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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Alda Telles

Alda Telles, directora geral da Fonte, sonhou ser hospedeira e arquitecta antes de fazer Economia na Nova e arranjar no jornalismo o seu primeiro emprego à séria. Após três anos na revista Futuro, em que entrevistou Bill Gates e o pai do primeiro bebé proveta português, resolveu ir tratar do seu próprio futuro e desembarcou no então incipiente mercado das agências de comunicação

 

Loura, fala francês e fuma Ritz

 

Alda fuma Ritz por razões estéticas e profissionais. Não é preciso usar óculos para descortinar o lado estético da coisa. Desenhada em 1970 por António Garcia (que também vestiu outras marcas míticas, como os SG, nas suas variantes Filtro, Ventil e Gigante, High Life, Monserrate, Sintra e Kayak), a embalagem dos Ritz é realmente muito atraente.

A razão profissional conta-se em duas penadas. Alda fumava Lucky Strike, por razões estéticas e afectivas. Também não é preciso usar óculos para constatar o lado estético. Concebida em 1940 por Raymond Lowry (designer industrial que assinou marcas da Shell e Coca Cola, bem como os rótulos das sopas Campbell), a embalagem dos Lucky Strike é terrivelmente sexy.

A razão afectiva para ela fumar Luckies, tal como Mike Hammer (o duro detective que se farta de levar porrada nos policiais de Mickey Spillane), tem a ver com uma lenda sobre a origem do nome da marca, Lucky Strike, um trocadilho que traduzido para português tanto pode significar golpe de sorte como greve bem sucedida.

Reza a lenda, contada a Alda, que a marca foi criada pelos grevistas de uma tabaqueira que misturaram restos de tabaco existentes na fábrica e o comercializaram para arranjarem massa para aguentarem a greve. A lenda não deve ser verdadeira, pois a marca nasceu em 1853, quando os garimpeiros da corrida ao ouro na Califórnia precisavam mais de um golpe de sorte que os operários das tabaqueiras norte-americanas de financiamento para greves selvagens….

Voltando às razões profissionais para ela fumar Ritz, é preciso explicar que esta marca pertence à Tabaqueira (que após as vicissitudes decorrentes da sua privatização foi parar ao regaço da Phillip Morris), que desde tempo imemoriais faz parte da carteira de clientes de Alda.

Um belo dia, no meio de uma reunião, ia dando uma coisinha má ao CEO norte-americano da Tabaqueira, quando Alda acendeu um Lucky Strike (marca da concorrente British American Tobacco). Quando se recompôs, pediu-lhe que não voltasse a fumar tabaco da concorrência na sua presença. Ela mudou-se para o SG Gigante.

“Eu consumo os produtos dos meus clientes”, assegura Alda Magalhães Telles, 47 anos, directora geral e maior accionista da Fonte, consultora de comunicação onde a Euro RSGC detém 30% do capital desde 1995.

Filha de um industrial de metalurgia ligeira, nasceu no Campo de Ourique e tem levado a vida dentro de um quadrado com não mais de um quilómetro de lado, abrangendo a Estrela (onde a Fonte tem sede, no 60C da rua de S.Bernardo, ao lado da holding dos Espírito Santo), Amoreiras e Lapa (onde mora).

Não toca piano, mas é senhora de francês fluente e educação esmerada, prendas que não são estranhas ao facto de ter estudado do liceu francês, dos cinco aos 17 anos, onde foi colega de Rita Blanco.

Teria uma dúzia de anos quando começou a ganhar para os seus alfinetes dando explicações aos miúdos do prédio, actividade, que mais para o final do liceu começou a acumular com a realização de inquéritos de rua para a Marktest. 

Teenager, começou por sonhar ser hospedeira do ar (na altura era uma profissão com glamour), antes se decidir a ir para Arquitectura. Acabou por corrigir a rota, seguindo para Economia. Quando entrou na Nova, em 1981, o curso ainda cheirava a fresco – a primeira fornada de licenciados ainda não tinha saído.

Ir trabalhar para um banco ou para o INE eram as saídas mais óbvias para uma jovem licenciada em Economia, em 1986, o ano em que Portugal foi recebido na CEE. Como nenhuma destas perspectivas a seduzia, andou com o nariz no ar até descobrir que no INESC ia ser leccionado um curso, de nove meses, financiado pelo Fundo Social Europeu, sobre a gestão em ambiente de ninhos de empresas.

Era mesmo aquilo que ela queria: ganhar competências na área da gestão, num curso dado por bons professores (como Emanuel dos Santos, secretário de Estado do Orçamento, ou Luis Filipe Pereira, o ex-ministro da Saúde que agora lidera o grupo Efacec) que tinha como cereja em cima do bolo o facto de ser pago (40 contos/mês).

Estava a acabar a formação quando tropeçou numa oportunidade de trabalhar nos media, sector que desde miúda a maravilhava. “Sempre gostei de jornais e revistas, que comecei a devorar quando tinha 11 a 12 anos, por alturas do 25 de Abril. De manhã, o meu pai lia o Diário de Notícias. À tarde era o Diário de Lisboa. E levava muitas revistas lá para casa, como o Paris Match. Lembro-me de passar as férias a ler números antigos da Plateia, Flama, Século Ilustrado…Sempre gostei de coisas vintage e tive a mania de guardar tudo e mais alguma coisa”, confessa Alda, que colecciona caixas de fósforos, pacotes de açúcar, imagens de Madonnas, isqueiros Zippo, e por aí adiante.

Jorge Nascimento Rodrigues abriu-lhe as portas do fantástico mundo da Comunicação Social ao convidá-la para ser jornalista na Futuro, uma revista mensal de divulgação científica, onde se demorou três anos, foi coordenadora de Redacção, trabalhou com jornalistas veteranos como Luís Marques e Virgílio de Azevedo, e aproveitou por dar uma perninha no caderno de Economia do Expresso, dirigido por Jorge Wemans.

Ter conhecido Bill Gates, em Madrid, e ser a primeira a entrevistar Pereira Coelho, o médico que foi o “pai” do primeiro bebé proveta português, são algumas das recordações mais fortes que guarda da incursão pelo jornalismo.

Fundou a Ipsis, com o apoio de dois investidores, no final dos anos 80, desembarcando no mercado, ainda incipiente, das agências de comunicação em que Luis Paixão Martins (LPM), Madalena Martins e Carlos Matos (Imago) e Joaquim Letria foram os pioneiros.

“Era mais fácil do que agora. Havia imenso caminho a desbravar, mais dinheiro e menos concorrência – não havia concursos, era tudo ajustes directos. E as relações com os meios eram mais simples. As agências ajudaram a crescer o jornalismo económico de empresas e negócios, ao facilitar o acesso dos jornalistas às fontes”, afirma Alda.

Em 1991, após ter constatado que as irremediáveis divergências que a separavam dos investidores (“nunca perceberam que as pessoas são o mais precioso activo neste negócio” a apresentou-lhes uma proposta de MBO (Management Buy Out). Eles recusaram e por isso Alda foi à vida dela, fundando a sua própria consultora de comunicação, que baptizou Fonte.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada na edição de Novembro do Briefing

 

 

“Não repares na secretária”

 

O gabinete é suficientemente amplo para albergar uma bicicleta e uma vuvuzela, vários posters (já amarelecidos..) de equipas campeãs do Sporting (que partilham as paredes com quadros da pintora Maria João), um confortável sofá preto de cabedal com um tapete afegão aos pés  - e a inevitável mesa redonda de reuniões. “Não repares na minha secretária”, disse Alda, um pedido difícil de atender, já que a sua enorme mesa de trabalho está apinhada de livros, CDs, DVDs, dossiers, deixando apenas livre o espaço para se movimentar o teclado do computador. Casada com um advogado que faz as compras lá para casa no super do Corte Inglês, Alda tem um filho de 15 anos, que frequenta escola alemã, e adora viajar. As últimas férias foram passadas entre Atenas, Santorini e Creta. Nas próximas pode ser que vá pela terceira vez à Índia.

