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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Gostava de ser Gastão mas sinto-me Peninha

No universo do Disney, os meus heróis são os personagens mais cheios de defeitos, como os infelizes irmãos Metralha ou o Zé Carioca, que é alérgico ao trabalho e mantém a forma fazendo os 400 metros planos a fugir dos credores. Os sobrinhos são insuportáveis. E apesar de detestar o Gastão, reconheço que as razões deste são idênticas às que levaram a raposa da fábula do Lafontaine a dizer “estão verdes, não prestam”.

Na verdade, adoraria ser tão sortudo como o ganso Gastão, mas, na triste e dura realidade, quando olho para o espelho, ele devolve-me a imagem do azarado pato Peninha muito mais vezes do que eu gostaria. A sorte e o azar existem, e se alguém o tentar convencer do contrário, pergunte-lhe porque é que o Durão Barroso é presidente da Comissão Europeia.

Os factos que se seguem tiveram lugar entre as 10h30 e as 13h00 de 3ª feira - era dia 13, mas não 6ª feira, não passei debaixo de uma escada, não me cruzei com um gato preto, nem parti um espelho.

Passei a manhã à conversa com Luís Vale, dinâmico director de marketing da Carris, que me falou com entusiasmo da meritória campanha Menos um Carro e do notável esforço de melhoria da qualidade do serviço. Em seis anos, a idade média da frota passou de 16,5 anos para 6,5 anos (é das mais jovens da Europa). A aposta na renovação alargou-se aos motoristas. É impressionante que num total de 2700 trabalhadores, haja um contingente de 1200 motoristas novos, que antes de serem lançados para o volante dos autocarros foram formados e instruídos para serem os embaixadores da Carris junto dos clientes.

Acabada a entrevista, despedi-me do Luís e atravessei a rua. Esperei menos de cinco minutos pelo 48 das 11h35, com destino ao Marquês do Pombal. Logo à entrada, sofri o primeiro contratempo. Como o saldo miserável (52 cêntimos) do meu cartão Lisboa Viva era insuficiente, gastei 1,40 euros na compra do bilhete a bordo.

Sentei-me lá atrás à janela e a viagem correu impecável, até que o 48 chegou às Amoreiras e claudicou.  O motor foi abaixo, era muito o fumo que estava a sair do escape, pelo que o motorista achou por bem evacuar o autocarro, explicando-nos ter medo que ele se incendiasse.

À saída do 48, vi um outro autocarro estacionado numa paragem, uns metros à frente. Era o 53, cujo destino desconhecia. Dei uma corrida para o apanhar, entrei, e o jovem motorista limitou-se a responder-me um sonoro “Boa tarde” quando lhe perguntei se o autocarro ia para o Marquês.

Já perceberam porque é que eu às vezes me sinto como o azarado repórter Peninha, de A Patada de Patópolis, propriedade do Tio Patinhas?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

João Pedro Pais

 

João Pedro Pais, 38 anos, é conhecido como o autor e cantor de hinos tão populares como Não Há, Lembra-te de Mim, Um Resto de Tudo, Mais Uma Vez ou Um Volto Já. Mas antes de ter emergido anonimato na 2ª edição da Chuva de Estrelas, já brilhava nos tapetes, tendo sido mais de uma dúzia de vezes campeão nacional de luta livre olímpica e luta greco-romana, enquanto estudava Artes Gráficas na Casa Pia. “Para se ser bom, na vida ou no desporto, é preciso trabalhar muito, ter ambição e capacidade de sacrifício. A maior parte das grandes estrelas, veio do bairro e queriam muito vencer na vida”, explica o cantor, que esteve quase a conseguir os mínimos para os Jogos Olímpicos de Barcelona

 

 

Saltar à corda dentro do sauna, vestido com um impermeável, para perder peso, era um enorme sacrifício físico. O peso normal dele oscilava entre os 58 e os 60 quilos (a balança continua a acusas o mesmo), mas a categoria internacional em que competia era a dos 52 quilos.

“Nunca mais hei-de esquecer a cena de um lutador nórdico que estava ao meu lado a rapar o cabelo, para abater 50 gramas ao peso”, lembra João Pedro Pais, que apesar de ir fazer 39 anos mantém a cara, corpo e expressões de um miúdo reguila, que abusa do adjectivo “brutal”, dito com os olhos a brilharem de admiração, sempre que a conversa aterra em algo genuinamente admira.

