Catotas, escutas e o tubo da pasta de dentes
Sempre achei que não precisamos de saber tudo. Aqui há uns anos, no decorrer de uma daquelas redistribuições do espaço frequentes no Expresso, ficamos todos a saber que um colega nosso, um rapaz educado e asseadíssimo, cultivava secretamente o hábito de arquivar debaixo do tampo da secretária as catotas que extraía do nariz. A descoberta do nojento cemitério de burriés secos foi um choque. Nesta vida há uma data de coisa que é preferível ignorarmos.
Ninguém duvida que a Scarlett Johansson e o papa Bento XVI frequentam regularmente a sanita, mas só gente com comportamentos desviantes gostaria de ver escarrapachados no You Tube vídeos mostrando a boa da Scarlett a aliviar-se ruidosamente ou Sua Santidade a espremer-se todo, devido a uma arreliadora prisão de ventre. Não precisamos de ver e saber tudo.
Há uma data de coisas que é preferível ignorarmos mas, devido ao demoníaco matrimónio entre o apodrecimento da justiça e o avanço da tecnologia, não é preciso espreitarmos pelo buraco da fechadura para sabermos que a Demi Moore bebe a sua própria urina, na esperança que isso retarde o envelhecimento – e não é necessário escutar atrás das portas para sabermos que um jovem administrador da PT estava convencido que se facilitasse a compra das rádios da Media Capital pela Ongoing e o Luís Montez, o sogro deste, que por acaso mora em Belém, ficava politicamente neutralizado e passava a cuidar dos netinhos em vez de andar a azucrinar o juízo ao “chefe” (leia-se Sócrates).
Eu não precisava de saber que a password de Rui Pedro Soares é “Sócrates2009” (ele ficaria muito melhor na fotografia se fosse “Gina2008” ou “Cláudia2010”) e que a alergia de Sócrates à critica é tal que o leva a faltar à verdade.
Eu não precisava de ouvir Pires de Lima, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, chamar “aldrabrão de feira” ao primeiro ministro, nem Henrique Granadeiro, presidente da PT, lamentar em público que se sente “encornado”.
Eu preferia que Sócrates - em vez de estar a defender-se das asneiras e malfeitorias confessadas ao telefone pelos trapalhões aprendizes de feiticeiro e incontinentes verbais que o rodeiam - estivesse concentrado no ataque ao desemprego e no cumprimento da promessa de, até 2013, trazer de volta para os 3% o défice que o seu Governo agravou em 6,6% no ano de todas as eleições. Os problemas a solucionar são estes – e não Crespo, Carreira ou Moura Guedes.
O drama é que mais fácil o Clark Kent e o Super Homem aparecerem juntos, do que Sócrates ser capaz de voltar a meter dentro do tubo a pasta de dentes que saiu cá para fora.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias