era a resposta que dava quando tinha uns 13/14 anos e lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande. No entretanto, este sportinguista, extrovertido e optimista, mudou de ideias. Ao longo da sua agitada vida profissional tem superado as barreiras que lhe vão surgindo pelo caminho até se tornar uma espécie de alfaiate de sistemas de informação.
Ser responsável pelo marketing e as vendas da Bizdirect é a linha mais recente do curriculum que já vai gordo de um marketeer trintão que continua atento à coisa política. “Gosto de ver os debates no Canal Parlamento e estou sempre atento ao que se passa através da Sic Notícias, mas os políticos têm-me desiludido. A sua credibilidade e profissionalismo deixam muito a desejar”, confessa Bernardo, o mais velho dos dois filhos do matrimónio entre uma decoradora de interiores e um chefe de cabina da TAP.
Por via da profissão do pai, fartou-se de viajar. Tinha sete anos quando desembarcou pela primeira vez no Rio de Janeiro. E aos dez anos passaram todos o Natal em Nova Iorque.
Cresceu entre o bairro de Alvalade e Santarém, onde nasceu e estão as raízes da família materna. “Tive a sorte de passar a infância e a adolescência a brincar e a jogar à bola na rua com os meus amigos”, recordar Bernardo, que fez a primária no Colégio Inglês e o secundário do Valsassina (onde andam agora os filhos), onde percebeu que o marketing era o curso certo para quem alguém tão extrovertido como ele.
Em casa, os pais exigiam-lhe a máxima responsabilidade em troca da máxima liberdade, uma política que implicava não haver mesada, pelo que ele habituou-se de miúdo a ser poupado e a arranjar dinheiro para as férias e pequenos luxos.
Todos os anos, trabalhava nas iniciativas da João Lagos Sports, fosse a servir bebidas no bar VIP do Estoril Open em golfe, a conduzir um tenista, ou a levantar a cancela do estacionamento para o torneio de voleibol. “Ganhava-se muito bem”, revela.
A sua fama no capitulo da gestão e organização começou a construir-se quando a mãe lhe passou para a mão o cartão multibanco da conta para as despesas domésticas e a responsabilidade pelo governo da casa.
“No final do mês sobrava sempre algum dinheiro para mim”, afirma com um orgulho, acrescentando que a sua mulher ainda fica doida com a mania dele pela perfeição e organização, que o impede de recolher à cama se as almofadas do sofá estão desarrumadas ou os comandos não estão alinhados no sitio certo.
Após dois estágios curriculares (McCann e TVI) durante o curso, iniciou, há 15 anos, na Constância, editora de livros escolares do grupo Prisa, um percurso profissional agitado.
Na Lusomundo, planeou campanhas de promoção de filmes. Deu uma mão a Diogo Madeira, Tiago Cortês e Pedro Santos Guerreiro na montagem do Canal e o Jornal de Negócios. Na Media Capital, criou e ajudou a crescer o IOL e a Telelista. Na Brisa, foi o pai do Brisacess, que consistia em acrescentar valências ao identificador (pagamento de estacionamento e gasolina). Na PT trabalhou no desenvolvimento da oferta Megarede, sistema concorrente do Pay Shop. Até que em Setembro de 2010 se mudou de armas e bagagens para a Bizdirect.
“Estou rendido à Sonae. Aqui trabalha-se a 200 à hora. Estou a adaptar-me muito bem porque o grupo é como eu, muito focado e organizado”, conclui Bernardo, que sonhou ser deputado e acabou alfaiate de sistemas de informação.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Esteve quase a morrer à fome. Cursou Direito por causa da política, mas a sua experiência como advogado limitou-se ao divórcio de um amigo. Foi jornalista antes de se tornar empresário com negócios nos mundos têxtil, moda e eventos. Mas o sonho dele é ter um restaurante
Esteve quase a morrer à fome
e sonha ter um restaurante
Nome: Manuel Serrão
Idade: 51 anos
O que faz: empresário, com interesses na moda, têxtil e organização de eventos
Formação: Licenciado em Direito pela Católica de Lisboa (1983)
Família: Divorciado, tem uma filha de sete anos, que se chama Joana
Casa: Moradia em Nevogilde, no Porto
Carro: Mercedes SLK 2000
Telemóvel: Nokia N95
Portátil: Toshiba
Hóbis: Golfe, que joga todas as semanas (em média duas vezes no Inverno e três no Verão), normalmente na Estela, Ponte de Lima ou Montebelo (Viseu), sendo que os parceiros mais frequentes são os seus amigos Juca Magalhães, Souza Cardoso e Costa Lima. Também é um apaixonado por viagens, gastronomia e futebol - agora só para ver (tem um lugar de camarote no Dragão) e comentar (está em trânsito do Porto Canal para a TVI 24, onde substituirá o falecido Pôncio Monteiro)
Férias: O ano passado esteve uma semana na Córsega e outra em Vilamoura, ambas dedicadas à praia e ao golfe. Veio agora das Canárias, onde passou o ano. A rotina contempla uma semana de esqui em Baquera, nos Pirinéus, antecedida de três semanas de Ramadão, durante as quais, para equilibrar o peso só bebe água e só come legumes e frutas
Regra de ouro: “Sou feliz porque só sonho com aquilo que sei que posso alcançar, por muito trabalho que dê”
A culpa foi da política, para a qual despertou ainda adolescente no tórrido ano de 1975, quando começou a dar nas vistas ao ser preso pelo Copcon (a guarda pretoriana de Otelo), à porta do António Nobre, o único liceu do Porto onde a Associação de Estudantes não era de esquerda, muito por fruto do seu trabalho político como militante de Juventude Centrista.
“Escolhi Direito, porque era o curso da maioria dos políticos à época”, explica Manuel, 51 anos, que da sua travessia de cometa pela política guarda outra recordação forte, a noite que passou no Palácio de Cristal, no I Congresso do CDS, sitiado por manifestantes de esquerda.
Em miúdo, tinhaa em casa um pequeno laboratório, onde fazia experiências com pipetas, e chegou a encarar ser engenheiro químico, tal como o padrinho Fernando Serrão, catedrático de Química. Mas a política falou mais alto na hora da opção.
“A meio do curso de Direito apercebi-me que não era aquilo que queria e que deveria ter ido para Gestão. Mas não tive lata de pedir ao meu pai para começar outra vez tudo de novo”, confessa Manuel, que passou seis anos em Lisboa (os cinco da ordem, mais o propedêutico), instalado no Colégio Pio XII, onde foi colega de Fernando Seara.
Manuel Serrão é um rapaz de Paranhos, que veio ao Mundo na Ordem do Carmo. A Trindade não caiu, mas os dias seguintes não foram muito venturosos, já que definhava a olhos vistos e manifestava um feitio irascível. Valeu-lhe o arguto diagnóstico do pai, catedrático de Anatomia Patológica e conselheiro do Vaticano.
“O que o rapaz tem é fome”, declarou Daniel Serrão. Não conseguia mamar bem no peito da mãe, professora de Educação Física e portista militante, à diferença do marido, que nunca ligou a futebóis. Deram-lhe de comer como remédio e o bebé Manuel medrou até se tornar no forte rapagão que todos conhecem, com 1m85 de altura e uma data de peso.
Ainda andava no liceu, feito entre o D. Manuel II e o António Nobre, quando ganhou o seu primeiro dinheiro, passando os fins de semana a contar carros na Circunvalação, por conta da Junta Autónoma de Estradas. Um part time bem pago, 250 escudos o turno de oito horas, que ele aplicava em férias com os amigos, passadas entre Benidorm e o Algarve.
Em 1983, concluído o curso de Direito, regressou ao Porto e fez o estágio no escritório de João Lopes Cardoso, tratou do seu único caso como advogado (o divórcio do seu colega José Carlos Sousa, actualmente na Bola) e arranjou o primeiro emprego a sério, como jornalista de “O Comércio do Porto”.
Em 1987, casou pela primeira vez e trocou o jornalismo por um emprego mais bem remunerado na Exponor, onde iniciou uma bem sucedida carreira no mundo das feiras e desfiles de moda - além de estar ligado ao Portugal Fashion e de ser administrador delegado da Selectiva Moda (que promove o Modtissimo, a única feira têxtil que se realiza no nosso país) organiza a participação em feiras no estrangeiro de empresas da fileira do vestuário.
Além dos trapos e da presença na Comunicação Social (entre outras coisas é cronista do JN e dirige o Jornal Têxtil) alargou a sua actividade à organização de eventos (gastronomia e vinhos) e criou, em parceria com Tiago Neiva de Oliveira e Sousa Cardozo, a No Trouble, uma empresa de Business Angel. Mas na sua cabeça começa a ganhar forma o sonho de se dedicar de corpo e alma a um restaurante que seja um espaço de referência no Porto da comida tradicional portuguesa.
Jorge Fiel
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Para começar teve a sorte de ter nascido em 1965, o que o lhe permitiu ter 21 anos quando Portugal aderiu à CEE. Depois teve a sorte de não saber o que queria ser quando fosse grande, o que o poupou a grandes desilusões. Finalmente, quando acabava o curso de Física, teve a sorte de ter arranjado o primeiro emprego no pior sítio do Mundo, o que obrigou a fazer pela vida. Uma breve história da vida de um físico com cérebro matemático que fundou a Closer, consultora de tecnologias de informação
O físico que teve a enorme sorte
de ir parar ao pior sítio do Mundo
Nome: João Pires da Cruz
Idade: 45 anos
O que faz: Sócio gerente e partner da Closer
Formação: Licenciado em Física na Faculdade de Ciências de Lisboa (1989), fez também um mestrado em Engenharia Física. Está a concluir o doutoramento
Família: Casado, tem dois filhos, o João, 12 anos, que faz esgrima como o pai, e o Henrique, oito anos
Casa: Apartamento em Carcavelos, a 30 metros da praia
Carro: BMW 520 é o carro da empresa que usa. O dele é um Honda Civic, de 97, em que a mulher anda
Telemóvel: Blackberry, “daqueles que é só um telemóvel e não um computador”
Portátil: Compaq
Redes Sociais: Tem Facebook, que actualiza diariamente, e Linkedin
Hóbis: Treina esgrima duas vezes, no Clube Atlântico de Cascais. Também duas vezes por semana, à noite, faz um jogging de 11 km, no passeio marítimo, entre Carcavelos e Paço de Arcos
Férias: Este ano não fez férias. “Entre o trabalho, o doutoramento, o esgrima e os filhos, alguma coisa tinha de ficar de fora”, explica João, que aproveita os fins de semana e todos os tempos livres para escrever a tese de doutoramento. O ano passado fizeram praia no Carvoeiro, Algarve. Não costumam fazer grandes viagens ao estrangeiro porque ele odeia andar de avião (“dois dias antes começo logo a ficar nervoso”), e por isso só voa por motivos profissionais, nunca por lazer
Regra de ouro: "O saber não ocupa lugar. Quando alguém me diz que não sabe uma coisa, eu respondo: Então vai saber, porque o saber não ocupa lugar. Além disso faço sempre por não me atrasar. O meu orientador de tese, que é meio alemão, diz que eu sou mais alemão do que ele”
Aos 17 anos, quando acabou o liceu em Oeiras e se matriculou no curso de Física, não sabia o que queria ser quando fosse grande. “Os que sabem são os que têm as maiores desilusões”, explica João , 45 anos, um dos dois filhos (o irmão trabalha na Câmara de Cascais) do matrimónio entre uma educadora de infância e um empregado de escritório de uma firma de import/export.
Teve a fase de sonhar ser astronauta, como nove em cada dez rapazes da sua geração, e ainda lhe passou pela cabeça ser arqueólogo (efeito de ter conhecido um, na ilha do Pessegueiro), mas no final da adolescência, por influência do programa televisivo Cosmos, de Carl Sagan, decidiu inscrever-se em Ciências. “ Estava apaixonado pelo clima, geologia e geografia. Queria ser geofísico”, recorda. Cedo desistiu dessa ideia. No 3º anos optou pela área tecnológica.
Ao tê-lo em 1965, os pais nunca poderiam imaginar que lhe estavam a proporcionar o timing mais do que perfeito de ter 21 anos quando Portugal aderiu à CEE e passou a receber uma formidável enxurrada de fundos vindos de Bruxelas.
“Ganhei o triplo do meu antecessor. 250 contos em seis meses. Quando recebi o cheque, pensei que estava rico. Não descansei enquanto não encontrei um balcão do BPA para o depositar”, conta João, a propósito do primeiro emprego, como investigador estagiário num laboratório estatal, onde debutou quando andava o 4º ano.
“Tive a sorte de ter ido parar ao pior sítio do Mundo”, confessa, a propósito do laboratório onde ganhou o primeiro dinheiro. Como estava no pior sítio do Mundo, agarrou com ambas as mãos o convite para ir para a Fábrica do Braça de Prata trabalhar no desenvolvimento de um simulador de combate baseado em lasers, que passou da fase de protótipo para a de produto usado na instrução de soldados, em Mafra.
Demorou-se quatro anos nesta empresa do grupo INDEP, na altura próspera pois fornecedora ambos os lados do conflito entre Irão e o Iraque, “uma guerra de sonho, pois era longe, só morriam árabes, e, como tinham petróleo, pagavam bem e a tempo e horas”.
O projecto que desenvolveu no Braço de Prata era na área da electrónica, e aumentou-lhe a paixão pela programação que despertara desde quando recebeu um Spectrum 48K, a sublinhar a entrada para a faculdade.
Entre 1994 e 1995, quando estava a chegar aos 30 anos, a vida dele levou uma grande volta. Tirou a carta, comprou o primeiro carro (um R5 em 2ª mão, “que consumia metade da produção petrolífera do Iraque”), casou-se e desembarcou no admirável mundo da informática ao aceitar o convite para trabalhar na Praetor, uma software house que pouco tempo depois foi comprada pela Novabase.
“Tive finalmente a certeza de que estava a fazer o que queria. Gosto de coisas e neste sector há todos os dias coisas novas”, diz João, que se estreou como programador a trabalhar com bancos de negócios (como o BESI e DBI, que ainda hoje são seus clientes), que também estavam a dar os primeiros passos.