A fobia de perder o peso nas vésperas das grandes competições é a pior recordação que guarda dos 15 anos em que foi atleta de luta livre olímpica e greco-romana, modalidades em que um palmarés tão gordo que até perdeu a conta às vezes que foi campeão nacional – uma dúzia de vezes, pelo menos.

Perder peso era violento. Nas duas semanas anteriores, sofria um regime alimentar rigoroso, à base de saladas e fruta, o que, aliado a cargas pesadas de treino, o deixava física e psicologicamente fragilizado. O que ajuda a explicar porque é que ele, um rapaz vindo de baixo, dos bairros, sedento de vontade de vencer, falhou no início dos anos 90 o salto para o que teria sido o Everest da sua carreira de lutador – a participação nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992.

Não façam confusão. João Pedro é doido pelos Jogos Olímpicos. Um das coisas que mais o apaixonam é de, quatro em quatro anos, sentar-se num sofá em frente ao televisão a ver as provas de todas as modalidades, sem excepção.

“É brutal!”, qualifica o cantor que faz planos para, em 2012, assistir ao vivo em Londres às primeiras provas olímpicas, 20 anos depois de ter desperdiçado a hipótese de desfilar no Estadi Olímpic Lluis Companys, e ouvir na cerimónia inaugural dos Jogos a cantora lírica Montserrat Caballé a interpretar a famosa canção Barcelona  (gravada em 1988) em dueto virtual com Freddie Mercury, que tinha morrido no ano anterior.

Leonard Cohen é o ídolo número 1 de João Pedro, que elege o antigo vocalista dos Queen como o maior, em palco, de todos os tempos.  “Brutal!”, exclama o lutador, cuja carreira musical o levaria por diversas vezes à capital catalã, cidade onde gravou o videoclip da canção Um Resto de Tudo e actuou em 2003, quando assegurou as primeiras partes da tournée ibérica de Bryan Adams.

Em 1990, João Pedro fugiu da participação das Mundiais de Roma, onde era suposto conseguir os mínimos para Barcelona. Ele sabe porque não aguentou a  pressão. “O desporto de alta competição não é só corpo mas também alma”, afirma o artista, que além de cantar e tocar, também escreve as letras e compõe as músicas da esmagadora maioria das canções dos seis álbuns que editou.

Fragilizado pela violência da abundância do treino e da frugalidade da comida que lhe punham no prato, João Pedro precisava de ser compensado por uma energia positiva que o búlgaro que era seleccionador nacional não conseguir dar-lhe. “Nos momentos de grande tensão e esforço, tenho de se sentir confiança nas pessoas com quem trabalho. Na alta competição, o treinador tem de ser um líder, um substituto dos nossos pais e avós, e não apenas um técnico frio que age como uma esponja”, afirma João Pedro, sepultando assim o dossier da fuga aos Mundiais de Roma.

Tal como nove em cada dez lisboetas, João Pedro nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, em 1971. A mãe trabalhava na Praça do Chile, a fazer micro-radiografias e tinha a categoria de 3ª oficial. Foi criado na Estrela, pelos avós maternos, num lar onde havia sempre música no ar. “Tive uma infância brutal! E isso reflecte-se no futuro”.

A luta entrou na sua vida em 1980, porque era o único desporto disponível no Colégio de Santa Catarina, onde fez a primária, na companhia de uma vintena de rapazes e outras tantas raparigas. Treinado por Francisco Reis, aprendeu a lutar ao mesmo tempo em que começou a fazer contas de cabeça e a tratar as palavras por tu.

Treinava três vezes por semana, às 2º, 4ª e 6ª, duas horas de cada vez. Tinha nove anos e pesava 30 quilos e começou logo a dar nas vistas, ganhando os combates uns atrás dos outros. Usava mais a técnica do que a força bruta para atingir o objectivo – assentar as costas do adversário no chão é o cheque mate da luta.

“Eu tinha muita raça e estudava bem a linguagem corporal do adversário, para antecipar o movimento que ele ia fazer. E era muito rápido, tipo Lucky Luke, que é mais rápido que a própria sombra”, graceja, numa breve auto-avaliação das suas características como lutador.

