Quinta-feira, 3 de Junho de 2010

Filhos e politicos acham que somos uma ATM

 

Os meus filhos olham-me como se eu fosse um Multibanco privado de que só eles sabem o código de acesso - e convenientemente desprovido de qualquer limite máximo de levantamentos. Uma ATM de sonho, proibida de estar sem dinheiro e de responder que o saldo disponível não lhe permite efectuar essa operação. E estou em crer que isso não acontece só comigo, mas com a generalidade dos pais, o que significa para além rede gerida pela SIBS há por aí, espalhadas pelo país, umas dezenas de milhares de caixas Multibanco informais.

Não posso levar isso muito a mal. Ao fim e a cabo, eles não pediram para nascer, quem os encomendou fomos nós, não importa se reflectida ou irreflectidamente, e por isso temos de pagar - e durante cada vez mais anos - a portagem de os sustentar. Nisto de filhos, não há Scuts.

Mas o caso já pia mais fino quando sinto que há uma data de gente que não conheço de lado nenhum - e a quem não devo favores nem me prendem laços familiares ou outras obrigações -, que vive descaradamente à minha custa, com a mão indevidamente metida dentro dos meus bolsos, tal como os reles carteiristas de estação de comboio.

Por falar em carteiristas, e citando o jovem Penedos, acho um bocado pornográfico que o Governo se prepare para, no próximo dia 1, terminar com os apoios a 186.400 trabalhadores desempregados, enquanto que só o gabinete do primeiro ministro mantém 12 motoristas privados às ordens, e o Estado bulímico, que devora guloso metade da riqueza produzida por todo o pais, tem uma frota de 29 mil automóveis, que só em combustível gastam mais de 90 milhões de euros por ano – como dizia o outro (o secretário de Estado Perestrelo) “essa merda em subsídios de desemprego…”.

Nestes tempos em que as palavras verdadeiras não são agradáveis (e as agradáveis não são verdadeiras), declaro-me farto de ser chulado (preparam-se agora para nos extorquir mais dois mil milhões em impostos) e invejoso dos ingleses que elegerem um ministro que dispensou os motoristas do Governo e aconselha os colegas a andarem a pé ou de transporte público. E o pior é que não vejo jeito disto melhorar. Noutro dia, um provável ministro de um futuro Governo laranja dizia que “o problema deste país é que, desde que saiu o Paulo Macedo, as receitas fiscais nunca mais foram a mesma coisa”. Rosas ou laranjas, nisto são iguais. Acham que nós somos caixas ATM de recursos inesgotáveis. Os políticos olham para os cidadãos como os filhos para os pais. Nunca pensam em poupar, mas sim na melhor maneira de nos sacar dinheiro. São uns chulos que não aprenderam com Virgílio Ferreira que não se pode tirar sangue das pedras.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

Música: How lucky I am, Maggie Gyllenhaal
Publicado por Jorge Fiel às 10:07
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Missa de 7ª dia pela alma política de Pinho

 

Já se passou uma semana e eu continuo sem perceber porque é que a generalidade dos políticos e comentadores acham óbvio que ao fazer os célebres cornos Manuel Pinho assinou a sua certidão de óbito político.

À data da ocorrência, eu estava no Twitter e a primeira coisa que me veio à cabeça foi estabelecer uma hierarquia de gravidade de gestos mal educados.

Será que Pinho ainda estaria na Horta Seca se, em vez de ter feito cornos, tivesse posto a língua de fora, como Einstein na sua mais célebre fotografia?

Estou em crer que sim, que se teria aguentado se mostrasse a língua ou até se fizesse um manguito ao Bernardino – neste último caso até podia invocar em sua defesa tratar-se de um gesto tradicional português, imortalizado pelo Zé Povinho de Bordalo Pinheiro.

Já não tenho dúvidas de que também lhe fariam logo o funeral se ele tivesse feito piretos.

Quando vi a imagem, fiquei até agradavelmente surpreendido pela exuberância plástica do gesto do ex-ministro, com a cabeça baixa, a imitar o touro antes de marrar, e os indicadores bem espetados junto à testa!

Eu sempre fiz os cornos de uma forma mais discreta,  salientando o indicador e mindinho, enquanto o polegar segura os outros dedos, escondidos na palma da mão.

No dia seguinte, ao ler, nos obituários políticos, o inventário das asneiras que Pinho disse e fez, estranhei o protocolo desta política em que um ministro sobrevive a uma data de disparates para sucumbir quando, num momento da exaltação, recorreu a um gesto (imaginativo!) para significar a sua opinião de que um deputado não parava de marrar na mesma direcção.

Quando mais penso no assunto, mais sinto que a politica portuguesa precisa de uma gramática nova e mais percebo porque é que apenas 28,5% dos eleitores estão satisfeitos com a nossa democracia, contra 35%, em 1999, e 40% em 1985. (1)

Eu preferia que Cavaco deitasse a língua de fora, do que vê-lo a gerir com incomodidade e silêncios incompreensíveis a sua ligação com Dias Loureiro e o investimento em acções da SLN.

Eu preferia que Durão fizesse piretos, do que tê-lo apanhado a mentir, ao aumentar os impostos depois de ter jurado que não o faria.

Eu preferia que Sócrates fizesse cornos, mas tivesse um curso de Engenharia concluído sem recurso a habilidades duvidosas.

Eu preferia que Manuela fizesse um manguito, em vez de ouvi-la a acusar o PS de um acto (a venda da rede fixa à PT) da sua inteira responsabilidade.

Não estou nada satisfeito com esta politica em que fazer cornos pela frente é letal - e dar facadas pelas costas é legal.

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

………………

(1)   Conclusão do estudo Reforma institucional em Portugal, perspectiva das elites e das massas, de André Freire, Manuel Meirinhos e Diogo Moreira

 

Música: Cenas infantis Op15 de Schumann
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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