Há alguns anos (não muitos), com os ânimos incendiados pela vã tentativa do estado-maior benfiquista de quebrar a hegemonia portista com manobras na secretaria, esteve em voga a palavra de ordem "Nós só queremos Lisboa a arder".
A provocação não caiu no goto da generalidade dos residentes na capital, pelo que amiúde alguns lisboetas, meus amigos ou conhecidos, perguntavam-me se também eu achava bem a ideia de pegar fogo à sua cidade.
"Não. Lisboa é uma bela cidade. O que defendo é o uso de uma bomba de neutrões, de modo a preservar o magnífico património edificado". Foi esta a resposta que formatei para dar nessas ocasiões. Quando a pergunta não é séria, sinto-me desobrigado de responder a sério.
Neste novo século, trabalhei oito anos em Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo, pela qual é muito fácil uma pessoa ter uma paixão fugaz e à primeira vista.
Estou imensamente feliz por o JN me ter proporcionado voltar a viver na cidade que amo e onde nasci, mas não posso negar que, de vez em quando, ainda sinto uma pontinha de saudade de alguns pequenos prazeres que Lisboa pode oferecer, como um fim de tarde no miradouro da Graça, petiscar ao almoço uma sanduíche de rosbife e um copo de branco no terraço do Regency Chiado, ou tomar o café matinal na esplanada da Ponta do Sal, em S. Pedro do Estoril.
Quando alguém é incapaz de diferenciar se estamos a falar em sentido estrito ou figurado, geram-se situações embaraçosas e terríveis mal-entendidos. Ninguém quer mesmo Lisboa a arder. O que queremos a arder, num fogo purificador, é a governação centralista que empobrece o Norte e desgraça o país.
O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola.
Na primeira década deste século, o crescimento médio anual da nossa economia foi de 0,47%, apesar do afluxo diário médio de seis milhões de euros de Bruxelas, que valiam todos os anos 2% do PIB.
Já ultrapassado pelo Alentejo e Açores, o Norte é a região mais pobre do país, apesar de ser a que mais contribui para a riqueza nacional, com 28,3% do PIB, logo a seguir a Lisboa e Vale do Tejo, com uns 36% enganadores, já que aí está contabilizada a produção feita noutras partes do país pelas grandes companhias nacionais e multinacionais com sede na capital.
Quando leio que ao abrigo do famoso efeito de dispersão - uma vigarice inventada para desviar para Lisboa fundos comunitários - dinheiro destinado às regiões mais pobres está a ser usado pelos serviços gerais e de documentação da Universidade de Lisboa, dá-me vontade de ir para a rua gritar "Nós só queremos Lisboa a arder".
Não. Nós não queremos mesmo Lisboa a ser consumida pelas labaredas. O que queremos é dizer que estamos fartos de ser chulados e já é tempo de impedir que Portugal continue a arder em lume brando, por culpa de governantes incompetentes ou corruptos.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias
Olhado de cima e visto em perspectiva, Portugal é como um bilhar snooker que descai sempre para um buraco chamado Lisboa, que absorve, bulímico, os recursos humanos e materiais do resto do país.
Olhado de cima e visto em perspectiva, Portugal é como um bilhar snooker que descai sempre para um buraco chamado Lisboa, que absorve, bulímico, os recursos humanos e materiais do resto do país.
O problema não é novo. Quem leu a "Queda de um anjo", de Camilo, sabe que este maléfico magnetismo já era poderoso mesmo num século como o XIX onde o Porto liberal, invicto e vitorioso da Guerra Civil, viveu um dos períodos de maior esplendor da sua história.
Ao nacionalizar os grupos económicos que viviam à sombra da protecção do Estado Novo, o 25 de Abril abriu o espaço para a emergência, a Norte, de uma nova geração de empresários, de que Belmiro de Azevedo e Américo Amorim são as cabeças de proa, que mudaram a face do país.
O poder económico deslocou--se para Norte, onde uma impressionante multidão de PME produtoras de bens transaccionáveis salvaram, com as suas exportações, o país da bancarrota.
Os empresários do Norte não ficaram à espera das privatizações e aventuraram-se a criar os primeiros bancos privados (BPI e BCP) após a revolução, numa altura em que os velhos capitalistas ainda mantinham bens e famílias na Suíça e no Brasil.
Cavaco pôs um ponto final a esta fase de desenvolvimento harmonioso e liberal da economia do país ao usar o programa de privatizações para fazer renascer os grupos engordados à mesa do salazarismo. Nenhum analista político e económico honesto deixará de identificar a década cavaquista como o período em que os portugueses, anestesiados pela chuva torrencial de dinheiro vindo de Bruxelas, consentiram na construção de um estado ultracentralista e fecharam os olhos ao nascimento de dois monstros (o do défice e o da Função Pública).
Fernando Gomes foi o líder que capitalizou a nível político o poder económico da região, que já se deslocava para o buraco negro lisboeta. A proclamação pela UNESCO do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade, o metro do Porto, o Parque da Cidade, o Porto Capital Europeia da Cultura, a Casa da Música são as marcas deste período áureo da metrópole que, com o seu porto de Leixões e aeroporto Sá Carneiro, é a cabeça natural da mais empreendedora região do nosso país.