Aos 17 anos, ainda com a idade de júnior, trouxe para Portugal um honroso 8º lugar no primeiro Mundial sénior em que participou, em Martigny, na Suíça, marco importante de um carreira que encerraria uma vitória num torneio internacional no Rio de Janeiro, em 1995, quando era notório que a luta deixara de ser compatível com a carreira musical que começava a levantar voo.

“Para se ser bom, na vida ou no desporto, é preciso trabalhar muito, ter ambição e capacidade de sacrifício. A maior parte das grandes estrelas do desporto são miúdos dos bairros sociais que espreitam no desporto uma boa porta para vencer na vida. Veja-se o caso do Luís Figo, do Cristiano Ronaldo, da Telma Monteiro, da Naide ou do Nelson Évora. Nenhum deles nasceu num berço de ouro”, afirma João Pedro, que conversou connosco na cafetaria do Centro de Alta Competição do Jamor, onde corre todos os dias seis a oito quilómetros. Meia hora depois, passou por nós Nelson Évora, que o cumprimentou efusivamente. E à saída, quando se dirigia para o seu Audi, para ir ter com a namorada (que estuda Gestão e mora em Benfica), trocou saudações com Naide, que seguia num Smart.

Enquanto estudava Artes Gráficas na Casa Pia, prosseguiu a carreira de lutador, limpando tudo na sua categoria, ao serviço de diversos clubes. Primeiro, representou a Junta de Freguesia de S. Paulo, depois o Lisboa Clube Rio de Janeiro, o Benfica e finalmente Sporting. As primeiras mudanças explicam-se pelo facto de seguir o primeiro treinador, Francisco Reis, a quem não poupa nas palavras quando se trata de o elogiar. O Benfica já tem a ver com ganhar uns dez contitos que lhe arredondava os fins do mês. Curiosamente nunca foi atleta do Belenenses, o clube do seu coração.

“Sempre gostei do Belém. É um clube cheio de carisma, que acompanhei muito de perto durante a presidência do engº Cabral Ferreira. Raramente falhava um jogo no Restelo, onde conheci o Jorge Jesus, por quem ganhei logo um enorme respeito. Ficamos amigos. É um trabalhador nato. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Admiro-o muito. Percebe de futebol como poucos, saber motivar os atletas e tem uma enorme vontade de vencer. Veio de baixo…”, diz João Pedro, que atravessou a adolescência sempre a cantar e a tocar numa viola comprada numa feira.

Quando, durante o Mundial de 91, em Varna, na Bulgária, juntou toda a comitiva lusa, incluindo o secretário geral da federação, a ouvi-lo a tocar piano no hall, já sabia que a luta não era o futuro – a música talvez.

Aos 17 anos, quando concluiu o curso de Artes Gráficas, na Casa Pia, ainda arranjou um emprego a trabalhar com uma máquina offset na Tipografia Mirandela. Mas apenas se demorou por lá dois anos. Já ganhava que chegasse para o seu sustento tocando e cantando em bares.

Começou a actuar no Hapenning, um bar na Estrela onde Luís Represas também debutou, e, numa daquelas coincidências em que a vida é fértil, uma dia estava lá a cantar e deu com o vocalista dos Trovante (e tal como ele adepto do Belém) na assistência - “ Foi estranho. Hoje somos grandes amigos”.

Não tinha muitos discos – Brothers in Arms, dos Dire Straits, foi um dos primeiros que comprou. Ouvia muito rádio. Zeca Afonso, Zé Mário Branco, Fausto,  Trovante, Já Fumega, Xutos e Pontapés, Rui Veloso, os Peacemakers, são os nomes que lhe vêm à cabeça quando o desafiamos a abrir o baú das recordações e dizer quem ouvia quando começou a tocar em bares e a compor, metendo letras dele em cima de canções conhecidas de outros autores.

Em 1994, a carreira dele levou um empurrão quando ficou em 2º lugar, com uma interpretação de Ao Passar de um Navio, dos Delfins, na segunda edição da Chuva de Estrelas - a vencedora foi Inês Santos, com Nothing Compares 2 U, de Sinnead O’Connor.

