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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Mafalda Amaral

 

Neta de Vasco Morgado, cresceu nos bastidores do Monumental, a ver a avó, Laura Alves, no palco, em revistas, operetas, comédias e dramas. Trabalhou no sector financeiro, enquanto estudava Economia. Tinha 27 anos e estava na Cofaco quando a vida lhe pregou a partida de lhe dar um filho com paralisia cerebral, forçando-a a trocar as conservas de atum pela edição de livros para crianças

 

 

Idade: 39 anos

O que faz:  Director geral da Edicare

Formação:  Licenciada em Economia pela Lusíada, em 1995,  fez posteriormente uma pós graduação na Católica em Finanças Empresariais

Família:  Casada com um economista, de quem tem dois filhos, o Zé Maria, 13 anos, e o Frederico, 12

Casa:  Andar na Lapa, Lisboa

Carro:  Deixou de ter carro desde que há dois anos lhe roubaram, à noite em Telheiras a sua Nissan pick up, que nunca mais apareceu. Ainda encarou a hipótese de comprar um Smart, mas como não cabia lá dentro a cadeira do Frederico e a sede da Edicare fica no mesmo bairro em que mora, decidiu passar a andar a pé, poupando nas multas de estacionamento, revisões, seguros e gasolina

Telemóvel:  iPhone

Portátil: Toshiba Qosmio  

Hóbis: Acima tudo gosta de ler (“Indignação”, de Roth, era o livro que tinha na mesinha de cabeceira) e de reler, sendo que a morte recente de Frank McCourt foi o pretexto para revisitar “As Cinzas de Ângela” - “uma história lindíssima”, não resiste a comentar. Vai regularmente ao cinema, nas Amoreiras, e ao ginásio. E adora jogos de estratégia, em particular Rome e Medieval

Férias:  No Verão fazem quinze dias de férias na praia Verde, em Tavira, em que leva oito crianças. Para este ano estão a planear aos Estados Unidos, hesitando entre Miami e Chicago

Regra de ouro: “As pedras no caminho quero-as todas para um dia construir um palácio. Temos de saber dar tempo às coisas, sermos persistentes e perceber  que sai caro não dizer as coisas no momento certo”

 

 

A vida pregou-lhe uma partida quando ela tinha 27 anos, marido, um filho bebé e uma promissora na área financeira da Cofaco, o maior grupo industrial conserveiro português.

Para trás, tinha uma existência preenchida, como não podia deixar de acontecer à mais velha das netas de Laura Alves e Vasco Morgado, crescida na órbita do Monumental e desde cedo habituada a tratar por tu as alegrias e tristezas da vida - fossem elas sentidas nos bastidores ou fingidas nos palcos.

Com as desventuras empresariais do pai e o seu divórcio da mãe, aprendeu que a vida não é um mar chão e precocemente começou a desembrulhar-se. Aos 17 anos, já a vemos a viver sozinha, hesitando entre Economia ou Arquitectura e sonhando com uma carreira internacional.

Dois anos depois, arranjava, sem querer, o primeiro emprego, ao meter uma cunha ao padrasto para que o banco onde ele administrador (BPA) lhe emprestasse 600 contos para ela comprar um computador IBM. Em alternativa ao crédito, ele arranjou-lhe um emprego na Credinova.

Fez o curso de Economia sempre a trabalhar. Trocou a Credinova pela Unicre, onde ganhava mais e tinha um trabalho mais interessante, e ainda passou pelo BCM. A excepção foi o último semestre, em que foi estudante a tempo inteiro para fazer a cadeira Econometria.

Acabado o curso, meteu logo as mãos na economia real, Foi para a Cofaco, um grupo conserveiro (Bom Petisco, Atum Tenório) açoriano que aproveitava os fundos comunitários para proceder a uma profunda reestruturação interna, que inclui fechar fábricas velhas, abrir novas e despedir pessoal.

Foi nesta altura que a vida lhe pregou a partida de Frederico, o seu segundo filho, nascer com paralisia cerebral. Durante alguns anos, tentou conciliar o controlo de gestão de um grupo em ebulição com a aprendizagem de como lidar com uma criança com necessidades especiais. Aos 33 anos concluiu que as duas coisas eram incompatíveis e foi para casa. Aprender a cuidar do filho e a militância na direcção da APPC (Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral) eram as suas novas prioridades.

“Não dava mais para manter um emprego por conta de outrém”, explica Mafalda, que como percebeu que para garantir o seu equilíbrio precisava de fazer outra coisa, optou por antecipar o subsídio de desemprego e criar uma editora, juntando a sua paixão pelos livros com os conhecimentos adquiridos pela necessidade de cuidar do Frederico.

Demorou dois anos a desenhar o projecto e o plano de negócios. Como estava a preparar a entrada num sector com uma concorrência fortíssima, não podia deixar nada ao acaso, nem copiar nada de existente. Em 2005, a Edicare Editora Lda começava a facturar.

A coisa está a correr bem. Com uma estrutura pequena (“somos sete, a caminho de oito, mas bem precisávamos de ser 12”), facturou em 2009 1,1 milhões de euros e mantém activas 900 referências de livros, passatempos e brinquedos educativos.

