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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Não há estrelas no céu

O meu filho Pedro estuda Astronomia. Quando era miúdo também me passou pela cabeça estudar as estrelas, mas desisti da ideia mal um professor me explicou que, quando olhava para o céu, não estava a ver as estrelas actuais mas sim uma luz gerada milhares de anos atrás. Como o que eu estava a ver já tinha acabado, estudar estrelas passou, na minha cabeça, a ser um exercício um bocado sem sentido.

É a mesma falta de sentido que detecto nos esforços do Governo de adequar a legislação laboral às necessidades do mercado, já que o número de desempregados (cerca de 700 mil) ultrapassou o de portugueses com disfunção eréctil (meio milhão, estatística das farmacêuticas) o que é uma ameaça à virilidade da nossa economia.

Pressionado por Bruxelas e pela oposição, Sócrates admitiu rever mais uma vez um Código de Trabalhoe que abre portas no domínio da flexibilidade (os bancos de horas e adaptabilidade de horários) que ainda não foram usadas pela generalidade dos empregadores.

Nesta questão há vários problemas e um deles é que o mito de que somos um dos países europeus com maior rigidez na legislação laboral, que de tantas vezes repetido por opinadores mal informados acabou por aceite como bom por quase toda a gente – com a excepção de despedidos e especialistas em Direito do Trabalho.

“O nosso passado recente demonstra que Portugal goza dos regimes mais flexíveis de despedimento colectivo de toda a UE”, afirma César Esteves (advogado de Direito de Trabalho da SRS) num artigo intitulado “Mais fácil despedir cem do que um”, publicado na Advocatus.

Na mesma publicação, Luís Miguel Monteiro (especialista na área laboral da MLGTS) avisa que o nó do problema está no  confronto entre a realidade e a direcção do esforço legislativo. No novo normal que emerge da crise abundam crescentes formas de precariedade, quer em soluções (recibos verdes, empresários à força, falso trabalho temporário, etc), quer em número de pessoas abrangidas (1,2 milhões, entre as quais me incluo). “A normalidade reside naquilo que o sistema normativo só admite como excepção: as prestações de serviços que o são apenas de nome, o trabalho sempre temporário, o contrato a termo e a via sacar das respectivas renovações”, escreve o advogado da Morais Leitão.

Todos ganhávamos se o Governo deixasse de estar distraído com a luz de estrelas que já morreram e se preocupasse em regular os laços informais que a economia inventou para sobreviver num quadro legal obsoleto. O emprego efectivo para a vida é tão actual como ir a cavalo para o trabalho - ou escrever molhando no tinteiro o bico de uma pena.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

João Dionísio

 

João Dionísio, 43 anos, é o o chief operating officer da Strat, agência de publicidade que tem em carteira marcas tão sonantes como a Super Bock, CTT, Galp e Jerónimo Martins.  Licenciado em Psicologia e especializado em Terapia Familiar, tem 1m78, um peso na casa dos três dígitos e apresenta um tão longo quanto inesperado curriculum em modalidades tão diversas como a ginástica desportiva, basquetebol, karaté, andebol, pesca e tiro. Determinação, vigor e rigor são alguns dos ensinamentos que lhe ficaram tatuados no carácter durante os 13 anos em que foi guarda redes da equipa de andebol do Olivais e Moscavide

 

 

O pior eram as boladas na cara. Mas não foi difícil perder-lhes o medo. “Isso treina-se”, explica João Dionísio, que durante os 13 anos em que defendeu a baliza da equipa de andebol do Olivais e Moscavide foi conhecido por Constantino – o seu nome do meio.

No final do treino, viravam a baliza ao contrário. Para proteger a cara, ele punha-se atrás das redes e os colegas iam disparando a bola com toda a bolina, fazendo pontaria à sua fronha. O objectivo era ele habituar-se e deixar de piscar os olhos – pela simples razão de que com os olhos fechados não conseguia impedir a bola de o atingir.

“É um clássico. Quando um guarda redes está a defender tudo, começam a tentar acertar-lhe na cara, para ver se lhe criam medo”, explica João, 43 anos, licenciado em Psicologia Social, professor na Escola de Gestão do Porto e, desde o início do ano, o chief operating officer  que está a reposicionar e reinventar a Strat, uma agência de publicidade portuguesa que  trabalha para marcas como a Super Bock, CTT, Hyundai, Robbialac, Nívea, Galp, Jerónimo Martins e Hotéis Tivoli.

