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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Conduzir de olhos vendados

É hoje, é hoje! Há uma anedota assim, que envolve uma sondagem em que as pessoas são inquiridas sobre a frequência com que fazem sexo, e o entrevistador, intrigado com o contraste entre a resposta ("Uma vez por ano") e o ar feliz de quem a deu, ouviu a resposta "É hoje, é hoje!" quando lhe perguntou porque estava assim tão satisfeito.

É hoje que o Orçamento de 2012 é aprovado pelo Conselho de Ministros, mas ao contrário do que acontece na anedota não há motivo de satisfação. Vai haver sexo violento, mas nós vamos ser os sujeitos passivos.

Há coisas que já sabemos. Este Orçamento é fundamental. "O momento certo para estruturar de forma séria a nossa ambição do lado da despesa é o Orçamento para 2012", avisou Carlos Moedas, o todo poderoso oficial de ligação com Troika.

Sabemos que o Governo se comprometeu a fazer 2/3 da consolidação orçamental do lado da despesa e apenas 1/3 do lado da receita - e que (Vítor Gaspar explicou) até agora o essencial das medidas tem sido tomadas do lado da receita (aumento de impostos) porque estas surtem um efeito mais rápido do que aquelas.

Sabemos que vai haver cortes de 1,6 mil milhões de euros no orçamento dos ministérios sociais (810 milhões na Saúde, 600 milhões na Educação e 205 milhões na Segurança Social), que, no seu essencial, serão feitos à custa dos doentes, professores, alunos e reformados - mas não sabemos qual será o aumento das taxas moderadores nem a extensão da penalização nas pensões superiores a 1500 euros.

Sabemos que o Governo precisa de aumentar bastante as receitas do IVA (para acomodar o eventual corte na TSU, mas não só) - mas não sabemos como o vai conseguir, sendo provável que suba a taxa reduzida (6%) porque o consumo está deslocar-se dos produtos sujeitos à taxa normal de IVA (23%) para os de taxa intermédia (13%) e baixa, o que significará agravar os preços de bens básicos.

Sabemos que as fundações de um Orçamento assentam nas previsões da evolução da economia. Sabemos que "fazer previsões é como conduzir um carro de olhos vendados e seguir as instruções de quem está a olhar para a estrada pelo vidro de trás" (José Ferreira Machado, director da Nova de Lisboa, dixit). Sabemos que, por excesso de optimismo, nos últimos cinco anos o Governo falhou as previsões económicas inscritas no OE. Mas também sabemos que, ao contrário de Sócrates, Vítor Gaspar tem os pés na terra e a sua opinião tem mais peso em S. Bento do tinha a de Teixeira dos Santos.

Sabemos que a carga fiscal está nos limites do suportável - mas não sabemos se (como garantem o ex-secretário de Estado das Finanças Sérgio Vasques e o fiscalista Tiago Caiado Guerreiro)o nosso subsidio de férias e 13º mês de 2012 vão ter de ser sacrificados no altar do milagre regenerador da nação. A partir de hoje, vamos começar a ver com mais clareza como é que vai ser o nosso 2012.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

Tirem-me deste filme!

Esta minha vida de biscateiro consome-me tanto tempo que me tem privado do prazer de aproveitar a hora do almoço para ver um filme nas melhores salas do cinema do país –  as 20 da UCI (ex-AMC) no Arrábida Shopping,

Tenho por isso de me contentar a ver em versão compactada, ao sábado à tarde, as minhas séries preferidas - Good Wife, Lie to Me, Closer e Crash –, bem como alguns documentários dos canais História ou Travel, que deixo a gravar durante a semana. A gramática e tempo de duração das séries são bem mais adequadas ao ecrã de televisão do que um filme.

Mas nestes últimos dias,. eu e a generalidade dos meus infelizes compatriotas tivemos  de nos sujeitar a assistir um filme péssimo, completamente destituído de suspense, co-realizado por Sócrates e Passos Coelho. Não era preciso o professor Marcelo (que acrescentou à sua condição de comentador político a de oráculo, quem sabe se herdada do falecido polvo Paul …) nos ter sossegado a dizer que o Orçamento ia passar – já todos tínhamos adivinhado isso.