Miguel Rangel

O logo dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, é uma das imagens, fotografias, pequenos textos e frases doutrinárias afixados nas paredes revestidas a papel prateado da sala do centro corporativo da Sonae, na Maia, onde durante mais de um ano esteve em análise e gestação a nova marca do maior grupo privado português.

“Tem de se pensar muito à frente para conseguir construir uma marca que vai ter valor dez anos depois de ter sido criada. Tem de ser uma coisa à prova de bala!”, explica Miguel Rangel, 34 anos, director de Relações Institucionais, Marca e  Comunicação da Sonae, que admira a antecedência com que as candidaturas têm de definir a sua imagem e a capacidade que a marca Olímpíadas têm de se ir vai renovando, de quatro em quatro anos, a partir de uma matriz com mais de um século.

A Sonae é bem mais nova que os Jogos Olímpicos da era moderna. Comemorou meio século a 18 de Setembro de 2009 numa festa marcada pela apresentação do novo logo da Sonae, o 5º desde que o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães fundou em 1959 a Sociedade Nacional de Aglomerados e Estratificados.

No vértice do processo de criação da nova marca esteve Miguel, que tinha 17 anos e era caloiro no curso de Gestão da Faculdade de Economia do Porto quando a Wolf Ollins criou a imagem que o maior empregador português (38 mil trabalhadores) usou ao longo dos últimos 17 anos.

Quando ele nasceu na Ordem da Trindade, Porto, Belmiro de Azevedo tinha acabado de pacificar a Sonae, que fora intervencionada após o 25 de Abril, e consolidava o seu controlo sobre a empresa, que conquistaria na sequência de um duro braço de ferro com os herdeiros e a viúva do banqueiro.

Encantado com marcas como a Lego (primeiro) e a Levi’s (depois), cresceu em Rebordosa, Paredes, onde vivem o pai (um benfiquista que trabalha na área da contabilidade) e a mãe, professora de Física no Secundário, numa casa com jardim de onde se avistava a Novopan, uma das mais importantes fábricas de aglomerados da Sonae, das primeiras a estar cotadas em bolsa, que, no entretanto, deu lugar a um Modelo (sinal dos tempos).

Ainda lhe passou pela cabeça ir para Arquitectura, mas acabou por escolher Gestão, e não teve dúvidas quando, no 5º ano do curso, teve de optar entre cadeiras da área financeira ou do marketing. O que o apaixonava era a área comercial.

O primeiro dinheiro ganhou-o com 20 anos, na Sorbonne, a dar aulas de Economia Portuguesa a luso-descendentes, quando estava em Paris, onde fez o 4º ano ao abrigo do Erasmus, dormindo na Casa de Portugal e comendo em cantinas. Ainda poupou  dinheiro para fazer um Inter Rail no Verão de 97, com partida da Gare Nord e escalas em Bruxelas, Amesterdão, Berlim (onde ficou impressionado pela floresta de gruas que marcavam a paisagem da cidade), Praga, Budapeste e Roma, antes de regressar a Paris.

Um ano volvido, com o curso acabado, disparou em várias direcções. No final, hesitou entre duas respostas aos currículos enviados pelo correio. A Decathlon dava-lhe a hipótese de retornar a Paris, mas ele preferiu um estágio remunerado de três meses (Setembro a Dezembro) na Sonae Distribuição, que apanhou a dura campanha de Natal. No final, a Sonae deu-lhe a melhor prenda de Natal - um convite para ficar a trabalhar no Marketing da Distribuição.

Andou pelas equipas de decoração de lojas, desenferrujou o francês como responsável pelo Modelo Bonjour (onde a Promodès era parceira), passou pelos novos formatos (Vobis e Worten) até que em 2004 lhe entregaram a gestão da mais valiosa marca do grupo (Continente), de que, no ano seguinte, iria liderar o processo de renovação.

“A distribuição foi uma escola. Vivia-se um ambiente muito competitivo e aguerrido, em que tínhamos como concorrentes grandes players internacionais -Auchan, Intermarché, Carrefour e Lidl - e ainda o grupo Jerónimo Martins”, afirma Miguel, que se declara “muito feliz e realizado” com a mudança da marca Continente.

Na holding também ficaram felizes pois, em 2008, pouco depois de Belmiro ter transmitido ao seu filho Paulo as rédeas da Sonae, Miguel foi convidado para gerir a comunicação institucional e marketing do grupo. Estava apenas há quatro meses na Maia, quando lhe pediram para olhar para a marca - e perceber se ela estava bem ou mal.

Miguel instalou-se na sala do projecto, cujas paredes prateadas foram ganhando o aspecto de um caleidoscópio ao longo dos meses em que acolheu sessões de brainstorming e creative meetings. Centenas de pessoas passaram por esta sala do Learning Center da Sonae.

“À partida não sabíamos se íamos mudar ou não”, adverte Miguel, acrescentando que a partir de determinada altura se tornou claro ser preciso reforçar o entusiasmo na marca e acrescentar-lhe atributos essenciais como a criatividade e abertura – bem evidenciar a sua world class, ou seja os padrões internacionais porque se rege.

O resultado está aí, numa imagem de marca mutante - que representa um investimento de 700 mil euros e a cuja concepção está associada a portuguesa Ivity - que foi anunciada ao mundo há pouco mais de um mês (10 de Fevereiro de 2010) e começa agora a dar os primeiros passos.

“Estamos a lançar uma criança na vida, com uma nova mensagem muito inovadora”, resume Miguel, que tem experiência no assunto, pois tem um filho de seis anos, e que apesar de levar uma vida preenchida, ainda arranja tempo para relaxar jogando ténis, ir ao cinema no Arrábida Shopping, e para dar uso ao seu lugar no Dragão (é sócio do FC Porto há 20 anos) e à assinatura dos concertos Fora de Série da Orquestra Nacional do Porto da Casa da Música – uma das marcas portugueses que mais admira, quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista de conteúdos, e que é mutante, tal como a da Sonae.

 

Jorge Fiel

Esta peça foi publicada no Briefing 7, de Março 2010

 

Afonso Camões

Desde miúdo, entre a infância e a adolescência atravessadas em Castelo Branco, que se revelou jeitoso de pés e mãos. A habilidade com os pés mostrou-a envergando a camisola preta do Desportivo e a vermelha do Benfica local. A queda para a escrita foi precocemente detectada nos escritos publicados na Reconquista e no Jornal do Fundão, quando ainda era menor de idade, se bem que já maior de juízo.

Podia ter feito carreira na bola. Mede 1m82 e já era espigado quando debutou nos juvenis, o que o qualificava para defesa central. Demorou-se apenas uma época no Desportivo, de onde se transferiu para o Benfica de Castelo Branco, onde foi sempre capitão de equipa e campeão distrital, disputando por isso participando por com U. Tomar, Académica e U. Leiria o apuramento da Zona Centro para a fase final dos nacionais.

O ponto mas alto das quatro épocas, em que jogou futebol, foi ter jogado, ainda com idade júnior, pelas primeiras do Benfica de Castelo Branco contra o Académico de Viseu, em que era jogador-treinador Cavém, velha glória do Benfica bicampeão europeu, um cromo que ele tinha virado vezes sem conta quando era puto, no recreio do liceu.

Um dirigente do Desportivo, olheiro por conta dos grandes do futebol, acenou-lhe com uns treinos na Luz e Alvalade, a ver se ficava, mas o pai não esteve pelos ajustes, cortando assim cerce as asas à carreira de futebolista de Afonso Barata Camões, a que o 25 de Abril pôs ponto final, quando outros valores mais altos se levantaram.

