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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

O nosso drama são os tecla 3

 

O meu pai comprou o nosso primeiro televisor em 1966, para vermos os Magriços no Mundial de Inglaterra. Eu tinha dez anos e, por junto e atacado devia ter visto, até então, uma dúzia de horas de televisão (a preto e banco, no canal único RTP) num  Nordmend da loja de electrodomésticos da dona Delfina, que ficava por baixo da minha casa.

Quando desembarcaram na escola, para o seu primeiro dia de aulas, os meus filhos levavam na cabeça milhares de horas de televisão a cores, vistas em dezenas de canais de cabo, e os dedos treinados durante centenas de horas a teclar em consolas de jogos.

Desde que me lembro, tive telefone em casa. Mas quando me casei, tive de recorrer à prerrogativa de ser jornalista para não ficar um ano à espera que me instalassem um na minha nova casa.

Se eu perguntar aos meus filhos em que altura é que o telefone deixou de estar preso por um fio à parede, para passar a andar no bolso de toda a gente, o mais provável é que eles digam que essa revolução foi mais ou menos contemporânea da invenção da electricidade.

No minha adolescência, deliciei-me a ler o Eça e passava as férias grandes na Biblioteca Municipal a devorar as aventuras do Agente Secreto X9, Ene 3, major Alvega, Mandrake, Cisco Kid e Fantasma em volumes encadernados a couro do Falcão e Mundo de Aventuras.

No entanto, é tão improvável convencer os meus filhos a trocarem um episódio do House pela leitura de um capítulo da Relíquia, como levá-los a preferir Verdi aos Evanescense.

O minuto do tempo em que foi proclamada a República continua a ter os mesmos 60 segundos que o minuto deste tempo em que os adolescentes andam todos no bolso com um Nokia e têm 1500 SMS grátis por semana.

As auto-estradas, telemóveis e televisão subverteram a noção de tempo e espaço. A notícia da instauração da República demorou semanas a propagar-se pelo país. Agora, vemos em directo o avião da United Airlines a esmagar-se na Torre Sul do WTC.

O minuto demora os mesmos 60 segundos, mas há mais acção num minuto de Body of Lies, de Ridley Scott, do que durante os 91 minutos que duram os Morangos Silvestres, de Bergman.

Num mundo que anda a 200 à hora, seguir a 50 km/hora é pior do que estar parado. Equivale a fazer marcha atrás.

Uma professora, grevista e inovadora, contou-me que os alunos gostam da escola – não gostam é de estudar. E não gostam porque os forçamos a usar métodos e ferramentas (quadro, papel, lápis, caderno e manual) que eram bons no nosso tempo mas agora são tão obsoletos como uma máquina de escrever.

Se os alunos do século XXI preferem escrever num teclado, é idiota impor-lhes o caderno e a esferográfica. O que realmente interessa é saber como tirar partido do Hi 5, dos blogues, dos telemóveis, dos iPods e da fantástica revolução Magalhães (uma criança , um computador) para fazer com os alunos de hoje aprendam a fazer de Portugal um país melhor.

Só gente atrofiada, tecla 3 (def), pode julgar que a grande questão do ensino é um modelo rançoso de avaliação dos professores.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi publicada no Diário de Notícias

O garfo em que Sócrates foi apanhado

 

No xadrez, diz-se que ocorre um garfo quando um dos jogadores consegue colocar uma das suas peças a ameaçar duas peças do adversário.

 

Nesta situação, como só pode livrar de perigo uma das suas peças, o adversário é obrigado a sacrificar a outra.

 

No conflito entre os professores e Maria de Lurdes Rodrigues, José Sócrates deixou-se apanhar num garfo. O seu adversário, a Plataforma Sindical dos Professores, está a ameaçar um simultâneo o lugar da ministra da Educação e o ambiente de paz e trabalho nas escolas, que compete ao primeiro ministro garantir que exista.

 

Na sociedade do conhecimento em que vivemos, a mais importante riqueza das nações não reside nas reservas de ouro e divisas do banco central -  ou até em jazidas de petróleo ou diamantes -  mas sim no cérebro e formação dos seus cidadãos.