O concurso da Sic ajudou-o a emergir do anonimato e incentivou a compor as canções para o primeiro disco, intitulado Segredos, que foi editado em 1997 pela Valentim de Carvalho, depois de ter sido rejeitado pela EMI e pela Universal, que devem torcido a orelha (mas já não deitava sangue…) quando viram o seu álbum de estreia ultrapassar rapidamente a fasquia dos 20 mil vendidos e tornar-se o seu primeiro Disco de Ouro.

“As rejeições só me deram mais força. Eu sou muito competitivo. Nós somos aquilo que delineamos na vida, aquilo que vivemos, os livros que lemos, as experiências por que passamos e os amigos que temos”, explica.

“O desporto fez de mim aquilo que eu sou. Foi na luta que aprendi a não subestimar os outros e a respeitar os mais fracos. Se eu tenho algum juízo devo-o aos anos em que fiz luta”, acrescenta.

Deixou a luta quando as noitadas e o fumo dos outros (ele nunca fumou) nos bares começaram a tornar-se incompatível com os treinos, onde a possibilidade de magoar-se nos dedos punha em causa o seu ganha pão.

Mesmo depois de alcançar a fama, com canções que estão na cabeça de todo a gente, como Não Há, Um Volto Já ou Mais que uma vez, João Pedro soube manter-se o rapaz bom e humilde que cresceu na Estrela e fez o curso de Artes Gráficas na Casa Pia.

Marcado pela leitura de romances como Morreste-me e Cal, quando soube que José Luís Peixoto dava um work-shop junto à sede da FPF, na Praça da Alegria, foi lá pedir-lhe para autógrafos. “O Zé Luís é um intelectual moderno”, elogia.

Além de ler, como é claro, ouve muita música. Cohen é o ídolo número um, mas logo a seguir vêm Sting e Eddie Vedder a solo. “A banda sonora do filme O Lado Selvagem, de Sean Penn é brutal”, sentencia.  Como gosta de ver os músicos a actuar, é frequentador assíduo do YouTube.

“Não me chega ouvir, quero ver a imagem, as expressões. Nós mostramos o que somos ao vivo”, conclui João Pedro Pais, que em Maio vai voltar ao Rock in Rio Lisboa (ele fez parte do cartaz da primeira edição, de 2004) e se despede com mais uma referência à luta: “Devo ao desporto não me levar muito a sério, ter os pés bem assentes na terra e a consciência que o mundo não gira à minha volta”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

Fernando Santo

 

Pouca gente no Oeste saberá que o principal responsável por aeroporto de Lisboa não ir ser construído na Ota é um filho da região. Fernando Santo, 59 anos, nasceu e cresceu em Alcobaça, onde os pais têm pomares, pinhal e vinho. “Limitei-me a explicar de uma forma simples porque é que a Ota era uma má opção”, diz, modesto, o homem cuja intervenção pública forçou José Sócrates (que como é engenheiro técnico não está inscrito na Ordem) a reabrir a discussão sobre a localização do novo aeroporto. 

O ex-bastonário da mais populosa das ordens (há 44 mil engenheiros, 36 mil médicos e 30 mil advogados) concede que o dossiê Ota foi a mais vistosa acção dos seus dois mandatos, mas chama a atenção para outra, menos visível, mas que ele considera ainda mais importante. “A nossa influência na produção legislativa cresceu imenso, porque o poder político passou a olhar com outros olhos para os nossos contributos. A Ordem ganhou credibilidade” reivindica este engenheiro civil, que declara: “Não estou alinhado com nenhum partido, penso com a minha cabeça”.

Fernando habituou-se a ser independente logo aos dez anos, quando foi viver para um quarto alugado, em Leiria, onde fez o liceu. “Nunca tive ninguém ao lado que me mandasse estudar. Mas nunca chumbei nem deixei qualquer cadeira para trás. Aprendi a trabalhar com objectivos”, conta, com orgulho.

Acabar o liceu com 14 – de média geral mas também a Física e a Matemática - para entrar no Técnico foi o primeiro objectivo. A agricultura, com despesa certa e receita incerta, nunca o seduziu. Desde miúdo que queria ser engenheiro.  O Lego e o Meccano foram decisivos para este fascínio juvenil, confirmado quando os pais lhe deram uma caixa de construções electrónicas da Philips que lhe permitia fazer coisas como um rádio e um piano. Tinha 12 anos e ficou deslumbrado.