“Aprendemos juntos”, afirma João, que em 2002 saiu da Praetor/Novabase, para fazer, com mais três colegas, a consultora de tecnologias de informação KPI, onde esteve até 2005, ano em que fez 40 anos, deixou de fumar, começou a praticar esgrima, vendeu a sua parte na KPI (“quando se deixa de fumar a primeira coisa que vai ao ar é a paciência”) e fundou a Closer, que emprega 60 engenheiros informáticos, matemáticos e físicos num 14º andar das Amoreiras, com uma vista deslumbrante de Lisboa.
Jorge Fiel
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Demorou três anos a ter a certeza do curso que queria tirar, mas a partir dai foi sempre muito rápido nas decisões. Filho de engenheiros, foi para Economia porque sempre preferiu as pessoas às máquinas. Transferiu-se da Faculdade de Economia do Porto para a London School of Economics porque acredita que nada é difícil demais. Ganhou o primeiro dinheiro a organizar festas na discoteca Estado Novo. Agora, aos 23 anos, tem uma empresa chamada Página na Hora que vende sites prontos a serem postos no ar
Inventor da Página na Hora
debutou nas festas no Estado Novo
Idade: 23 anos
O que faz: Sócio fundador Página na Hora
Formação: Finalista na London School of Economics
Família: Quase casado
Casa: Moradia em Miramar (arredores do Porto)
Carro: Volvo C 30 (“obrigado pai”)
Telemóvel: iPhone
Portátil: Macbook Pro (“sou apaixonado pela Apple, quando for grande quero ser como o Steve Jobs”)
Hóbis: Ténis, um hóbi que partilha com a namorada, que conheceu na Católica e também é tenista. Durante uma dúzia de anos jogou no Clube de Ténis do Porto
Férias: Não gosta de praia e adora trabalhar em Agosto, o mês em que consegue fazer numa hora o que no resto do ano leva duas a três horas. Este ano esteve em Paris e Londres. Para o ano vai a Nova Iorque
Redes sociais: Está no Linked e no Facebook, mas não gosta muito. “As pessoas têm a tendência a confundir o que é viver a vida com viver a vida no Facebook. Isso perde um bocado o propósito. O objectivo devia ser aumentar a vida real, mas acaba por substitui-la”, lamenta
Regras de ouro: “Mais vale trabalhar pouco tempo, mas com qualidade”
O maior problema da sua vida surgiu-lhe no final do 11º ano, feito no Colégio Alemão. Como não sabia que curso seguir, lidou com a dúvida de forma sistemática. Fez sucessivamente o 12º ano nas áreas de Ciências, Artes e Economia até encontrar a resposta. Nascido em Janeiro de 1987, numa família de engenheiros, excluiu à partida seguir o caminho dos pais, ambos de Civil e professores da FEUP. “As Ciências Sociais atraíam-me. Sempre gostei mais de pessoas do que de máquinas”, lembra João, 23 anos.
“No SEBS tive uma professora inacreditável, a Silvia Amorim, que mudou a minha vida. Quando lhe contei que era a responsável por eu ter ido para Economia, ela pediu-me desculpa, a rir-se, acrescentando que não tinha sido por mal”, relata.
Um cartaz da London School of Economics (LSE) afixado numa parede da Faculdade de Economia do Porto (FEP) , ajudou-o a mudar ainda mais um bocadinho a vida dele. Um curso de seis meses era o produto oferecido, mas o cartaz pôs o João a pensar. Se aquele era o melhor curso de Economia da Europa, por que não obter lá o diploma, em vez de se contentar com uma estadia de meio ano?
“Um dos meus princípios é nunca acreditar que uma coisa é grande ou difícil demais”, explica. A média não era problema (tinha 18 valores). Escreveu a carta motivacional, foi à entrevista e conseguiu a transferência da FEP para a LSE. “Só tenho de ir a Londres duas a três vezes por ano. Assisto às aulas pela Internet e faço os exames no British Council. Qual foi a principal diferença que notei? Os ingleses são muitíssimo mais práticos que nós. O seu ensino é vocacionado para não perdermos tempo a tomar decisões num mundo rápido. Em Portugal há gente excelente e mentes brilhantes. O nosso maior atraso é a produtividade. Somos formatados para sermos muito pouco práticos”, diz.
Ainda não acabou o curso porque desde que, aos 18 anos, ganhou o seu primeiro dinheiro, organizando uma festa com o DJ Grouse na discoteca Estado Novo, nunca mais parou de trabalhar. “É uma sensação maravilhosa, nova e incrivelmente agradável, ganharmos o nosso dinheiro”, conta João, que se diverte a investir na bolsa americana. No dia em que falamos tinha feito o melhor negócio da sua vida, ao vender na 5º feira, com uma valorização de 62%, o pacote de acções da Horyoshi Worldwide que comprara na 2ª feira.
A ideia da Página na Hora surgiu-lhe ao ler no Diário Económico que, à boleia das recomendações da Agenda Digital da UE, o Governo português oferecia às empresas o domínio pt. Inspirado na ideia da Empresa na Hora, João pensou logo que “seria porreiro fechar o ciclo disponibilizando a preços módicos modelos de sites de fácil manuseamento”. Se bem o pensou, melhor o fez. Juntou no mesmo barco o director criativo João Proença e o programador Nikolai Danychyk e criaram a Página na Hora, que disponibiliza online um catálogo de 2500 modelos de sites, que vendem ao preço base de 100 euros, com gestor de conteúdos e alojamento incluído.
“É por eu ser leigo que o nosso produto é simples e intuitivo. É uma vantagem eu não perceber nada de programação. Se o cliente já tiver conteúdos, uma hora depois de comprar o nosso modelo já pode ter um site completo no ar”, garante João, que está a negociar a exportação do produto para os mercados polaco, croata, húngaro, venezuelano - e ainda não desistiu da ideia de convencer o Governo português a oferecer às PME as suas páginas na hora.
Jorge Fiel
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Nasceu nos States, cresceu em Leiria, estudou em Lisboa, mas foi em Madrid que fez nome na área das novas tecnologias, ao ser um dos pilotos da revolução informática do grupo Santander. Agora corre em pista própria e não desiste nunca de tentar surfar em cima de um futuro cada vez mais escorregadio e rápido a transformar-se em passado
Faz surf em cima de um futuro
cada vez mais escorregadio
Nome: Paulo Jorge Almeida
Idade: 48 anos
O que faz: Country manager para Portugal do portal cash back BeRuby. Consultor de Web e mobile marketing
Formação: Licenciado em Gestão
Família: Divorciado, tem uma filha
Casa: Andar em Entrecampos, Lisboa
Carro: VW Golf GTD, com 170 cv, “para cumprir os limites de velocidade”
Telemóvel: Blackberry
Portátil: Além do IPad usa um Air da Apple, leve como convém a quem faz pelo menos dois voos por semana para Madrid e Barcelona
Redes sociais: Facebook e Linkedin
Hóbis: Gosta de nadar e andar de bicicleta. “Tentei fazer surf , mas o meu peso e a prancha não chegaram a acordo”
Férias: No Verão passa sempre duas semanas em S.Pedro de Muel, onde tem casa. Este ano, fez também uma semana de praia na Falésia, no Algarve. A próxima grande viagem que tem planeada é ao Chile e Peru
Regra de ouro: "Sou como a Nokia: connecting people. O meu trabalho é fazer pontes, procurar sinergias”
Quis a vida que Paulo Almeida (aka Paulo Jorge) fosse um pioneiro. Por vias da carreira que fez no Santander, foi dos primeiros a entender a Península Ibérica como um único e grande mercado. As consequências estão à vista: é o country manager para Portugal do cash back portal espanhol BeRuby, tem uma namorada em San Sebastian e dois amores no futebol: Benfica e Real Madrid. “Sou dos que levam 5-0”, graceja, conformado.
Quis também a vida que ele fosse uma daquelas pessoas que nunca desistem de tentar adivinhar um futuro cada vez mais escorregadio e rápido a transformar-se em passado. O screentoo é a coisa mais à frente da sua carteira de novidades, uma aplicação permite entre a interacção entre emissor e receptor de um conteúdo televisivo. Se estou a ver o Lie to me no meu tablet posso satisfazer toda a minha curiosidade sobre a boa da Gillian Foster enquanto a Fox fica a par de informações mais finas sobre a audiência da série (quando e como eu vi, etc).
O empreendedorismo está no sangue deste gestor que nasceu em Hartford (Connecticut), durante uma passagem de cometa dos pais pelos Estados Unidos, após saírem de Angola no início da guerra.
Veio com três meses para Leiria, onde cresceu e ganhou a alcunha de Paulo da Superfresco, já que o pai, um self made man, era dono da fábrica que fazia as laranjadas e gasosas da marca Superfresco.
Após concluir o secundário, no colégio de freiras Cruz da Areia, chegou a tentar entrar em Medicina em Espanha, mas durante os três meses que viveu em Saragoça, para se preparar para os exames de admissão, descobriu que a cidade tinha atractivos bem mais excitantes que os estudos.
Mudou de agulha e veio para Lisboa fazer Gestão, instalando-se no Pio XII, onde fez amizade com Fernando Seara e Manuel Serrão.
Acabado o curso, como não queria regressar a Leiria, nem trabalhar no negócio da família (o pai tinha então uma fábrica de faianças em Aveiro), desatou a responder a anúncios até ser admitido como auditor júnior na BDO, onde teve como primeira tarefa comparecer na festa de Natal da firma, no restaurante Mónaco.
Demorou-se cerca de ano e meio pela BDO, até, em Maio de 1988, ser admitido com responsável pelo crédito de três balcões do BCI (antepassado do Santander Totta), o que implicava comparecer todos os dias, às nove da manhã, ao conselho de crédito, presidido por Francisco Veloso e onde tinham assento dois administradores.
Esteve no plano de expansão da rede do banco e na área internacional até que em 1992 desembarcou na área das tecnologias, o que lhe permitiu ser um dos pioneiros da introdução de novos produtos, como a banca electrónica e telefónica. Como o seu trabalho dava nas vistas (e ainda por cima falava bem espanhol), não demorou até ser chamado para o Madrid.
As acções dele estavam em alta junto de Botin, e por isso convidaram-no a esquecer Portugal e deitar âncora no centro corporativo do banco. Ainda hesitou, mas acabou por regressar, em 1996.
Dois anos volvidos estava fora do banco e lançado numa carreira na área das novas tecnologias, baseada nos contactos ganhos durante os anos em que foi um dos pilotos da revolução informática do Santander.
“Estou levemente arrependido. Mas não olho para trás. Nunca olho devemos questionar as decisões tomadas no passado usando informações de não dispúnhamos na altura”, conclui o gestor que ganha a vida com a Internet.
Jorge Fiel
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A falência da têxtil onde o pai trabalhava obrigou-o a interromper os estudos de Direito em Coimbra e a regressar a Santo Tirso onde vendeu Unos e Puntos para financiar os cursos de Psicologia e Gestão de Marketing que fez a estudar à noite. A publicação de dois livros de poesia e um de contos permitiu-lhe espreitar as portas do Paraíso. O sonho dele sempre foi viver da escrita e para a escrita. Cumpriu metade do sonho ao fundar as editoras Cão Menor e Novembro. Já só lhe falta ter tempo, dinheiro e disponibilidade de espírito para ganhar a vida a escrever
O ex-vendedor da Fiat
que é dono da Cão Menor
Nome: Manuel Andrade
Idade: 41 anos
O que faz: Empresário, proprietário das edições Cão Menor e Novembro
Formação: Licenciado em Gestão de Marketing, pelo IPAM, e em Psicologia Clínica pela Lusíada
Família: Casado (a mulher é secretária na antiga Reguladora), têm uma filha de quatro anos, a Maria
Casa: Moradia em Santo Tirso
Carro: Fiat Qubo
Telemóvel: Blackberry
Portátil: Toshiba (o mesmo que tinha fundou a editora)
Hóbis: O principal é a escrita, mas desconfia que não é uma profissão de futuro. Além de adorar ler e escrever, gosta de ir ao cinema e de futebol – é doente pelo FC Porto e todas as semanas joga com os amigos, no Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso
Férias: Por absoluta falta de tempo, há dois anos que não tira férias. “O trabalho chega a ocupar-me 16 horas por dia”, lamenta
Regras de ouro: “Nada se conquista sem trabalho, pelo menos para mim tem sido assim – não sei como é com os outros. O segredo é trabalhar mais do que o normal”
Se algures no ano passado, parasse num semáforo, em Penafiel, aguardando pelo verde para atravessar a rua, distraía-se durante o tempo de espera lendo frases do Saramago escritas na passadeira. Era uma das originais manifestações da Escritária, um festival multidisciplinar promovido pela Câmara local, em parceria com a Editora Cão Menor, de Manuel Andrade, que todos os anos homenageia um escritor lusófono vivo – em 2008, o ano de estreia, foi Urbano Tavares Rodrigues, em 2009 foi o Nobel português, este ano foi a vez de Agustina.
Viver da escrita e para a escrita é o sonho de Manuel, nascido em 1969 na terra que se celebrizou pela excelência dos seus jesuítas, filho do matrimónio entre uma auxiliar de educação e um empregado de escritório numa fábrica têxtil. Quando, durante os estudos secundários, feitos na Escola Secundária D. Dinis, chegou a hora de escolher o curso, optou por Direito.”Dizia-se que estava a dar”, explica.
A notícia e as consequências da falência da têxtil onde o pai trabalhava surpreenderam-no em Coimbra. Estávamos em 1989. Como não havia dinheiro para continuar a estudar em regime de exclusividade, regressou à base (Santo Tirso) e começou a procurar um emprego que lhe financiasse os estudos. Só tinha uma pequenina objecção: estava disposto a tudo menos vender automóveis.
Como é bom de ver, foi trabalhar para a Firmauto, concessionária Fiat, a vender Unos e Puntos, tarefa de que se desembrulhou com algum sucesso, acrescentando comissões razoáveis ao ordenado fixo. Dava para pagar livros e propinas, sobrando-lhe ainda dinheiro, bem como tempo e disponibilidade de espírito para escrever dois livros de poesia (Por esta avenida sem fim e Quadras deste lugar à margem), publicados pela Brasília Editora, e um de contos, Contos de Varziela, assinado com o pseudónimo Manuel de Varziela (os avós agricultores eram de lá), editado pela Campo de Letras, que lhe abriu uma janela para ele espreitar a felicidade.
Como nada tinha a perder, enviou dois contos traduzidos para a Follio, onde alguém gostou do que leu, decidiu publicar o livro em França e pagar-lhe para ler manuscritos de autores lusófonos e dar a opinião sobre se deviam ou não ser editados. Durou apenas meio ano esta República de receber para fumar e ler. Mas soube-lhe pela vida.
Quando acabou esta doce vida, ainda se dedicou-se à psicologia antes de se abalançar a cumprir uma das metades do seu sonhe fundando em Penafiel uma editora com duas chancelas - Cão Menor, onde se acomodam textos mais ousados e experimentais, e a Novembro, que, entre outras coisas, trás para a luz do dia dissertações de mestrado e teses de doutoramento: Começou na garagem e com um efectivo reduzido. “Era eu, o meu portátil e uma rapariga que à noite fazia o design dos livros”, conta.
Setenta livros e um best seller depois (Alma de Viajante, de Filipe Morato Gomes, que andou pelos tops da Fnac), acrescentou à edição iniciativas como a Escritária, a Plast&cina (festival multidisciplinar, em parceria com a Câmara de Lamego, que arrancou em 2009 com uma homenagem a Emília Nadal e prosseguiu este ano tendo José Rodrigues como tema) e o Concelho de Estado (parceria com a CM de Arcos de Valdevez inaugurada este ano com uma homenagem a Mário Soares), enquanto suspira por poder cumprir a segunda parte do seu sonho : viver de escrever e escrever para viver.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Filho de uma governanta e de um torneiro mecânico, foi futebolista no Castelo da Maia. Impressionado com as histórias da descoberta de potes na citânia de Alvarelhos, ainda encarou tornar-se arqueólogo - mas desistiu da ideia quando o convenceram de que se tratava de uma profissão sem futuro. No 12º deixou de estudar e começou a trabalhar como técnico na Betronic, empresa que instalava relógio de pontos. Até que há seis anos se aventurou a criar a Redicom, o arco íris no final do qual estão enterrados potes de ouro
O futebolista do Castelo da Maia
que sonhava com potes de ouro
Nome: Ricardo Moreira
Idade: 32 anos
O que faz: Sócio e director comercial da Redicom
Formação: Frequência do curso de Contabilidade do ISCAP
Família: Casado com uma psicóloga e assistente social, têm um filho de quatro anos, o Martim, que quando for grande quer ser como o pai
Casa: Moradia na Trofa, junto ao Parque da Cidade da Maia
Carro: BMW 3.20
Telemóvel: Blackberry
Portátil: Sony Vaio
Hóbis: Há anos que mantém activo um grupo de amigos (os Caça Mouros) que fazem BTT à séria, por montes e vales, em locais variados como o Gerês ou a Galiza. Também gosta muito de futebol , não só na bancada (é portista ferrenho) mas também no campo – não há semana que passe se jogar uma partida de futebol de cinco ou de sete
Férias: Tira férias várias vezes ao ano. No Carnaval vai sempre para a Serra da Estrela. Em Junho esteve em Amesterdão. De vez em quando aproveita o fim de semana para uma escapadela de turismo rural. No Verão fez praia no Dubai e veio encantado. No final deste ano vai à Lapónia mostrar ao Martim a terra do Pai Natal
Invejas: Usa Microsoft e Blackberry entre outras razões porque admira e inveja organizações que inventaram sistemas fechados e exclusivos, como a Apple e a Nespresso - e também o Facebook, mas este por ser uma fonte de improdutividade
Regras de ouro: “Os problemas surgem e existem para serem ultrapassados. Tenho sempre a atitude de minimizar as dificuldades, e, em vez de dramatizar os problemas, concentro sempre os meus esforços em descobrir como os vou ultrapassar”.
Santo Tirso, nos arredores do Porto, onde as pessoas ainda deixam o ticket do parquímetro do lado de fora do pára brisas e Ricardo vê vacas a pastarem, da janela do seu gabinete, situado em frente à Câmara, é um local improvável para ancorar uma tecnológica. Mas tudo tem uma explicação. Ele mora na Maia. Serafim Costa (o seu sócio na Redicom) é das Aves. Decidiram estabelecer-se a meio caminho.
Não foi linear o caminho que levou Ricardo a dar o grito do Ipiranga, a 4 de Julho de 2002. Tinha 26 anos e era solteiro quando aceitou do desafio do seu colega Serafim Costa para se despedirem da Betronic, onde ambos trabalhavam, para montarem uma empresa, na altura com o objectivo de fazerem páginas na Internet.
“O Serafim falou-me no sábado. Argumentou bem. Ele é bom na parte técnica e eu na comercial. Na 2ª feira entreguei a carta de demissão. Não trouxe nada. Só em despesas deixei lá ficar 2 500 euros”, conta Ricardo. Sair da Betronic, empresa especializada em relógios de ponto e sistemas de controlo de acesso, foi o maior alívio da sua vida: “Aprendi lá muita coisa, até o que não se deve fazer”
Filho mais velho do casal que resultou do casamento entre uma governanta e um torneiro mecânico, cresceu em S.Pedro de Avioso, onde logo de deixou atrair pela bola (foi defesa central nos juvenis e juniores do Castelo da Maia) e pela arqueologia, interesse despertado pelas histórias de descoberta de potes de ouro, ali perto, nas citânias de Alvarelhos. Quando percebeu que não ia ser um Eurico ou um Lima Pereira (a dupla de centrais do seu FC Porto) e o convenceram que arqueólogo não era uma profissão de futuro, passou a aprender informática e a interessar-se por tudo quando tivesse uma vertente tecnológica Esta paixão não passou despercebida aos pais, que aos 16 anos lhe deram o primeiro computador. “Tudo quanto os meus pais me deram foi com sacrifício, mas sempre com um objectivo. E eles viram que o computador iria ser um instrumento de trabalho”, explica.
Estava no 12º quanto tomou a decisão errada de deixar de estudar. Queria ser independente. Andou por aí com o nariz no ar, até que um dia estava num café e soube que no andar de cima estavam a fazer entrevistas para um lugar numa empresa que instalava relógios de ponto. A coisa interessava-lhe, devido à componente electrónica. Tentou a sua sorte e foi admitido, a ganhar 56.600 escudos. Começou como técnico e foi crescendo, enquanto estudava à noite, Chegou a director comercial e esteve meio ano em Madrid a consolidar a operação no país vizinho.
Até que em 2004, embarcou na aventura empresarial com Serafim, apesar do mau tempo que se fazia sentir. Guterres demitira-se e Durão declarou que o país estava de tanga. Não foi fácil. “Começamos do zero, Não tínhamos clientes. Foi preciso ter capacidade de sofrimento. Identificamos bem o nosso core business. Nós vendemos sonhos. Sabemos que estamos no caminho certo”, garante Ricardo, feliz por ter a Salsa como cliente (“uma loja online envolve muita complexidade e risco, mas é o futuro: Dentro de dez anos o o comércio electrónico vai valer mais do que o tradicional”), por terem dado um passo certo na internacionalização ao conceberem o portal que reúne toda a legislação angolana (vai estar no ar para a semana) e pela entrada no negócio do homebaking, ao conceberem o sistema usado pela Caixa Económica da Misericórdia de Angra do Heroísmo. Não é só nas ruínas arqueológicas que se encontram potes de ouro…
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
A primeira mulher a sentar-se à mesa do célebre almoço das 4ª feiras na Feitoria Inglesa, é a mais nova dos cinco filhos resultantes do matrimónio entre um sobrinho de Amadeu Sousa Cardozo com a filha de um coronel de Braga. Rapariga prática, pragmática e cheia de genica, fez o curso de Direito antes de desembarcar, há cerca de um quarto de século, no universo conservador e tradicionalmente masculino do Vinho do Porto
A miúda que não tinha mesada
e preferia executar a sonhar
Idade: 46 anos
O que faz: Directora executiva da AEVP (Associação das Empresas de Vinho do Porto)
Formação: Curso de Direito na Católica do Porto (1986), onde fez também uma pós-graduação em Economia Internacional
Família: Casada com Rui, professor de Direito Comuniário, de quem teve quatro filhos: Rui Maria, 19 anos (anda em Engenharia Civil), Francisco Xavier, 17 anos (anda no 12º), Sofia, 16 anos (anda no 11º) e Tomás de Aquino, 11 anos. “Só demorei uma semana em casa por cada filho. Não aproveitar as licenças de parto foi a única maneira de constituir família e manter-me num lugar como o meu, no coração de um sector”, explica
Casa: Vivenda na zona do Pinheiro Manso (Porto)
Carro: Volvo 90
Telemóvel: iPhone
Portátil: Sony Vaio
Hóbis: O trabalho não lhe deixa tempo para hóbis. Gosta muito de ler, mas só consegue fazê-lo de forma sistemática nas férias, ou em alguns dos fins de semana que passa com a família numa casa em Tábua, junto a Santa Comba Dão, que compraram e reconstruíram
Férias: Por norma, repartem o Agosto entre Tábua e Moledo, onde fazem praia e alugam todos os anos uma casa por 15 dias. Há anos que anda cheia de vontade de ir à Índia, mas ainda não conseguiu arranjar tempo para essa viagem
Regra de ouro:”Fazer tudo bem feito. Já que se tem que fazer uma coisa, faz-se bem feito. Gosto muito de trabalhar e de ter uma vida levezinha, ou seja ser feliz com pequenas coisas - e com o que tenho”.
Um dos mais exclusivos almoços que há em Portugal é o que reúne, todas as 4ª feiras, à volta de uma mesa oval da Feitoria Inglesa, os representantes das casas de Vinho do Porto, que após a refeição bebem um tawny, para lavar a boca, levantam-se, atravessam a porta que dá acesso a uma sala rigorosamente igual aquela onde estiveram a comer, onde se sentam no mesmo lugar onde estavam e continuam a conversa sem que o cheiro da comida perturbe a degustação do vintage.
Foi preciso chegar ao século XXI para uma mulher participar pela primeira vez neste célebre almoço na Feitoria. A honra coube a Isabel, a jurista que dirige a Associação de Empresários do Vinho do Porto (AEVP) e conhece por dentro e por fora o sector onde trabalha há quase um quarto de século.
“Já trabalhei com quatro presidentes do Instituto do Vinho do Porto, seis da AEVP, dois da Casa do Douro e um número incontável de ministros. Conheço os protagonistas todos. Desde que aderimos à CEE há poucas coisas que eu não tenha vivido neste sector”, diz Isabel, a mais nova dos cinco filhos do matrimónio entre um engenheiro da Sacor, sobrinho de Amadeu Souza Cardoso, e Maria do Patrocínio, filha de um coronel de Braga.
Cresceu em frente à praia de Leça da Palmeira, perto da refinaria onde o pai trabalhava, e frequentou o Liceu de Matosinhos, onde foi boa aluna e logo revelou um enorme à vontade de expressão e relacionamento, bem como uma notável capacidade de adaptação, duas das mais relevantes características da sua personalidade.
“Não construo sonhos. Sou mais de executar do que sonhar”, afirma Isabel, que tanto podia ter ido para Letras como para Ciências e acabou, aos 16 anos, por inscrever-se em Direito, opção que não constitui uma fuga à Matemática: “Dava-me melhor com os números do que com as abstracções jurídicas, o que levou alguns professores a dizer que se calhar eu teria feito melhor em ir para Economia”.
A seguir a um curso feito sem percalços, o estágio (no escritório de Miguel Veiga) e uma pós graduação, começou a procurar o primeiro emprego a tempo inteiro, pois desde o liceu se habituara a ganhar o dinheiro para os seus alfinetes, primeiro dando explicações, depois trabalhando num consultório médico, porque o pai não dava mesadas aos filhos, limitando-se a atribuir recompensas em dinheiro quando um dos filhos trazia para casa uma nota superior a 15 valores.
Com a legislação comunitária a bater à porta, por causa da adesão de Portugal à CEE, o Instituto do Vinho do Porto, então presidido por Leopoldo Mourão, pôs um anúncio a procurar um jurista. Isabel respondeu e foi contratada, demorando-se dois anos pelo Instituto, até um head hunter a desafiar a ir trabalhar com Carlos Moreira da Silva, nos projectos multimédia da Sonae.
O emprego era atractivo e o salário excitante - quatro vezes mais do que ela ganhava. Isabel teria mudado de vida se não se desse no entretanto o caso de ter vagado o lugar de director executivo da AEVP e dos amigos do Instituto a terem convencido a candidatar-se, com o argumento “já que te vamos perder, ao menos que fiques no vinho do Porto”.
Apesar de se tratar de um sector conservador e do enorme rol de candidatos (todos homens), o presidente da AEVP, Manuel Pintão, teve a coragem de a escolher a ela. Sabia que estava a causar um pequeno escândalo, mas também estava consciente de que o Vinho do Porto precisava de abrir as janelas.