Apesar de ser o líder respeitado de uma região e de estar informado das desventuras na capital do fidalgo minhoto Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda (o herói da novela camiliana), Fernando Gomes não resistiu ao cântico das sereias lisboetas e na primeira oportunidade trocou a vista da Avenida dos Aliados pela do Terreiro do Paço, com o resultado conhecido (o suicídio político).
A contínua migração para Lisboa de líderes e massa cinzenta tem de deixar de ser uma fatalidade.
Para ressurgir, a Região Norte precisa de políticos que olhem para o Porto, Aveiro, Braga, Guimarães, Viana do Castelo, Bragança, Viseu, Guarda e Vila Real como pontos de chegada - e não como pontos de partida.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no JN
Em 1671, para casar a filha, Catarina de Bragança, com Carlos II, de Inglaterra, D. João IV, que, “apesar de restaurador, era burro como, em geral, os reis eram” (cito o meu amigo Luís Miguel, catedrático nesta matéria), incluiu no dote as cidades de Tanger e Bombaim. Mesmo acreditando que a Catarina fosse ainda mais pavorosa que a prima do Frankenstein e a maga Patalógica juntas, parece-me excessivo, até mesmo escandaloso, o dote que o papá rei providenciou.
Em 2010, para justificar o injustificável facto do PS estar a faltar mais uma vez à palavra dada aos eleitores em duas legislativas, o ministro das Finanças veio candidamente, com aquela lata que é marca de água dos políticos mentirosos (passe a tautologia), lavar dai as mãos explicando que o adiamento para as Calendas do TGV Lisboa-Porto-Vigo “é um gesto de aproximação do PSD”.
Ou seja, Teixeira dos Santos, que, apesar de ser de nortenho é trampolineiro como, em geral, os ministros são (digo eu), usa, majestático, no século XXI, os parolos do Norte como dote para obter o apoio (incerto e desnecessário) do PSD ao documento ficcional apelidado PEC, da mesma maneira que D. João IV usou Bombaim e Tanger para desencalhar a filha feiosa.
Ultrajado é pouco para expressar o que sinto face ao desprezo centralista com que é tratado o Norte, a mais pobre região do país, apesar de ser a segunda que mais contribuiu para a riqueza nacional. Em vez de tentar corrigir as assimetrias, o Governo de Lisboa só as agrava. As dotações do PIDACC (plano de investimentos da administração central) para o Porto levaram este ano um corte de quase 300 milhões de euros (caindo de 351 para 55 milhões), enquanto que para Lisboa subiram 27%, de 264 para 327 milhões.
Sou favorável ao princípio do utilizador-pagador (acho mesmo que o tipo que inventou as Scuts devia ser enforcado), mas não percebo porque é portuenses que viajam até à Póvoa do Varzim vão ter de pagar portagem e os algarvios, que usam a Via do Infante, e os lisboetas, que viajam até Sintra, estão dispensados dessa maçada.
Das grandes obras públicas referendadas nas legislativas 2009, sobreviveram três – o novo aeroporto de Lisboa, a terceira travessia sobre o Tejo em Lisboa e o TGV Lisboa-Madrid -, que não precisaram de ser sacrificadas no altar do entendimento com o PSD. Fica no tinteiro o TGV para o Porto e Vigo. Não é preciso por mais na carta para toda gente perceber que vivemos num país que é tal qual como um bilhar que descai sempre e escandalosamente para o mesmo buraco, chamado Lisboa.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Tenho o nariz torto. A narina esquerda não funciona. Infelizmente, esta surdez parcial do meu olfacto não me protege do fétido fedor que sevicia quem passa ao largo de Aveiro. Falo do mau cheiro literal, não do figurado - do negócio do sucateiro Zé Godinho ter quartel general em Esmoriz, de Oliveira e Costa ser de Esgueira, e Vara e os Penedos serem visitas frequentes de Aveiro, onde mantêm longas conversas com o juiz de instrução criminal.
Se trapalhadas e negociatas obscuras libertassem realmente um odor pestilento, não se podia passar perto de Aguiar da Beira e os carteiristas do eléctrico 28 estavam no desemprego, pois a podridão do ar nos mais belos e ricos bairros de Lisboa afugentaria os seus 2,5 milhões de turistas.
A fábrica de Cacia da Portucel é a origem do fedor que tortura os automobilistas viciados na A1 e os passageiros económicos e/ou ambientalistas do Alfa. Há coisa de 15 anos, quando visitei esta celulose, comprovei a enorme capacidade humana em se adaptar a circunstâncias adversas. Achei que o almoço era a ocasião certa para fazer a pergunta. Fartos de a ouvir, os anfitriões responderam pacientemente que algumas semanas bastavam para concluir o processo de dessensibilização - e deixarem de sentir o cheirete.
Esta fantástica capacidade para comermos num ambiente de latrina preocupa-me muito, principalmente nesta altura em que para decifrarmos os casos de actualidade é preciso ter um curso de Direito (e dos bons, aqueles da Independente não chegam). Só assim compreendemos as nuances da arquitectura de um sistema judicial canceroso e sabemos traduzir para português um dialecto judicial atulhado de “atentados ao Estado de Direito”, “elementos probatórios”, “irrelevância criminal”, “denegação de justiça”, “medidas de coação”, “expedientes administrativos” e “emissões de certidões”.