Pelo caminho, fez correcções da rota. Dada a estreiteza do nosso mercado, teve de deixar cair a grande aposta inicial nos produtos para crianças com necessidades especiais e guias para os seus pais. E foi obrigada a criar a sua própria distribuidora. Apesar disso, está a atingir os objectivos traçados no plano de negócio e acredita que este ano vai ser muito bom. “O truque é ser persistente e, às vezes, não pensar muito senão não se faz”, concluiu Mafalda, a gestora que a vida transformou em empresária.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada no Diário de Notícias

 

Jorge Silva

 Jorge Silva na sua Ducatti

 

 

Jorge Silva, 39 anos, é o dono do mais in salão de cabeleireiro de Guimarães, um espaço zen, assinado por arquitectos, procurado por clientela preocupada com a sua imagem, que tanto vai lá cortar o cabelo como receber uma relaxante massagem de chocolate ou champanhe, com terapia cromática. Antigo defesa esquerdo, formado no Vitória de Guimarães, onde foi vice-campeão nacional de juniores, representou o Celoricense, Ronfe, Penafiel, Freamunde e Bradford City, ao longo de uma carreira  que encerrou jogando uma época no Brasileirão com a camisola do Bahia. Com o pai, dono do Salão Londres, aprendeu a cortar o cabelo. Com o futebol aprendeu a importância dos relacionamentos e da liderança – e ganhou dinheiro

 

Ele tinha 27 anos. Estava em Lisboa, no início do Verão e defeso de 1997, a deitar contas à vida. Um contrato com os Bolton Wanderers era a melhor hipótese que tinha em cima da mesa para prosseguir a carreira de futebolista profissional. Mas torcia o nariz a regressar à Inglaterra fria e cinzenta, onde tinha passado a última época, meio deprimido, envergando a camisola às riscas verticais âmbar e clarete do Bradford City.

Uma luz de esperança luziu ao fundo do túnel com um telefonema de Delane Vieira, anunciando-lhe que o dr. Antônio Pithon,  cartola do Bahia e dono de 13 salas de cinema, queria falar com ele e o receberia no dia seguinte no lóbi do Hotel Lisboa, na Barata Salgueiro.

A conversa correu bem e, no final, o acordo ficou selado com um vigoroso aperto de mão. Na época seguinte, Jorge Silva representaria o Esporte Clube Bahia com um contrato generoso (falou-se em mais de 200 mil reais/ano).

A notícia correu rápido pela cidade até à Redacção da RTP na 5 de Outubro e teve honras de Telejornal das oito da noite, porque José Rodrigues dos Santos achou que um clube brasileiro contratar um futebolista português configurava a situação do homem que mordeu o cão - sendo que o desembarque na costa portuguesa de mais um contingente de futebolistas brasileiros equivale ao cão que morde o homem.

Como os pais nem sequer sabiam que ele estava em Portugal julgavam-no ainda em Yorkshire), Jorge telefonou-lhes para Guimarães, a avisar de que ia jogar para o Brasil – e para estarem atentos ao Telejornal da RTP, que a irmã, que tem um quiosque, gravou.

Voou para o outro lado do Atlântico, onde logo à chegada constatou duas coisas. Para começar, ficou de boca aberta com a qualidade das instalações do clube (cinco campos relvados, dois centros de estágio e até capela…) e com a recepção que lhe foi dispensada: mal aterrou, deu logo uma conferência de imprensa com a presença de cerca de cem jornalistas. Depois reparou que a sua contratação despertava alguma desconfiança, sentimento agravado pela demora da chegada do seu certificado internacional, um quid pro quo que para ser ultrapassado exigiu a intervenção pessoal de João Havelange.

“No Brasil, há muita cobrança da imprensa. Durante a primeira semana em que estive lá, publicaram os meus relatórios de treino. Nunca vi uma coisa assim. A assistência média nos jogos era de 43 mil pessoas, a maior do Brasileirão. Nos treinos era normal estarem dez mil pessoas a assistir na bancada. E derby com o Vitória, o célebre Ba-Vi, é uma loucura total com 116 mil pessoas a verem!”, recorda.

O treinador do Bahia era o dr Geninho, que uma década atrás tinha estado no comando do Vitória de Guimarães (mais tarde seria substituído por Jair Pereira, vindo do Atlético de Madrid) e plantel estavam dois jogadores que viriam a serem campeões de Portugal pelo Boavista como o guarda redes William Andem e o avançado Demetrius.

Como “Jorgisilvá” não era assim tão fácil de pronunciar, passou a ser conhecido como o Portuga. Foi apresentado à torcida num jogo, na Fonte Nova, em que o Bahia derrotou por 1-0 (um petardo do meio da rua de Lima que Dida não conseguiu deter) o Flamengo de Petkovic, Sávio e Romário,. Teve uma estreia auspiciosa num particular contra uma selecção estadual, em que a sua equipa ganhou 2-1 e ele apontou o primeiro golo e fez a assistência para o segundo.

“Não se pode singrar no Brasil se se não tiver técnica. E é indispensável cair bem na torcida e imprensa”, resume Jorge Silva, que após um ano de experiência brasileira regressou a Inglaterra. Instalou-se no Holiday Inn Crowne Plaza de Manchester, cumpriu o mês e meio do contrato de namoro assinado com o City e no final não chegou a ir ao altar.

“Sentia-me o cidadão mais infeliz do Mundo. Manchester é uma cidade crua, cinzenta e carregada. Eu estava nostálgico, cheio de saudades dos amigos, da família e de Guimarães. Ainda tive propostas do Felgueiras e da Académica, mas tomei a decisão de minha vida. Arrumei as chuteiras e investi no Jorge Silva Cabeleireiros. Tinha 28 anos e pensei que quanto mais tarde começasse o meu projecto profissional mais tempo demoraria a consolidá-lo”, explica.

Os cabelos são um negócio de família. Manuel, pai de Jorge, além de um grande guitarrista e fadista, é dono do Salão Londres. “Não é barbeiro. Barbeiro tem uma conotação agressiva e negativa. É um cabeleireiro de homens”, precisa o filho que aprendeu ao mesmo tempo a manejar a tesoura e a bola.

Lá em casa são todos sócios do Vitória (“Em Guimarães só há um clube!”) e ele ainda andava na primária das Piscinas e já não perdia um jogo no Afonso Henriques. A mais forte e antiga recordação foi a de ter ganho uma vez o sorteio da bola do jogo.