 

A radicalização do confronto entre professores e Governo não serve os interesses de um país em que há 120 mil alunos a chumbarem, todos os anos, no ensino básico, 17% dos estudantes do secundário são repetentes e 46% abandonam a escola no 12º ano.

 

Por isso, o primeiro ministro faz mal em deixar que o conflito entre professores e ministra da Educação esteja prestes a atingir (se é que já não atingiu) o ponto de não retorno.

 

Sócrates está coberto de razão quando diz que os professores têm de ser avaliados e que há muito oportunismo político (até tu, Manuela Ferreira Leite!?!) a tentar capitalizar a revolta liderada pela Plataforma Sindical.

 

Mas tem de reconhecer que a faúlha que incendiou toda a planície foi acendida pelos génios incompetentes do Ministério da Educação que acharam razoável tentar impor um sistema de avaliação que, no caso de um professor com nove turmas e 193 alunos, implica introduzir 17.377 registos no computador, fazer 1456 fotocópias e participar em 91 reuniões suplementares.

 

Ao ver 120 mil professores (80% da classe!) na rua, o primeiro ministro tinha a obrigação de tirar três conclusões.

 

A primeira, é que a estratégia de virar a população contra a corporação , com tão boas provas dadas noutros casos, não funcionou no caso dos professores.

 

A segunda é que, como se viu na novela nascida a propósito da sua licenciatura, a táctica de ficar quieto à espera que inche, desinche e passe não é uma solução que dê resultado em todos os casos .

 

A terceira é que é impossível fazer a urgente reforma do ensino contra a vontade dos professores.   

 

No xadrez, quando apanhado num garfo, o jogador sensato protege a mais forte das duas peças que estão em perigo. Depois, é imperativo que o jogador apanhado num garfo recupere a iniciativa – senão é certo que vai perder o jogo. 

 

O país ganhará se Sócrates seguir o conselho sábio dos grandes mestres do xadrez.

 

José Sócrates é um bom primeiro ministro, que se agiganta nos momentos de crise e não se deixa abater pelas contrariedades.

 

José Sócrates será um excelente primeiro ministro quando for capaz de distinguir a ténue barreira que separa a persistência (louvável) da teimosia (perniciosa).

 

Jorge Fiel

 

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

A manif dos profes e o Boris Becker

Sem o envolvimento activo dos professores é impossível reformar o sistema educativo

Tenho para mim que uma pessoa tem de se agarrar a sólidas normas orientadoras para se desembrulhar nesta vida, que está cada vez mais complicada.

Um dos princípios que sempre me norteou, sintetiza-se numa pequena frase: «Se queres ganhar ao Boris Becker não vás jogar ténis com ele».

Esta frase orientadora é filha directa da filosofia fundadora da guerrilha. Devemos evitar entrar em batalhas que à partida sabemos que vamos perder e, em alternativa, esforçar-nos por atrair o adversário para um terreno que nos seja favorável.

Vem esta história a propósito do braço de ferro entre professores e Governo, que a mega manifestação de sábado atirou para um beco que aparentemente não tem saída.

A peregrina ideia do PS de responder à impressionante demonstração de força e unidade dos professores através de um comício nacional de apoio a Sócrates, sábado, no Porto, equivale a uma vâ tentativa de ganhar ao Boris Becker desafiando-o para a medir forças num court de ténis. É uma atitude estúpida e suicidária.

Domingo, cem mil professores (a grande maioria num universo total de 140 mil) inundaram o centro de Lisboa, desfilando do Marquês até ao Terreiro do Paço.

É patético que o PS, que governa com maioria absoluta, escolha responder na rua à revolta dos professores.  Não é preciso ser um Einstein para adivinhar que o Governo ser goleado na comparação.

Alguém no aparelho do PS já deve ter percebido isso e , prudentemente, ordenou a transferência do local da manifestação da praça D. João I para o mais aconchegado pavilhão do Académico, que não será difícil de lotar pois é uma sala à medida da capacidade de mobilização do Bloco de Esquerda.

É à mesa e não na rua que o Governo pode ultrapassar esta crise. Mas para vencer, Sócrates tem de ter a humildade de perceber que não lhe basta ter razão e que avaliou mal a situação quando em Outubro declarou que não confundia professores com sindicatos.

