Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

O Porto tem dupla personalidade

O Porto sofre de dupla personalidade. Cheguei a essa conclusão durante um almoço de polvo assado com o Tiago (o TAF do blogue A Baixa do Porto) numa esplanada da Ribeira, num daqueles belos dias ensolarados e mornos proporcionados pelo inverno do aquecimento global.

Passo a explicar. Os restaurantes e passeios estavam cheios de gente, mas eu e o Tiago devíamos ser os únicos clientes portuenses. O resto do pessoal tinha um T de turista tatuado na testa.

O Porto está na moda e ainda bem para todos. Para os que nos visitam, pois podem desvendar uma cidade diferente das outras, que tem para lhes oferecer coisas tão únicas como Serralves, a Casa da Música, as caves do vinho do Porto e muitos quilómetros de belos passeios à beira do rio ou do mar.

É também bom para nós, portuenses, porque beneficiamos da transfusão de vida e de dinheiro nas veias de uma metrópole que padece com a anemia geral que se apoderou da economia do país e com o vil desprezo a que os governos de Lisboa nos têm votado.

A animação da Baixa e da Ribeira, garantida noite e dia pelos turistas desembarcados pela Ryanair no Sá Carneiro e pelos 3500 estudantes estrangeiros que frequentam a Universidade do Porto, é uma das faces da doença que atacou a cidade.

O Centro Histórico e tradicional da cidade é vivido por turistas, viajantes e moradores temporários, com os habitantes locais a fazerem as vezes de figurantes num filme protagonizado pelas pontes, a torre dos Clérigos, os bares da Galeria de Paris, a francesinha e os finos de Super Bock, a livraria Lello, o Parque da Cidade e os magníficos painéis de azulejo que revestem as igrejas ou o átrio da estação de S. Bento.

O centro da cidade vivido pelos portuenses não é acessível a pé, mas sim de carro, e é constituído por um triângulo largo, que tem o NorteShopping/Mar Shopping/IKEA num vértice, o Arrábida/GaiaShopping/Corte Inglés no outro, e o Dolce Vita/Parque Nascente no terceiro. É nestas novas catedrais do consumo que a maioria dos portuenses faz as compras e gasta os tempos livres.

A dupla personalidade não é propriedade privada do Porto. Trata-se de uma doença que atinge outras cidades como a nossa que sofreram de um crescimento urbano acelerado e horizontal, caótico e difuso.

Esta expansão tipo mancha de óleo, potenciada pelas autoestradas, criou aglomerados com baixa densidade populacional, tipo cidade jardim, baseados no uso intensivo do automóvel, insustentáveis não só do ponto de vista ambiental, mas também da viabilidade de uma rede eficaz de transportes públicos.

A nossa qualidade de vida, o futuro do Planeta e o ressurgimento económico do Porto exigem a criação de condições para que os portuenses regressem à Baixa, voltando a habitar e viver o núcleo central da cidade, curando-a assim do distúrbio de dupla personalidade que a afeta

Jorge Fiel

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Domingo, 22 de Abril de 2012

Contra a reabilitação jacuzzi

A Pasteleira é um bom sítio para viver. Tem um bosque precioso e um parque estupendo, está razoavelmente servido de transportes públicos e fica junto ao rio e ao mar, que proporcionam vistas deslumbrantes aos felizardos que moram nos andares altos das torres ou não têm casas à frente. É muito fixe.

Morei mais de 20 anos na Pasteleira e gostei muito. Só mudámos porque a senhoria não se mostrou recetiva à proposta de lhe comprar o andar que fiz quando achei chegado o momento de investir em casa própria a poupança de uma vida.

É bem portuguesa esta mania de ser dono da sua casa. Trata-se de uma tendência filha do casamento entre a drástica redução da oferta de casas para arrendar a preços razoáveis (provocada pelo congelamento das rendas) e a oferta bancária massiva de crédito a habitação a preços baratos.

O resultado é um mercado habitacional desequilibrado, onde menos de 20% das casas são arrendadas (na Holanda são 40%) e perto de metade dos contratos são de rendas inferiores a 60 euros/mês.

Não obstante, comprar casa pareceu-me a medida mais acertada, à luz do objetivo de abordar o período conturbado que se avizinhava com um passivo praticamente nulo e encargos fixos mensais reduzidos ao mínimo - ou seja, menos capitalizado, mas capaz de sobreviver com um rendimento baixo. Ao contrário do que muita gente pensa, austeridade e empobrecimento não são necessariamente sinónimos.

Quando em 2008, o ano da falência da Lehman nos pusemos em campo, definimos as características do alvo - T4, duas casas de banho (uma com janela exterior) preferencialmente na zona ocidental - e o limite da nossa oferta: 200 mil euros.

Após meio ano e dezenas de visitas, apaixonamo-nos por um T4+1 duplex na Boavista, desabitado há mais de uma dúzia de anos e a precisar de grandes obras. Negociámos o preço do imóvel e das obras de reabilitação, até em conjunto excederem apenas ligeiramente o nosso teto.

Os sistemas elétricos e de canalização foram feitos de novo. Ficámos com pena (e frio no Inverno) de não haver dinheiro para lareira, aquecimento central ou vidros duplos. Tivemos de poupar muito na cozinha e casas de banho. Aproveitámos ao máximo os materiais existentes. Mas vai fazer agora três anos que nos mudámos e estamos todos muito satisfeitos com a casa nova.

Com base nesta minha experiência, fico de boca aberta ao saber que a SRU pede 82 mil euros por um T0 na Ribeira e 310 mil euros por um T3 em Mouzinho da Silveira - e que não está a ganhar dinheiro, mas a tentar vender a preços do custo.

O que o Porto precisa não é de uma reabilitação urbana jacuzzi para ricos - até porque a maioria deles prefere morar na Foz -, mas de uma reabilitação low cost, que aumente a oferta de casas pequenas, práticas e baratas para quem gosta e quer viver no Centro Histórico.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 12:11
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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

Qual é a ponte mais bonita?

Qual é o melhor disco dos Beatles? O Sgt Peppers ou o White Album? Saramago ou Lobo Antunes? O Porto 87 de Artur Jorge ou o Porto 04 de Mourinho? Paris ou Londres? Vinho branco jovem e frutado ou com madeira? Pelé ou Maradona? Antas ou Foz? Ronaldo ou Messi? Braga ou Guimarães? Tawny ou ruby?

Há milhares de questões tão fraturantes como estas que dividem colegas, amigos e familiares, proporcionando discussões intermináveis, em que os argumentos se vão desbobinando como cerejas.

Vem este introito a propósito da minha incapacidade em estabilizar uma opinião sobre qual é a mais bonita das pontes do Porto.

Tem dias em que me deixo comover pela extraordinária leveza da D. Maria Pia, uma das obras maiores de Eiffel, uma ponte "toda em renda de Bruxelas" (Teixeira de Pascoaes).

Mas o meu coração balança quando, seguindo em direção à Foz, deparo com o gigantesco arcaboiço dos dois tabuleiros da formosa ponte Luiz I, riscada por Teófilo Seyrig, que une o morro granítico da Sé com a escarpa da Serra e a Ribeira com o Cais de Gaia.

E fico baralhado em definitivo quando, após o Douro vencer a penúltima curva antes de chegar ao seu destino, surge a ponte da Arrábida e o audacioso e elegante arco com que Edgar Cardoso deixou de boca aberta o mundo da engenharia no dealbar dos anos 60.

Não tenho dúvidas sobre a composição do pódio, mas sim sobre o lugar que cada uma destas três pontes ocupa. Se tivesse de escolher agora mesmo, era capaz de colocar a da Arrábida no lugar mais alto.

A par da Torre dos Clérigos, de Nasoni, e da Casa da Música, de Rem Koolhaas, e do Museu de Serralves, de Álvaro Siza, as pontes são um emblema do Porto e também um barómetro revelador da importância relativa da cidade e da região no conjunto do país.

As duas mais antigas foram inauguradas com nove anos de intervalo - Maria Pia em 1877 e Luiz I em 1886 - no final de um século XIX, que foi um dos períodos mais prósperos da nossa região.

Os 77 anos que foi preciso esperar até à inauguração, em 1963, da terceira ponte, a da Arrábida, dizem tudo sobre a incapacidade da I República, o atrofiamento a que o Estado Novo submeteu o país, e a importância (praticamente nenhuma) que o centralismo lisboeta atribuía ao Porto.

As três pontes (S. João, Freixo e Infante) abertas em dez anos (95-05), retratam um período dourado de uma cidade orgulhosa de ter finalmente o seu sistema de metro, ser Capital Europeia da Cultura, ver o Centro Histórico proclamado Património da Humanidade e assistir à glória europeia do clube que leva o seu nome.

O novo esplendor do Porto e do Norte, que o ressurgimento cultural e das exportações prenuncia, ficará assinalado na História pela construção de mais pontes, em sentido literal e figurado, a coserem as duas margens do nosso rio, o Douro, que vai deixar de dividir - e passará a unir.

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

Para acabar de vez com a chulice

Agatha Christie, sim. Toda. Mas não só. Também Stanley Gardner, Rex Stout, Simenon, Chandler .... enfim toda a galeria de autores que a coleção Vampiro nos apresentou em livros de bolso baratos, com capas lindas (em particular as de Lima de Freitas) e encadernações péssimas.

Vampiro sim, mas não só. Também outros clássicos, como Poe, Conan Doyle ou Maurice Leblanc, ou não tão clássicos como a mais recente geração de autores nórdicos, inaugurada pelo imperdível Henning Mankell e colocada em órbita por Stieg Larson.

Fanático por policiais, não resisto a um bom mistério, como este que vou expor, protagonizado pelo Porto e a região de que é o principal centro de serviços e a porta de entrada e saída de gentes e mercadorias.

O Porto tem o mais elogiado aeroporto do país, o que mais cresce (carga e passageiros) e é regularmente eleito como um dos melhores do Mundo (senão mesmo o melhor), na sua categoria. Temos Leixões, o mais eficiente, lucrativo e cobiçado de todos os portos portugueses.

Temos indústrias tradicionais (têxtil, vestuário, calçado e metalomecânica, etc.) que souberam aguentar o impacto da globalização e fazer do Norte a única região do país que exporta mais do que importa.

Temos Amorim e Belmiro, os dois maiores empresários da geração pós 25 Abril, que se firmaram sem terem de ser levados ao colo pelo absurdo Condicionamento Industrial do Estado Novo.

Temos o vinho do Porto, produzido no Douro, declarado pela Unesco Património da Humanidade, e as duas marcas de produtos portugueses com maior notoriedade internacional (Mateus Rosé e Super Bock).

Temos Serralves e a Casa da Música, dois Pritzker, a escola de Arquitetura mais famosa do Mundo. Fomos o berço do rock português, uma linhagem que nasce com a dupla Tê/Veloso e inclui Abrunhosa e os GNR de Reininho.

Temos Manoel de Oliveira, o Fantasporto, as Curtas de Vila do Conde, o FITEI, o TN S. João, o Palácio de Vila Flor, o Theatro Circo e dois centros históricos (Guimarães e Porto) que a humanidade adotou.

Temos o F. C. Porto, a mais bem-sucedida e admirada das nossas equipas de futebol, que não é um eucalipto e soube acarinhar o crescimento do Sp. Braga, o clube do distrito mais jovem da Europa, que se afirma como o terceiro grande.

Temos a melhor, maior e mais internacional das universidades, a UP, bem no centro de uma competitiva teia de produção de conhecimento formada pelas suas congéneres de Aveiro, Braga e Trás- os-Montes.

Se temos tudo isto, se o Porto é o melhor destino turístico europeu 2012, se o Norte é a segunda região que mais contribui para a riqueza do país, por que é que continua a ser a mais pobre e negligenciada?

Este mistério tem duas explicações. A primeira é de que Porto e Norte têm excelentes jogadores, mas falta-lhes o líder que os transforme numa equipa vencedora. A segunda é que depois de darmos o nome ao país - e de dar a carne de primeira, para ficar com as tripas -, chegou a hora de dizer não aos chulos que vivem e prosperam com a mão metida no nosso bolso.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Somos todos boavisteiros

 

O Porto é a minha religião. O Porto cidade/região e o Porto clube, de que não me posso gabar de ter envergado a camisola pois quando tive a honra de o representar o fiz em tronco nu, vestido apenas com uns Speedos azuis e brancos - na minha adolescência fui atleta (medíocre, para grande pena minha) de natação do FCP, secção dirigida à época por um jovem engenheiro chamado Belmiro, que era a menina dos olhos do presidente Afonso Pinto de Magalhães.

Nesta minha dupla qualidade de portuense e portista, o Boavista sempre me mereceu sentimentos contraditórios. Tem coisas boas, como as camisolas (além de originais são bonitas) e o Bessa, um estádio à inglesa, adequado às raízes de um clube fundado pelos britânicos da antiga fábrica Graham.

Tem, porém, coisas menos boas, como ter servido de biombo onde se abrigaram portuenses de confissão benfiquista ou sportinguista, o que conferiu ao Boavista a fama de ser um clube de conveniência.

O facto de Valentim Loureiro, o mais provável pai do Boavistão, ser sportinguista, foi uma fatalidade suplementar que ajudou a colar ao clube a imagem de ser uma espécie de segunda escolha ou prémio de consolação.

Feito o desabafo, declaro acreditar sinceramente que os anos de ouro dos axadrezados, no dobrar do século - em que além de terem sido campeões nacionais foram passageiros frequentes dos 2.o e 3.oº lugares da tabela, botaram figura na Liga dos Campeões e alcançaram as meias-finais da Taça UEFA - , tenham ajudado o clube a definitivamente deitar corpo, cimentando identidade e apetrechando-se com clientela própria de apoiantes em regime de exclusividade.

O drama foi que os suspeitos e invejosos do costume (a saber, os donos da bola no tempo da Outra Senhora) não perdoaram o grito do Ipiranga do Boavista e ficaram nervosos com a emergência a Norte de mais um grande.  E assim, há quatro anos, o Boavista foi compulsivamente empurrado para uma injusta descida aos infernos, como dano colateral da conspiração para arrumar o F. C. Porto, montada por quem tentava desesperadamente obter na secretaria o que era incompetente para conseguir no relvado. Ou seja, quem se lixou foi o mexilhão, como bem diz o povo na sua imensa sabedoria.

O tempo tem vindo a provar que foram de pólvora seca todos os tiros furiosamente disparados pela dupla Mizé Morgado (realizadora do "Apito Dourado") e Ricardo Costa (encenador do "Apito Final"), os organizadores de uma série lamentável de fiascos e derrotas.

Nesta semana, em que o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa declarou ilegal a reunião fantasma do Conselho de Justiça da FPF que despromoveu o Boavista, todas as pessoas de bem devem juntar a sua voz ao coro que exige justiça para o Boavista.

Queremos as camisolas axadrezadas de volta à primeira Liga. Até isso acontecer, somos todos boavisteiros! Justiça para o Boavista!

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 10:26
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Terça-feira, 21 de Junho de 2011

Um rio que une as suas margens

Nas desarrumações e arrumações que sublinharam a minha última mudança de casa (espero que seja também a derradeira, tantas as canseiras que me deu), tropecei na roupa que trouxe da tropa.

Tive imensa pena que o dólman do camuflado e as calças da farda de trabalho (muito na moda, pela cor, tecido e bolsos laterais) já não me servissem, mas não há que ter ilusões. Em trinta anos, muitas coisas se passaram não só no país e no Mundo, mas também no meu corpo.

Vem este episódio a propósito da triste teimosia dos estados- -maiores dos partidos do arco governamental em manterem o país espartilhado em roupas que já não lhe servem. A actual divisão do país em distritos, câmaras e freguesias foi feita à medida de um Portugal que no entretanto mudou completamente de figura.

É pena, porque creio que não é preciso ser um Einstein para perceber que o desenho administrativo feito numa altura em que a lista telefónica de Lisboa tinha uma dúzia de páginas não é o mais adequado para gerir eficazmente um país com 12 milhões de telemóveis, em que metade dos seus habitantes já não se lembra de que houve um tempo em que os telefones estavam presos à parede por um fio.

Mais tarde ou mais cedo (rezemos para que seja mais cedo), as circunstâncias e a troika vão acabar com o disparatado desperdício de energias e recursos que é estar no século XXI a tentar enfiar-nos num fato político-administrativo feito por medida num mundo longínquo, onde não havia auto-estradas, televisão, aviões ou Internet.

A actual estruturação autárquica do Porto fez sentido quando as famílias ricas da cidade iam passar os meses de Verão a casas alugadas na Foz, fazendo-se acompanhar de mobília, baixela e criadagem - e em que o rio Douro era um real obstáculo à circulação dos portuenses.

A profunda reforma político-administrativa do país deverá ser uma das prioridades do Governo que hoje toma posse e a principal arma que Pedro Passos Coelho tem para combater a obesidade mórbida de um Estado que está a asfixiar o país.

No intervalo entre as duas etapas do Grande Prémio Histórico do Porto 2011, Luís Filipe Menezes iniciou oficiosamente a campanha eleitoral que o levará a presidir a Câmara do Porto em 2013.

As cinco novas travessias do Douro que ontem apresentou são propostas sérias para ajudar a voltar a fazer prosperar uma metrópole nascida e unida em volta da foz de um rio que alguns políticos pouco clarividentes teimam em olhar como um obstáculo.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:12
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Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Eu, portuense, ando triste

Os meus amigos de Lisboa ficam surpreendidos por lhes sugerir a Pousada da Juventude quando me perguntam onde devem ficar quando vêm ao Porto. Ao contrário do que o nome indica (e a generalidade das pessoas pensa), as Pousadas de Juventude estão abertas a clientela de todas as idades. E a pousada do Porto está num local magnífico, com uma vista deslumbrante do Douro e a sua foz.

Tenho formatada uma lista de recomendações para os meus amigos que visitam o Porto. Para a experiência francesinha, acompanhada por um príncipe e antecedida de um rissol de carne, aconselho o Capa Negra, no Campo Alegre.

Na Baixa, além dos incontornáveis Majestic e Lello – que se não são o café e a livraria mais bonitos do mundo pelo menos andam por lá perto -, acho imprescindível um passeio a bordo do eléctrico 22, do Carmo até à Batalha, complementado pela descida de funicular até à Ribeira, onde só tem a ganhar se visitar o Palácio da Bolsa (o Salão Árabe é de cortar a respiração) a atravessar a pé o tabuleiro inferior da ponte Luiz I, não se esquecendo de olhar para montante e apreciar devidamente a elegância da ponte D. Maria, uma jóia de Eiffel.

As melhores vistas panorâmicas do Porto obtêm-se a partir de Gaia. As minhas preferidas são as das esplanadas do Bogani (Cais de Gaia) e do Arrábida Shopping. Já que está na margem esquerda, não perde nada se visitar umas caves de Vinho do Porto. É um cliché turístico, mas vale a pena.

Com partida da Ribeira (onde tem a opção de embarcar num cruzeiro pelas seis pontes), junto à igreja de S. Francisco (aquela que tem o interior revestido a ouro), o eléctrico 1 percorre a marginal fluvial. Depois, a partir do Jardim do Passeio Alegre, o melhor é mesmo seguir a pé, ao nível das praias, parar a meio numa esplanada, passar o Castelo do Queijo chegar à frente marítima do Parque da Cidade e olhar a fantástica Anémona que assinala a entrada em Matosinhos.

Se os meus amigos vêm com tempo contado e não podem fazer o programa completo, eu não os deixo partir sem verem os três mais recentes tesouros que enriqueceram a cidade nos anos de viragem do século. Vir ao Porto e não visitar Serralves, ver a Casa da Música e ir de metro até ao Dragão é muito mais grave do que ir a Roma e não ver o papa.

É por isso que eu, portuense, fico triste por ter um presidente da Câmara que nunca pôs os pés no Dragão, só foi uma vez a Serralves (e porque o Fernando Lanhas o foi buscar aos Paços do Concelho e o obrigou a visitar a exposição dele) e não frequenta a Casa da Música – apesar de morar ali ao lado, a menos de cinco minutos a pé. O Porto merece melhor.

Jorge Fiel

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Música: Intervalo, Perfume
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Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Bardamerda para os comentadores de serviço!

O saudoso almirante Pinheiro de Azevedo, que enquanto primeiro ministro brilhou ao pôr o seu Governo em greve

No dia em que Rui Rio anuncia a sua recandidatura à presidência da Câmara do Porto, o que os politólogos e comentadores de serviço discutem é se ele tem ou não perfil para ser primeiro-ministro e que hipóteses tem de suceder a Ferreira Leite na liderança do PSD.

Rio não consegue esconder que a sua ambição política se estende muito para além do escritório que ocupa há oito anos nos Paços do Concelho do Porto – e o seu próprio chefe de gabinete já se imagina em S. Bento, como ministro da Presidência de um Governo liderado por Rui Rio.

Triste a sina do Porto de cair nas mãos de pessoas que o olham como trampolim para voos mais altos, como ponto de partida – e não como ponto de chegada.

Os comentaristas de serviço acham escandaloso que Elisa Ferreira se candidate ao Parlamento Europeu e à Câmara do Porto, apesar dela ter jurado que troca Bruxelas pelo Porto no dia em que os portuenses a elegerem.

Os comentaristas de serviço acham normal que Rio se candidate à Câmara do Porto com os olhos postos no Governo e na liderança do PSD e que seja público e notório que porá os cornos à cidade - assim surja a oportunidade.

Os comentaristas se serviço acham normal que Ilda Figueiredo seja a cabeça de lista CDU ao Parlamento Europeu e se candidate à presidência da Câmara de Gaia – mas no caso de Elisa o mesmo comportamento denota ela estar “agarrada ao tacho”.

Dito isto e citando o falecido almirante Pinheiro Azevedo (que curiosamente morreu logo a seguir a ter dado uma letal entrevista ao chefe de gabinete de Rio, Manuel Teixeira):  Bardamerda para os comentadores de serviço!

Jorge Fiel

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Música: Não venhas tarde, Carlos Ramos
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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

O Porto está a cair aos bocados

Há seis mil casas em risco de ruir na cidade do Porto.

A Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo está a intervir em 38 quarteirões, mas em diferentes fases de execução.

Há 520 edifícios com contratos já aprovados, mas apenas 107 assinados.

No conjunto, há 75 prédios em obra, o que é muito pouco quando pensamos que há seis mil que estão a cair.

Para o Porto começar mesmo a levantar a cabeça é preciso meter o turbo e aproveitar os novos instrumentos legais para fazer da reabilitação urbana a primeira das prioridades da acção camarária.

Um programa ousado de reabilitação urbana teria um impacto económico não negligenciável, na justa medida em que absorveria parte dos 39 mil operários da construção civil que estão desempregados na região.

Não podemos deixar o Porto continuar a cair aos bocados.

Jorge Fiel

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Música: Remove this doubt, Diana Ross & The Supremes
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Tuberculoso, falido e pobre, o Porto está triste

O Porto é o distrito do país com mais casos de tuberculose, com 36 casos por mil habitantes, de acordo com os dados divulgados pelo Centro de Referência Nacional da Tuberculose.

O Porto é o distrito do país mais atingido pelas falências, com 28% do total de insolvências registadas, de acordo com o Estudo de Insolvências e Constituições de Empresas Portugal 2008/2007, da Coface.

O Porto é o distrito mais pobre do país, com 252 mil famílias a viverem do Rendimento Social de Inserção (RSI), de acordo com um estudo do Ministério da Segurança Social. Só no concelho do Porto, mais de 10% dos moradores sobrevivem à custa do RSI.

Sem futuro, sem lideres, sem investimento e sem projectos, o Porto está triste e caminha para uma situação social explosiva.

Para inverter a situação, o melhor é começar pelo princípio e arranjarmos uma liderança. Na minha opinião, a esperança do Porto chama-se Elisa Ferreira.

Jorge Fiel

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Música: Porto sentido, Rui Veloso
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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

O que é bom para o Norte é bom para Portugal

Em Janeiro, fecharam as portas dez empresas por dia – revela um estudo da Dun & Bradstreet.

A construção civil foi o sector mais atingido pelas falências, neste primeiro trimestre do ano.

O Porto foi o distrito mais sacrificado, com 28% do total das falências. Se lhe juntarmos Braga (16%) e Aveiro (8%) temos que 60% das empresas que sucumbiram eram da grande área metropolitana nortenha.

A doença de que esta vaga de falências é sintoma, não vai afectar apenas o Norte, ao contrário do que gente de vistas curtas poderá julgar.

As PME que estão a tombar, asfixiadas pelo criminoso fechar da torneira do crédito bancário, são, na sua maioria, empresas exportadoras de bens transaccionáveis, de que tanto precisamos para atenuar o galopante crescimento do défice externo.

Estas falências são um mau sinal, porque nos dizem que o emagrecimento brutal da nossa economia está a ser feito à custa do músculo – e não da gordura.

O definhar da indústria transformadora nortenha anuncia um terrível e longo período de vacas magras para nossa economia e significa que permaneceremos atolados no pântano da crise mesmo depois dos ventos da retoma soprarem nos nossos parceiros da UE.

Nunca fez tanto sentido como hoje, a frase que Jorge Braga de Macedo gostava de repetir sempre que, enquanto ministro das Finanças, atravessava o Mondego: O que é bom para o Norte é bom para Portugal.

Jorge Fiel

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Música: Marcha dos desalinhados, Resistência
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Quo vadis, Rui Moreira?

Tenho uma excelente opinião do Rui Moreira. Sobre a questão nortenha, tem ideias claras e desassombradas (com as quais eu geralmente estou de acordo), que sabe expor com clareza e paixão.

Rui Moreira tem sido um dos poucos oásis que sobressaem no meio do árido deserto de líderes que o Norte atravessa desde que o Porto matou o pai (Fernando Gomes) – no sentido freudiano da acção.

Como agravante, à solidez e justeza das ideias, Rui acrescenta um já muito razoável índice de popularidade, boa imprensa e uma belíssima imagem televisiva – factor não negligenciável nestes tempos em que passar mal televisão pode ser letal para um líder com ambições.

O único calcanhar de Aquiles (a falta de espessura do seu curriculum, já que não tem tido actividade empresarial relevante desde que vendeu o negócio da família) é muito atenuado pelo seu bom desempenho na presidência da Associação Comercial do Porto.

A única coisa que me inquieta no momento é desconhecer o que ele se prepara para fazer com o capital político que reuniu – e que já desperta cobiças, como se vê pelo namoro descarado que Rui Rio lhe anda a fazer e pelo convite que Paulo Portas lhe dirigiu para encabeçar a lista do CDS ao Parlamento Europeu.

É natural que Rui Moreira prefira manter o máximo de hipóteses em aberto, entre as quais se contam as mais desejadas presidências do Porto (a do clube e a da cidade).

Mas, mais tarde ou mais cedo (se calhar mais cedo…), ele terá de decidir se o que mais lhe interessa é a liderança desportiva ou política da região – ou se prefere ir viver calmamente para as margens de um lago suíço (já que não me acredito que Bruxelas faça parte do seu mapa de opções).

Jorge Fiel

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Música: Emboscadas, Sérgio Godinho
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Ouve-se um silvo distante, que arrepia a água

 

“O coreto era verde ou a sua evasão

na ferrugem instigada pela chuva?

As grades e colunas, a coberta

fatigaram-se, não conseguem reter

tantos mananciais de extinta música,

poderosos ao cativarem os que em volta

se concentravam, evolavam nela.

Os seus rostos reduzidos a tinta

estão a interrogar-me?”

Excerto de poema de José Bento sobre a aguarela Jardim de S. Lázaro, de António Cruz

 

Vivi os primeiros 15 anos da minha vida no 2º andar do número 304 da avenida Rodrigues de Freitas, ao lado do Jardim de São Lázaro e em frente à Garagem Galiza.

Brinquei muito no Jardim de São Lázaro, em frente ao Colégio Nossa Senhora da Esperança, frequentado só por raparigas, que todas elas me pareciam lindas naquelas batas azul bebé (uma das frustrações que vou levar para a cova é o de nunca ter chegado a namorar com uma miúda do Esperança).

O jardim tem um coreto onde actuavam regularmente bandas de músicos fardados (GNR, polícias, bombeiros?), que foi imortalizado numa maravilhosa aguarela de António Cruz, o pintor que na análise avisada do poeta (Eugénio de Andrade) foi um dos homens que mais espreitou a alma do Porto.

Ao remexer no passado, fiquei com vontade de partilhar convosco uma pobre reprodução desta aguarela e algumas palavras sobre António Cruz escritas por quem as sabia alinhar (novamente Eugénio de Andrade):

“António Cruz inventou para a cidade uma luz de cobre que, vinda do alto, paira sobre o casario e as águas do Douro, fluindo cheia de vagares para a Foz. Uma luz morta, de brasido amortecido na lareira, de um dia de Outono já friorento a chegar ao fim. No cais da Ribeira avistam-se já manchas francas de sombra, as pequenas embarcações perdem os contornos, e Gaia começa a confundir-se com a neblina crepuscular. Ouve-se um silvo distante, que arrepia a água. Não há dúvida, a noite vai cair. Uma noite antiga, de há cinquenta anos, onde nibguém poderá presentir a desgrenhada noite dos nossos dias, ruidosa, insegura, desumana. Olhadas assim, com os olhos fatigados, as aguarelas de que estivemos a falar escorrem, também elas, melancolia”.

Jorge Fiel

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Música: A paixão (segundo Nicolau da Viola), Rui Veloso
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

É preciso vender o Porto em Lisboa

As dormidas de estrangeiros no destino Porto e Norte de Portugal cresceram 4,1% face a 2007, que já tinha sido considerado “um ano excepcional”.

Este aumento nas dormidas reflectiu-se positivamente nas receitas turísticas, que subiram 3,8%.

A revitalização do Sá Carneiro é a mãe e o pai destas boas notícias. Abandonado pela TAP, o aerporto do Porto recebeu uma fantástica injecção de adrenalina administrada pelas low cost.

Entre 2003 e 2008, ao número de comapanhias aéreas a voar para o Porto mais do que duplicou (passou de sete a 16, enquanto que as rotas cresceram 140% (passaram a ser 56).

Mas o novo fôlego a dar ao turismo no destino Porto e Norte exige diplomacia e implica agir no mercado interno.

Para continuar a crescer sustentadamente, temos de fazer um esforço de marketing, concentrado na Área Metropolitana de Lisboa, para atrair turismo interno.

Temos também de ter a coragem descomplexada de integrar o produto turístico Lisboa que é vendido por essa Europa fora. Sugerir aos “short breakers” que visitam a capital que é uma excelente ideia tirarem um dia para darem uma saltada até ao Porto.

Jorge Fiel

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Música: Jura, Rui Veloso
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Morte à praça de Lisboa! Viva a praça do Anjo!

É assim que a Bragaparques garante vai ficar a praça de Lisboa

É certo que o nome não ajuda. Mas é inadmissível que a praça de Lisboa continue transformada numa feia pústula, um autêntico escarro, no coração do centro histórico.

A praça de Lisboa é um triângulo que fica no coração de um outro triângulo que tem como vértices alguns dos melhores símbolos do Porto -  a Torre dos Clérigos, a Reitoria da Universidade e a Lello (a mais bonita livraria do Mundo, Enrique Villa-Lobos escreveu-o assim mesmo. no El Pais, sem a cautela do “provavelmente”, e nós não temos a mínima razão para duvidar dele).

A Bragaparques ganhou a concessão da praça por meio século (o que aparentemente demonstra que a via verde dos empreiteiros de Braga não é válida apenas para os municípios de governação rosa) com um projecto do arquitecto Pedro Balonas, em que uma mega livraria da Byblos no Porto seria a âncora para a ressurreição da praça.

Como a Byblos morreu em Lisboa, de morte matada, já lá vão três meses, acho que os portuenses já tinham obrigação de saber quem a vai substituir como âncora do ressurgimento da praça.    

A mim ninguém me teria que ali há enguiço e o mais provável é que a maldição esteja relacionada com o nome. Por isso, pelo sim pelo não, eu começava por devolver à praça o seu nome original (praça do Anjo) e encomendava ao José Rodrigues uma nova estátua de um anjo - para ser colocada no lugar onde estava aquela que foi roubada e destruída por vândalos.

Jorge Fiel

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Música: Não me mintas, Rui Veloso
Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Um método de despistagem de idiotices

Não gosto de clichés. Nunca gostei. Arrepiam-me. É por isso que fujo de ler as crónicas que os jornalistas (e ofícios correlativos) lisboetas escrevem quando regressam de uma estadia no Porto.

Não as lia para não me incomodar. Mas agora arranjei um método infalível de despistagem de idiotices, com a ajuda do software Word.

Antes de me aventurar a ler uma crónica, faço uma busca das seguintes palavras: francesinha, aloquete, cadeado, postura, Aleixo, francesinha e praça de táxis, tripas.

Se tiver apenas duas (ou menos) destas palavras, arrisco uma leitura. Se tiver entre três e quatro ainda fico a pensar. Mais de quatro? Ni hablar!

Desde que inventei este método genial ainda não li mais nenhuma crónica sobre o Porto escrita por um lisboeta.

Jorge Fiel

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Música: Losing my religion, REM
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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Venha daí essa bicharada!

Uma das grandes lacunas na oferta do Porto metrópole é a ausência de um Jardim Zoológico decente.

Quando eu era miúdo, o mais próximo que havia de um Zoo era um pequeno correr de jaulas, no jardim do Palácio de Cristal, onde as vedetas eram o leão Sofala (dizia-se que tinha as unhas encravadas, não sei se era verdade ou piada aos sportinguistas) e o chimpanzé Chico do Palácio.

Agora, tudo leva a crer que a Câmara da Maia, com o apoio do Fernando Póvoas e outros privados, se prepara para transformar a incipiente colecção de animais que estão em exposição no concelho no melhor e maior Jardim Zoológico da Europa.

Só posso bater palmas, com entusiasmo. Venha daí essa bicharada.

Jorge Fiel

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Música: Constant craving, KD Lang
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

Confesso que tenho invejo do Zoo de Lisboa

Amar o Porto não me impede de gostar (e muito) de Lisboa, onde trabalhei durante quase seis dos nos nove anos que leva este atribulado século.

Como portuense invejo algumas das coisas que Lisboa tem.

Uma das coisas que invejo em Lisboa é o seu Jardim Zoológico, sendo que nesta frase se compreendem os dois sentidos: o literal e o figurado.

Invejo em Lisboa o Zoo de Sete Rios, a que todos os anos faço questão de levar o meu filho João. É bom uma pessoa poder-se meter no metro e  desembarcar num parque onde pode ver ao vivo leões, girafas, hipopótamos, rinocerontes, camelos, macacos, elefantes e preguiças.

Invejo ainda em Lisboa o cosmopolitismo que herdou do facto de ser a capital de um império desfeito – a mistura de raças e culturas, a diversidade de gentes e costumes.

Foi com base num cruzamento de culturas diversas (o famoso melting pot) que a América se tornou grande.

Jorge Fiel

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Música: Kiss from a rose, Seal
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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Tal como Colombo descobriu a América

Tropecei na Collectus por acaso, tal como o Colombo descobriu a América.

Seguia por Cedofeita, em direcção à Boavista (apreciando, entre outras coisas, como ficaria a rua coberta e se a percentagem de sapatarias se mantém elevada) quando decidi internar-me pela Travessa de Cedofeita.

Tinha lido no JN que a Margaridense reabrira e achei por bem confirmar a notícia in loco  (sim, é verdade, reabriu, mas com novas valências, que exigem uma inspecção mais demorada que a rápida vista de olhos que lhe dei).

A Collectus fica um pouco antes, no número de polícia 8ª/8D, e é um paraíso para coleccionadores. Com ando numa de postais ilustrados, pedi para ver o que tinham sobre o Porto.

Passaram-me para a mão postais antigos - recordações a preto e branco da cidade nos tempos da Outra Senhora (com preços a oscilar entre os três e os 50 euros cada)  - e velhos, dos anos 70 e 80, com o colorido típico dessas décadas, com preços entre os 30 e 50 cêntimos.

Comprei oito postais, desta última série, por 3,60 euros, que até ao fim do ano voarão por cima do Atlântico Norte e de todos os Estados Unidos até à caixa do correio da minha filha Mariana, em Los Angeles.

Deixo-vos ficar com a reprodução de um dos postais e a recomendação de uma visita à Collectus.

Jorge Fiel

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Música: South California Purples, Chicago
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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

A contagem decrescente já começou

 

 

O discurso em que Elisa Ferreira apresentou a sua candidatura à presidência da Câmara do Porto foi longo (nove páginas A4) mas merece ser lido - mesmo pelos que o ouviram.

Gostava de chamar a atenção para dois passos desta declaração.

O primeiro é a forma elegante como a Elisa chama a atenção para a dramática hemorragia de massa cinzenta que o Porto está a sofrer:

“Decidi vir aqui pedir-vos que me deixem dedicar, de forma total e exclusiva, os próximos anos da minha vida ao Porto, à minha cidade!, à cidade em que nasci, em que estudei, em que trabalhei e em que gostava que as minhas filhas pudessem viver bem

O segundo é a maneira definitiva como arrumou num parágrafo com a falsa questão da dupla candidatura (Parlamento Europeu e Câmara do Porto), que à mingua de outros argumentos tem sido brandida pelos indefectíveis de Rio:

“Nada, senão o Porto me faria desistir deste combate essencial para o nosso futuro: o combate por uma União Europeia mais competitiva e mais coesa, por uma Europa em que todos possam ter voz. Daí o meu compromisso de hoje, perante vós: se me derem a vossa confiança, deixarei Bruxelas e consagrarei ao Porto a totalidade das minhas forças nos próximos anos. Serei, a tempo inteiro, a presidente da Câmara Municipal do Porto! A primeira mulher presidente da Câmara do Porto!”.

Ainda bem que a contagem decrescente para a mudança já começou!

Jorge Fiel

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Música: Listen, Chicago
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Muito pouco dinheiro para tanta beleza

 

Como a mensagem é o meio, mando mais postais ilustrados do que SMS ou mails à minha filha Mariana, que está a viver em Los Angeles.

O computador e o telemóvel são excelentes meios para trocar informações úteis, dar recados e transmitir estados de alma instantâneos.

O postal ilustrado tem sobre todos os tipos de teclados a enorme vantagem de ser manuscrito.

A caligrafia, que na sua imensa sabedoria os orientais elevaram à categoria de arte, e os selos (que faço questão de escolher) dão um toque pessoal insubstituível à comunicação.

Depois, claro, há o conteúdo. Quando se escreve um postal tem de se pôr muito mais do que numa conversa no Messenger, numa SMS ou no mail. Como o conteúdo tem de ser duradouro, exige mais reflexão.

A este propósito recomendo vivamente a compra da magnífica colecção de postais ilustrados com dez olhares de Luís Ferreira Alves (dos quais reproduzo dois) sobre o Porto, que nos recorda uma vez mais como a nossa cidade é bonita.

A minha colecção comprei-a na loja de Serralves e custou-me dez euros e pareceu-me muito pouco dinheiro para tanta beleza, metade da qual já exportei para uma casa em Silverlake, a pouco quilómetros do Oceano Pacífico.

Jorge Fiel

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Música: Porto sentido, Rui Veloso
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Domingo, 20 de Julho de 2008

A Portofobia

 

Muito refrescante a entrevista de Rui Moreira na edição de ontem do “Sol”.

Tantas vezes acusado de “excesso de disponibilidade” e de se colocar acima da instituição a que preside, Rui Moreira mostrou que o que verdadeiramente não lhe falta é frontalidade e sentido de serviço perante a sua região e o País.

Depois do “mea culpa” feito acerca da posição no último referendo de regionalização (hoje tal como eu, concorda que pior do que uma má regionalização, só mesmo não haver nenhuma), Rui Moreira faz severas críticas ao sistema político e à forma como não tem sabido integrar o Porto e o Norte num projecto e desígnio de um Portugal europeu.

No que se refere aos investimentos públicos Rui Moreira põe o dedo na ferida da crise, para justificar (e bem!) a insistência na alternativa “Portela mais um” e desmistificar a necessidade da ligação ferroviária Lisboa-Madrid por TGV.

 Para não falar deste “novo-riquismo” de continuar a expandir a sumptuosa rede rodoviária que já hoje temos, num País onde existem cada vez mais pessoas no limiar da indigência.

Enfim, com coragem e racionalidade, Rui Moreira falou da “portofia”, essa doença de sobranceria e arrogância, que os construtores da capital cortesã têm perante o resto do País, a que chamam desdenhosamente de província. O ponto mais alto desse referencial provinciano é o Porto e os portuenses.  Por isso só nos resta, como diz Rui Moreira, resistir - ser uma espécie de gauleses que se sentem obrigados a defender, com bravura, o seu terreiro e as suas tradições.

Parabéns ao Rui e recomendações a todos para a atenta leitura desta tão interessante entrevista.

Por último a referência à morte da mais velha Blogger do Mundo, Olive Riley, uma australiana com 108 anos de idade que granjeou o respeito e admiração de toda a blogosfera.

 Aqui fica a nossa modesta homenagem, nós que como ela somos escrevinhadores voluntários de palavras e de ideias. Tal como Olive Riley - com rosto, com nome e a singela vontade de ajudar a reflectir.

 

António de Souza-Cardoso

 

Sinto-me: benzinho
Música: Sou um Gajo do Porto
Publicado por António de Souza-Cardoso às 17:10
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Domingo, 13 de Julho de 2008

Quem Tramou D. António?

 

Nos 20 anos da morte de D. António Ferreira Gomes foi finalmente editado o seu Livro “Provas” que a idade e saúde frágil impediram o Bispo de Porto de publicar ainda em vida.

Apresentado ontem no Circulo Católico Portuense, pelo Historiador Rui Ramos e com a privilegiada presença de um seu discípulo e actual Bispo Auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo.

O Bispo do Porto que não gostava de meias verdades e que usou dessa frontalidade para denunciar os erros do regime salazarista parece reunir “Provas” surpreendentes neste livro que “promete incomodar muita gente” e permanece actual, apesar das várias décadas passadas.

Por isso a sugestão aqui fica de uma leitura dos textos de D. António, escritos entre 1958 e 1962 e que incluem cartas de outros Bispos portugueses supostamente solidárias com as posições de D. António e que revelam bem a evolução da posição da Igreja no tempo do Estado Novo.

Talvez que com esta leitura possamos conhecer melhor esta “figura nobre do Porto” como lhe chamou D. Carlos Azevedo e desagravar a sondagem recente que revelava que só 30% dos portuenses conheciam a vida e a obra do Bispo do Porto.

A coragem e frontalidade, o agudo sentido de justiça e o amor que nutria pela Sua cidade, merecem que os portuenses partilhem com as novas gerações estas mais serenas memórias de D. António Gomes Ferreira, o "Homem Fortaleza", como tão bem dizia Sofia de Melo Breyner.

 

 

António de Souza-Cardoso

 

Sinto-me: Saudoso
Música: Saudade
Publicado por António de Souza-Cardoso às 22:42
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Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

4050-327 Porto e 1250-149 Lisboa serão dois códigos postais de uma mesma região?

Para Florida a Foz fica em Lisboa

A passagem por Lisboa do guru norte-americano Richard Florida abalou seriamente algumas das minhas convicções sobre a geografia da minha vida e do meu país.

Confesso que não conhecia Florida, um rapaz com a minha idade mas muito mais curriculum (foi professor do MIT e Harvard e mantém colaborações regulares no Financial Times e no New York Times), citado com alguma frequência por Sócrates - o que equivale a dizer que está completamente na moda.

Deslocações semanais entre duas cidades pontuam a minha vida. Terça feira, às 9.47, apanho em Campanhã o Alfa para Lisboa, onde fico a trabalhar durante a semana. Domingo, faço o percurso inverso, embarcando no Intercidades das 9.30.

Florida veio explicar-me que afinal eu estava enganado e não divido a vida entre duas regiões. O norte-americano puxa bem para cima (uns bons 600 quilómetros) a fronteira norte de uma Lisboa imensa que, do seu ponto de vista, se estende ao longo da costa atlântica  desde Setúbal até à Corunha, e que é uma das 40 megaregiões mundiais - a 34ª, à frente de Xangai, Madrid, Berlim ou Singapura .

Esta ideia é sedutora, ao arrumar na mesma gaveta as minhas viagens semanais de comboio entre o Porto e Lisboa e as deslocações pendulares diárias entre S. João do Estoril e a avenida da Liberdade (suburbano mais metro).

Suplementarmente, a ideia de Florida tem o condão de fornecer a solução para um problema que ele próprio me tinha criado com o enunciado de uma outra tese sua: “O trabalho desloca-se até as pessoas e não o contrário”.

Uma pessoa tem de ter formatos preparados para responder às FAQ da nossa vida. Por isso, quando amigos e conhecidos me comentavam, em tom levemente interrogativo,  “Então, de volta a Lisboa…?!?” eu respondia: ”É! A vida é assim. O pescador vai pescar onde há peixe”.

Ora este meu  “sound byte” contraria aparentemente o edifício teórico de Florida, já que se trata de um desdobramento do ditado do Maomé (ou seja o pescador, isto é eu) a ir ter com a montanha (ou seja a pesca, i.e. o trabalho) e não o contrário, como pretende o guru de Sócrates.

Mas a contradição é apenas aparenea já que à luz da geografia de Florida eu não mudei de região. Ele jura que a rua Júlio Dinis, 4050-327 Porto e a  para a avenida da Liberdade 1250-149 Lisboa são apenas códigos postais diferentes no interior da mesma mega-região.

Mas agora que estou iluminado pelas ideias avançadas de Richard Florida, poderei brindar os amigos que mais prezo com uma resposta mais bem elaborada.  Preparem-se. A próxima vez que me disserem “Então de volta a Lisboa…!?!” vão levar na volta do correio com um resumo das teorias de Florida, que não se esgotam na tese das mega-regiões.

Florida brilhou ainda a grande altura ao reformular a velha tese de que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem (na sua versão  “Portugal é formado por dois países; Portugal e Lisboa”). E garante que o desenvolvimento das cidades é directamente proporcional à quantidade de gays e lésbicas que alberga (Berlim e Paris, governadas por gays, estão no bom caminho).

Jorge Fiel

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Esta crónica foi publicada no Diário de Notícias

 

 

 

Música: Anzol, Rádio Macau
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Sexta-feira, 21 de Março de 2008

O jornalismo é um lugar estranho

Calculo que durante os 18 anos que estive o Expresso participei em 1500 reuniões com gente de Lisboa.  Apenas recordo um único incidente desagradável dessas 500 ou 600 horas de reunião.

Não me lembro do tema mas a discussão acalorada atingiu o clímax quando um colega meu, à época subdirector, desatou a gritar comigo e pôs um ponto final na sua argumentação berrando: «Era o que me faltava agora vir um gajo do Porto dar-me lições sobre jornalismo!».

O director adjunto que dirigia a reunião teve a arte de serenar os ânimos. E o subdirector exaltado teve a humildade de me telefonar, à tarde, a pedir-me desculpa do sucedido, evitando com este gesto bem educado que o incidente da manhã envinagrasse a nossa boa amizade.

O incidente ficou sepultado, mas passei a estar consciente que a minha denominação de origem geográfica atenuava a credibilidade das opiniões que expresso.

Lembrei-me deste episódio há pouco mais de um mês, quando participava numa sessão dos Olhares Cruzados sobre o Porto (uma louvável iniciativa do Público) e o presidente da Associação Comercial do Porto se lamentou dos tiques centralistas dos lisboetas.

Explicou Rui Moreira que a decisão da sua associação de encomendar um estudo sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa foi recebida com desdém na capital.

Perguntaram-lhe o que é nós, do Porto, tínhamos a ver com o assunto, como se a nossa condição de portuenses nos inibisse de nos pronunciarmos sobre questões com epicentro a sul de Aveiro – o que até poderíamos aceitar se o dinheiro dos nossos impostos fosse apenas usado para financiar investimentos públicos a norte de Aveiro.

Augusto Santos Silva, que tinha dado o pontapé de saída na discussão, não poupou nas palavras quando se tratou de concordar com Rui Moreira. Disse que, por ser do Porto, era «vítima de racismo» em Lisboa e documentou a afirmação.  Na escolha de Guilherme Costa para presidir à RTP foi acusado de estar nomear «os amigalhaços do Porto».

Os exemplos dados destes «racismo» foram vários, designadamente a revolta escrita de Fernando Rosas quando da decisão de instalar no Porto o Centro Português de Fotografia («E como é agora? Temos de ir ao Porto quando precisarmos de consultar os arquivos?!!», indignou-se o bloquista) e a frieza com que Isabel Pires de Lima  foi recebida na capital  - «Era preciso ir ao Porto para arranjar uma ministra da Cultura?».

A palavra empregue ( racismo) pode ser forte, mas ilustra bem a situação. E já agora deixem-me dizer uma das coisas que me mais me meteu impressão.  O ministro dos Assuntos Parlamentares queixa-se de ser vítima de racismo por ser do Porto, perante uma plateia cheia de jornalistas mas ninguém achou relevante reportar isso aos leitores dos seus jornais.

Na semana passada, Santos Silva voltou a dizer a mesma coisa aos microfones do Rádio Clube. Mais uma vez ninguém achou importante publicitar esta queixa e  (por exemplo)  perguntar as outros portuenses que vivem e trabalham em lugares de destaque, em Lisboa, se também eles se sentem descriminados.

O jornalismo é um lugar estranho.

 

Jorge Fiel

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Esta crónica foi publicada esta semana no diário económico Oje (www.oje.pt)

 

Música: Purple rain, Prince
Publicado por Jorge Fiel às 09:34
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Duas perguntas judiciosas a propósito do «boom» do Porto como destino turístico

 

Penso que nunca me esquecerei da conferência de imprensa em que Michael O’Leary, vestido com a camisola do FC Porto, lançou a operação da Ryanair para o aeroporto Sá Carneiro.

 

Michael sabia que a recente vitória dos dragões na Champions e a anunciada transferência de Mourinho para o Chelsea ia ajudar o Porto a ser um destino sexy para os viajantes ingleses.

 

Mário Ferreira, o empresário do Douro Azul, estava sentado ao lado de um  dono da Ryanair obviamente interessado em tirar partido da fama de que o Vinho do Porto desfruta nas ilhas britânicas e oferecendo um produto que combinasse cidade com um cruzeiro fluvial até aos socalcos onde nasce o vinho.

 

A operação Porto da Ryanair tornou-se um enorme sucesso e ajuda a explicar a performance notável do Sá Carneiro, que viu o número de passageiros que o usam explodir de três para quatro milhões entre 2006 e 2007 – e passou a estar ligado a 56 destinos através de 16 companhias aéreas.

 

O turismo em Portugal deixou de ser apenas Algarve, Madeira e Lisboa. O Porto e o Norte passaram a figurar no mapa – assim como o Alentejo s os Açores,

 

São vários os sinais da importância crescente do turismo na nossa região, que foi a que conheceu no ano passado um maior aumento de dormidas.

 

Mesmo na época baixa, as ruas do Porto são diariamente sulcadas por «double deckers » descapotáveis bem guarnecidos de turistas estrangeiros.

 

A prestigiada revista de viagens Condé Nast Traveller elegeu o Porto, na sua edição de Janeiro, como o único destino português de um total de 14  recomendados aos seus leitores.  A Casa da Música, Serralves, o Coliseu e a Torre dos Clérigos são os pontos obrigatórios de visita salientados.

 

O investimento no Sá Carneiro - premiado internacionalmente e o único português servido por metro -  já começa a dar frutos.

 

A sábia decisão de fundir numa só as diferentes regiões de turismo nortenhas faz também todo o sentido.

 

Há todas as condições para que o turismo se torne um dos sectores mais importantes da nossa economia regional e até venha a ser uma das alavancas do ressurgimento nortenho.

 

Mas para que isso aconteça é preciso acabar com os entraves burocráticos que impedem a concretização de vários importantes projectos de investimento na região do Douro.

 

E é também preciso ser ousado e descomplexado.

 

Por que não negociar com a Região de Turismo de Lisboa a inclusão de uma escapada até ao Porto nos programas oferecidos aos «shortbreakers« que visitam, a capital?

 

Por que não fazer uma campanha de turismo interno, visando convencer os lisboetas a virem passar um fim de semana ao Porto?

 

Jorge Fiel

 

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Música: Because the night, Patti Smith
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Publicado por Jorge Fiel às 13:14
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Ministro diz-se vítima de racismo por ser do Porto e ninguém lhe liga

Há coisa de uma semana, participei num debate sobre a Comunicação Social, inserido na 5ª edição do ciclo Olhares Cruzados sobre o Porto promovido pelo Público.

Foi com enorme prazer que aceitei o convite do meu amigo Manuel Carvalho para comentar, a meias com o Rui Moreira, a apresentação sobre a matéria feita pelo ministro Augusto Santos Silva.

O tema era interessante e importante. E a companhia era de primeira.

Eu penso sempre no presidente da Associação Comercial do Porto sempre que ouço falar que o Norte está órfão de um líder forte desde o suicídio político de Fernando Gomes.

A velha amizade que me liga a Santos Silva e a distância que me separa deste Governo não chegam para toldar o juízo que faço dele como um político e portuense de sólida a formação e muito carácter.

É com menos prazer que faço este relato, em que estou tentado a concluir que é nossa (sendo que a primeira pessoa do plural refere-se ao nós, portuenses) a principal fatia da responsabilidade pelo declínio da importância e peso da Comunicação Social com sede no Porto.

A apresentação do ministro foi segura e vaga qb, a roçar o inócuo.

Conheço bem Santos Silva, pois fomos colegas de curso e camaradas de lutas passadas. Posteriormente partilhamos o primeiro turno das piscinas do «healths» do Ipanema Park (primeiro) e dos Pinhais da Foz (depois), o que nos permitia diariamente actualizar a conversa e trocar opiniões.