Com 1m78 e um peso na casa dos três dígitos, apresenta um tão longo quanto inesperado curriculum em modalidades tão diversas como a ginástica desportiva, basquetebol, karaté, andebol, pesca e tiro.

A responsabilidade pela sua iniciação precoce no desporto foi o pai, um marceneiro natural de Abrantes que emigrou para Lisboa para trabalhar nos TLP mas que nunca deixou de polir móveis, pelo que ele cresceu no meio de um cheiro a vernizes, bioxene e cera de abelhas.

A mãe, doméstica, teve-o em casa, no Poço dos Negros, mas não demorou muito até mudarem para Moscavide, onde, aos cinco anos, o inscreveram na classe de ginástica do Atlético Clube local, porque o Joãozinho, apesar de grande para idade, era de compleição frágil e atreito a anemias.

Divertiu-se à ganância durante os cinco anos que passou a fazer arrojados mortais encarpados e ousadas cambalhotas na cama elástica. “A ginástica foi uma poderosa componente da minha formação. Aprendi a respeitar a autoridade e a lidar com as minhas imperfeições e incapacidades. Ao ser obrigado a enfrentar exercícios perigosos, ganhei auto-confiança e noção do risco. E ajudou a disciplinar-me desde cedo, pois tinha de organizar a minha vida de maneira a apresentar-me no ginásio, todas as 2ª, 3ª e 5ª feira, às seis horas, com o equipamento completo”.  

Enquanto na escola aprendia a desembrulhar-se no mundo dos números, e num atelier de pintura adestrava a mão e o olhar, no ginásio iniciava-se na noção do espectáculo e da performance. “As pessoas não falam muito disso, mas o desporto trabalha muito o ego. Começamos a gostar de ser o melhor do bairro e a ter muita gente a assistir às nossas exibições. Aprende-se a gostar de ter o pavilhão cheio no dia do Sarau”.

Aos cinco anos felizes na ginástica sucederem-se dois anos tristes no basquetebol. Ele andava na Gaspar Correia e o casting até fazia sentido, pois ele era maior que a média dos miúdos que andavam no ciclo. O problema é que era descoordenado, como todos os rapazes que aos 11/12 anos são grandes para a idade.

Após dois anos frustrantes, em que não chegou a tratar o cesto por tu, aproveitou o fantástico ecletismo do Atlético Clube de Moscavide para fazer uma incursão de três anos pelo karaté, que muito apreciou e onde chegou a cinto azul. “As artes marciais são o supra-sumo do desporto. Uma coisa muito filosófica que trabalha a nossa agilidade física e mental - e ensina a superar-nos e a controlar a intensidade da força. Gostei muito”.

João estava já no secundário, que fez com uma perna às costas na ES Vasco da Gama (“Sempre tive facilidade na escola. O rigor que trouxe do desporto ajudou muito. E estava com atenção nas aulas), quando o andebol surgiu na sua vida.

Ele não se lembra muito bem de como tudo começou. Mas a verdade é que, a páginas tantas, um grupo de amigos, que o incluía, decidiu fazer uma equipa de andebol e o Olivais e Moscavide, que não tinha essa modalidade, recebeu-os de braços abertos. Por causa do físico e da experiência (no ciclo tinha defendido a baliza da selecção da escola), o João, nome de guerra Constantino, foi para a baliza.

Sportinguista, por herança do pai, logo havia de calhar estrear-se em competições oficiais contra o clube do seu coração, que infligiu aos tenros juvenis do Olivais e Moscavide uma pesada derrota: 36-9. Estava dado o tom para a primeira época, em que perderam os jogos todos.

Na segunda temporada, as coisas começaram a endireitar-se e a primeira vitória, por 32-20, face à União Desportiva de Oeiras, ficará para todo o sempre gravada na memória de João Dionísio, tanto mais que nesse dia marcou um golo de baliza a baliza.

Os 13 anos que passou no andebol, como guarda-redes do Olivais e Moscavide, não foram sublinhados por medalhas, troféus ou retumbantes vitórias. “A nossa glória era jogar contra o Benfica, o Sporting e o Belenenses, e conseguir discutir o resultado e levantar-lhes dificuldades”, explica João que perdeu a titularidade da baliza após um par de épocas como sénior, quando o paradigma do andebol começou a mudar no nosso país.

