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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

É preciso parar de construir

A CONSTRUÇÃO na periferia de estradas, escolas, hospitais e centros comerciais fez com que as duas mais importantes áreas metropolitanas do país passassem a ser aglomerados policêntricos

As 350 mil casas que estão à venda demorariam três anos a escoar se, no entretanto, as imobiliárias não continuassem a encharcar o mercado com mais oferta (a fileira da construção tem uma velocidade de travagem em tudo idêntica à dos superpetroleiros) - e se o ritmo das vendas se mantivesse igual ao de 2010, o que é altamente improvável, pois, para ressuscitar o arrendamento, a troika impôs medidas que penalizam a propriedade e a banca passou da fase em que andava atrás de nós para nos emprestar dinheiro para a de andar atrás do nosso dinheiro.

Não é preciso ser um Einstein para perceber que já terminou o tempo em que as áreas metropolitanas do Porto e Lisboa cresceram anarquicamente como manchas de azeite, fazendo a fortuna de empreiteiros habilidosos e o upgrade de patos-bravos. Agora é preciso parar de construir e passar a reabilitar.

Um país com a dívida soberana classificada como lixo não se pode dar ao luxo de ter um milhão de habitações a precisar de obras e 100 mil milhões de euros empatados em casas vazias. No coração do Porto há 15 mil edifícios a cair. Do total de 55 350 edifícios existentes em Lisboa, 4618 (8%) estão abandonados e 7700 ameaçam ruir.

Face a esta situação é impossível não achar estranho que, apesar do programa de obras no Parque Escolar promovido pelo Governo Sócrates, a reabilitação pese menos de 7% no nosso mercado construção, quando em Espanha vale 29% e a média europeia é de 36%. Requalificar, reordenar e reabilitar são as soluções para desatar o nó complexo que nos impede de progredir.

Após o 25 de Abril, as cidades portuguesas cresceram de uma forma caótica e desordenada. O congelamento das rendas, decretado no Estado Novo e mantido pela jovem democracia, teve o efeito perverso de ser o pai de uma explosão desordenada e difusa das periferias de Lisboa e Porto.

Favorecidas pelo forte aumento do poder de compra, democratização do automóvel e multiplicação de vias rápidas e auto-estradas, as periferias das grandes cidades esvaziaram os centros urbanos tradicionais, assumindo o papel de poderoso imã que atraiu dezenas de milhares de jovens casais.

A construção na periferia de estradas, escolas, hospitais e centros comerciais, para servir as populações em movimento, fez com que as duas mais importantes áreas metropolitanas portuguesas passassem a ser aglomerados urbanos policêntricos.

A desertificação dos centros cívicos e os movimentos centrífugos dos últimos 30 anos têm de ser contrariados por um esforço de ressurgimento dos centros históricos, criando condições para que eles voltem a ser habitados e tenham uma vida activa para além das horas de expediente dos serviços.

Este esforço centrípeto é essencial para manter o Porto como um destino «trendy» para os turistas estrangeiros e para que seja restabelecido o equilíbrio ecológico na malha urbana.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 

O homem que precisava de uma janela

Para ter mais luz em casa, queria abrir uma nova janela para a rua, mas como vivia num prédio no centro histórico não ousava fazê-lo sem a prévia (e improvável) autorização camarária.

Emboscado nesta variante imobiliária do humor boomerang de Groucho Marx (“não posso ser sócio de um clube que me aceite como sócio”), matutou no assunto, repetindo o mantra de quanto mais complexo é o problema, mais simples é a solução. O que é preciso é pensar fora do quadrado.

Há mais de 80 anos, Alves dos Reis, antes de se celebrizar por ter mandado imprimir notas falsas verdadeiras de 500 escudos, resolveu o problema da interrupção dos seus estudos, provocado pela falência do negócio de cangalheiro do pai, falsificando um diploma em Engenharia por um inexistente Politécnico de Oxford – que destruiu logo após ter obtido uma cópia autenticada (e por isso oficial) do documento num cartório de Sintra.

O homem que precisava de uma janela escreveu uma carta ao competente departamento camarário, solicitando autorização para entaipar uma janela (inexistente), argumentando que ela o incomodava sobremaneira.

A pretensão foi liminarmente indeferida, com ameaça de retaliações se ele ousasse tapar, à margem da lei, uma janela inexistente – e que por vias deste artifício passou a ter existência legal.

Esta história, que me foi contada como verídica pelo meu amigo Henrique (nome fictício), ilustra duas verdades de sangue: 1. O velho Einstein tinha razão quando avisou que a imaginação é ainda mais importante que o conhecimento; 2. O licenciamento de obras nos centros históricos rege-se por regulamentos paranoicamente cegos e imobilistas.

Vem esta história a propósito do Porto e Lisboa terem crescido como manchas de azeite e agora ser mais adequado reciclar. É preciso parar de construir e passar a reabilitar.

O país não se pode dar ao luxo de ter um milhão de habitações a precisarem de obras e 100 mil milhões de euros empatados em casas vazias. No coração do Porto há 15 mil edifícios a cair e na sua área metropolitana há 160 mil habitações à venda (contra 66 mil em 2007) e um stock de 800 mil m2 de escritórios, que ao ritmo actual demorarão 50 anos a escoar (em 2009 foram vendidos 16 mil m2). Do total de 55.350 edifícios existentes em Lisboa, 4.618 (8%) estão abandonados e 7.700 ameaçam ruir.

Em face a esta situação é impossível não achar estranho que, apesar das obras no Parque Escolar, a reabilitação pese menos de 7% no nosso mercado português de construção, quando em Espanha vale 29% e a média europeia é de 36%. Requalificar, reordenar e reabilitar são as soluções para desatar o nó complexo que nos impede de progredir.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

O Porto está a cair aos bocados

Há seis mil casas em risco de ruir na cidade do Porto.

A Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo está a intervir em 38 quarteirões, mas em diferentes fases de execução.

Há 520 edifícios com contratos já aprovados, mas apenas 107 assinados.

No conjunto, há 75 prédios em obra, o que é muito pouco quando pensamos que há seis mil que estão a cair.

Para o Porto começar mesmo a levantar a cabeça é preciso meter o turbo e aproveitar os novos instrumentos legais para fazer da reabilitação urbana a primeira das prioridades da acção camarária.

Um programa ousado de reabilitação urbana teria um impacto económico não negligenciável, na justa medida em que absorveria parte dos 39 mil operários da construção civil que estão desempregados na região.

Não podemos deixar o Porto continuar a cair aos bocados.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

 

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