Há três pequenas histórias que, no meu entender, chegam para retratar o Augusto.

Quando ainda fumava, houve uma altura em que decidiu que passaria a fumar apenas um cigarro por dia. Assim, todos os dias, com um rigor religioso, às cinco horas em ponto da tarde, sentava-se no átrio da Faculdade de Economia (onde é professor) a consumir o seu cigarro diário.

Em determinado fase da sua vida, o Augusto tinha de passar diariamente uma hora num café perto das Condominhas, enquanto esperava que uma das filhas recebesse a lição de ballet. Pois levava sempre na pasta três coisas: um livro, um «paper» e o Público. Só no local, e dependendo do grau de barulho que se fazia sentir no café, ele escolheria o que iria ler.

Sempre que recebia os amigos em casa, mal chegava a meia noite, ele recolhia à cama, tipo Cinderela, deixando a mulher, Isabel Margarida, a fazer as honras da casa.       

Acho que estas três pequenos episódios chegam para traçar o perfil do ministro e a perceber que a sua apresentação no debate sobre a  Comunicação Social tinha a qualidade derivada do intelectual sério que ele é mas estava em absoluto desprovida de material susceptível de provocar polémica.

Agora que está reformado, Greenspan, o antigo e mítico presidente da Reserva Federal norte-americana, explicou o truque que usava quando era chamado ao Congresso para prestar contas e lhe faziam perguntas incómodas.

O truque de Greenspan consistia em responder usando uma salada de palavras, que baptizou com «discurso da sintaxe caduca», onde os principais ingredientes eram conceitos densos e vocábulos técnicos.

Os congressistas não percebiam nada do que ele dizia, mas tinham vergonha de o evidenciar em público, com medo de fazer má figura em frente aos seus pares, e assim Greenspan atravessava incólume  mais um escrutínio incómodo escondido atrás dum nevoeiro de palavras.

Confesso que me lembrei do truque do «discurso da sintaxe caduca» enquanto ouvia a apresentação do ministro dos Assuntos Parlamentares, na noite de 5ª feira da semana passada, no auditório da Católica.

No debate, apenas uma vez Santos Silva saiu dos carris que tinha definido para esta sua intervenção.

A determinada altura, Rui Moreira deu um exemplo feliz dos tiques do centralismo ao falar da maneira como foi recebido, pelos panditas da capital,  o estudo sobre a localização do novo aeroporto internacional de Lisboa, promovido pela Associação Comercial do Porto.

A reacção generalizada na capital ao estudo veio sob a forma da pergunta enfadada: «E o que é que esses tipos do Porto têm a ver com isso?», como se por alguma lei secreta estivéssemos inibidos de nos pronunciar sobre tudo quanto se passa no resto do país e circunscritos a opinar sobre as coisas da nossa região.

Embalado por esta denúncia, o ministro falou da existência em Lisboa de um «racismo» (foi esta a palavra usada por ele) contra as pessoas do Porto, detalhando que ele próprio e a ex-ministra da Cultura tinham sido vítimas desse «racismo».

No final do debate, Augusto Santos Silva foi cercado por uma dúzia de jornalistas, equipados com blocos de notas, microfones e câmaras de filmar. Fizeram-lhe muitas perguntas.

Presumo que traziam as perguntas feitas de casa e que elas versavam sobre os temas da actualidade, tão palpitantes como o concurso para a TDT, o quinto canal, a nova administração da RTP, o centro de gravidade geográfico da RTPN, a ERC, etc.

Na sexta e no sábado, não li, não vi, nem ouvi ninguém referir-se ao facto do ministro dos Assuntos Parlamentares ter dito ser vítima de racismo por ser do Porto. 

E fiquei, por isso, a pensar que se calhar é muito por culpa nossa (e neste caso a primeira pessoa do plural refere-se ao nós, jornalistas do Porto) que a voz da Comunicação Social do Porto não é ouvida em Lisboa.

Jorge Fiel

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Música: Norwegian wood, Beatles
Publicado por Jorge Fiel às 00:05
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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

O mar enrola na areia?

Estou mortinho que seja dia 22 de Março. Não porque esteja a contar os dias até à Primavera, a mais ansiada das quatro estações, anunciada pela chegada das andorinhas, o desabrochar das flores e a excitação dos cãezinhos que começam a andar com as cadelinhas.

Não. A minha pressa em relação a 22 de Março prende-se apenas com o facto dessa data, o Dia da Universidade, ter sido a escolhida para a apreesntação pública das conclusões do conclave que reuniu no Palácio da Bolsa, nos dois primeiros dias desta semana, a nata da inteligência portuense.

Porto  Cidade Região era o tema do encontro, que reuniu gente da  Universidade do Porto, CCDRN e associações empresariais.

Neste momento de profunda crise na cidade onde bate o coração da Região Norte, confesso que depositei grandes expectativas nos frutos deste conclave, que no seu essencial decorreu à porta fechada.

Foi precisamente por esperar muito da reunião, que fiquei um bocadinho desiludido (o que só acontece a quem se ilude…) quando a necessidade de instalar na nossa cidade uma estação de monitorização do mar fazia o titulo da notícia que o JN dedicou à conclusão do conclave Porto Cidade Região.

Toda a gente, mesmo os jornalistas, têm o seu dia mau, pensei para comigo O meu desapontamento cresceu quando abri o Público de ontem, procurei a notícia sobre o encontro e dei de caras com o título «UP vai instalar a estação de monitorização do mar até ao fim do ano».

Como não quero acreditar que a criação de um obervatório marítimo tenha sido a principal conclusão de um conclave que reuniu, durante dois dias, cem dos mais ilustres e influentes portuenses, estou em pulgas para que chegue o dia 22 de Março e os organizadores do conclave partilhem connosco a totalidade das conclusões a que chegaram.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

PS. No dia de hoje, não posso deixar de saudar, com orgulho, a iniciativa do movimento cívico Eu imPORTO-me de assinalar o 117º aniversário da revolta republicana do 31 de Janeiro, ocorrida no Porto, e que foi o primeiro  levantamento em armas do povo contra o regime monárquico que vergonhosamente capitulara face ao Ultimatum britânico.

 

Música: O mar enrola na areia, popular
Publicado por Jorge Fiel às 14:17
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Uma equipa só joga o que a outra a deixa jogar

 

«O Porto?! Esqueça o Porto! O Porto não vai a lado nenhum. Quer ser igual a Lisboa. As pessoas do Porto não se entendem umas com as outras e só sabem estar sempre a lamentar-se. Esqueça o Porto!».

 

Esta frase reproduz aproximadamente a resposta dada por Augusto Mateus ao meu amigo Daniel Deusdado, quando ele introduziu na conversa o tema Porto.

 

Para os mais distraídos, informo que o Daniel é um militante da causa nortenha e o inventor daqueles que são provavelmente os mais inovadores e frescos produtos portugueses de Media que viram a luz do dia neste século– o Inimigo Público e a Liga dos Últimos.

 

O encontro com Augusto Mateus foi obviamente em Lisboa, local de peregrinação semanal do Daniel. A isso é obrigado por via dos negócios que mantém com as Produções Fictícias e da necessidade de arranjar trabalho e contratos para a sua produtora de televisão (Farol de Ideias).

 

Para os mais distraídos, informo que Augusto Mateus, ex-ministro da Economia de Guterres, é um dos mais proeminentes e influentes membros da inteligência socialista – e tem lugar garantido na lista das 500 mais capazes cabeças do nosso país.

 

«Esqueça o Porto!», o conselho de amigo dado por Mateus ao Daniel, já foi seguido por milhares de quadros nortenhos que ou fizeram as malas e emigraram para a capital – ou então enchem os Alfas na madrugada e manhã de 2ª feira e tardes de 6ª.

 

Esquecer o Porto foi o que já fez o Governo Sócrates - e não é preciso usar óculos para ver o trágico resultado deste esquecimento.

 

Quase metade dos 450 mil desempregados oficiais do IEFP (os números que retratam a triste realidade são bem mais cruéis) são no Norte.

 

Dos 150 mil desempregados sem qualquer espécie de rede social (ou seja deixaram de estar habilitados a receber qualquer tipo de subsídio) a esmagadora maioria (90 mil) são do Norte.

 

O Vale do Sousa é a zona do país onde se regista a mais elevada taxa de desemprego (11%).

 

O Norte é a segunda região quando se trata de contribuir para o PIB mas a última no momento da distribuição da riqueza (quem tiver dúvidas faça a fineza de consultar as estatísticas do INE sobre a distribuição regional do PIB).

 

Os números mostram outra verdade de sangue. Nada está a ser feito para inverter esta tendência. O Porto recebe apenas 1/3 das verbas transferidas do Orçamento de Estado em 2005. As verbas do Pidacc para o distrito caírem em mil milhões de euros. Um bilião a menos!

 

Se a crise que dilacera o coração do Norte tivesse o epicentro em Lisboa, já teria sido estabelecido o pandemónio. Ninguém conseguiria atravessar o Tejo nos cacilheiros da Transtejo. Os trabalhadores do Metro e da Carris estariam em greve por tempo indeterminado. Os funcionários públicos ficariam em casa. As bandeiras negras seriam hasteadas. E o Governo, aterrorizado, já se teria precipitado em apagar o fogo com dinheiro, comprando Auto-Europas e faraónicas obras públicas que decapitassem a crise.

 

Numa coisa Augusto Mateus tem razão. Uma parte da culpa por este estado de coisas é nossa. Uma equipa só joga aquilo que a outra a deixa jogar. Não podemos gastar o tempo em lamúrias, como velhas nas salas de espera de um Centro de Saúde, e esperar sentados que o Terreiro do Paço abdique voluntariamente do poder absoluto que concentrou - e se convença que o resto do país não é só paisagem.

 

Os vistosos sucessos do FC Porto e da Sonae provam que se soubermos ser competentes e profissionais conseguiremos triunfar, apesar de termos de ser duas vezes mais capazes e trabalhadores para superar o vento contra e as armadilhas que nos espalham no caminho.

 

O problema é que o individualismo inscrito no código genético nortenho é uma característica positiva quando se trata de esgravatar saídas para a crise e de furar vidas (e é o pai da rede de PME que caracteriza o tecido empresarial nortenho) mas é negativo quando se trata de unir forças.

 

Estamos calhados para nos desenrascarmos. Ao cada um por si. Mas o facto de não estarmos habituados a voar em formação é pernicioso para a causa do Norte.

 

Para triunfarmos – e isso significa regionalização e um Governo do Norte, com poder e já! – temos de falar a uma só voz. Nenhum exército ganha uma batalha se cada um dos soldados estiver indisciplinadamente entretido a lutar por si e para seu lado.

 

Segunda e terça feira, a Universidade do Porto promove no Palácio da Bolsa um conclave em que participarão uma centena de personalidades nortenhas, entre as quais se contam Daniel Bessa, Rui Moreira, Sobrinho Simões e Artur Santos Silva.

 

Seria bom que este conclave fosse o primeiro passo no sentido da criação de um movimento que combata pelo progresso da região. Não faltam generais. O que faz falta é um estado maior coeso e um exército disciplinado.

 

Usando a imagem do meu amigo Manuel Serrão, o Batalhão Bússola, do Exército da Salvação Nacional, está às ordens – e já abriu as hostilidades.

 

Jorge Fiel

 

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

 

 

 

Música: Amanhã é sempre longe demais, Rádio Macau
Publicado por Jorge Fiel às 20:23
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Não somos iguais, não somos diferentes...somos melhores!

 

 

 

Já sei que não é politicamente correcto afirmá-lo e que se vão levantar vários artistas da cassete pirata e do bloguismo anónimo contra mim , mas sinceramente estou- me ....nas tintas.

 

Quase desde que me conheço que ouço gente a discutir se o Porto é melhor que Lisboa ou o contrário. Tenho para mim que o que faz realmente a diferença  que conta nas cidades  são as pessoas , muito mais que as pedras , sejam modernas ou famosas.

 

Graças às feiras que  frequentei ao longo dos últimos anos  , conheci o mundo como não sonhava sequer e as minhas estadas em Barcelona e Madrid deram- me uma ideia muito aproximada do que é uma rivalidade com final feliz, A Autonomia Regional !

 

Quando os "nuestros hermanos" têm algum convidado que querem distinguir , se são de Madrid apressam-se a escolher um restaurante que imaginam possa impressionar o cliente ou amigo. Bem ao contrário , se são de Barcelona , convidam-no para casa.

 

Por cá não podia ser mais parecido ,!  Dos meus seis anos de estudo em Lisboa retirei com a confirmação de que esta estória é verdadeira. O lisboeta médio não gasta um tostão supérfluo na casa porque encara o lar,doce lar, como uma mera extensão do  seu escritório , onde mulher não entra não.

 

Já em Barcelona , como acontece  com muitos portuenses, se queremos honrar akguém

fazemos tudo para o receber em casa. Desde logo porque investimos na casa tudo o que podemos e depois porque um amigo   não se recebe ao balcão de um tasco por muito moderno e ostensivo que seja.

 

Parecendo pequena , esta diferença diz muito sobre o estado das relações humanas entre cidades onde muito boa gente julgava...e julga ..que não há nenhuma diferença.Mas há e não é pequena.

 

Exército de Salvação Nacional

 

Batalhão Bussola

 

Pelotão Mestre de Aviz

 

Manuel serrão

 

 

 

 

Música: We Are the champions
Publicado por Manuel Serrão às 00:54
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Eu também me imPORTO

 

O Norte é uma região infeliz. O diagnóstico não é nosso. É de Carlos Lage, o socialista que preside à CCDRN. Mas achamos que ele tem razão.

 

O Norte está infeliz porque é a segunda região que mais contribui para a riqueza do país e é a última quando toca a distribuir essa riqueza.

 

O Norte está infeliz, porque é a região mais fustigada pelo desemprego mas o Governo não lhe vai lhe pôr no sapatinho, de prenda de Natal, uma Autoeuropa que crie emprego e aja como uma injecção de adrenalina num tecido económico deprimido.

 

O Norte está infeliz porque a queda livre das verbas do PIDACC destinadas para a região impede-nos de sonhar com amanhãs que cantam.

 

O Norte está infeliz porque o Porto, que é o seu coração, está doente.

 

Neste dia em que Lisboa debate se levanta 500 ou 140 milhões de euros ao banco do Estado, o Porto vota um orçamento com as unhas cortadas rentes apresentado por Rui Rio, em vez do Plano Marshall de que a cidade precisa para voltar a pôr a cabeça fora da água.

 

Neste dia em que faz onze anos que a Unesco declarou o Centro Histórico do Porto Património Cultural da Humanidade há uma luz que se acende no fundo do túnel.

 

A sociedade civil, dos Passarinhos da Ribeira ao Clube Literário, passando pelos Mareantes do Douro, acordou e, num movimento espontâneo, de base, decidiu festejar a proclamação da Unesco - , a marca de água do mais dourado período do Porto, que se iniciou com a construção do Museu de Arte Contemporânea, em Serralves, e encerrou com a inauguração da Casa da Música - compreendendo o Parque da Cidade, o Metro e o Porto 2001, capital europeia da cultura.

 

A sociedade civil levanta-se e diz que se importa com o estado comatoso em que o Porto e o Norte caíram, à míngua de liderança e face á habitual usura do Poder Central.

 

Neste dia, juntamos a nossa à vossa voz e também gritamos: Eu imPORTO-me!

 

António Souza Cardoso

Fernando Rocha

Jorge Fiel

Juca Magalhães

Mário Rui 

Manuel Queiroz

Manuel Serrão

Rogério Gomes

 

 

 

 

Música: Nona Sinfonia, Ludwig von Beethoven
Publicado por Jorge Fiel às 20:37
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

Scolari é uma mortadela rasca que estamos a pagar ao preço de caviar

 

«Eu não sou trouxa. Como é que sairia do Brasil para ganhar o mesmo que recebo aqui fazendo palestras? Se alguém quer comer caviar tem de pagar o preço de caviar, não de mortadela»,

 

Luís Filipe Scolari ao Jornal da Tarde, de S. Paulo em Novembro de 2002

 

 

Não gosto de Scolari por várias razões e mais uma, sendo que a mais uma reside no facto do brasileiro profanar as boas recordações que guardo de um actor estupendo (Gene Hackman) de que o brasileiro é sócio involuntário.

 

Não gosto de Scolari porque sou portista, portuense, português, jornalista e pai de um filho de sete anos que é doido por futebol e acredita que vai ser um craque da bola.

 

Como portista não lhe perdoo-o ter andado a brincar com o meu clube, recusando-se sempre a explicar porque é não convocou o Vítor Baía sufragado pela UEFA como o melhor guarda redes da Europa no ano do Euro 2004, tendo ainda o desplante e a falta de respeito de chamar para os trabalhos da selecção nacional Bruno Vale (actual suplente no Varzim, da Liga de Honra), que era então a terceira opção para a baliza do FC Porto.

 

Como portuense não lhe perdoo-o ter-se recusado a responder a um jornalista numa conferência de imprensa, usando como argumento «Você deve ser do Porto» (por acaso não era…) como ser da nossa cidade fosse sinónimo de ter sarna ou qualquer outra doença contagiosa.

 

Como português não lhe perdoo-o a idiotice de ter perdido o jogo inicial do Euro 2004 com a Grécia por se ter recusado a fazer o que toda a gente lhe dizia para fazer (usar como esqueleto da selecção a equipa do FC Porto que acabava de ter ganho em Gelsenkirchen a Champions, alinhando sempre com pelo menos nove portugueses). Não lhe perdoo-o também ter cometido a proeza de voltar a perder com a Grécia, na final do Euro 2004, apesar de jogar em casa e ter à disposição muito melhores jogadores do que o adversário. Não lhe perdoo-o, ainda, morder a mão que lhe dá de comer, acusando Portugal de ser um país racista.

 

Como jornalista não lhe perdoo-o as ofensas continuadas a diversos colegas meus, que incluíram insultar em público uma jornalista e distribuir acusações gratuitas e infundadas contra um painel de comentadores de um programa de televisão e que cometeu o único crime de o criticar.