Sobreviver aos dois anos preparatórios do Técnico, com aulas das oito às 18, sábados incluídos, foi o objectivo seguinte. É com este saber de experiência feita, que critica Bolonha e a massificação do ensino feita à custa do abaixamento da qualidade.

“As escolas desceram o nível de exigência para terem mais alunos e assim se financiarem. A questão de fundo é que as pessoas se preocupam mais com os títulos académicos do que com o resultado da formação”, acusa o ex-bastonário, que escolheu almoçarmos no restaurante da Ordem, num 6º andar com vistas para o Parque Eduardo VII.

Abriu com uma sopa e seguiu com uma posta de garoupa grelhada (acompanhada por água e um copo de branco) numa refeição frugal sobremesada por fruta laminada. Já depois do café , aceitou, por insistência do presidente da Relação,  uma fatia de bolo de chocolate da festa de aniversário de um juíza, comemorada por um grupo que almoça todas as 6ª no restaurante da Ordem dos Engenheiros – onde também almoçou ontem Maria de Belém Roseira, que é casada com um engenheiro.

“A capacidade técnica da engenharia portuguesa é reconhecida em todo o mundo devido ao saber acumulado durante cem anos de ensino exigente – e não por causa dos cursos da treta”, diz, considerando um disparate os 526 cursos de engenharia (entre licenciaturas e mestrados) existentes no nosso país e “andarem para aí a vender que a vida é uma coisa fácil, pelo que os meninos podem passar pela escola como se fosse uma zona de lazer”.

Fernando deixou os quartos alugados quando andava no 4º ano do Técnico e foi trabalhar no IV Plano do Fomento. Em 1976, trocou a alcatifa pela Somapre, que projectava e construía escolas e habitações prefabricadas. Após três anos em regime de profissão liberal, foi para a EPUL (onde voltou agora, como administrador), onde viveu a mais gratificante experiência profissional da sua vida: dirigir a construção de 540 apartamentos na Vila Expo.

“Para um engenheiro, é um enorme prazer ver, em Janeiro de 95, um pântano onde o meu jipe ficou atascado, e três anos depois ver uma cidade no mesmo local. Não havia derrapagem possível. A 22 de Maio de 1998 tinha de estar tudo pronto”, concluiu o ex-bastonário, que vive em Telheiras e se despede com uma mensagem: “No séc. XXI a engenharia é um recurso estratégico nacional”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

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Ordem dos Engenheiros

Av. António Augusto de Aguiar, 3-6º andar, Lisboa

3 copos de branco Quinta do Cardo… 3,90

Águas … 1,30

2 refeições (sopa, garoupa e fruta)  … 28,00

2 cafés.. 1,60

Total… 34,80 

Eu, pecador, me confesso

 

Quando faço bem, sinto-me bem; quando faço mal, sinto-me mal. Essa é a minha religião

Abraham Lincoln

 

Sou um grande pecador. E não julguem que estou aqui para vos confessar pecadilhos arrumáveis na estante dos pecados veniais. Não sou preguiçoso ou avarento (se tiverem dúvidas, perguntem à minha ex-mulher). Mas 3ª feira ao jantar, na Marisqueira do Miguel, em Matosinhos, cometi o pecado (mortal) da gula na pessoa de uma enorme (e deliciosa) posta de bacalhau assada no forno.

Não posso mentir e esconder-vos que, ao preencher a declaração do IRS, fiquei cheio de inveja dos 3,1 milhões de euros que o Mexia levou o ano passado para casa – e de não ter sido eu o autor da genial ideia de arranjar maneira de que o salário do presidente da EDP fosse publicado nos jornais de 1 de Abril (as pessoas sempre ficaram na dúvida se seria ou não peta do Dia das Mentiras).

Foi a epidemia de notícias sobre actos de pedofilia praticados por membros do clero que me levou a fazer o exercício de introspecção onde conclui que cometo regularmente três (gula, inveja e luxúria) dos sete pecados mortais.

Trata-se de um exercício diletante porque apesar de ter sido baptizado, andado na catequese, feito a comunhão e até ter ajudado uma vez à missa, a meio da adolescência tornei-me um herege e passei a ter a mesma religião que o Lincoln.