Era moço quando ganhou os primeiros dinheiros em biscates arranjados pelo pai, João Barata Camões, que tinhas umas hortas e teve a carpintaria como ofício principal até que o Correio Mor o nomeou, em 1963, carteiro provincial de 3ª classe. Nas férias grandes, Afonso carregava aparas para lenha na Serração Anjo da Guarda e ajudava o pai no giro rural, alugando por dois tostões o serviço de leitura de aerogramas e por cinco tostões o de escrever as cartas de resposta.

Repetiu, em Castelo Branco, o percurso escolar percorrido, em gerações anteriores por Ramalho Eanes e Marçal Brilo (Primário nº 7 e Liceu Nun’Álvares), repartindo o tempo pelos estudos, futebol, música e militância católica, sendo que a estas duas actividades ex-curriculares não foi estranha a influência de um professor progressista de Religião e Moral, que era amigo de Fanhais e nas aulas falava dos problemas da juventude, da sexualidade e das guerras em África e no Vietname. Tocou bandola na Orquestra Típica Albicastrense. Mais tarde aprendeu por ele viola – e actualmente anda com um curso de concertina na mala do seu Mercedes.

Aos 16 anos, em 1972, já a alfabetizar adultos e membro da Equipa Nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica), ao lado de Jorge Wemans, Manuel Pinto e Joaquim Azevedo. Foi esta a sua porta entrada para a política activa. Em 1973 colou cartazes e fez a campanha eleitoral pela CDE em Castelo Branco, e no ano seguinte, é um dos militantes da primeira hora do MES (Movimento de Esquerda Socialista).

Dirigente nacional do estudantes do MES, foi destacado para o Porto, onde se inscreveu em Economia, onde a falta de bases a Matemática o impossibilitou de brilhar tão alto nos estudos como no movimento estudantil. A lista para direcção de Estudantes da FEP por ele liderada derrotou sempre a da direita, onde sobressaia Rui Rio, que só logrou ser eleito quando Afonso trocou a faculdade pelo jornalismo.

Uma entrevista chegou para Freitas Cruz o admitir na Redacção de O Primeiro de Janeiro, em Janeiro de 1979, onde se destacou logo no ano seguinte, ao ganhar o prémio internacional de jornalismo atribuído pela Associação de Imprensa Mexicana com uma revisitação à nossa história trágico-marítima – uma reportagem sobre uma série de naufrágios ocorridos num curto espaço de tempo na costa do Porto.

Em 1982, tornou-se um dos heróis da luta pela elevação ao concelho de Vizela, quando a RTP filmou a GNR a rasgar-lhe o casaco e espancá-lo quando ele estava a cobrir o boicote dos vizelenses às eleições. O povo de Vizela deu-lhe um casaco novo e baptizou rua da Liberdade de Imprensa  a artéria em que foi sovado.

No ano seguinte, acompanhou Marcelo Rebelo de Sousa e Victor Cunha Rego na fundação do Semanário, onde trabalhou um ano no Porto, antes de se transferir para Lisboa, onde se distinguiu na secção Política pela sua perspicácia, demonstrada quando, em 1985, publicou pela primeira vez nos jornais as caras de Sócrates e Vara, que ilustravam um artigo intitulado “Duas jovens promessas do novo PS” .

Regressou a Castelo Branco, em 1988, onde esteve durante 126 semanas, fundando um jornal regional, a Gazeta do Interior, acto primeiro do sonho de criar uma rede nacional de jornais locais, que foi interrompido pelo convite de Rocha Vieira para ser director de Comunicação do Governo de Macau, cargo que ocupou de 1991 até que a 19 de Dezembro de 1999 o general dobrou a bandeira nacional e entregou o território aos chineses. Dos oito anos no Oriente trouxe, entre outras coisas, conhecimentos, a Medalha de Mérito Profissional de Macau, um curso de Gestão de Crises feito em Singapura, e uma poupança que lhe permitiu adquirir prédio rústicos e urbanos em Castelo Branco.