Temo que, tal como os trabalhadores da Portucel de Cacia, nós, os portugueses, nos dessensibilizemos e deixemos de sentir o fedor a podridão da pandemia de escândalos a que estamos sujeitos. Por isso, ou estes políticos conseguem reduzir drasticamente a quantidade de lixo que produzem e arranjam um eficiente tratamento da sua porcaria (dotando-se de um sistema subterrâneo de esgotos e de uma ETAR na periferia, longe dos nossos olhos), ou o melhor é darmos ouvidos ao conselho de Eça de Queiroz: “Os políticos e as fraldas devem mudar-se com frequência – pela mesma razão”.
Não me apetece viver num país que cheira como uma casa de banho que continua em uso apesar ter o autoclismo avariado – e em que não consigamos ouvir a marcha “Cheira bem, cheira a Lisboa” sem nos escangalharmos a rir às gargalhadas.
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Noticias
As dormidas de estrangeiros no destino Porto e Norte de Portugal cresceram 4,1% face a 2007, que já tinha sido considerado “um ano excepcional”.
Este aumento nas dormidas reflectiu-se positivamente nas receitas turísticas, que subiram 3,8%.
A revitalização do Sá Carneiro é a mãe e o pai destas boas notícias. Abandonado pela TAP, o aerporto do Porto recebeu uma fantástica injecção de adrenalina administrada pelas low cost.
Entre 2003 e 2008, ao número de comapanhias aéreas a voar para o Porto mais do que duplicou (passou de sete a 16, enquanto que as rotas cresceram 140% (passaram a ser 56).
Mas o novo fôlego a dar ao turismo no destino Porto e Norte exige diplomacia e implica agir no mercado interno.
Para continuar a crescer sustentadamente, temos de fazer um esforço de marketing, concentrado na Área Metropolitana de Lisboa, para atrair turismo interno.
Temos também de ter a coragem descomplexada de integrar o produto turístico Lisboa que é vendido por essa Europa fora. Sugerir aos “short breakers” que visitam a capital que é uma excelente ideia tirarem um dia para darem uma saltada até ao Porto.
Jorge Fiel
Não gosto de clichés. Nunca gostei. Arrepiam-me. É por isso que fujo de ler as crónicas que os jornalistas (e ofícios correlativos) lisboetas escrevem quando regressam de uma estadia no Porto.
Não as lia para não me incomodar. Mas agora arranjei um método infalível de despistagem de idiotices, com a ajuda do software Word.
Antes de me aventurar a ler uma crónica, faço uma busca das seguintes palavras: francesinha, aloquete, cadeado, postura, Aleixo, francesinha e praça de táxis, tripas.
Se tiver apenas duas (ou menos) destas palavras, arrisco uma leitura. Se tiver entre três e quatro ainda fico a pensar. Mais de quatro? Ni hablar!
Desde que inventei este método genial ainda não li mais nenhuma crónica sobre o Porto escrita por um lisboeta.
Jorge Fiel
Amar o Porto não me impede de gostar (e muito) de Lisboa, onde trabalhei durante quase seis dos nos nove anos que leva este atribulado século.
Como portuense invejo algumas das coisas que Lisboa tem.
Uma das coisas que invejo em Lisboa é o seu Jardim Zoológico, sendo que nesta frase se compreendem os dois sentidos: o literal e o figurado.
Invejo em Lisboa o Zoo de Sete Rios, a que todos os anos faço questão de levar o meu filho João. É bom uma pessoa poder-se meter no metro e desembarcar num parque onde pode ver ao vivo leões, girafas, hipopótamos, rinocerontes, camelos, macacos, elefantes e preguiças.
Invejo ainda em Lisboa o cosmopolitismo que herdou do facto de ser a capital de um império desfeito – a mistura de raças e culturas, a diversidade de gentes e costumes.
Foi com base num cruzamento de culturas diversas (o famoso melting pot) que a América se tornou grande.
Jorge Fiel
O Procurador Geral da República (PGR) tem um ar simpático, é um excelente comunicador e tem um jeito muito seu de colocar na agenda mediática os dossiês que o preocupam.
Esta semana, Fernando Pinto Monteiro aproveitou um aparentemente anódino encontro organizado pela Associação dos Antigos Aluno da Lusíada de Lisboa para discorrer sobre crescente sentimento de insegurança que se apoderou dos portugueses, apesar do número de homicídios ser cada vez menor.
Na opinião do PGR o medo dos cidadãos filia-se no novo tipo de criminalidade e deu exemplo desta mudança de perfil: “Antigamente roubavam os carros que nós deixávamos nos parques. Agora roubam-nos com as pessoas lá dentro”.
O PGR teve ainda o engenho a série televisiva mais vista em todo o Mundo para desculpabilizar eventuais atrasos e falhanços da sua equipa: “É como aquela série CSI. Encontra-se um cabelo e descobre-se o criminoso. As pessoas exigem que o Ministério Público actue assim”.
Pinto Monteiro, que até a este ponto tinha brilhado em grande altura, borrou a pintura quando no final da charla resolveu confessar que tem medo de sair à noite em alguns locais do centro de Lisboa, dando como exemplo o Cais do Sodré.
