Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Relvas fez sexo com 13 anos?

Um amigo de Miguel Relvas encontra-o a jantar sozinho num restaurante e pergunta-lhe: "Então pá, estás a comer sozinho?". Ao que o ministro lhe responde: "Nãooooo, estou no meu jantar de curso". Esta é provavelmente a melhor anedota que recebi a propósito da turbolicenciatura. E só tive a cautela de escrever provavelmente porque também adoro aquela em que ele nos faz uma confidência: "Tive relações sexuais pela primeira vez aos 13 anos! Bem, na verdade só me masturbei, mas deram-me a equivalência".

Neste intervalo entre o final de um Euro que nos correu bem melhor do que esperávamos e as férias de verão, os desenvolvimentos picarescos da licenciatura de Relvas e a novela da contratação de Rojo pelo Benfica (e de mais uns 70 jogadores que vão desfilando pela capa dos desportivos como seus prováveis reforços) chegavam e sobravam para nos entreter até chegar a hora de irmos para a praia apanhar sol e dar uns mergulhos. Não era preciso o pessoal do Tribunal Constitucional (TC) ter-se incomodado em arranjar animação suplementar.

Eu até sou capaz de perceber que os juízes do Constitucional andassem chateados por lhes terem sacado o 13.o mês e o subsídio de férias.

Pondo-me no lugar deles, também teria ficado muito aborrecido com a degradação de imagem do tribunal provocada pela forma desajeitada como os partidos cozinharam as listas de candidatos à eleição de novos juízes pelo Parlamento, uma trapalhada que esteve meses em cartaz.

Os juízes do TC estavam mesmo precisados de fazer uma prova de vida e uma demonstração de poder - e não resistiram a esta oportunidade, apesar de se exporem à crítica de que julgaram em causa própria, já que são funcionários públicos e por isso parte interessada na matéria de saber se é ou não constitucional privar dos subsídios apenas os empregados do Estado.

Ainda não consegui entender por que é que temos tantos tribunais (Supremo Tribunal de Justiça, Tribunal Constitucional, Supremo Tribunal Administrativo, Tribunal de Contas e por aí adiante) e até desconfio que a inevitável compressão das despesas públicas passará pela supressão de alguns deles.

Mas ser capaz de compreender por que é que os juízes do Constitucional deram um murro na mesa não significa apoiar (antes pelo contrário) a decisão que obriga Vítor Gaspar a desencantar mais uns dois mil milhões de euros de receitas para o Orçamento de 2013.

Para compensar o ministro das Finanças e a generalidade dos contribuintes da maçada que lhe causaram, os juízes do TC brilhariam a grande altura se declarassem inconstitucionais os contratos ruinosos das parcerias público-privadas.

Não frequentei o curso de Direito (um dos vários em que parece que o camarada Relvas esteve inscrito), mas estou convencido que acordos secretos com os concessionários, para driblar o Tribunal de Contas, e contratos em que o risco é todo assumido pelo Estado, devem violar alguma coisa na Constituição.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

A minha mãe merece um canudo

Quando era miúdo, eu era uma peste. Logo nos primeiros dias, na Maternidade Júlio Dinis, berrava tanto e portava-me tão mal que enfermeiras e auxiliares diziam que eu era pior que o Jaburu, o que suponho era uma alusão ao temperamento irascível do homónimo avançado do F.C. Porto.

Cresci a ouvir que, às vezes, eu era pior que o tio Nica, que não conheci mas era o padrão de excelência nos domínios da maldade para a minha família do lado materno.

Com a paciência de quem, para suavizar os finais do mês lá em casa, confecionava as asas que os anjos usavam nas procissões (colando e cosendo penas brancas em moldes de papelão), a minha mãe foi-me aturando as birras e arredondando as arestas do meu feitio.

Em 1975, com 19 anos, preparava--me para deixar os estudos, após um ano de experiência fracassada no ISPA, em Lisboa, quando a minha mãe me convenceu a matricular-me em História (UP), com o argumento de que o canudo me iria ser sempre muito útil.

Foi por mérito dela que a intensa participação cívica que mantive, antes e depois do restabelecimento da democracia, não se revelou incompatível com as obrigações académicas, como sucedeu, por exemplo, com Miguel Relvas.

O meu curso teve um desfecho curioso. Nas férias grandes a seguir a ter passado para o 5.0 ano, fui surpreendido pela notícia de que a sua duração tinha minguado para quatro anos. Ainda me interroguei sobre se já estaria licenciado. Mas não. Foi providenciada uma época intercalar em janeiro para os do meu ano poderem acabar o curso sem serem apanhados pelos do ano anterior.

Não pensem que estou aborrecido por ter sido obrigado a gastar quatro anos e meio - e a fazer exames a todas as disciplinas - para ter o canudo, enquanto o Miguel Relvas resolveu o assunto num ano, na Lusófona (grande Universidade!), e o José Sócrates num par deles, na Independente (outra grandíssima Universidade).

Eu compreendo. O Relvas, além de já ter sido secretário de Estado da Administração Interna, já frequentara três cursos (Direito, Relações Internacionais e História) e cometera a proeza de completar com dez valores um cadeirão (Ciência Política e Direito Constitucional). E não nos esqueçamos que, apesar de já ter sido ministro do Ambiente, Sócrates ainda foi obrigado a marrar para o exame de Inglês Técnico.

Eu compreendo o Miguel e o Zé, apanhados sem curso a subirem na política, com toda a gente a tratá-los por doutores e engenheiros - e eles, com medo de passarem por impostores, resolverem conceder-se uma nova oportunidade e arranjarem à pressa um canudo.

Compreendo o charme de ser doutor - é por isso que trato todos os meus colegas por doutores. Só acho que a paciência com que a minha mãe me aturou e a sabedoria com que fez de mim um homem justificam plenamente que lhe atribuam, a titulo póstumo, uma licenciatura, em Ciências Pedagógico-Educativas e Teoria do Comportamento. Vou já tratar de descobrir se tenho um amigo na Lusófona, Independente ou Livre.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D