Jorge Fiel
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Desde miúdo que está atento às oportunidades de negócio. Aos seis anos, investia a mesada em bolas de pingue-pongue e chicletes, que revendia com lucro aos coleguinhas da Escola Alemã. Ainda adolescente, estabeleceu os seus primeiros domínios na Net, vendendo a anunciantes o tráfego gerado por sites de envio de SMS gratuitas. Aos 29 anos, dirige a FixeAds, que lidera o mercado português de leilões virtuais e de venda de automóveis usados online
O miúdo que aos seis anos
já vendia bolas de pingue-pongue
Nome: Miguel Mascarenhas
Idade: 29 anos
O que faz: Director e accionista da FixeAds
Formação: Falta-lhe uma cadeira para concluir o curso de Gestão na Católica
Família: Solteiro
Casa: Apartamento em Benfica, junto ao Califa
Carro: Toyota Auris
Telemóvel: HTC com Android
Portátil: Toshiba Satelitte Pro
Hóbis: Desde o ano 2000 que abdica dos quase todos os hóbis para passar poder passar doze horas por dia a navegar na Net. “Tenho de estar atento a novos tipos de sites em novos países, mesmo naqueles em que não percebo a língua”, explica Miguel, cujo pequeno luxo é ir a concertos de bandas alternativas – o último foi o dos Interpol, no Campo Pequeno. Dantes não perdia um episódio dos Ficheiros Secretos. Agora, de vez em quando, ainda vê algumas séries de televisão, como o Dexter
Férias: “Poucas”, confessa. A pele, muito branca, revela que não é freguês. As últimas férias em grande que fez foram há dois anos, no México, e tiveram como pretexto assistir ao casamento de um familiar. De vez em quando vai passar um fim-de-semana a Londres, onde o seu irmão trabalha no site Lastminute.com
Regra de ouro:”A minha regra de ter regra de ouro. É muito perigoso ter regras de ouro, porque as coisas mudam cada vez mais rapidamente e quem tem regras de ouro arrisca-se a cair numa ratoeira”
Não era preciso ser um Einstein para ver que ele tinha queda para os negócios, pois aos seis anos, na Escola Alemã de Lisboa, já o vemos a tirar partido pessoal da variante oportunidade da lei da oferta e da procura, investindo a mesada em bolas de pingue-pongue e pastilhas elásticas que depois revendia, com lucro, aos coleguinhas.
Os óculos e a pele muito branca acentuavam-lho o ar desajeitado, mas era claro que aquele miúdo era fino como um coral e não lhe iria ser difícil desbravar o caminho na vida.
Filho de uma suíça (professora na Escola Alemã) e de um português (professor universitário, com consultório privado na especialidade de endocrinologia), que se conhecerem em Inglaterra, sempre teve uma enorme curiosidade em perceber como é que as organizações funcionam, pelo que decidiu estudar Gestão logo que soube que esse curso existia.
Aos 14 anos já passava horas no computador dos pais e, sempre que podia, escapava até ao cybercafé da esquina para navegar na rede que ia mudar o mundo.
Em 1999, com 18 anos acabados de fazer, estabeleceu o seu primeiro domínio na Net, o freeSMS, espreitando o facto das operadoras de telemóvel estarem a negligenciar o enorme potencial das mensagens de texto. O site era um entreposto que aproveitava o facto da TMN e Telecel não cobrarem as SMS, contanto que enviados por mail, e de haver ainda muita gente sem conta pessoal de email. A clientela deixava mensagem e o número de destino, e o site encarregava-se de a reenviar por email - e vender a anunciantes o caudal de tráfego assim conseguido.
Um ano depois as operadoras reagiram, obrigando Miguel a inovar. No seu segundo site (SMSfixe.net) oferecia como valor acrescentado milhares de mensagens tipo, arrumadas por categorias: malvadas (“Tu gostas é de uma coisa grossa, que pela ponta derrama um liquido branco, tu precisas é de um corrector…”), românticas (“Os pingos que caem da chuva molham a terra e regam a semente do amor por ti que eu plantei e cultivo no meu coração”), etc, etc. Era só escolher e enviar!
Na viragem do século, os pais despacharam-no para estudar Gestão em St. Gallen, mas ele só aguentou um ano no desterro suíço, longe dos negócios que prosperavam em Portugal. Negociou com os pais o regresso, dando como contrapartida a assunção da responsabilidade pelo financiamento dos estudos, que reiniciou na Católica, em Setembro de 2001.
Além de manter os sites, arranjou dois part time, no online do jornal Ocasião e no portal Alice.pt, até que em 2004, na sequência de um trabalho para a cadeira de Marketing 2, alargou a oferta com um site (Fixeland.com) que disponibilizava animais de estimação virtuais (a sereia é a mais procurada, sabe-se lá porquê…).
O grande salto em frente foi dado mais tarde, quando Miguel resolveu ser a locomotiva empreendedora de um projecto de que se falava recorrentemente no Ocasião mas sem nunca ir avante – a criação de um site de venda de automóveis usados.
O standvirtual.pt não demorou muito até tornar-se líder, o que levou a FixeAds, dirigida por Miguel, a lançar o Leilões.net (que já alcançou a liderança, ultrapassando o histórico miau.pt), e o coisas.com (um site de classificados que concorre com o Ocasião) - e a atrair a cobiça de um grupo holandês, ao ponto de comprar uma posição de controlo na FixeAds, onde ele (que já fez uma data de coisas antes de completar 30 anos) mantém 20% .
Jorge Fiel
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Cresceu no meio das flores que os pais cultivavam em Barcelos, sempre fascinado pelas cores, marketing e moda. Cantou as Janeiras para financiar as visitas de estudo, em que percorreu a Europa, enquanto fazia o curso de Engenharia Têxtil em Braga. Ainda deu aulas no Citex, antes de ser contratado pela Orfama para vender malhas fully fashion por esse mundo fora
Cresceu no meio das flores
a sonhar ser caixeiro viajante
Nome: António Cunha
Idade: 41 anos
O que faz: Sales manager da Orfama e coordenador de marca da Dom Colletto
Formação: Licenciatura em Engenharia Têxtil pela Lusíada de Braga, em 1994
Família: casado com uma comercial do Santander (“ela vende dinheiro, eu vendo camisolas”), de quem tem dois filhos: a Maria Francisca, dois anos, e o António Maria, quatro meses
Casa: Andar na zona da Constituição (Porto)
Carro: Peugeot 5008 de sete lugares, ao volante da qual faz 150 km/dia (onde pesam sobretudo as deslocações Porto-Braga-Porto) sempre que está em Portugal - “Todos os três anos troco de carro”
Telemóvel: Blackberry
Portátil: HP
Hóbis: Aos fins de semana frequenta o Holmes, que fica mesmo em frente de sua casa. Sempre que tem tempo, gosta de entrar em provas de todo o terreno com o seu velho Range Rover
Férias: Como passa uma boa parte do ano estrangeiro gosta de fazer as férias em Portugal e de variar sempre de lugar. Este ano, estiveram na Herdade dos Salgados (Albufeira). Em 2009 fizeram praia em Vilamoura
Regra de ouro: “Sentir que estou a dar o meu melhor no trabalho, para andar de consciência tranquila e chegar à noite e não precisar de tomar Xanax para adormecer ”
O sabor da nossa comida é uma das coisas que mais sente falta quando anda pelo estrangeiro, de mala de amostras na mão, a vender as camisolas produzidas na fábrica de Braga da Orfama, que factura 12 milhões de euros/ano a vender malhas fully fashion (ou seja, em uma só peça, sem intervenção de tesoura, sem corte e cose) para uma diversificada carteira de clientes onde avultam marcas como Armani Jeans, Lacoste e Antonio Miró.
António dorme mais de cem noites por ano em hotéis norte-americanos, alemães, argentinos ou italianos, e acumula milhares de horas de voo e de milhas, que apenas consegue gastar em upgrades. Mas não se queixa desta vida de moderno caixeiro viajante. Pelo contrário. Era isto que ele queria. Está sentado na sua cadeira de sonho.
Nasceu em 1969, em Pousa (Barcelos), ou seja na região onde bate o coração da nossa indústria têxtil, mas foi parar aos negócios dos trapos por vontade própria e não por herança ou influência familiar. Os pais, empresários agrícolas, produziam flores, de rosas a orquídeas, passando por cravos cuja procura cresceu exponencialmente após o 25 de Abril.
Cresceu no meio das flores, evidenciando precocemente talento para o marketing e uma atracção irresistível pelas cores. A mãe tratava das contas. O pai ocupava-se da parte técnica. Ele, logo desde o tenro início da adolescência, encarregava-se de dar palpites sobre como coordenar as flores e jogar com as cores para os arranjos terem um aspecto mais apelativo.
“Desde miúdo que sou fascinado pelas cores e percebi que num mundo globalizado para se ter sucesso é precioso diferenciar o nosso produto”, explica António, que ajudou a evoluir o negócio quando sugeriu ao pai que tingissem as flores na tonalidade mais procurada – os cravos vermelhos, por exemplo.
Após o liceu, feito no Sá de Miranda, em Braga, não teve dúvidas em inscrever-se em Engenharia Têxtil onde deu nas vistas integrando um grupo activo que organizava simpósios, com peritos internacionais, e viagens de estudo, que realizavam todos os anos nas férias grandes – a primeira foi a Itália, onde visitaram o Centro Cottoniero em Milão.
O financiamento destas viagens tinha duas origens. As empresas e centros visitados arranjavam-lhes alojamento e comida. As despesas da deslocação, feita em duas carrinhas de nove lugares alugadas (“como nos revezávamos no volante, andamos 24 horas por dia”), eram cobertas com o encaixe conseguido em Janeiro, quando eles andavam a cantar as Janeiras em casas bracarenses escolhidas a dedo.
O primeiro dinheiro ganhou-o quando passou para o 4ª ano e foi convidado pelo Citex para dar aulas de quatro cadeiras (Introdução à Engenharia Têxtil, Modelagem, Matérias Primas e Controlo de Qualidade), o que fez durante dois anos.
Mal acabou o curso, desatou a enviar currículos para empresas de vestuário, oferecendo os seus serviços de engenheiro têxtil para trabalhar na área comercial. “O que eu queria era ter contacto com a moda e viajar”, explica.
Um dia, estava a passar na rua Quinta de Santa Maria, em Braga, e olhando para a fábrica da Orfama, pensou para os seus botões: “Ora aqui está uma boa empresa para eu trabalhar” Deixou lá um currículo. Foi chamado e, após quatro entrevistas, admitido como responsável pelos mercados americano, australiano, alemão e sul africano. Foi há 15 anos e muitos milhares de horas de voo e de noites passadas em hotéis que chegou à sua cadeira de sonho.
Jorge Fiel
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Ainda não fez 30 anos, mas já perdeu a conta aos empregos que teve, desde que começou a ganhar dinheiro, aos 16 anos, na Zara do Oeiras Shopping. Um coup de foudre , em Dublin, na Páscoa de 2001, levou-a a viver três anos em Paris. Esteve ao balcão de uma perfumaria, fez coffrets de cosméticos, e angariou parceiros para as caixa prenda da Smartbox. Roída de saudades dos cafés Delta e da Super Bock, regressou a Lisboa. Preparava-se para voltar aos perfumes, quando lhe telefonaram de França, a desafiá-la a abrir a Smartbox em Portugal
A psicóloga de 29 anos que já perdeu
a conta aos empregos que teve
Nome: Filipa Guimarães
Idade: 29 anos
O que faz: Country manager da Smartbox
Formação: Licenciatura em Psicologia Social pelo ISPA, com especialização em Psicologia do Consumo
Família: Solteira
Casa: Andar na zona da Expo
Carro: Seat Ibiza, com 130 cavalos, que ela adora apesar de lhe dar alguns problemas – o último foi a suspensão partida
Telemóvel: iPhone
Portátil: Lenovo
Hóbis: Fica sempre sem jeito quando lhe perguntam como se diverte. Mas puxando por ela lá vai dizendo que gosta de conversar, ler, ir ao cinema, jantar em casa com uns amigos, de passar uns fins-de-semana por esse pais fora, em pousadas ou casas de turismo de habitação. Não perdeu um episódio de Friends, série de que tem em DVD todas as temporadas
Férias: As últimas foram no Algarve, duraram 15 dias e ela não esteve parada num sítio, vagabundeando de Sagres até Vila Real de Santo António, com escala no Alvor. Em trabalho, viaja regularmente para Paris, Barcelona e Milão, mas nunca aproveita para ficar mais um dia de férias, apesar de ter 55 dias acumulados para gozar. “Vou e venho sempre a correr”, diz, acrescentando: “Deve ser por causa das saudades do café Delta”
Regras de ouro: “As oportunidade perdem-se. Os erros corrigem-se. Aprendi com a minha mãe que devemos arriscar. Mais vale arrepender-nos do que fizemos do que ficar sempre na dúvida sobre o que poderia ter acontecido”
“Claro que sei!”, respondeu a Pierre Edoaurd, quando há três anos exactos o dono da Smartbox lhe perguntou se ela sabia fazer um business plan, depois de a ter desafiado a abrir a operação portuguesa desta multinacional líder no mercado do turismo de experiências.
Psicóloga, Filipa sabia diagnosticar uma depressão, vender perfumes, compor um atraente coffret de cosméticos e angariar parceiros para uma das caixas prenda da Smartbox (onde tinha trabalhado em Paris) - mas estava a milhas do que era fazer um business plan.
“Tu és maluca! Não vais conseguir fazer um business plan numa semana. As pessoas passam cinco anos na faculdade a aprender a fazer um”, disse-lhe, quase em pânico, Arthur, o namorado licenciado em Gestão, quando ela chegou a casa e lhe pediu ajuda. “A faculdade é para nos divertirmos com os amigos e andar nos copos. Eu estou a falar de aprender mesmo”, retorquiu Filipa.
Como é bom de ver, fez o business plan, cujo sucesso é aferível em números: no primeiro ano facturou três milhões de euros e em 2010 vai fazer mais de 12 milhões, vendendo 200 mil caixas prendas, em mil pontos de venda espalhados do país.
O caminho de Filipa foi sinuoso, mas o seu horizonte é radioso. Filha de um bancário do Borges & Irmão e de uma directora comercial da Oracle que tinha 19 anos quando a trouxe ao mundo, herdou da mãe a precocidade e o carácter desempoeirado.
Em miúda quis ser professora (“Era uma figura de poder”, explica) antes de se lhe ter metido na cabeça de que queria ser psicóloga criminal. Inscreveu-se no ISPA, onde corrigiu a rota, do ramo clínico para o social, mal concluiu que não estava disposta a passar o resto da vida a ouvir os problemas de bipolares, deprimidos, esquizofrénicos e ofícios correlativos.
O primeiro dinheiro já o tinha ganho na Zara do Oeiras Park, ainda adolescente de 16 anos: 40 contos/mês em troca da energia e boa vontade de fazer tudo com boa cara e eficiência, desde atender ao balcão até dobrar a roupa, lavar o chão e tratar dos inventários.