 

Como pai de um miúdo que tem a mania que vai ser futebolista não lhe perdoo-o - nunca lhe perdoarei, nunca - a catrefada de maus exemplos que dá ao meu filho.

 

Não quero ouvir o meu filho dizer que amuar não é defeito porque o Scolari, que é o seleccionador nacional, também amua-a como ele e abandona a meio uma conferência de imprensa só porque não gosta das perguntas que lhe estão a fazer.

 

Não quero ouvir o meu filho dizer que fazer birras não é defeito, porque o Scolari, que é o seleccionador nacional, também faz birras e adora vitimizar-se - «Faço por Portugal mais do que fiz pelo Brasil e só recebo situações desagradáveis» - em vez de se comportar como o homem crescido que é.

 

Não quero ouvir o meu filho dizer que ter mau perder não é defeito, porque o Scolari, que é o seleccionador nacional, também tem mau perder e deu um soco num jogador sérvio no final de um jogo que não lhe correu de feição.

 

Entristece-me profundamente a falta de ambição de um treinador que fica exultante quando a selecção de Portugal (vice-campeã europeia, 4ª classificada no Mundial, 8ª melhor no ranking da FIFA, 4ª no da UEFA), recheada de estrelas, sofre até ao último minuto para conseguir a qualificação, empatando em casa a zero, no último jogo, com uma Finlândia que é a 44º no ranking da FIFA e 26ª no da UEFA e o melhor que tinha feito até agora no apuramento para um Europeu foi em 1996, quando ficou em 4º lugar num grupo de seis, conquistando 15 pontos em dez jogos.

 

Além de mal educado, Luís Filipe Scolari é uma fraude – é mortadela rasca que estamos a pagar ao preço de caviar.

 

Jorge Fiel

 

Música: A fool on the hill, Beatles
Publicado por Jorge Fiel às 13:52
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

This is the end, beautiful friend, this is the end, my only friend, the end

 

Para assinalar o ponto final neste algo fastidioso desfiar do inventário de 100 coisas que amo no Porto, copiei um verso de uma das mais fantásticas canções («The End») dos Doors,  servida por um poema assassino, em que o Jim Morrison declara querer matar a mãe e o pai.

 

Como se sabe, o Jim acabou por patinar primeiro que os pais. A propósito, confesso-vos que já fui ao Père-Lachaise, em Paris, visitar a campa dele, que, em si, é uma desilusão.

 

A única vantagem do túmulo do Morrison é funcionar como chamariz para um cemitério que tem belos jazigos, como o do Géricault (o pintor da «Jangada da Medusa»).

 

 

CAFÉS

 

81. Bogani Café

 

Abortado como projecto empresarial (foi pensado pela Unicer como o primeiro de uma cadeia de cafés cheios de «panache», projecto entretanto abortado), o Bogani, no Cais de Gaia, oferece a partir da sua esplanada duas das melhores vistas do Porto – a mais clássica, a montante, e a mais inesperada, a curva do rio, a jusante. O moderno mobiliário Philippe Starck é bastante confortável.

 

 

82. Piolho

 

É o santuário de sucessivas gerações de estudantes. Tive escritório montado durante a quase toda a década de 70 no mítico Piolho, que no ocaso do Estado Novo (não confundir com a discoteca homónima) albergou todo o Contra, desde spontex até aos PC’s (então chamados de «revisas» pela extrema-esquerda), passando por todas as variantes (e eram muitas...) de maoistas, trotskistas, situacionistas e freaks. Alguns exemplos avulso:  Arturinho a la Gauche, Augusto Santos Silva, José Pacheco Pereira, João Botelho, António Pinho Vargas, Manuel Resende, Pedro Baptista e o falecido filósofo Francisco Sardo. Piolho é alcunha. Na verdade, chama-se Âncora de Ouro, mas ninguém o conhece por esse nome. Este café encerra em si o valioso segredo de nunca passar de moda.

 

 

83. Botânica

 

É o café que mais frequento. Por razões de conveniência geográfica, uma vez que fica meio caminho entre a minha casa (Pasteleira) e o escritório do Expresso no Porto (Júlio Dinis, perto da Rotunda da Boavista). Mas também devido à sua esplanada que fica em frente ao Jardim Botânico. É uma esplanada para todas as estações, porque está parcialmente protegida da chuva pelas oportunas arcadas do prédio. Tem a enorme vantagem de abrir muito cedo (não quero jurar, mas penso que às sete já está de porta aberta) e o pequeno inconveniente de fechar aos domingos.

 

 

84. Chalé Suisso

 

Este pequeno café com esplanada, no Jardim do Passeio Alegre, é o meu pouso preferido para as manhãs de sábado A elegante singeleza da sala (minúscula) e da esplanada, outrora frequentadas por Camilo Castelo Branco e Alberto Pimentel, compensa amplamente a ausência de casas de banho privativas. O que para os homens até uma vantagem já que os obriga a frequentar, no meio do jardim, junto ao mini-golfe, o mais bonito e asseado urinol público do país.

 

 

85. Majestic

 

É um clássico. O escritor lisboeta David Mourão Ferreira resumiu o essencial numa frase: «Nunca venho ao Porto sem ao menos dar um salto a este belo café Majestic, que não hesito em considerar como um dos que em toda a Europa melhor conserva a atmosfera do início do século XX». A fama e luxuosa beleza aristocrática deste café, que transporta até aos nossos dias um elegante ambiente Belle Époque, leva a que o contigente de clientes que folheiam guias turísticos suplante em número a freguesia indígena. A festa de inauguração do café, a 17 de Dezembro de 1921, foi rija e contou com a presença de gente importante à época, como Gago Coutinho  (que voltaria ao café acompanhado pela estonteante e emergente actriz Beatriz Costa)  ou que viria a sê-lo, como o cineasta Manoel de Oliveira.  Com os espelhos e dourados, o Majestic fez furor e acolheu nos seus sofás de veludo vermelho muitas tertúlias literárias e artísticas, animadas por gente diversa como Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes, José Régio ou António Ferro.

 

86. Ourigo

 

Não tenho a menor das dúvidas em declarar a esplanada marítima do Ourigo como a mais espectacular do Porto. É a número um. A cozinha nunca foi o forte deste café-restaurante, que agora está a atravessar uma fase japonesa. Mas a localização privilegiada da esplanada (situada numa plataforma sobre a primeira praia a norte da foz do Douro) desculpa tudo. Os fins de tarde são demolidores. O barulho das ondas a embater nas rochas (que salpicam de água salgada os mais audazes na escolha de mesa) é música para os ouvidos.

 

 

87. Lais de Guia

 

Este café de madeira com esplanada, implantado no areal, é um dos óasis que serve o largo e despojado Passeio Atlântico, a marginal desenhada por Souto Moura  que faz de separador entre a praia os prédios de apartamentos da moderna zona de Matosinhos Sul, erguidas nos quarteirões outrora ocupados por fábricas e armazéns, predominantemente ligados à indústria conserveira. 

 

 

88. Leitaria da Quinta do Paço

 

Os «eclair» recheados com chantilly, disponíveis em dois formatos, são pura e simplesmente míticos. A leitaria já tem ramificações em centros comerciais mas não nestas coisas não há nada que chegue à sede.

 

 

 

CASAS DE CHÁ

 

89. Casa de Chá de Serralves

 

Fronteira ao antigo campo de ténis da Casa de Serralves,  que nos quentes fins de tarde de Verão acolhe os concertos do programa Jazz no Parque. A Casa de Chá é um pedaço do Paraíso emprestado à Terra, um formidável refúgio de tranquilidade onde se pode comer scones e beber chá num fascinante ambiente de sonho.

 

 

90. Casa de Chá da Boa Nova

 

Sob a designação geral Casa de Chá  (a primeira e uma das mais justamente cantadas obras de Siza Vieira, datada de 57),  respondem uma casa de chá propriamente dita e também um restaurante. O mar, a beleza agreste do local, o barulho e movimento das ondas, as linhas depuradas de uma arquitectura de primeira água, deixam pouco espaço para o peixe grelhado ou para as cataplanas. A segunda obra de Siza foi a Piscina das Marés, também na Marginal de Leça, que exige uma visita.

 

 

RESTAURANTES

 

91. Adega Vila Meã

 

Em Lisboa, é hábito dizer-se que no Porto se come bem e são servidas doses abundantes. A descrição assenta como uma luva a este restaurante, o sítio certo para ir se queremos que nos sirvam à mesa doses pantagruélicas do que melhor se confecciona no país em termos de comida genuinamente portuguesa. Na lista acotovelam-se o Bacalhau Escachado, a Posta e as Febras de Salpicão, que sofrem a concorrência dos pratos do dia: as Pataniscas de Bacalhau com Arroz de Feijão, o Polvo assado, os Filetes de Polvo, o Sarrabulho à Moda de Ponte do Lima, enfim... Quinta é o dia do monumental Cozido à Portuguesa (atenção que um quarto de dose derrota o garfo mais exigente)  e por isso é mais avisado reservar mesa.

Rua dos Caldeireiros, 62

 

 

92. Antunes

 

Dirigido pela irmã de Reinaldo Teles, este restaurante vive um ambiente buliçoso durante os almoços de semana, alimentando trabalhadores de diferentes ofícios, com especial atenção para o habitualmente bem fornecido contingente da Câmara Municipal do Porto. A refeição recomendada integra Pernil de Porco Assado, regado a vinho da casa e sobremesado com as afamadas rabanadas, que são uma das especialidades da casa. Mas durante a semana, os pratos do dia revisitam a tradição da gastronomia tradicional portuguesa, o cozido, as tripas, os rojões – e também o arroz de pato.

Rua do Bonjardim 525/529.

 

 

93. Marisqueira de Matosinhos

 

Tem tudo o que de bom pode esperar de uma marisqueira de Matosinhos. O restaurante onde o sportinguista Miguel trabalha desde os 14 anos e se tornou sua propriedade na sequência dum MBO acordado com Henrique Torres,  o antigo patrão (que frequentemente é lá visto a almoçar), é uma Meca para quem demanda mariscos frescos e saborosos – camarão de Espinho, gordas gambas, ostras, percebes, búzios, camarões tigres e por aí adiante. Mesmo que seja doido por marisco, dê, por favor, uma oportunidade ao rosbife.

Rua Roberto Ivens, 547

 

 

94. Portucale

 

No sítio mais alto da cidade está aquele que é considerado o restaurante mais requintado do Porto. Se o dinheiro não é um problema, abra as hostilidades com crepes de lagosta, míscaros grelhados ou um sofisticado Mil folhas de foie gras com trufas, servido com gelatina de Vinho do Porto. Depois siga com um Linguado Walewska, uma perdiz estufada com castanhas, ou o incontornável bife flamejado confeccionado à nossa frente, para grandes espanto dos outros comensais desconhecedores desta hipótese. A lista de vinhos é irrepreensivelmente completa. Se é de sobremesas, experimente a encharcada de ovos.

Rua da Alegria 598

 

 

95. Bull & Bear

 

Uma bem sucedida fusão entre a «nouvelle cuisine»  e a cozinha tradicional portuguesa foi operada por Miguel Castro Silva, como se pode comprovar por uma simples visita a este restaurante. Os nomes dos pratos históricos são a prova dos nove da bondade e ousadia deste matrimónio: Ameijoas com feijão manteiga, Bacalhau com Porto Vintage, no Franguinho Recheado com Sabores Portugueses, Pescada com Camarão e Alho. Esta cozinha é imperdível. «Esteja onde o Miguel estiver é sempre de ser ir gastronomicamente atrás dele», Quitério dixit. Sigamos o Miguel!

Avenida da Boavista 3431

 

 

96. Cafeína

 

Apesar de estar de porta aberta há uns anos, continua a ser um dos mais «trendys» restaurantes do Porto, provavelmente devido aquele «je ne sais pas quoi» que Vasco Mourão empresta aos seus projectos. O facto das mesas estarem muito juntas é inibidor de pedidos de casamento ou conversas confidenciais. O Magret de Pato é uma boa opção numa lista variada, onde não faltam as massas frescas e uma razoável oferta de carpaccios.

Rua do Padrão 100, 226108059

 

 

LIVRARIAS

 

97. Lello

A Lello é a mais bonita livraria do Mundo. Enrique Villa-Lobos escreveu-o assim mesmo, sem a cautela do «provavelmente», no El Pais e nós não temos a mínima razão para desconfiar dele. A boca dos forasteiros abre-se mal olham para a monumental fachada neogótica, riscada pelo engenheiro Xavier Neves, e vão mantendo a boca escancarada até que saem – desde que deparam com a esplendorosa escadaria que liga os três andares e à medida que mergulham no interior desta livraria onde estão expostos 60 mil livros. Vasco Morais Soares, o arquitecto que dirigiu a renovação interior desdobra em palavras esta sensação de belo: «Transformámos a livraria sem lhe retirar o espírito vetusto, a monumentalidade neogótica e principalmente a luz coada que ali nos envolve como numa catedral ou na imaginação de um livro de Dickens, que, sem impor, sempre obriga a falar em voz baixa». Nesta remodelação, operada em 1995, o piso de cima, antigo balcão da caixa, foi convertido em bar, um espaço acolhedor onde se pode beberricar um Porto enquanto se folheia um livro ou se espreita na parede a carta do pai de Eça em que este recomenda aos editores o trabalho do filho, argumentando que «o rapaz» tinha queda para as letras.

 

 

98. Académica

 

Se perguntar a Mário Soares qual é o sítio certo para ir quando se está à procura de um livro antigo ou de uma raridade bibliográfica ele responderá, com toda a naturalidade que é a  Livraria Académica, no Porto. Nuno Canavez, o proprietário, é provavelmente o melhor alfarrabista do país, gosta de manter na sua livraria uma animada tertúlia (que conta coma valiosa participação do meu amigo Germano Silva o maior especialista vivo em questões portuenses) e está sempre disponível para dar um conselho.

 

 

E AINDA

 

99. Marginais

As marginais marítimas e fluviais do Porto, Gaia e Matosinhos (neste caso só marítima) são fantásticas. Do lado de Gaia, há que creditar a Menezes a recuperação de muitos quilómetros de marginal, que passaram a ser servidos por belos e funcionais passeios. Aquilo está um brinquinho. E não é só fachada. Não é por acaso que Gaia é o concelho do país com mais bandeiras azuis. Do lado do Porto, a marginal marítima pede um passeio a pé entre os castelos da Foz e do Queijo, tropeçando aqui e ali nas magníficas e abundantes esplanadas da Foz, que como nota Richard Zimler (escritor nova-iorquino radicado no Porto), correm o risco de passar despercebidas aos forasteiros apressados: «Cafés, restaurantes e passeios situam-se na zona mais baixa da beira-mar e facilmente passam despercebidos ao olhar dos passantes mais acima, na Avenida do Brasil. Acontece-me pensar que muitos visitantes da cidade, ao passarem velozmente de carro a caminho de algum restaurante de Matosinhos ou de algum clube na Foz, talvez nunca venham a aperceber-se que existe mais abaixo um mundo onde flores silvestres brotam ao longa de veredas emaranhadas, onde jovens fazem os possíveis para serem vistos nos sítios mais «in» e os grafitos gritam das paredes a rudeza das suas mensagens». E, chegado ao castelo do Queijo, se não lhe faltar o fôlego, faça a si próprio o favor de continuar em direcção a Matosinhos, passando pelo Edifício Transparente e Anémona até aceder ao calçadão desenhado por Souto Moura. Se estiver cansado, retempere forças com uma escala no Lais de Guia.

 

 

100. Universidade do Porto

 

Eu sou um ex-aluno da UP e tenho muito orgulho nisso. Licenciei-me em História, na FLUP (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), em 1980, no final de um curso acidentado, que começou no Seminário do Vilar e acabou na rua do Campo Alegre, se iniciou com a duração prevista de cinco anos e depois bruscamente, num «avant la lettre» de Bolonha, encurtou para quatro no Verão em que eu passei para o 5º ano. A Universidade do Porto é a maior do país e alberga cursos (Arquitectura, Engenharia, Medicina, só para citar três exemplos) cuja qualidade desperta muito justamente a cobiça alheia. Cosmopolita, com o seu milhar de estudantes estrangeiros, a UP é um dos mais vigorosos órgãos de soberania do Porto – e o mais fundamental numa altura em que o conhecimento é, mais do que nunca, a base do progresso e prosperidade.

 

Jorge Fiel

 

Música: A balada do Tribunal, Moderados de Paranhos
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Domingo, 18 de Novembro de 2007

La culture est très importante pour le développment économique et social de l’humanité

Et voilá! As artes e a cultura predominam nesta quarta e penúltima prestação da minha declaração de amor em 100 pontos ao Porto, que é imortalizada com um título na língua de Voltaire, Descartes e Laetitia Casta, com o subido objectivo de conferir à lista um suplemento de elevação e «panache».

Para além da arte pública, da arte privada e dos museus, é a hora para falar da clorofila e das vistas. Os cafés, casas de chá, restaurantes e restantes pernículos serão abordados no último acto deste inventário que já vai longo.

 

ARTE PÚBLICA

 

61 Anémona

 

Instalada no espaço aéreo da praça Conde S. Salvador, a porta de entrada em Matosinhos pela beira mar é talvez a mais vistosa obra de arte pública no Porto – e a minha preferida. A autora, a norte-americana Janet  Echelman, baptizou-a «She Moves» mas o pessoal rebaptizou-a «anémona» - e fez bem. A enorme rede, de um vermelho acobreado, simboliza a rede de pesca e é, portanto, uma homenagem aos pescadores . As três torres em que a rede assenta evocam as chaminés das fábricas conserveiras de Matosinhos, que nos tempos áureos da indústria foram 50, das quais apenas duas (Pinhais e Ramirez) sobreviveram.

 

 

62. Menina Nua

 

Poucos portuenses sabem o verdadeiro nome desta estátua: «Juventude». É uma fonte decorativa em mármore e pedra lioz. A água brota de quatro bocas em forma de carrancas, uma em cada face do pedestal. Sentada neste, uma figura académica de mulher representando uma alegoria de juventude (o que explica a designação popular). O escultor é Henrique Moreira, nascido em Avintes em 1890 e falecido em 1979; este discipulo de Teixeira Lopes que aprendeu com um santeiro, cursou Belas Artes e ficou conhecido como «o escultor do Porto».