Jorge brinca, dizendo que começou a jogar futebol na barriga da mãe, mas a verdade é que ela só meio ano depois soube que ele tinha começado a jogar nos juniores do Vitória. Às escondidas da mulher, que temia que a bola prejudicasse os estudos, o pai apresentou-o, aos dez anos, a Valdemar Custódio, o treinador dos miúdos, que ainda antes de ver como ele tratava a bola,  logo disparou: “Se fores tão bom como o teu pai tens condições para triunfar”.

O pai jogara a extremo esquerdo, na formação do Vitória. O filho manteve-se no flanco esquerdo, mas em posições mais recuadas, a médio ala ou a defesa lateral. Atravessou a adolescência com três ocupações: estudar na ES João de Meira, jogar no Vitória e ajudar o pai, em troco de uma mesada, no Salão Londres.

Começou a fazer cortes sozinho aos 13 anos. “Já tinha o bacharelato”, graceja. À época o corte de cabelo preferido era à Paulinho Cascavel, mais curto à frente do que atrás. “O Paulinho é uma das grandes bandeiras do Vitória. É a minha primeira referência. Era o meu ídolo”, diz Jorge Silva, que no seu posto admirava Maldini e Javier Zanetti: “Tudo o que fazem, fazem bem. Já os viu alguma vez fazerem alguma coisa mal?”.

Jorge Silva é um homem que gosta de fixar objectivos. O primeiro foi o de comprar um carro mal fizesse 18 anos. Poupou as mesadas dos cortes de cabelo e o dinheiro dos prémios de jogos e, mal atingiu a maioridade, lá estava ele ao volante de um Fiat Uno.

No último ano da formação, foi vice-campeão nacional de juniores, apenas perdendo para o Benfica, onde despontavam Gil e Paulo Sousa. Na passagem a sénior, fase difícil e ainda por cima tumultuada por uma entorse, teve de dizer adeus à camisola branca do Vitória, mas ainda recorda com saudade o então responsável pela formação do clube: “Manuel Machado marcou-me muito, como pessoa e treinador. É um grande senhor, muito determinado e educado, que sabe pensar no amanhã”.

Apesar de alinhar a defesa esquerdo, foi o segundo melhor marcador do Celoricense, na época de estreia como sénior, na III Divisão Nacional. “Subia bastante e batia muitas bolas paradas”, explica. Ao final da segunda época foi chamado para a tropa (que cumpriu entre Infantaria 13, em Vila Real, e a Casa de Reclusão, no Porto, onde foi distinguido com medalhas de que se orgulha) e transferiu-se para o Ronfe, que estava na I Distrital de Braga, mas subiu logo ganhando o campeonato sem perder um jogo.  “A cinco jornadas do fim já éramos campeões”.

Sempre a trabalhar no Salão Londres, e atento à evolução das tendências em penteados e imagem, jogou uma época no Penafiel, na Divisão de Honra, e outra no Freamunde, na II B, antes de fazer as malas e partir para Inglaterra, levando na bagagem um contrato do Bradford City (onde foi colega de Chris Waddle, já no ocaso da sua carreira).

A aterragem não foi fácil. Custou-lhe muito, quer a ele quer ao outro português do plantel dos The Bantams (Sérgio Pinto, irmão de João Vieira Pinto), a adaptação a um país e uma cultura diferentes. “O primeiro choque? O pequeno almoço. O segundo choque foi o almoço e o terceiro foi o jantar”, conta Jorge, que estranhou os ovos e o cheiro a fritos do pequeno almoço, o frio que fazia - e o facto de às cinco da noite já estar tudo metido em casa. Era tudo diferente, até o futebol, que não era “o toca e vai buscar à frente” a que ele estava habituado, mas um jogo muito mais directo, de pontapé para a frente.

Os anos em Inglaterra e no Brasil foram sabáticos na profissão de cabeleireiro, em que praticou apenas nele próprio, cortando o seu cabelo em frente ao espelho.

Quando pendurou as botas e decidiu abrir na Santa Luzia, bem no centro de Guimarães, o salão Jorge Silva Cabeleireiros, que inovou por ser duplamente misto (clientela e empregados), o pai ficou um bocado triste por ele não ir trabalhar com ele. “Tenho uma relação fortíssima com o meu pai, mas precisava de provar que era capaz de fazer o meu caminho”, explica.

Durante dez anos amadureceu, organizou eventos, trabalhou com nomes grandes da moda com Jean Paul Gautier, e decidiu dar um novo salto em frente investindo num novo espaço e conceito. Localizado na avenida Conde Margaride, o Jorge Silva Hair Concept é um espaço zen (assinado pela dupla de arquitectos Miguel Diogo/Artur Alves) , onde a clientela vai tratar da sua imagem – cortar o cabelo mas e/ou também fazer uma massagem. “Gostar de nós é o principio de um sentimento com reflexo nos outros” é o lema de Jorge que trouxe do futebol para o seu negócio duas grandes lições: a importância dos relacionamentos e da liderança.

“Um bom treinador é o que é admirado e respeitado pelos seus jogadores. Eu não quero que as minhas funcionárias me temam, mas que me admirem e respeitem”, explica Jorge Silva, um apaixonado por velocidade (tem uma Ducati Super Bike 1089), que usa um corte de cabelo que ele próprio descreve como “um trabalho picotado com linhas de texturização acentuadas”.

 “A moda é uma quebra da rotina Vou mudando ligeiramente o meu penteado, pois quando inventamos muito arriscamo-nos a ficar ridículos”, concluiu.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada hoje em O Jogo

Michael DaCosta Babb

Keynes, que nestes tempos terríveis anda na boca de toda a gente, avisou-nos que a dificuldade não está nas ideias novas, mas sim em escapar das velhas, um ensinamento que tem sido o alfa e o ómega da actividade do seu compatriota Michael DaCosta Babb.

Um das ideias velhas de que Michael está a tentar escapar é a de que para termos uma casa para viver e trabalhar só há duas hipóteses: comprar ou alugar. Se for criativo e tiver vontade de habitar no centro histórico do Porto vi haver uma alternativa: um regime de propriedade conjunta. Escolhe um andar na Baixa, recuperado pela SRU Porto Vivo, paga metade, enquanto que os outros 50% são adquiridos por um fundo sem fins lucrativos, que lhe cobrará uma pequena renda. Fica dono de meia casa, mas com o seu usufruto a 100%.

Michael não é promotor imobiliário, mas sim o director executivo da ADDICT, e o que pretende com esta ideia meia nova e meia velha (inspira-se no share ownership inventado em Inglaterra para facilitar a compra de casa no centro por key workers, de rendimento curto, como enfermeiros, polícias ou bombeiros) é ajudar a repovoar a Baixa e fazer um caldo de cultura onde floresçam as indústrias criativas.

ADDICT são as iniciais porque responde a Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas, sector que entrou na moda após Cavaco, no discurso do 25 de Abril, ter anunciando que é ele a tabu de salvação a que o Porto se deve agarrar para evitar o naufrágio.

Viciado em criatividade, Michael é um inglês que nasceu e cresceu no Norte de Londres, filhos de um casal oriundo de Barbados (ela enfermeira, ele carteiro) , que se licenciou em Francês e depois de ter começado a trabalhar na City Limits (uma tentativa falhada de fazer concorrência à Time Out), vendendo publicidade e editando a secção de Moda, tirou o MBA em indústrias criativas na London School of Printing.

A maneira curiosa como se estreou no mercado de trabalho, escrevendo sobre moda ao mesmo tempo que procurava parcerias com anunciantes que assegurassem a sustentabilidade da publicação, ensinou-lhe para a vida a pragmática lição de que criar é precioso - mas arranjar dinheiro também.

Surfou em cima da onda das indústrias criativas, onde ganhou fama e notoriedade como Mr. Fix, o tipo que resolve, faz as coisas acontecerem e tem sempre na agenda do telemóvel o contacto certo a fazer para desatar um nó de marinheiro. O que o trouxe para o Porto? Cherchez la femme. Em Londres apaixonou-se pela portuguesa Eva e quando os frutos dessa paixão (Tiago, oito anos, e Matilde, quatro) começaram a crescer mudaram todos para cá.

Michael voltou a apaixonar-se à primeira vista, desta vez pelo país da mulher, mas a isso ajudou muito o facto de ter desembarcado cá nas vésperas do Euro 2004, com uma bandeirinha em cada janela e as ruas cheias de pessoal feliz. “Para uma pessoa do meu milieu, o Porto tem uma qualidade de vida superior à de Londres. A vida é calma, clima óptimo e as pessoas gostam muito de crianças”, explica, enquanto arrisca experimentar uma tibornada de bacalhau no Vinha d’ Alho, que fica na Ribeira, na porta ao lado da sede da ADDICT, com uma esplanada mesmo em cima do Douro.

“Vocês são muito modestos, o que até é bom, mas convém não exagerar. Se o Siza fosse espanhol, eles estavam a espalhar aos quatro ventos que tinham o melhor arquitecto do Mundo. Aqui, ninguém liga muito a isso. Os portugueses são demasiado relaxados para se gabarem. É preciso aumentar o volume” explica num inglês cool.

“Londres, Paris e Nova Iorque, são cidades fáceis de gostar à primeira. O Porto é para um relacionamento mais duradouro. As pessoas também são assim, não dizem que são best friend ao fim dez minutos de conversa. Demora-se mais tempo até conhecer a pessoa certa”, analisa Michael, que mantém o amor pelo país, apesar da paixão por Eva já ter desaparecido (agra está com uma polaca de Lodz).  “Em Portugal não é preciso inventar coisas boas para vender. Elas existem mesmo. Há coisas óptimas a acontecerem. O PR tem razão. Porto tem todo o potencial para ser o centro de gravidade do cluster criativo” concluiu.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

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Vinhas d’Alho

Rua dos Bacalhoeiros 139-140, Porto

2 Menu executivo

Sopa de legumes

Tibornada de bacalhau

Pudim de manjericão …. 27,00

2 copos Arrojo 04 tinto Douro … 6,50

1 Vitalis 1 lt …2,00

2 cafés … oferta

Total… 35,50

 

Curiosidades:

Michael trabalhou muitos anos na publicidade. Uma das campanhas que mais o impressionou foi uma acção de marketing de guerrilha, que consistiu em colar o símbolo da Nike em todos os semáforos de Londres

Em Portugal, Michael colaborou com a Experimenta Design e adorou trabalhar com Guta Moura Guedes

Uma das sugestões do inglês é acrescentarmos a gastronomia, o bem estar e o turismo ao conceito tradicional de indústrias criativas que alberga disciplinas tão variadas como moda, publicidade, videojogos, design, media, software, música, antiguidades, etc, etc. 

A anacrónica idiotice da Queima das Fitas

Como o golfe ainda não tinha atingido entre nós os actuais níveis de popularidade, bombardeei com ovos e tomates podres o cortejo de gatos pingados que, há coisa de 30 anos, desfilava junto à Cordoaria, no Porto, na tentativa (que se viria a ser bem sucedida) de ressuscitar a Queima das Fitas, que os estudantes de Coimbra tinham feito o favor de enterrar com a crise académica de 69.

Não me arrependo, nem mudei de opinião. Continua a achar uma rematada e anacrónica idiotice os cortejos da Queima, bem como o essencial da parafernália que envolve esta liturgia, como os trajos académicos, praxes e bênção de pastas. Excluo desta consideração tudo quanto diga respeito a concertos, copos e etc, que só podem merecer o meu elogio, pois esta vida são dois dias e a estudantada que anda para aí com as hormonas ao saltos tem todo o dever de se divertir e aliviar as tensões, pois os exames vêm aí e, como recomendava Wilhelm Reich, no indispensável “Combate Sexual da Juventude”, três quecas por semana são o mínimo para levar uma vida saudável.

