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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Somos todos boavisteiros

 

O Porto é a minha religião. O Porto cidade/região e o Porto clube, de que não me posso gabar de ter envergado a camisola pois quando tive a honra de o representar o fiz em tronco nu, vestido apenas com uns Speedos azuis e brancos - na minha adolescência fui atleta (medíocre, para grande pena minha) de natação do FCP, secção dirigida à época por um jovem engenheiro chamado Belmiro, que era a menina dos olhos do presidente Afonso Pinto de Magalhães.

Nesta minha dupla qualidade de portuense e portista, o Boavista sempre me mereceu sentimentos contraditórios. Tem coisas boas, como as camisolas (além de originais são bonitas) e o Bessa, um estádio à inglesa, adequado às raízes de um clube fundado pelos britânicos da antiga fábrica Graham.

Tem, porém, coisas menos boas, como ter servido de biombo onde se abrigaram portuenses de confissão benfiquista ou sportinguista, o que conferiu ao Boavista a fama de ser um clube de conveniência.

O facto de Valentim Loureiro, o mais provável pai do Boavistão, ser sportinguista, foi uma fatalidade suplementar que ajudou a colar ao clube a imagem de ser uma espécie de segunda escolha ou prémio de consolação.

Feito o desabafo, declaro acreditar sinceramente que os anos de ouro dos axadrezados, no dobrar do século - em que além de terem sido campeões nacionais foram passageiros frequentes dos 2.o e 3.oº lugares da tabela, botaram figura na Liga dos Campeões e alcançaram as meias-finais da Taça UEFA - , tenham ajudado o clube a definitivamente deitar corpo, cimentando identidade e apetrechando-se com clientela própria de apoiantes em regime de exclusividade.

O drama foi que os suspeitos e invejosos do costume (a saber, os donos da bola no tempo da Outra Senhora) não perdoaram o grito do Ipiranga do Boavista e ficaram nervosos com a emergência a Norte de mais um grande.  E assim, há quatro anos, o Boavista foi compulsivamente empurrado para uma injusta descida aos infernos, como dano colateral da conspiração para arrumar o F. C. Porto, montada por quem tentava desesperadamente obter na secretaria o que era incompetente para conseguir no relvado. Ou seja, quem se lixou foi o mexilhão, como bem diz o povo na sua imensa sabedoria.

O tempo tem vindo a provar que foram de pólvora seca todos os tiros furiosamente disparados pela dupla Mizé Morgado (realizadora do "Apito Dourado") e Ricardo Costa (encenador do "Apito Final"), os organizadores de uma série lamentável de fiascos e derrotas.

Nesta semana, em que o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa declarou ilegal a reunião fantasma do Conselho de Justiça da FPF que despromoveu o Boavista, todas as pessoas de bem devem juntar a sua voz ao coro que exige justiça para o Boavista.

Queremos as camisolas axadrezadas de volta à primeira Liga. Até isso acontecer, somos todos boavisteiros! Justiça para o Boavista!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

Hoje somos todos boavisteiros!

Ontem foi um dia triste para os boavisteiros – oito anos depois de terem sido campeões, caíram na terceira divisão e  muito provavelmente não lhes resta alternativa senão a de imitar o Salgueiros e trilhar o caminho do calvário.

Impedido, pelas dívidas, de inscrever jogadores no escalão sénior de futebol, o Salgueiral arranjou um irmão gémeo, o Salgueiros 08, que começou este ano tudo de novo, a partir do último escalão, a II Divisão Distrital da Associação de Futebol do Porto.

Ontem foi um dia alegre para o FC Porto, que comemorou o tetra, pela noite dentro, com o autocarro que transportava os campeões a passar ao lado os Paços do Concelho, de fachada limpa e iluminada, mas de porta fechada (para o ano, se tudo correr bem, o penta será festejado outra vez da varanda).

Ontem foi um dia alegre para o Salgueiros 08, que se sagrou campeão da II Divisão da AF Porto ao derrotar uma vez mais o Aliança da Gandra.

Ontem foi um dia triste para o Boavista. Mas como tristezas não pagam dívidas, ‘bora aí Bessa, vamos levantar essa cabeça que o futebol precisa das vossas camisolas "esquisitas”.