Nestas questões da segurança e dos direitos dos cidadãos, o PGR não é um treinador de bancada que se pode dar ao luxo de dizer que tem medo de sair à noite em Lisboa ou que ouve uns estalidos esquisitos de no telefone, que indiciam que pode estar sob escuta. Nestas matérias, Pinto Monteiro é mesmo o treinador e por isso não devia andar por aí a queixar-se pelas esquinas.
Jorge Fiel
www.lavandaria.blogs.sapo.pt
Para Florida a Foz fica em Lisboa
A passagem por Lisboa do guru norte-americano Richard Florida abalou seriamente algumas das minhas convicções sobre a geografia da minha vida e do meu país.
Confesso que não conhecia Florida, um rapaz com a minha idade mas muito mais curriculum (foi professor do MIT e Harvard e mantém colaborações regulares no Financial Times e no New York Times), citado com alguma frequência por Sócrates - o que equivale a dizer que está completamente na moda.
Deslocações semanais entre duas cidades pontuam a minha vida. Terça feira, às 9.47, apanho em Campanhã o Alfa para Lisboa, onde fico a trabalhar durante a semana. Domingo, faço o percurso inverso, embarcando no Intercidades das 9.30.
Florida veio explicar-me que afinal eu estava enganado e não divido a vida entre duas regiões. O norte-americano puxa bem para cima (uns bons 600 quilómetros) a fronteira norte de uma Lisboa imensa que, do seu ponto de vista, se estende ao longo da costa atlântica desde Setúbal até à Corunha, e que é uma das 40 megaregiões mundiais - a 34ª, à frente de Xangai, Madrid, Berlim ou Singapura .
Esta ideia é sedutora, ao arrumar na mesma gaveta as minhas viagens semanais de comboio entre o Porto e Lisboa e as deslocações pendulares diárias entre S. João do Estoril e a avenida da Liberdade (suburbano mais metro).
Suplementarmente, a ideia de Florida tem o condão de fornecer a solução para um problema que ele próprio me tinha criado com o enunciado de uma outra tese sua: “O trabalho desloca-se até as pessoas e não o contrário”.
Uma pessoa tem de ter formatos preparados para responder às FAQ da nossa vida. Por isso, quando amigos e conhecidos me comentavam, em tom levemente interrogativo, “Então, de volta a Lisboa…?!?” eu respondia: ”É! A vida é assim. O pescador vai pescar onde há peixe”.
Ora este meu “sound byte” contraria aparentemente o edifício teórico de Florida, já que se trata de um desdobramento do ditado do Maomé (ou seja o pescador, isto é eu) a ir ter com a montanha (ou seja a pesca, i.e. o trabalho) e não o contrário, como pretende o guru de Sócrates.
Mas a contradição é apenas aparenea já que à luz da geografia de Florida eu não mudei de região. Ele jura que a rua Júlio Dinis, 4050-327 Porto e a para a avenida da Liberdade 1250-149 Lisboa são apenas códigos postais diferentes no interior da mesma mega-região.
Mas agora que estou iluminado pelas ideias avançadas de Richard Florida, poderei brindar os amigos que mais prezo com uma resposta mais bem elaborada. Preparem-se. A próxima vez que me disserem “Então de volta a Lisboa…!?!” vão levar na volta do correio com um resumo das teorias de Florida, que não se esgotam na tese das mega-regiões.
Florida brilhou ainda a grande altura ao reformular a velha tese de que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem (na sua versão “Portugal é formado por dois países; Portugal e Lisboa”). E garante que o desenvolvimento das cidades é directamente proporcional à quantidade de gays e lésbicas que alberga (Berlim e Paris, governadas por gays, estão no bom caminho).
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada no Diário de Notícias
Para aqueles , apesar de tudo poucos , que se queixam que só defendo o Porto e que não penso no resto do país , porque gostaria que o Porto pudesse ser uma outra Lisboa , tenho hoje uma notícia que não é animadora.
Na companhia de mais onze portugueses de proveniências várias , tive ontem o grato prazer ( e na verdade a honra ) de assinar um compromisso pela Cidade da Guarda em que todos fomos investidos pelo seu Presidente de Câmara como embaixadores da Guarda , prometendo colaborar activamente na promoção da região em parceria com os agentes e instituições locais.
Descontando o meu potencial contributo pessoal que será o melhor que eu puder , mas sempre menor do que o das altas individualidades que me acompanham nesta nobre missão , este é o tipo de iniciativas porque me pelo.
Uma cidade e uma região que distam da capital praticamente o mesmo que o Porto , mas já são parte integrante da Região Centro e têm as mesmas , ou ainda mais razões de queixa de um poder excessivamente concentrado na capital , são tudo o que me apetece defender e ajudar , nem que para isso seja preciso fazer , como fiz , uma directa , para não faltar ao compromisso assumido.
Como disse e muito bem um dos directores do Clube Escape Livre , da Rádio Altitude , cujos 35 anos de emissões propiciaram esta ida à Guarda, ser anjo da Guarda é muito diferente de ser anjinho. Trata-se de aproveitar as oportunidades para maximizar a promoção de uma Região que apesar de ser a mais alta do país continua a ser olhada de alto pelos senhores da capital.