Tenho muita pena de ter deixado de acreditar, pois passei a acumular e a carregar as minhas culpas. Tenho inveja (cá estou eu outra vez, a pecar) de não poder beneficiar do eficiente sistema inventado pela Igreja Católica para aliviar a consciência dos seus fieis e que tem como base o pecado em que Adão mergulhou a Humanidade.

A Santa Madre Igreja sabe que todos nós, sem excepção, somos pecadores, e por isso sossega-nos ao garantir que Deus, na sua infinita bondade e inesgotável misericórdia, está sempre pronto a perdoar-nos. Basta confessarmos os pecados, protestar o nosso arrependimento e aceitar trocar a absolvição por umas quanta penitências (e, atenção, porque uma esmola pode substituir um sacrifício!). Quando acabamos de rezar o Acto de Contrição, voltamos a ter zero quilómetros no longo caminho do pecado. Essa é que é essa.

Eu, pecador, me confesso. Morro de inveja por não estar abrangido por este eficaz sistema de alívio espiritual de consciências. E tenho uma dúvida. Serão católicos praticantes os pecadores que meteram ao bolso as comissões da compra dos submarinos?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Pedro Nobre

 

O que mais o intriga neste momento é a discrepância entre a resposta física do corpo e a percepção de prazer, que se regista em ambos os sexos mas com maior incidência nas mulheres. Dito por outras palavras, é muito frequente que a excitação medida na vagina não esteja em sintonia com a que é subjectivamente sentida. Uma questão que, no caso dos homens, se pode colocar da seguinte maneira: a verdade está na cabeça de cima ou na de baixo?

Pedro Nobre, 39 anos, psicólogo clínico, casado e com duas filhas, de seis e três anos (“Há três mulheres na minha vida”, graceja), sabe do que fala, pois dirige a equipa de cinco investigadores do primeiro laboratório experimental de sexologia em Portugal que, com um subsídio de 160 mil euros da FCT, está a estudar a reacção dos portugueses a estímulos sexuais.

O SexLab, que funciona na Universidade de Aveiro, trabalha com uma amostra de 100 voluntários (metade de cada sexo, com idades compreendidas entre os 18 e 50 anos) que gratuitamente se dispuseram a serem a matéria prima deste estudo.

O trabalho de campo desenrola-se numa sala, em que o/a voluntário/a está sozinho, confortavelmente sentado num sofá, a ver dois pequenos filmes – um porno e outro erótico -, com a duração de três minutos cada um. A privacidade é quase completa. Não há câmaras. O quase tem a ver com o aparelho que permite aos investigadores monitorizar as suas reacções físicas ao que se passa nos filmes.

Antes de iniciarem a sessão, os voluntários despem-se na cintura para baixo. Elas alojam no interior da vagina uma espécie de tampão (fotopletismógrafo) que indica a pulsação e volume sanguíneo na zona genital. Eles colocam no pénis uma espécie de anel (indium gallium gauge), que mede os estados de erecção induzidos pelas cenas dos filmes.

Os resultados preliminares deste estudo do SexLab de Aveiro serão apresentados no 10º Congresso da Federação Europeia de Sexologia, que reúne no Sheraton Porto, de 9 a 13 de Maio (coincide com a visita do papa), que Pedro está a organizar, na qualidade de presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia, que agrupa psiquiatras e psicólogos, mas também sociólogos, antropólogos e juristas.

Filho de um médico e uma farmacêutica, nasceu em Vila Perry, Moçambique, mas veio para Portugal com quatro anos. Cresceu em Lagos, fez o curso em Coimbra (onde integrou a direcção da AAC presidida por Vigário), e teve o primeiro emprego no Alentejo, na Vila Fernando, um estabelecimento correccional de menores, onde ficaram sepultadas algumas das suas convicções “humanistas e de esquerda” - “É utópico pensar que a escola se faz sem hierarquia e disciplina”. Demorou-se lá um ano e três meses, em que todos os dias sonhava com o dia em que se viria embora.

Deu aulas em Vila Real e agora está em Aveiro, mas mora no Porto, onde escolheu almoçar no Shis, o restaurante mais in da cidade. Apesar de ter chegado com mais de 40 minutos de atraso, não vinha stressado (a não ser que houvesse discrepância entre a aparência calma e o estado de espírito) e encomendou uma refeição completa, iniciada com sopa, continuada com robalinho e sobremesada com gelado de baunilha (não havia o de chá verde).

