Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

A morte faz parte da vida

 

O catastrófico cenário da extinção da morte, num dia de Ano Novo, é a base da intriga de As Intermitências da Morte, provavelmente o mais bem humorado dos romances de José Saramago.

As pessoas deixam subitamente de morrer o que origina uma crise sem precedentes. “Brutalmente desprovidas da matéria prima”, as empresas do negócio funerário reuniram-se em assembleia geral e elaboraram um caderno reivindicativo. Para evitar o despedimento de milhares de trabalhadores”, exigem duas coisas.

Em primeiro lugar, que o Governo que lhes arranje, por decreto, um novo negócio, tornando obrigatório o enterro ou incineração, de todos os animais domésticos falecidos – e deixando esses preparos terão de ser contratados à indústria funerária.

Em segundo lugar, pedem dinheiro – uma linha de crédito bonificado e empréstimos a fundo perdido -  pois a reconversão para os irracionais de uma indústria até então orientada para os racionais carece de vultuosos investimentos em equipamentos e know how.

Saramago resumiu magistralmente a alma e manha de uma classe de patrões e gestores portugueses que têm uma visão muito particular dos negócios: os lucros, o Mercedes e os salários de cinco ou seis dígitos ficam por sua conta; o risco fica por conta do Estado (ou seja de todos nós, contribuintes).

Cavaco Silva concorda a análise de Saramago e já denunciou “a falta de autonomia revelada por alguns dos nossos empresários, que fazem depender o seu sucesso da permuta de favores com o poder político, e a sua tendência para viverem encostados ao Estado, que tem sido muito nociva para a nossa economia”.

O problema é que apesar do comunista Saramago e do social democrata Cavaco estarem de acordo, e apesar de nenhum candidato a primeiro ministro se esquecer de incluir no seu programa eleitoral a frase velha e batida “menos Estado, melhor Estado”, a verdade é que quando se instalam em São Bento não sossegam enquanto não engordam o Estado.

Durão prometeu privatizar um dos dois canais da RTP. Quando fugiu para Bruxelas, deixou-nos com três canais públicos (acrescentou-lhe a RTPN). Sócrates planeou a privatização da TAP, que não só continua pública como ainda por cima comprou a Portugália aos privados.

A tentação é grande. Quanto maior for o Estado, maior é o poder dos políticos que o gerem - e maiores são os lucros dos que estão habituados a viver à custa dele. Os parasitas gostam de ver o parasitado gordo –  têm mais  alimento.  Os contribuintes e o país são os únicos perdedores desta equação.

Eu vejo a Caixa a engolir todos os buracos financeiros que lhe aparecem pela frente e sinto que há cada vez mais gente a viver dentro dos meus bolsos.

Eu olho para os programas de compra de empregos na indústria automóvel e só vejo remendos.

Eu leio Saramago e reparo que a crise provocada pela ausência da morte abre uma extraordinária oportunidade de investimento em lares para a Terceira, Quarta e Quinta Idades.

Na vida real, a morte continua a fazer parte da vida - e às vezes é preciso ter coragem para deixar morrer.

Jorge Fiel

www,lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi publicada no Diário de Notícias

 

2 comentários

  • Imagem de perfil

    naosoudeca 18.12.2008

    É grande jogador não é?
    Qual Suazo qual Aimar qual carapuça!
    Dá muita azia não é?
    Claro,tem de haver qualquer coisa que ensombre mais uma bela aquisição do FCP!Continuem assim que vão bem!
    Os CÃES LADRAM E A CARAVANA SÓ ESTÁ A DOIS PONTOS!
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Arquivo

    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2012
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2011
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2010
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2009
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2008
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2007
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    Em destaque no SAPO Blogs
    pub