No fundo pede-se a estes novos embaixadores da região da Guarda que nos seus terrenos pessoais e profissionais sigam o exemplo do Luis Celínio , do Jorge Antunes e da sua equipa do Escape Livre que , estejam onde estiverem , defendem o bom nome da Guarda , dos seus produtos e das sua gentes , das suas empresas e das suas potencialidades turísticas , porque se não forem eles a fazê-lo , ninguém o fará por eles.
Como de resto acontece com toda a paisagem que é o resto do país que não é Lisboa....
Exército de Salvação Nacional
Batalhão Bússola
Posto avançado da Guarda
Manuel Serrão
Passam este ano 10 anos sobre aquela grande operação de promoção de Portugal no mundo, como rezava a publicidade oficial , mas que 10 anos depois só se consegue explicar como a grande mais valia que trouxe à capital do império.
Dez anos é muito tempo como cantava o Paulo de Carvalho e o que vemos hoje como grandes reflexos dessa operação em que o país investiu milhões de contos dos antigos são só vantagens para a nossa querida capital.
Dez anos depois Lisboa passou a ter um fluxo de turistas como nunca tinha tido antes da EXPO e graças a ela conseguiu recuperar em tempo recorde e com custos impensáveis uma enorme zona degradada que é hoje uma das suas partes mais requisitadas e valorizadas para comprar habitação ou escritório.
Dez anos depois Lisboa tem hoje fama de ser uma das cidades da Europa que melhor combina tradição com modernidade numa operação relâmpago que resultou de um esforço nacional que se pode aplaudir , mas que ninguém nunca agradeceu.
Dez anos depois continua sem se perceber muito bem como acabou a estória dos paquetes que foram alugados para uns milhares de clientes que nunca por cá apareceram , nem se sabe muito bem o que aconteceu aos responsáveis pela graça. Muito menos se sabe onde páram os responsáveis pelos responsáveis dessa tramóia que lesou os cofres do Estado em milhões.
Por falar em obras e em dez anos o que é que seria se as intermináveis obras do túnel do Terreiro do Paço ( que são daquelas que continuam , mesmo depois de acabadas..) em vez de serem à beira Tejo , fossem noutro qualquer terreiro deste nosso belo país à beira mar plantado ?
Exército de Salvação Nacional
Batalhão Bússola
Margem do Douro
Manuel Serrão
O assunto terá passado "ao lado" da esmagadora maioria das pessoas, mas tem um grande alcance em diversas comunidades e regiões do país.
Desde há muitos anos que os municípios "vizinhos" das infra-estruturas portuárias lutavam contra a lei de excepção que os privava de terem jurisdição nas praias e zonas marítimas e fluviais.
Essa Lei, verdadeiramente leonina, remontava ao tempo em que o actual Presidente da República, Cavaco Silva, era Primeiro Ministro.
Os casos mais flagrantes registavam-se nas zonas envolventes aos portos de Lisboa e Leixões.
Neste caso - Porto de Leixões - a área de influência estendia-se pelo Rio Douro acima e até Leça da Palmeira.
Na campanha eleitoral que o levou à Presidência da Câmara de Lisboa, António Costa várias vezes denunciou esta arbitrariedade que permitia às administrações portuárias fazerem o que entendessem dentro do seu território e "ditarem leis" nas zonas envolventes.
Eram assim como umas ilhas dentro das cidades...
A lei mudou e bem.
Mudou agora, só agora, porque o problema se levantou em Lisboa.
É bom que António Costa, que sempre "circulou" pelos corredores do Poder Central, tenha optado por gerir uma autarquia local.
Vai começar a perceber estes problemas que até aqui eram dos outros.
Dos autarcas.
Anos e anos a fio a denunciar esta situação, "incidentes" com Ministros e Secretários de Estado da tutela e...nada!
Nunca ninguém percebeu. Nunca ninguém ligou.
Até agora.
Foi bom que o problema tenha afectado Lisboa, foi excelente que António Costa tenha dado conta do absurdo, foi essencial que o Presidente da Câmara tenha percebido que uma das "franjas" mais nobres da sua cidade lhe escapava, para que o problema tenha sido resolvido.
O ano de 2008 começou como acabaram os anos anteriores - um pouco por todo o país os portugueses queixam-se do centralismo que transforma Portugal numa nação a duas velocidades.
Recebi uma carta de um grupo de jovens criativos com provas dadas em trabalhos para meios tão diversos como a Rádio Universidade de Coimbra e a Antena 3 , revista 365 , pftv e para empresas e instituições de renome como a EURO RSCG e o TEUC que entendi dever reproduzir no Bússola.
Entre outras coisas para que os bussolistas sintam ou confirmem que o que por cá tem vindo a ser dito está a ganhar foros de dimensão nacionall. O grupo de criativos que assina a carta ( e que eu só não identifico porque não lhes pedi e seria por isso um abuso...) tem gente de Coimbra , Leiria , Guimarães, Constância e Porto
Aqui vai .