A vida dela levou uma volta na Páscoa de 2001, quando se meteu num avião para Dublin, para visitar a mãe (que a Oracle destacar para a Irlanda) e se apaixonou por um colega dela, o francês Arthur. Foi coup de foudre. Voltou, acabou o curso, fez um estágio na Publicis e assim que o namorado conseguiu a transferência, juntaram-se em Paris.
Arranjou emprego numa perfumaria de uma brasileira, na rue de Rivoli e desatou furiosamente a aprender francês. Em casa, fazia ditados, lia o jornal e seguia as novelas. No metro, estudava a gramática. Como não é de estar muito tempo parada num sítio, durante os seus três anos parisienses ainda fez coffrets de perfumes para a Lancaster antes de ir angariar parceiros para as caixas prenda da Smartbox.
Farta de uma vida metro/boulot/dodo, de ganhar mal, habitar num cubículo num 6º andar sem elevador – em que era um pesadelo levar as compras para cima e e esquecer-se de alguma coisa em casa era um drama – e roída de saudades dos cafés Delta e da Super Bock, regressou a Lisboa, onde passou por uma agência de marketing (“Não tinham andamento para mim”, explica) e estava de ir trabalhar na Clarins (“Adoro a indústria de cosméticos”, confessa) até que o telefone tocou. Era Pierre Edouard a desafiá-la para abrir a Smartbox em Portugal – e a perguntar-lhe se ela sabia fazer um business plan.
Jorge Fiel
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A luz fez-se na margem do lago Titicaca. A sua vida só faria sentido se ele fizesse algo de excepcional. Aos estudos de Economia, feitos entre Braga e a Florida, juntou seis anos na escola Sonae e três na BBDO, durante os quais afinou o projecto de pôr no ar um canal de televisão low cost, sem câmaras nem estúdio, com programação cultural alternativa. O júri do Prémio das Indústrias Criativas acreditou - e distinguiu-o. A Zon acreditou – e deu-lhe uma posição na plataforma cabo. O programa segue dentro de momentos
O homem que vai fazer um canal
sem gastar em câmaras e estúdio
Nome: João Bacelar de Vasconcelos
Idade: 32 anos (faz 33 para a semana)
O que faz: Empresário fundador da OSTV, prepara o lançamento de um canal cultural de televisão por cabo
Formação: Licenciatura em Economia na Universidade do Minho (2000)
Família: Vive com uma farmacêutica, de quem tem um João, com dois anos
Casa: Andar na rua da Boavista, a uma distância a pé da praça Coronel Pacheco, onde está instalado o cluster de Media do Porto (Curso de Jornalismo e escritórios da Lusa, Público e Grande Porto) e vai pulsar o coração do novo canal
Carro: VW Golf
Telemóvel: iPhone
Portátil: Mac (o mais barato)
Hóbis: Não tem jogado basquetebol, modalidade que praticou durante dez anos, como atleta federado, no Grupo Desportivo André Soares, onde apesar de não ser exactamente uma torre (mede 1m77) alinhava a extremo. Mas continua a fazer surf e a dar umas corridas. Vai regularmente ao cinema e a concertos. Gostava de ver mais televisão, mas a oferta é muito limitada. O Daily Show, de Jon Stewart, é o seu programa favorito, mas também petisca a Oprah e gosta de Mad Man e das Donas de Casa Desesperadas.
Férias: Este ano estiveram na Carrapateira, a fazer praia e surf. O ano passado, andaram pela Cantábria, no Norte de Espanha, mas foi horrível, estava sempre a chover, tiveram de se refugiar dentro do Guggenheim de Bilbau para terem um dia decente
Regras de ouro: “Não ligar muito ao que se diz nos telejornais. Tentar ser bem sucedido a fazer o que gosto”
Provavelmente a oferta da Zon não seria aumentada, no próximo trimestre, com um canal cultural de programação alternativa, se o padre Victor Melícias tivesse acolhido disponibilidade para partir como voluntário para Timor manifestada por um jovem recém licenciado em Economia chamado João Bacelar de Vasconcelos (o pai, Pedro, foi conselheiro da ONU em Dili).
A Sonae não cometeu o erro de Melícias e contratou-o para a Optimus, onde ele deu logo nas vistas ao criar e desenvolver o tarifário Zoom, a resposta da operadora 93 ao Yorn lançado pela Vodafone.
“A Sonae é uma grande escola”, declara João, acrescentando que em Portugal a universidade não é o sítio ideal para se aprender a trabalhar, ao contrário do que acontece nos EUA, onde estudou um ano (98) na West Florida University.
Após meia dúzia de anos na Sonae, resolveu mudar de vida. Pegou nas economias e na mochila e voou para o Peru, onde passou um mês. Tinha 29 anos e voltou com as ideias mais claras sobre que queria fazer na vida.
Depois do Machu Pichu, apanhou em Cuzco o autocarro para Titicaca, onde conheceu um par de repórteres free lance, Ana Sofia Fonseca e Jordi Burch, que tinham acabado um trabalho sobre as plantações de coca na Bolívia e recolhiam elementos para uma reportagem sobre o trabalho infantil na América do Sul.
Nas horas de conversa passadas na margem do lago, Ana e Jordi contaram-lhe, entre outras coisas, a viagem pelo país com um pequeno circo familiar e a experiência de viverem um mês no Bairro 6 de Maio. “Foi inspirador ouvir estas histórias e saber que havia gente com espírito tão aberto”, conta João, que ficou animado pela ideia de fazer uma coisa excepcional.
De regresso ao rectângulo, foi para a BBDO e mudou-se para Lisboa, onde viveu três anos e meio no turbilhão da transformação brutal em curso da oferta e do consumo global, que abala as fundações do negócio publicitário.
“Lemos os livros todos sobre Web 2.0 para tentar perceber as novas oportunidades no mundo digital”, explica João, que fundiu a ideia geral nascida no lago Titicaca com toda esta informação, começando a chocar o projecto de um canal open source (o os de OSTV), que surfasse em cima do boom de oferta cultural e de entretenimento, agregando e dando sentido à enorme quantidade de vídeos que agora são feitos e consumidos.
A OSTV é a tradução para algo economicamente viável de uma ruptura com os vícios e formatos do mundo analógico. O desafio é provar que para fazer um bom produto televisivo não é preciso ir a Cannes comprar programas caríssimos ou negociar jogos de futebol com Oliveira.
O ano passado, deixou a BBDO para pôr um ar um canal de televisão com sede no Porto, sem estúdios nem câmaras mas com uma programação cultural (o que não deixa de fora gastronomia e viagens), dirigida a um público adulto, fundamentalmente no escalão etário 18-35 anos.
O júri do Prémio das Indústrias Criativas acreditou nesta nova maneira de pensar televisão – e distinguiu-a com o primeiro prémio. A Zon também acreditou – e deu-lhe um contrato de três anos, numa boa posição (que ainda é segredo, tal como o nome do canal). Já só falta mesmo as audiências e os anunciantes demonstrarem que também acreditam.
“As marcas precisam de se associar a conteúdos culturais. Têm de ter assunto”, explica, optimista, João, acrescentando que até ao Dia D o efectivo da OSTV vai aumentar de dois para dez pessoas.
Jorge Fiel
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Filho de um alfaiate, ganhou os primeiros dinheiros com 13 anos ao balcão da Farmácia Miranda. Aos 16, começou a trabalhar no Papagaio de Carriche, o restaurante do tio António. Aos 18, foi para o Brasil ter com o irmão João. Demorou-se um ano a pesar ouro e diamantes até se formar como chef com os melhores cozinheiros franceses nos mais afamados hotéis do Rio. Estava feliz em Búzios, quando Bernardo, o irmão mais velho, precisou de ajuda para abrir um restaurante na Quinta do Lago. Ele e João meteram-se num barco e atravessaram o Atlântico à vela. A história resumida da vida extraordinária de um Jack Kerouac da cozinha
O Jack Kerouac da cozinha
que deitou âncora no Chiado
Nome: Miguel Reino
Idade: 48 anos
O que faz: Chef de cozinha e dono do restaurante Aqui Há Peixe (R. Trindade 18 A, Lisboa)
Formação: Frequência do curso Hotelaria e cozinha da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro
Família: Casado com Mafalda, uma portuguesa que conheceu no Rio (e que no restaurante se ocupa de dois pelouros estratégicos – a caixa e os doces), de quem tem três filhos, Marina, 20 anos, que estuda Comunicação, Filipe, 16 anos, e Martinho, 11 anos, um ás do skate
Casa: Andar na rua António Enes, em frente à Embaixada de Israel em Lisboa – “segurança não falta”
Carro: Tem um Honda Accord e um Fiat Cinquecento, dos originais (“comprei-o por 500 euros e nunca me deu problemas”), mas usa-os pouco, poeque de dia anda de mota (Honda PCX) e à noite de táxi
Telemóvel: Blackberry
Portátil: Mac Pro, “fartei-me da Microsoft, agora só quero Mac”
Hóbis: Velejar e fazer fotografia (tem duas Leicas)
Férias: Passam sempre uma semana no Algarve, em casa do irmão mais velho (Bernardo, aka Gigi). Este ano alugaram um barco em Palma da Maiorca e foram até Ibiza. Para o o ano planeiam voltar a fazer praia em Formentera
Regras de ouro: “Honestidade, humildade e qualidade”
Ter ficado órfão de mãe aos dois anos não é com toda a certeza um factor estranho à vida extraordinária e aventurosa que tem levado Miguel, o mais novo dos quatro irmãos Reino, nascido no Campo Pequeno, filho de Manuel, um alfaiate beirão com raízes na Aldeia da Ponte, povoação raiana que fica a pouco mais de um tiro de distância de Fuentes d’Oñoro, onde o IP5 desagua em Espanha.
“O pai tinha boa mão para a cozinha, para as sopas, os arrozes, o peixe frito. Apresentava-nos um prato diferente todos os dias. Nunca repetia”, recorda Miguel, cuja traquinice marcaria a adolescência. Aos onze anos, estava de férias na aldeia, e partiu as pernas ao cair desamparado do 1º andar. Foi sendo submetido a uma dúzia de operações, com óbvio prejuízo para o seu aproveitamento escolar. “Chumbei várias vezes”.
Ganhou os primeiros escudos aos 13 anos, dando uma ajuda ao balcão da Farmácia Miranda, mas o que o atraía era o laboratório das traseiras onde se manipulavam os medicamentos. Caprichou o destino que ele usaria o branco, mas a jaleca de cozinheiro e não a bata de farmacêutico, e que manipularia ingredientes – mas alimentos e não químicos.
A vocação revelou-se aos 16 anos, quando foi trabalhar para o Papagaio de Carriche, o restaurante do tio António, onde servia à mesa com uma simpatia que rendia (“o tio pagava-me 600 escudos/mês mas eu tirava um conto e 200 só em gorjetas”). Mas nem olhou para trás quando João (o irmão mais próximo dele, pois Bernardo, aka Gigi, é o mais velho), que em 75 emigrara para Rio de Janeiro, o desafiou-o a ir ter com ele.
No Brasil, a sua primeira ocupação foi pesar ouro e diamantes, vindos do garimpo no Mato Grosso, por conta de uma empresa de mineração em que o irmão tinha interesses. Um ano volvido, meteu-se a aprender a cozinhar à séria para poder tomar conta do restaurante de uma pousada que João comprara em Búzios. Após um primeiro estágio com o chef Claude Troigros no Le Petit Truc, passou pelas cozinhas do Sheraton e do Rio Palace, completando a formação na Universidade Estácio de Sá.
Levou uma vida boa a velejar em Búzios e cozinhar no Adamastor (assim se chamava o restaurante da pousada) até que Bernardo resolveu arquivar a carreira de corretor de seguros e abrir na Quinta do Lago o que seria o célebre Gigi.
João e Miguel meteram-se num veleiro e atravessaram o Atlântico (“cozinhei uma feijoada à brasileira para comemorar a passagem do Equador”) para ajudarem o mano mais velho a montar o restaurante . “O João tratava da caixa, o Bernardo era o Relações Públicas, e eu ocupava-me da cozinha”.
De então para cá, nunca mais parou. Sofreu um choque térmico quando se estabeleceu com um restaurante na Várzea de Sintra. Teve uma loja de crepes no Cascaishopping. Começou a viciar-nos numa novidade chamada picanha a partir de uma casa nas Janelas Verdes. Foi para a Comporta onde se demorou até considerar descabida a renda que lhe pediam. Ainda torceu o nariz a uma oportunidade que lhe ofereceram no Nordeste brasileiro, antes de passar um mês e meio a sofrer com o frio (“para gelar uma garrafa bastava pô-la cinco minutos cá fora”) em Cortina d’Ampezzo.
Após uma volta a Europa a bordo de auto-caravana, decidiu deitar âncora em Lisboa e abrir o Aqui Há Peixe, no Chiado.“ Só preciso de tachos, lume e matéria prima. Após 30 anos fora, estou a adorar estar em Lisboa. O que vou fazer a seguir? Sei lá! Eu sou um cigano”, conclui.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
O curso de Gestão foi feito no ISEG. A pós graduação completou-a durante os cinco anos em que esteve na KPMG. Mas a verdadeira iniciação ao marketing e gestão aconteceu no Verão de 93 quando passou as férias grandes a carregar malas de turistas num hotel em Albufeira e conseguia triplicar o salário com gorjetas usando um método pessoal elaborado a partir da teoria dos pescoços gordos. Uma breve história da vida do director geral da Grunenthal Portugal, um homem poupado que sempre gostou de andar depressa
O bell boy que sofisticou
a teoria dos pescoços gordos
Nome: João Simões
Idade: 34 anos
O que faz: Director geral da Grunenthal Portugal
Formação: Licenciado em Gestão pelo ISEG (1998)
Família: Casado com uma consultora da PWC, de quem tem um filho (o Manuel, que tem dois anos)
Casa: Andar no Lumiar, em frente à Quinta das Conchas (onde sempre que pode passa uns tempos de qualidade com o miúdo)
Carro: Audi AG
Telemóvel: HTC
Portátil: Dell
Hóbis: Gosta de correr, de jogar à bola com os amigos, de grandes almoços em família, e de viajar para destinos tão diferentes e longínquos como Tailândia ou Moçambique
Férias: A rotina é fazerem todos os anos uma viagem pela Europa e outra intercontinental. No Verão, o habitual é fazerem praia entre Tróia e Albufeira (onde vivem agora os pais dele). Este ano estiveram em Porto Santo
Regras de ouro: “Há uma frase de Peter Drucker que encaixa como uma luva na minha maneira de ser e estar: a melhor forma de prever o futuro é criá-lo”
No Verão de 1993, tinha ele 17 anos e carregava malas no Alfamar, em Albufeira, quando sofisticou a teoria dos pescoços gordos, o que não só foi proveitoso em termos de rendimento (“o hotel pagava-me o salário mínimo, mas eu ganhava o dobro em gorjetas”) mas também revelador das suas extraordinárias capacidades de marketeer que lhe viriam a proporcionar uma rápida ascensão na carreira profissional.