Este grotesco sucedâneo daqueles filmes de série B, recheados de aventura e acção, que durante a minha adolescência me divertia a ver no Carlos Alberto, foi protagonizado por dois actores, Teixeira dos Santos e Eduardo Catroga, que representaram muito mal os seus papéis num dramalhão pior que as outrora célebres novelas radiofónicas patrocinadas pelo detergente Tide – e  que só pode acabar mal.

Trata-se de uma fita que nos ficou caríssima (apesar de inverosímil, a cena da ruptura custou-nos 133 milhões de euros de juros suplementares na colocação de dívida publica) e, como seria de esperar num filme realizado por dois tipos saídos das fábricas partidárias e com dois artistas de cabelos brancos nos principais papéis, estava enxameado de ideias com rugas e não teve sequer a arte de rentabilizar aquela espécie de product placement involuntário da foto de assinatura do acordo tirada por telemóvel – ao menos deviam ter tido o discernimento de por a Blackberry a pagar a conta!

O filme “Salvem o Orçamento 2011” marcou o arranque de campanha eleitoral para as legislativas, que António Nogueira Leite, numa hábil manobra de antecipação ao seu correligionário Marcelo, nos informou que serão na Primavera. “Não vale a pena salvar o Governo a partir de Março”, declarou o conselheiro económico de Passos.

Enquanto não surge a sequela, fica-nos na boca o amargo de estarmos a ser tratados como súbditos, e não como cidadãos que somos, por dois partidos que em tudo são iguais e nos meteram num filme de terror tão pesado que ao pé dele o Funeral, de Abel Ferrara, é recomendável como programa para uma matinée infantil. Não andará por aí alguém capaz de nos tirar deste filme?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

A despedida de casado do Manuel Serrão

Em 1989, quando o meu amigo Manuel Serrão celebrou o funeral do seu primeiro e breve casamento com uma festa de despedida de casado, estava longe de imaginar que era precursor de uma tendência que desponta com pujança nos mercados emissores da moda em termos de comportamento social.

Como os gay estão longe de compensar a brutal queda nos matrimónios hetero, as lojas que vivem das listas de casamento entraram em alerta vermelho e fazem tudo para apoiar a institucionalização das festas de despedida de casados. A ideia têm lógica. Quando nos divorciamos, ficamos reduzidos a metade dos nossos bens - pelo menos, porque, em boa parte dos casos, a portagem é bem mais alta e evadimo-nos apenas com a roupa que temos no corpo, ficando por isso carentes de pratos, copos, garfos, toalhas, cadeiras e chaleiras.

Não vivemos num tempo em que seja possível continuar a prosperar repetindo as receitas que deram resultado no passado. É preciso inovar, não ter medo de arriscar, pois é entre disparates equívocos ou reflexões erradas que sorrateiramente surgem as grandes ideias e projectos.

Olho para o Orçamento e vejo boa política (a capacidade do primeiro ministro em ganhar a “abstenção construtiva” de Portas e dar “boas indicações” a Manuela) mas fraco arrojo. Ficamos com a incómoda sensação de dejà vu. É mais do mesmo.

Taxar em 35% os pornográficos bónus dos banqueiros é uma cópia tímida de uma invenção de Gordon Brown, que fixou a fasquia em 50% e foi imitado por Sarkozy. No país em que, segundo o Banco Mundial, os prémios mais pesam na factura salarial das empresas (32,2% contra 11,3% da média dos 12 países estudados) Sócrates não devia ter-se quedado pela banca no agravamento da carga fiscal sobre remunerações extraordinárias que escapam à base tributável da Segurança Social.