 

 

63. Treze a rir uns dos outros

 

Surpreendente conjunto escultórico do espanhol Juan Muñoz (foram a sua última obra pois morreu, prematuramente, logo a seguir), instalado no Jardim da Cordoaria. Compreende quatro bancadas por onde se distribuem 13 figuras de feições chinesas que compõem grupos de conversadores sorridentes, em posições inesperadas – um deles cai para trás, não se sabe se empurrado ou se desequilibrado pelo riso.

 

 

64. Colher de Jardineiro de Oldenburg

 

Toda a cidade que se preze tem uma escultura gigante da autoria da dupla constituída pelo sueco Claes Oldenburg e o holandês Coosje van Bruggen. Filadélfia tem a Mola de Roupa. Chicago tem a Coluna Bastão. Barcelona tem a Carteira de Fósforos. Tóquio tem a Serra. Colónia tem o Cone de Gelado Caído. Eindhoven tem os Pinos Voadores. O Porto tem a Colher de Jardineiro, uma escultura de dimensões generosas (7,3m x 1,3m x 1,4m), feita de aço inoxidável, alumínio, plástico reforçado com fibra, pintada com esmalte acrílico, que está enterrada no Jardim de Serralves e é visível a quem passa pela avenida Marechal Gomes da Costa.

 

 

65. Painel Ribeira Negra

 

Na base da encosta de Guindais, junto ao início do tabuleiro inferior da ponte D. Luiz, o mestre Júlio Resende desenhou uma intensa dramatização da vida na zona da Ribeira. Produzido em 1985 o painel  (40 metros de comprimento por 4,8 m de altura) evoca a densa atmosfera do local.

 

 

66. Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular

 

A primeira pedra deste monumento  - instalado no meio do jardim central da  Rotunda da Boavista - foi lançada pelo rei D. Manuel II, em 1909. A sua construção não foi rápida. Apenas foi concluído e inaugurado 42 anos depois (em 1951), pelo Presidente da Republica Craveiro Lopes. O leão (inglês) a despedaçar a águia (francesa) permite segundas leituras - futebolísticas. Em 1987, era eu chefe de Redacção de «O Comércio do Porto», usei a fotografia dessa escultura para ilustrar a peça referente aos célebres sete a um que o Sporting enfiou ao Benfica.  

 

 

ARTE PRIVADA

 

 

67. Auto-retrato de Aurélia de Souza

 

Nunca me hei-de cansar de ver da intensidade do olhar, da perturbadora frieza das feições, do ar grave e sério com que a pintora se retrata, fazendo o seu próprio caminho e afastando-se da estética naturalista do «mainstream» da pintura portuguesa da segunda metade do século XIX, onde pontificavam Columbano, Silva Porto e Malhoa. Este auto-retrato está exposto no Museu Nacional Soares dos Reis.

 

 

68. O Desterrado

 

A obra maior do escultor portuense, feita na sua juventude (tinha 24 anos), tem uma história quase tão dramática quanto a do seu autor, que se suicidou com dois tiros na cabeça, aos 42 anos, na sequência de uma profunda depressão. O Desterrado começou a ser esculpido em mármore de Carrara, em Roma (onde Soares dos Reis viveu como bolseiro após ter fugido de Paris por causa da Guerra Franco-Prussiana), e acabou de ser concluída no Porto. O sucesso internacional da obra levou os invejosos a questionarem à boca pequena a sua autoria, calúnia que acabaria por ser completamente desmontada. O Desterrado e,  logo a seguir,  a Flor Agreste, são as minhas duas obras preferidas de Soares dos Reis. Ambas estão expostas no museu que transporta o seu nome.

 

 

69. Fons Vitae

 

O melhor quadro em exposição no Porto é muito provavelmente o Fons Vitae, uma pintura a óleo sobre madeira de carvalho de dimensão generosa (2m67m x 2m10), que pode ser visto na sede da Misericórdia do Porto. Pintado por volta de 1520,  por um anónimo flamengo, retrata um tema raro: uma fonte coroada por um calvário e alimentada pelo sangue de Cristo - «fonte de misericórdia, fonte de vida, fonte da piedade», reza a legenda. No plano superior, Cristo crucificado é ladeado pela mãe e por S. João Evangelista. No nível inferior, terreno, dispõem-se à volta da fonte 32 figuras – no primeiro plano estão o rei D. Manuel, a rainha e os seus oito filhos. O vermelho do sangue de Cristo, impressionante no encher da fonte, prolonga-se nas vestes de S. João Evangelista, do Rei, da Rainha e dos seis infantes. 

 

 

MUSEUS

 

 

70. Museu Nacional Soares dos Reis

 

O antigo Palácio Carrancas é desde 1940 um museu que tem em exposição permanente a sua colecção, com três núcleos particularmente ricos: escultura de Soares dos Reis, pintura portuguesa dos séculos XIX e primeira metade do século XX (com especial destaque para Henrique Pousão e Veira Portuense), e faiança proveniente das famosas fábricas do Porto e Gaia. Merece ainda referência as colecções de ourivesaria (peças religiosas e civis), de mobiliário, têxteis e vidro.

 

 

71. Museu de Arte Contemporânea (Serralves)

 

A mais valiosa peça da colecção deste museu está em permanente exposição. Trata-se do edifício riscado por Álvaro Siza, com as suas linhas simples e depurados («less is more») e as fabulosas janelas rasgadas. O Porto tem o mais bonito e mais admirado museu do país, que Mário Cláudio olha como «um iate colossal que demanda o Norte da sua navegação». É também o mais visitado.

 

 

72. Museu Romântico da Quinta da Macieirinha

 

Dê largas ao seu «voyeurismo» espreitando como viviam os ricos e poderosos do século XIX com uma visita a este museu, que usa a casa da Quinta da Macieirinha onde Carlos Alberto, rei do Piemonte e da Sardenha, viveu o exílio portuense que consumiu os últimos tempos da sua vida no exílio portuense.

 

 

PARQUES E JARDINS

 

 

73. Parque da Cidade

 

Nova Iorque tem o Central Park. Londres tem o Hyde Park. O Porto tem o Parque da Cidade. Nova Iorque e Londres só podem invejar-nos o facto de termos um parque com saída para o mar. O remate da frente marítima, concebido pelo arquitecto catalão Manuel Solà-Morales, foi genial. Se não era possível levar o parque até ao mar, levava-se o mar até ao parque. E assim se fez, sob o patrocínio da Porto 2001. Máquinas desaterraram e deixaram o mar ir até ao parque. Engenhoso, não foi? 

 

 

74. Jardim Botânico

 

Ocupa a propriedade da Casa Andersen, onde cresceu Ruben A. e morou Sophia. Quando frequentei a Faculdade de Letras que ficava ali a dois passos, fui muito feliz junto ao precioso e terno laguinho dos nenúfares do Jardim Botânico. O estado de conservação do jardim não é fabuloso, mas vale um passeio.

 

 

75. Jardim da Cordoaria

 

Por obra da Porto 2001, cresceu, transformando-se numa imensa placa verde, reservada a peões e eléctricos, delimitada pelo antigo mercado do Anjo (actualmente ocupado pelo degradado e abandonado ClérigoShopping), Palácio da Justiça, Cadeia da Relação e Faculdade de Ciências. Mas além de crescer mudou de carácter, tornando-se mais poroso (o que não agrada a todos os portuenses) e passou a estar como que riscado por uns inovadores degraus de granito panorâmicos, com 45 cm de altura e 90 cm de profundidade. O coreto mudou de lugar, e o lago sobreviveu à mudança – a árvore da forca não..

 

 

76. Parque de Serralves

 

«Os sonhos de Serralves, e outras virtudes inúmeras lhe assistem, extremam-se naquele bosque de furna com uma lagoa ao fundo, no qual a todo o momento se espera assistir ao comércio do longínquo pintor Gauguin com uma caterva de floridas raparigas, febris de langor polinésio». Este pedaço de prosa de Mário Cláudio é inspirado por um bocado dos 18 hectares de jardins do parque de Serralves, que se desenvolvem em socalcos e cuja organização foi encomendada pelo conde de Vizela ao arquitecto paisagista francês Jacques Gréber. Os jardins desenvolvem-se em socalcos diversificados desde o jardim Art Deco da esplanada da modernista casa cor-de-rosa (projectada por Marques da Silva) até uma quinta onde se cultivam milho, hortaliça e alfazema, passando pelo lago romântico, habitado por patos e cisnes, belos roseirais,  relva, sebes, arbustos, camélias, recantos para ler e namorar, milhares de árvores, de espécies vulgares (pinheiros) – ou nem por isso (castanheiros da Índia e cedros do Líbano).

 

 

VISTAS

 

 

77. Descida da rua de General Torres

 

Apesar da unanimidade nem sempre ser consensual, todos os portuense convergem num ponto: as mais deslumbrantes vistas do Porto obtêm-se a partir da margem esquerda. Tenho para mim que uma das mais deslumbrantes vistas é a que se obtém quando se desce de automóvel a rua de General Torres em direcção ao tabuleiro de baixo da ponte D. Luís. Aí chegados, andamos um pouco para a esquerda e chegamos ao cais de Gaia onde se obtém uma vista mais alargada do casario que trepa a encosta até à Sé e ao Paço Episcopal, o único edifício que rompa uma escala de presépio.

 

 

78. Esplanada do Arrábida Shopping.

 

Uma panorâmica única da cidade. Um sítio magnífico para passar a manhã. A esplanada do café do último piso do Arrábida Shopping é um sítio magnífico para passar a manhã e o posto de observação privilegiado para uma vista pouco comum – encosta de Massarelos (onde está a Faculdade de Arquitectura), Boavista, Jardins do Palácio. Uma panorâmica única.

 

 

79. Jardim do Morro da Serra do Pilar do Porto

 

É do pequeno muro do jardim do morro da Serra do Pilar que se obtém a vista do postal ilustrado por excelência: a clássica panorâmica do casario da  Ribeira, a erguer-se desde o rio até à Sé, no morro da Penaventosa (onde a cidade nasceu).

 

 

80. Outras alternativas

 

Se fizer a marginal de Gaia caminhando no sentido da foz do rio, passando pela vila piscatória da Afurada (onde nasceu Vítor Baía) e indo até ao Cabedelo vai sendo bafejado por fascinantes panorâmicas da zona mais ocidental do Porto – vale a pena leva máquina fotográfica.. Se não tem vertigens, arrisque atravessar a pé a Ponte da Arrábida, abra bem esses olhos e deixe-se deslumbrar. Do lado do Porto experimente edifícios altos, como os últimos andares do Hotel D. Henrique e da Cooperativa dos Pedreiros (onde está o restaurante Portucale) e do parque de estacionamento do Via Catarina. E se procura um ambiente mais intimista, faça o favor de ir até ao miradouro de Santa Catarina (à direita de quem sobe as Condominhas vindo do Largo do Calém).

 

Jorge Fiel

 

 

Música: Os filhos da Nação, Quinta do Bill
Publicado por Jorge Fiel às 07:31
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Sábado, 17 de Novembro de 2007

I love Oporto: três pontes e 17 experiências

Ora aqui está fresquinha, pronta a ser consumida durante o fim-de-semana, a terceira prestação da minha declaração de amor em 100 pontos à cidade que amo.

 

O Zé Martins (nome que, terei de concordar, é bastante comum), foi meu colega de liceu no Alexandre Herculano. Era fanático pelos Blood, Sweat & Tears. Parece-me que ainda o estou a ouvir a trautear o «Lucretia  MacEvil» nas aulas de Latim, sentado na carteira atrás de mim.

 

Eu e o Martins tínhamos um amigo comum, o Leitão, fanático pelos Chicago Transit Authority. A questão dominante do meu 6º ano de liceu foi a discussão entre o Martins e o Leitão acerca de qual seria a melhor banda do Mundo, se a liderada por David Clayton Thomas ou a de Peter Cetera, que, como está bom de ver, acabou num frio corte de relações entre os dois.

 

Eu gosto (sempre gostei) das duas bandas, mas se tiver de decidir qual prefiro, digo os Blood.

 

Perdi ambos de vista (os meus colegas, não as bandas com fortes secções de sopro). Soube que o Leitão tinha (ou tem?) um bar na Ribeira. E que o Martins se tornou psicólogo e poeta – e vem a exumação desta recordação a propósito desta última actividade.

 

O Zé Martins escreveu vários poemas que foram cantados pelos Já Fumega,. Um deles fala do nó cego que uma rapariga lhe deu (creio ser rigorosamente autobiográfico e até estou convencido de que sei quem foi a moça) e da cerveja que está choca quando o café está quase a fechar. Um outro, lembra-nos uma verdade de sangue: a ponte é uma passagem para outra margem.

 

O Porto é uma cidade de pontes. Foi isso mesmo que, em sentido figurado, esteve na origem do lema do Porto Capital Europeia da Cultura em 2001.

 

Falando das pontes do Porto no sentido literal, devo declarar que há quatro magníficas e duas sofríveis (a do Infante e do Freixo) e que a minha preferida é a da Arrábida.

 

Três obras de arte e 17 experiências preenchem o menu do dia.

 

Mais uma corrida! Mais uma viagem! Animem-se que já só faltam duas suaves prestações para eu acabar de sepultar este aparentemente infindável inventário de 100 coisas que amo no Porto.

 

 

PONTES

 

 

41. Ponte da Arrábida

 

Edgar Cardoso deixou-nos duas pontes com histórias e marcantes na paisagem do Porto. A ponte de Arrábida, que acrescentou à cidade a nova centralidade da Boavista, e possuía, à data da sua inauguração por Salazar (dealbar dos anos 60), o maior arco de betão armado do Mundo – havia mesmo que suspeitasse que ira cair, o que, como se sabe, não aconteceu. Mais tarde, a ponte S. João (que reformou a Maria Pia) proporcionou ao engenheiro a possibilidade de bater o recorde mundial para o maior vão em ponte ferroviária construída pelo método dos avanços sucessivos.

A elegância erótica do arco desenhado por Edgar Cardoso e o azul bebé com que foi pintada fazem da Arrábida a minha ponte favorita do Porto.

 

 

42. Ponte D. Maria Pia

 

É uma pena estar desactivada esta ponte ferroviária com 354 metros de comprimento e 61 de altura, uma das jóias da obra de Gustave Eiffel, que muitos consideram a mais bonita. É nesta ponte que se desenrola  a mais emocionante cena do imperdível romance «O Estranho Caso da Boazona que Me Entrou pelo Escritório Dentro» de José Pinto Carneiro.

 

 

43. Ponte D. Luiz I

Os dois tabuleiros (dos quais o de cima ficou reservado para o metro e peões ) conferem uma personalidade única a esta ponte de ferro projectada por Teofilo Seyrig, colaborador de Eiffel.

 

 

EXPERIÊNCIAS

 

 

44. Cruzeiros no Douro

 

A oferta de cruzeiros fluviais no Douro varia entre os passeios de longo curso, rio acima, com duração superior a um dia, e as curtas viagens pelas seis pontes que cruzam o rio entre Porto e Gaia. Todos valem a pena.

 

 

45. Funicular de Guindais

 

A viagem descendente entre a estação de montanha (na rua Augusto Rosa, à Batalha) e a fluvial, junto ao tabuleiro inferior da ponte D. Luiz (junto ao painel Ribeira Negra de mestre Júlio Resende) oferece uma vista de cortar a respiração quando se abandona o percurso subterrâneo e se entra em céu aberto. Ligar a marginal do rio à zona da Batalha é uma ideia antiga. O elevador de Guindais é o sucessor de um funicular que funcionou na mesma encosta durante dois anos, nos finais do século XIX, até ser desactivado na sequência de um acidente, motivado por excesso de velocidade, que fez abortar o programa de construção de mais dois elevadores, nas zonas de D. Pedro V e Arrábida.

 

 

46. Praça da Ribeira

 

O local onde palpita o coração da Ribeira é rico em atracções. Tem duas boas esculturas – o S. João, de João Cutileiro, e o cubo, de José Rodrigues –  as esplanadas onde os estrangeiros que o futebol trás à cidade se encharcam em Superbock, e um hotel único, o Porto Carlton, feito a partir da recuperação de várias casas e que nos seus dois primeiros anos de vida se viu na contingência de se travestir em submarino, por via das cheias, logrando sobreviver com a compreensão dos hóspedes,  que acharam graça à situação e não se importaram de utilizarem usarem a entrada para o restaurante do hotel (o Vintage), no Muro dos Bacalhoeiros, em alternativa à entrada principal, que estava submersa e, presumivelmente, a ser usada pelas taínhas.

 

 

47. Passeio de eléctrico

 

Imperdível fazer o circuito do 22 na Baixa, entre o Carmo e a Batalha. Na Batalha, descer até ao rio no Funicular de Guindais. Atravessar a Ribeira a pé e apanhar o 1 no Infante (paragem junto à entrada para a fabulosa igreja de S. Francisco) e seguir nele até ao fim da linha, na Cantareira. Voltar para trás, desembarcar em Massarelos, dar uma espreitadela ao Museu do Carro Eléctrico e regressar ao Carmo subindo a Restauração, novamente de eléctrico.

 

 

48. Salão Árabe do Palácio da Bolsa

Só visto e vivido. Contado ninguém acredita. Os empresários do Porto do século XIX no seu melhor.

 

 

49. Pérola do Bolhão

 

Bela, pérola e formosa. É de carregar pela boca compor uma frase com estas palavras: A Pérola do Bolhão é a mais bela loja da rua Formosa (que de formosa apenas tem o nome e a magnífica fachada desta mercearia). Lá dentro está o inevitável gato preto  - não para dar galo, mas antes presença dissuasora da perniciosa actividade dos roedores – e produtos de mercearia, charcutaria (chouriças, alheiras, orelheiras), de garrafeira (Portos, vinhos de mesa, aguardentes) bacalhaus e queijos da Serra. Cá fora estão uns notáveis painéis em azulejo, com a assinatura da famosa e extinta fábrica do Carvalhinho.