Era duro o trabalho de bell boy, porque à época as malas com rodinhas eram uma excepção, não a regra, e porque não raro tinha de transportar baús com mais de 20 quilos para estúdios no 3º andar, em edifícios sem elevador, distantes da recepção.
A teoria dos pescoços gordos tem um fundamento simples – os alemães mais gordos, de 40 ou 50 anos, bem na vida, dão mais gorjetas que os outros. Mas ele inovou em cima desta teoria baseada no princípio da segmentação, acrescentando-lhe o relacionamento. Enquanto transportava as malas de cara alegre, ia conversando com o cliente, dando-lhe dicas e pondo-se à sua disposição para tudo quanto melhorasse as suas férias algarvias. “Criava no cliente a vontade de dar a gorjeta – não a obrigação”, conta João, reconhecendo que esta experiência o ajudou muito a desembrulhar-se no mercado do trabalho.
Filho de um bancário e de uma farmacêutica, João fez-se homem em Faro, onde o pai foi colocado com director regional do BPA quando ele tinha 11 anos. Na hora de escolher o curso, hesitou entre seguir o caminho do pai (Economia) ou da mãe (Farmácia) antes de resolver ir para Gestão.
Desde miúdo que se habituou a ganhar e gerir o seu dinheiro. Os pais davam-lhe prémios pecuniários por ele arrumar o quarto e aspirar a casa. Aos 14 anos abriu a primeira conta no banco, que ainda existe, pois ele sempre foi um rapaz poupado. “Guardei esse dinheiro até aos dias de hoje. Não lhe mexo. É uma reserva moral”, explica.
No final do curso, feito no ISEG, recebeu como prémio um Seat Ibiza todo artilhado (ele sempre gostou de andar depressa) e foi trabalhar para a KPMG. Estávamos em 1998, o ano da Expo de Lisboa. “Foi como se me tivesse saído a sorte grande. Ganhávamos clientes uns atrás dos outros. Progredíamos muito rápido porque havia caminho livre à frente”, recorda.
O trabalho na consultora, onde teve a Pfizer como primeiro cliente, marcou o reencontro com uma velha paixão (o sector farmacêutico). Por isso não espanta que, após cinco anos na KPMG, tenha agarrado com ambas as mãos o convite de um head hunter da Heidrick & Struggles para criar de raiz a área de controlo de gestão da subsidiária portuguesa da farmacêutica alemã Grunenthal. “Sempre gostei de responder a desafios. Não mudei para ganhar mais dinheiro. Não é isso que me faz mover”.
Nos seis anos que leva na Grunenthal Portugal, ocupou diversos lugares até chegar ao topo (ele sempre gostou de andar depressa), com apenas 33 anos, mas nunca perdeu de vista os ensinamentos do Verão de 93: segmentar (especializou-se no tratamento da dor) e criar boas relações com todos os stakeholders (trabalhadores, doentes, profissionais da saúde, escolas e ministério). “Sou transparente. Não escondo, nem minto e faço questão de envolver todas as pessoas nos processos. O objectivo do trabalho que fazemos com os nossos parceiros é melhorar o tratamento da dor em Portugal. O lucro não é o objectivo, mas sim a consequência”, conclui o gestor que sofisticou a teoria dos pescoços gordos.
Jorge Fiel
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O avô era juiz e o pai advogado, mas ele decidiu ir para Engenharia para aprender a compor a máquina de costura Singer da avó, que estava sempre a avariar. Enquanto estudava, ganhou os primeiros dinheiros como modelo em campanhas publicitárias de alcatifas e margarinas. No final do Técnico, estagiou na EDP e deu aulas em Almada, antes de se apaixonar pelos computadores no Ministério da Indústria. Até fundar a Everis, passou pela IBM, Fujitsu e DRM Consulting
Ele sabe mudar a roda
do carro em andamento
Idade: 58 anos
O que faz: CEO da Everis, uma consultora multinacional com 21 escritórios em diversos países, de S. Paulo a Washington, passando por Roma, Buenos Aires e Varsóvia
Formação: Licenciado em Engenharia Electrotécnica no Técnico (1976)
Família: Casado com uma espanhola, têm quatro filhos bilingues e com dupla nacionalidade: Ana, 28, engenheira civil, Maria, 26, biomédica (trabalha na Siemens), Cristina, 24, que está a fazer mestrado em Arquitectura, e António, 17 anos, que vai fazer Economia. “Que língua se fala lá em casa? Cada um fala o que sabe”, graceja
Casa: Um andar na Infante Santo e uma casa na praia das Maçãs, onde passam os fins de semana
Carro: Carrinha Mercedes
Telemóvel: Blackberry
Portátil: HP
Hóbis: “A família. Aproveito o pouco tempo livre que tenho para estar com a família. Claro que gosto de ler, ouvir música e ir ao cinema. Mas o meu hóbi é a família!
Férias: O ano passado estiveram em Menorca – e adoraram. Este ano ainda não sabem: “Normalmente decidimos uma semana antes”, explica
Regra de ouro: Sustentabilidade. Tudo tem de ser sustentável. E também a atitude. A atitude faz a diferença
Para a SIBS, mudar de casa é bastante mais complicado do que contratar a Urbanos, pois gere uma complexa e sofisticada rede de transacções electrónicas que têm de estar operacionais 24 horas por dia nos sete dias na semana. Não pode parar.
Por isso, quando se tratou de mudar de instalações, Vítor Bento ligou a António Brandão Vasconcelos solicitando o apoio da Everis nesta delicada operação. Bateu à porta certa.
“Foi como substituir a roda de um carro em andamento”, resume António, partner e o CEO da Everis, que dirige as 230 pessoas que trabalham no 10 º andar do Atrium Saldanha, no escritório de Lisboa desta consultora multinacional, presente em onze países e especializada em tecnologias de informação.
A equipa da Everis cronometrou ao segundo 1600 diferentes actividades. Nenhum dos dez milhões de portugueses dependentes do multibanco deram pela mudança da SIBS. Ou seja, tudo correu bem.
Não foi uma linha recta o caminho que trouxe António desde o seu nascimento em Arouca (onde a importância da sua família se mede pelo facto da principal praça do concelho se chamar Brandão Vasconcelos), em meados do séc. XX, até à liderança, em 2004, da compra pelos quadros de uma antiga divisão da Fujitsu (DMR Consulting), operação que esteve na origem da Everis.
Logo em miúdo decidiu romper com a tradição de Direito que vigorava na família – o avô era juiz e o pai advogado, apesar de só ter exercido a profissão durante um ano devido a ter um feitio particularmente avesso a chefes.
António decidiu ir para engenheiro mecânico animado pelo louvável propósito de aprender a arranjar a máquina de costura Singer da avó que estava sempre a avariar. Foi para o Técnico, mas sempre que podia ia até à Cidade Universitária assistir a aulas de Direito, fascinado por esta disciplina usar um raciocínio lógico idêntico ao da Engenharia.
O primeiro dinheiro ganhou-o como modelo publicitário em campanhas de produtos tão diversos com pasta de dentes, margarinas ou alcatifas. “Pagavam mesmo muito bem”, recorda António que terminado o curso fez um estágio de seis meses na EDP e deu aulas no Secundário em Almada (substituição a uma grávida) até ir para o Ministério da Indústria, onde retomou o contacto com a Informática, a que tinha sido apresentado por uma cadeira semestral no Técnico.
Gostou. Não tardou mudar-se para o Ministério das Finanças, que tinha, em Alfragide, o Instituto de Informática, onde completou a formação nesta área. Até que, aos 33 anos, lhe surgiu a hipótese de ir trabalhar para a IBM, que à época era para um informático o equivalente ao Real Madrid para um futebolista ou treinador.
Instruído por um amigo, respondeu “system engineer” quando na entrevista lhe perguntaram o que queria fazer. E assim foi. Ficou engenheiro de sistema durante cerca de três anos até perceber estava a ser tonto, porque que fazia o essencial do trabalho e as glórias e as festas ficavam por conta do vendedor. Bandeou-se para a parte comercial.
Após seis meses na Big Blue, um head hunter levou-o para a Amdahl Fujitsu (de onde nasceria a DMR Consulting), onde além de hardware começou a tratar de projectos, como o do Banco de Portugal (que o contratou para ajudar a garantir a continuidade da actividade do banco mesmo após um terramoto que destruísse a sede em Lisboa liquidando sistemas e pessoas), onde ficou amigo dos quatro espanhóis que com ele lideraram a constituição da Everis, uma consultora que sabe mudar a roda de carros em andamento.
Jorge Fiel
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Aprendeu a tocar órgão aos seis anos e cantou versões em português dos grandes êxitos dos Abba num coro infantil, em Gaia, até que a epifania se deu no início da adolescência, quando o pai lhe deu uma colectânea dos Beatles: a música iria ser a sua religião. Aos 13 anos, compôs à guitarra a sua primeira canção ”Waiting for the Sun”, um prenúncio do nome da banda que lidera (The Weatherman). Além de homem do tempo, é também um empreendedor. A sua Poptones, nascida na incubadora de Serralves, faz logótipos musicais para empresas
The Weatherman já está
pronto a sair da incubadora
Nome: Alexandre Monteiro
Idade: 30 anos
O que faz: músico - ele é o The Weatherman, com dois álbuns gravados, Cruisin’Alaska (2006) e Jamboree Park at the Milky Way (2009) – criativo. “Não gosto de me auto-intitular empresário”, explica o fundador da Poptones
Formação: Curso de Som e Imagem, na Católica (Porto)
Família: Solteiro, vive com os pais e a irmã, que vai deixar um emprego temporário no aeroporto Sá Carneiro para começar a trabalhar com ele na Poptones
Casa: Uma vivenda em Gaia
Carro: Citroen C1 cinzento, com um autocolante da maçã da Apple colado nas traseiras
Telemóvel: Um Nokia dos baratos porque anda sempre a perder os telemóveis (o ultimo deixou cair num lago), com o clássico toque Trrrim. “Old school”, comenta
Computador: iMac
Hóbis: “A música é o meu hóbi e o meu trabalho” diz Pedro acrescentando que também gosta “de não fazer nada” e para isso nada melhor que um fim de semana na casa que a família tem no Gerês
Férias: Não tem rotina de férias. Apesar de não ser muito de praia, este ano vai passar uns dias com os amigos na costa alentejana. E neste preciso momento, aproveita o facto de ter dado na última 4ª feira um concerto não Cavern Club para passar uns dias em Liverpool, a terra natal dos seus ídolos (The Beatles)
Regra de ouro: Cita um verso de John Lennon, da canção Beautiful Boy, dedicada ao seu filho Sean (que já elogiou em público a música do The Weaterman) “Life is what happens to you while you’re busy making other plans”. E acrescenta: “Sou quase viciado em criar e ter ideias novas
Não é inevitável que as pessoas que telefonam para a sua empresa e têm a chamada em espera sejam obrigadas a ouvir uma vez mais a Primavera, de Vivaldi, ou quaisquer outros acordes de um trecho mais que batido do repertório clássico. Alexandre Monteiro e a sua Poptones estão aí para o ajudar a resolver esse pequeno problema, fornecendo-lhe algo de original e personalizado o que é adequado a um mundo onde a diferenciação é um valor em alta.
A Poptones faz logótipos musicais, o que, trocado por miúdos, quer dizer que compõe para o cliente uma música inédita, sintonizada com a imagem da sua empresa e em várias declinações, de modo a poder ser usada como a melodia que toca quando a chamada está em espera, mas também como toque de telemóvel, hino para consumo interno (ou externo), música de fundo para o site, de ambiente – ou até de elevador. E olhe que a festa não fica cara: 750 euros é o custo do pacote.
“Investigo as características da empresa-cliente, da sua marca e imagem, e componho a partir dessa pesquisa”, explica Alexandre, que está aberto a discutir o trabalho com os clientes e reafinar a versão inicial. “O meu primeiro cliente foi a Fundação de Serralves. A partir do exotismo do parque, escrevi uma melodia num só tom, com um toque meio oriental. Apresentado o trabalho, que era muito orquestral e bué expansivo, acharam que parecia a banda sonora das Mil e Uma Noites, pelo que eu fiz uma coisa mais leve”, explica.
Bebé nascido na InSerralves, a incubadora de indústrias criativas da Fundação de Serralves, a Poptones já está pronta a sair da incubadora e andar pelos seus próprios pés, estando a transferir as instalações para o Pólo de Asprela (Porto) da Católica, a universidade onde Alexandre concluiu, há seis anos, o curso de Som e Imagem.
Os logótipos musicais não esgotam a oferta da Poptones, que já fez música original para coisas tão diversas como um museu em Santarém, a farmacêutica Tecnifar ou os sapatos Dkode. Compor para spots publicitários ou a banda sonora original de um filme também faz parte dos planos de Alexandre, um rapaz que nasceu para a música, ou não fosse ele o The Weatherman, que esta semana actuou no célebre Cavern Club, em Liverpool, que foi a incubadora dos Beatles.
The Weatherman, o nome da banda que Alexandre lidera, acaba por ter uma relação curiosa com o titulo da primeira canção – “Waiting for the Sun” - que ele compôs, com 13 anos, na guitarra oferecida pelo pai, que agora está reformado mas à época trabalhava na contabilidade da EDP.