Mas como já não tenho nem idade nem pachorra para atirar bolas de golfe, isqueiros ou telemóveis ao cortejo (para corresponder com alguma modernidade ao arcaísmo bafiento da coisa), arremesso uma história a essa tropa que ainda não arranjou tempo, capacidade ou espelho para ver a figura grotesca que anda a fazer.

Vicky Harrison, inglesa de 21anos, já cá não estava quando soube dela e por que é que a sua travessia da vida foi tão curta e dramaticamente abreviada. Na foto, publicada neste jornal, aparecia de cabelos louros e a cara aberta num luminoso sorriso - ambos, sorriso e cor dos cabelos, com aspecto de genuínos. Mal concluiu a formação em Som e Imagem, desatou a procurar emprego, acompanhando de telefonemas os curriculos que enviou para tudo quanto era produtora de televisão. Ninguém lhe escreveu ou telefonou de volta, mas ela não desanimou. Baixou de exigência e candidatou-se a empregos de repositora de supermercado e balconista de loja.

Ao cabo de dois anos e mais de 200 candidaturas sem o telemóvel e as caixas de correio (electrónica e tradicional) lhe trazerem boas notícias, Vicky desistiu. Engoliu os comprimidos todos que encontrou em casa e partiu.

Num país como o nosso, em que só não é universitário quem não quer, há 44 mil licenciados sem trabalho, a taxa de desemprego jovem atingiu os 20%, e ter um canudo já não é mais sinónimo de esperança de uma vida desafogada, andar pelas ruas a pavonear-se em trajo académico é tão trágico-cómico como a orquestra ter continuado a tocar após o Titanic ter chocado com o iceberg.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

Kamal Rajani

De origem indiana, nasceu em Lourenço Marques, estudou em Londres e nos Estados Unidos, mas apesar de ser fluente em gajurati chegou aos 50 anos sem ainda ter ido à Índia. A flecha de Cupido interrompeu-lhe a meio o curso de Medicina Dentária, que estava a fazer na Universidade de Indiana, e levou-a a deitar âncora no Porto, onde abriu o Mendi, o restaurante preferido dos indianos, depois do negócio de pronto a vestir da família ter soçobrado vítima de desinteligência internas e da concorrência dos espanhóis da Zara

 

Nome:  Kamal Rajani

Idade: 50 anos

O que faz:  proprietário do restaurante Mendi

Formação:  Frequência do curso de Medicina Dentária

Família:  Casado, tem duas filhas: Mafalda, 22 anos, que estudou Gestão e Turismo, e Mafalda, 16

Casa:  Apartamento na rua do Campo Alegre (Porto)

Carro: Toyota Avensis

Telemóvel:  Nokia 6000

Portátil: Toshiba

Hóbis: Tem poucos. Gosto muito de andar a pé e aos domingos adora dar grandes caminhadas, à beira rio e mar, desde Massarelos até à frente marítima do Parque da Cidade. Também gosta de comer, beber e conviver, à volta da mesa, com familiares e amigos

Golpe: Como todos os donos de restaurantes, Kamal colecciona histórias de pequenos furtos (“até rolos de papel higiénico já foram roubados da casa de banho”, conta) e golpes clássicos, mas que nem por isso deixam de ser bem sucedidos, como o daquele cavalheiro bem posto que ao jantar se instalou sozinho numa mesa, encomendou uma garrafa de vinho caro, experimentou vários pratos, e no final, depois de pedir a conta, comunicou-lhe, com um ar muito atrapalhado, que se esquecera da carteira e por isso tinha de ir buscá-la, mas fazia questão de deixar o telemóvel e a chave de casa como garantia. Até hoje. Nunca mais apareceu. O telemóvel era um chaço e a chave provavelmente nem era dele

Férias:  No Verão, têm o hábito de partir para sul e fazerem 15 dias de sol e praia. Primeiro iam para a Andaluzia, mas ultimamente têm preferido a zona do Carvoeiro, no Algarve. Na Pascoa foram passar um fim de semana prolongado a Londres

Regra de ouro: Viver dia por dia, estar bem com todas e ter paciência

 

Foi apenas por delicadeza que o administrador da Efacec perguntou aos empresários indianos, em visita de trabalho ao Porto, se achavam bem jantarem numa marisqueira de Matosinhos. A sua ideia era proporcionar-lhes uma memorável refeição de boas vindas. Ficou espantado quando os convidados lhe propuseram ir ao Mendi, de que tinham ouvido falar muito bem.

O melhor cartão de visita do Mendi é ser o restaurante favorito dos indianos, o que não deixa de ser curioso pois Kamal nunca esteve na Índia. Nasceu em Lourenço Marques, mas como as suas raízes familiares mergulham no Gujarat (estado natal do Mahatama Ghandi), ele é fluente em gurajati – e também em inglês, porque quando veio de Moçambique, em 1974, com cinco anos, foi para Londres, onde ficou a cargo de um cunhado do tio que estava lá a estudar para ROC (revisor oficial de contas).

Só sabia dizer yes e no, mas rapidamente aprendeu o inglês numa escola pública, em Chelsea, de onde foi transferido para um colégio interno, que ficava a hora e meia de comboio da estação de Charing Cross. A mudança deu-se após chegaram aos ouvidos da família os ecos de rebaldaria reinante na sua primeira escola inglesa, onde não era anormal os alunos molestarem os professores e improvisarem recintos desportivos no interior das salas de aulas. O internato estava no pólo oposto. A disciplina era férrea, tinha de andar sempre de fato e gravata, e como a água era racionada, só podia tomar banho duas vezes por semana.

Atravessou o Atlântico quando chegou a hora de ir para a faculdade, inscrevendo-se em Medicina Dentária, em Indiana (EUA). Viveu dois anos de excelente memória no campus universitário (onde o seu caril de batatas rapidamente se tornou célebre) até que Cupido se intrometeu entre ele e o consultório de dentista.