"Somos um grupo (oficioso) de jovens e guionistas que partilha, todo ele, do mesmo sentimento de indignação: parece-nos inusitado e até prepotente que a grande maioria da produção audiovisual seja oriunda de Lisboa. Não por ser natural que assim seja, mas antes porque TEM QUE SER. Começa as ser geralmente aceite que para se fazer alguma coisa com projecção nacional se tenha necessariamente de ir para a capital, onde os nativos “fazem o favor” de nos receber como se fossemos QUASE um deles.
Lisboa assemelha-se hoje, pelo menos em intenção, a um grande feudo cultural que emite cultura para todo o país. De certa forma compreende-se, é a capital, mas a coisa escorregou para o exagero: parece que Lisboa emite para si própria, para o próprio umbigo, porque Lisboa interessa a Lisboa; o resto do país acompanhe se quiser. (Há, claro está, espaço para a produção de cariz regional, mas temos de perceber a diferença entre uma e outra coisa).
Há ainda a questão do mercado viciado. Há monopólios em certa áreas, como se sabe. E os monopólios nunca são bons: acaba-se sempre por cair no erro da visão unilateral, que se torna vigente durante algum tempo e mais tarde apodrece, sem que os próprios se apercebam.
Falta, em nosso entender, uma lufada de ar fresco. Falta que o país se aperceba que existe mais além de Lisboa, que Portugal é riquíssimo em cultura e diversidade; falta dar a conhecer pessoas fantásticas de outros lugares; falta mostrar que cidades como Braga, Coimbra e Guimarães são grandes em todos os aspectos e também fervilham de actividade cultural. E claro, há que deixar bem claro que ténis é um desporto (e não um tipo de calçado) e que “imperial” não é senão uma marca de chocolates.
Haverá na cidade de Porto mercado e lugar para uma empresa que aposte na produção de conteúdos audiovisuais (apenas textos, ideias e guiões) abrangendo as áreas do teatro, TV, rádio, publicidade, imprensa, internet, etc.? A nós parece-nos o lugar ideal, não só por sair do raio de acção viciado da capital, como por gozar de outro espírito, com menos competitividade agressiva, com maior abertura de ideias, por viver o dia-a-dia com outros olhos.
Exército de Salvação Nacional
Batalhão Bússola reforçado com destacamento itinerante
Manuel Serrão
500 milhões ou 400 milhões pouco importa. Não são estes 100 milhões ( coisa pouca...) que fazem a diferença.
Também o suposto aumento do endividamento da Câmara de Lisboa ( a Câmara mais endividada do país...) não é o que faz a diferença.
Quem tentou situar a polémica nestas duas vertentes sabia bem o que fazia , sabendo melhor que não é nada disto que está em questão e que é fortemente criticável.
400 ou 500 milhões que se pedem de empréstimo para pagar dívida vencida ( e não pagam toda , que Lisboa tem muitos mais credores...) claro que não contribuem para o aumento do endividamento da Câmara. Como até servem para fingir que o diminuem se se apresentarem engenharias fantasiosas sobre as taxas de juro do antes e do depois.
O que faz realmente a diferença (e foi camuflado com a discussão estribada nas duas vertentes referidas...) é a forma como a Caixa Geral de Depósitos se prestou a esta habilidade do ex- ministro socialista e actual presidente da CML..
È nesta passadeira que a CGD ( que é de todos nós e não só dos lisboetas...) estendeu à Câmara de Lisboa , quando para o resto do país o que faz é tirar o tapete , que reside a grande diferença que nos choca a todos e que torna o negócio que deu à costa em Lisboa uma vergonha nacional.
Com as restantes Câmaras portuguesas enfiadas numa camisa de sete varas, há sempre um Vara em Lisboa disponível para abrir os cordões à bolsa aos amigos do partido capital.
Que falta nos faz um génio como António Silva capaz de reeditar hoje o Costa da Caixa como o remake do Costa do Castelo. Mas em termos do cinema português o que está a dar são obras primas como aquela em que dá a cara ( entre outras coisas , ao que me dizem...) a pequena actriz que foi mandatária da juventude do António Costa na campanha de Lisboa.
Não é que isto anda tudo ligado ?
Exército de Salvação Nacional
Batalhão Bússola
Marisqueira do Miguel - Matosinhos City
Manuel Serrao
Aproveitei o fim-de-semana para ir ver a exposição do Hermitage sobre a arte e cultura nos dois séculos dos Romanov. Dei o tempo por muito bem empregue.
Sai do Palácio da Ajuda hipnotizado pelo intensidade do olhar e pela desarmante e calma beleza da princesa Zinaida Iussupova, retratada por François Flameng, e convencido de que é boa a ideia da ministra da Cultura de instalar no nosso pais um pólo permanente do mais famoso dos museus russos, o Hermitage de S. Petersburgo.
Os museus representam nos tempos modernos o mesmo que as catedrais na Idade Média. São templos de culto, lugares de peregrinação, ícones de afirmação do orgulho das cidades.
E, nesta era da globalização, as marcas mundialmente reconhecidas e admiradas possuem uma enorme capacidade de atracção, como ficou demonstrado pelo estrondoso sucesso que o Guggenheim de Bilbau alcançou ao repetir a fórmula de sucesso que celebrizou o seu pai nova-iorquino. A saber, arte contemporânea enroupada por uma marca prestigiada e embalada por uma espectacular peça de arquitectura.