“O andebol era uma modalidade muito democrática, em que todos tinham lugar. Os gordos iam para a baliza, os pequenos para pontas e havia pivots gordinhos, como o Hernâni, que jogava com uma enorme elegância e aparecia sempre no sítio certo. Isso mudou. Hoje no andebol são todos gigantes. Não há lugar para nem para os pequenos nem para os gordos.  Com menos de 1m80 não jogam. O Maradona e o Messi não tinham lugar no andebol”. 

Apesar de ter perdido a titularidade, jogou até ao final do curso, raramente faltando ao treino diário, entre as 20h30 e as 22h30, no pavilhão da ES Fernando Pessoa, apesar de além de estudar ter tido quase sempre trabalhos em part time.

Tinha 15 anos quando ganhou o primeiro dinheiro, fazendo, sob a supervisão do chefe Silva, o inventário completo das armas existentes na esquadra da PSP de Moscavide. Recebeu 4.500 escudos por 15 dias de trabalho. Nada mau. “Sempre fiz desporto e sempre trabalhei”, esclarece.

Nas férias grandes, foi monitor na Colónia Balnear do Século, em S. Pedro do Estoril, ocupando-se de miúdos carenciados. “Uns nunca tinham visto o mar. Outros não sabiam comer, ou seja sentar-se regularmente à mesa para tomar uma refeição. E muitos não estavam habituados a tomar banho. Aprendi a ser pai, a não dar pêssegos à noite às crianças porque senão elas ficam mal dispostas”, conta João, que tem dois filhos rapazes, o Tiago, de 13 anos (que desde os seis anos toca violino) e o mais novo com quatro.       

A mulher e mãe dos seus filhos, educadora do Ensino Especial, conheceu-a na Cruz Vermelha, onde João trabalhou durante três anos, dando cursos de adaptação a ambulância (em corporações de bombeiros e grandes empresas, como a Galp e a Caixa) enquanto frequentava a faculdade.

Medicina foi a sua primeira opção, mas ditada por razões única e exclusivamente racionais, pois garantia emprego bem pago e socialmente prestigiado no final do curso. Não entrou por umas décimas.

Psicologia foi a sua segunda e última opção. Quando acabou o curso em Psicologia Social, com uma especialização em Terapia Familiar, esperava-o trabalho com famílias disfuncionais e toxicodependentes. Não se sentiu capaz. “Aos 24 anos ninguém está preparado para fazer terapia familiar. Eu nem sequer família tinha. Tudo o que mete relacionamento humano tem de meter tempo para amadurecer. Foi mais fácil e sério seguir a paixão pela comunicação, estudar e aprender o consumo”.

Acabou o curso em Julho de 1991 e em Setembro foi estagiar para a Multivaria, empresa de estudos qualitativos de mercado, e ficou por lá. “Tenho andado a vida inteira a aplicar o que aprendi na faculdade: olhar em profundidade para as coisas e pessoas. As pessoas são a mais valia das empresas. Os negócios são pessoas. Qualquer processo de venda tem a ver com vender ideias a pessoas e quem tem as ideais são pessoas, As pessoas são o tema, claramente”.

Cinco anos depois já era partner da Multivária, onde se demorou 18 anos, até aceitar o desafio para liderar o reposicionamento da Strat, subordinado ao mote “Criatividade com Estratégia”.

No final do curso, casou-se e deixou de levar boladas na cara. Deixou de ter tempo e disponibilidade de espírito para treinar todos os dias. Acabou o Constantino. Trocou por isso a bola de andebol pela cana de pesca. Neste momento é atleta, disputando o campeonato da 1ª Divisão da Associação de Lisboa em representação do Clube Amadores de Pesca de Lisboa. E mais recentemente, por influência da mulher que é atiradora, anda entusiasmado com o Field Target, ao ponto de ser o presidente do Clube de Tiro de Campo.

Do desporto trouxe para a vida muitas lições. Faz questão de recordar uma delas, aprendida com Vitor Paiva, seccionista do andebol do Olivais e Moscavide, que ele homenageia apelidando-o “um formidável formador de caracteres”:

“Uma vez, teria eu uns 15 anos, cheguei a uma reunião sem nada nas mãos. O Vítor Paiva chamou-me de lado e ensinou-me: Nunca vás para uma reunião com as mãos a abanar; deves trazer sempre papel e caneta para demonstrar às outras pessoas que dás importância ao que elas vão dizer, ao ponto de tomar notas”.

Determinação, vigor e rigor são alguns dos ensinamentos que lhe ficaram tatuados no carácter dos 13 anos em que praticou andebol, uma modalidade em que há muito contacto físico.