 

 

50. Bolo rei da Petúlia

 

O bolo rei mais procurado na cidade é o da Petúlia a confeitaria da família de Ilídio Pinto, que deve a outra parte da sua fama ao facto de ter acolhido as célebres tertúlias futebolísticas animadas pelo saudoso José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa. Hernâni Gonçalves, o popular Bitaites, é um dos fregueses sobreviventes desses heróicos tempos.

 

 

51. Marechal Gomes da Costa

 

A avenida mais elegante e sofisticada do Porto é esta. Um boulevard! Ponto final. Artur Santos Silva, o do BPI, Armanda Passos, a pintora, e António Oliveira, o da bola, são alguns dos sortudos que lá vivem. A casa de Valentm Loureiro fica pelas imediações. Se eu fosse rico, de certeza era lá que morava.

 

 

52. Praça de Liège

 

Albergar um cemitério não é suficiente para a desqualificar da minha «short list» das mais bonitas praças da cidade.

 

 

53. Rua de Santa Catarina

 

É o verdadeiro centro comercial ao ar livre do Porto. Belmiro de Azevedo, que transformou  em shopping (Via Catarina) a antiga sede do Primeiro de Janeiro, chegou a sonhar cobrir a rua, reconvertendo-a em galeria. Em Santa Catarina, alinham-se as lojas das mais importantes marcas nacionais e internacionais. Foi nesta rua, com um amplo troço pedonal,  que a Zara abriu a sua primeira loja fora de Espanha, ganhando à Maconde,  com o auxílio do galego Banco Pastor, a corrida ao espaço que ainda ocupa.

 

 

54. Miguel Bombarda

 

O SoHo do Porto começou a desenhar-se quando, em 1997, Fernando Santos mudou a sua galeria para a rua Miguel Bombarda e desafiou os colegas a fazerem o mesmo, em ordem à criação a criar nesta zona de um «cluster» do oficio de negociar em arte, copiando o que se fazia na Idade Médio, onde os ofícios se concentravam em ruas, o que ficou tatuado na toponímia da cidade (como, por exemplo a rua dos Caldeireiros).  Resultou. Na Miguel Bombarda e ruas adjacentes (Aníbal Cunha, D. Manuel II, Rosário. etc) há dezenas de galerias regularmente inauguram as exposições no mesmo dia.

 

 

55. Caminhos do Romântico

 

Cinco percursos  pedonais, apoiados em painéis informativos, constituem o menu  dos Caminhos do Romântico, desenhados no vale de Massarelos, que logrou escapar à voracidade da especulação imobiliária e transportar até ao século XXI o perfume oitocentista presente no carácter rural das suas hortas, quintas, fontes e lavadouros. Traçados pela arquitecta Graça Nieto, são um convite atractivo a um mergulho no passado, a passear pelo Porto das vielas estreitas e escuras, das camélias e do cheiro a rosas (mas também a aromas menos agradaveis ...) para desfrutar de vistas fabulosas sobre o Douro. O ponto de partida é na rua de Entrequintas, perto do portão de acesso ao Museu Romântico. 

 

 

56. Solar do Vinho do Porto

 

Acessível a partir dos jardins do Palácio e situado no coração do Porto Romântico, é o cenário ideal para um pedido de namoro ou casamento. Ocupa as antigas cozinhas da Quinta da Macieirinha, onde viveu o rei italiano Carlos Alberto durante o seu curto exílio portuense. O Museu Romântico ficou com o resto da casa. Os visitantes do Solar beneficiam de uma vista deslumbrante a partir de um belo jardim debruçado sobre o rio Douro e Gaia. Nos dias quentes de Verão, a opção correcta é encomendar  um refrescante um Porto Tónico (Porto branco seco a que se adiciona agua tónica).

 

 

57. Biblioteca Almeida Garrett

 

Revestida a mármore grego, carvalho americano e tola, equipada com moveis Alvaar Alto, esta biblioteca é uma das três peças (as outras são uma galeria de arte e um auditório) do edificio cultural desenhado por José Manuel Soares, implantado nos jardins do Palácio de Cristal, entre a avenida das Tílias e a rua de Entrequintas.

 

 

58. Caves de Vinho do Porto

 

O Vinho do Porto foi inventado por acaso, algures no século XVIII. Para evitarem que o vinho azedasse na longa viagem marítima para Inglaterra, os exportadores começaram a adicionar-lhe uns 20 litros de aguardente por pipa, antes do embarque. A receita agradou ao paladar dos ingleses. Tinha acabado de nascer o Porto, um vinho único no Mundo. Na verdade, para além da designação, o vinho apenas lateralmente tem a ver com a cidade de que ostenta o nome, já que é produzido na região do Douro - mandada demarcar em 1756 para proteger a pureza de um vinho com os créditos firmados na loira Albion. Até meados do século passado, os mostos vinificados eram transportados rio abaixo em barcos rabelos até às frias caves do entreposto de Gaia onde ficavam a envelhecer. Hoje em dia, os rabelos alinhados na margem esquerda têm um efeito meramente decorativo, já que apenas uma vez por ano são usados numa renhida regata que se realiza no primeiro fim de semana a seguir ao S. João. A maioria das caves está aberta a receber visitas, que por norma são gratuitas (nos casos em que é cobrada uma entrada esse montante pode ser descontado na compra de Porto) e compreendem uma prova de um branco, um ruby (Porto novo que deve o seu nome à cor e é comercializado após três anos de estágio em grandes recipientes, protegido do ar, o que lhe permite manter a cor, pujança e frescura)  ou um tawny (vinho que envelhece em casco e beneficia de arejamento, pelo que a sua cor evoluiu para tons acastanhados.

 

 

59. Uso e abuso do vernáculo

 

Ouvir um impetuoso «Vai para a grande puta que te pariu!!!», cheio de pontos de interrogação no fim, e não se sentir ofendido é um privilégio nortenho. No Porto temos o saudável hábito de usar no dia a dia palavras que constam do dicionário mas que nas paragens mais meridionais do país foram metidas na gaveta.

 

 

60. As 20 salas de cinema das UCI

 

Quando abriram eram da AMC. Posteriormente foram rebaptizadas UCI. O nome não interessa. Aquelas 20 salas são as melhores do país. Um dos meus programas favoritas é aproveitar a hora do almoço para ir ver uma sessão ao Arrábida.  O ano passado, quando perguntei à Luciana Abreu (a Floribella) de que é que tinha saudades do Porto ela respondeu logo: «De ir ao cinema no Arrábida». Boa rapariga!

 

Jorge Fiel

 

Música: Porto sentido, Rui Veloso
Publicado por Jorge Fiel às 08:26
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Segunda prestação da declaração de amor

 Pátio das Nações do Palácio da Bolsa

 

Esta segunda prestação do inventário de 100 coisas que amo no Porto é totalmente preenchida por calhaus, ou, dito de outra maneira, por uma lista de 20 maravilhosos exemplares de património edificado da nossa cidade.

 

Mas quero sossegar os bussolistas. Nos três fascículos que faltam, serão listadas coisas bem mais leves, como cafés, restaurantes, jardins, experiências e ofícios correlativos.

 

21. Palácio da Bolsa

 

Não é por acaso que é o monumento mais visitado do Porto. O majestoso Pátio das Nações, coberto por estruturas metálicas envidraçadas, deslumbra-nos logo à entrada. O Palácio da Bolsa foi construído em meados do século XIX por iniciativa (e a expensas) da Associação Comercial do Porto. A fachada neo-clássica, correcta mas severa, esconde no interior jóias como o faustoso Salão Árabe, a antiga sala de audiências do Tribunal do Comércio e uma magnífica escadaria de mármore e granito.

 

22. Mercado Ferreira Borges

 

Belo exemplar da arquitectura do ferro, em boa hora recuperado por Paulo Valada. Recebe exposições e acontecimentos culturais.

 

23. Muralha Fernandina

 

O acesso não é fácil (faz-se através do interior do Instituto Dr. Ricardo Jorge, pelo que as visitas estão limitadas ao horário deste organismo público) mas o resultado recompensa o esforço. Nas ameias deste pano de muralha quatrocentista, sinto-me como o Di Caprio na proa do Titanic: «I’m the king of the world»

 

24. Torre dos Clérigos

Pisa tem um torre inclinada. Londres uma torre prisão. Paris tem uma elegante torre em ferro. O Porto tem uma honesta torre barroca – que, Alexandre O’Neill «dixit», é uma espécie de ponto de espantação.

 

Concluída em 1763, foi riscada pelo arquitecto italiano Nicolau Nasoni, que está sepultado ali ao lado, na igreja dos Clérigos, e deixou espalhada pela cidade abundante e boa obra, como Palácio do Freixo. Da torre, que é o ex-libris da cidade, disse Teixeira de Pascoaes: «É o Porto espremido para cima». O cimo da torre, a 75 metros de altura, é acessível a quem pagar bilhete de entrada e se dispuser a subir 240 íngremes degraus de uma escadaria em caracol.

 

25. Estação de S. Bento

 

O sólido edifício neoclássico estação ferroviária de S. Bento alberga no seu hall belíssimos conjuntos de azulejos de Jorge Colaço, alusivos aos transportes e a episódios marcantes da nossa história. Particularmente interessantes os que retratam a entrada de D. João I na cidade, quando do casamento com Dona Filipa de Lencastre, e a submissão de Egas Moniz e família ao rei de Leão.

 

26. Casa da Música

 

Parece um volumoso meteorito que aterrou ali junto à Rotunda da Boavista. Não demorará muito até que esta bela e estranha obra de Rem Koolhas substitua a barroca Torre dos Clérigos como primeiro ícone da cidade.  

 

27. Faculdade de Arquitectura

 

Riscada por Álvaro Siza, acomoda-se harmoniosamente nos socalcos da encosta que desce até ao rio. Como é habitual na obra de Siza, a sobriedade e austeridade exteriores são complementados por surpreendentes espaços interiores, amplos e luminosos. A maquete desta faculdade é a única obra portuguesa que está em exposição na sala dedicada à arquitectura do Centro Pompidou.

 

28. Alfândega

Se tivesse que escolher o edifício que melhor simboliza o Porto, elegeria a robusta Alfândega, magistralmente recuperada por Eduardo Souto de Moura a tempo de receber a Cimeira Ibero-Americana que trouxe Fidel Castro ao Porto.

 

29. Cadeia da Relação

 

A prisão onde Camilo Castelo Branco escreveu de jacto (em 15 dias!) «O Amor de Perdição» foi reconvertida no Centro Português da Fotografia, uma metamorfose que escandalizou o Fernando Rosas (um verdadeiro palhaço!) que protestou por escrito contra a maçada que era ter de se deslocar ao Porto sempre que precisasse de consultar os seus arquivos fotográficos… Há dois séculos, a construção desta cadeia (onde também malharam os ossos o famoso ladrão Zé do Telhado e o político João Chagas), importou em 200 contos. A sua renovação, realizada no âmbito da Porto 2001, custou 600 mil contos.

 

30. Igreja Românica de Cedofeita

 

Se eu fosse do estilo de casar pela igreja seria aqui. Sem dúvida.

 

31. Palácio de Cristal

 

Os jardins são magníficos. Sempre que por lá passeio lembro-me do Chico do Palácio (para quem não sabe era um macaco) e do Sofala, o leão das unhas encravadas. A avenida das Tílias disponibiliza, de borla (grátis!) quentes recordações dos tempos em que estava guarnecida de ambos os lados com stands onde se faziam furos e se ganhavam chocolates. Os mais velhos ainda choram a destruição do primitivo Palácio de Cristal, demolido em 1951 para dar lugar a uma moderna nave de cimento armado: o Palácio dos Desportos (no entretanto, rebaptizado Pavilhão Rosa Mota), feito de raiz para receber um Mundial de hóquei em patins e que agora serve de palco para acontecimentos desportivos, concertos e comércios, sendo ainda usado como casa pela Feira do Livro. Mas a modernidade intrínseca da calota do pavilhão Rosa Mota (que, vista ao longe, dá a ideia de uma mama) mandam-nos olhar em frente e a dar-nos por satisfeitos pelo que temos.

 

32. A Casa do Roseiral

 

Situada num dos extremos dos jardins do Palácio, a Casa do Roseiral é propriedade da autarquia e seria a única razão que me poderia levar a candidatar-me à presidência da Câmara do Porto. Se ganhasse, mudava-me logo para lá.

 

33. Teatro Nacional S. João

 

Ora aí aqui está uma bela fachada amarelo ocre, como há poucas na nossa cidade. O que mais me apaixona neste edifício riscado por Marques da Silva são as figuras alegóricas da Dor, Bondade, Ódio e Amor que o ornamentam, bem o seu portentoso interior, que ouso qualificar como tão acolhedor como uma vagina.

 

34. Coliseu

 

Da autoria de Cassiano Branco, o Coliseu do Porto é provavelmente a talvez a mais bela sala de espectáculos do país. Inaugurado em 1941, com um concerto da Sinfónica Nacional dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco, sobreviveu a um incêndio e à tentativa de compra pela IURD, ocorrida em Agosto de 1995.  

 

35. Palácio do Freixo

 

Esta esplendorosa moradia barroca, de frente virada para o rio, foi encomendada ao arquitecto italiano Nicolau Nasoni pelo rico cónego Jerónimo Távora. Já serviu de armazém a uma fábrica de moagens. Os trabalhos da sua recuperação foram dirigidos por Fernando Távora, o pai da famosa escola de arquitectura do Porto e descendente do primeiro dono do palácio. O grupo Pestana prepara-se para o transformar num hotel de charme integrado na rede Pousadas de Portugal.

 

36.  Paços do Concelho de Matosinhos

 

As salas das sessões públicas da Câmara e o Salão Nobre, ambas sem portas, abertas para o interior e transparentes ao exterior, expressam a filosofia do novo poder democrático exercido à vista do povo e são dois dos locais mais marcantes de um edifício (assinado por Alcino Soutinho) em que todas as suas áreas recebem luz directa do sol - e que foi enriquecido com esculturas e pinturas de João Cutileiro e Júlio Resende. 

 

37. Igreja de S. Francisco

 

É chamada «a igreja de ouro» devido à sumptuosa talha barroca que a reveste e submergiu por completo a estrutura gótica do templo. Por muitas vezes que a visite, não deixará de ficar impressionado com os 200 quilos de ouro que estão distribuídos pelo altar, colunas e pilares. As sepulturas românticas que complementam a vista à igreja eram o local favorito para o adolescente Pedro Abrunhosa se declarar às raparigas.

 

38. Infante Sagres

 

O primeiro cinco estrelas o Porto foi mandado fazer pelo industrial Delfim Ferreira. Mário Soares sempre preferiu o conforto e luxo clássicos deste hotel da Baixa à moderna funcionalidade dos cinco estrelas da avenida da Boavista. Esta preferência diz tudo sobre a alma do Infante Sagres.

 

39. Mercado do Bolhão

 

O local preferido pelos políticos de todos os quadrantes para receberem banhos televisivos de multidão. Está a concurso a sua transformação numa espécie de Covent Garden.

 

40. Estádio do Dragão

 

Um palco de emoções. Manuel Salgado impregnou o novo estádio do FC Porto do ambiente moderno e sofisticado que foi a marca de água da arquitectura da Expo 98. Sem lugares reservados para cegos ou anões, o Dragão é a âncora da renovação em curso na degradada zona oriental da cidade. «Allez, Porto, alllez. Nós somos a tua voz. Nós somos a tua voz. Queremos esta vitória. Conquista-a por nós!».

 

Jorge Fiel

 

Música: Se eu fosse um dia o teu olhar, Pedro Abrunhosa
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Publicado por Jorge Fiel às 12:41
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

Inventário de 100 coisas que amo no Porto

 

O inventário que se segue está longe de ser exaustivo e não é um top 100. Acredito que haja coisas de que eu goste mais do que as 100 elencadas mas que por esquecimento no momento tenham ficado no tinteiro.

 

Vai daí, esta lista é tão só uma declaração de amor à cidade onde nasci, cresci e vivo. Dada a elevada tonelagem em caracteres da lista, optei por a publicar em fascículos, organizados por secções, sendo que este, o de estreia, agrupa dois capítulos: Intangiveis e Órgãos de Soberania e Comes e Bebes.

 

Ai vai a primeira de cinco suaves prestações, que serão aqui editadas à razão de uma por dia – sem prejuízo de outros pronunciamentos. Esta declaração de amor foi originalmente publicada no meu blogue pessoal, Roupa para Lavar

 

 

INTANGIVEIS E ÓRGÃOS DE SOBERANIA

 

1. O coração de D. Pedro

 

Está guardado na Igreja da Lapa, que pela sua situação privilegiada, a quota alta, foi um dos locais escolhidos pelo exército liberal para instalar a artilharia durante o Cerco do Porto.

 

O rei anti-colonialista que soltou o grito do Ipiranga e abdicou de imperador do Brasil para regressar a Portugal e defender a liberdade com uma arma na mão, escreveu a mais bonita e heróica página da histórica da cidade, a quem prestou tributo legando-nos, em herança, o seu coração, e conferindo-nos o título de Invicta, Mui Nobre e Sempre Leal.

 

Abaixo os miguelistas (e quem os apoiar)!

 

 

2. O granito molhado

 

Adoro a melancolia do entardecer do Porto, no Outono, depois das primeiras chuvas, com a pedra molhada.

 

 

3. Rio Douro

 

Álvaro Siza não o viu como de ouro mas antes como de prata e assim o retratou num swatch. Eu vejo-o azul como o mar e o céu. Esta diferença cromática de opinião não acarreta mal nenhum ao Mundo. O 25 de Abril fez-se para isso mesmo. Para as pessoas terem opiniões diferentes e continuarem amigas – e a amarem o mesmo rio, de uma forma plural.

 

 

4. A pronúncia do Norte

 

Sobe-me a mostarda ao nariz sempre que um conhecido ou colega de Lisboa me cumprimentam recorrendo a uma canhota tentativa de imitar o nosso sotaque. «Atão, cumu bai o Puaaaartu?». 