Congelar os salários dos funcionários públicos, que o ano passado tiveram um ganho real do poder de compra próximo dos 4%, é uma medida envergonhada. Bravo foi o primeiro ministro irlandês ao reduzir o seu salário em 20% antes de cortar em 10% os vencimentos dos servidores do Estado.

Os que têm emprego devem sacrificar-se para amaciar a vida dos desempregados. E os que ganham mais têm a obrigação de ser solidários com os mais pobres e os pensionistas. Não vejo razão para não se ter ousado criar um novo escalão de IRS para rendimentos superiores a 100 mil euros.

Olho para o Orçamento, vejo que as confrangedoras faltas de ambição e imaginação se reflectem na redução microscópica do défice, e vêm-me à cabeça uma frase do velho Keynes: “A dificuldade reside não nas ideias novas mas em escapar das velhas”.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

O dia da prova dos nove

A não ser que me saia o Euromilhões (o que é impossível porque para ganhar é preciso jogar - e eu não jogo), o mais provável é que o rendimento da minha declaração de IRS de 2009 seja inferior à deste ano. A vida e a bolsa são assim. Não estão sempre a subir até ao céu. E é preciso sabermos viver com isso.

Estou a esforçar-me para evitar a quebra nas minhas receitas. Mas quando a Autoeuropa já anda a trabalhar aos soluços, por falta de encomendas, o cenário realista é preparar-me para viver com menos dinheiro.

A economia pode parecer uma coisa complicada, mas assenta em equações simples. Se a receita diminui há que reduzir a despesa. Pelo meio há espaço para uma data de malabarismos financeiros (que costumam dar mau  resultado), mas no final do dia é assim. Ganha-se menos, corta-se nas despesas.

É o que tenho andado a fazer. Vou tirar o passe e usar o carro apenas no  indispensável. Cancelei a assinatura dos canais de cinema, um luxo supérfluo pois passavam-se meses sem ver um filme até ao fim. E estou a negociar um pacote que baixe a minha factura mensal em comunicações.

Adoptei uma atitude inteligente nas compras para a casa. Abasteço-me das “commodities no Lidl, complementando cirurgicamente o cabaz no El Corte Inglês, Froiz ou Pingo Doce. E reduzi as refeições feitas fora de casa.

Os cartões de crédito e débito deixaram de ser obrigatórios na minha carteira.  A dor de gastar existe. Gasta-se menos quando se paga em dinheiro, porque a sensação de perda é mais acentuada.

Reduzi a zero o meu endividamento, não caindo na tentação de renegociar a divida e projectá-la por um prazo mais longo, aliviando o curto prazo, mas comprometendo um futuro cada vez mais incerto.

O meu plano de redução de despesas tem muito mais alíneas mas vou abreviar pois só o trouxe para aqui para dizer que espero que o Orçamento para 2009 esteja impregnado das mesmas preocupações de rigor e austeridade.

Com a economia europeia a entrar em recessão e  as contas dos grandes bancos com pior aspecto que o chapéu de um trolha  não é realista esperar um aumento das receitas. O facto de 2008 ser o primeiro ano da legislatura Sócrates em que a receita fiscal vai crescer abaixo do PIB prova que não se pode tirar sangue das pedras.

Como as receitas vão diminuir, o Governo deve dar o exemplo, atacando a despesa, eliminando as gorduras e gerindo com mais cuidado o nosso dinheiro.

2009 é o ano de todas as eleições, mas não há espaço para aventuras. Manter a dispendiosa RTP1 é tão idiota como eu pagar canais de cinema que não vejo  - a não ser que ela esteja a ser usada um braço armado de propaganda do Governo (e não deveria ser). E quando vemos que há ministérios com apenas um funcionário no quadro de excedentes, verificamos que há muito para fazer no emagrecimento da Função Pública.

A próxima 4ª feira, o dia em que o Orçamento de 2009 será entregue, é o dia da prova dos nove, em que saberemos se somos governados por estadistas, ou por políticos de pacotilha que cedem às tentações eleitoralistas - e por isso não estão à altura dos tempos difíceis que vivemos.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs,sapo.pt

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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