De volta à Europa, esteve três anos, por conta do grupo Lena, a construir a rede de jornais regionais da Sojormedia, enquanto fazia uma pós graduação em Jornalismo na Moderna. Convidado por Balsemão, lançou a Rede Expresso de jornais regionais, até que, em 2005, Joaquim Oliveira o contratou para administrador do seu grupo de media, que acabara de engordar com a compra da Lusomundo (JN, DN, TSF).

“Este é o segundo pin de ouro da Controlinveste. O primeiro sou eu que o tenho. Para conseguirem receber um vocês vão ter de fazer para o merecer, como o Afonso”, disse Joaquim Oliveira, no jantar, com todos os directores de primeira linha do grupo, que ofereceu a Camões para assinalar a sua partida para a presidência da Lusa, cargo que ocupa há exactamente um ano.

 

Afonso tem uma casa em Camões

O Camões que ele leva no apelido não tem a ver com o Luís Vaz, mas sim com um tetravô, chamado Manuel, que era de Camões e quando casou foi viver para outra freguesia passou a ser tratado por o Manuel de Camões, pois havia mais Maneis. E a coisa pegou. Afonso regressou às origens e comprou uma casa em Camões, com alguns hectares à volta, atravessada por um ribeiro, onde mantém um rebanho de nove ovelhas e acaba de plantar 12 marmeleiros, três freixos, dois liquidambares e três plátanos. Ao todo, tem 18 hectares de terra com oliveiras que lhe dão 135 litros de azeite/ano. Com dois filhos, Ana João, 22 anos, estudante de Guionismo, e Mário, 20 anos, graduado pelo Colégio Militar e estudante de Gestão, Afonso é casado com Margarida, uma professora que está a trabalhar no Instituto Camões – como dizia a outra, há coincidências.

 

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada no Briefing 8, de Abril 2010

Gil Moreira dos Santos

Os tribunais não tem segredos para ele, que já se sentou em todos os lugares possíveis de uma sala de audiências, desde o de juiz, que faz levantar toda a gente quando entra, até ao de advogado de defesa, passando pelos de delegado do Ministério Público e arguido – condição mais recente em que se estreou por vias de ter puxado as orelhas e ralhado, ameaçando dar “tatau no tutu” a um colega do profissão, que disse mal dele na Internet. “Fiz o que se faz a um menino que se castiga”, explica.

Gil Moreira dos Santos, 69 anos, é agora conhecido como “o advogado do Pinto da Costa” (para quem conseguiu a absolvição em processos que se adivinhavam cabeludos), qualificação que lhe merece o recurso à ironia sarcástica que é uma das suas marcas de água: “Passei a ser considerado o Emplastro II. O Emplastro diz que é filho do Pinto da Costa. Eu sou o advogado”.

Filho de um empregado comercial, que esteve na fundação de diversos clubes de hóquei em patins, entre os quais o Infante Sagres, Gil nasceu no Porto a 1 de Dezembro de 1940, e deu os primeiros passos em Lordelo do Ouro, não muito longe do andar onde mora na marginal do Douro, junto à ponte da Arrábida. “Vivo debaixo da ponte, sou uma espécie de clochard”, graceja o advogado que vendeu a casa, junto a Serralves, quando o último dos seus três filhos deixou a casa paterna.

Aprendeu a ler nas páginas de “O Comércio do Porto”, tornando-se portista por apreciar a estética do salto de Barrigana, o keeper azul e branco. Viu muitos jogos do Porto no campo da Constituição e lembra-se de assistir a treinos dados por Yustricht nas Antas. Declara-se portista militante, mas acrescenta ser capaz de ver todas as cores do arco-íris e não aparenta estar incomodado por o seu clube ter falhado o segundo penta: “Deve haver intermitência. E de vez em quando só faz bem levar um banho de humildade”

Atravessou a adolescência a saltar entre a casa dos avós, no Porto, onde fez o liceu no Alexandre Herculano, e a casa paterna, em Oliveira de Azeméis, onde o pai era o gerente do Palácio Ford. Dúvidas quanto ao seu futuro, nunca as teve. Ainda andava na 4ª classe e já toda a gente o ouvia dizer que quando fosse grande queria ser juiz.