Em 1980, passava as  férias de Verão ao Porto, onde a família se tinha estabelecido com uma rede de lojas de pronto a vestir, quando se interessou por uma rapariga. Começaram a falar-se, palavra puxa palavra, e com base na descoberta da extraordinária coincidência de que ele fazia anos a 18 de Julho e ela a 19, Kamal deu um grande em frente e convidou-a para comemorem os anos juntos num jantar tête à tête, no romântico restaurante da Boa Nova, em Leça, à beira do mar e desenhado por Siza Vieira.

Como é bom de ver, não mais regressou aos Estados Unidos. Ficou a trabalhar na área de contabilidade das lojas, casou, teve duas filhas e ambos foram muito felizes até que em 1996, o negócio da família soçobrou, vitima de desinteligências internas e da concorrência agressiva dos espanhóis da Zara.

Com 37 anos, casado, com duas filhas, e desempregado, Kamal deixou sair o bichinho da gastronomia que tinha dentro de si e arriscou abrir um indiano no local que tinha sido uma steak house onde ele, uma dúzia de anos atrás, no final de um jantar, confidenciou à mulher: “Se alguma vez tiver um restaurante, será deste tamanho”.  O sonho cumpriu-se a 5 de Fevereiro de 1997, quando inaugurou o Mendi com uma jantar reservado a amigos e conhecidos. Apesar de não ter feito publicidade, no dia a seguir ao almoço tinha metade dos 40 lugares ocupados. E ao jantar a casa estava cheia. Agora, 13 anos volvidos, Kamal tem a certeza que acertou quando escolheu a palavra Mendi – que em gujarati significa sorte, pureza e alegria – para baptizar o seu restaurante.

 

Jorge Fiel

Este perfil foi publicado na rubrica Emergentes do Diário de Notícias

 

 

Ulisses Ferreira dos Santos

 

Ulisses Ferreira dos Santos, 36 anos, é um agente FIFA e um dos donos da Sportis, empresa que organiza o World Bike Tour, que nasceu em Portugal mas alargou os seus tentáculos a Madrid,  São Paulo, Paris e Nova Iorque.  Cresceu em França, onde o pai, pedreiro, esteve emigrado, mas foi cá em Portugal que revelou a sua queda para os negócios arranjando maneira de ficar sempre a ganhar na troca de cromos de futebolistas com os colegas da Secundária de Ilhavo. Como jogador, nas camadas jovens no GD da Gafanha ou nos seniores do Benfica da Gafanha, nunca atingiu o nível que justificasse fazerem um cromo dele. Foi a transaccionar cromos de carne e osso que atingiu o sucesso

 

Tal como nove em cada dez rapazes, sonhou ser piloto de aviões, mas o mais perto que andou do que faz agora, que é grande, foi quando na Escola Secundária de Ilhavo, em meados dos anos 80, começou a evidenciar jeito para o negócio ao arranjar sempre maneira de ficar a ganhar nas transacções de cromos que fazia no recreio com os colegas.

Talvez algum scout, que presenciasse a maestria com que trocava e vendia cromos de Platini, Tigana ou Laurent Blanc, da caderneta do Euro 1984, ou Fernando Gomes, Madjer ou Rui Águas, da caderneta do Nacional de futebol 86/87, pudesse identificar naquelas capacidades do miúdo o potencial para mais tarde, já na idade adulta, ganhar a vida a transaccionar jogadores de futebol de carne e osso – e não apenas fotografias coloridas impressas em pequenos rectângulos de papel.

Ulisses jogou futebol a nível federado mas nunca atingiu um nível que lhe permitisse entrar ele próprio numa colecção de cromos. “Desde miúdo que percebi que não tinha qualidade suficiente ser um futebolista famoso”, reconhece.

O rugby foi a primeira modalidade que praticou, quando emergiu do analfabetismo em francês, numa escola primária em Amiens, para onde os pais tinham emigrado. O pai trabalhou nas obras, como maçon (pedreiro), o que era duro nos Invernos gelados em que o termómetro acusava temperaturas negativas. A mãe, doméstica, tratava em casa dos três filhos e inibia o marido de se aventurar a voos mais altos.

“O lado comercial herdei-o do meu pai, que sempre quis arriscar para subir na vida, mas a minha mãe sempre lhe cortou as ambições. Ele queria abrir um restaurante e ela desincentivou-o, pois foi sempre do género se tiveres dez guarda dez, se tiveres doze poupa os doze. Quando voltaram, ele investiu em dois terrenos na Gafanha. Estou convencido que com esse negócio dos terrenos ganhou mais dinheiro do que no tempo todo em que esteve em França”, conta.

Tinha dez anos quando os pais regressaram à Gafanha, deixando para trás Amiens. O clima era melhor. A língua era diferente  - como falava em francês com os irmãos e fizera a primária lá, demorou um ano a aprender a escrever e a expressar-se correctamente em português, antes de poder prosseguir os estudos. O frigorífico passou a estar menos recheado quer em quantidade, quer em qualidade – “havia muito menos variedades de iogurtes”. E a assistência médica era muito pior: “Lá quando tinha febre o médico ia a nossa casa. Cá parece que tínhamos planear estar doentes, tão difícil que era marcar uma consulta no Centro de Saúde”. 

Na sua escola primária, em Amiens, havia um enorme campo relvado de rugby, que era o desporto preferido da generalidade da ganapada. Ele jogava com a bola em formato de melão mas a simpatia ia para a bola redonda, torcendo (sem saber bem porquê) pelo Saint Etiénne e tendo como ídolo o Platini.

No cimento de recreio da Secundária de Ilhavo deve ter demonstrado algum talento para o futebol, pois em 1976, com 13 anos, foi chamado a alinhar nos iniciados do Grupo Desportivo da Gafanha (“Já andou na II Nacional, mas agora está na I Distrital. O equipamento é todo azul escuro, tipo Bordéus”), onde jogou duas épocas a ponta de lança.