Aprendeu música ao mesmo tempo que a ler e a escrever. Aos seis anos já tocava órgão e durante toda a primária cantou num coro infantil as versões em português dos grandes êxitos dos Beatles, Abba, Beach Boys ou Rolling Stones. A epifania, o momento único e inspirador em que percebeu que a sua vida iria ser dedicada à música, foi no início da adolescência, quando o pai lhe ofereceu uma colectânea dos Beatles. Começou logo a compor, enquanto aprendia a tocar guitarra. “Como me aborrecia estar a aprender com as músicas dos outros, comecei a compor e a gravar em cassetes”, explica Alexandre, que ouve ou faz música desde que acorda até que se deita. Como tem a mania da adormecer a ouvir música (indie, pop ou alternativa) no seu iPod, é frequente ter de acordar a meio da noite para tirar os fones e desligar o aparelho.
Jorge Fiel
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Marta Moreira. Esta é a história de uma rapariga da Linha de Cascais que estudou no Liceu Francês e teria ido para Medicina se a média de 15 valores com que concluiu o secundário não fosse curta demais. Em boa hora optou por ir estudar Engenharia Alimentar para o Porto, um curso que lhe abriu a porta de duas multinacionais. Primeiro esteve seis anos na Matutano, grupo Pepsi. Mais tarde mudou-se para a McDonald's, onde ao cabo de dez anos, foi promovida a responsável pela qualidade de 1400 restaurantes da Europa do Sul
Nome: Marta Moreira
Idade: 40 anos
O que faz: Gestora de qualidade da McDonald’s em Portugal e na Europa do Sul (Espanha, Itália, Grécia, Malta, Marrocos, Suiça, Bélgica e Holanda)
Formação: Licenciada em Engenharia Alimentar (1995) pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica
Família: Casada com um arquitecto, de quem tem dois filhos, o João Maria, que tem oito anos e joga golfe no Belas Clube, e a Carminho, quatro anos
Casa: Andar em Paço de Arcos, com um terraço de 120 metros quadrados, onde os filhos andam de bicicleta e o cão (um labrador preto e enorme) tem a sua casota
Carro: Mazda 5 (monovolume)
Telemóvel: Blackberry
Portátil: HP (o pessoal é um Mac)
Hóbis: Tem muito pouco tempo livre para hóbis. Como viaja pelo menos duas vezes por mês, aproveita o tempo que passa em aviões e aeroportos para ler. Os últimos autores que leu foram Isabel Allende e Miguel Sousa Tavares. Ao fim de semana, quando não está a fazer de chófer dos filhos, vai ao cinema e anda a pé ou de bicicleta na Marginal
Férias: No Verão, passam uns dias em Moledo (a família do lado dela tem lá casa) e outros em Figueira da Foz (é o sítio da família do marido) antes de fugirem do nevoeiro, água fria, vento e chuva, instalando-se 15 dias no Algarve (Prainha). De ve3z em quando fazem uns fins-de-semana prolongados no estrangeiro – os últimos foram em Barcelona e Paris
Regra de ouro: “Sou honesta e sincera. Estou muito feliz por ter uma equipa excelente porque detesta trabalhar com pessoas incompetentes”.
A engenheira que controla
frescos, fritos e grelhados
O ponto crítico é a temperatura. Não a temperatura do ar, porque Marta não trabalha no Boletim Meteorológico, mas a temperatura a que os alimentos são conservados e cozinhados, pois ela é a responsável máxima pela qualidade de toda a comida servida nos 1400 restaurantes McDonald's da Europa de Sul, região com contornos geográficos curiosos, pois Bélgica, Holanda e Suíça são três dos nove países que integram esta espécie de albergue espanhol.
“A temperatura é o ponto fulcral. Não só a temperatura a que os alimentos são armazenadas, mas também a que são cozinhados. Para ser segura, a carne tem de ser grelhada a 69º ”, explica Marta, acrescentando haver nuances em relação aos fritos. A UE aceita que o óleo atinja os182º, mas a nossa legislação portuguesa é mais exigente, estabelecendo um tecto de 180º. “Como na McDonald's não gostamos de trabalhar em cima dos limites, fritamos a 178º, para ter margem”, esclarece, antes de referir os funcionários nos restaurantes estão obrigados a lavar as mãos de meia em meia hora (o que explica a manga curta dos uniformes) porque a higiene é o segundo ponto crítico.
O baptismo na McDonald's deu-se com uma sandes de frango (McChicken), quando ela tinha 18 anos, num restaurante em Filadélfia, onde o pai, oficial da Marinha de Guerra, estava colocado. No entretanto, o Royal Deluxe (e às vezes o M) passou a ser a sua sandes preferida.
Marta sempre viveu em Paço de Arcos. Estudou no Liceu Charles Lepierre, o que se compreende pois a mãe dava aulas de Português e Francês, e só se virou para as engenharias quando constatou que a sua média no secundário (15 valores) era curta demais para Medicina. Calhou escolher Engenharia Alimentar no Porto (onde viveu seis anos, partilhando um T2 na Foz com uma prima) e hoje está satisfeitíssima por estas opções.
No final do curso, a seguir a um estágio de seis meses em Reading, Inglaterra, na área dos vinhos, desatou a mandar currículos para todo o lado até que a chamaram da Matutano (grupo Pepsi) para um período de experiência no sistema de segurança alimentar. “Gostei muito de trabalhar na produção, a aplicar todos os conhecimentos aprendidos na Faculdade”, conta. A melhor prenda que recebeu no dia em que fez 25 anos foi dizerem-lhe ia ficar e com um contrato melhorado. “Até essa altura, o dinheiro que ganhava ia todo para a gasolina e para as portagens, nas viagens de ida e volta até ao Carregado”, lembra Marta, que logo trocou o Uno a cair de poder por um Punto novinho em folha.
Foi feliz e progrediu muito na carreira durante os seis anos em que se demorou pela Matutano. O único problema é que não raro entrava às oito da manhã e só saia às onze da noite. “Tive de sair de lá para me casar”, graceja. Mas apesar da carga horária pesada e de continuar solteira, Marta não estava muito convencida de que queria mudar quando uma caçadora de cabeças a desafiou a ir para consultora de qualidade na McDonald's, que como agravante ficava ao pé da porta dela, em frente à praia de Santo Amaro de Oeiras.
“Foi uma decisão complicada, porque profissionalmente estava muito bem na Matutano”, diz Marta, que arriscou trocar uma multinacional por outra - aos 40 anos ela não sabe o que é trabalhar para o Estado ou uma empresa nacional. Onze anos depois, olhando para trás, tem mais uma vez a certeza de que tomou a decisão certa. She is lovin’it!
Jorge Fiel
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Neta de Vasco Morgado, cresceu nos bastidores do Monumental, a ver a avó, Laura Alves, no palco, em revistas, operetas, comédias e dramas. Trabalhou no sector financeiro, enquanto estudava Economia. Tinha 27 anos e estava na Cofaco quando a vida lhe pregou a partida de lhe dar um filho com paralisia cerebral, forçando-a a trocar as conservas de atum pela edição de livros para crianças
Idade: 39 anos
O que faz: Director geral da Edicare
Formação: Licenciada em Economia pela Lusíada, em 1995, fez posteriormente uma pós graduação na Católica em Finanças Empresariais
Família: Casada com um economista, de quem tem dois filhos, o Zé Maria, 13 anos, e o Frederico, 12
Casa: Andar na Lapa, Lisboa
Carro: Deixou de ter carro desde que há dois anos lhe roubaram, à noite em Telheiras a sua Nissan pick up, que nunca mais apareceu. Ainda encarou a hipótese de comprar um Smart, mas como não cabia lá dentro a cadeira do Frederico e a sede da Edicare fica no mesmo bairro em que mora, decidiu passar a andar a pé, poupando nas multas de estacionamento, revisões, seguros e gasolina
Telemóvel: iPhone
Portátil: Toshiba Qosmio
Hóbis: Acima tudo gosta de ler (“Indignação”, de Roth, era o livro que tinha na mesinha de cabeceira) e de reler, sendo que a morte recente de Frank McCourt foi o pretexto para revisitar “As Cinzas de Ângela” - “uma história lindíssima”, não resiste a comentar. Vai regularmente ao cinema, nas Amoreiras, e ao ginásio. E adora jogos de estratégia, em particular Rome e Medieval
Férias: No Verão fazem quinze dias de férias na praia Verde, em Tavira, em que leva oito crianças. Para este ano estão a planear aos Estados Unidos, hesitando entre Miami e Chicago
Regra de ouro: “As pedras no caminho quero-as todas para um dia construir um palácio. Temos de saber dar tempo às coisas, sermos persistentes e perceber que sai caro não dizer as coisas no momento certo”
A vida pregou-lhe uma partida quando ela tinha 27 anos, marido, um filho bebé e uma promissora na área financeira da Cofaco, o maior grupo industrial conserveiro português.
Para trás, tinha uma existência preenchida, como não podia deixar de acontecer à mais velha das netas de Laura Alves e Vasco Morgado, crescida na órbita do Monumental e desde cedo habituada a tratar por tu as alegrias e tristezas da vida - fossem elas sentidas nos bastidores ou fingidas nos palcos.
Com as desventuras empresariais do pai e o seu divórcio da mãe, aprendeu que a vida não é um mar chão e precocemente começou a desembrulhar-se. Aos 17 anos, já a vemos a viver sozinha, hesitando entre Economia ou Arquitectura e sonhando com uma carreira internacional.
Dois anos depois, arranjava, sem querer, o primeiro emprego, ao meter uma cunha ao padrasto para que o banco onde ele administrador (BPA) lhe emprestasse 600 contos para ela comprar um computador IBM. Em alternativa ao crédito, ele arranjou-lhe um emprego na Credinova.
Fez o curso de Economia sempre a trabalhar. Trocou a Credinova pela Unicre, onde ganhava mais e tinha um trabalho mais interessante, e ainda passou pelo BCM. A excepção foi o último semestre, em que foi estudante a tempo inteiro para fazer a cadeira Econometria.
Acabado o curso, meteu logo as mãos na economia real, Foi para a Cofaco, um grupo conserveiro (Bom Petisco, Atum Tenório) açoriano que aproveitava os fundos comunitários para proceder a uma profunda reestruturação interna, que inclui fechar fábricas velhas, abrir novas e despedir pessoal.
Foi nesta altura que a vida lhe pregou a partida de Frederico, o seu segundo filho, nascer com paralisia cerebral. Durante alguns anos, tentou conciliar o controlo de gestão de um grupo em ebulição com a aprendizagem de como lidar com uma criança com necessidades especiais. Aos 33 anos concluiu que as duas coisas eram incompatíveis e foi para casa. Aprender a cuidar do filho e a militância na direcção da APPC (Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral) eram as suas novas prioridades.
“Não dava mais para manter um emprego por conta de outrém”, explica Mafalda, que como percebeu que para garantir o seu equilíbrio precisava de fazer outra coisa, optou por antecipar o subsídio de desemprego e criar uma editora, juntando a sua paixão pelos livros com os conhecimentos adquiridos pela necessidade de cuidar do Frederico.
Demorou dois anos a desenhar o projecto e o plano de negócios. Como estava a preparar a entrada num sector com uma concorrência fortíssima, não podia deixar nada ao acaso, nem copiar nada de existente. Em 2005, a Edicare Editora Lda começava a facturar.
A coisa está a correr bem. Com uma estrutura pequena (“somos sete, a caminho de oito, mas bem precisávamos de ser 12”), facturou em 2009 1,1 milhões de euros e mantém activas 900 referências de livros, passatempos e brinquedos educativos.
Pelo caminho, fez correcções da rota. Dada a estreiteza do nosso mercado, teve de deixar cair a grande aposta inicial nos produtos para crianças com necessidades especiais e guias para os seus pais. E foi obrigada a criar a sua própria distribuidora. Apesar disso, está a atingir os objectivos traçados no plano de negócio e acredita que este ano vai ser muito bom. “O truque é ser persistente e, às vezes, não pensar muito senão não se faz”, concluiu Mafalda, a gestora que a vida transformou em empresária.
Jorge Fiel
Esta matéria foi publicada no Diário de Notícias
De origem indiana, nasceu em Lourenço Marques, estudou em Londres e nos Estados Unidos, mas apesar de ser fluente em gajurati chegou aos 50 anos sem ainda ter ido à Índia. A flecha de Cupido interrompeu-lhe a meio o curso de Medicina Dentária, que estava a fazer na Universidade de Indiana, e levou-a a deitar âncora no Porto, onde abriu o Mendi, o restaurante preferido dos indianos, depois do negócio de pronto a vestir da família ter soçobrado vítima de desinteligência internas e da concorrência dos espanhóis da Zara
Nome: Kamal Rajani
Idade: 50 anos
O que faz: proprietário do restaurante Mendi
Formação: Frequência do curso de Medicina Dentária
Família: Casado, tem duas filhas: Mafalda, 22 anos, que estudou Gestão e Turismo, e Mafalda, 16
Casa: Apartamento na rua do Campo Alegre (Porto)
Carro: Toyota Avensis
Telemóvel: Nokia 6000
Portátil: Toshiba
Hóbis: Tem poucos. Gosto muito de andar a pé e aos domingos adora dar grandes caminhadas, à beira rio e mar, desde Massarelos até à frente marítima do Parque da Cidade. Também gosta de comer, beber e conviver, à volta da mesa, com familiares e amigos
Golpe: Como todos os donos de restaurantes, Kamal colecciona histórias de pequenos furtos (“até rolos de papel higiénico já foram roubados da casa de banho”, conta) e golpes clássicos, mas que nem por isso deixam de ser bem sucedidos, como o daquele cavalheiro bem posto que ao jantar se instalou sozinho numa mesa, encomendou uma garrafa de vinho caro, experimentou vários pratos, e no final, depois de pedir a conta, comunicou-lhe, com um ar muito atrapalhado, que se esquecera da carteira e por isso tinha de ir buscá-la, mas fazia questão de deixar o telemóvel e a chave de casa como garantia. Até hoje. Nunca mais apareceu. O telemóvel era um chaço e a chave provavelmente nem era dele
Férias: No Verão, têm o hábito de partir para sul e fazerem 15 dias de sol e praia. Primeiro iam para a Andaluzia, mas ultimamente têm preferido a zona do Carvoeiro, no Algarve. Na Pascoa foram passar um fim de semana prolongado a Londres
Regra de ouro: Viver dia por dia, estar bem com todas e ter paciência
Foi apenas por delicadeza que o administrador da Efacec perguntou aos empresários indianos, em visita de trabalho ao Porto, se achavam bem jantarem numa marisqueira de Matosinhos. A sua ideia era proporcionar-lhes uma memorável refeição de boas vindas. Ficou espantado quando os convidados lhe propuseram ir ao Mendi, de que tinham ouvido falar muito bem.