À mingua de curso de Direito no Porto, quando chegou a hora foi estudar para Lisboa, alugando um quarto em Alvalade, que lhe permitia ir e vir a pé das aulas, quando, a partir do 2º ano, a faculdade abriu as suas instalações na Cidade Universitária. Em Direito jogou rugby, na posição de três quartos (“como era franzino, metia a bola nas formações e distribuía jogo”) mas também futebol numa equipa que tinha um excelente guarda redes, “um tipo brilhante, mas muito teimoso, sempre do contra, chamado Medina Carreira que já ia no seu terceiro curso superior”.

Foi colega de gente conhecida e de obediências políticas diversas, como o socialista Afonso de Barros e o comunista Ramos de Almeida, num curso que acabou em 1962, o ano da crise académica de Lisboa liderada pelo Cenoura (a alcunha do futuro PR Jorge Sampaio).

Licenciado iniciou a via sacra que na altura os candidatos a juízes tinham de percorrer, fazendo carreira no Ministério enquanto iam conhecendo o Portugal desconhecido. Como um saltimbanco, andou pela Feira, Amares (onde comprou o seu primeiro carro, um VW Carocha de matricula ED-21-00, que teve de vender quando foi chamado para a tropa), Melgaço, Santo Tirso e Porto, até que no ano em que fez 32 anos, atingiu finalmente o azimute traçado na 4ª classe e foi aprovado no concurso para juiz, tendo sido colocado em Cinfães. Pelo meio fez uma tropa regalada, entre 1964/67, passando a maior parte dos três anos colocado no Serviço de Justiça do Quartel General do Porto, escapando à mobilização para a Guerra Colonial por ter sido o 3º classificado do seu curso (Carlos Cruz, que ficou em 5º lugar, também evitou a ida para África e foi colocado nos serviços cartográficos do exército).

O primeiro caso foi o de um homem vinha acusado de homicídio involuntário porque a carga de pedras que transportava esmagou uma pessoa. Como ficou provado que o réu desconhecia que a vítima estava atrás, o juiz Gil Moreira dos Santos optou pela mais leve das penas: seis meses remíveis.

Mais sui generis foi o caso de uma rapariga que era taxista e a GNR acusava da transgressão por não usar o boné regulamentar. O caso encerrava em si alguma dose de hipocrisia. Só havia dois motoristas de táxi em Cinfães, a rapariga era um deles e fazia regularmente serviços para o Tribunal. Gil absolveu-a, argumentando que o boné não tinha sido feito a pensar na hipótese de uma mulher ser taxista.

Não se arrepende de nenhuma das sentenças que deu durante a sua vida de juiz, tumultuada pela Revolução de Abril. Como tinha feito serviço em dois tribunais plenários, foi saneado por uma lei aprovada em 1975. “Fui fascista por diploma legal”, comenta. Quando foi reintegrado, as coisas nunca mais foram iguais. Problemas com as colocações fizeram-se sentir a mais na Magistratura e levaram-no a tomar, com 37 anos, a dolorosa decisão de trocar a profissão com que sonhara desde criança pela de advogado em regime de profissão liberal.

Vasco Graça Moura, seu colega dos tempos, encontrou-o na avenida dos Aliados e mal soube que ele estava disponível, convidou-o para ir trabalhar para o escritório do seu tio Mário. A partir daqui foi sempre a subir. “Nunca me faltou trabalho”, reconhece Gil, que se diverte a viajar com a mulher (em Março foram à Hungria e República Checa, e em 2009 andaram pelo Vietname e Cambodja), a dar aulas na Portucalense e a escrever livros sobre Direito (e não só), editados pelo seu amigo Cruz dos Santos (ex-Inova e Oiro do Dia).

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada no Advocatus 1, de Abril 2010

 

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