Tinha 15 anos quando decidiu correr a Meia Maratona da Barra. Ficou tão entusiasmado por ter chegado entre os primeiros, apesar de apenas ter treinado nos dois dias anteriores à prova, que trocou o futebol pela nova paixão  -  a corrida.

Como atleta do Colónia Agrícola, especializou-se em provas de fundo, estrada e corta-mato. Durante quatro anos, até atingir a idade de sénior, conseguiu vários pódios nos Nacionais de corta-mato por equipas, tentou os 10 mil metros em pista e correu mais de 20 Meias Maratonas, com marcas interessantes como a 1h20m conseguida em 90 na Meia Maratona de Cortegaça.

Gostou muito do atletismo, de onde trouxe a ideia da Sportis, bem como o sócio (Diamantino Nunes) e os contactos que lhe permitiram pôr de pé a empresa e fazer com que ela fosse bem sucedida. Mas a necessidade de ganhar obrigou-o abandonar esta modalidade, em que podia ter-se distinguido, no momento em que ela passou a ser mais exigente em tempo e treinos, regressando ao futebol, onde jogou durante quatro épocas, como sénior, pelo outro clube da sua terra, o Sport Benfica e Gafanha, que militava  na II Distrital de Aveiro.

O trabalho nunca o atrapalhou. Nos últimos anos do secundário, ganhava uns contos de reis nas férias grandes, ajudando a descarregar os bacalhoeiros. Mais tarde, arranjou o primeiro emprego fixo numa loja de revestimentos interiores, na Gafanha, onde além de vendedor fazia também orçamentos de aplicações de estores ou persianas.

Como é ambicioso e não queria passar o resto da vida a vender cadeiras, no final do secundário fez um curso de director comercial no CESAI e com apenas 21 anos decidiu arriscar meter ombros à empresa de organizar a Meia Maratona da Rota da Luz, uma aposta que se revelou ainda melhor  que um 13 no Totobola.

As coisas não podiam ter corrido melhor. Carlos Móia, do Maratona Clube de Portugal, contactou-o mal soube dessa iniciativa e propôs-lhe juntar  Taça dos Clubes Campeões Europeus de Estrada à prova que ele estava a organizar. Tudo isto era música para os ouvidos de Ulisses. A prova foi transmitida pela RTP e coberta por um batalhão de jornalistas estrangeiros, em particular espanhóis e italianos.

Embalado por este êxito, Ulisses fundou, em 1995, como o seu amigo Diamantino, a Sportis, para organizar e rentabilizar comercialmente eventos desportivos. Em cima do estrondoso sucesso da Meia Maratona da Rota da Luz, negociaram com a Federação Portuguesa de Atletismo os direitos de publicidade nos Nacionais de Corta Mato.

A Sportis está nas duas meias Maratonas corridas em Lisboa – a de Portugal (ponte Vasco da Gama) e a de Lisboa (ponte 25 de Abril) – como organizadora das provas paralelas e prestadora de serviços. E, na sequência de um acordo com o Ministério da Educação, uniformizou as provas regionais de corta mato do desporto escolar, escolhendo percursos e definindo um calendário.

Com a sede num distrito como o de Aveiro, é natural que o basquetebol fosse a segunda modalidade em que investiram, inovando ao organizar duas edições de um inédito Mundialito de basquete de praia.

Como é natural, nos 14 anos de vida da Sportis não há apenas Aljubarrotas. Também se devem registar alguns Alcaceres Quibires, como a loja de artigo de desportos que não aguentou a concorrência da SportZone ou os 200 mil euros de prejuízo acumulados na época (2003/04) em que acordaram com Luís Filipe Vieira gerirem o basquetebol do Benfica.

“Não se perdeu tudo. Ficamos com boas relações com o clube. Somos nós que organizamos a Corrida do Benfica”, ameniza Ulisses, que deixou de jogar futebol com 25 anos (curiosamente na época em que o Benfica da Gafanha subiu à I Distrital), quando acrescentou o agenciamento de futebolistas ao rol de actividades da Sportis: “Deixei de ter os fins de semana livres para jogar, pois tinha de estar noutros campos e na bancada, a observar jogadores”.

As mais lucrativas e vistosas actividades da Sportis são as mais recentes: a representação de jogadores, área que se intensificou desde que em 2005 Ulisses se tornou agente FIFA, e o Bike Tour, iniciativa que apesar de ir apenas no seu quarto ano de vida já ganhou dimensão mundial, com etapas em S. Paulo, Paris, Madrid e Lisboa. A próxima escala é Nova Iorque.

“O projecto nasceu da necessidade, sentida em conversas com o Instituto da Droga e Toxicodependência, de promover estilos de vida saudáveis e contrariar todo o tipo de dependências. Começamos cá. Em 2008 fomos para Madrid, no ano passado para São Paulo, e a iniciativa passou a ser  internacional. Deixou de ser o Bike Tour do Porto, para passar a ser o World Bike Tour que se realiza em diferentes cidades” explica.

Mais de 80 mil pessoas já pedalaram nos Bike Tours organizados pela Sportis, que tem um orçamento de dois milhões de euros para cada prova e já registou a marca que está a estender a outros produtos, como o My Bike Tour Card que vai lançar no Brasil, em que se acumulam pontos, sempre que o seu utente usa uma ciclovia em S.Paulo, reforçando as hipóteses no sorteio de  50 viagens, com tudo pago, para participar num dos bike tours europeus.

Para se ter uma ideia do impacto que esta iniciativa está a ter no Brasil, basta dizer que esgotaram em 37 minutos as seis mil inscrições abertas, na Internet,  para o World Bike Tour S.Paulo 2010, e que as 500 inscrições extra, postas a sorteio, receberam 100 mil candidaturas.

O sucesso dos Bike Tours é enorme, ao ponto ter obrigado a Sportis a comprar uma fábrica de bicicletas, mas os olhos de Ulisses brilham mais quando fala da sua actividade como empresário de futebolistas.

