Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Mário Lino, o intoxicador de água doce

 

Tenho seguido com alguma atenção, redobrada curiosidade e indisfarçável divertimento a carreira do ministro das Obras Públicas, um reputado «aparatchik» que acompanha Sócrates desde os gloriosos tempos em que o  actual primeiro ministro conspirou com sucesso para ser ministro do Ambiente no lugar da ministra do Ambiente (Elisa Ferreira).

 

Sorte idêntica não tem o mau grão-vizir Iznogoud (uma magnífica invenção de Goscinny, o pai do Astérix) que há uma data de anos conspira debalde para ser Califa no lugar no bom do Califa.

 

Não era preciso ser um Einstein para perceber a importância nuclear que o Ministério das Obras Públicas teria num Governo que acreditava (ainda acreditará?) piamente que a Ota e o TGV iam ser a locomotiva da recuperação económica e do suave milagre do regresso à convergência com a Europa – e que a chuva de dinheiro do QREN vai ser o Abre-te Sésamo de uma nova maioria absoluta.

 

Mário Lino partiu discreto. Mas tal como aqueles maratonistas que fazem a corrida de trás para a frente, sem esticões, o ministro das Obras Públicas, com uma passada certa e segura, soube ultrapassar o seu colega da Economia, destronando Manuel Pinho do lugar de primeiro palhaço do Governo Sócrates.

 

Data de Maio último o ponto de viragem, em que Pinho ficou irremediavelmente para trás no bem disputado campeonato interno do disparate. Lino passou por ele a correr, até parecia um foguetão, no dia em que proferiu a mais memorável das suas declarações, que nunca será demais recordar:

 

«Fazer um aeroporto na Margem Sul seria um projecto megalómano e faraónico, porque, além das questões ambientais, não há gente, não há hospitais, não há escolas, não há hotéis, não há comércio, pelo que será preciso levar para lá milhões de pessoas»

 

Foi por estas, e por outras como esta, que Sócrates teve de pôr a questão da Ota a hibernar durante seis meses.

 

Só que agora que chegou a hora de descongelar a Ota e há para resolver uma série de contrariedades surgidas no entretanto.

 

No interim em que o Governo mantinha a Ota agasalhada na gaveta, a CIP patrocinou um estudo, dirigido por um reputado especialista (José Manuel Viegas), que aponta Alcochete como a melhor e mais barata localização para o novo aeroporto de Lisboa.

 

Acresce que, no entretanto, engrossou o pelotão dos que defendem a solução Portela+1 e que se meteu na cabeça do PR Cavaco a ideia que tem uma palavra a dizer sobre a matéria.

 

Uma data de chatices! Os espíritos (nada a ver com o BES) andavam agitados, pelo que Mário Lino meteu mãos à obra de cortar o mal pela raiz.

 

Vai daí tratou de gizar um cuidado e pormenorizado plano de assassinato do estudo da CIP junto da opinião pública, com a ajuda voluntária da Rave (empresa sob a sua tutela e convenientemente guarnecida de boys rosa) e de especialistas em «spin» - e involuntária de uns crédulos equipados com carteira profissional de jornalistas mas que têm boa boca e estão habituados a comer e calar a ração que lhe põem à frente (os idiotas úteis, na fraseologia de Lenine).

 

«Comme il faut», a campanha foi inaugurada com estrondo no sábado, no jornal de referência por excelência (Expresso), onde fonte anónima da Rave jura que o estudo da CIP faz disparar em 1700 milhões de euros o custo do novo aeroporto.

 

No dia do Senhor, a plantação de notícias abriu num movimento em tenaz.

 

No diário de referência por excelência (Público) denunciam-se os «erros crassos» do estudo da CIP e as suas consequências catastróficas para o TGV Porto-Lisboa: menos 1,5 milhões de passageiros/ano, menos 450 milhões de euros de receitas/ano, mais 15 minutos de duração do trajecto.

 

No diário com maior circulação (Correio da Manhã) um administrador da Rave denuncia o crime lesa-património que o estudo da CIP pretendia perpretar. A construção de uma ponte Beato-Montijo obrigaria o Convento do Beato a vir abaixo, o que, concordo, seria uma enorme maçada, tanto mais que o pessoal do Compromisso Portugal teria de espremer as meninges para arranjar um novo ponto de encontro para a sua reunião anual.

 

Vento corria de feição à campanha. O drama foi que logo no dia a seguir, na 2ª feira, o director do Público revelou, em editorial, os detalhes do plano de intoxicação traçado por Mário Lino, que passou a ser o macaco escondido que deixou o rabo de fora.

 

Lino teve de improvisar. E para cobrir a retirada pôs um porta voz da Rave a jurar que tem estudos favoráveis à solução Alcochete - e que o mal está apenas na soluções técnicas apresentadas pela CIP.

 

Mário Lino falhou no essencial. Foi apanhado com a mão na massa – com a boca na botija. O segredo do sucesso deste tipo de campanhas é serem silenciosas e ninguém dar por elas. 

 

A regra número um é o maestro ficar na sombra, de luvas calçadas.  Mas o ministro não conseguiu evitar deixar as impressões digitais espalhadas por todo o lado.

 

Lino, o ministro que não tem tempo para ler (e por isso o mais que pode fazer pelo estudo da CIP é, disse ele, «dar-lhe uma vista de olhos») é um amador. Um intoxicador de água doce.

 

Jorge Fiel

 

Música: The death of a clown, Kinks
Publicado por Jorge Fiel às 14:26
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