Há uma dúzia de anos não passava pela cabeça de ninguém ir passar um fim-de-semana a Bilbau. O Guggenheim foi a poderosa alavanca que colocou a cidade basca no mapa dos destinos turísticos europeus.
Apesar de essa não ser a opinião do «mainstream» português, que inveja os fundos que vão alocados a esse projecto, acho boa a ideia de Isabel Pires de Lima.
Já não acho boa a ideia do Governo de âncorar em Lisboa o pólo permanente do Hermitage em Portugal.
A Gulbenkian e a Colecção Berardo já são suficientemente atraentes para satisfazer os turistas, no segmento arte contemporânea, complementando a boa e variada oferta museológica de Lisboa, onde avultam pesos pesados, como o Museu Nacional de Arte Antiga ou o dos Coches, e pequenos museus de charme e nicho, como o Museu do Azulejo ou a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.
O exemplo do bom senso do Governo de Madrid, que escolheu Barcelona para receber os Jogos Olímpicos, Sevilha para a Expo e Bilbau para o Guggenheim deve iluminar o Governo de Lisboa na hora de escolher onde instalar o Hermitage.
Não estou a pedinchar para o Porto o pólo do museu russo. Com Serralves, o Soares Reis e pequenas jóias como o Museu Romântico, a minha cidade está razoavelmente servida neste domínio.
Na incursão a Lisboa para ver a exposição da Ajuda, fiz uma escala nas Caldas da Rainha. E fiquei a pensar que a instalação na cidade de Bordalo do pólo português do museu russo seria um óptimo pretexto para recuperar os magníficos (e degradados) Pavilhões do Parque D. Carlos I. E que melhor companhia se poderia arranjar para o Hermitage do que o Museu José Malhoa?
As Caldas são uma ideia. Mas também pode ser Coimbra, Santarém, Guimarães, Beja, Bragança, Aveiro, Lagos, Évora, Viseu, Tomar ...
O que estou a pedir ao Governo é que deixe de teimar em meter os ovos todos no mesmo cesto (que ainda para mais está roto) e que no momento de decidir onde vai ficar o Hermitage não olhe para o mapa de Lisboa - mas sim para o do Portugal.
Jorge Fiel
PS. Esta crónica foi publicada hoje no diário económico Oje www.oje.pt
O território de Portugal continental é, grosso modo, um rectângulo com cerca de
Mas este consenso volatiza-se quando se passa da teoria geral para a prática. No dia a dia, e vista de Lisboa, a geografia do nosso país modifica-se por completo, evoluindo do simples rectângulo para uma organização bem mais complexa com óbvias semelhanças ao Sistema Solar.
No centro, no lugar do Sol, está Lisboa (a região mais rica da Península Ibérica em termos de paridade de poder de compra) girando à sua volta três planetas: dois planetas anões, que lhe estão próximos, e um outro, enorme e distante como Neptuno.
Os dois planetas anões são o Alentejo (onde os lisboetas com contas bancárias mais desafogadas ou níveis de endividamento mais elevados têm o seu «monti») e o Algarve (destino de veraneio alternativo para as pontes e as férias da Páscoa e Verão). Trata-se de planetas poucos povoados, que dispõem de um clima agradável e têm uma serventia essencial de diversão.
A anos luz de distância está o terceiro planeta do Sistema Portugal, vulgarmente designado pelas expressões «lá em cima» ou «província». «Norte» é o nome politicamente correcto.
O planeta Norte é densamente habitado por gente que fala com uma pronúncia parola, tem um clima horrível (é frio e húmido e está sempre a chover) e muitas fábricas onde abusam do trabalho infantil – em vez de andarem na escola as criancinhas passam o dia a coser sapatos e roupas para a Zara. O pessoal «lá de cima» diz muitos palavrões e tem a mania do futebol, onde só ganham devido às trampolinices do Pinto da Costa (mas isso vai acabar).
Não é simples estabelecer os contornos exactos do planeta Norte. Eles são realmente bastante difusos e alargados.
Durante os cinco anos em que chefiei a Redacção no Porto do Expresso recebi dezenas de telefonemas de colegas meus de Lisboa perguntando-me se era possível mandar um jornalista «dar uma saltada» a locais tão diversos como Vieira de Leiria, Monção, Tomar, Guarda, Mirandela, Termas de Monfortinho, Régua, Arganil, Fundão, Cantanhede, Viseu ou Alcafache.
Ou seja, tudo quanto está fora de Lisboa e não é Alentejo ou Algarve, integra o planeta Norte, cuja órbita está cada vez mais larga, afastando-se lenta mas inexoravelmente do Sol. E a força de gravidade exercida por atrai pequenos asteróides que se soltaram do grande planeta.
É o caso da Ota, que há muitos anos não passava de um satélite do planeta Norte, do qual se soltou entrando em rota de colisão com Lisboa. Quando a questão da localização do novo aeroporto foi recolocada, a Ota distava
Jorge Fiel
PS. Se quer poupar-se às maçadas sofridas por Galileu, deve abster-se de insistir com os lisboetas dizendo-lhes que o rectângulo Portugal faz parte do sistema Europa, com centro de gravidade em Bruxelas.