Na sua caderneta de cromos de carne e osso tem 22 jogadores e já leva no curriculum a transferência do lateral esquerdo internacional brasileiro Adriano, do Curitiba para o Sevilha, bem como a do defesa direito Nelson (ex-Benfica) para o Bétis, de Gillas do Celta para o Hull City, e de Edinho do Málaga para o PAOK – além de ter trazido Linz, Peter Jehle e Kaz para o Boavista e ter colocado Elano no Shaktior Donetz.

Emídio Rafael, o defesa esquerdo da Académica, é a resposta que dá quando lhe perguntamos qual vai ser a próxima grande transferência  em que vai estar envolvido. Estou convencido que não vai demorar muito até ele estar num grande e na Selecção A”, vaticina, antes de detalhar a operação, de contornos quase militares, em que colaborou com Jorge Mendes, quando Rodrigo Tello trocou o Sporting pelo Besiktas.

“O muito que aprendi nos anos que joguei no Benfica e no Grupo Desportivo da Gafanha tem sido muito útil na minha actividade como empresário. Sei ver as coisas por dentro, como é que um futebolista encara os treinos, os jogos e o treinador. O balneário é igual em todas as divisões”, concluiu Ulisses Ferreira dos Santos.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

Luis Veiga Martins

Não é fácil adivinhar qual o futuro das duas garrafas PET, de meio litro cada, que continham a água que acompanhou o nosso almoço de bacalhau à Brás no restaurante em frente à igreja da Cruz Quebrada, que o Luís usa no dia a dia como cantina, pois fica perto da sede da Sociedade Ponto Verde (SPV), onde dirige as 46 pessoas que trabalham na gestão do processo de recolha e reciclagem de 600 milhões de toneladas/ano de embalagens que para o lixo.

Se as duas garrafas de plástico integrarem o contingente das 61 mil toneladas que são anualmente recicladas, podem muito bem ressuscitar como novas garrafas PET (sabe-se lá se até na versão de 1,5 litros, pois as empresas estão a investir fortemente na redução do peso das embalagens, para pouparem dinheiro e o ambiente) ou assumir uma segunda vida sob a forma de fibras de poliester do casaco polar que nos vai aquecer no próximo Inverno.

Economista, com o curso e MBA em Marketing feitos na Católica, Luis Veiga Martins, 44 anos, passou pela Unissys, um banco estrangeiro (que prefere não nomear), Papéis Inapa e Portucel/Soporcel antes de, em Novembro de 2005, aceitar o desafio de atingir, até ao final de 2011, a meta de reciclar 55% do total das embalagens declaradas (1,1 milhões/ano), que Portugal prometeu a Bruxelas cumprir.

“Estamos muito próximo. Já vamos nos 53%”, garante Luís, reconhecendo que antes de aterrar na Ponto Verde era um “separador parcial”, que se limitava a meter os jornais velhos no ecoponto azul e as garrafas no amarelo. Comprou então um ecoponto doméstico e passou a ser um “separador total”, que confessa ter ficado com a rapidez com que enche o contentor amarelo – para onde vão os pacotes de leite e sumos, as embalagens de iogurtes, caricas, latas de conserva, sacos de plástico e aerossóis, entre outras coisas.

A nossa consciência recicladora não pára de aumentar. Entre 2007 e 2009, a percentagem de portugueses separadores totais quase triplicou, subindo de 12 para 34%, de acordo com um inquérito promovido pela SPV, que não se limita a fazer fé no que as pessoas dizem – também vai lá a casa inspeccionar o caixote do lixo, para ver se há alguma embalagem perdia no meio do lixo indiferenciado.

“Há 30 mil ecopontos espalhados pelo país – o dobro dos multibanco”, informa o director geral da SPV, para ajudar a explicar como é simples tornar-se separador total, e chamando a atenção para à elevação da nossa consciência recicladora não ser estranho o lóbi das crianças, “que além de serem as recicladoras do amanhã são já hoje a disciplinadoras dos pais”.

Nós, portugueses, produzimos cinco milhões de toneladas de lixo/ano (cerca de 500 kg por pessoa) das quais 1,5 milhões são embalagens que estão no centro da preocupação de Luís.

Criada em 1996, a SPV gere todo o processo que vai desde o momento em que deitamos ao lixo uma lata de conserva até ela ser reciclada em matéria prima para um bicicleta ou um pára choques.

Com um orçamento anual de 80 milhões de euros, financiado pelas empresas em proporção do peso total das embalagens que vendem (o que faz das duas cervejeiras as maiores contribuintes), a Ponto Verde paga ao 29 sistemas inter-municipais que fazem a recolha selectiva do lixo em mais de 99% de todo o território nacional.

Depois, trata de colocar no mercado o lixo separado, como matéria prima secundária, sujeitando-se aos caprichos da lei da oferta e da procura. Em Outubro de 2008, no espaço de 15 dais, a cotação da tonelada de papel para reciclar despenhou-se de 70 para seis euros. E há casos em que tem de pagar para lhe ficarem com o lixo, como quando se trata das embalagens de cartão para alimentos líquidos (vulgarmente designadas Tetra Pak) – a SPV paga em média 40 euros pró toneladas para se livrar delas.

Na praia dos Pescadores, em Cascais, os bancos, passadiços e suportes de chapéus de sol parecem de madeira, mas são efectivamente são feitos de plástico, fabricado a partir de lixo, como sacos de batata frita que a SPV paga 150 a toneladas para o fabricante ficar com eles.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

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O Caçador

Rua Bento Jesus Caraça 6, Cruz Quebrada

Pão … 0,80

Queijo … 6,00

Azeitonas … 0,60

Salada de polvo … 5,00

2 águas 0,5 l … 2,00

Bacalhau à Brás  ... 20,00

Melão … 3,00

2 cafés … 1,40

Total… 38,80 

 

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