As disfunções sexuais foram o tema das teses de mestrado (curiosamente apresentada no ano em que saiu o Viagra) e doutoramento deste psicólogo que confessa ser “preciso ter muita abertura de espírito e estômago para ser terapeuta sexual”. 

“O problema mais comum no homem é a ejaculação prematura”, afirma, acrescentando que, no entanto, 70% dos homens que procuram ajuda é por causa da disfunção eréctil, o que é explicado pelo facto de ainda ser dominante o mito do macho latino, “que atribuiu um papel central ao pénis e à penetração, bem como estar sempre pronto com uma erecção”,

”Está ainda muito enraizada a crença de que não ter erecção é catastrófico e significa ser menos homem. O que não é verdade. Pode ter-se prazer sem erecção”, conclui Pedro, citando o caso dos homens que continuam a ter sensações de prazer sexual apesar de não terem erecções devido a lesão vertebrais derivadas de acidentes de viação.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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Shis

Praia do Ourigo, Foz do Douro, Porto

Couvert … 5,00

Sopa do dia … 2,50

Sushi Shis style … 15,00

Robalinho com algas wakame e ovas massago … 12,00

Água Vitalis 0,5 litro … 1,50

Água Castelo 0,20 l ... 1,20

Kopke Branco 0,74 l … 13,00

Gelado de baunilha … 3,00

2 cafés … 3,00

Total… 56,20

 

Manter a RTP 1 pública é uma idiotice completa

Como sou uns meses mais velho que a RTP, cresci a salivar de entusiasmo, tal como o cão de Pavlov, sempre que ouvia o Jorge Alves dizer “Olá amiguinhos”, ao antecipar o imenso prazer de ver desenhos animados – os do Manda Chuva eram os meus preferidos.

As legendas de séries como o Mr Ed (o cavalo que falava) e de Bonanza foram tão importantes na lubrificação da minha capacidade de ler rapidamente como os volumes encadernados a couro do Mundo de Aventuras e Falcão que eu devorava durante as férias na Biblioteca Municipal, junto ao Jardim de S. Lázaro, que ficava umas escassas centenas de metros do 2º andar do nº 304 da avenida Rodrigues de Freitas, onde atravessei a infância e boa parte da adolescência.

Estou convencido que o ódio que tenho à tauromaquia se deve ao facto da “transmissão do exterior” que a RTP anunciava para a noite de 4ª feira se revelar uma tourada, na esmagadora maioria dos casos, e não um jogo de futebol (qualquer um servia). Treinei-me a aguentar firme as pequenas contrariedades da vida com a frequência com que aparecia no ecrã o cartão com a frase “Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos” – a mensagem que a RTP mostrava quando havia quebra de emissão.

Logo a seguir à véspera do Natal, imbatível pela conjugação entre a fartura da mesa e a abertura dos presentes, a grande noite do ano era a do Festival RTP da Canção, com o Henrique Mendes a receber pelo telefone, em alta voz, a pontuação atribuída pelo júri reunidos nas capitais de distrito.

Mas tudo isto não passa de um monte de recordações a preto e branco. O tempo não volta para trás, como pedia o António Mourão. O vento mudou, como cantava Eduardo Nascimento. A oferta, outrora limitada a um ou dois canais que emitiam a preto e branco e apenas parte do dia, amplificou-se de uma maneira brutal - recebemos por cabo em casa mais de uma centena de canais. A atenção humana é o único factor que se está a tornar escasso neste mundo de abundância.

Neste panorama audiovisual, manter a RTP 1 como canal público é uma idiotice completa (não é preciso ser serviço público para alinhar no Porto-Benfica dos túneis, qualquer privado teria todo o gosto em receber Pinto da Costa) que fica mais cara que alimentar um burro a pão de ló -  pois é este canal que absorve a fatia de leão dos 143 milhões que a RTP nos custa por ano, ou seja mais do dobro dos subsídios atribuídos à Carris e STCP. Nestes tempos de vacas magras, em que é preciso cortar na despesa e arranjar dinheiro para reduzir o défice, não sei de que é que Sócrates está à espera para passar a patacos a RTP1.

Jorge Fiel

Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias

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