Ontem foi um dia igual a muitos outros, nos últimos oito anos, no Porto, porque o presidente da Câmara não esteve no Bessa, a dar força ao seu clube no momento mais difícil da sua vida – nem esteve nos Paços do Concelho a receber os tetracampeões nacionais, nem na Senhora da Hora a festejar a subida do Salgueiros 08.

Hoje somos todos boavisteiros!

Jorge Fiel

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Metro ou eléctrico, eis a questão!

A diversidade da avenida da Boavista, cuja densidade populacional se vai rarefazendo à medida que nos aproximamos do mar, 

está no centro do debate sobre qual o transporte público que a deve estruturar e ligar do principio ao fim.

 

A Porto 2001 projectou a restauração da linha do eléctrico, que neste seu segundo fôlego viajaria em corredor próprio (ou seja não se cruzando com o trânsito automóvel), nas faixas laterais da avenida, ou seja convivendo com os peões, tal como já existe ao longo na marginal fluvial.

 

Rui Rio discorda da opção pelo eléctrico. Enterrou-a e contra propôs uma nova linha do metro, a F, com dez estações espalhadas ao longo da recta, fazendo um anel, ao estabelecer uma ligação alternativa entre a Casa da Música e Matosinhos. Lisboa, pela voz de Santana Lopes e José Sócrates, disseram não ao financiamento a linha F, assim condenada a ficar no tinteiro.

 

Nos anos mais próximos, se quiser percorrer a mais longa avenida do pais, lá terá de se misturar no inferno do trânsito automóvel    de autocarro, táxi e no seu carro.

  

Jorge Fiel

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FIM

(é mesmo a sério, que esta série dedicada à maior avenida do país acaba mesmo hoje - estejam sossegados que não é engano de 1 de Abril)

Aos 90 anos, a avenida tem diversas caras

Após o 25 de Abril, a avenida sofreu uma fase de terciarização acelerada, que avança no sentido Rotunda/Castelo do Queijo e tem o seu sinal mais visível na coexistência pacifica de três hotéis de cinco estrelas num raio de algumas (poucas) centenas de metros.

 

Esta vaga de terciarização chegou até às imediações da Fonte da Moura, onde já se pressente o cheiro a maresia, pela mão da Bolsa do Porto, que aqui teve a sua segunda e última casa.

 

O resultado é a concentração nos 5,2 quilómetros desta avenida - que tem a sua jurisdição repartida por seis juntas de freguesia - de mais de 12% dos serviços de toda Área Metropolitana do Porto, ou seja, da Póvoa até Espinho.

 

Com quase 90 anos de idade, a Boavista tem diversas caras.

Começa pequeno burguesa, com a Casa da Música a conviver com pequenas mercearias, restaurantes modestos, as sedes do PCP e do Goethe-Institut, a sua única livraria e os Enfermeiros Reunidos.

 

O Porto Palácio, de um lado, e o palacete Arte Nova da viscondessa de Lobão, do outro, marcam a fronteira para um troço mais cosmopolita, recheado de hotéis cinco estrelas.

 

E a partir daqui quase nunca mais pára de subir na escala social. O endereço postal diz tudo. Quanto mais alto for o número, maior deverá ser a conta bancária dos seus residentes. A partir do 2000, é praticamente seguro que é da classe média. Do três mil para cima, há pelo menos um BMW ou Mercedes na garagem.

 

No miolo da avenida, estão expostas à vista de todos os contrastes e as contradições em que o Porto é fértil. Junto ao Estádio do Bessa, o horrível edifício do Dallas – um centro comercial fantasma mandado encerrar pela câmara por ordem do tribunal – mora em frente à elegante galeria Bristol, com as suas lojas requintadas de «griffes» como a Hugo Boss, Godiva ou Stefanel.

(continua)

 

Jorge Fiel

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O impulso dado pela ponte da Arrábida

 

 

A Carris foi tão essencial para o desenvolvimento da avenida como o caminho-de-ferro o foi  na construção dos Estados Unidos. A sua importância ressalta de uma frase escrita por um jornalista na sua reportagem sobre o incêndio de 1928 na «remise»:

 

«Para os lados da Boavista, o movimento é sempre frouxo. A longa e larga avenida só vive da vida dos seus carros e das suas fábricas. Fechadas as fábricas, ao anoitecer, paralisado o trânsito dos eléctricos, fica deserta, recolhida no seu silêncio elegante, de avenida moderna, aristocrática».