Muita e boa gente está convencida, por deficiente interpretação das estatísticas do INE, que Lisboa é a região do país que contribui com a fatia de leão para a riqueza nacional.
É mentira!, digo eu, citando a expressão que está sempre na boca do meu colega e amigo
Às vezes, os números são como as pessoas – e mentem.
Lisboa não produz um único kWh de electricidade.
Lisboa não fabrica um quilo de cimento.
Lisboa não transforma pasta em papel.
Lisboa não refina um litro de gasolina.
Mas Lisboa contabiliza como sua a riqueza produzida em todo o país (e nalgumas partes do Mundo) pela EDP, Cimpor, Portucel e Galp, porque é na capital que essas grandes companhias têm a sede e pagam os impostos.
Jorge Fiel
Uma das preocupações que tenho devidamente registado na maioria dos comentários que alguns lisboetas têm feito na Bússola, é a de saber se não há nada que eu goste em Lisboa.
Tirei a noite de hoje para sossegar esses espíritos.. Há de facto pelo menos uma coisa que eu acho que em Lisboa é muito bem feita : o esparregado.
Penso que o meu primeiro contacto com o esparregado lisboeta data de finais dos anos 70 , No palco do restaurante António , pertinho do velhinho Sheraton, a dois passos do Imaviz , a coisa mais parecida com um shopping que eu me lembro de conhecer e onde existia uma discoteca à moda antiga em que tive o privilégio de participar em 2 ou 3 festas da Gente do Expresso.
O esparregado , como se sabe ,. não é carne, nem é peixe. nem é bem vegetal. É uma espécie que vegeta entre os verdes, de que herda a cor e os farináceos com quem comunga a consistência. O melhor esparregado tem mais couve que farinha e todos sabemos que é com farinha que se fazem os bolos com que se enganam os tolos.
Curiosamente o esparregado da capital não engana e é isso que o torna único !
Exército de Salvação Nacional
Batalhão Bússola
Porto
Manuel Serrão
Domingo, no final do fim-de-semana prolongado, os efeitos perniciosos da macrocefalia manifestaram-se sob a forma de engarrafamentos com extensão superior a seis quilómetros nas entradas de Lisboa.
No mesmo dia e à mesma hora, entrei de carro no Porto pela A1, vindo de sul, sem nunca parar ou abrandar - e atravessei a ponte da Arrábida à confortável velocidade de 90 km/hora.
Na semana passada, a Direcção Geral de Impostos divulgou pela primeira vez as estatísticas referentes ao pagamento de IRS por concelho.
Ficamos a saber, sem surpresa, que quem paga mais são os residentes em Lisboa. Em média, cada família residente na capital paga 4.540 euros de IRS/ano.
Os outros dois lugares neste pódio são ocupados por concelhos da área Metropolitana de Lisboa: Oeiras (4.196 euros) e Cascais (3.995 euros). As famílias do Porto surgem estão em quarto lugar neste ranking de contribuintes, com 3482 euros/ano de IRS, ligeiramente à frente das coimbrãs (3.250 euros).
E, como não podia deixar de ser, os cinco concelhos onde se paga menos IRS situam-se todos a Norte do Douro: Mesão Frio (420 euros), Castelo de Paiva (424 euros), Santa Marta de Penaguião (430 euros), Sabrosa (441 euros) e Lousada (481 euros).
O centralismo tem estranhas formas de se manifestar. Ironicamente, manifesta-se sob a forma de engarrafamentos e de descontos mais elevados para IRS.
Não deixa de ser curiosa esta ironia. Mas a verdade é que não me parece muito provável que um pobre esfomeado sofra de colesterol elevado…
Jorge Fiel
Tenho para mim que o muro mais cínico do Porto habita na rua do Campo Alegre, entre o Circulo Universitário e a Faculdade de Psicologia.
Trata-se de um muro que fala pouco, mas que, quando fala, fala bem.
Até ser pintado de novo, há coisa de meses, fazia eco de uma reivindicação que tinha tanto de estranha como de justa: «Queremos mentiras novas!»
Percebi o muro logo à primeira. Já que vamos continuar a ser enganados por Lisboa, o mínimo que se exige ao Terreiro do Paço é que faça um esforço sério para ser criativo, que seja competente na arte de nos embrulhar – que renove o stock de mentiras, pois com velhas já não consegue enrolar ninguém.
O muro do Campo Alegre tem agora em cartaz um novo pedacinho de ouro, porventura ainda mais sábio que o anterior: «Qualidade de vida é Porto-Lisboa em 6 dias» - na primeira versão, rasurada, falava de apenas três.
Este elogio da distância surge na altura exacta em que o Governo reafirma que a ligação por TGV de Lisboa a Madrid (agendada para 2013) é prioritária sobre a ligação ao Porto, diferida para 2015.
O muro tem toda a razão. Qualidade de vida é estarmos a seis dias de distância de Lisboa – e não apenas a uma escassa hora e meia. Quanto mais perto estiver de nós, mais fácil será à capital continuar a esvaziar-nos os bolsos e a sugar os nossos recursos.
Não tenho dúvidas. O muro do Campo Alegre é uma espécie de Oráculo de Delfos. Não é só o muro mais cínico do Porto. É, também, o mais sábio.
Jorge Fiel