 

Imbuído de um espírito cristão, contenho-me e perdoo-o logo a idiotice desses infelizes que na sua santa e doce ignorância estão convencidos que não têm sotaque e que a amaricada maneira de falar deles é o cânone.

 

Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus.

 

 

5. FC Porto

 

As cada vez mais frequentes vitórias representam para a cidade exactamente o mesmo que as do Barca, que engraxam o orgulho de ser catalão.

 

A equipa entra no Dragão a ouvir os versos do hino que lhe pede «dá-nos neste dia mais uma alegria, mais uma vitória» e corresponde. Assim é que é.

 

 

6. Jornal de Notícias

 

Nas suas páginas sente-se o palpitar da região. Só lhe falta mesmo merecer que as elites nortenhas o assumam como o primeiro jornal que lêem pela manhã, nos seus gabinetes, e com que andam debaixo do braço e folheiam na esplanada, ao fim-de-semana. Nessa altura, o JN será o megafone de que o Norte precisa para fazer ouvir a sua voz, aos berros, nos ouvidos de quem manda no Terreiro do Paço.

 

7. O Jogo

 

A Folha da Verdade. O Jogo é grande e o Manuel Tavares é o seu profeta.

 

8. Porto Canal

 

Acaba de fazer um ano, deixou de gatinhar e começa a andar sem ajuda. Bom! Mas para ser o centro de poder de que o Porto precisa, ainda tem de comer muita boroa. 

 

É obrigatório que Bruno Carvalho, o director geral, apague os resíduos de benfiquismo que lhe continuam agarrados à pele. E que os amigos catalães da Mediapro consigam reduzir a sua posição excessiva no capital do canal, transferindo parte dela para as forças vivas do Norte.

 

Não percebo de que é que os Américos Amorins, os Belmiros de Azevedo, os Macedo Silvas, os Ludgeros Marques, os Àlvaros da Costa Leite, os Violas, etc, etc, estão à espera para tomarem em mãos o papel de locomotiva deste projecto em que o mais difícil (ir para o ar) já foi feito!

 

Ter um canal do Porto com um director geral benfiquista e uma maioria espanhola no capital faz tanto sentido como um canal de Barcelona ter um director geral fanático pelo Real Madrid e uma maioria francesa no capital social.

 

 

9. AEP

 

Foi-se o BPA. Foi-se o BPI. A CCRN foi politicamente domesticada em vez de levantar voo e evoluir para base do Governo regional do Norte. A Associação Empresarial de Portugal, de Ludgero Marques, resiste como centro de contra-poder, a aldeia de irredutíveis nortenhos que resiste a Lisboa.

 

Espero que nunca lhe falta a poção mágica. E, já agora, que arranje uma estátua decente para imortalizar a figura ímpar do seu fundador Vitorino Damásio, empresário e um dos heróis do Cerco do Porto, substituindo a pindérica estátua que foi colocada no sítio (a Mata da Pasteleira) onde ele se cobriu de glória no comendo de tropas liberais.

 

 

10. Associação Comercial do Porto

 

Por contraste com a acção guerrilheira e abrasiva da AEP, a Associação Comercial encontrou o seu espaço assumindo-se como uma espécie de senado nortenho, centro de estudo e reflexão de grandes temas, produzindo estudos sobre os grandes temas que dilaceram o pais (a Ota foi um deles) e projectando novas figuras, como Rui Moreira, o seu actual presidente. Também está bem!

 

 

11. Sonae

 

Concentra o melhor (e às vezes o pior, mas a vida é assim) do código genético empresarial nortenho. Apesar de saber que perde pela boca, Belmiro teima em não se calar, não pára de refilar e mantem uma rigorosa  independência face ao poder político lisboeta.

 

É bom saber que Belmiro de Azevedo continua a viver num andar, a levantar a mesa no final das refeições e a evitar ao máximo pernoitar em Lisboa. 

 

 

12. Metro

 

O Metro do Porto é ainda muito mais do que um sistema de transportes e uma empresa estruturante do espaço urbano. É também uma obra de arte, um enorme motivo para termos orgulho em sermos portuenses, e, ainda, uma prova viva e documental do centralismo que asfixia o nosso país.

 

Concebido por Eduardo Souto Moura, o metro é uma obra de arte premiada internacionalmente, onde estão espalhadas as impressões digitais os nomes mais luminosos da Escola de Arquitectura do Porto, como Siza Vieira, Alcino Soutinho e Adalberto Dias, entre outros.

 

 

13. Toponímia

 

Agrada-me muito a toponímia do Porto. Todos os dias atravesso a rua do Campo Alegre. Raro é o fim de semana em que não brinco com o meu filho João no jardim do Passeio Alegre. Lamentavelmente já não vou à muito tempo às ruas do Campo Lindo e do Paraíso A última morada do meu pai é o cemitério do Prado do Repouso. Há um autocarro, da linha 700, que tem como destino o Campo dos Sonhos.

 

O Porto tem uma toponímia alegre e desde há alguns anos as suas ruas e praças estão bem identificados por placas verdes, bonitas e informativas, que talvez sejam o melhor legado que Rui Rio vai deixar à cidade. 

 

 

COMES E BEBES

 

14. Tripas à moda do Porto

 

Estou em crer que as melhores são as do Poleiro, junto à Circunvalação. Mas também gosto muito das do Ribeiro (Praça dos Poveiros) e do Capa Negra (Campo Alegre).

 

 

15.  Francesinha

 

Ora cá está a pergunta que vale um milhão de euros. Qual é melhor francesinha do Porto? A indicar um sítio, não hesito em responder Capa Negra (onde estão disponíveis os melhores rissóis do Mundo). Mas recordo com saudades as do já falecido Mucaba (logo no início da Avenida da República em Gaia) e as da Regaleira, na Baixa.

 

16. Pastéis de Chaves da Casa das Tortas

 

Reconheço que já conheceu melhores dias a qualidade dos pastéis de Chaves da Casa das Tortas, em Passos Manuel, mas são um clássico que vale a pena revisitar. É fazer o favor de os comer quentinhos e regá-los com uma taça de vinho verde Campelo, porque não sei se ainda há o Três Marias.

 

17. Vinho do Porto

 

Eu prefiro os Porto jovens, pujantes e rebeldes, em detrimento dos tawnies velhos e licorosos. O meu gosto contraria a máxima de que o Porto melhora com a idade.

 

Estou feliz pela moda inaugurada pelos americanos de beber os Vintage cada vez mais cedo. Não havendo Vintage, marcha um LBV ou um ruby. Novos! Não me importa que me chamem pedófilo J

 

 

18.  Padaria Ribeiro

 

Abasteço-me de inúmeras variedades de pão (azeite, chapatas, vikorn, centeio, corações, amêndoas, passas, etc, etc) na Ribeiro da Pasteleira, junto ao Público.

 

Apesar de eu ser mais presunto do que doces, recomendo vivamente a tarte de maracujá.

 

 

19. Vinho & Coisas

 

A melhor garrafeira do país está em Matosinhos. Paris vale uma missa e a Vinho & Coisas vale uma visita de estudo.

 

 

20. Cafeína Foods

 

Apesar de pequena, é um das melhores mercearias finas de uma cidade com tradições neste domínio (Minhotinha e Augusto), reforçadas nos últimos anos com o desembarque da Loja da Praça (na praça D. Afonso V, junto à igreja do Cristo Rei) e o Gouret do El Corte Ingles de Gaia.

 

Se for ao Cafeína Foods não deixe de comprar, por nove euros apenas, uma garrafa de Porto branco da Quinta da Casa Amarela. Se o fizer, vai-me ficar eternamente grato pelo conselho.

Jorge Fiel

 

 

Música: E o Porto aqui tão perto, Sérgio Godinho
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Publicado por Jorge Fiel às 17:33
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Eu, portuense, olho-me ao espelho com a ajuda de Garrett, Sophia, Saramago, entre outros

 

Achei por bem socializar com os passageiros frequentes da Bússola esta pequena antologia de frases sobre a minha cidade, da autoria de dez dos nossos melhores escritores, que publiquei no meu blogue Roupa para Lavar, a título de sobremesa de uma declaração de amor ao Porto em cinco prestações - que faço tenção de também aqui republicar.

 

A leitura destas frases ajuda-nos a nós, portuenses, a conhecermo-nos melhor. Eu leio-as, releio-as e sinto-me como se estivesse a olhar-me ao espelho.

 

Espero que esta leitura ajude os forasteiros a melhor decifraram esta cidade secreta que Eugénio de Andrade, um seu filho adoptivo, não hesitou em considerar «a mais fechada das nossas cidades».

 

 

O b pelo v

 

«Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há pouco quem troque a liberdade pela servidão.»

 

Almeida Garrett

 

 

Maravilhas e angústias

 

«O Porto é o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias.»

 

Sophia de Mello Breyner

 

 

Como se vinga

 

«O portuense não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade vinga-se, desprezando-a. Da Polícia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria.»

 

Ramalho Ortigão

 

 

Rir desbragadamente

 

«E quanto ao riso, o Porto gosta de rir e de rir com uma certa insolência: ri mais desbragadamente, mais primariamente, mais saudavelmente e com mais gosto do que Lisboa.»

 

Vasco Graça Moura

 

 

Regaço aberto para o rio

 

«Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é a Ribeira.»

 

José Saramago

 

 

Uma alma de muralha

 

«Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha.»

 

Agustina Bessa Luís

 

 

Invejas

 

«Lisboa inveja ao Porto a sua riqueza, o seu comércio, as suas belas ruas novas, o conforto das suas casas, a solidez das suas fortunas, a seriedade do seu bem estar. O Porto inveja a Lisboa a Corte, o Rei, as Câmaras, S. Carlos e o Martinho. Detestam-se!»

 

Eça de Queiroz

 

 

Lição de portuguesismo

 

«Uma ida ao Porto é sempre um lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável – claro! - um mínimo de contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de práticas.»

 

Vitorino Nemésio

 

Uma família

 

«O Porto não é em rigor uma cidade: é uma família. Quando algum mal o acomete, todos o sentem com a mesma intensidade; quando desejam alguma coisa, todos a desejam ao mesmo tempo. Os portuenses são tão ciosos da integridade da sua cidade, como os portugueses em geral da integridade da nação.»

 

João Chagas

 

 

Aspecto severo e altivo

 

«O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada.»

 

Alexandre Herculano

 

 

Jorge Fiel

 

 

 

Música: Um pouco mais de azul, Moderados de Paranhos
Publicado por Jorge Fiel às 11:37
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Os 2198 dias de consulado Rui Rio observados à luz do «Ensaio sobre a Cegueira»

 

 

A abrir uma declaração de interesses. Sou amigo de Rui Rio, a quem admiro a integridade, rigor, coragem e persistência.

 

Mas esta amizade, nascida a partir de um amigo comum (João Queirós, de cujo talento fomos prematuramente privados pela Grande Ceifeira), não turva o meu discernimento.

 

Da mesma maneira que a visão critica que tenho dos seis anos que o Rui leva como presidente da Câmara não abala uma amizade adulta, tecida nos tempos agitados que se seguiram ao 25 de Abril, quando todos os que o conhecíamos nos espantamos por vê-lo a ele, senhor de um generoso ideário de esquerda, alistar-se no PSD.

 

Usando a memória como único filtro e auxiliar, elaborei a seguinte lista dos presidentes da Câmara do Porto que se seguiram à Revolução e das suas mais importantes realizações.

 

Esta lista vale o que vale . Se me esqueci de algum presidente ou de alguma grande obra, aceito uma parte das culpas. Sendo que a outra parte da responsabilidade a endosso, direitinha, para cima dos ombros de quem não soube ou conseguiu impressionar-me.

 

Aureliano Veloso    

 

O primeiro depois de Abril. O seu filho Rui, cantor do Porto Sentido, foi provavelmente a obra maior que nos deixou.

 

Coelho de Magalhães

 

Muito curriculum oposicionista, pouca uva democrática.

 

Paulo Valada

 

Um homem bom do Porto. Refrescou o discurso da cidade. Recuperou o Mercado Ferreira Borges. Reinstalou na Praça do Império o Monumento ao Esforço Colonizador que estava armazenado no Palácio de Cristal.

 

Fernando Cabral

 

Estava destinado a ser presidente da Câmara de Paredes (ou seria Penafiel?), mas sem ninguém ter percebido como (nem ele próprio, creio…) acabou instalado no gabinete maior dos Paços do Concelho do Porto. Ele há mistérios.

 

O arranjo do piso da rua Pedro Escobar, à Pasteleira, onde ele vivia e eu ainda resido, foi, no meu entender (que não é modesto, como acho que já repararam…), o seu mais importante legado à cidade.

 

Notabilizou-se ainda ao deixar os cofres camarários cheios de dinheiro, permitindo ao seu sucessor Fernando Gomes começar o mandato logo a fazer flores.

 

Fernando Gomes

 

Devolveu-nos o orgulho de sermos portuenses. Ficamos a dever-lhe uma data de coisas, obras maiores e marcantes como o Metro, o Parque da Cidade, o Porto 2001 e a proclamação pela Unesco do Centro Histórico como património da Humanidade.

 

Borrou a escrita ao trocar o Porto por Lisboa, atraído por um lugar de ministro num Governo de onde saiu pela esquerda baixa, coberto de cicatrizes e nódoas negras.

 

Ensaiou um regresso ao Porto, à Napoleão, que fracassou com estrondo – tal como o de Napoleão.

 

Nuno Cardoso

 

Culpou um interruptor anónimo pela falhanço do fogo de artificio na passagem de século. Mas não pode culpar ninguém, além dele próprio, pela maneira canhota como lidou, na hora da saída, com «dossiers» tão escaldantes como o plano de pormenor das Antas e um empreendimento imobiliário numa das esquinas do Parque da Cidade. A um presidente da Câmara não basta ser sério – é também preciso parecê-lo.

 

 

No «Ensaio sobre a Cegueira», José Saramago deixa-nos um precioso ensinamento: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara».

 

Ora eu olho para trás, para os 2198 dias do consulado de Rui Rio, esforço-me por ver, vejo, mas reparo em muito pouco.

 

Vejo o seguinte:

 

+ O Grande Prémio da Boavista;

 

+ Uma trapalhada tendo o epicentro como o Rivoli;

 

+ Uma tentativa abortada de acabar com os arrumadores, enroupada num nome infeliz (o falecido programa Porto Feliz que ele tenta desesperadamente ressuscitar) ;

 

+ A polémica requalificação da avenida dos Aliados (de que eu gosto!);

 

+ A Red Bull Air Race (promovida a meias com o seu arqui-inimigo Menezes);

 

+ A identificação das ruas, praças e avenidas com novas, bonitas e informativas placas.

 

Não guardo rancor a Rui Rio por ter escolhido abrir o seu primeiro mandato com uma guerra contra o FC Porto. É um procedimento clássico, desde os tempos do faroeste. O novo xerife quando chega a uma cidade arranja um incidente para tentar demonstrar «urbi et orbi» que a partir de agora quem manda é ele.

 

Mas não estou disposto a perdoar-lhe se as eficazes placas toponímicas forem a sua melhor e maior realização ao fim de dois mandatos como presidente da Câmara.

 

O esforço de reabilitação urbana da Baixa (que sobrevive num estado comatoso), cometido à SRU, é uma bela cruzada, que faz todo o sentido e todos devemos apoiar com entusiasmo. O problema é está a andar a passo de caracol.

 

Ou o projecto de recuperação de um Baixa mete o turbo e ganha asas nos dois anos que faltam para terminar o segundo mandato, ou Rio terá muito pouca obra feita para apresentar a quem o elegeu na hora das próximas autárquicas.

 

Eu olho para Rui Rio na presidência da Câmara do Porto e vejo o homem certo no lugar errado – ou, se preferirem, o homem errado no lugar certo.

 

Eu vejo Rui Rio na presidência da Câmara do Porto e reparo no erro tremendo que é meter mais um defesa (mesmo que seja o melhor defesa do Mundo) numa equipa que está perder e precisa desesperadamente de fazer golos.

 

No futebol, o Porto domina esmagadoramente. Mas no campeonato da prosperidade, o Porto está ser goleado. Precisa, por isso, de um ponta de lança. Como de pão para a boca. Para podermos voltar a ser felizes.

Jorge Fiel

Música: Say Goodbye, Leonard Cohen
Publicado por Jorge Fiel às 08:46
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

O muro que sabia demais

 

Tenho para mim que o muro mais cínico do Porto habita na rua do Campo Alegre, entre o Circulo Universitário e a Faculdade de Psicologia.

 

Trata-se de um muro que fala pouco, mas que, quando fala, fala bem.

 

Até ser pintado de novo, há coisa de meses, fazia eco de uma reivindicação que tinha tanto de estranha como de justa: «Queremos mentiras novas!»

 

Percebi o muro logo à primeira. Já que vamos continuar a ser enganados por Lisboa, o mínimo que se exige ao Terreiro do Paço é que faça um esforço sério para ser criativo, que seja competente na arte de nos embrulhar – que renove o stock de mentiras, pois com velhas já não consegue enrolar ninguém.

 

O muro do Campo Alegre tem agora em cartaz um novo pedacinho de ouro, porventura ainda mais sábio que o anterior: «Qualidade de vida é Porto-Lisboa em 6 dias» - na primeira versão, rasurada, falava de apenas três.

 

Este elogio da distância surge na altura exacta em que o Governo reafirma que a ligação por TGV de Lisboa a Madrid (agendada para 2013) é prioritária sobre a ligação ao Porto, diferida para 2015.

 

O muro tem toda a razão. Qualidade de vida é estarmos a seis dias de distância de Lisboa – e não apenas a uma escassa hora e meia. Quanto mais perto estiver de nós, mais fácil será à capital continuar a esvaziar-nos os bolsos e a sugar os nossos recursos.

 

Não tenho dúvidas. O muro do Campo Alegre é uma espécie de Oráculo de Delfos. Não é só o muro mais cínico do Porto. É, também, o mais sábio.

 

Jorge Fiel  

 

Música: The Wall, Pink Floyd
Publicado por Jorge Fiel às 15:31
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A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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