“Por haver muito contacto físico permitido, ao contrário do que acontece, por exemplo, no futebol e no basquete, o andebol exige-nos um grande controlo, auto-disciplina, e termos uma noção muito exacta da nossa força. É como nas empresas, em que se somos grandes temos de ter a noção do nosso poder; e e se somos pequenos temos de ter a noção da grandeza da nossa pequenez”, concluiu João Dionísio, o homem que treinou para deixar de ter medo de levar boladas na cara.

 

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

Luis Magalhães (Deloitte)

Desagrada-lhe a cultura portuguesa do golpe. Dá um exemplo. Um dinamarquês tem vergonha de estar desempregado. E se os amigos acham que ele está a demorar tempo demais a arranjar um emprego um dia, quando estiverem todos a beber umas cervejas, fazem-lhe ver que são eles que o estão a sustentar.

Cá, um tipo que consiga viver à custa do Estado é invejado como um vivaço  - “ele é que a sabe toda”, comentam os amigos. Os dinamarqueses (que produzem o dobro da nossa riqueza, apesar de serem apenas cinco milhões!) sabem que o Estado deve ser visto na primeira pessoa do plural (nós), enquanto a maioria dos portugueses teima em identificá-lo como a terceira pessoa do plural (eles).

“A rede de segurança em Portugal é muito alta. Não há factores de motivação para as pessoas se mexerem”, critica Luís Magalhães, 54 anos acabados de fazer, managing partner da Deloitte, consultora que comemorou o 40º aniversário, proporcionando as condições para que a elite do país procedesse ao exercício de introspecção nacional que dá pelo nome de Projecto Farol.

“Queríamos um documento que pudesse ser lido por toda a gente”, diz Luís, explicando por que é que as conclusões preliminares de um debate que envolveu dezenas de papers, centenas de pessoas e milhares de horas de trabalhos tenham sido em 50 páginas que contêm uma visão e um guia para o desenvolvimento de Portugal - e onde se elencam doze propostas imperativas, sendo que uma delas é estabelecimento de limites à carga fisacl e à despesa do Esatdo.

Luís Magalhães escolheu almoçarmos na trendy Cafetaria Mensagem do Altis Belém. Concordamos num bacalhau à lagareiro que ganhou claramente ao branco ribatejano Fiúza Três Castas com que o acompanhamos. A conversa à mesa levou-nos até Angola, França e Bélgica, a geografia percorrida por Luís até ser adulto e ir parar à Arthur Andersen pelo efeito conjugado do imperativo do abecedário e de um daqueles acasos em que a vida é fértil.

Nasceu no Lobito, onde a família tinha um negócio de impressão, mas cresceu entre cá e lá, viajando a bordo dos míticos paquetes Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique. Fez a primária entre Braga (a base dos Magalhães) e o Lobito. Repartiu o secundário entre o Liceu Camões e o da cidade do porto escoava as mercadorias que o caminho de ferro de Benguela trazia da entranhas de África.

Aos19 anos está em Luanda, no 1º ano de Engenharia Electrotécnica, quando se dá o 25 de Abril e os angolanos desatam aos tiros uns aos outros. Como gosta de praia, em Junho de 1975, quando voa para Portugal já decidira a continuar os estudos em Montpellier, eleita por ser a universidade mais francesa mais próxima do mar. Chegou lá e deu com o nariz na porta, mas o facto das inscrições para Engenharia já estarem encerradas não o impediu de dar um giro pela Côte de Azur.

As paredes do Técnico forradas com cartazes do MRPP ofenderam-lhe os princípios anti-comunistas, pelo que eliminou a hipótese de fazer o curso em Lisboa. Estava neste impasse, quando uma amiga de Lobito, que tinha ido para a Bélgica, lhe ligou a saber dele. “Queres que te inscreva cá?”, perguntou-lhe. “Já agora”, respondeu ele, que arrancou para Bruxelas convencido que ia estudar Engenharia - só à chegada soube que estava matriculado em Economia.

Estava convencido que estava de passagem, quando regressou a Lisboa em 1980, já com o curso na mão. Preparou candidaturas para fazer o MBA em diversas universidades americanas. Foi aceite numa data delas, mas em Agosto, farto de estar à espera sem fazer nada,  abriu a lista telefónica e começou a anotar a morada de consultoras. A primeira que lhe apareceu foi a Arthur Andersen (que mais tarde se fundiu com a Deloitte). Foi até ao escritório, na avenida da Liberdade, perguntar se estavam a recrutar pessoas. “Por acaso estamos”, respondeu a recepcionista. Preencheu os formulários, foi à entrevista, e 30 anos depois este no vértice da pirâmide de 1500 pessoas que trabalham nesta consultora.

