Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Confissões de um cubano

Farto dos fins de semana da recruta, cansativos e a saber a pouco, em Dezembro de 1980, quando concluí, em Mafra, o curso de oficial milicianos (especialidade de Anti-Carro e Morteiro Médio) resolvi arriscar quando me pediram para indicar os três destinos de preferência, escrevendo, por esta ordem, Porto, Funchal e Ponta Delgada.

Fui parar à Madeira. Em 1981 (a foto que abre este post é da época) , vivi em S. Martinho, no quartel do Regimento de Infantaria do Funchal, numa Madeira que, pela mão de Alberto João, estava a atingir a velocidade cruzeiro na viagem que a levaria a 2ª região mais pobre do país a chegar a ser ser a 2º mais rica ica do país.

Durante o meu ano de cubano - informo os mais distraídos que esse é termo carinhoso usado pelos madeirenses para designar os de "Lesboa" (termo genérico que abrange todo o pessoal do "Contenente") - fiz muitos disparates (os próprios da idade e mais alguns) de que me arrependo. Mas não me arrependo nada de me ter voluntariado para ir para o Funchal (com a minha nota de curso era impossível ser colocado no Porto).

Aprendi muitas coisas. A começar por curiosas expressões locais. Da primeira vez, não percebi o que queria o soldado que me pediu autorização para "ir em cima dos pés" (tem a sua lógica, pois agachamo-nos quando temos de satisfazer ao ar livre as nossas necessidades fisiológicas de carácter sólido). E confesso ter temido pela sanidade mental do primeiro madeirense que me disse ter perdido o horário como justificação para o seu atraso (o STCP de lá chama-se Horários do Funchal).

Quem flanou pelo Funchal, comeu lapas grelhadas em Porto Moniz e depois viajou pela estrada marginal da costa norte, passeou pelas levadas, fez praia em Porto Santo, subiu ao pico do Areeiro, se deliciou com uma espetada (acompanhada de milho frito e bolo do caco) no Estreito, visitou o Chão da Lagoa (sem ser no dia em que o Johnnie Walker amplifica os devaneios de Jardim), bebeu uma poncha em Câmara de Lobos, tomou um café no Reid's e desceu até ao Curral das Freiras não pode deixar de se apaixonar pela Madeira.

A Madeira é uma região maravilhosa e quem lá viveu não pode deixar de se sentir também um pouco madeirense.

Na minha qualidade de cubano com uma costela madeirense, sinto uma enorme admiração pelo brutal desenvolvimento que Alberto João conseguiu para a sua terra natal, levando a que o Funchal seja uma duas regiões portuguesas com poder de compra superior à média comunitária.

Esta admiração só aumenta a profundidade da tristeza que sinto quando vejo Jardim manchar com os seus mais recentes actos e palavras uma notável carreira de líder político regional. Quero acreditar que se trata de uma maldição relacionada com nome e origem. Ainda não há muito pouco tempo um outro madeirense com o mesmo apelido borrou um brilhante curriculum no sector financeiro ao não saber atempadamente pôr um ponto final na carreira.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

O tzaziki requer paciência

Há dois pratos típicos gregos, muito saudáveis, que acho deliciosos e aprendi a confeccionar. Não estou a falar da moussaka (apesar de nada me mover contra as beringelas, antes pelo contrário) nem do souvlaki, mas sim da salada grega e do tzatziki - não confundir por favor com os iogurtes gregos do Continente, que são porreiros mas se distinguem apenas dos iogurtes normais por usarem leite gordo como matéria-prima.

A salada grega é bastante simples e rápida de fazer. A base é constituída por tomate (não muito maduro, de preferência), pepino e queijo feta (que está a aparecer no Lidl a preços bem em conta) cortados em cubos, temperados com sal e coentros qb, regados a gosto por um azeite transmontano e generosamente adicionados por azeitonas (recomendo vivamente as kalamata, disponíveis no El Corte Inglés).

Um caso bem mais complicado é o do tzatziki, bem mais exigente em mão-de-obra e tempo que a salada grega, que se põe pronta em cinco minutos.

No tzatziki, antes de ser picado, o pepino tem de ser completamente descascado e limpo das sementes. O dente de alho tem de ser ralado. E quer os iogurtes naturais quer o pepino picado devem ser deixados a escorrer durante umas três ou quatro horas, em filtro de papel ou de pano, para se libertarem do respectivos soros (ambos bebíveis, garanto-vos). Depois é só misturar as pastas de pepino e iogurte, mexer, enquanto se junta o alho, um fio de azeite e umas gotas de limão.

É preciso ter paciência para preparar iogurte grego. Também é preciso ter muita paciência para aturar os gregos e eu sei do que falo porque naquela tarde infeliz de 4 de Julho de 2004, ao minuto 57 da final do Euro, apanhei um banho de Carlsberg morna sem álcool, proveniente de um copo atirado para o ar por um grego que estava sentado alguma filas acima de mim na bancada do Estádio da Luz (nunca perdoarei esse momento ao Scolari e ao Ricardo).

Angela Merkel, Jean Claude Trichet, Christine Lagarde são alguns dos nomes que me vêm à cabeça de pessoas que sabem ainda melhor do que eu que é preciso ter uma enorme dose de paciência em armazém para aturar as idiossincrasias dos gregos, que cultivaram, durante anos a fio, a arte de esconder de toda a gente o catastrófico desequilíbrio das contas públicas - ao pé deles, Sócrates e Alberto João fazem figura de tenrinhos apendizes.

Mário Soares pode não perceber muito de números mas está cobertinho de razão quando nos avisou de que se a Grécia cair a Europa vai ao charco. Por isso, Merkel, Trichet e Lagarde & C.ia têm de ter com os gregos mais paciência do que Job. A Europa não pode deixar cair a Grécia. O que não quer dizer que não se deva ser dura com os gregos. Ao fim e ao cabo aquela ideia de os obrigar a vender umas ilhas não é nada disparatada. Quem sabe se um dia não teremos vantagem em fazer o mesmo...

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D