 

A primeira vaga de povoamento da avenida, durou até aos anos 20, com a construção na sua parte inicial (logo a seguir à Rotunda) de casas de brasileiros, amiúde rodeadas das palmeiras que correspondiam ao seu gosto. Foi preciso esperar quarenta anos para a inauguração da ponte da Arrábida ser a locomotiva de um novo e espectacular surto de desenvolvimento da Boavista, para onde se deslocou gradualmente o centro de gravidade da cidade, que outrora residira na Baixa e zona Oriental.

 

Junto à saída da nova ponte, o BPA implantou nos anos 60, no local onde laborara a Fábrica de Tecidos Graham, o Foco, uma urbanização moderna, com andares destinados às classes média e média/alta. Mais recentemente, junto à Fonte da Moura, o terreno deixado livre pelo fim das Sedas Aviz foi usado para a construção de grande empreendimento, conhecido pelo antigo nome da fábrica (Aviz), com características idênticas às do Foco, mas mais denso e ainda está a ser desenvolvido.

 

Daqui até ao mar, correndo ao longo do Parque da Cidade até desaguar no Oceano Atlântico, fica a zona com mais baixa densidade populacional da avenida, ocupada com vivendas elegantes mandadas fazer por industriais e banqueiros, a partir de meados do século passado.

(continua)

 

Jorge Fiel

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A mais bela artéria da zona moderna e luxuosa

O rasgar da avenida demorou o seu tempo. Iniciado no virar do século, só foi concluído em 1917, o ano da revolução bolchevique, com a conclusão do troço final, entre a Fonte da Moura e o Castelo do Queijo, que nos anos 50 viria a ser a principal recta do Grande Prémio de Fórmula I do Porto, estrelado pelo famoso Stirling Moss.

 

Demorou, mas valeu a pena. Sant’Anna Dionísio considerou-a logo como «a mais bela artéria da zona mais moderna e luxuosa» do Porto e e não poupou nas palavras quando a qualificou como «um dos mais acertados e desenvolvidos golpes de expansão que a cidade recebeu nos últimos 50 anos».

 

A avenida teria de esperar mais de meio século para acolher dois novos e importantes ícones que romperam com a tímida escala que caracteriza a cidade.

 

A Casa da Música e o Parque da Cidade foram arrojados empreendimentos apadrinhados por Fernando Gomes, que sonhou reeditar, um século depois, o período mais próspero e expansionista do Porto.

 

O Parque da Cidade concretizou, em 1991, o velho projecto do pai da avenida, Gustavo Sousa, de equipar o Porto com um vasto pulmão verde, e viria a receber, dez anos depois, um ousado remate marítimo pensado por Solá Morales. Como o parque não chegava à praia, o arquitecto catalão resolveu fazer desaterros, abrindo o caminho para o mar subir até ao parque. Funcionou!

 

A Casa da Música, saída do estirador do holandês Rem Koolhas, é um espantoso e estranho edifício com uma altura equivalente a 12 andares , implantado no quarteirão outrora ocupado pela «remise» (a recolha dos eléctricos) e pelos escritórios da Carris (actual STCP), que, além de escriturários, albergavam barbeiros e alfaiates que cuidavam das fardas e aspecto dos funcionários da companhia.

 

(continua)

 

Jorge Fiel

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Rotunda seria uma réplica da parisiense Etoile

O pai da avenida da Boavista é Gustavo Adolfo Gonçalves de Sousa, um engenheiro da Câmara e veterano do Cerco do Porto, onde serviu como alferes no batalhão comandado por Vitorino Damásio, o fundador da Associação Industrial Portuense.

 

Homem de ideias modernas e desempoeiradas, Gustavo de Sousa tinha dirigido as obras de construção do Palácio da Bolsa, empreendimento de envergadura, financiado até ao último tostão pelos homens de negócios reunidos na Associação Comercial do Porto.

 

Contratado para engenheiro da Câmara, definiu dois grandes projectos baseados na abertura da Rotunda da Boavista, uma praça ampla e arejada, com 200 metros de diâmetro - uma espécie de réplica portuense da parisiense Etoile.