Na vida há mesmo coincidências. A amiga do Lobito que lhe telefonou de Bruxelas é a mulher de Luis Magalhães. E a recepcionista da Arthur Andersen, em 1980, é agora a sua secretária.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada hoje no Diário de Notícias

 

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Cafetaria Mensagem

Altis Belém

Doca do Bom Sucesso, Lisboa

2 couvert … 6,00

2 bacalhau à lagareiro … 32,00

1 Luso … 4,50

Fiuza 3 castas … 12,50

2 cafés.. 6,00

Total… 61,00

 

Curiosidades

 

No início dos anos 80, a mãe de Luís (que ficou órfão de pai novo) foi chamada ao Bando de Portugal para explicar porque é que mandava tantos vales postais para Bruxelas. No entanto, ele não estava só dependente das remessas de dinheiro da família. Além de estudar, fazia diversos trabalhos em part time, como carregar e descarregar camiões para supermercados ou lamber envelopes e selos nas Selecções do Reader’s Digest

 

Há quase dez anos, Luís era  o managing partner da Arthur Andersen em Portugal quando, a nível internacional, a consultora perdeu o nome na sequência do seu envolvimento no escândalo Enron. “São dessa altura a maior parte dos cabelos brancos que tenho”, comenta, acrescentando que teve de tomar comprimidos para dormir durante os dois meses em que tinha o nas mãos o futuro de 600 pessoas (e respectivas famílias). Tudo acabou em bem, com uma fusão com a Deloitte.

Não tenho amigdalas mas gosto dos espanhóis

 

Algures em meados dos anos 50, um congresso médico internacional decretou o fim da degola das amígdalas dos meninos que iam com as mães ao médico queixosos de dores na garganta. Na sequência desta decisão, os portugueses dividem-se entre empregados e desempregados, benfiquistas e anti-benfiquistas, os que preservam as amígdalas e os que foram desprovidos delas.

Esta última divisão coincide com um corte geracional. A esmagadora maioria dos portugueses com mais de meio século de existência não tem amígdalas e cresceu exposta à retórica anti-espanhola que era parte integrante da cultura do Estado Novo.

Na vã tentativa de todos cerrarmos fileiras em torno do chefe (“Portugueses quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!”) contra o inimigo externo mais à mão (o mar não se adequava ao efeito) os propagandistas do regime ditatorial agitavam o fantasma da Espanha enquanto enalteciam a padeira de Aljubarrota, alimentavam o folclore de Olivença e dramatizavam numa espécie de nova batalha de S. Mamede cada jogo de hóquei em patins entre as selecções dos dois países ibéricos.

Vítimas deste carpet bombing ideológico, muitos dos portugueses desprovidos de amígdalas estão sinceramente convencidos da bondade do provérbio “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” (o que não é verdade porque o excelente pata negra de Barrancos faz a sua cura exposto ao vento quente que sopra do outro lado da raia)  - e estou em crer que evitam fazer compras no El Corte Ingles. Esta rançosa desconfiança não é partilhada pelo pessoal mais novo, que tem amígdalas e escolhe Espanha como destino preferido de Erasmus.

Eu não tenho amígdalas mas admiro as gentes que habitam no resto da Península, sejam eles galegos, catalães, andaluzes ou etc. Acho detestável aquela mania de chamarem pantalones vaqueros aos jeans e de dobrarem os filmes (o Marlon Brando a falar espanhol no Padrinho é de um tipo se rebolar no chão a rir), mas invejo-lhes o manchego, Barcelona, Almodovar, a alegria de viver, o Reina Sofia, a Plaza Mayor de Salamanca, o pulpo à feira, o casco velho de Santiago de Compostela, Penelope Cruz, o Guggenheim de Bilbau, os pimentos de Padrón, Lluis Llach e mais uma data de coisas que não cabem aqui.

Para mim, que não tenho amígdalas, o problema na Península Ibérica não se chama Espanha, mas sim Lisboa (e Madrid). E para os que não estão convencidos disso, recomendo a consulta de Economia Mundial: uma perspectiva milenar, de Angus Maddison, onde se prova que, em toda a nossa História, foi durante a União Ibérica que estivemos mais próximos da riqueza média europeia – 85% em 1600, contra 79% em 1500, 34% em 1913, 41% em 1950 e 69% em 1998.

Jorge Fiel 

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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