O gigantesco esforço de democratização do ensino que se seguiu ao 25 de Abril já deu alguns frutos. Prova disso é o facto de, em 20 anos, a taxa de escolarização no secundário ter aumentado 50%. Mas ainda há muito longo caminho a percorrer . Os 17% de alunos repetentes no secundário estão dramaticamente longe demais dos aceitáveis 3,9% que constituem a média de repetentes neste escalão de ensino nos países da OCDE.

Os 120 mil alunos que chumbam anualmente no básico  e os 46% que abandonam a escola no 12º ano são números que gritam por uma urgente reforma do nosso sistema educativo.

Sócrates tem razão quando diz que não se pode adiar por muito mais tempo esta reforma. Mas tem de ter a lucidez de perceber que não a pode fazer contra a vontade dos professores, que são os principais intérpretes e a peça chave do sistema educativo.

A pífia remodelação de 29 de Janeiro retirou ao primeiro ministro a margem de manobra para deixar cair Maria de Lurdes Rodrigues. A única bóia de salvação que ele tem ao alcance  é agarrar-se à proposta de mediação apresentada por João Lobo Antunes,  o ex-mandatário nacional de Cavaco.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi publicada esta semana no diário económico oje (www.oje.pt)

 

 

 

 

"Googlem" a ministra


(Declaração prévia de interesses: a minha mulher é professora e cada vez que ve a ministra na TV sai-lhe um palavrão e muda o canal - e ela não faltya às aulas, tem reuniões infinitas de manhã à noite e imenso trabalho burocrático sem sentido, numa escola difícil onde não regateia esforços para ajudar alunos muito difíceis. Mas este texto nasce do Prós e Contras)

A ministra da Educação teve a sua "semana horribilis" e Sócrates e Cavaco tiveram que a vir socorrer na praça pública - mais a Confederação de Pais, que deve receber dinheiro do Ministério e não pode dizer muito mal.

Onde tudo começou foi na segunda-feira passada no Prós e Contras da RTP 1: numa plateia quase só com professores, ninguém conseguiu dizer bem da ministra - o melhor que se arranjou foi alguns não dizerem muito mal.

Esta ministra  tem feito erros graves, todos os dias, perante a complacencia dos media. Na segunda-feira ficou evidente (hoje há outro, com a sociedade civil, para dar melhor imagem da ministra, imagino...). No fim-de-semana o director do Diário de Notícias, João Marcelino, dizia que gostava da ministra só que ela andava depressa de mais para o país. Mais complacencia: as aulas de substituição são uma excelente ideia mal executada, o estatuto do aluno é mau (o tal em que não há faltas e quem não aparece às aulas tem direito a mais um exame...), o da gestão da escola é voltar ao antigamento (o director que manda) e o da avaliação é inexequível. Já agora: quando se diz que "nas empresas é assim" quanto à avaliação, é uma grande mentira: nunca fui avaliado em nenhuma empresa (Notícias, Público, Record, Correio da Manhã) por 14 items de dois em dois anos. Alguém tem teoria para isto? É absurdo em qualquer empresa e absurdo no Estado. É absurdo em qualquer organização.

Acontece que a ministra está preocupada com duas coisas: com os números do Eurostat de reprovações, o que é bom; e com  o dinheiro, o que também não é mau, só que  ela não o admite (como não o admitiu Correia de Campos...). Acontece que em qualquer delas não tem nada para dar aos professores - e a avaliação é sobretudo para acabar com progressões na carreira, muitas delas de facto não fazendo sentido. Enquanto este Governo não deixar de colocar o aluno no centro de tudo - e era o saber que devia ser o centro de tudo - a coisa não vai ficar boa. (Googlem as imagens e textos sobre a ministra e vejam a popularidade - o que vos deixo é do
castelosnoar.com/cna_blog/page/3/...) Os professores são sempre a terceira prioridade, a política da ministra só tem bastão e nenhuma cenoura e eles já não aguentam. Sobretudo agora que aquilo que muitos diziam já começa a ter que ser admitido pelos media. E pelo primeiro-ministro.

Manuel Queiroz  


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