O engenheiro imaginou a Rotunda da Boavista como um coração, ligado à Quinta da Prelada por um imenso parque verde e de onde partiriam quatro artérias, das quais a aorta seria a avenida que ligaria a cidade à Foz, que em meados do século XIX era ainda uma humilde povoação piscatória dos arredores. Falhou a primeira concretizou a segunda.

 

A transferência, no final do século XIX,  da Feira de S. Miguel para a Rotunda da Boavista, assegurou a rápida animação desta ampla praça, ao atrair a visita dos lavradores dos arredores que a ela acorriam em busca de alfaias agrícolas, cangas, jugos, tamancos, louças, chapéus de palha, varapaus ou, tão só, do afamado doce da Teixeira.

Também ajudou à festa a construção, em 1889, no local onde está agora o Tabernáculo Baptista, da praça de touros chamada Real Coliseu Portuense. 

(continua)

 

Jorge Fiel

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A curta biografia de uma longa avenida

O Porto tem uma escala de cascata de S. João, apenas rompida pelo Paço Episcopal, a avenida da Boavista, o Parque da Cidade e a Casa da Música – e os dois últimos ficam na avenida da Boavista…

 

Numa cidade em que o poder religioso (apoiado pela burguesia local) foi suficientemente poderoso para impedir os nobres de residirem no interior dos seus muros, não espanta o domínio imperial que o Paço Episcopal exerce sobre o casario que preenche a encosta que desce da Pena Ventosa até à Ribeira e o rio, compondo o mais batido dos postais ilustrados do Porto.

 

Com os seus 5,2 quilómetros em linha recta que desaguam no mar e fazem dela a maior avenida do país, a Boavista é uma herança do século de ouro do Porto, o XIX, em que a cidade foi berço e baluarte do liberalismo, e recebeu, em troca da heróica resistência ao cerco miguelista, o título de «Invicta, mui nobre e sempre leal» e o coração de D. Pedro, que está guardado, como uma relíquia, na Igreja da Lapa.

 

Jorge Fiel

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PS. A publicação, em seis episódios, da curta biografia da nossa mais longa avenidas,deve-se a dois motivos. O primeiro é pessoal – em Abril vou viver para um apartamento na avenida da Boavista. O segundo tem a  ver com a minha militância portuense. Irrita-me o imobilismo e a falta de arrojo que se apoderou da cidade e que tem atrasado a abertura da via Nuno Álvares, que ligará Praça do Império à avenida da Boavista. Espero que a canonização do Condestável apresse o início das obras. Quando falha a fé nos homens, só nos resta virar-nos para o divino…

 

Boavista e Salgueiral

 

O Salgueiros acabou com o futebol profissional há uns anos - foi forçado a isso por não ter dinheiro para pagar a ninguém.

(O mesmo aconteceu ao Alverca mas isso são contas de outro rosário). O Salgueiros ficou sem estádio e quase sem nada, sem a Câmara do Porto deitar uma lágrima. Que diabo, o "Salgueiral" era uma instituição antiga da cidade e merecia alguma atenção. Quenão teve.

O Boavista corre um risco sério também no futebol profissional. Aliás, creio que a diferença que se criou entre o Boavista e o Salgueiros nos últimos 40 anos teve como causa a família Loureiro - se por acaso Valentim tivesse optado pelo Salgueiros, o clube de Paranhos ainda hoje teria estádio, equipa e muito mais.

Não sei o que vai acontecer ao Boavista, que não tem hoje nem liderança, nem dinheiro, mas tem um número de adeptos já não negligenciável e tem activos (o estádio, nomeadamente) e já tem identidade. Os 40 anos da família Loureiro podem ter acabado mal, mas é injusto não reconhecer tudo o que conseguiram para o clube "de uma rotunda".

Acho que a cidade do Porto precisa de um segundo clube na I Liga, muito embora o Porto hoje possa ser uma unidade que compreende Matosinhos, Vila do Conde, Póvoa, Penafiel - ou Trofa (saravá Trofense!). É uma questão de unidade citadina ou metropolitana.

Do que o Boavista precisa é de encontrar uma nova família que tenha capacidade de liderança para perceber que o clube até pode passar uns tempos difíceis nos próximos anos - os clubes são como a economia, têm ciclos bons e maus - mas tem futuro.

Manuel Queiroz 

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