O melhor cartão de visita do Mendi é ser o restaurante favorito dos indianos, o que não deixa de ser curioso pois Kamal nunca esteve na Índia. Nasceu em Lourenço Marques, mas como as suas raízes familiares mergulham no Gujarat (estado natal do Mahatama Ghandi), ele é fluente em gurajati – e também em inglês, porque quando veio de Moçambique, em 1974, com cinco anos, foi para Londres, onde ficou a cargo de um cunhado do tio que estava lá a estudar para ROC (revisor oficial de contas).
Só sabia dizer yes e no, mas rapidamente aprendeu o inglês numa escola pública, em Chelsea, de onde foi transferido para um colégio interno, que ficava a hora e meia de comboio da estação de Charing Cross. A mudança deu-se após chegaram aos ouvidos da família os ecos de rebaldaria reinante na sua primeira escola inglesa, onde não era anormal os alunos molestarem os professores e improvisarem recintos desportivos no interior das salas de aulas. O internato estava no pólo oposto. A disciplina era férrea, tinha de andar sempre de fato e gravata, e como a água era racionada, só podia tomar banho duas vezes por semana.
Atravessou o Atlântico quando chegou a hora de ir para a faculdade, inscrevendo-se em Medicina Dentária, em Indiana (EUA). Viveu dois anos de excelente memória no campus universitário (onde o seu caril de batatas rapidamente se tornou célebre) até que Cupido se intrometeu entre ele e o consultório de dentista.
Em 1980, passava as férias de Verão ao Porto, onde a família se tinha estabelecido com uma rede de lojas de pronto a vestir, quando se interessou por uma rapariga. Começaram a falar-se, palavra puxa palavra, e com base na descoberta da extraordinária coincidência de que ele fazia anos a 18 de Julho e ela a 19, Kamal deu um grande em frente e convidou-a para comemorem os anos juntos num jantar tête à tête, no romântico restaurante da Boa Nova, em Leça, à beira do mar e desenhado por Siza Vieira.
Como é bom de ver, não mais regressou aos Estados Unidos. Ficou a trabalhar na área de contabilidade das lojas, casou, teve duas filhas e ambos foram muito felizes até que em 1996, o negócio da família soçobrou, vitima de desinteligências internas e da concorrência agressiva dos espanhóis da Zara.
Com 37 anos, casado, com duas filhas, e desempregado, Kamal deixou sair o bichinho da gastronomia que tinha dentro de si e arriscou abrir um indiano no local que tinha sido uma steak house onde ele, uma dúzia de anos atrás, no final de um jantar, confidenciou à mulher: “Se alguma vez tiver um restaurante, será deste tamanho”. O sonho cumpriu-se a 5 de Fevereiro de 1997, quando inaugurou o Mendi com uma jantar reservado a amigos e conhecidos. Apesar de não ter feito publicidade, no dia a seguir ao almoço tinha metade dos 40 lugares ocupados. E ao jantar a casa estava cheia. Agora, 13 anos volvidos, Kamal tem a certeza que acertou quando escolheu a palavra Mendi – que em gujarati significa sorte, pureza e alegria – para baptizar o seu restaurante.
Jorge Fiel
Este perfil foi publicado na rubrica Emergentes do Diário de Notícias
Álvaro Valiente. Como um madrileno apaixonado por Portugal, com um percurso ao contrário (começou por ser empresário e só depois foi trabalhar por conta de outrém), abandonou o cobiçado lugar de responsável pela abertura de novos mercados da Zara para passar a viver no Porto
Nome: Álvaro Valiente
Idade: 45 anos
O que faz: Director geral da Neinver em Portugal e Itália
Formação: Licenciado em Ciências Económicas e Empresariais , em Madrid
Família: Divorciado. É o sexto de sete irmãos. O pai, um engenheiro industrial que pilotou aviões na II Guerra Mundial, ao serviço da Divisão Azul (que combateu ao lado dos nazis na frente russa) , gostaria de ter sido piloto da Iberia mas teve de dirigir a fábrica de metalurgia da família, que ficava no País Basco e fornecia a Renfe
Casa: apartamentos na Foz (Porto) e em Madrid (Calle Serrano) e uma casa de férias em Palma de Maiorca
Carro: Porsche Boxter (Porto) e Smart (Madrid)
Telemóvel: Nokia
Portátil: Dell
Hóbis: Gosta muito de música (não só ouvir, mas também cantar), de comer com os amigos, praticar desporto e ir ao ginásio
Férias: As últimas foram dez dias a navegar pelas Baleares. As próximas vão ser nas Honduras, a fazer mergulho (está com curiosidade de ver tubarões martelo no sue habita natural), ou no Senegal, num resort ecológico onde as cabanas não têm sequer luz eléctrica
Regra de ouro: “Ser fiel e muito honesto comigo próprio. Tenho uma escala de valores muito perfeita que me leva a ser muito vitalista. Vivo cada diz como se fosse o último. Trabalho na empresa como se ela fosse minha. Tudo que é meu – a empresa, os amigos… – é melhor ”.
Mal acabou de tirar a carta, meteu-se num carro e guiou directo de Madrid até Lisboa, para vir ter com um dos irmãos mais velhos, casado com uma portuguesa. Tinha 18 anos e gostou disto. “Senti que um dia iria morar aqui”, recorda Álvaro Valiente, um madrileno de 45 anos adepto do Atleti. Não foi o único desejo de adolescente que ele concretizou.
Ganhou as primeiras pesetas com 14 anos, a distribuir, à porta do metro, propaganda de um mega-empreendimento imobiliário nos arredores da capital espanhola. Quando João Paulo II visitou Madrid, encontramo-lo na rua, no meio da multidão, a vender bandeiras brancas e amarelas, com as armas do Vaticano e a divisa papal “Totus Tuus”.
A costela empreendedora revelou-se precocemente, no ano em que fez 18 anos, se apaixonou por Lisboa e se meteu num negócio de cuecas a meias com a namorada, que era filha de um diplomata e vivia em Roma.
A ideia era importar boxers de Itália. Mas na Espanha pré-comunitária do dealbar dos anos 80, em que os homens usavam slips, as barreiras alfandegárias eram um poderoso dissuasor de um negócio baseado na importação. Decidirem fabricá-los em Espanha.
O negócio prosperou, enquanto ele cursava Economia. O namoro com a filha do diplomata, que desembocou em casamento, revelou-se mais duradouro que o negócio dos boxers, que naufragou pelo efeito conjugado dos calotes dos lojistas e da abertura progressiva das fronteiras ditada pela adesão espanhola à CEE.
Um caçador de cabeças indicou-o para product manager de roupa masculina do Continente, onde esteve três anos, até se iniciar nos segredos dos centros comerciais abrindo dois - um em Madrid (Gran Via) e outro em Valência - por conta dos franceses da Trema.
Estava escrito nas estrelas que viveria em Portugal e o pretexto foi a vontade de mudar de ares após se ter divorciado da sua antiga sócia no negócio das cuecas. Mal um primo o desafiou a usar os seus conhecimentos na preparação do Arrábida Shopping, logo trocou Madrid pelo Porto.
Antes de regressar a Espanha, ainda teve tempo para abrir o Chiado e os Foruns Almada e Aveiro, com os holandeses da MDC, e para vagabundear pela Índia, num ano sabático.
Não conseguiu recusar quando o dono da Zara, Amancio Ortega (“uma cabeça extraordinária com os pés bem assentes na terra”), o convidou para responsável pela abertura de novos mercados.
Passou quatro anos com a mala na mão, a viajar por três continentes, a acordar sem saber exactamente em que país estava. Na 2ª podia estar em Estocolmo, na 3ª em Copenhaga, 4ª em Viena, 5ª em Amesterdão e 6ª na Corunha. Cumpriu assim, com foros de overdose, o desejo adolescente de viajar pelo Mundo e conhecer pessoas.
“Foi apaixonante mas cansativo. Estava sempre sozinho. Vida pessoal zero”, lembra. Aos 40 anos, este espanhol poliglota, fluente em português, italiano, francês e inglês, achou que era hora de assentar e regressou a Portugal para abrir o Factory, em Vila do Conde, que em 2005 ganhou o prémio de melhor outlet da Europa - e é menos falado que o Freeport, mas por boas razões.
“Com a crise, o outlet tornou-se a primeira escolha, em detrimento do centro comercial”, conclui Álvaro que, anda entusiasmado com o segundo fôlego do Factory de Vila do Conde (que vai ter um estação de metro) e a expansão da cadeia para Sintra e Algarve.
Jorge Fiel
Este perfil foi hoje publicado no Diário de Notícias
Rosa Pomar. Como a condição de jovem mãe levou a neta de um célebre pintor a interromper uma tese de mestrado em História Medieval e a dedicar-se a fazer bonecas de pano, que vende através da Ervilha Cor de Rosa, um dos sete mil blogues mais importantes do mundo
Idade: 33 anos
O que faz: Bonecas de pano e porta bebés que vende essencialmente pela Net
Formação: Licenciada em História
Família: Tem um marido e duas filhas, a Elvira, seis anos, e a Amélia, três anos
Casa: Andar no Bairro Alto, a precisar de obras
Carro: Não tem carro, nem carta de condução – “sei que é um handicap”
Telemóvel: Nokia
Portátil: Mac, partilhado com a família
Hóbis: “O meu trabalho é um bocado o meu hóbi. `Não trabalho por encomenda por que não trabalho por obrigação. Não em apetece. Além disso gosto de tricotar e de ler. E adoro vasculhar arquivos digitais, como o da New York Public Library”
Férias: Gosta de férias em contacto com a Natureza. Todos os anos passam uns dias numa casa de família em Carreço (Viana do Castelo). E também vai a Lebução, em Trás-os-Montes, que tem a vantagem de poder mostrar carneiros e burros aos filhos
Regra de ouro: Pensar com os olhos, os ouvidos, com as mãos e os pés, com o nariz e a boca.
O que levou a neta de um pintor famoso a interromper uma investigação sobre as práticas funerárias da nobreza feminina no século XIII e começar a vender bonecas de pano pela Internet?
Elvira, a primeira filha Rosa, é a resposta certa a esta intrigante pergunta.
Se recuarmos cinco anos no tempo, tudo parecia encaminhado para que ela fizesse uma respeitável carreira académica no departamento de História da Nova de Lisboa, dirigido por José Mattoso.
A tese de mestrado já ia adiantada quando ela engravidou de Elvira, que ainda antes de nascer teve um papel determinante no baptismo do blogue de Rosa, que recebe em média três mil visitas por dia e ocupa um honroso lugar seis mil e tal no ranking dos dez mil blogues mais importantes do Mundo.
Em vão uma amiga tentou demovê-la de chamar Elvira à filha, aterrorizando-a com a perspectiva de, na escola, os coleguinhas lhe irem chamar ervilha. Rosa aproveitou a ideia e deu ao seu blogue o nome de Ervilha Cor de Rosa.
Nesta altura ninguém seria capaz de adivinhar que ela iria ganhar a vida vendendo, através do blogue, bonecas de pano.
Enquanto estudou, Rosa foi fazendo alguns biscastes para ganhar dinheiro para os seus alfinetes. Vendeu velharias na Feira da Ladra, digitalizou fontes para a Fundação dos Descobrimentos, ajudou no inventário do património artístico do BCP e foi bus lady no colégio St.Dominics, em Cascais – acompanhava os alunos nos trajectos casa-escola e escola-casa.
Pelo meio, tirou um curso de desenho e ilustração na Ar.Co (uma costela artística que não espanta em quem tem um avô chamado Júlio Pomar) e passou um Verão em Nova Iorque, de onde regressou três dias antes do 9/11.
O nascimento de Elvira, em 2003, fez com que a vida dela levasse uma volta de 180 graus.
Rosa não queria pôr logo a bebé no infantário (esperou até aos dois anos e meio) mas, como não tem feitio para dona de casa, aproveitou a overdose de tempo livre para fazer bonecas de pano para a filha, usando a técnica aprendida com a mãe médica.
Fotografias das bonecas, postadas no blogue, fizerem sensação e logo apareceram compradoras. Cinco anos depois, Rosa já vendeu mais de 850 bonecas, todas elas peças únicas, a preços que oscilam entre os 55 e os 120 euros.
“O meu género não é ser a Loja dos Trezentos”, explica Rosa, que este Verão vai abrir um atelier-loja num 2º andar da rua do Loreto, onde também promoverá workshops.
O sucesso das bonecas vendidas online (que foram imitadas por uma cadeia holandesa de artigos para criança) encorajou-a a produzir, em pequenas séries (no máximo dez de cada tecido), um modelo de porta-bebés (slings) que confeccionou para transportar Amélia, a sua segunda filha.
“É bom para os bebés andarem em contacto permanente com o corpo da mãe”, diz Rosa, que confessa sentir, de vez em quando, a nostalgia de um dia passado na Torre do Tombo.
Talvez para matar essas saudades, adora vasculhar arquivos digitais e numa dessas incursões descobriu que a prática das mães andarem com os bebés presos ao seu corpo por um pano não era exclusiva das índias ou africanas.
“Até aos anos 50, em Portugal, as mulheres andavam com os filhos no xaile”, conta Rosa, uma empresária em nome individual que nunca teve um emprego fixo.
Jorge Fiel
Este perfil foi hoje publicado no Diário de Notícias